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História

Sonhos realizados e vivendo pleno em Sete Barras

História de: Antônio de Jesus Oliveira
Autor: Ana Paula
Publicado em: 04/06/2021

Sinopse

Sete Barras é sua cidade de origem, referência e vida. Viu a cidade se emancipar e ajudou a construir a igreja. Ali estudou, trabalhou com agricultura familiar, mas foi em Campinas que aprendeu o ofício de sapateiro. Casou, teve seis filhos e se aposentou. Antônio de Jesus Oliveira se diz realizado e agora só quer pescar de vara nas margens do rio da sua cidade.

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História completa

P/1 – Seu Antônio, o senhor pode falar seu nome completo, local e data de nascimento? R – Antônio de Jesus Oliveira. A data de nascimento? 31 de julho de 1941. P/1 – Em que local o senhor nasceu? R – Aqui mesmo… P/1 – Sete Barras? R – Aqui mesmo em Sete Barras. P/1 – A sua família veio de onde? Seus pais? R – Tudo nato daqui. P/1 – Eles já eram de Sete Barras? R – Tudo... daqui. Daqui a raiz. P/1 – Chama como antes? R – Aqui já… pra mim já… eu tenho assim… desde os meus tataravós são daqui, né? Meus bisavós, avós… todos nascidos e criados aqui mesmo no Vale do Ribeira, principalmente aqui no município de Sete Barras, que antes não era como é hoje, né? P/1 – O senhor lembra da casa do senhor de infância aqui, como é que era? R – Lembro. P/1 – Como é que era? R – Olha, a casa… a gente tinha até um pouquinho… que a maioria das casas aqui era tudo isso, né, a maioria era tudo sapé e pau a pique, rústico mesmo, mas a da gente já era casa feita de tijolos, e de telhas, enfim, já era umas casinhas até mais ou menos, na minha época… E era difícil. Mas então, a casa que eu morei, que eu nasci, foi uma casinha até mais ou menos, mas isso era muito difícil, quem tinha na época casas boas, assim.. até eu nasci aqui, ô.. daqui a um quilômetro e… 1200 metros mais ou menos daqui… Então a minha infância foi direto aqui mesmo na vila. P/1 – O senhor lembra das suas brincadeiras de infância? Como é que eram? R – Brincadeira de infância... Convivi com os colegas de escola da época, porque no sítio o brinquedinho era coisinha mínima, porque nem tinha mesmo brinquedo, a gente fazia carrinhos, fazia… pra fazer aquelas brincadeiras, então a gente mesmo fazia. Agora aqui dentro da praça, aqui a gente já brincava de pipa, pião, bolinha de gude, enfim, era brincadeira normal mesmo de todas as crianças, não só da época como de hoje em dia também. Então foi isso aí.. P/1 – Com quantos anos o senhor entrou na escola? R – Entrei com 6 anos. P/1 – Como é que era a escola? Como é que o senhor ia? R – Olha, a gente morava aqui… nasci aqui, né, aqui em cima como eu falei, mas só que meu avô morava na beira do rio, e da beira do rio pra vir na escola era uns 500 metros mais ou menos, da casa do meu avô pra vir na primeira escola que eu estudei. Então umas duas ou três vezes minha mãe me trouxe na escola e depois já vim sozinho… que era na beira do rio também a escolinha, tinha uma ou duas salinhas só de aula. Depois fiz o primeiro ano nessa primeira sala, depois fui passado para outra… tinha três ou quatro salas adiante, era pertinho, também lá beira do rio, aonde tinha as salas, tinha três salas de aula e a cadeirinha também. Então foi ali e depois visto daqui, essa casa que tem aqui, tinha uma sala, que lá começou a cair o forro, foi preciso correr pra cá; as três salas, uma ficou aqui, outra ficou ali, naquela casa verde ali, tinha uma sala e outra aqui em frente, pegamos o terceiro ano. Agora o quarto ano já foi no grupo escolar… o Plácido, e aí foi… até agora, há pouco tempo, tinha umas árvores na frente, que numa festa da árvore, eu plantei uma árvore dessas aí, parece… uma imensidão que tinha na frente foi cortada, me cortou o coração, fui eu que plantei, em uma festa da árvore. Então o grupo aí foi o final, aí tirei o meu diploma e… foi isso aí [risos]. P/1 – Como é que era Sete Barras naquela época? R – Sete Barras… era só na beira do rio, onde era a balsa, então ali Sete Barras era tudo ali [som de caminhão passando] [tosse]. P/1 – Oi? Peraí, passou um caminhão e eu não escutei. Sete Barras era só na beira do rio? R – Era na beira do rio, onde era a balsa. Então ali que tinha o comércio, o maior comércio, tinha três ou quatro comércios grandes, tinha uns três ou quatro comércios, tinha o porto onde era o porto de um vapor. Na minha época pra trás, era o porto do vapor mesmo que eles chamavam, depois passou para o porto da lancha e aí começaram as lanchas. Foi aí também que começou a saída de banana e coisa… movimento de banana, aqui na ribeira tinha acho que de 15 a 20 lanchas que puxavam banana pra Juquiá e ia pra Santos, de Santos ia pra Argentina e ia pra outros… P/1 – Transportava banana pra onde? R – Daqui do Vale do Ribeira pra Juquiá, de Juquiá ia pra Santos, né, então de Santos aí era exportada pra Argentina principalmente. P/1 – Como é que era esse porto? O porto a vapor que que era? Qual a diferença do porto a vapor pro porto de lancha? R – Não, era a mesma coisa… era um porto simples, não tinha, como hoje tem, o cais, assim, o píer, não tinha nada disso, era porto simples, só encostam e alí era jogada uma prancha do vapor.. da lancha em terra e o pessoal transitava na prancha. P/1 – Mas aí na prancha o que que ia? Só banana ou era transporte de pessoas? R – De pessoas também, o vapor principalmente transportava… principalmente o arroz por aqui em Sete Barras, principalmente. Foi a capital mundial do arroz tipo exportação. P/1 – Então transportava pessoas e produtos, principalmente arroz e banana? R – Não, a banana esse já foi a lancha, as lanchas que transportavam banana porque o vapor, ele transportava, era pra transporte de pessoas e, principalmente arroz, que na época era o auge, foi o auge… o vapor foi o auge do arroz. E depois, em seguida, começou a lancha. Aí a lancha foi mais, foi 100%… P/1 – Banana. R – ...100% do movimento de lancha foi banana. P/1 – E a vapor também transportava pessoas? R – É, transporte de pessoas. P/1 – As pessoas iam pra onde daqui? R – De Eldorado a Iguape. P/1 – Entendi. E o senhor começou a trabalhar com quantos anos? R – No sítio principalmente, no sítio com… o certo mesmo, porque sempre quando a gente ia no sítio (som de moto ao fundo)...e aí a gente tinha um terreno aqui a oito quilômetros aqui abaixo, onde moravam os meus avós paternos, moravam a oito quilômetros daqui.Meu pai é lavrador mesmo e aí já começou a mexer com banana, plantar banana. Então nas férias que ia pra lá dava uma mão pra ele; aí com 7, 8 anos a gente já trabalhava, fazia alguma coisinha, né. Agora, o forte mesmo foi depois que eu peguei o diploma, com 14 anos, né, 14 anos e aí foi até me casar, foi com 21 anos. P/1 – “Cê” trabalhou… R – Aí na lavou... aí com a banana… P/1 – Você fazia o que na lavoura? R – ...banana. P/1 – Plantava, colhia? R – Plantava, colhia, plantava feijão, arroz, milho.. P/1 – Mas na do seu pai ou já era sua? R – Não, do meu pai. Que a gente trabalhava tudo… que na época ninguém tinha assim… trabalhava “esse é meu, esse é meu”, não, todo mundo… a família trabalhava pro pai. O pai é que dava o dinheiro ali, dava tudo pra família, né, não era igual hoje que os filhos chegam numa época… em uma certa idade já se desgarram tudo. Naquela época não, saiam de dentro de casa casados, então… quase que aconteceu comigo, porque eu saí de dentro de casa, bem dizer, casado, né, tanto eu como meu irmão… foi isso aí, mas... aí depois, aí peguei firme mesmo até me casar. Depois que eu me casei, aí inventei de pegar uma profissão, fui pra Campinas; foi lá que eu aprendi a profissão de sapateiro, montador, e comecei a trabalhar e me aposentei… P/1 – Mas você foi aprender essa profissão em Campinas? R – Em Campinas. P/1 – Por que Campinas? R – É que lá.. lá tinha um… era uma parte que tinha um colégio interno, que era os irmãos leigos que comandavam. Lá tinha tudo pra quem entrasse lá, aquele que tinha vocação pra mais tarde ser um irmão leigo, tudo bem, agora quem não tinha, a profissão alí era o que quisesse, o que pensasse na vida ali dentro tinha tudo, ali tinha o que quisesse trabalhar, e foi a única que eu tinha ideia, que eu já fui com ela daqui foi ser sapateiro, e deu certo, que tinha uma pessoa… Até foi um que foi entrevistado aqui João Martini, ele é meu parente, o João Martini, o irmão dele que me ensinou a montagem do sapato. P/1 – Mas aí o senhor não pensou em ir pra outro lugar fazer isso ou o senhor queria ser sapateiro aqui em Sete Barras? R – Queria ser sapateiro aqui mesmo. P/1 – Aí o senhor abriu uma sapataria? R – Abrí a sapataria… P/1 – Aonde? R – Em casa mesmo, aqui na avenida, aqui há uns 200 metros aqui pra frente… E aí fui direto, 38 anos dessa luta [risos]. P/1 – O senhor sabe poderia me contar algum fato marcante que aconteceu com o senhor aqui na cidade, um causo, alguns causos, alguma história que valha a pena ser registrada? R – Olha, uma coisa que me marcou, não só a mim, como a toda a população da época, que conviveram assim diretamente… era uma coisa que nunca tinha visto, nunca tinha visto mesmo: o primeiro crime de morte aqui em Sete Barras. P/1 – Quando foi? R – Aí, esse aí foi 1950, acho que foi 1953 pra 1954, uma coisa assim... P/1 – Como é que foi? R –… Que esse eu cheguei a ver, esse eu estava perto, eu estava, assim, do lado da rua, de frente onde aconteceu o problema. É que aqui tinha um senhor que tinha vindo de Santos, era até um português, o seu Antônio, português, ele era casado com a japonesa, e eles vieram aqui pra Sete Barras e gostaram demais na época. Abriram um restaurantezinho, bar-restaurante-hotel, e nesse meio tempo, foi um final de ano, foi antes do Natal, um pouquinho antes do Natal… E viam lá de Itu, essa que eu tô falando, a cidade de Itu, aqui em cima, de lá de Itu… E eles entregavam o café, até o Café Ituano, chegaram aqui, que sempre eles vinham, quando eles vinham dormiam no hotel deles. Eles chegaram . Aí tinha uma menina, uma mocinha, essa mocinha, muito linda ela, era uma das meninas mais lindas da época aqui de Sete Barras foi ela… P/1 – Mas ela o que, trabalhava no café? Ela trabalhava, a menina? R – No restaurante, ajudava o pai, né, ajudava o pai a arrumar o hotel, a limpeza, enfim tudo, porque eles eram em três irmãs uma coisa assim… E ela era muito aconchegante, a menina, fora de série, e ela foi arrumar a cama, o quarto deles, do motorista e o rapaz que acompanhava ele. O ajudante, não sei o que foi lá, ninguém sabe falar porque ninguém viu, não tinha prova… Parece que ele falou umas palavras meio pesadas pra menina, ela correu. No que ela correu, ele puxou o revólver e atirou pelas costas dela, e esse eu vi. P/1 – Mas eu não entendi, a menina tava no restaurante? R – Tava.. Ela foi arrumar o quarto, pro motorista e pro ajudante que iam dormir lá no quarto, então ela foi arrumar, deixar tudo arrumado pra chegar a noite eles irem descansar, dormir, e nessa... conversa meio fiada que ele falou pra ela, ela saiu, correu, e ele atirou, e aí eu com um outro colega que tava num barzinho na frente da casa, só vimos quando ela saiu correndo, bateu o pé assim na entrada do barzinho deles… Então, ela passava por fora da rua, bateu o pé e caiu, e já caiu morta… só gritou “Pai, me mataram”. Aí foi aquele desespero, e foi aquela barbaridade, então isso aí é uma coisa que pra mim me marcou demais, porque foi uma coisa que eu nunca… a gente escutava falar “aconteceu lá”, mas até chegar esse acontecimento pra nós, aqui não é assim… E a gente chegar a ver na hora, assim um crime daquele monstruoso. Além de matar a menina, ele correu pelo fundo, que ainda tem o lugar tudo certinho ali, só que hoje tá diferente, que hoje é tudo casa, né, mas ele correu era brejo, lugar pantanoso, e correu, com 200 metros, afundou… ficou só a (garganta), o corpo foi tudo, enterrou na lama e ele tava com o revólver ainda na mão, quando foi lá pra… aí veio… até vir polícia de Registro pra aqui ... você vê na época... que aqui não tinha… tinha “dois policiazinha” só, um ficava de farda e o outro ficava dormindo porque não tinha o que fazer, então preciso vir de Registro, que também não tinha polícia, também não tinha nada, foi preciso pegar uns policiais dos outros municípios pra vir… chegaram aqui era duas e meia, três horas da manhã que chegaram aqui, pra ver se pegava o cara. Aí só… não foi lá pra uma hora por aí, assim, da manhã, só foi escutado o estampido do tiro… P/1 – Nossa! R – E ele se matou lá no meio da lama. Então isso aí pra nós aqui foi um dessa época em diante… que aqui também não tinha ninguém aqui de fora, era um povo pacato, porque era o povo nato, só o povo daqui, era difícil… Falava a pessoa: “Você é um mineiro,” “Eu sou mineiro,” “Eu sou um baiano”, “Eu sou um sergipano,” “Eu sou um…”; eu sei lá, não tinha, não tinha mesmo. Eu cheguei a conhecer o primeiro pau de arara que chegou aqui com o pessoal da Bahia, eu conheci os primeiros baianos que chegaram… que até tem uns aí que é muito meus amigos, que vieram dessa época, da Bahia pra cá, né, e por causa do movimento da banana, que a banana tava aquele fogo de preço e a turmada plantando muita banana e não tinha mão de obra aqui também. Então era preciso trazer, e depois deles, dos baianos, aí vieram os mineiros, aí teve uns japoneses aqui… que aí já tinha fazenda de bananas. P/1 – Mas primeiro vieram os baianos antes dos japoneses? R – Os baianos… não... os japoneses já foram do tempo da colônia, esse aí já foi da época da guerra, né,1930 parece que começou a chegar… P/1 – Mas baianos vieram pra plantação de banana no que, nos anos 1950? R – É foi nessa época… na década de 1950, foi na década de 1950… P/1 – Como que é o nome desse primeiro baiano que veio pra cá? R – Pidú. P/1 – Pidú? R – Pidú. É o seu Pidú. P/1 – Ele foi o primeiro a chegar aqui? R – Foi o primeiro chegar, e foi ele que começou a trazer a população nordestina pra cá, principalmente a baiana foi ele. Aí depois por intermédio deles, aí que começou a vir o sergipano, pernambucano, enfim… e depois, os japoneses… um dos fazendeiros, que é o Magario, ele que trouxe os primeiros mineiros. P/1 – Ah, porque primeiro vieram os baianos, depois é que vieram os mineiros… R – Depois que aí esse japonês trouxe os mineiros, começou a trazer os mineiros, e aí começou o município começou a crescer, a população, né, tanto aqui dentro da praça como fora, nos bairros, foram crescendo e chegando muita gente… P/1 – Quais são as festas mais antigas que o senhor lembra aqui da cidade? R – As festas antigas eram duas, eram duas festas: a São João Batista, que é o padroeiro… P/1 – Padroeiro da cidade é São João Batista? R – É São João Batista. E a outra igrejinha lá em cima… Você chegou a ver aquela igrejinha lá e cima… P/1 – Cheguei, quando eu cheguei na cidade. R –...Lá na prefeitura, ali. Então, aquela ali… não é a primeira, já é a segunda, que a primeira era ali na prefeitura, ali no lado da prefeitura... P/1 – Entendi. R –…já era uma capelinha que tinha. Depois foi desmontada e construída aquela, que aquela foi tudo a minha família que construiu, aquela igrejinha ali, de São Benedito, né, aquele foi meus avós, meus tios, enfim… pessoal… P/1 – E como era essa festa do padroeiro? R – Aqui era uma semana de festa, tanto do São João, como lá era do Espírito Santo, era São Benedito, mas era festa do Espírito Santo que faziam a festa, sempre era uma semana de festa, e aqui vinha o pessoal aqui do sítio, que morava só pela beira do rio… porque não tinha estrada em canto nenhum, aqui não existia estrada, era só o rio. Então quem morava por perto vinha de cavalo, quem morava de… tanto pra baixo como pra cima, aqui de divisa de Eldorado com Registro, canoas… então ali a família vinha, as famílias… como aqui em casa, depois a gente… viemos morar aqui, que saímos do sítio, meu avô vendeu o sítio e comprou uma propriedade aqui e aí viemos todos morar aqui, aqui na praça. Então meus avós e meus tios que moravam a oito quilômetros aqui embaixo, eles tinham duas canoas, duas canoas grandes, ali traziam lenha porque na época não tinha fogão, não tinha gás. Quem que falava em gás e essas coisas na época? Era lenha, tudo fogão a lenha. Ali eles enchiam… traziam tudo… era mistura, café… P/1 – Mas o que que tinha na festa do padroeiro, assim…? O que acontecia nessa semana? R - Nessa semana? Era quermesse, tinha as rezas, como terço, principalmente porque só padre chegava aqui uma vez ou outra, enfim, só vinha três vezes padre, de Santos. Aí é que vinha aqui em Sete Barras, que era no padroeiro, no São João, 15 de agosto, que era a festa lá da igrejinha ali em cima... P/1 – Festa do padroeiro que é o… R – É o São João. P/1 – Não, como que é o nome do padroeiro mesmo? R – São João, São João Batista. P/1 – Ele vinha na festa do padroeiro, do São João Batista, quando mais? R –Lá do São Benedito, era tudo lá, né, era tudo lá… P/1 – São João Batista, São Benedito e qual o outro? R – A igreja é chamada de São Benedito, mas não tinha nada a ver com São Benedito; lá é o Espírito Santo, e é a festa do Espírito Santo, que era as duas maiores festas aqui, que isso rolava aí uma semana de festa mesmo. Agora, no último dia, no último dia da festa, aí vinha um padre de Santos pra fazer o encerramento da festa, porque antes era feita a festa, mas só com terços, assim, com culto, né. Dependia tudo dos padres que vinham de Santos, que a dificuldade não era brincadeira, pra vir de Santos aqui [risos]. P/1 – Ah, era uma viagem, né? R – Era tudo por água, a maior parte era tudo… tinha que vir por água. P/1 – Mas ele vinha pelo vapor? R – Eu acho que ele chegava a vir de vapor, sim, porque depois, já que eu tava com meus 14, 15 anos por aí, assim, meus 13, 14, 15 anos, aí já tinha condução, aí já tinha que vir… vinha de Juquiá até Santos até Juquiá de trem, de Juquiá vinha pra Registro, já vinha de ônibus, né, ou a jardineira ou de ônibus, acho que era jardineira, e de Registro pra cá, de ônibus que já tinha começado na época, a linha de ônibus. Até então, a maioria das conduções era tudo por água mesmo, não tinha como… não tinha estrada pra canto nenhum, como hoje é tudo cheio… o município aqui mesmo, tem acho que... tem umas 20 estradas boas que vai pra esse sertão a fora, por todo canto aí… naquela época não tinha nada, nada, nada… ou era cavalo ou canoa. P/1 – O senhor viu o movimento de emancipação? R – Vi, vi, vi... P/1 – Participou dele? R – Participei, meu Deus… P/1 – Como que foi? R – Olha, foi porque naquela época… era um movimento político, como hoje mesmo que faz aquele movimento ali e ia participar o povo, né. Então foi isso aí, só que é uma coisa muito bacana porque a gente se viu livre de Registro, né, liberto , porque aqui era comandado por Registro, além de ser uma festa, foi dobrada porque o povo ficava tudo eufórico. O seu Sebastião Madalena que foi o primeiro prefeito, ele foi o primeiro prefeito e foi ele o pai mesmo aqui de Sete Barras, porque ele trabalhou em prol daqui, senão fosse ele, porque ele batalhou mesmo, além dele ser filho daqui também, ele batalhou muito pelo município. Então foi isso aí, mas foi um movimento fora de série, viu? P/1 – Seu Antônio, quais são seus maiores sonhos hoje? R – Olha, o meu sonho que eu posso falar pra vocês… sabe o que que é? É ver minha família realizada como estão, graças a Deus, viu, que no martelo eu criei seis filhos, cinco meninas e um rapazinho… um rapaz, e graças a Deus tão tudo bem, tudo encaminhado e era um sonho que eu… um dos maiores sonhos que era gente queria era isso e chegou. Para mim, esse sonho realizado foi isso, agora que daqui pra frente, meu sonho maior é passar o restante do tempo, na beira do rio, aí, com a varinha pescando… P/1 – Ah, que delícia. R –…que outra coisa a gente não tem, aquela uma de, né... e graças a Deus, a gente deve tudo a Deus, é isso [risos]... P/1 – O que que o senhor achou desse projeto, dessa experiência de contar sua história aqui num projeto como esse? R – Não, essa é uma experiência… meu Deus! Coisa linda, linda, meu Deus, fora de série pra nós que vivemos até agora pouco tempo. Até pouco tempo se falava que Sete Barras não existia, falava em Sete Barras… a gente ia ali em São Paulo, falava em Sete Barras: “Onde fica Sete Barras?”, até a gente contar, explicar, e tudo certinho, assim mesmo ainda a pessoa ficava em dúvida, “Mas será que existe mesmo essa… Sete Barras?”Então pra gente, por um ponto de referência, aí a gente começou a falar Registro, Iguape, porque Iguape e Cananéia são as cidades aqui do vale, como você bem sabe que são… Iguape e Cananéia a mais antiga no Brasil, são as duas, falam que é São Vicente, mas é Cananéia... P/1 – Você acha que esse projeto pode ajudar… R – Nossa, meu Deus! E como! Meu Deus, é uma coisa maravilhosa, viu, isso aí pra nós… pra nós que nos víamos aqui um joão-ninguém aqui, pra gente chegar… só que de uns anos pra cá aí, de uns 10,15 anos pra cá, Sete Barras já… graças a Deus… saiu muita gente boa daqui, muita gente que saiu daqui foi pra São Paulo, foi pra Curitiba, espalharam… então, de lá eles começaram a trazer pessoal de fora também, porque hoje 60% da população de Sete Barras… 60% ou mais é tudo pessoal de São Paulo. Você entra aqui a 10, 15, 20 quilômetros aqui dentro do município de lado a lado, de norte a sul, de leste a oeste é… nos bairros, é tudo chácaras de pessoal de dinheiro que mora aqui, viu, aqui tem pousada muito bacana. Aqui nesse fundo, aonde que era tudo selva, era tudo mata, hoje tem pousada daqui a 20 quilômetros aí, uma pousada, a coisa mais linda do mundo… Embaixo do sertão, a água vem da serra, aquela coisa mais maravilhosa… então, o pessoal de fora, que hoje você chega em São Paulo falando em Sete Barras, todo mundo, a maioria conhece, e a gente dá graças por esse motivo e isso aqui que nem se fala, isso aqui que nem se fala, olha… principalmente eu, achasse isso aqui é assim um negócio meio fajuto… Eu vou perder meu tempo? Não, vamos “dá” uma mão… meu Deus... P/1 – Que bom. R –...Puxa vida… e a gente fica agradecido mesmo por vocês também estarem se esforçando por nós aqui, viu? P/1 – Nossa, seu Antônio, muito obrigado pelo seu depoimento. R – Puxa vida [risos] eu que agradeço mesmo, de coração, viu, eu que agradeço de coração. --- FIM DA ENTREVISTA ---
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