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Sonhos azuis

História de: Odenizia Andrade Dourado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Nascida em São Paulo em 1950, Odenizia Andrade Dourado aprendeu com os pais a enfrentar com criatividade as adversidades da vida. Em sua história, relembra as expectativas da juventude, o casamento e um romance que reapareceu em momentos difíceis, quando lidava com a violência do marido. Em seu primeiro emprego criou admiração pelo trabalho de assistente social. Pingo, como era conhecida pelos amigos, começou na área social trabalhando com menores na Febem. Depois, dedicou-se à assistência de mulheres em situação de violência e pessoas em situação de rua. Hoje, carrega uma carroça de sonhos e compartilha seus ideais para o futuro.

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História completa

P1 - Odenizia, você pode falar o seu nome, local e data de nascimento?

 

R - Claro, meu nome é Odenizia Andrade Dourado. Eu nasci no dia 15 de maio de 1950, São Paulo.


P1 - Você sabe da onde vem o seu nome?


R - Então, a história do meu nome, é que a minha mãe tinha uma amiga chamada Dionísia e aí ela queria homenagear essa amiga, só que todos os filhos da minha mãe, o nome começava com “O”, então ela precisava criar alguma coisa que tivesse a ver com o “O” e a Dionísia. Aí por pouco eu não chamava Odionísia, mas aí ficou Odenizia e aí eu não sei se como ela sempre contou essa história que era a melhor amiga dela, um dos meus hobbies é colecionar amigos, bons amigos.

 

P1 - E... Sua mãe, como eram seus pais, como é o nome deles?


R - Então, a minha mãe, chama né, que ela já faleceu, Maria de Lourdes Andrade Dourado e o meu pai, Lino Dourado. Eles eram do interior, de Bebedouro, né, cidade de Bebedouro, mas vieram se encontrar aqui em São Paulo e uma das características desse casal é que o meu pai era primo irmão da minha mãe, então a gente correu um grande risco, ou não, né, de nascer estranha, né, então às vezes eu me perdoo em função desse risco que eles correram, né, de ser primo irmão e se casar, mas os três filhos nasceram...


P1- Eles foram criados juntos?


R - Não, não foram criados juntos. A mãe dele era a irmã da minha avó, então parece que eles cresceram em lugares mais ou menos separados, depois, aqui em São Paulo, eles resolveram que iam casar. 


P1 - E aí eles têm três irmãos, como foi sua infância aqui?


R - Então, aí eles foram morar em Tucuruvi, né, meus pais moravam em Tucuruvi, aí eu tenho uma irmã que chama Odaísa, um irmão falecido que chama Odemir e também tinha um irmão chamado Odair que era o mais velho, que faleceu também. Quando ele morreu, ele tinha sete anos e aí a minha mãe não quis mais morar lá em Tucuruvi, aí o meu pai veio com a gente pra 9 de julho. Ele era zelador do prédio e naquela época o zelador tinha direito a moradia e aí, assim, com cinco anos mais ou menos eu vim pra Bela Vista e ficamos lá, até, eu até vinte e oito anos, né, quando eu casei, mas sempre morando nesse prédio ali em frente ao teatro Maria Della Costa.


P2 - Você sabe como eles se conheceram, como eles se reencontraram assim que o amor surgiu entre o teu pai e a tua mãe?


R - Ah então, pelo que a gente ficou sabendo assim, os pedaços da história, a minha mãe tinha quatro irmãs, né, e elas vieram pra São Paulo pra trabalhar aqui, porque elas trabalhavam lá na roça em Bebedouro, aí São Paulo é sempre uma grande promessa. E aqui ela trabalhou como empregada doméstica, costureira, todas as possibilidades de ganho, e aí me parece que, aí, o meu pai veio pra São Paulo para aqui e ficou morando junto na casa da minha avó, porque tinha essa coisa de um ajudar o outro, quando vinha começar a vida em São Paulo, né? E aí parece que daí nasceu o romance e eles resolveram casar, mas segundo a minha mãe, ele não chegava a ser o grande amor da vida dela, ela tinha um grande amor que não aconteceu como ela sonhava, né, e aí ela casou com o Lino, que era o primo. Ficaram casados, né, muito tempo.


P1- Você lembra dessa tua infância mais do Tucuruvi ou mais lá da Bela Vista, já? Como são suas memórias?


R – Então, em Tucuruvi eu lembro algumas coisas, porque era uma casa com quintal grande, e a gente ficava no quintal enquanto a minha mãe lavava roupa, então eu lembro da tartaruga, que tinha uma tartaruga chamada Antônia, que a gente dava risada porque ela passava em cima do pé da minha mãe, enquanto ela estava lavando a roupa, né, lembro do navio, um cachorrão que tinha lá, muito simpático e tinha um gato também, então eu tenho essa imagem, essa fotografia, até se for mexer lá no fundo do baú é capaz de sair, ter uma fotografia assim, né? E aí, a gente de lá, teve essas lembranças do quintal e a gente saindo de lá com a morte do Odair, né? Então, depois eu vim pra Bela Vista e era apartamento, então a minha mãe ficava muito preocupada porque era no sétimo andar, né? E a gente se divertia jogando coisas na cabeça das pessoas lá embaixo e, quando minha mãe descobria, a gente já tinha jogado, né, descia as escadas correndo tocando a campainha de todos os apartamentos, então tudo aquilo era a nossa infância, era fazer aquele prédio balançar, né. Mas como meus pais eram muitos queridos, né,  zelador, então o prédio como um todo tinha uma certa tolerância nas brincadeiras da gente, às vezes chamava atenção, né, então mais ou menos isso que eu me lembro assim.


P1 - Como eram seus pais, como você descreveria eles?


R - Então, eles eram assim, o meu pai era muito... Espelhava, achava bonito tudo que ele fazia porque ele era muito criativo, né, zelador desse prédio, mas eu achava interessante porque ele acordava cedo, lavava o prédio inteiro, fazia tudo o que tinha que fazer, depois ele punha um terno e no quartinho das vassouras, que era no térreo, ele organizava, fazia uma decoração, punha a mesa e ali virava um escritório, que ele era despachante também, né? Então, ele tinha uma coisa de criar em cima das necessidades. E a minha mãe, grandes conflitos entre ela e meu pai eram exatamente por isso, porque uma hora ele estava naquele [quartinho] fazendo alguma coisa nesse sentido, mas ele se entusiasmava, entrava um pouquinho de dinheiro, ele já parava, já ia pra outra história, e a minha mãe muito pé no chão, muito querendo que as coisas tivessem começo, meio e fim, né, e ele sempre quebrando algumas coisas, começando outras, ou parado pra pensar e a minha mãe ficava muito preocupada com a questão do alimento da gente. Aí a minha mãe fazia o seguinte, no prédio que a gente morava, ela fazia vários bicos, então ela lavava roupa pra fora, ela tomava conta das crianças enquanto a mãe saía, dava comida, tinha gente que almoçava lá em casa, então ela organizou um tipo de jeito de sempre ter, entrar um dinheiro de alguma maneira, sem deixar a gente sem, quer dizer, não saiu pra trabalhar, ela criava um jeito de entrar um dinheiro enquanto meu pai estava sonhando com o que ele ia fazer depois e ela já mais pé no chão. Então, eles se desentendiam nisso, porque ela não sentia segurança de que ele ia trazer o dinheiro, mas ele conseguia trazer, né? Eu me lembro de uma fase também interessante porque eu via minha mãe brigando e ele muito tranquilo, né, ela falava, ele não se exaltava... Ela ficava de cabelo em pé, aí eu me lembro que eu ficava prestando atenção: “E agora, né? Como é que ele vai trazer esse dinheiro pra minha mãe, que ela está pedindo, né?”. Aí eu sei que passou uma semana, lá naquele quartinho das vassouras, ele organizou tudo bonitinho, e daqui a pouco ele fez uns cartõezinhos, colocou lá: “Empresa Brasileira de Higienização”. Naquele tempo tinha uns desinfetantes brancos, ele começou a colorir, ele colocou lá alguma coisa, tinha cor-de-rosa, verde e ele tinha um “171” bravo, né, sei que ele conseguiu vender pra todos os zeladores em volta, né, ali ficava todo cheio de si, colocava um terno, punha uma flor aqui, ficava rico. Ele ficava rico um tempo, e a minha mãe ficava esperando ele ficar rico um tempo e daqui a pouco ela pensar que ele ia despencar, né? Então foi sempre muito assim, o meu pai mais voador, mais sonhador e a minha mãe mais concretona, né, mas eles tentaram viver juntos... Depois aí eu fui casar, resolvi casar, daí eu vou contar essa parte. Mas eu me lembro que o meu pai, a gente era muito amigo, ele me falou: “Olha, eu vou ficar com sua mãe até...” - Isso eu acho que já tinha uns trinta, quarenta anos, sei lá, uns trinta anos de casado devia ter - “...eu vou ficar com a sua mãe até o dia do seu casamento, porque eu vou levar você até o altar e fica muito... eu não posso dar esse exemplo para o seu marido, né, se separar, né?”. Porque os casais não se separavam jamais, né? Se matavam, mas não se separavam. E aí eu sabia que ele ia me levar até o altar e não ia voltar pra casa, mas a minha mãe não sabia e aí ele não voltou mesmo, ele foi tentar a vida dele de um jeito... E eu vi que a minha mãe ainda ficou um tempão ainda de aliança, aí eu vi que a questão não era a pessoa, mas era assim: “Que vergonha falar que eu não tenho marido”, né? Então ele conseguiu fazer umas coisas que ele queria que quebravam um pouco o esperado, né, que ele conseguiu…


P1 - Como é que você participava da rotina da casa? Você ficava em casa com sua mãe? Você já ia pra escola?


R - Então, a gente ficava em casa, assim, bem, a minha mãe administrando tudo, colocou a gente na escola, tudo certinho, tanto é que a gente participava dessas situações do cotidiano, né, se o dinheiro ia entrar, se não ia entrar, aí a gente comemorava porque entrou, né? E o que mais? A escola, a gente estudou ali na Bela Vista mesmo. A minha mãe colocou a gente, é...  A princípio ela tentou vaga na Bela Vista, aí a gente não conseguiu, não sei porquê. Aí eu tinha uma madrinha que conhecia o Colégio Assunção, colégio riquíssimo, não tinha nada a ver com a gente, né? Só que as freiras tinham um lado pobre, é... Escola Madre Maria Eugênia, e aí colocaram a gente pra fazer o primário lá. Então a gente se sentia, porque a gente morava na Nove de Julho, estudava no Colégio Madre Maria Eugênia e aí a gente pensava por quê, né, tudo a gente era mais brilhante do que os outros pobres à nossa volta. E aí eu estudei no colégio de freira o jardim da infância, não é a pré-escola, sempre junto com a minha irmã, a gente foi indo até a quinta série, não, até a quarta série. Depois o ginásio, na hora do ginásio foi um grande drama, porque, naquele tempo, o colégio estadual era muito bom. Era maravilhoso, era as USPs da vida e era muito difícil de entrar, eu nunca fui uma aluna “aluna”, eu sempre fui tipo meia boca, né? E aí eu não consegui entrar no colégio do estado, né? E aí chorei, porque era feio não estudar, nem era porque eu queria estudar, porque era feio, né? Como que eu não ia estudar? Aí essa minha madrinha conseguiu, começou a pagar o ginásio pra mim no Colégio Oswaldo Cruz, era “chique no úrtimo”, né? E aí minha irmã, minha mãe conseguiu pagar pra ela um colégio chamado Frederico Ozanan, na Praça Roosevelt, um pouquinho mais popular, né? E aí eu me sentia, porque eu estudava no Oswaldo Cruz e ela, coitada, estudava no Frederico Ozanan e a gente brigava muito por causa disso, né? Até que quando eu fiz quinze anos, não de quatorze para quinze, eu fiquei doente lá, tive uns piripaques... e porque o meu pai não estava mais conseguindo pagar o Oswaldo Cruz e porque a minha tia pagou até um certo ponto, né, e então aquela minha “pose” ia por água abaixo, né, aí parece que eu tive um piripaque, uma crise, uns negócios meios estranhos, deixou o meu pai muito preocupado. Aí eu me lembro que o meu pai vendeu vários ternos dele pra pagar a escola e aí eu consegui terminar o ginásio, né. Só que daí, depois parei de estudar, a gente achava que dezoito anos, ginásio e datilografia, já estava bom pra pobre, você já tinha emprego, já conseguiu algumas coisas, né? Fiquei cinco anos sem estudar, né?


P1 - E como era esse dia a dia no colégio, você encontrava a sua irmã? Vocês... Depois das aulas?


R - Então, no colégio, a gente... Ela ia pro colégio dela, eu ia pro meu. O que aconteceu comigo interessante nesse colégio foram os amigos, que eram pessoas muito diferentes de mim. Mas eu me lembro que eu fiz amizade com a Verônica, eu até trouxe essa pedrinha que ela me deu no meu aniversário, porque a Verônica é minha amiga até hoje, e eu lembro que eu falava pra ela que ela era a minha primeira amiga rica, né, e eu deveria ser a primeira amiga pobre dela, aquelas conversas desagradáveis de gente... Mas era tranquilo, então a gente tinha uma amizade muito interessante, porque ela gostava do Charlton Heston, sabe? Aquele artista, não sei se ele era do seu tempo, mas ele fazia uns filmes bíblicos, umas coisas assim… Então, eu me lembro que a minha primeira infração foi que a minha mãe dava o dinheiro pra gente comprar o lanche na escola, aí a mãe dela também, aí a gente juntou o dinheiro pra cabular aula pra ir assistir o Charlton Heston, né? Aí ela era apaixonada por ele. Ela sabia, ela era muito culta, ela sabia as músicas da trilha sonora do filme, ela tinha um amor intelectualizado, e eu era solidária ao amor dela. Aí um dia eu confessei pra ela que eu não era apaixonada pelo Charlton Heston, mas eu era solidária, e aí a gente cabulava aula pra ir ao cinema, né? E aí eu lembro que também tinha uma amiguinha da sala, que eu fiquei muito interessada, porque ela disse que morava na Rua Santa Efigênia, e aí eu escutava o meu pai e a minha mãe falar que a rua Santa Efigênia só dava aquelas moça de vida fácil, “uhm”... E eu queria tanto saber como é que era isso de perto, né, aí eu me lembro que eu falei pra Sandra: “Sandra, você mora na Santa Efigênia? Você deixa um dia eu ir na sua casa, que eu quero ver como é que funciona aquelas...”, aí eu passava assim e via aquelas moças tudo na porta e eu achava aquilo tudo tão bonito, né, elas pintadas, mas eu achava aquilo maravilhoso. Então, virava e mexia, eu ia com a Sandra pra casa dela, né, que eu queria passar ali na Santa Efigênia de qualquer jeito, né? E aí qual não foi meu espanto, que eu descobri, porque assim, no prédio em que meus pais eram os zeladores tinha muitas moças, tinha umas moças bonitas e eu sei que elas trabalhavam à noite, essas que almoçavam lá na minha mãe, né? E aí eu falava: “Quando eu crescer, eu vou ser igual a Dona Célia. Ela tem um apartamento bonito, ela tem um monte de namorado e ela ainda trabalha à noite e aí ela tinge o cabelo e ela tinha anel de brilhante”. Que aquele tempo era uma profissão rendosa, elas ganhavam muitas joias, né? Aí, depois eu descobri qual era a profissão delas, né, mas até aí elas foram as melhores amigas da minha mãe. Porque... Eu sei que uma época a minha mãe queria colocar dentadura, vaidosíssima, vaidosíssima. E aí ela tinha um namorado, não sei se era Dona Célia, não lembro. Trouxe o namorado dela e aí ele fez todo o trabalho dentário em casa pra minha mãe. Então tinha uma coisa delas terem uma cumplicidade assim de ajuda mútua, então eu achava aquilo lindo, elas terem tanto tempo, ficar bonita e ainda ter joias, né. Mas aí eu descobri, quando eu cresci eu vi que o mercado já estava defasado, né, não consegui.


P2 - Como é que foi o período, esse período da adolescência assim, o que você fazia, você saía, ia em festa?


R - Então, a adolescência era os bailes, né? Que há muito... Inclusive, tinha os bailes dos Carlos, né, que era na Aclimação, que era aquele povo negro, com aqueles meninos com a calça boca de sino, aqueles cabelão, né? E a gente sempre dando um jeitinho pra ficar bonitinha. Então, ela fez uma saia azulona pra mim comprida e a camiseta Hering, que eu fui no baile me sentindo a “rainha da cocada”. Aí no outro baile eu queria ir de novo, né? Só que eu queria ir com outra roupa. Aí eu me lembro que eu limpei a casa, eu fiz tanto serviço pra minha mãe, mas tantas gentilezas pra minha mãe, porque eu queria que ela pusesse uma sianinha na saia, né, e aí ela colocou.. Aí... Então a gente reinventava a roupa. Nem se dava conta dessa pobreza assim, a gente não tinha um discurso de que é pobre. A gente sabia que alguma hora alguma coisa ia acontecer... Um pouco da experiência de ver meu pai e a minha mãe recriando a vida, inventava roupa, uma emprestava da outra, pintava os olhos aqui de azul, passava delineador embaixo. Aí a minha irmã sabia fazer a maquiagem e eu sabia pentear os cabelos, né? Então a gente desfiava o cabelo, punha laquê, parecia uns abajures, umas coisas assim, né? E uma coisa interessante dos bailes, que eu me lembro, foi só acho que tinha o Tim Maia, que cantava aquela música “Ter um sonho todo azul, azul da cor do mar”. E nesse dia eu conheci o meu primeiro namorado. É claro que ficou só no baile, né, porque minha mãe não tinha aquela coisa de deixar sair. Mas aí essa música do Tim Maia influenciou muito na minha história, porque eu cantava, eu ia fazer alguma coisa interessante, eu falava: “Ter um sonho todo azul, azul da cor do mar”. E aí o sonho foi uma coisa que foi fazendo parte, assim, de nunca achar que não dava pra fazer e quando não dava também era interessante ter tentado, ter quebrado a cara, por causa dessa dinâmica que eu vivia lá de ver meu pai: um dia não tem, depois tem. Ah, e tinha muita boate naquele tempo, na 9 de Julho, né? E ele ia lavar o prédio, a porta do prédio bem cedinho, ele sempre acordou cedo, e ele aparecia com uns anéis. Porque acho que o povo saía das boates bêbado, né, aquelas coisas, e ele achava as joias no chão, aí dava de presente pra minha mãe. Naquele dia ele comia o bife à milanesa que ele gostava. Não sei se ele comia mais coisas depois, né? Mas ele sabia que a coisa mudava. Então tinha alguma coisa assim do irresponsável com sorte, ou sorte, sem sorte, não sei. E aí acho que da minha adolescência que eu lembro essas coisas assim, né? Ah, aí teve... Bom, esse namorado, depois teve outros, nada assim. Mas aí eu me lembro que a minha avó sempre dizia pra minha mãe e a minha mãe repetia pra gente, que a gente tinha que ter muito cuidado, porque as duas, os antigos conheciam muito bem a moça que perde a virgindade pelo andar. E foi um dia que eu tive que... A minha mãe ficava costurando aqui, né, e aqui tinha um corredor que ia pro quarto. Aquele dia eu passei sentada no corredor. “Por que você está no chão hoje?”, “Não, hoje eu quero ficar no chão. Eu vou me arrastar até ali”. E o medo de eu levantar e ela falar: “Não é que essa menina já não é mais moça, né?”. Isso são aquelas coisas que você marca. Porque naquele tempo virgindade era o cartão postal pra você casar bonitinho, né?


P/2– Você, efetivamente, tinha perdido a virgindade?


R – Ah, efetivamente.


P/1 – Com esse namorado?


R – Então, aí foi com esse cidadão aí que eu casei, que hoje eu falo “doador de esperma”, porque até então era muito bom, né, depois... Aí, mas eu já era velhinha, né, eu era bem velhinha, isso que é triste. Já tinha... Quer ver? Eu acho que eu tinha... Eu casei com vinte e oito anos. Acho que eu tinha uns vinte e três, por aí. Então imagina como que eu tinha que dar um jeito de passar naquele corredor ou dar a volta, né? E aí eu casei com esse cidadão, né? E foi… Ele assim... Meu pai dizia o seguinte, minha mãe também: a gente tinha que casar com moço letrado, letrado era estudado, né, de boa família, que não bebia e não fumava. E aí eu achei esse moço, aí. E ele era assim, ele tinha terminado Direito na PUC. Ele até parece um pouco esse Joaquim Barbosa, ele lembra um pouco, né? E aí um moço pacato, bonzinho, namoramos em casa, tudo direitinho, né? E evoluímos para o casamento, né? E eu me lembro que até nessa hora meu pai também foi meu cúmplice, porque falei: “Ai, pai”, porque eu tinha... “Eu não quero casar de branco, né?”. Eu achava que... Como é que eu vou casar de branco se eu sei, né, e tal... Queria meio que tornar público como eu era uma moça moderna, né? E aí eu casei de cor de rosa. Meu pai falou: “Aí, pode deixar que eu vou ver, vou conversar com umas pessoas que eu conheço, que eu sei onde tem uns vestidos de noiva, e não sei o quê”. Daí eu casei de rosa, né? Então era uma coisa assim com meu pai, sempre acabava fazendo algumas coisas que a minha mãe já não ia achar tão interessante, né? E aí eu casei com esse cidadão, aí. E daí saí da 9 de Julho e fui morar onde moro até agora no Jardim Aricanduva.

 

P/1 – Onde você conheceu ele?

 

R – Eu conheci ele na Santa Casa. Porque eu trabalhava na Santa Casa de escriturária. Aquele negócio de ter o ginásio e datilografia dava certo, você conseguia emprego, naquela época. E aí eu era escriturária na Santa Casa. E aí também foi interessante porque eu nunca tinha trabalhado antes e eu era muito estranha, assim. Porque o meu apelido era Pingo, porque quando eu nasci estava passando aquela novela Pingo de Gente. Vale a pena a gente levantar os arquivos, né? E eu era assim magrinha e todo mundo falava que era bonitinha, era toda fresquinha, ‘afrescalhada’, estudava no Osvaldo Cruz, morava na 9 de Julho, então tinha uma série de coisas que dava certo pra mim... E aí arrumaram esse... Porque minha irmã arrumava emprego e eu ia atrás dela e conseguia depois. Ela ia na frente e eu ia atrás, né? Aí eu fui trabalhar na Santa Casa, e lá na Santa Casa – é um parêntese até chegar nesse cidadão – e aí eu fui trabalhar na Santa Casa e aí o meu primeiro lugar na Santa Casa foi o pronto-socorro. E eu tinha umas pulseirinhas até aqui, tinha maria-chiquinha, um monte de fitinhas aqui, tinha uma franja, tinha um sei quê, parecia uma árvore de Natal, né? E o pronto-socorro era tipo um porão assim que você entrava, e tinha umas cadeiras, assim. Eu lembro que tinha uma moça com asma. Era o outro mundo, né? Era um caos. E eu passei ali no meio. Aí eu encontrei, como sempre a coisa do amigo, a Zélia, uma auxiliar de enfermagem que tinha lá e ela foi meio que me aculturando praquele lugar de grito, de sangue, de gente perdendo a respiração e eu lá, né, parecendo uma árvore de natal, né? Aí no dia seguinte eu já vi que não precisava ir de tanta coisa, eu já fui mudando. Eu tinha muito medo de tudo aquilo. E a Zélia foi me levando pra um... “Vocês mudam...”, ela falava: “Olha, Pingo” – Ela me chamava de Pingo, porque como a minha irmã trabalhava lá, ela chegava lá procurando a Pingo, né? – “Olha, vai ali no banheiro lá, que você precisa pegar o prontuário que o médico precisa assinar”. Eu: “Não, por que eu preciso ir lá?”. Ela: “Não, você não pode ficar perguntando se você pode, você tem que ir logo, né?”. Aí entrava naquele banheiro, tinha um defuntão lá, caidão lá. Então eu fui ficando assustada. Eu lembro que a minha mãe foi lá falar com a freira: “Ai, dá pra tirar a Pingo do Pronto-Socorro, coitadinha, ela sonha, ela tem pesadelo, e não sei mais o quê”. Aí a irmã Francisca falou: “Pode deixar que quando tiver um lugarzinho melhor a gente...” – Porque não fui tão bem assim, não fui para os escritórios, fui para as enfermarias, né? – “...aí a gente tira ela de lá”. Eu sei que passou um tempo, a Francisca me chamou: “Olha, sua mãe veio pedir, agora tem uma vaga não sei onde”. Eu falei: “Não, eu quero ficar lá, eu já aprendi tudo”. Aí os médicos me chamavam de Pingo, as velhas me chamavam de Pingo. Entrava uma parada cardíaca, eu já sabia quem é que eu ia chamar. Eu me senti a rainha da cocada, né? E aí quando esse pronto-socorro que era meio improvisado melhorou, foi pra um lugar mais bonito, aí chegou lá esse rapaz aí, esse cidadão, né, que Deus o tenha em vida ainda agora, né? E aí ele foi lá me procurar porque diz que ele tinha um amigo lá... A gente contava os médicos pretos. A minha mãe falava: “Quando entrar no lugar, conta quantos têm”. A gente já tinha esses cuidados. Aí a gente descobriu que tinha o Paulinho, que era um psiquiatra, estudante de Medicina, e tinha um outro formado que acho que era o Luiz Afonso, ortopedista. Aí a gente já tinha feito a conta, né? Aí esse moço chegou lá no balcão e disse: “O doutor Luiz Afonso é meu amigo e pediu pra eu vir aqui procurar uma moça chamada Pingo porque diz que...”. Eu achava mesmo, todos os prontuários perdidos, que os médicos precisavam, eu achava. Eu acho que eu sempre fui ali com São Longuinho, né? Aí eu ia lá, achava e eles me achavam ótima. Nem era ótima, eu achava porque eu fui procurar, logo, eu achava, né? Então esse moço veio pra pedir porque parece que ele na infância tinha quebrado um braço, não sei, e ele pediu pra levantar esse prontuário, essa chapa. E era esse moço. Ele tinha uns dentes bonitos, brancão, achei ele muito interessante, amigo do Luiz Afonso, ele mandou me procurar. E eu achei mesmo a tal da chapa dele, sei lá de que ano que era. E aí ele falou: “Quando você achar, você me liga, porque eu preciso pra levar pro médico e tal”. Aí eu liguei, entreguei para o médico, né? E daí ele quis agradecer que eu fui uma pessoa muito simpática e aí fui tomar um suco com ele, uns negócios assim, e aí deu no casamento, né, virou casamento, porque tinha todas as qualidades solicitadas pela família, né? Moço estudado, de bons modos, né, não bebe, não fuma, não sei o que lá, né? E aí lá fui eu de véu e grinalda e toda de cor de rosa casar com ele.

 

P/1 – Mas conta um pouco como foi esse relacionamento. Quanto tempo durou?

 

R – Ah, sim. Deixa eu ver...

 

P/1 – Você se apaixonou?

 

P/2 – Você se apaixonou à primeira vista?

 

R – Não. Foi uma coisa gostosa, gostosa. Mas aí é que o bicho pega, porque aí eu namorei oito anos com ele. Porque aí, onde a irmã, ia eu ia atrás. Agora não, agora eu tenho uma personalidade forte, né, eu vou quando eu quero. E aí eu fiquei cinco anos sem estudar. Eu era escriturária da Santa Casa. Pra mim estava bom, já tinha um empreguinho, não precisava de mais nada. Mas a minha irmã foi estudar, aí eu fui atrás dela também. Ela foi fazer Secretariado e era uma escolinha em frente, o Largo, a USP, São Francisco, e aí de sexta-feira ela saía da escolinha lá que a gente estudava e ia para os botecos com as coleguinhas. Eu não, porque eu namorava. “Eu não vou com vocês, vocês podem ir, porque onde já se viu, porque não sei que lá”. Até que um dia eu estava muito triste, tinha brigado, não sei o que era, era uma coisa, sabe quando você está muito pra baixo? Aí eu falei: “Ah, hoje eu vou com vocês nesses barzinhos aí que vocês vão”. Ela falou: “Tem uma coisa acontecendo ali na faculdade São Francisco. Acho que é alguma coisa de música, MPB”. Aí a gente foi nesse barzinho aí, nessa faculdade e eu lá toda desenxabida, eis que passa um cidadão assim, uma roupa branca, de terno, barbudo, cabeludo, assim um escândalo, rindo, brincando. E aí eu falei: “Nossa, como existe gente tão alegre assim, que moço bonito”. Porque o noivo era uma pessoa pacata, assim, de poucos amigos, né? E eu vi aquele moço que passou gritando, rindo. Eu falei: “Que coisa linda, que bonito esse moço”. Mas, né, só comentei comigo mesma. Aí a minha irmã, num boteco, já fez amizade com ele. Aí quando a gente viu a gente estava tudo junto na mesma mesa. Aí eu conheci esse moço e o que aconteceu? Era um dia de tarde, não, de dia, né? Então aí eu falo que a santa é a puta, né? Porque de dia tudo bonitinho, sábado e domingo, não sei quê, mas quando ia para os botecos eu ia e encontrava com o Pajeú. E aí me parece que o Pajeú era o amor da minha vida, né? Eu falava: “A história vai ser igual a da minha mãe”. Ela não casou com o grande amor da vida dela e eu não casei também com o grande amor da minha vida. E aí eu fiquei... Aliás, o Pajeú é meu namorado até hoje. Aí depois eu conto direitinho...

 

P/1 – Então você contou do Pajeú, como é que era? Você já namorava o moço que você casou?

 

R – É, porque eu namorava esse Carlos Walter, e assim, mas eu tinha a impressão que esse moço, esse Pajeú, ele me mostrou um outro mundo, diferente, porque era os botecos. Então eles faziam Direito, eles subiam em cima da mesa e falavam poesia. Eu achava aquilo de um encantamento. Mas parecia que era uma coisa possível à noite, né, porque de dia era outra realidade, né? E ele tinha uma noiva, esse Pajeú. Aí, por que é Pajeú, porque que o nome dele é Pajeú, como ele é casado até hoje, né, então, mas tudo bem, acho que a esposa dele não vai assistir esse vídeo, se ela assistir a gente fala que é pura coincidência. E aí, por que eles chamavam? Esse apelido, Pajeú, da faculdade é porque ele fez uma peça de teatro e tinha um personagem chamado Pajeú. Eu acho que era Os Sertões. Não, não era Os Sertões, era aquele Zebedeu II. Eu não sei, depois a gente vê direitinho. Mas  eu sei que era um personagem chamado Pajeú. Então, na faculdade, a marca dele era Pajeú. Então era Pingo e Pajeú, né, a história, o casalzinho. Então... Aí ele tinha uma noiva e aí ele sabia que eu tinha também um namorado. Aí ele falava: “Eu vou casar com a minha noiva”. Eu falava: “Você tem que casar com ela mesmo porque imagina se eu casar com um moço que bebe, que passa a noite na rua, que tem um monte de mulher, que não sei o quê. Eu não. Vou casar com aquele que está lá no meu sofá de terça. Porque afinal de contas, né, imagina, eu não vou...”, mas no fundo rezando pra ele mudar de ideia, só que ele não mudou. Então, o que acontecia? Foi ficando muito forte a nossa história, né? Pajeú e Pingo, tal. Ele ia lá na escola, né? Assim, bem boêmio. Eu achava ótimo aquilo. O outro todo certinho, todo arrumadinho, né? E aí, o que aconteceu? Aí terminei o secretariado, nessa folia, né, indo pra boteco, cantando, uma festa, né, linda maravilhosa. Aí o que aconteceu? Aí a minha irmã, muito estudiosa, ela falou: “Não, eu vou fazer faculdade. Falei: “Ah, faculdade, ah, não, pelo amor de Deus, né, tem que estudar muito, eu não vou pra faculdade de jeito nenhum”. Aí ele falou pra mim: “Você não vai fazer faculdade, Pinguinho?”. Eu falei: “Eu não. Imagina. Vou ficar morrendo de estudar”. Ele falou: “Só vou te falar uma coisa, se você não serve pra faculdade, você vai casar com essa anta”. Ele pôs um apelido. “E aí quando você quiser sair do casamento, você vai ter tanto filho, e que você não vai conseguir sair do casamento e você não vai ter nem uma profissão”. “É, grande coisa, imagina, não estou nem ligando pras suas pragas. Imagina ficar estudando agora? Tenho mais o que fazer. Vou ficar estudando?”. Aí ele falou: “Então, tá bom. Então se você não for pro cursinho com a sua irmã, eu não falo mais com você, porque eu não quero sair com gente negra, que não estuda, é inteligente, mas não usa a inteligência”. Falei: “Mas que malcriado, que cara mal caráter. Imagina, falar que não vai sair comigo”. E não é que não saiu mais mesmo comigo? Não saía mais comigo, não olhava mais na minha cara, não cumprimentava, parecia que eu era um banco vazio. Aí eu fui correndo fazer o cursinho, né? Falei: “Ah, eu estou fazendo cursinho, tá. Aliás, estou lá com a Daiza. Não é, não estou lá com você? Ele, coitado, deixa ele pensar...”. Aí eu falei: “Mas eu não vou passar mesmo. Porque a minha irmã estudava, estudava e estudava. Eu não. Falei: “Eu não vou passar. Deixa ele. Eu vou namorando com ele mais um pouquinho. Esse cursinho até que não é a pior coisa do mundo”. Aí nem sabia que faculdade eu ia fazer. Mas, como eu estava na Santa Casa, eu via as assistentes sociais. Falava: “Ah, isso aí deve ser um negócio legal, porque ela veio aqui e pede ambulância pro paciente, o paciente vai embora. Vai ver que é isso. Negocinho fácil, não vai atrapalhar tanto a minha vida, não sei o quê”. Ignorância sempre me acompanhou de perto, né? Então, eu e a ignorância conversando dava... Aí fiz FMU, lá, o vestibular. Fui lá, fiz. “Não tem problema nenhum, eu vou fazendo, tal. Olha Pajeú, estou fazendo vestibular. Tá vendo como eu estudo? Não sei o quê”, né?. Aí fui ver o resultado, não é que meu nome estava lá. Aí eu olhava, falei: “Não é possível. Tá Odenizia Andrade Dourado”. Era eu mesma. Pedi pra um monte de gente ler. Gritei. Teve um escândalo. Fiquei feliz. Aí descobri que bom. Pra mim, eu não ia passar. Faculdade era uma coisa distante do meu mundo, imagina. Aí eu fiz um escândalo. Cheguei em casa: “Mãe, entrei na faculdade, tem que fazer a matrícula até não sei que dia”. Sempre o dinheiro, o grande complicador. Aí minha mãe: “Não, mas aonde que a gente vai achar dinheiro. Porque essa faculdade cara. Não...”. Mas aí eu tive um chilique, gritei. Eles tinham muito medo dos meus chiliques. Até é uma coisa interessante, depois que eu vou falar. E aí correram, minha mãe pediu dinheiro emprestado para o prédio inteiro. Aquelas moças, aquelas moças que a minha perspectiva de vida era trabalhar fácil. Aí conseguiu o tal do dinheiro, aquele saco de dinheiro. Fui lá, fiz a matrícula. A minha mãe falou: “Agora não sei como você vai fazer”. Porque acho que eu ganhava uns cem reais, sei lá. E a faculdade era três vezes mais. “A gente não vai conseguir pagar”. Falei: “Não, depois eu penso como é que vai ser isso. Agora eu quero fazer minha matrícula, ligar pro Pajeú e falar que eu passei na faculdade”. Aí eu liguei pro Pajeú, ele falou: “Olha que legal! Então me espera no barzinho não sei das quantas”. Ele também era estudante nessa época. “Que a gente vai lá tomar um guaraná, fazer alguma coisa pra lembrar que você entrou”. Aí liguei pro quase casado, né, a noiva, né? Porque eu era a noiva e amante. O amante ficou feliz. Aí liguei pro rapaz lá: “Ah, então, entrei na faculdade”. “Como que você entrou na faculdade? Agora a gente vai casar quando? Eu já não tenho mais idade pra ficar esperando casar. Já tem quase oito anos que a gente namora, que não sei o que lá, não sei o que lá”. Fez um escândalo. Aí eu não tinha esse QI, né, de fazer essa comparação das duas histórias. Aí fui comemorar, fui pra faculdade, vi que esse negócio de faculdade era bom. Aí estudei e tal. Continuando nos dois quintais, né? De dia... Não, o sol e a lua. Sempre de dia e de noite, o Pajeú. Assim, mas não era nada combinado. Eu sentia saudades dele e falava: “Ah, eu vou naquele barzinho que ele passava”. Eu ficava lá e falava: “Você viu o Pajeú?”. “Ah, ele já passou aqui, mas se ele não estiver aqui ele está não sei onde.” “Tá. Ah, você viu o carro dele?” “Ah, ele estacionou ali.” Ele tinha um fusquinha que chamava de gato. Aí eu punha um bilhetinho: “Ah, estou com saudades. Não sei o quê”... Era assim, não era marcado, mas sabia onde encontrar. E aí, o que aconteceu? Aí fiz a faculdade, o tempo foi passando. Aí um belo dia o Pajeú falou pra mim: “Vou casar com aquela noiva lá. Chegou meu dia de casar”. E a minha esperança de ter, né? Aí como a gente já tinha combinado que ia ser assim, que quando chegasse a hora, que, inclusive, ele não ia falar nem a igreja que ele ia casar que é pra não ter perigo, né? Eu também já tinha esses acordos: “Se eu casar primeiro, você também não me apareça lá”, estava tudo combinadinho e tal. Ele casou... Não, aí falou assim: “Olha, agora a gente para, fico sem te ver, porque a gente não pode ficar assim se vendo...”. E eu trabalhava na Santa Casa ainda. Aí eu contava tudo pra Zelinha, né, aquela que me ensinou a entrar perto dos defuntos, sair dos defuntos, minha amigona. Daí eu falei, contei as histórias, daí eu falei, um dia eu cheguei no trabalho e daí eu falei: “Tem alguma coisa diferente no trabalho hoje, estou sentindo o ambiente tão calmo, hoje eu escutei um monte de passarinho, eu estou tão estranha hoje”. Ela falou: “O que você acha que é?”. Eu falei: “Acho que eu estou com saudade do Pajeú, como eu fiquei sem ver ele um tempo e como eu tenho que me conformar que ele vai casar”. Aí ela disse: “Ah, quem ele pensa que ele é? Como ele pode falar pra você não ligar pra ele, você liga lá... Ele tem que não sei o quê não sei o que lá...”. Aí eu liguei, aí quem atendeu foi a secretária, que aí ele já era formado, já era advogado de uma imobiliária, já estava com cara de burguês, né, já tinha perdido aquela coisa mais solta, né, e aí a secretária falou: “Ai, Dona Odenizia, como vai a senhora?”. Aí eu falei: “Ah, eu fiquei um tempo sem ligar, porque eu estava viajando, né?”, aquele “171” horroroso, né? Ela falou assim: “Ai, mas o Doutor Valter, faz tempo que a senhora não fala com ele?”. “É, faz um tempinho, que eu estava viajando”. Ela falou: “Não, porque ele vai casar hoje, na igreja da Candelária, na Vila Maria. A senhora podia fazer uma surpresa, porque eu vou estar lá também e a gente se conhece, não sei o quê lá, não sei o quê lá...” Aí então falei: era isso, né, tinha alguma coisa no mundo me comunicando que estava acontecendo isso. Mas aí a gente, ele foi... Não fui no casamento, não tinha uma roupinha bonita pra competir com a noiva, né, não tinha um outro vestido vermelho, né, pra competir com a noiva, e daí ele foi cuidar da vida dele, casou. Daí na no outro mês o Carlos falou: “Olha você não acha que tá na hora da gente casar, né?”. Eu falei: “Então, eu queria terminar a faculdade”. Ele falou: “A gente casa, você tá no terceiro ano e aí a gente, você termina a faculdade já casada, né, porque aí você já tem vinte e oito anos e eu também já sou mais velho que você cinco anos, eu também quero ter filhos, não sei mais o quê”. Uma conversa. “E aí, né, como é que faz?” Aí eu casei, casei com o Carlos. Fiquei um bom tempo assim casada, né? Casada, eu falo, eu fui ficando com cara de casada, com jeito de casada, não tinha mais boteco, não tinha mais, né, aquela coisa, casa da sogra, agora a minha sorte que daí eu virei assistente social de verdade, né, e eu trabalhava na Febem. Aliás, a Febem pagou minha faculdade. Aquela história que minha mãe falou: “Porque agora não sei como é que você vai fazer, que a gente não tem de onde tirar”. Aí uma amiga dela falou que estava abrindo a Febem: “Então, elas pagam muito bem pra inspetora de alunos”. Aí eu fui lá, passei... Sabe quando você ganha dez e de repente você ganha mil? Eu sei que deu pra pagar a faculdade, né, tudo direitinho naquele outro mês que venceu. Então aquela coisa que eu vi em casa também parece que deu certo. Aí terminou... Casei lá com o cidadão. Terminei a faculdade. Aí nasceu a Cintia, né, a primeira filha que eu tenho. E aí o que aconteceu? Aí estava tudo certinho, porque eu falei: “Não morro de amores, mas é uma coisa tranquila, gostosa, né? Tem sogra, tem viagem, tem passeio e eu tenho meu trabalho”. Trabalhava com meninas em situação, infratoras. Naquele tempo eram depósitos, verdadeiros depósitos. Até se vocês tiverem acesso a um livro que chama Queda para o alto, Sandra Herzer, ela conta, ela é uma menina de lá, e ela conta aquela coisa horrível que a gente vivia lá naquele tempo, né? E aí eu fiquei uma assistente social forte, denunciava espancamento... Oh, “Chiquetosa”, né? E aí o que aconteceu? E o casamento ia mal. Eu lembro, quer ver como começou a ficar mal? A Cintia ficava na casa da minha mãe, a bebezinha. Aí uma noite ela chorou quando eu cheguei em casa, aí eu falei: “Eu vou ficar a noite inteira com ela no colo, tadinha, né? Eu trabalho, todo mundo trabalha, fica com a avó”, aquelas coisas que a gente fala. Aí ele falou: “Você não vai pegá-la no colo”. Eu falei: “Ah, imagina, não pegar ela no colo. A filha é minha, eu pego ela...”, aí peguei a Cintia no colo aí ele me deu o primeiro tapa, voei com a Cintia, a Cintia não caiu porque eu segurei a Cintia, né? Pá. Daí deu aquele tapão, eu caí no chão. Sabe aquelas coisas assim? De repente parece que abriu um buraco assim e você entra dentro, né? Daí passou um monte de filme na minha cabeça. “Vou ligar pra minha mãe. Não, não vou ligar”. Porque a minha mãe falava: “Esse casamento não vai dar certo. Esse moço é muito quieto. Ele não tem amigo. Olha como você se engraçou com o Pajeú? Você se engraçou com ele porque ele é desse jeito”, minha mãe não... Eu sei que aí a coisa foi ficando estranha, né? Mas eu não consegui sair do casamento ainda, né? Porque, imagina, eu: “Como eu vou falar com a minha mãe?”. Foi ficando. Ficou lá. Aí veio a Keity, a Keity, a segunda filha. Aí eu me lembro que eu estava amamentando, eu estava com uns peitão, né, mas, assim, parecia aquelas crentes. No trabalho não, eu vibrava, brincava, entrava no meio das brigas, tirava as facas, uma favela... Aprendi muito na Febem, aprendi até a gritar. Porque tinha uma menina chamada Silvia Afonso que ela quebrava tudo quando enchiam a paciência dela, aí eu falava: “Silvia Afonso, pega leve, cada vez que você faz escândalo você apanha, o povo te dá sossega leão, você não precisa fazer desse jeito”. Ela falava: “Não, mas também não posso ter essa voz fina sua aí, que nem de gato, que não vai resolver minha vida”. Eu falei: “Então vamos trocar, você fica um pouco com minha voz de gato, quando você precisar disso, quando você precisar daquilo, pra você não apanhar, e eu vou ver onde que eu vou usar essa sua força aí”. Eu sei que ela tentou. Enfim... Maravilhosa a Silvia Afonso. Só eu que achava certo ela gritar, né? Aí um dia ele foi me dar um tapa, eu fiz igual à Silvia Afonso, quebrei tudo, joguei... Porque até então era aquela rua bonitinha, silenciosa, aquele casou preto, em uma rua que não tinha quase preto, todo mundo admirava aquele casalzinho bonitinho, saía com a criancinha naquele carrinho, ia embora. Ninguém sabia lá. E a coragem pra falar. Mas aquele dia eu abri a porta e gritei, fiz um escândalo, combinei com as crianças, né? Nessa altura tinha a Cintia, tinha a Keity e o Gordo já, pequeninho, era pequenininho. Não, eu não tinha o Gordo não, eram só as duas, o Gordo foi... É, tinha as duas. Aí combinei, eu falei: “Olha, hoje a mãe vai fazer um barulho, mas é só pra assustar o papai”. “E aí depois mãe, o que a gente faz?” Falei: “A gente corre pro vizinho”. E foi assim mesmo. Porque eu incorporei a Silvia Afonso, porque eu achava tão bonito ela fazer tanto escândalo, eu não conseguia, a minha voz não saía igual a dela, né? Aquele dia saiu, né? Aí a vizinha... Fui pra casa da vizinha. A vizinha me pôs pra dentro com as crianças. Daí ele falou: “Não, é que como ela está trabalhando na Febem, ela está meio desequilibrada”. Né, porque aquele tempo, falava Febem, né? Então eu lembro do vizinho, falou assim: “Ela desequilibrada ou não, se ela veio pedir ajuda com as crianças, ela não vai sair daqui com o senhor, ela só sai daqui com a mãe dela, que a gente já está ligando”. Aí ligou pra minha mãe, aí veio a minha tia. Sabe quando para na rua um carro atrás do outro? “Cadê a Pingo? Bateram na Pingo. Coitada da Pingo. Ai, Pingo, como foi fazer isso com minha filha? Ela já trabalha tanto, foi casar com um monstro que nem você...”. Toda essa coisa. Daí, quando a família sabe que isso acontece intimidou um pouco, mas não tanto. Eu estava sempre com o pé atrás. Aí eu me lembro que eu fui consultar processo, encontrei quem no Fórum? Quem eu encontrei lá? O Pajeú.

 

P/1 – Você continuou casada com ele então? Com...

 

R – É. Eu estava casada, tudo certinho.

 

P/1 – Depois desse evento?

 

R – Ah, sim. Era meio difícil pra eu sair. Sabe, assim, que você ainda não sabe sair? Não sabia sair.

 

P/2 – Desculpe. Vamos voltar um pouco atrás, porque você passou anos, né? Você teve a primeira filha. Esse foi o primeiro tapa. Como foi esse processo? Porque até então ele era uma pessoa pacífica. Como você...?

 

R – Aparentemente pacífica.

 

P/2 – Você pode contar pra gente?

 

R – Posso. Você só vai me dando assim o quê... Porque eu disparo.

 

P/2 – Volta um pouco: teve esse primeiro evento, você pegou a primeira filha e aí ele é violento pela primeira vez.

 

R – Isso. Isso.

 

P/2 – O que acontece depois?

 

R – Então, aí a coisa perdeu um pouco o encanto, eu fui ficando com medo dele, fui ficando mais triste. Mas aí virava e mexia, qualquer coisa ele vinha pra cima de mim, virou moda. E não tinha assim uma coisa muito concreta. E o que a gente deduzia, né, depois de um tempo pensando na situação. Porque, quando ele, por coisa pouca, ele já vinha pra cima de mim. Ele sempre verbalizava: “É, agora você é assistente social, porque você ganha bem, porque você pensa que você é o quê?”, parece que, assim, enquanto eu não era essa pessoa, eu era uma... Aí parece que aquilo incomodou. E eu ganhava bem. Sabe quando você sabe que você ganha bem porque o dinheiro não acaba? Mas eu não tinha muito essa coisa do dinheiro. E aí acho que isso foi angustiando o machismo dele ou a loucura dele, eu não sei como é que é. E eu dependia dele, por exemplo, levava as crianças pra minha mãe, tem aquelas fotos lá, e ele me levava pra trabalhar. Eu dependia do carro. Aí um belo dia ele falou: “Eu não vou mais levar você de carro”. Eu falei: “Como é que eu vou trabalhar lá na Morvan Dias Figueiredo”, Marginal, né? E não podia chegar atrasado. Tinha um monte de coisa. Mas ele queria sacanear, né? Ele falou: “Eu não vou te levar amanhã e aí você vai ter um monte de falta e você vai ter que parar de trabalhar, porque você está muito metida, porque você pensa isso, porque você disse aquilo”, coisa bem show, né? Aí, coisas do meu pai e minha mãe que eu aprendi. Falei: “Como é que eu vou fazer? Se eu não for trabalhar amanhã, que não sei o quê?”, aí eu fui ficando angustiada com aquilo. Aí eu fui comprar pão e tem o motorista de taxi, sabe, o ponto de táxi? Eu sempre cumprimentava eles, mas eu nunca precisava tomar táxi. Mas aí eu fui lá acertar com o motorista. Falei: “Olha, sabe o que está acontecendo? Eu preciso trabalhar amanhã, aliás, o mês inteiro, e eu vou precisar que vocês me levem de táxi e depois tem que estar tal hora... Mas até então eles estavam achando tudo normal eu ir lá combinar. Aí eu falei assim: “Só que eu não vou pagar assim, vou pagar só quando eu receber”, mas maravilhosa, né, achei... Aí no dia seguinte ele ficou lá deitadão na cama, aí fui lá tomei banho, me arrumei, ele falou: “Eu falei que eu não vou levar você para trabalhar, não sei mais o quê, não sei mais o quê”. Aí eu desci a escada, entrei no meu táxi, que parou lá. É, como que chama? Tinha um apelido, não me lembro o apelido do taxista, muito gente boa, tipo um índio assim, né? Quando ele viu eu saindo de táxi, ele pão duro, né? Ele falou: “Gente, essa mulher vai aonde de táxi?”. Aí ele pegou o carro e foi seguindo. E aí ele tinha uma descompensação, porque ele começou a xingar o motorista: “É, onde você vai levar ela? Porque ela é minha mulher”. E eu: “Não, o senhor segura firme aí porque, olha, o senhor sabe que eu trabalho na Febem, um trabalho assim difícil, aquela molecada precisa de mim, porque não sei o quê”. “Não, você pode deixar, eu levo a senhora, eu quero ver...” Aí ele me levava, todo dia o homem estava lá, né, aí... Então eu ia enfrentando, né? Aí eu sei que, quando eu recebi, ficou um monte de dinheiro lá pro motorista de táxi, né, mas não me atrapalhava em nada. Aí eu fui vencendo isso. Aí, quando eu comecei, a minha família já sabia, eu comecei a falar pra minha mãe que eu ia tentar sair fora. Aí minha mãe falava: “Não, ruim com ele, pior sem ele. Você fica. Aguenta mais um pouquinho. Isso passa”. Aí foi nascendo outra mulher aqui dentro de mim, que estava dormindo. Lá, a Silvia Afonso, a minha cópia, aquela que grita, que sai. E aí eu comecei a não alisar mais o cabelo, tive a necessidade de ter o cabelo duro. Foi dando uma coisa, foi nascendo essa outra aí. Aquela arrumadinha... E daí, aí a minha mãe falava: “Posso te falar uma coisa? Sabe porque ele está bravo com você? Por causa do seu cabelo. Você era tão bonita, você tinha aquele cabelo alisadinho, agora você faz isso com seu cabelo, ele fica nervoso. Você vem aqui que eu vou dar um jeito no seu cabelo”. Quer dizer, minha mãe na inocência dela, como ela conseguiu ficar casada um monte de tempo, só que meu pai não tinha essas coisas de violência, era outro jeito de encher a paciência dela, né? Mas aí o trabalho, a Febem, tudo isso, eu estava crescendo em nível de consciência, né? Que eu falava: “Se eu questiono espancamento na Febem, como é que eu estou me deixando apanhar em casa?”, foi dando um revertério. E aí eu encontro o Pajeú no Fórum.

 

P/1 – Era contínuo?

 

R – Era vira e mexe, assim, sabe? Era, do nada, batia. Às vezes estava no carro. E às vezes eu falava pra ele: “Nossa...”. Porque demorou pra cair a minha ficha também. Falei: “Nossa, hoje vou ter uma reunião tão importante lá na Febem”. Porque tinha discussões de caso e eu estudava pra poder, porque não era falar: “Ah, eu acho isso”. Eu tinha que achar e... Daí eu comentava com ele. Daí no dia seguinte ele dava um jeito de me bater, sabe, no carro, no portão. Umas coisas assim que me desequilibravam um pouco. Até eu vou voltar... Então eu acho que era uma coisa de perversidade, de querer ver se arrebentava a corda, eu voltava pra casa, ficava lá sem esse trabalho... Não sei qual era a fantasia dele, mas...

 

P/1 – Qual... Desculpa.

 

R – Me ajuda a falar dessa coisa ruim.

 

P/1 – Como é que foi a criação dos filhos? Tinha a Cintia e mais quem? Vocês já moravam em outro lugar?

 

R – Tinha a Cintia, Keity, Gordo, né? Tudo assistindo essas palhaçadas. O Gordo, ainda quando eu separei dele, o Gordo tinha um aninho. Então o Gordo não... O Gordo sofreu as consequências ainda na minha barriga porque era a época em que eu estava querendo sair fora, e estava acontecendo muito coisa dentro de mim, inclusive, o Gordo. O Gordo também estava dentro de mim, né? E então o que acontecia? Aí, olha só, então esse reboliço todo, essa coisa ruim, as crianças iam pra escolinha, eu sempre contava historinha, enfim, tentava trabalhar um pouco a saúde mental dele, né? Apesar de que eu não sei até onde eu ia conseguir. Aí quando eu encontrei o Pajeú... E aí eu me lembro que ele... Quando deu de cara, me irritou um pouco. Falei: “Não podia ter casado com ele?”. Sei lá como é que ia ser também. Mas ele todo Zeppelin, sabe? Todo sedutor: “E que linda, quê não sei mais o quê”. Eu falei: “Não, mas como assim? Eu sou linda, sou não sei o quê, mas eu sou casada, Pajeú. Acabou aquela farra que a gente fazia. Não tenho a menor disposição de ter isso aí que você está pensando”. Brava, muito irritada. Ele falou: “Então, tá bom. Então vou te dar uma carona até o metrô, não sei o quê”, né? E eu fui até o metrô resmungando, falando um monte de coisas. Que eu queria me vingar, né? Não casou comigo, agora fica aí me achando um monte de coisas. Aí eu me lembro que ele falou: “Então, tá bom. Então como a gente não vai se ver nunca mais, eu acho que a gente merecia se dar um beijo”. Eu falei: “Ah, não, vou beijar você?”. Daí eu com meus botões, falei: “Mas eu estou tão diferente, estou tão geladona, tão sofrida, tão estranhuda, né, que vai ser um beijo assim pra ele falar “é a morte que me beijou”, né? “Estou beijando a morte.” Aí eu dei o tal do beijo. Mas quem falou que ele queria escapar do meu pescoço. Eu não soltava mais ele. Mas eu beijei como se fosse uma eternidade. Eu falei: “Que mau, né?”. Falei: “Acordou tudo lá dentro”. Eu sei que aquele dia já cheguei em casa diferente, né? Eu falei: “Nossa, esse negócio de amante dá muito certo. Essa coisa da terapia do amor. Olha só. Não, porque me falou que eu era linda. Falou um monte de coisas e não sei mais o quê”. Só que eu deixei passar, imagina, até por uma questão de moral eu ia passar que a vida estava bem esquisita, que a anta realmente era uma anta. Não ia passar um negócio desses, né? Mas aí eu sei que ele ficou com meu telefone, alguma coisa assim. Aí ele ligou lá na Febem. Falou: “Ah, quando é que você vai buscar processo de novo? Porque não sei mais o quê”. Bom, moral da história, eu comecei a ser amante do Pajeú. Melhor coisa que eu já fiz na minha vida. Porque eu me fortaleci de uma tal maneira, de uma tal maneira. Eu pus tudo no lugar de novo, né? Aí eu fui atrás de terapia. Aí fui procurar o Paulinho. Lembra aquele médico negro que tinha na Santa Casa, que era psiquiatra? Eu falei: “Não, tenho que procurar um que não me interne, não me amarre, não me dê remédio”. Pra fazer terapia, pra saber como me desligar, preparar as crianças, enfim, né? Eu sei que o Paulinho, uma fala do Paulinho, que me jogou lá não sei pra onde. Eu sei que eu contei um monte de história, falei não sei o quê... Ele falou: “Então vou te fazer só duas perguntas... Se você fala do seu trabalho, das coisas que você conquista, da força que você tem, você fala do Pajeú”, que eu já era amante do Pajeú, “Que vocês estão se encontrando, das coisas que você consegue conversar com o Pajeú e que não consegue conversar com o Carlos, então só tenho duas perguntas, você só volta aqui quando você souber a resposta. Você quer... Se você for esposa do doutor Carlos Walter, você não vai levar seus amigos em casa, você vai enfrentar uma violência de vez em quando e você vai não sei mais o quê. Agora, se você não for mais esposa dele talvez você nem continue com esse namoro com o Pajeú. Talvez o Pajeú esteja tendo aí um papel de te resgatar. Aí, quando você resolver quais das duas situações você quer, você volta”. Eu não voltei mais lá no Paulinho. Só depois que eu contratei o advogado, que eu comecei a ir. Aí eu peguei o Carlos Walter de calças curtas.

 

P/2 – Desculpe te interromper, eu não entendi, você foi fazer a denúncia do Carlos e encontrou o Pajeú?

 

R – Não. Eu estava trabalhando na Febem, eu fui consultar processo. Aí eu era assistente social, eu não era a espancada, né? Era só assistente social. Daí houve esse, como eu diria, esse banho de identidade. Voltei. Opa! Estou chegando. Daí eu comecei esse processo de me desligar. Tudo meio me preparando, tal, não sei o quê. Eu sei que aí engravidei, era o Gordo, o Gordo, grande Gordo, meu filhinho. Aí entrei em pânico, né, porque eu falei: “Gente, eu estou saindo, querendo sair da história. Que contradição”. Aí ainda fantasiei um pouco: “Que bom se fosse do Pajeú”. Né, porque tinha Pajeú na história. Tinha Pajeú, tinha barriga. E o Pajeú comigo, né, grávida.

 

P/1 – Ele não era mais casado?

 

R – Casadíssimo. Até hoje.

 

P/1 – Ele é do Pajeú? Você não sabe. Você sabe de quem é o filho?

 

R – Então, agora já dá pra saber, porque o Gordo parece com a anta. É outra coisa, né, alegre, cheio de vida. Mas já dá pra perceber os traços. Mas quando o Gordo nasceu, eu não sei se Deus queria me enganar um pouquinho, ele era muito parecido com o Pajeú, o formato do rosto, sabe? Um tempo, eu falei: “Ai, que bom. Olha aqui”, mas depois com o tempo ele foi mudando, foi ficando mais pretinho. Hoje está claro pra mim. Mas a gente viveu um pouco essa... “Opa, e agora, né?” E era uma coisa que eu, o Pajeú e o Gordo sabíamos, porque o Gordo tinha que ir no hotel comigo, né? O Gordo ia, né, na minha barriga. E aí, qual é o pedaço da história? Vamos cortando...

 

P/2 – Você estava se preparando pra separação e você pegou ele de calça curta.

 

R – Isso. Que bom. Você guardou. Porque eu já tinha esquecido. E naquele tempo não tinha Maria da Penha. Não tinha essa coisa maravilhosa que tem agora, né? Bom... Aí eu fui assistente social do meu caso. Então eu falei: “O que eu faria numa situação dessas?”. Aí toda hora que batia, me empurrava, me xingava, eu ia lá, né? Colecionei BOs, né? Fiz vários BOs. Orientada pelo advogado. E daí a gente deu entrada no processo pra divórcio, pra... Não, era separação. Sei lá. Era uma coisa jurídica aí. E aí ele recebeu uma intimação, que ele tinha vinte e quatro horas, que ele tinha uma audiência. E aí pegou de surpresa. Porque eu falava: “Vou me separar”. E ele: “Que vai separar o quê. Vai morrer de fome se você sair daqui”. Aí ele comprou uma casa grandona, numa rua mais em cima. Eu falou: “Olha, a gente vai pra lá, as crianças vão ter cada uma seu quarto”. Ele não sai de casa. Gosta de casa que é uma beleza. Eu falei com meus botões: “Eu não vou pra lá. Eu vou ficar aqui e daqui mesmo eu já me separo”. Ainda eu pensei: “Não, eu vou pra lá porque a casa é mais bonita, é maior. Mas, não, eu vou ficar aqui que eu tenho meu motorista de táxi, se eu gritar tem a vizinha, tem a escolinha”, tinha tudo já, “Não preciso de mais nada”. Então foi meio na crocodilagem com ele, porque até se ele tivesse certeza, talvez, que eu estava fazendo isso, talvez ficasse mais violento. Sei lá. Eu sei que ele recebeu uma intimação. Aí foi lá no Fórum e eu estava lá, lógico, claro, eu e meu advogado. E aí ele chegou dizendo que ele ia ser advogado em causa própria porque se achava o advogado. Mas ruinzinho, viu? Bem fraquinho. Aí eu sei que quando ele chegou lá o juiz falou: “O senhor tem vinte e quatro horas pra sair da sua casa, porque você coloca em risco a integridade física da sua esposa e das suas crianças”. E aí, minha amiga, foi um negócio. Aí ele chegou em casa gritando. E tinha muita fotografia, aí ele pegou todas as fotografias pra levar, e aí aquele escândalo. E eu ainda achando que eu ia levar umas porradas antes, né? Aí eu lembro que tinha uma janela assim, eu pulei a janela, fiquei lá com as crianças enquanto ele saía. Aí, a Keity, né... Aí o Gordo tinha um aninho, tadinho do Gordo, né? Aí a Keity, né, essa que desencarnou, se suicidou, morreu com vinte e um anos, vai aparecer depois, ela era muito apegada ao pai. E ela viu ele naquele desespero, né? Aí ela foi até a porta, falou: “Pai, vai pra casa da sua mãe, fica lá descansando um pouquinho, que a gente vai ficar bem, viu? Amanhã eu telefono pra você”. Porque o tempo todo eu preparava eles: “Olha, agora vai acontecer isso, agora vai acontecer aquilo, agora a gente vai correr pra cá?”. E aí ele vai embora assim sem se conformar com aquela situação. E eu fico na casa com as crianças. E aí, eu me lembro que aí ‘pajeunando’, né? ‘Pajeunando’, ‘pajeunando’, e ele acompanhando, tal, não sei o quê. Daí eu fiquei livre, leve e solta. Arrumei meus cabelos, comprei minhas roupas. Era tudo que eu queria. Não tinha mais aquele ruído na casa. Aí, também caiu todas as outras fichas possíveis e imagináveis, porque aí eu saía com meus amigos, ia em boteco, teatro e tinha gente que vinha pra minha casa, ficava até mais tarde, a gente... Linda a minha vida, maravilhosa. Aí eu me lembro que... E o Pajeú lá, né? Bom, aí eu falei: “Bom, agora eu posso sair com o Pajeú no cinema, com o Pajeú num lugar, Pajeú com não sei quê, viajar com Pajeú”... Daí ele falou: “Não, eu não vou... A gente vai continuar desse mesmo jeito, né? Não posso me expor, não posso conhecer seus amigos, não posso não sei o quê”. Daí eu nunca mais liguei pra ele. Um dia eu acordei e falei: “Agora eu tenho que trabalhar muito, dar conta da minha vida. Agora eu vou ficar esperando ‘Ai, será que o Pajeú vai me ligar? Será que não vai?’”. Sabe? Parece que precisava... Ele foi terapêutico, né, até onde deu. Aí fiquei sem ver o Pajeú. Aí, há quatro anos encontrei o Pajeú e ele é meu namorado ainda, só que ele continua casado, só que agora a gente vai ao cinema, vai ao sarau, faz um monte de coisa junto, ele vai pra casa dele e eu volto pra minha.

 

P/1 – Então, fala um pouco mais pra gente: quando foi que você entrou na Febem? Como foi trabalhar lá?

 

R – Então, quando eu entrei na Febem foi bem quando entrei na faculdade também, né? E aí, meu primeiro contato com a Febem foi com meninas, e essas meninas... Lá chamava Casa do Aprendizado Doméstico. Então a ideia é que aquelas meninas aos catorze anos, elas iriam pra casa de família, porque elas eram abandonadas. Aí você abria os prontuários, você via um bebezinho, sabe, a carinha de um bebezinho, que foi encontrado não sei onde. Então nessa casa em que eu cheguei, elas já chegam lá com catorze anos, mas elas já tinham um histórico de institucionalização e abandono desde criança. E aí eu era inspetora de alunos, e eu não sabia bem o que eu ia fazer lá, né, porque eu tinha outra experiência. Mas a inspetora de alunos era aquela mãe, sabe, que acorda, que manda tomar banho, que separa briga, que vê como está o sapato, “Tá na hora de comer”, que... Então essa era a minha função e esse dinheiro que deu pra pagar a faculdade. E o interessante é que eu nasci em 15 de maio e 15 de maio é o Dia da Assistente Social, então acho que eu vim predestinada a resolver essas questões comigo mesma. Aí eu trabalhei nesse lugar e elas eram abandonadas, abandonadas na história, mas esse lugar preparava essas moças pra elas irem pra casa de famílias, que era onde elas teriam um lar, teriam um mínimo de estrutura, porque com dezoito anos elas tinham que sair de lá. Então essa era a mentalidade, né? Aí eu peço pra fazer estágio lá também, pra conciliar estágio social com o trabalho que a gente já fazia lá. E aí eu começo a ter autonomia, assim, autorização da assistente social pra falar: e se a gente não mandar só pra emprego doméstico? Pra onde mais a gente pode mandar? “É difícil, mas se quiser ver como é que a gente faz esse caminho a gente pode começar, né?”. Aí eu fiz alguns contatos com o Senai e aí elas fizeram alguns cursos no Senai. Elas estudavam dentro da instituição. Elas começaram a estudar fora. Então, tudo isso me propiciava um crescimento também, um desafio e crescimento. E na verdade eu estava fazendo com elas o que minha mãe fazia com a gente. “Olha, com catorze anos tem que tirar documento, não sei o quê, tem que estar...”, porque não tinha uma formação específica pra isso. E o fato interessante dessa casa é que tinha uma menina lá bem grandona, atleta, chamava Negão, e ela dormia no primeiro quarto. E aí tinha aquelas coisas, as inspetoras mais velhas quando viram eu chegar toda, com aquela voz de gato, que agora eu não tenho mais, falaram: “Olha, você vai naquele quarto. Às seis horas da manhã tem que acordar aquele quarto inteiro. E lá tem um problema que é a Negão, e ela não gosta que acorde, ela bate, ela faz e acontece”. Eu falei: “Ai, que legal, né? Mas vocês não podem ir comigo?”. “Não porque você é nova, você tem que aprender, não sei o quê lá”. Aí eu lembro que eu entrei no quarto e lembrei da minha infância, falei: “Como que a minha mãe me acordava?”. Aí aquela montanha maior era a Negão, né? E tinha que acordar ela porque como ela era liderança, se ela resolvesse que ninguém ia sair do quarto aquele dia, ninguém saía. Então tinha que negociar com a Negão. Então eu lembro que eu fui bem devagarzinho, com medo, lógico, mas eu fiz cosquinhas nela, daí eu fiz cosquinha, ela ria achando que era a coleguinha do lado. Aí ela descobre, eu falei: “Agora ela descobre, o negócio vai ficar feio”. Aí ela: “Ah, aquela tia nova com voz de gato”. Porque aí virou uma festa o quarto. “Você vem acordar a gente todo dia?”. Então eu fui começando a levar a minha cultura, né, e foi dando certo. E, nossa, aí a gente colocou em trabalhos, né? Saiu, abriu um pouco a instituição. Aí, o que aconteceu? Aí o Maluf, que Deus o tenha, ele tinha alguma coisa a ver com a Febem, então ele fez um levantamento de todas as inspetoras, todos os funcionários que estavam terminando a faculdade ou que tinham terminado, porque eles tinham muita dificuldade em encontrar pessoas pra essas unidades de infratores e esse povo que ficava mais confinado. E aí ele promoveu todo mundo. Promoveu todas nós que estávamos lá de inspetoras, de um dia pro outro, de um mês pro outro a gente virou tudo assistente social, né, tudo recém-formadas, né? E daí eu fui trabalhar nessa unidade de meninas. Quando que foi isso? Depois a gente tem que ver o tempo, que faz muito tempo. Depois de lá... Aí eu saí daquelas meninas que não tinham histórico de infração, pra pessoas que tinham tido uma vida fora da instituição e que tinham “infracionado”, gente que tinha matado, gente, enfim, era um terror. E a Febem era um depósito de meninas, né? E nós, os assistentes sociais, os letrados, né, a gente ficava tudo sentadinho em volta de uma mesa e o inspetor trazia a menina pra gente entrevistar. Eu até aí... E a gente está... E todo mundo igual. Todo mundo tinha se recém-formado, todo mundo tinha vindo do chão da fábrica pra dentro da instituição, então nós estávamos muito a fim de dar certo, de fazer um trabalho bonito e tal, com toda aquela violência que tinha dentro da instituição. E aí que eu tive a minha experiência forte, aí foi com a Silvia Afonso. Por quê? Porque ela entra na minha sala, se bem que tinha outras meninas, outras assistentes sociais, e aí ela dá um murro na mesa, joga todo papel no chão, aí eu falei: “Ai meu Deus, de novo violência, né? Tenho lá em casa, agora vou ter aqui”. Mas eu falei: “Então, mas e agora?”. A faculdade não tinha falado pra mim que alguém ia jogar meus papéis no chão, que aquela conversa bonita que eu tinha aprendido pra escrever para o juiz. E aí, a Silvia Afonso estava lá gritando na minha frente. Claro que vem o monitor e leva elas embora. Então aquilo ficou muito na minha cabeça. Aí eu lembrei de uma professora de Serviço Social, que falou pra gente: não é porque a gente termina a faculdade que a gente tá pronta, que a gente tinha que buscar supervisão, cada vez que achasse uma coisa nova. E aí eu fui buscar uma supervisora, e aí ela era psicodramatista. Aí foi muito legal, porque eu cheguei com um monte de livro, né? O livro que explicava porque que a Silvia Afonso... Ter uma noção... Tinha uma livreira, era uma livreira... E cheguei lá, quando eu contei toda a história pra ela, ela falou assim: “Então tá, então estes livros todos que você trouxe, você pode pôr pra lá?”. E eu com os meus botões, né? “Eu pago uma fortuna pra ela me dar supervisão e ela não quer nem ver o livro que eu trouxe aqui, né, a minha ignorância sempre me acompanha”. Aí moral da história, aí ela falou assim: “Então vamos fazer o seguinte, é... Como foi que a Silvia Afonso fez?” Ela começou a dramatizar, uma hora ela era a Silvia Afonso, outra hora eu era, né, ela entrava no papel, achei aquilo lindo, né, e aí ela não dava a resposta, eu que tinha que achar a resposta, eu falei: “Como é que você se sente, quando acontece isso com você, como é que você tem que fazer?”. Então ela falou assim: “Essa forma da Silvia Afonso, é porque ela sempre teve que gritar muito pra ter alguma coisa e a instituição favorece esse tipo de violência. Então você tem que se aproximar dela sem papel sem nada, sentar e ver como que ela passa o dia, você tem que mudar a postura né?”. Só que a gente ficava aqui e elas ficavam ali fora gritando: “Quero falar com a assistente, quero não sei o quê lá...”. Sabe assim? Então a gente não era autorizada a sair pra lá, tinha que ficar aqui. Aí eu pedi pra sair. “Ai, não, mas você vai dar problema pra gente, porque vocês vão sair, eles vão avançar em você, não sei mais o quê”... Mas eu estava tão respaldada pelo psicodrama, né, que eu ia ter que interagir, tipo eu e ela, olho no olho, não tinha mais livro, não tinha papel, né? E aí eu consegui sair e ver onde ela dormia, e aí fui ao quarto dela, aí comecei a sair de dentro do casulo e invertia a prática. Isso também me ajudou muito a nível de postura né, de enfrentar medos, né, de estar com a pessoa independente do papel: “Não. Eu sou assim, então eu sou assistente social, eu tenho que estar assim, eu tenho que estar assado”, aquela rigidez do papel, né? A Febem era realmente uma coisa muito complicada, porque a violência sempre instaurada, mas isso era como que natural, era como se fosse necessário que assim fosse, elas só respondiam a essa linguagem.

 

P/2 – Agora, não entendo. Conta pra mim como é, quanto tempo... Porque você está contando, mas resumidamente. Quanto tempo dura esse processo de, de repente, mudar essa prática, sair da mesa e ir pra lá? Quanto tempo isso dura? Como vai acontecendo, assim?

 

R – Isso. Então, tinha que fazer a conta, ver quando é que eu me formei, pra depois a gente colocar isso temporalmente na história, né? Mas dessa... Eu fiquei, por exemplo, a gente foi pra esse lugar, ficamos lá... Acho que eu fiquei lá bem uns três anos. E no começo eram todas recém-formadas, nós todas em experiência, nós éramos altamente teóricas, sabia o nome de tudo, mas não tinha essa prática de interagir. Eu acho que quando eu coloquei, eu quis dar certo, né, que foi buscar supervisão, eu acho que eu já tinha uns dois meses, foi recente, porque eu tinha tanto medo do fracasso, né? Falei: “Não, agora eu sou assistente social, mas vou ser demitida por incompetência, porque o que eu vou fazer com essa menina gritando na minha frente, né?”. E aí então foi um prazo de dois meses, só que eu fui quebrando um pouco o que estava instituído na instituição. É lógico que eu não ficava tanto tempo lá fora, né? Fui pra ter material pra discutir com a supervisora, tudo, né? E aí eu me lembro que eu mudei muito a minha escrita, porque antes eu já tinha até relatório pronto para o juiz, porque eu pegava dados na enfermaria, dados não sei aonde, dados não sei aonde e montava a história. E depois eu comecei a contar... Saiu um relatório das relações, onde é que a Silvia Afonso perdia a paciência, porque é que ela dava aquelas respostas, comecei a ter um vocabulário mais autêntico, né, menos compromissada com a linguagem técnica. E aí, o que mais eu posso contar? Então, nessa época era muito interessante porque era tudo assim, o formato da instituição, né? Era... Os inspetores de alunos mais valorizados eram os mais bravos, os mais violentos. E no caso da Silvia Afonso eu aprendi muito, porque eu ia procurar a Silvia Afonso, a Silvia Afonso estava dormindo. Aí eu ia ver porque ela estava dormindo, porque ela bateu numa funcionária de manhã. Aí eu ia ver porque que ela bateu numa funcionária de manhã. Porque funcionária foi acordar ela e chutou a porta. Aí ela era medicada pelo psiquiatra. Então eu comecei a... Junto com a supervisora, claro, porque sozinha acho que eu não ia ter tanta elaboração. Aí a gente começou a discutir que tudo era contenção, a medicação era contenção, tudo, o serviço social era contenção, né, porque a gente tinha o poder de dizer para o juiz se a menina continuava internada ou não, né? Então a gente conseguiu discutir a instituição e isso foi mudando a minha postura. E foi nessa época também que eu... Que ela falava também pra mim: “Ah, essa seu cabelinho alisado, aí, e essa voz de gato, que não sei mais o quê, e não sei mais o quê”, aí eu falei: “É mesmo, porque que eu tenho que ficar com o cabelo alisado?”. Então era como se o cotidiano da instituição dava um reflexo na minha... Eu era parte daquela mudança também, né? E daí eu me lembro que eu fui ficando lá e depois mudou um pouco a equipe técnica, começou a ter uma reflexão menos de contenção, a gente teve uma diretora também, porque tudo vinha de cima, né? E chegou lá de repente uma diretora que era “anti pancadaria”. Aí foi muito legal porque a gente aprendeu que dava pra fazer de um outro jeito, né? E aí ela montou uma proposta de trabalho que cada pessoa tinha, por exemplo, eu tinha a Silvia Afonso e mais cinco meninas. Mas a gente fazia roda de conversa, acompanhava com a professora... E isso deu, já mudou a estrutura da instituição porque as salinhas da gente fechadinhas, já puseram as salas da gente lá fora, então já diminuiu a ansiedade porque elas estavam vendo a gente o tempo inteiro, né? Então eu consegui saborear, de alguma maneira, diminuir a pancadaria. Mas tinha pancadaria. E aí tem essa menina, a Sandra Herzer, que eu lembro um dia que o Suplicy foi um dia nessa instituição e ele queria saber se tinha alguma menina que tinha mania de escrever e de ter diário, né? E a Sandra Herzer escrevia o diário dela. Aí ele meio que adotou a Sandra Herzer. Tirou a Sandra Herzer da instituição e levou ela pra trabalhar na Câmara, e ajudou ela a publicar o livro dela. Agora, ela se dizia Sandra Herzer, ela gostava que a chamassem de Herzer. Por quê? Depois vai ver as loucuras, né? Ela tinha entrada na instituição por drogas. Via-se que era uma menina diferenciada, né? Um português, uma liderança assim, não era tão daquele outro mundinho que a gente conhecia, né? E aí eu fui ver a história dela, ela tinha um namorado que chamava Herzer, ele gostava muito de moto, e ele morre de moto e ela está junto. Então diz que o menino morre e quando ela volta do trânsito ela passa a se auto chamar Herzer. Aí ela se vestia de homem, igual, camisa... Era um menino, cortou o cabelo. Ela era Herzer. E ela sai da instituição de terno. E o Suplicy banca ela com essa personalidade, a Herzer. Ela trabalhou lá na Câmara Municipal. Aí sai o livro dela. Vou até procurar pra ver se eu encontro no sebo. Lá ela conta os horrores da instituição. Chama A Queda para o alto. Só que depois de um tempo, eu fiquei sabendo que ela se suicidou, ela pulou lá do viaduto. Não sei se em algum momento ela encontrou a que não era mais nem a Herzer, nem a Sandra. Não sei. Sei que o livro dela foi publicado. E aí conta um pouco essa coisa feia que foi a instituição, né? E a gente estava lá no meio de tudo isso. 

 

Aí eu peço demissão. Peço demissão, não. Essa diretora que vinha abrindo tudo, abrindo portas, tratando as pessoas como gente, tinha uma proposta pedagógica de oficinas, grupos operativos, então as meninas entravam do jeito que elas sempre foram, falando palavrão, xingando, não sei o quê. E a ideia é que a gente fosse capacitada pra trabalhar os conflitos ali na hora. Parava tudo, vamos pensar nisso. Rendeu muito com ela, porque ela tinha uma proposta pedagógica, que ninguém falava nisso, só em conter. E aí foi demitida essa diretora. Na Febem tinha muito isso. Quando saía a diretora, saía toda a equipe que pensava igual. E política, ‘politicaiada’. Eu sei que até nisso deu certo a minha demissão. Porque daí eu saio da Febem. Recebi um monte de dinheiro, porque eu já estava na Febem bem uns oito anos, uns dez anos, sei que era muito tempo. E aí eu pego esse dinheiro e vou fazer o meu divórcio, porque era caro fazer, pagar advogado, né? Então a Febem que eu me lembro, que eu convivi foi essa. Depois, há pouco tempo, um amigo meu de tempos atrás foi pra Febem de diretor... Febem é tudo amigo meu. E ele era dessa linha de abertura, do diálogo, da proposta. Aí ele chama a gente pra ir com ele. Aí nós ficamos, acho que eu fiquei lá uns três meses, mas, assim tipo fazendo tudo que a gente tem vontade. Fazendo algumas intervenções. Não era pra bater, não é assim que trata. Mas é claro que depois ele caiu e a gente saiu. Mas hoje eu tenho pra mim que Febem nunca mais, né? Eu acho que você percebe a sua impotência, você sabe que uma criança ou outra criança, que de alguma maneira você sabe que naquele momento você passou um pouco de dignidade, de tranquilidade, sei lá eu do quê, mas você não consegue interferir na máfia, a zona que está ali, né? Mesmo mudando de fundação, casa. Hoje a proposta não é casa, porque há pouco tempo tinha a senhora que tem um filho lá. Então eu acho que hoje eu não voltaria pra lá nem como diretora, presidente... Porque ia primeiro abrir a porta, depois pensar, né? Então acho que eu fiquei um pouco... Amadureceu que essas realidades onde se trabalha com contenção, com a violência, não sei o quê, bate uma impotência e você não consegue fazer muita coisa.

 

P/2 – Você via, de alguma pessoa que você acompanhou, você viu realmente... Talvez alguma menina que você acompanhou, você tenha visto ela sair de lá e construir uma vida e tal ou não, você nunca viu esse resultado?

 

R – Não. Não, depois a gente não... Não encontrei. Aliás, eu encontrei uma menina, faz tempo, se você for me perguntar o tempo eu não lembro, a Claudiane, né, que era desse lugar, e eu encontrei ela... Porque eles tinham uma ponte pra colocar as meninas pra trabalhar naqueles empregos, procuradoria, esses empregos públicos, né? Mas essa não era da infração, era abandonada e aí ela estava trabalhando num lugar assim, tranquilo. Encontrei com ela, ela me chamou: “Tia Odenizia”, lembrou de mim. Tinha uma outra que eu encontrei, também das abandonadas, encontrei uma vez no metrô, mas você não tem... Elas estavam bem essas, uma estava trabalhando a outra tinha casado. Mas aquela da infração mesmo, que já tinha um histórico de submundo, de já ter estado nas drogas, essas eu nunca mais encontrei.

 

P/1 – Então a Febem coincidiu com seu tempo de casamento aí com o Carlos.

 

R – Isso. Isso.

 

P/1 – E você saiu mais ou menos quando vocês se divorciaram?

 

R – Isso. Então, olha, a Febem entrou na minha história quando eu não sabia como eu ia pagar a faculdade e daí eu faço a faculdade pagando com o dinheiro da Febem, e depois eu saio da Febem e pago o meu divórcio com o dinheiro da Febem. Então a Febem pra mim foi uma escola nesse sentido, de você falar: “Eu passei bem, bem por aqui”, mas deu uma sustentação interessante de aprender a trabalhar em equipe, de aprender a discutir alguma coisa e de, ideologicamente, você se posicionar com mais segurança, né?

 

P/1 – E aí o que você fez em seguida da Febem?

 

R – Então, aí eu separei, tudo, fiz tudo que eu tinha que fazer. Aí eu me lembro que eu estava em casa, já tinha feito o divórcio, não estava trabalhando, nada. Aí eu estava pensando o que eu ia fazer, aí eu pensei: “Vou tomar conta de criança de noite ainda, porque deve ter mãe que não tem onde deixar os filhos”. Estava imaginando tipo minha mãe, meu pai, falei: “Vou ter que intuir aqui um jeito de chegar o dinheiro, né?”. E aí eu recebi um telegrama... Porque aí eu comecei a dar meus currículos pra um monte de gente, passando meu currículo, aí eu recebo um telegrama pra trabalhar numa casa de mulheres em situação de violência doméstica. Eu falei: “Aha, agora eu acho que o Homem lá de cima falou ‘tudo bem, já apanhou, você sabe como é que faz. Agora você vai pra lá pra você ver o que é bom pra tosse’”. E esse lugar tinha um convênio com a Febem, né? Então depois eu fiquei sabendo que a minha amiga que entregou o meu currículo, ela que tinha feito meu currículo chegar na mão daquela delegada que abriu a primeira delegacia da mulher, acho que é doutora Rose. Eu sei que o meu currículo não sei como, não sei quem foi essa pessoa abençoada, eu sei que eu fui pra esse lugar. E era uma época em que eu não sabia bem como que eu ia me ajeitar com dinheiro, como que eu ia me sair dessa situação. E aí eu fui trabalhar nesse lugar. Como que era? As mulheres denunciavam seus maridos e aí elas podiam morrer, né, porque denunciou, aí elas iam pra esses abrigos que era... Chamava Com Vida, era Centro de Convivência de Mulheres em Situação de Violência. Então aí eu tive oportunidade de ficar do outro lado, né? Então elas chegavam muito caídas, muito... Mas tinha uma equipe de psicólogos, tinha uma equipe que queria que as coisas acontecessem. E eu me lembro que ficou muito claro pra mim, que a partir desse momento de chegar, de se descobrir e fugir, não sei o quê, tanto tinha aquelas altamente dependentes, que até o tapa que o marido dava nela valia a pena porque ele dava um prato de comida, como tinha aquelas que de alguma maneira já tinham cansado. E eu lembro que tinha um negócio de pentear cabelo, passar batom, não sei o quê. Era muito engraçado. Você via elas tudo caidinhas assim, daqui a pouco você via, passou um batom, tingiu o cabelo: “Olha, você tem um emprego pra mim?”. Porque afinal de contas mulher é isso, né? Vai lá no fundo, mas volta. Eu sei que daí foi muito legal. Consegui encaminhar um monte de trabalho interessante. Era a minha contra história, né? Do outro lado. Aí era o Barnezer. Lembra do Barnezer? Eu sei que o Barnezer era o grande patrocinador. A gente ficava com um monte de dinheiro. Eu lembro que eu ligava para os meus amigos e perguntava: “Está tudo bem com dinheiro? Você está precisando de alguma coisa?”. “Ah, se você puder pagar uma luz, fica legal”... Era uma outra família que eu tinha arrumado e era muito gostoso. Mas aí mandaram a gente embora, que era um convênio, coisa de político. E aí eu sustei de novo, né?

 

P/2 – Quanto tempo você ficou lá?

 

R – Acho que uns cinco anos. Eu perco essa coisa do tempo.

 

P/2 – Teve algum caso marcante?

 

R – Bem marcante? Eu acho que tinha uma moça só que eu lembro tanto, a Palmira, que eu fui falar o nome dela e do rosto dela... Então a Palmira era uma moça bonita e chegava lá com os filhos, porque o jeito de fugir com filho e tudo, né? E aí a gente conseguiu fazer uma parceria com um lugar que lidava com a questão jurídica. Porque também elas tinham que querer. Porque às vezes era uma fase, queriam porque estavam com medo, depois já não queriam mais. E a Palmira, a gente conseguiu seguir a rota, a meta. Ela fez o divórcio dela, né? Teve o aparato jurídico que acompanhou. Depois, assim, a gente conseguiu conversar com o marido, conseguiu ouvir o marido de alguma maneira, e ele chorava muito, aquelas coisas, que ele não queria. Eu sei, mas, ela estava decidida a não voltar e ela não voltou. Mas conseguiram... Aí a gente conseguiu um trabalho pra ela, eu acho que era num estacionamento, que ela ficava só recebendo aqueles papeizinhos pra quem ia estacionar. Só que ela ficou muito feliz porque era um hotel, uma coisa assim, porque ela foi aprender inglês, porque pra ela receber... Acho que era um hotel, porque eram uns carros chiques que entravam ali. Eu sei que ela foi mudando, ela cresceu, ela [começou a ] se pintar, as crianças. Essa foi a última imagem assim. E tinha umas mulheres que a gente tinha vontade de chorar porque ela ia voltar correndo pra toca, né, de onde ela não devia ter saído entre aspas, porque ela tentou, mas ela não ia, né? O que mais?

 

P/1 – Você se mudou da casa que você morava quando você se divorciou ou você continuou morando no mesmo lugar?

 

R – Continuei morando lá e isso também foi uma ferida muito grande para o Carlos Walter, porque ele tinha expectativa que eu saísse de lá, né? E eu não saí. Então até hoje tem um monte de processos que ele vai fazendo pra ver se me tira de lá. Mas as crianças... A Cintia tem trinta e um,o Gordo tem vinte e sete, a Keity parou nos vinte e um, né, e não saí de lá, porque eles foram criados lá, né? E isso virou pra ele uma obsessão. E hoje ele é uma pessoa esquizofrênica, chapada, assim, sabe? Ele está louco. Simplesmente louco. Ele foi enlouquecendo. 

 

P/1 – Ele ficou sozinho depois que vocês se separaram?

 

R – Ele teve uma filha, mas as mulheres não ficam com ele, porque acho que ele vai sempre nessa agressividade. E hoje, eu tenho muita pena da minha filha, a Cintia, é a única que era mais amiguinha dele, né, os outros dois foi mais difícil. E ela que cuida dele, leva pra clínica, compra os psicotrópicos, manda fechar a porta, abrir a porta, porque ele está completamente fora da realidade. E aí ele fala o tempo inteiro: “Eu quero minha casa. Ela tirou a minha casa. Por que ela não saiu da minha casa?”. Virou um disco...

 

P/1 – Riscado.

 

R – Riscado. Mas judiou muito da gente ainda, né? Porque, enquanto eu ia trabalhar, ele ia lá fazer escândalo, as crianças ficavam com vizinhos ou na escolinha, me ligavam: “Ah, o papai está aqui, ele falou que vai fazer...”. Sabe? O tempo inteiro ele se manteve na postura dele. E aí, eu fui procurar outro emprego... Falar de coisa boa, né? Pelo amor de Deus. Então, esse trabalho aí do Centro de Convivência, a gente tinha que ir embora porque tinha que ter salário. Aí eu lembro de dizer: “Agora eu vou procurar emprego igual eu fiz para as mulheres, por telefone”, porque eu não sabia nem mais fazer currículo, o que colocar no currículo. E aí liguei pro CRESS, que é o Conselho Regional de Serviço Social. Aí tem lá um banco de oferta de trabalho, né? Aí estava lá assim: “Precisa de assistente social para recuperação de famílias e pessoas”. Eu achei estranho, mas eu gostei daquilo. Aí mandei o currículo pra esse lugar aí. Aí eu fui pra entrevista, era um escritório de advocacia, sabe? Um negócio ali na Liberdade, todo envidraçado. Falei: “Nossa, o que essa pessoa...?”. Porque eu nunca tinha trabalhado fora de instituição. Era sempre institucionalizada. E eu falei: “E aí, eu vou vender como a minha marca? A minha...”. E aí eu fui pra esse lugar, cheguei lá e encontrei esse senhor, leu o meu currículo, não sei o quê, muito bom de conversa. Aí eu dizia pra ele: “Mas o que o senhor sinceramente imagina que uma assistente social pode estar recuperando pessoas e recuperando família? Uma coisa assim pode não acontecer, recuperar”. Menina, ele respondeu: “Você sabe...”. Na verdade ele era espírita, e aí espírita convicto, então ele tem pra ele que ele tem sempre que estar fazendo algo pelo outro. E ele disse que àquela altura da vida dele estava tão voltado para o trabalho dele, que é auditoria, que é advocacia, e que ele sentiu falta de ter uma assistente social que fosse onde a dor estivesse, né? Olha só. Aí conversei, contei todas as minhas trajetórias, e aí marca, desmarca, fica, não fica. Aí eu achei, eu falei: “Ele está me enrolando, né? Ele não vai me contratar. Eu tenho que comer, tenho que sustentar meus filhos...”. Mas aí ele me chamou e disse o seguinte, que pelo meu curriculo, pelo meu histórico ele não achava que eu tinha que ficar dentro do escritório trabalhando com os funcionários dele ou coisa parecida, que ele gostaria que eu fosse visitar o amigo dele que estava internado num hospício na Vila Mariana. Mas porque ele acreditava, e realmente era isso, que era só um surto psicótico e que ia melhorar. Enquanto isso a família já tinha vindo não sei da onde pra interditá-lo. Ele falava: “A sua tarefa é não deixar que a família interdite. Porque isso passa e aí quando ele voltar, ele não tem nada”. Aí eu falei: “Mas, então tá. Então eu vou lá, visito o hospital, vejo quem é esse homem...”. Ele falou: “E tem mais, não pode falar quem mandou você lá”. Falei: “Então, tá”. Aí eu fui... Aí eu sabia fazer isso, né? Falei com o médico, ver qual era o diagnóstico, me aproximar do paciente, não sei mais o quê... Aí, “esquizofrenia não sei das quantas”. Eu aprendi uma porção de coisas e aí eu ia dando retorno pra ele. Quando ele teve alta, eu tinha uma amiga que não estava fazendo muita coisa da vida aí ela acompanhava o Arlindo por onde ele ia porque corria o risco dele se suicidar. E o Arlindo se soltou, acabou o surto psicótico dele. E aí esse senhor aí, doutor Silvio, ficou muito agradecido. Ele achou que tinha uma coisa meio que espiritual de eu conseguir resolver o problema do amigo dele que ele jamais estaria podendo fazer. E daí eu falei: “Mas eu não sei como se cobra, né, doutor Silvio. Porque eu tinha um salário, agora não tenho. Eu preciso de salário”. “Então vamos ver quantas visitas você fez, vale tanto, quantas conversas com o médico, quantas...”. Eu sei que ele me deu um monte de dinheiro, um monte de dinheiro. “Mas você tomou um táxi?” Um monte de dinheiro. Ele falou: “Então, é assim que funciona o trabalho autônomo. Você na instituição é assim, agora não, você cobra tudo que você fizer”. Ah, eu achei aquilo... Formidável, o doutor Silvio. Até hoje ele é meu patrão vitalício. Olha só, não sei quem que mandou ele. Mandaram ele pra mim. E daí já contei as histórias da anta pra ele, porque precisa contar. Aí a anta mandando os processos. Então ele falou: “Você não se preocupa com os processos porque aqui é um escritório de advocacia, a gente cuida dessas coisas. Vamos ver o que ele quer, o que ele não quer, nós vamos te defender o tempo que precisar e você fica à nossa disposição. Porque agora, por exemplo, você fez o caso com o Arlindo, e eu tenho uma preocupação grande com essas profissionais do sexo, como será que a gente pode trabalhar com elas?”. Então ele dava o tema e eu ia onde estava a situação e aí voltava, sempre voltando pra ele. “Olha, eu, o que a gente pode ajudar mesmo, por exemplo, é a Maria que o bebê dela nasceu um dia desses e ela precisa registrar”. Então de cada situação a gente pinçava uma possibilidade de ajuda que a gente foi descobrindo que a gente também não era Deus, por mais que a gente quisesse, a gente não resolvia tudo, né? E aí o caso mais marcante que eu estou com ele até hoje. Depois eu conto como. Aí um dos casos... Espírita, né, então ele sempre acredita que... Eu falava: “Eu não vou conseguir resolver”. “Odenizia, você acha que você está sozinha nessa história? Olha só quanta gente”. Aí eu vou e devo ter, porque não é possível, porque eu vou e volto. E aí, o caso mais interessante que ele me passou, que daí virou o tema de conclusão do curso de terapia familiar de casal e virou depois, né, porque até então não era, era só assistente social. Mas ele falou: “Olha, essa moça, ela é voluntária numa casa de crianças portadoras de necessidades especiais e o meu amigo falou que a gente tem que ficar de olho nela porque ela quer se suicidar”. Falei: “Então, doutor Silvio, o que é que a gente vai fazer?”. Ele falou: “Não sei. Você sonda e vê onde a gente entra nessa história”. Aí eu cheguei nessa moça mas com o nome do Arnaldo porque não é pra falar quem eu era, de onde eu vim, imagina. Aí eu falei: “O senhor Arnaldo está muito preocupado com você e eu sou assistente social. E aí ele pediu pra eu estar por perto. Pra você ir contando se precisa de alguma coisa. Pra você saber que qualquer coisa você chama a gente, a gente pode não ter a resposta, mas a gente procura”. Enfim, fui chegando, fui chegando, que nem a gente chega na comadre que você encontra no posto de saúde. E aí ela permitiu que eu estivesse meio perto dela. Aí eu chego lá no doutor Silvio: “Doutor Silvio, ela está muito preocupada porque o dinheiro dela acabou e o sonho dela é fazer uma faculdade”. Que ela vinha de uma pobreza extrema, então aquela faculdade era o boom da vida dela. Aí ele falou: “Então você fala com ela que a gente vai dar o dinheiro pra ela fazer a faculdade. Aí, você vai inventar de onde saiu esse dinheiro”. Falei pra ela que eu fazia parte de uma ONG que nem ficava aqui no Brasil, só tem alguns representantes e que eles escolhem algumas pessoas, algumas situações pra patrocinar, só que ela tinha que me dar nota, tinha que não sei o quê, tinha que me contar como que ela venceu, se auto superou. Enfim, que ela não podia morrer, né? De preferência, não. Daí ela tinha uma coisa de desenho, ela gostava de desenhar, e cada vez que eu encontrava com ela, ela me dava um desenho, que ela estava triste naquele dia, que aquele desenho queria dizer tal coisa, que não sei o quê. Aí eu levava os desenhos para o doutor Silvio e a gente contava dos desenhos... Ela também foi discreta, ela não forçou tanto a barra pra saber quem é que está pagando a faculdade. Ela fez Direito. Terminou a faculdade. Não morreu. Depois fez Economia. Grande Selminha. Maravilhosa. Linda. Casou. Tem bebê, tem tudo. E daí quando eu abri consultório, eu chamei ela, porque eu abri o consultório como estagiária de terapeuta, eu tinha que fazer algumas coisas, fazer alguma coisa de consultório por causa da supervisão pra eu ter o diploma, pra eu ter a tese. Daí eu peguei a história dela e ela recontou de lá pra cá como é que foi e como ela se auto superou, e virou o meu TCC de terapia familiar, que a gente trabalha com a história dominada, né, a história que só vê o lado triste e a história que você transforma. Aí eu chamei de Ateliê de um Sentido para a Vida, porque eu coloquei todos os desenhos dela nesse trabalho. E esse é o presente que eu dei para o doutor Silvio, né? Porque eu investi e investi e olha: “Esses aqui, fica aí na sua história”. E hoje eu trabalho com ele porque eu trabalho nas Casas André Luiz.



P/1 – Então você estava trabalhando nas Casas André Luiz...?

 

P/2 – André Luiz.

 

R – Então, vou pegar um pouco da minha parceria com o doutor Silvio, eu fui fazendo vários trabalhos como autônoma, recebendo como autônoma e em várias realidades, e o interessante da história, o grande contrato, é a gente trocar a experiência de crescimento, o quanto que a gente pode ajudar alguém, o quanto a gente não pode, o quanto que a gente também se ajuda nessa relação, né? E aí, hoje eu estou... Um pouquinho antes de hoje eu me lembro... Colocando um pouquinho a história do doador de esperma, o doutor Carlos Walter, eu me lembro que quando ele saiu do casamento, do jeito que ele saiu, ele disse o seguinte: “Você vai parar embaixo de um viaduto”. Ele me rogou essa praga. Aí, o primeiro viaduto que eu fui parar foi a Fraternidade Irmã Clara, que esse meu parceiro profissional me encaminhou pra lá, com meninas, com pessoas portadoras de necessidades especiais. Então de repente eu vim da criança, do adolescente, da mulher em situação de violência doméstica, pra uma criança aparentemente passiva, que é a portadora de necessidades especiais, e aí eu tive muita dificuldade de aprender a fazer esse trabalho com essa criança, que não me xinga, não pula o muro, não rouba, não mata e está ali olhando pra mim, ou não, né? E aí isso foi muito legal porque eu aprendi esse relacionamento, aprendi que pra gente se comunicar quanto mais natural, com a sua alegria, com a sua tristeza, que eles te respondem no sentimento, você aprende a prestar atenção nisso, nessa sensibilidade, né? E aí eu me lembro que eu comentei com ele, falei: “Olha que legal, doutor Silvio, a primeira praga do Carlos pegou em mim, eu fui parar embaixo de um viaduto”. Ele falou: “Pra você ver que até nisso a gente está colaborando com ele e tal”. Pra que eu estou falando do viaduto, né? Pra gente depois ir pra outro viaduto que é a tenda, né? Só que, assim, nesse ínterim, né, eu fiz a pós-graduação, enquanto teve esse contato com essa história. Então, o doutor Silvio meio que permeando o meu processo de subsistência financeira e de trabalho livre, de poder estar... Tanto é que hoje eu estou nas Casas André Luiz, mas eu trabalho com morador de rua porque uns amigos me convidaram e eu achei legal, eu falei: “Ai não, eu estou muito guardada, né, muito protegida”. Eu estava ali, eu estava no consultório também, que depois eu fui atendendo famílias, mas aí eu achei meio triste, você não via muito as coisas, as pessoas voltarem à vida, né? Então foi alguma coisa que eu passei, assim, sabe como uma sombra, você não...? Aí quando me chamaram pra fazer esse trabalho com morador de rua eu já estava pensando numa história de mais ação, né? E nesse ínterim também eu fui fazer teatro, porque eu queria dar... A Keity já tinha falecido, eu já estava assim mais... Sentindo falta em mim de algumas coisas, aí eu fui fazer teatro acreditando que ia me dar uma energia diferente, que era uma energia totalmente fora do que eu vinha fazendo, né? Aí fiz teatro no Senac. Participei de uma peça cômica, que era, acho que, do Molière e eu era uma empregada que depois ficou rica, né, e muito engraçada, ela faz muita confusão, a primeira coisa que ela faz quando ela fica rica é comprar uma vassoura nova e encher de plumas... Eu tenho a vassoura até agora, podia ter trazido a minha vassoura. Daí depois faço um drama, que é O despertar da primavera, que eu esqueci o nome do... É um dramaturgo expressionista. Aí eu fui uma barata, porque eu me inspirei naquele Metamorfose, né, porque o contexto da peça era todo deprê, era gente muito ruim. Aí meu amigo me fez uma barata, eu saí baratando e tal, foi muito legal. Aí acabou essa emoção, não tinha mais palco, não tinha mais nada, né? Fui participar de grupos de estudo pra ser atriz, mas aí que eu fui trabalhar com morador de rua, porque eu tenho uma amiga que conhece o Pitanga, que o Pitanga ele é mentor de uma ONG que chama Batacotô. Esse Batacotô, ele trabalha com a cultura negra, com dança, com esse tipo de coisa. Na verdade, o Pitanga é um dançarino, é um bailarino. E Batacotô quer dizer um grande tambor que chama os deuses. E aí esse Batacotô, essa ONG, faz parceria com a Prefeitura, com as tendas, que é uma tenda mesmo, assim tipo um chapeuzão, assim, que fica embaixo do viaduto. Então a segunda vez que a praga pegou. Lá estava eu debaixo do viaduto, literalmente embaixo do viaduto. E aí fui muito entusiasmada porque era novo, trabalhar com morador de rua adulto, criança eu já tinha trabalhado, né? E foi muito interessante. E aí a primeira coisa que eu fiz foi também tirar a mesa de lá de dentro, porque eu tinha aprendido que não é ficar escondida, e coloquei a mesa do lado de fora, e tinha um monte de tranqueira, que eu gosto de tranqueira, né, que eu pus uma panela de ferro... E eles sentavam ali e cada coisa daquilo ia trazendo uma história, né, e foi muito legal, eu estava apaixonada pela ideia, que agora eu também sento na calçada, eu entro embaixo do viaduto. E aí eu fiz um texto até, que eu escrevi Elogio, sim, a essas pessoas, né, porque aquilo veio... Eu falei: “Gente, como é que essas pessoas conseguem?”. E eu fui ficando lá. Depois teve alguns altos e baixos. Aquela turma mais encantada com tudo desapareceu, as pessoas começaram a ficar mais arroz com feijão, aí não dá tanta... Ficou meio estranho lá, né? Eu falei: “Ai, meu Deus, está na hora de eu ir embora, né?”, que acabou a festa, não acontece, vai fazer uma coisa não pode, esbarra, né? Eu comecei... Mas o mais interessante era o relacionamento com essas pessoas, você poder passar embaixo do viaduto, um te dá tchau, outro não sei o quê, vem, te conta uma história, isso foi legal, né, a comunidade moradora de rua. E aí quando estava bem achando que estava na hora de eu ir embora, eu encontrei um amigo meu, José, que também trabalhou com instituição e ele também é espírita, então ele tem essa coisa de doação, e ele é artista, ele cria, né? Aí eu falei: “Olha, Zé, se um dia eu precisar eu te chamo porque eu acho que eu vou precisar, porque aquela realidade lá está muito branco e preto, muito cinza, não sei não se eu vou aguentar ficar lá, né? Aí chegou o Natal, eu tinha um monte de bugiganga, latinha, não sei o quê, e eu sempre chamo um: “Ah, vocês não querem me ajudar?”, aí eles fazem um pouco e param. Aí eu vi que a casa ia ficar feia, porque o grupo em volta não tem essa preocupação, né, Natal. Problema seu, você quer fazer... Aí eu liguei pro Zé, falei: “Zé, vai ser horrível o Natal aqui porque eu não tenho dinheiro, a casa tem que ficar bonita, não sei o quê lá”, aí o Zé foi lá, deu uma olhada em tudo, no dia seguinte ele veio com uma malinha um pouquinho menor que esse, trouxe uns panos. Sabe aqueles panos que parecem bicho, assim, meio de veludo? Fez uma árvore de natal de pano, pendurou um monte de latinhas. Aí tenho uma carroça, porque teve uma época que eu fiquei tão apaixonada por tudo aquilo que eu falei: “O lugar de guardar minhas coisas aqui na tenda vai ser uma carroça”. Aí mandei fazer uma carroça com placa e tudo – Carroça do Sonho, e 15 de maio de 1950. Então tudo eu ponho na carroça, bolinha, tudo, está lá. Aí ele puxou a carroça pra fora, ele pôs um monte de enfeites. Aí no André Luiz tinha uma coelha bem grandona, assim, que eles fizeram de sisal, aí o pessoal falou assim: “Essa coelha tem dezenove anos aqui, ninguém mais sabe o que fazer com ela”, eu falei: “Ah, eu quero a Andréia Luiza”. Aí a gente fez uma decoração. O Zé, né, eu não. Pôs a carroça aqui e a Andréia Luiza como se ela estivesse puxando a Carroça do Sonho, né? E aí o Zé entrou na tenda junto com a gente. Sabe quando começa a colorir tudo. Aí tem uma estagiária também que está fazendo o TCC dela em cima da questão do morador de rua. Então, assim, a gente foi buscando o sentido com gente que sente parecido, né? Aí eu falei pro Zé que uma coisa que devia ser bem legal era fazer aniversário, porque eles não têm muito a questão do tempo, fica meio jogado. Aí lá vai o Zé e me traz bolos artísticos, o último domingo do mês. Vocês vão lá, né? Pra vocês verem isso, né? Daí eu falei: “Ai, Zé, mas eu estou tão preocupada porque esse negócio de roupa é muito ruim. Porque eles vivem no chão com a roupa e quando eles perdem uma roupa, eles colocam uns negócios lá, eles vão lá e fuçam... “Eu tenho que resolver esse negócio, tem que ser uma coisa bonita”. Aí nós conversamos: “Mas como é que a gente vai fazer? Roupa eu consigo”. Porque ele consegue mesmo. Aí ele trouxe um monte de roupa bonita, colocou lá num canto, e eles pagam com a latinha. Um sapato, dez latinhas. Aí um falou: “Ah, me dá uma camiseta, eu não tenho”, eu falei, “Então, aqui no Shopping Lata você é um cliente, você não é um pedinte, você arruma as suas latinhas que a gente conversa”. Aí um falou: “Não, vou só ver sapato, porque eu tenho que ver minha mãe e se eu chegar lá de chinelo Havainas...”, aí muito legal, um outro lá chegou num outro Shopping Lata, porque primeiro eles deram uma olhadinha, viam se rolava mesmo. Aí quando é o último sábado ou domingo já tem gente lá, chegou um lá com cem latinhas: “Não, porque eu quero isso, porque aquilo”. Aí o Zé, o Zé é maravilhoso, o Zé falou, esses ternos, essas coisas assim, e colocou: Se você for visitar sua família, se você for procurar emprego. E ele tem um quarto, né, que ele mora sozinho, que tem uma sala que tem só Shopping Lata, porque ele adotou a causa do morador de rua, ele é feliz, ele chora por causa dos bolos que ele faz. “Maravilha, Ode, eu encontrar você”, ele fala. “Não, maravilha eu encontrar você, que eu queria ir embora daqui, que não acontece mais nada aqui”. Aí o Zé foi ficando na nossa vida. Então tem o Shopping Lata. Ah, e o que a gente faz com as latas? Por enquanto, né? Pode ser que depois tenha uma ideia melhor. A gente reverte isso num passeio. Então a primeira vez que a gente fez, a gente fez... Não, fez uma feijoada. Uma feijoadona. O Zé traz aquele monte de voluntários. Não sei onde ele consegue, ele consegue. Uma cidade de gente pra ajudar o Zé e nós, né? E aí fizeram essa feijoada, mas o pessoal disse que não era muito bom, o pessoal da administração, trazer comida. Então a gente depois fez um piquenique no pico do Jaraguá porque lá a gente pode levar comida. Mas aí a gente colocou: Essa feijoada é pra vocês, essa feijoada já está paga com as latas do Shopping Lata. Então eles sentem que eles pagaram aquela folia. Nem tanto, porque pra dar conta da feijoada, às vezes, um pouquinho de latinha que você vende não dá conta de tudo, mas simbolicamente a gente trabalha desse jeito, né? E aí também tem uma parceria com o pessoal da Prefeitura, um Núcleo de Atividades Sócio Culturais, tem uma moça, assim, muito iluminada, que fornece o ônibus. Então uma vez por mês a gente vai passear com eles, vai pro Museu do Futebol, não sei pra onde, e sai... Eles mudam. Tirou lá do calçadão, da droga, não sei do quê, é outra, você precisa ver que bonitinho que é sair com eles, é muito gostoso. Então eu achei um pouco esse sentido de estar lá. E aí tem esse Vavá, né, que nós trouxemos o Vavá aqui. Então, ele me disse que ele queria muito escrever um livro. Falei: “Olha, Vavá, não sei escrever um livro, mas eu sei escutar tudo o que você fala, passar num papel, depois a gente procura alguém que saiba escrever livro, depois a gente procura alguém que pague o livro. E aí comecei a pegar a história do Vavá. Aí nesse ínterim eu fui fazer Pedagogia na Zumbi dos Palmares, que é uma faculdade que trata a questão étnico-racial, enfim... Eu falei: “Nossa, agora eu sei como é que o japonês se sente na Rua da Glória, né, como eu me sinto na Zumbi”. Aquela negrada, né? Aqueles cabelões. Tem branco também, claro, bons professores brancos, mas a instituição foi... ideologicamente, é pra gente entender realmente a história, a verdadeira história da África, onde que os negros ocupam. Então a ideia é formar o professor já pra estar apto pra aplicar história da África nas escolas, né? Então eu falei: “Eu preciso de uma novidade. Está tudo muito igual. Está tudo muito acontecendo”. E fui fazer Pedagogia, né? E aí já tem uma professora que falou: “Olha, a hora que você achar que já está na hora, a gente senta e corrige, faz um gênero do que é que você escreveu”. Daí no caminho também o Vavá foi pra um albergue e o pessoal lá também gosta muito dele. E a diretora ligou e falou: “Ode, o que você vai fazer com esse livro?”. Eu falei: “Primeiro ele tem que sair, vou ter que me internar em algum lugar pra conseguir organizar tudo pra parir o livro”. Ela falou: “Então não se preocupe com patrocínio que a gente vai resolver”. Então no caminho do livro... Ele foi, ele quis ir visitar a família, que é coisa da memória também, né? E aí quis ir no bairro, aí tirou fotografia da escola onde ele estudou, a gente visitou os melhores amigos, ele não quis ir na família, mas a gente não forçou, não sabe o que acontece. Depois num segundo momento ele convidou a gente pra ir na família dele. “Olha, estamos escrevendo um livro e não sei o quê”. Uma casa bonita, uma gente linda, muito carinhosa. Ele volta na família sempre depois disso, porque ele tem um livro. Aí, ele gosta muito de música negra, ele viajou muito pelo mundo. Então eu tinha que fazer um trabalho de Antropologia que tivesse a arte e a questão racial. Eu falei: “Vavá, vou levar você lá na faculdade pra você salvar minha nota”, e aí levei o Vavá. O Vavá falou que a bengalinha dele chama Bile, mas ele fez uma entrevista bonita. Aí saiu com um certificado de lá, né? Então aí a gente percebe que quando você vai dando um conteúdo que tenha significado pra eles, você consegue ir dando uma cor, né, pra vida, não sei, ou pra um momento. Então o Vavá está nesse pé. Teve um outro que disse que o sonho dele era ser palhaço quando criança e eu estava com um grupo grande de estagiários, arrumaram roupa, a gente saiu tudo vestido de palhaço, fomos embaixo do viaduto, fizemos o maior escândalo. Depois um amigo meu ensinou pra ele as técnicas de contar história pra criança, né? Mas aí eles murcham. Você percebe que você vai até... Como a gente também, né? Até um determinado ponto, aí se você começa idealizar, “Ah, agora vai ser assim, vai ser assado”, mas não é, não é mais isso, parou ali, né?

 

P/2 – Por quê?

 

R – Não sei. A gente não entende. Que nem esse moço aí, o senhor Elber, uma graça de gente. Foi até o palhaço, eu falei: “Agora a gente vai achar alguém que ensine ele a contar história”. Ele foi no orfanato lá com nosso amigo que conta história... Eu pensei: “Ela veio falar chega por hoje”.

 

P/2 – Não, ela não...

 

R – Mas, então, aí quando a gente pensa que vai voltar... Achou um curso lá que ele queria fazer digitação. Ele falou: “Não, Ode, eu não vou. Eu não vou conseguir cumprir os horários”. Parece que quando você vai fazer uma ligação com o mundo, aparentemente, que você acha que é o ideal, aí você pode baixar um pouco a expectativa que você, às vezes, não avança muito. E algumas coisas que aconteceram também... Por isso que eu falo que eles são do repente... Aí como que eu fui comprar a minha carroça, que eu fiquei com vontade de ter carroça, daí encontrei um cidadão lá também, dizendo que ele não voltava pra casa porque a mulher dele mandou ele embora porque ele não tinha dinheiro. Falei: “Não, isso é coisa de mulher. De repente você pode pensar num jeito. O que você tem de ideia?”. Ele falou: “Não, eu tenho uma carroça, mas um amigo meu, eu estava devendo pra ele, e eu tive que deixar a carroça”. Falei: “Não, como é que a gente faz pra conseguir a carroça de volta?”. Falou: “É muito difícil porque é muito cara a minha carroça”. Falei: “Quanto custa a sua carroça?”. Ele falou: “Cinquenta reais”. Falei: “É mesmo. É muito cara a sua carroça, viu? Eu também acho. Mas como é que chama a sua filhinha?”. “Chama Vitória.” Falei: “Então, você acha que você consegue voltar pra casa, não sei se com a sua mulher, mas pela sua tristeza você sente muita falta da Vitória, né?”. Ele falou: “É. Mas a hora que eu conseguir a minha carroça, que eu vou conseguir a minha carroça, eu vou voltar pra casa, porque a minha carroça, a minha carroça”. Aí eu descobri onde estava a carroça, também não estava muito longe de lá, comprei a carroça dele. Falei: “Olha, está aqui a sua carroça. Agora você não tem...”. Aí eu já sonhei em fazer uma frota de carroça e que daí eu ia comprar mais carroças, e que daí ia fazer uma cooperativa, eu, né, a louca aqui. E ele lá com a carroça dele todo feliz. E aí na rua eles brigam muito. E a tenda está aqui e eles dormem na calçada, tudo ali. Aliás, esses que estão na calçada tem o lado bom que você vê sempre. Os que entram e saem da tenda, pra assistir televisão, pra ficar lá descansando, não necessariamente você consegue, às vezes, encostar, chegar mais perto. E daí estava uma briga lá, uma briga, aí ele lá pegou uma faca. Parecia uma coisa de cinema, né? Pegou uma faca e foi pra cima do cara: “Porque eu vou pegar”. Eu falei: “Mas e a Vitória”. Ele parou. Tum. Então isso que é legal, a memória, né? Você cola um pouquinho... Então, por exemplo, você falou pra mim que a sua infância foi em Portugal, eu guardei, numa situação assim, você está ali como uma referência de alguma coisa que ele partilhou com você. Nesse dia eu também não tinha mais muito a perder. Eu falei: “E a Vitória”. Eu chamei Vitória, ele parou, entrou pra tenda, porque enquanto estava na rua, me deu o facão, no dia seguinte ele sumiu. Quer dizer, aquele meu sonho de ter um carroceiro, vários carroceiros, alugar um terreno, compra carroça... Mas assim, aí você tem um grau de humildade. Será que o seu momento na vida daquela pessoa era aquilo? Como todas as vidas que a gente passa, de filho, de namorado, de trabalho, né? Mas você chega com uma expectativa alta, você acha que você vai tirar da rua, e você não vai tirar da rua, ele vai se tirar da rua quando ele quiser.

 

Depois tinha a Dona Máxima, que era o meu grande sonho de consumo, uma mulher com um monte de cachorros, o cachorro dele chama Beethoven, o outro chama Aparecido... Mas uma coisa a Dona Máxima. Eu queria ver até onde dava pra ir com ela. Aí eu fui pra Bahia, que eu fui descansar um pouquinho, fui visitar a família da Dona Máxima lá na Bahia. Dona Máxima tem uma história linda na Bahia, uma gente cheirosa, bonita, e ela por causa do vício, você não sabe também exatamente onde é que quebra tudo, eu sei que a família dela hoje são os cachorros, né? E como ela chama muito atenção. Ela tem pessoas que seguem ela há muitos anos. Aí alguém pagou um quartinho pra ela, tiramos ela da rua, achando que a gente é fabuloso. Só que ela levou pro quartinho a rua. Lá ela bebeu, ela xingou, ela bateu, ela incomodou, ela não sei o quê, ela entrou com os cachorros, aí saiu do quartinho, voltou pra rua. E hoje quando eu passo ela fala que a culpa é minha, porque eu fui enfiar ela naquele lixo, né? Então a gente fica meio assim, até onde eu invadi, até onde você ajudou, até onde você carregou expectativas demais e, na verdade, na prática, não aconteceu, né? Mas é isso trabalhar com morador de rua, pra mim, hoje, é isso, são parcerias sérias com gente que resgatam essa essência natural da pessoa independente de ela estar na rua ou em qualquer lugar, ou presa, e você dar flashes de luz em cima dessas coisas. A festa de aniversário a gente faz a maior folia, vê quem é que fez aniversário, tira fotografia. Tem gente que já sabe: “Ah, esse mês é dia trinta, né, que eu vi na folhinha”, então parece que aquele grande vazio de não ter segunda, nem quarta, nem sexta, nem nada, tem alguma coisa, você vai fazendo um cardápio de possibilidade. E é isso, é memória, eu vou chegando perto, bem tranquila, que nem eu aprendi lá com aquela professora que falou: “Larga seus livros, guarda suas roupas, vai, que não é desse jeito que chega nas pessoas”. E daí, em cima disso, você consegue algumas coisas. Eu falei: “Bom, no mínimo, se eu me candidatar hoje, eu tenho um monte de votos, né?”. E daí, logo que eu entrei lá, eu falei: “Ai, me sinto tão importante, tem um monte de homem bêbado atrás de mim. “Cadê a Ode? Ode? Você viu a Ode?”. Quer dizer, aquelas pragas que pegaram, né? Um monte de homem atrás de mim. Mas eles são muito doces. Agora eu sinto que vai chegar uma hora que tem que afunilar, deixar alguma coisa fincada, né, desse aprendizado, pra que isso volte de uma forma que não morra, quer dizer, que o que você aprendeu sirva pra um modelo ou uma possibilidade. Mas tem essa coisa: baixe a sua expectativa, menos, porque eles vão até onde eles precisam, não sei. Enquanto isso eu recebo carta de dois jovens que foram pra Fazenda da Esperança, que é uma parceria que a Prefeitura tem com um lugar lindo, só que eles ficam lá afastados de tudo, no meio do verde, parece um paraíso, freiras, padres, é uma outra proposta. E aí eles me escrevem de lá: “Oi, Ode”. E esse menino que foi pra lá que chama Cleber, eu olhei pra ele assim, porque ele é bonzinho, todo educado, falei: “Não, você tem uma cara de gente que é criado com vó. Está sempre falando “bom dia”, “boa tarde”, tem uma preocupação com as pessoas, está sempre... “Aposto que você é...” “Tenho mesmo, eu fui criado pela minha avó.” Eu falei: “Então, hoje eu sou a sua avó, você tem que me respeitar, menino, que não sei o quê”. Aí ele escreve: “Vovó querida, não sei o quê”. Então tem aquela linha do afeto, do que significa... E o momento. Você fica o tempo inteiro vendo: “Aquele ali gosta de jornal, vou deixar um jornal por ali”. Você vai e aí de repente, uma hora ele te traz uma coisa de mais concreta que você consegue andar com ele ou não.

 

P/1 – Quais são seus sonhos hoje?

 

R – Meus sonhos. São tantos sonhos. Sonhos mais lindos. Então, acho que no momento, no alto dos meus sessenta e dois anos, eu estou muito centrada em criar, colher frutos de uma experiência, buscar outras... Descobrir coisas que provavelmente não tive tanto tempo pra descobrir por que... Fui pra Bahia. Sempre quis viajar, mas não deu tempo, né? Então, assim, me soltar mais na vida, com mais coragem, assim. Ficar famosa pra mim mesma. Sabe? Eu mesma me aplaudir em alguns momentos. Assim. Terminar a faculdade. Mas assim, são sonhos com possibilidades, só que no caminho algumas coisas eu tenho que buscar e outras eu tenho que ficar atenta que pode cair e se eu não estiver sensível eu posso não perceber.

 

P/1 – Legal.

 

P/2 – Na sua trajetória de vida tem alguma coisa que você mudaria?

 

R – Viajaria mais. Acho que eu viajei muito pouco na minha vida. Sabe? Assim, acordar em outros lugares, estudar outras línguas, outras culturas, uma coisa de ser assim mais... Viajar mais mesmo. Acho que é isso. Não deu tempo de fazer. Não... Não aconteceu na hora certa. É isso.

 

P/2 – O que você achou de dar o depoimento pro Museu?

 

R – Ai. Achei muito forte, muito envolvente. E fico até preocupada do tanto que eu despejei. E feliz, feliz, por estar aqui no aconchego, né? Porque é um aconchego. Um aconchego. Quero agradecer que vocês abriram essa porta pra mim. Abriu pra todos aqueles meus amigos que eu vou trazer, um por um. E também é um sonho, né, falar: “Olha gente, dá pra ir por aqui porque por aqui funciona”. Fazer ciência daquilo que aparentemente é descartável, né?


P/1 – Lindo. Uma linda entrevista. Obrigada.


R – Obrigada, amiguinha! Você jura que acabou?

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