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Sonho de menina

História de: Nathália Domingues
Autor: Nathália Domingues
Publicado em: 18/09/2019

Sinopse

Quando criança via minha mãe envolvida em um grupo que ajudava famílias. Levavam mantimento, escuta e conselhos. Ela me levava também e antes de sair de casa separávamos brinquedos para as crianças que eu ia conhecer. Enquanto o grupo conversava com os adultos, eu brincava com as crianças. Desejava crescer e fazer o mesmo. O caminho foi diferente do que eu planejei, mas hoje vivo o que sonhei quando menina.

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História completa

Meu nome é Nathália de Souza Domingues, tenho 21 anos e moro no bairro Jardim Beatriz, no município de São Paulo. Nasci e cresci nesse bairro, na mesma casa, mas conheci pessoas de vários lugares e contextos, e tudo isto me afetou. Me trouxe compaixão e também sonhos maiores. Quando bem pequena, entre 5 e 6 anos, minha mãe começou a fazer parte de um grupo na igreja de ‘Missões Urbanas’. O que eu conseguia entender na época era que eles iam visitar pessoas em uma comunidade bastante carente para levar ajuda material e/ou emocional e enquanto isso eu brincava com as crianças no ambiente em que elas estavam acostumadas a brincar: terrenos de terra batida, construções sem moradores e a beira do córrego. Essa pequena situação me marcou tanto que eu cresci dizendo que um dia faria a mesma coisa! Só não sabia como... Os anos passaram e o grupo não existia mais e eu estava focada nos estudos, curso técnico e vestibular, mas ainda sonhava em um dia poder ajudar pessoas. Crianças!

 

Eu queria ser Engenheira Civil! Era muito boa em exatas na escola e já fazia um curso técnico nessa área. Eu queria ter bastante dinheiro, então eu ia conseguir ajudar as pessoas. Ia abrir uma ONG para construir casas para famílias sem moradia em outros estados do Brasil. Ia dar suporte financeiro e oferecer ajuda a famílias. Estava tudo resolvido! Mas a vida não é assim. As coisas não acontecem exatamente como escrevemos e eu ainda não sabia que faltava me conhecer melhor. Eu tinha 18 anos e achava que ia resolver o mundo! Rs rs.

 

Terminei a Escola Básica e o Curso Técnico ao mesmo tempo. Eu era Técnica em Edificações, mas eu disse que a vida não era linear, não é mesmo? Prestes a ingressar no mercado de trabalho e no Ensino Superior decidi que precisava de um tempo para me conhecer. Uma pausa em toda essa correria. Eu percebi que a vontade de me relacionar com pessoas era muito maior do que a de ser uma Engenheira rica. Tinha algo estranho nisso. Estava descobrindo ser alguém que eu nunca sonhei ser: professora! E foi exatamente essa Nathália que eu fui ser. E como a vida é cheia de surpresas, sendo exatamente assim que tive a oportunidade de pela primeira vez participar de um projeto que cuidava de crianças, dessa vez em uma outra comunidade.

 

Após a aula na Faculdade li o seguinte post no Facebook: “Alguém sabe fazer pintura em pano de prato?”. O post mais simples me levaria a uma experiência incrível, logo no meu primeiro semestre de faculdade! É que enquanto me dei tempo para um autoconhecimento, descobri que gostava de pintar. E minha mãe me levou para fazer um curso rápido. Respondi o post e tive como resposta o seguinte: “Temos um trabalho com crianças da comunidade da Cidade Líder. São filhos e parentes de dependentes químicos. Recebemos uma doação de panos de prato, mais uma quantia para comprar materiais e ensinar as crianças a pintar, mas não sabemos pintar. Pode nos ajudar?”

 

Um simples pano de prato me permitiu acesso ao que eu sonhava. Fui primeiro conhecê-los: um casal de senhores que tinham uma igreja na laje de sua casa. No horário dos cultos aquele espaço era preenchido por cadeiras e pessoas. Nos outros momentos era um espaço onde as crianças aprendiam coisas novas, faziam a lição de casa, brincavam, faziam refeições e as vezes até pediam para dormir. Uma família. As vezes preferiam ‘descer’ e ficar em suas casas com outras crianças e suas famílias. E tudo bem, poderiam voltar quando quisessem! Não era um grupo grande de crianças. Aquele casal, de uma saúde não tão forte, se mantinha com suas aposentadorias e o dinheiro que os membros da igreja doavam era usado para cuidar das crianças. Logo as crianças descobriram que eu estava estudando para ser professora de Matemática e assim fomos criando vínculo.

 

Pintamos os panos de prato, mas também aprendemos matemática. Aprendemos, pois eu descobri uma nova forma de ensinar, de significar. Lembro que um dia uma menina me perguntou:

 

- Você gosta de números?

 

Eu respondi que sim, pois entendi o que ela queria dizer. E sua resposta foi a mais simples:

 

- Ah.

 

Mas minha resposta me incomodou. Não era pelos números que estava ali. Não tinham sido eles que me fizeram mudar todo o meu planejamento de vida. Eram crianças como aquelas que me motivaram a estudar a Matemática. E então, descobrir o conhecimento como ponte para outras histórias e vidas. A Matemática que aterroriza na escola, arrancou sorrisos naquele salão. Foi o meu primeiro contato com um projeto assim. Hoje, aos 21 anos já vivo um outro. Descobri bem cedo que não precisava ser rica para amar!

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