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História de: Margarida Maria Machado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/06/2020

Sinopse

Nasceu em Teófilo Otoni, em Minas Gerais, no dia 14 de fevereiro de 1951. Seus pais eram fazendeiros, fabricavam leite. Pai nasceu em Entre Rio de Minas e mãe em Ribeirão Preto. Avós maternos eram descendentes de italianos. Dez irmãos. Infância: piquenique, piscina, bambolê, leitura, vôlei e queimada, conversas com irmã Lenora. Jardim de infância em uma escola de freira perto de casa. Frequentou depois internato junto com as outras irmãs. Vai morar em São Paulo com seu namorado, um professor americano, teve dois filhos com ele. Começou a trabalhar como de professora de português para americanos. Sempre quis ser professora. Abre uma escola bilíngue para crianças em 1981 com 13 crianças no início. Depois de 5, 6 anos começou a receber crianças mais velhas, com a escola já mais estruturada. Relata os diretores e coordenadores que a ajudaram a estruturar a escola, a mudança de prédio, histórias de ex-alunos, importância do ensino bilíngue. Gosta muito de viajar e ler.

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História completa

P/1 – (Risos) Você falou já começou e eu já… Bom dia, Guida!



R – Bom dia.



P/1 – Eu vou fazer algumas perguntas que você já respondeu, mas só pra deixar registrado: qual o seu nome, local e data de nascimento?



R – Meu nome é Margarida Maria Machado, local de nascimento é Teófilo Otoni em Minas Gerais e nasci em 14 de fevereiro de 1951.



P/1 –E o nome dos seus pais, Guida?



R – Altino Machado de Oliveira e Áurea Franco Machado.



P/1 – E qual é que era a atividade deles? Qual era a profissão do seu pai, da sua mãe...?



R – Meus pais eram fazendeiros, na verdade eles trabalhavam juntos a vida toda. O meu pai cuidava do gado e a minha mãe cuidava do leite, dessa produção de leite. Então, toda a produção de leite ela vendia pra as empresas onde os laticínios… E realmente era uma mulher que trabalhou muito, muito, muito a vida inteira! Eu nunca vi a minha mãe livre durante o dia. Ela tinha o escritório dela dentro da casa, tinha onze filhos, com quatro babás e nós só conseguíamos conversar com ela, ficar com ela no horário de almoço e à noite, porque durante o dia ela tava dentro do escritório dela, cuidando dessa produção do leite, da venda dessa produção do leite. E meu pai na fazenda, ia todos os dias e tinha paixão, paixão pela fazenda!



P/1 – Mas vocês moravam dentro da cidade?



R – Nós morávamos na cidade, mas quando fazíamos 9, 10 anos, nós íamos pro internato, ou no Rio ou em Belo Horizonte. Então, eu fui pro colégio interno com 9 anos, no Colégio Santa Marcelina. E fiquei até 12 anos, depois fui pro Rio aos 12. E Santa Marcelina em Belo Horizonte. E aos 12 eu fui pro Rio, outra escola católica e fiquei até os 15 anos.



P/1 – Vamos voltar um pouquinho, Guida. Seus pais nasceram onde?



R – Minha mãe nasceu em Ribeirão Preto e meu pai nasceu Entre Rios de Minas. E eles se encontraram em Uberaba… 



P/1 – E como é que foi isso? Eles contaram pra vocês como é que foi?



R – Como eles se conheceram eu não sei exatamente, mas eu sei alguns episódios do namoro. Meu pai foi o quarto piloto do Brasil, o quarto homem a tirar brevê no Brasil, tirou brevê acho que muito jovem, com 20 anos. E aí ele contava que em Uberaba, minha mãe morava já em Uberaba, a família dela mudou pra Uberaba e ele contava que tinha aquelas pracinhas, né, que as pessoas aos domingos passeavam, ficavam fazendo aquele rodízio: as meninas pro lado direito, os meninos pro lado esquerdo e assim é que eles tinham o flerte. E meu pai conta que ele ficava fazendo rasante de avião na pracinha pra ficar olhando a minha mãe (risos). Então, eu sei desses episódios e quando eles casaram, eles mudaram pra Teófilo Otoni, porque meu pai queria muito, ele falou pra ela que queria comprar uma fazenda no interior de Minas e ela saiu de Uberaba. Minha mãe foi uma das primeiras mulheres a se formar em Direito em Minas Gerais e ela abandonou a carreira que ela planejava e foi embora pra Teófilo Otoni com ele pra começarem uma fazenda.



P/1 – E os seus avós, você chegou a conhecê-los? Você sabe onde eles nasceram e tudo… ?



R – Onde nasceram não, mas eu cheguei a conhecer os pais da minha mãe. Mas quando meu avô faleceu, o pai da minha mãe, eu era muito jovem, eu acho que tinha 6 anos. Eu me lembro dele, ele trabalhava numa Mogiana, essa estrada de ferro. A minha vó não, não trabalhava. E os pais do meu pai também eu me lembro deles na fazenda, visitando os meus pais, mas já bem velhinhos! Eu me lembro da figura, assim, bem pai do meu pai! Porque meu pai era um homem muito tranquilo, muito tranquilo! Apesar de muito ativo, muito forte fisicamente, um homem de dois metros que sempre nos passou essa ideia de ser uma pessoa muito forte, meu avô tinha semelhanças com meu pai na tranquilidade. Era um homem miudinho… Mas eu era muito jovem quando todos eles faleceram, então tenho poucas recordações, porque eu sou a sétima filha de cima pra baixo, então quando eu nasci eles já estavam bem velhinhos.



P/1 – E qual é que era a atividade, você sabe a atividade desse avô paterno… ?



R – Não sei, não sei...



P/1 – E qual que era o nome deles? Dos pais, dos avós paternos e maternos?



R – Do materno era Raul Franco e Olímpia Franco, dos pais da minha mãe. O do meu pai é Francisco Machado, o pai do meu pai, e a mulher era Petra Machado.



P/1 – E você sabe a origem da família, se eles tinham alguma ascendência… ?



R – Os meus avós maternos eram italianos, eram descendentes de italianos. Os paternos eu não sei não, mas deve ser interior de Minas Gerais mesmo, mas eu não sei de onde vem a família, acredito que portugueses, mas não tenho muita certeza, não.



P/1 – E você falou que você tem onze irmãos e que você é a sétima, né? Como é que era essa coisa de conviver com uma quantidade enorme de irmãos? Como é que era a sua infância com essa quantidade de irmãos até você ir pro colégio interno? Conta um pouquinho pra gente!



R – Olha, eu acho que a minha mãe tinha um kindergarten na casa dela (risos). E ela era muito organizada, porque ela contratava uma babá pra cada dupla ou, às vezes, pra três e ela deixava tudo determinado. Eu me lembro, assim, que as nossas babás faziam tudo muito determinado pela minha mãe: a hora de levantar, a hora de tomar café, levar pra escola, voltar, vai sentar, fazer lição… Com supervisão das babás. A gente ficava fazendo as lições. E minha mãe era extremamente organizada e com uma certa rigidez, eu diria. Então, ela conseguiu nos criar até 9, 10 anos, quando nós íamos pro internato, muito bem. Nós íamos andando pra escola, pro jardim, chamava jardim da infância na época. Nós íamos andando, acompanhadas pelas babás. E brincávamos na rua o tempo todo, com a supervisão das babás, mas ela estava presente em casa ou no escritório dela…   



P/1 – … E como é que era essa casa em que vocês moravam? Conta um pouquinho pra gente, descreve um pouco como é que era essa casa, como é que era o bairro em que vocês moravam… 



R – Olha, a casa existe até hoje! É uma casa bem grande! Mais tarde quando o número de filhos aumentou, eles fizeram mais um andar. Então, nós éramos divididos em duas irmãs em cada quarto. E os meninos dois irmãos em cada quarto. E tinha uma sala muito grande. Depois uma sala de jantar. E depois a copa. Nós almoçávamos na copa sempre. E nós tínhamos duas mesas: uma mesa para os pais e os irmãos mais velhos e uma mesa menor para os menores. E a minha casa tinha apelido de “pensão ideal”, porque nós sempre podíamos levar os amigos pra jantar, pra almoçar ou passar férias conosco. Então, eu me lembro, assim, do almoço ser uma coisa que durava duas horas, duas horas e meia, sempre! Ao meio-dia colocava o almoço, mas sempre acabava duas, duas e meia, era uma coisa constante de amigos chegando, sentando, comendo. Isso todos os dias da nossa vida, quando nós estávamos em casa, almoço significava o momento em que as visitas vão chegar, que nós vamos sentar e conversar com os pais e com os amigos. Então, sempre foi um momento muito especial, o horário de almoço lá em casa.



P/1 – E o jantar como é que era? Vocês também sentavam à mesa com os pais e tudo... ?



R – Sentávamos, mas não era uma coisa que demorava muito tempo, porque os mais velhos já queriam sair, então era mais rápido. E à noite vinham os amigos do meu pai, que eles jogavam baralho, buraco, né. Muitas noites. Então, não era uma festa como eram os almoços,. não. A gente jantava, os mais velhos saíam, os mais novos iam ler. Na época não tinha televisão. E televisão nunca foi um costume na minha casa, mesmo quando veio eu não me lembro da gente assistindo televisão, eu lembro do meu pai assistindo Repórter Esso, mas fora disso eu não me lembro da televisão como uma coisa importante, um centro na casa. Então. a nossa noite era ficar em casa lendo ou conversando com os amigos ou brincando com amigos, ouvindo música… E quando estávamos no internato significava que só viríamos nas férias e… 



P/1 – … E Guida, como é que era, você falou que vocês brincavam na rua, e que brincadeira que vocês faziam? Quais eram as brincadeiras prediletas sua e com quem você brincava?



R – Eu brincava com os vizinhos, com as amigas vizinhas, né. Eu tinha Diana, era uma amiga, Ângela, que tinha apelido de Anjinha… Se tava a rua molhada com barro, a gente brincava muito de uma coisa que chamava “finquinho”.  Eu não sei se vocês lembram dessa brincadeira, que a gente tinha um metal, um ferrinho, que nós jogávamos e aí íamos fazendo desenho e a gente pulava isso e quem conseguisse fazer maior o desenho, tinha o salto maior. Então, essa era uma brincadeira que a gente amava! Outra brincadeira era piquenique no telhado de casa. A gente subia com sacolas de… Sempre piquenique significava frutas, queijo e pão! Cada uma subia com uma coisa, aí a gente colocava uma toalha lá em cima no telhado! E eu me lembro de uma coisa que eu ficava pensando mais adulta: como a minha mãe nos deixou fazer isso? Nunca nos disse: “Desça daí!” Nunca, nunca! Subíamos três, quatro, com amigos, colocávamos a toalha e fazíamos piquenique. E a nossa casa tinha piscina também. Então, a gente era criado muito de maiô o dia inteiro, fazendo piquenique lá fora  e se tava chovendo andando na poça de água… Era muita liberdade! Eu me lembro quando… Meus pais iam muito ao Rio e traziam os brinquedos que acabavam de sair. Eu me lembro quando o bambolê saiu, a minha mãe comprou uns dez bambolês, então a gente ficava na rua, foi um verão de bambolê na rua! Todo mundo! A gente ia pra escola fazendo bambolê. Da minha casa eram dois quarteirões da escola, fazendo bambolê, bambolê… Então, era assim brincadeira de rua, não tinha uma brincadeira de ficar dentro de casa, nada! Não me lembro de brincadeira dentro de casa.



P/1 – E você falou dos quartos, que eram quartos divididos pra cada duas irmãs, com quem você ficava no quarto, quem era a sua companheira de quarto?



R – Eu ficava com a Lulena (risos). O nome dela é Lurdes Helena, o apelido é Lulena. Eu sou organizada, mas essa minha irmã é tremendamente organizada! Quase que militar, assim! Então, me lembro que nós tínhamos na época uma vitrolinha cada uma, que chamava vitrola aquela coisa pequenininha, que você escutava música era LP [Long Play] mesmo. Então, quando eu tava escutando à noite, podia ficar aberto, mas de manhã quando eu acordava eu tinha que guardar todos os LPs na capa, fechar a vitrolinha e desligar e deixar tudo absolutamente arrumado. A vida inteira eu dormi com ela, porque era a irmã imediatamente mais velha. Porque minha mãe ia pondo em escadinha. Agora a irmã que eu era mais ligada era essa irmã, a Lenora, que está dois, três irmãos acima de mim. A minha ligação maior está com essa irmã que dormia com outra irmã. Mas a Lulena foi com quem eu dormi a vida toda, assim, nós íamos pro internato, quando voltávamos continuamos juntas até cada uma casar ou mudar, eu dormi com a Lulena.



P/1 – E por que você era mais chegada, você disse de ser mais chegada a Lenora, mas por quê?



R – Porque a minha mãe sempre nos mandava estudar fora quando a gente tinha uns 16, 17 anos, fora do Brasil e que na época era Miami pra poder aprender a falar inglês. E a Lenora quando voltou falando inglês, eu tinha 12 anos quando ela voltou, e aí eu fiquei completamente apaixonada pra aprender a falar inglês. Então, eu ficava com ela, ela já devia ter 17 na época, não, mais, 18. E eu ficava com ela o tempo todo pra ela ir me ensinando. Eu me lembro andando com ela no Rio, que aí nós já morávamos no Rio estudando. Andando com ela no Rio e ela falando (hotfarvet?) que era o sorvete que a gente tomava na época, milk shake, hambúrguer… E eu ficava louca pra aprender todas as palavras com ela. E aí nós fomos ficando próximas, próximas, próximas… E passávamos as férias, minha mãe mandava todos os filhos pra uma praia ou era mês de janeiro no Rio e o mês de fevereiro em Vitória, no Espírito Santo. E aí eu lembro uma das noites conversando com a minha irmã, a Lenora, essa que é muito próxima, e nós ficamos conversando até umas três e meia da manhã, aí eu olhei pra ela e falei: “Ai, a única coisa chata de ser irmã é que a gente não tem muito assunto!” (Risos). E aí ela olhou pra mim e falou: “Magô! Todos os dias nós falamos sem parar e você me fala… ” (Risos). E aí eu vi que eu adorava conversar com ela! Eu não queria parar de falar com ela, porque pra mim ela significava uma pessoa com muita cultura, com… Porque ela gostava muito de estudar! E eu tinha uma paixão por ela, então eu não queria nunca terminar a conversa! Foi essa minha irmã que faleceu a semana passada. Que a gente era muito, muito amiga, né.



P/1 – Guida, como é que era, você colocou um pouquinho dessa coisa do convívio com os irmãos, essa coisa de algumas coisas que já eram determinadas pela sua mãe, mas como é que eram comemoradas as festas em casa? E que festas que vocês comemoravam?



R –  Era Natal absolutamente todos os irmãos estavam! Meus pais eram muito fortes, então mesmo depois de casados, os filhos não tinha a questão, Natal era na casa dos meus pais. Nem as pobres das esposas, coitadas, não tinham chance de escolher. Então, dia dos pais, dia das mães, aniversário do meu pai e aniversário da minha mãe que muitas vezes coincidiu com dia das mães, porque minha mãe era 13 de maio, e ela chama Áurea por causa da Lei Áurea. Então, nós sempre passamos em Governador Valadares, mesmo irmão morando em qualquer lugar do Brasil, essas quatro datas nós íamos pra lá. E com os nossos filhos, sempre, sempre, sempre! Foi muito festejado, assim, dia dos pais era uma festa que começava sexta-feira à noite quando nós chegávamos e aí nós íamos embora no domingo à noite. Sempre, as festas significavam família completamente unida. Hoje em dia não, porque os meus pais faleceram, então não acontece mais isso, mas enquanto eles estavam vivos, nós estávamos juntos nesses quatro momentos. 



P/1 – E quando você era pequena tinha alguma festa, assim, religiosa, por exemplo Páscoa… Tinha alguma coisa que era ligada, que tinha uma festa ou um significado muito forte, por exemplo, festa junina, como é que era essas coisas, como é que eram comemoradas na sua casa…?



R – Não, religiosas por parte dos meus pais, não. Nós éramos católicos, porque a grande maioria dos brasileiros são católicos, não porque meus pais fossem praticantes. A gente ia às missas, estudamos em colégio de freira, mas eu me lembro assim quando criança ainda no jardim da infância, primeiro e segundo ano, ainda no interior, tinha em maio que tinha aquelas festas que todas as noites você se vestia de anjo e coroava a santa, Nossa Senhora. Então, eu me lembro muitas vezes vestida de anjo e eu adorava! Mas eu acho que era a única coisa, não era uma coisa imposta pela minha mãe, era uma mais, porque era tradicional na escola, então era a escola quem fazia essas festas. Mas da família mesmo eu não me lembro, não, eu me lembro, assim, de religião, como eu fui pra escolas muito católicas, eu ia à missa absolutamente todos os dias! A gente levantava, arrumava a cama e ia à missa, então uma época eu me tornei filha de Maria, que recebia aquela medalha e tudo. Mas eu não me lembro dos meus pais fazerem nenhuma menção a isso, nem positiva, nem negativa, era uma coisa que não se falava em… 

 

 

P/1 – … E como é que era a coisa, você falou dessa coisa do almoço e tal, que era muito forte, que comida você tinham que comer? Eram comidas tradicionais mineiras, como é que era?



R – Ah, isso eu me lembro muito bem! Porque o meu pai comia todos os dias, absolutamente todos os dias da vida dele angu! Sabe o que é angu, né?



P/1 – Aquele que é feito com fubá, né?



R – Fubá amarelo, aquela farinha de milho amarelo. E eu me lembro que a gente detestava, a polenta, né. Detestava, detestava! E ele falava assim: “Não, tem que comer, que eu fui muito pobre (meu pai falando, né?), teve época da minha vida que eu só tinha pra comer angu e frango e pra nós isso era uma festa! Vocês já chegaram em um outro momento da vida, então vocês podem escolher, mas devem comer o angu sim, porque foi isso que me sustentou e vocês estão aqui hoje dizendo que não querem comer aquilo que me sustentou.” Então, ele ficava muito ofendido… Então, todos os dias ele comia angu com feijão, com a carne, assim, não tinha questão, tinha que ter! E ele queria que os filhos comessem também. E só depois, quando a gente fazia 15, 16 anos que a gente falava: “Não, não quero mais angu.” Então, eu passei muitos anos sem comer angu, porque lembrava da minha infância. Então hoje, quando eu como, pra mim é como falar com meu pai, fazer uma coisa que meu pai nos ensinou, assim, fez questão que a gente não deixasse de fazer as coisas tradicionais da vida dele, né. Mas era comida mineira: era arroz, feijão, carne moída, muito porco, frango. Como eram fazendeiros, a gente comia muita carne que vinha direto da fazenda, leite também vinha da fazenda… Assim, tudo na minha casa parecia uma fábrica: chegava leitões desse tamanho! Aqueles de aço inox, aquelas vasilhas com leite cru desse tamanho, chegava uns três, daí fervia, botava na geladeira, daí fazia o próprio queijo lá em casa. E muitas vezes, muitas vezes eu me lembro de chegar caminhão de abacaxi, caminhão de melancia. O caminhão parava e tinha muitos empregados lá em casa, muitos funcionários e eu me lembro deles descarregando aquele caminhão de abacaxi, aquele caminhão... Porque meu pai ia, às vezes, no mercado aos sábados e aí tinha aquele cara vendendo que o pobre do cara veio lá do norte do país, com esses ananás, né, esses abacaxis e ele falava: “Quanto é que você quer no caminhão aí?” E aí o cara falava lá o valor e ele estacionava o caminhão em frente a casa, então a gente fazia muita competição de quantos abacaxis cada um conseguia comer. Eu me lembro de noite, a gente umas onze, meia-noite, sentávamos todos os irmãos com abacaxi e ia apostando quem é que consegue comer mais abacaxi, mais melancia. Cada vez tinha a história de uma fruta, assim, não tinha muito doce na minha casa, eu não lembro disso, eu lembro da minha mãe falando: “Meus filhos não gostam de doce.” Eu não lembro nem de fazenda, eu me lembro de doce de leite. Mas não era uma paixão na nossa vida, mas frutas, acho que porque meu pai comprava tanto e a gente gostava de apostar quem conseguia comer mais, então tinha muita, muita fruta! E essa era a gincana lá em casa: quem conseguia comer mais fruta!



P/1 –  Você nos falou da sua primeira escola, que era a escola infantil, que era perto da sua casa, como é que era essa escola? Conta pra gente um pouquinho!



R – É... Colégio Imaculada Conceição. Eram dois quarteirões lá de casa e não era mista, eram só meninas. Mas o jardim era misto e eu me lembro de uma sala de aula imensa! Nós levávamos um travesseirinho, porque depois do lanche a gente deitava a cabeça e dormia um pouquinho. E eu me lembro da minha escola com muito prazer, porque eu acho que eu fui mimada a vida inteira na escola! Eu me lembro das professoras muito carinhosas, as freiras... Porque cada sala do jardim tinha uma freira e duas professoras e me lembro, assim, de freiras muito carinhosas comigo, professora... E tinha um playground imenso, com pés de manga, muita manga caída no playground. Ah, foi uma coisa de muito prazer! Depois quando eu fui pro Santa Marcelina também. Eu me lembro de freiras muito carinhosas, eu nunca tive uma questão contra as minhas primeiras escolas.



P/1 – E elas tinham uniforme, Guida? Como é que eram os uniformes? Conta pra gente!



R – Tinha, tinha uniforme. Tinha vestidos de gala que era pra dias de festa, vestido de todos os dias. Eram vestidinhos xadrezinhos de vermelho e branco, com o avental branco e o nome escrito aqui com letra vermelha, então o meu era Guida aqui bem grande. Ah, tinha todas as regras: a meinha tinha que vir até aqui, o sapatinho boneca, não existia... Um sapato desse tipo aí do seu...



P/1 – Fernanda... (Risos).



R – (Risos). E não podia, quer dizer, acho que nem tinha tênis naquela época, tinha conga. Mas não podia ir de conga na escola, era sapatinho mesmo. Então, a gente ia como se fosse pra uma festa: toda engomadinha! Todos os nossos uniformes eram bem engomados, então era...



P/1 – … E tinha fila? Como é que era a coisa do início da aula: tinha fila, cantava o hino nacional… ? Como é que era isso? Conta pra gente.



R – Tinha fila pra entrar na sala, mas eu não me lembro de hino nacional na educação infantil, não. Me lembro a partir do primeiro ano e não era com tanta frequência, era só em eventos que nós cantávamos o hino nacional. Mas tinha um código, assim, de tamanho do comprimento da saia, tinha uma rigidez de como você se vestia: a blusa era transparente, então tinha que usar combinação embaixo. E as freiras prestavam muita atenção nisso, nesse código do vestir. Mas até talvez tenha sido uma escola rígida, mas na minha lembrança, na minha memória eu não lembro como uma rigidez que eu não gostasse, não me incomodava, não. Depois com 9 anos, quando eu fui pro Santa Marcelina, meu internato eu só tinha folga um domingo por mês, que chama o dia em que você vai visitar os pais. Meus pais vinham me buscar às oito e meia da manhã, me buscar não, buscar todas as irmãs! Porque tava no internato quatro, cinco irmãs, eles vinham nos buscar, a gente passava o domingo com eles, e às seis da tarde eles nos levavam de volta pra escola. E eu me lembro, assim, muito bem, que pro meu pai era mais sofrido nos devolver pra escola, pra minha mãe era muito tranquilo: “Tchau, tchau!” Sempre sorrindo. Se ela estivesse sofrendo ela nunca demonstrou, mas o meu pai eu não esqueço a imagem dele, porque tinha uma janelinha onde a gente ficava falando tchau, quando eles fechavam a porta da escola e a cara dele assim ele queria ver até o último minuto os filhos, as filhas, porque essa escola estudavam só as meninas, os meninos estudavam em outra escola. Então, as irmãs mais velhas detestavam estar no internato, a Lenora odiava o tal de internato! Odiava! Eu não, pra mim era uma coisa que eu me lembro que eu era muito mimada. Eu lembro que a Senhora Superiora, porque lá a gente falava Senhora Superiora, que era a diretora, ela me chamava na sala dela, ela me dava bombons, Sonho de Valsa, que era uma coisa que eu nunca pedia, mas ela sempre falava: “Ai, Guidinha, quer um bombom? Vem aqui!” Então, eu era muito mimada. E foi uma escola que no refeitório, ficou muito presente, no refeitório tocava música clássica, você tinha que falar baixinho. E foi lá que eu aprendi toda a etiqueta à mesa, porque nós tínhamos todos os talheres. Cada família, cada criança, tinha que levar o seu conjunto de talheres com o nome gravado. Então, eu tinha uma bolsinha que a minha mãe preparava, uma bolsinha que minha mãe preparava com os talheres de prata. Então, elas colocavam todos os talheres como deve ser e nós começávamos: primeiro prato que era sempre uma sopinha, segundo prato, terceiro prato… E na sobremesa, se fosse uma banana, por exemplo, nós nunca poderíamos pegar a banana, a banana vinha no prato com a casca e aí tinha que cortar as duas pontas e descascar com garfo e faca. Quer dizer, hoje em dia a gente não vê mais acontecendo isso em escolas, porque é outro mundo agora, mas nós tínhamos que fazer isso religiosamente e não podia dizer: “Não vou comer isso, isso não gosto!” E eu me lembro que uma vez eu achei uma folhinha de louro numa sopa e fiquei indignada, eu tinha uns 11 anos, mais ou menos. E peguei a folha de louro e guardei na minha mão e quando a minha mãe veio buscar num domingo eu mostrei pra ela e falei: “Eu não falei que a comida era ruim? Olha aqui: folha! A escola faz a gente comer folha!” Aí a minha mãe ria e falava: “Mas isso é louro, é um tempero!” E me explicou tudo o que é que era. E uma outra coisa que eu não posso ver até hoje, eu nem sei o nome, é sagu. Tinha uma sobremesa de sagu. E isso eu não conseguia. E você era obrigado, você não podia deixar de comer, daí eu fazia só (som de engolir) e engolia. E aí eu grudei uma porção desse sagu na barra do meu uniforme pra mostrar pra minha mãe que a gente comia cola (risos). E aí ela falava, ela me explicava: “Não, minha filha isso é um doce que é feito assim.” Ela nunca disse assim: “Vou falar com a irmã, vou falar que você não gosta… ” E hoje eu falo isso, porque eu comparo muito as crianças hoje, elas só querem comer hambúrguer e espaguete na escola, então os pais vão muito lá e: “A comida da escola é horrível, as crianças reclamam muito! Você faz frango grelhado, frango grelhado não tem graça, tem que ter molho!” E eu vejo o quanto meus pais eram parceiros da escola. Tudo que a gente reclamava a minha mãe falava: “Não.” Mas isso acontece. O sagu, por exemplo, ela nunca disse: “É uma coisa horrorosa.” Porque é uma coisa horrorosa (risos), mas ela nunca dizia, ela falava: “Não, isso é… ” E contava todo o processo como é que era feito o sagu: “Ah, ele colou na roupa porque ficou muitos dias…” Mas é bem diferente!



P/1 – E você… Conta um pouquinho pra gente… Você lembra de quando você foi alfabetizada? Vou voltar um pouquinho na primeira escola… 



R – Eu lembro! Eu lembro que eu usei uma cartilha que chamava Lili. E eu me lembro da cartilha inteira: “Eu me chamo Lili.” E cada dia a gente aprendia uma página: “Eu me chamo Lili.” No outro dia: “Eu comi muito doce. Você gosta de doce? Eu gosto muito de doce.” Eu nunca esqueci, eu lembro da capa da cartilha e, sei lá, talvez essa cartilha demorasse uns três meses. E era silábico, o método silábico. É dá, dé, dí, dó... E eu me lembro muito, assim, eu me lembro de quando eu comecei a ler, e como incentivo pra gente ler mais e mais, a minha mãe nos dava cinco cruzeiros, eu acho que era o dinheiro, se a gente lesse um livrinho. Então, eu me lembro assim que era uma coisa muito importante! Muito valoroso lá pra minha mãe! E ela cuidou disso muito, de acompanhar essa alfabetização, mas depois o que a gente fez na escola eu não lembro. Mas eu lembro desse momento de alfabetização, que pra mim foi muito prazeroso!



P/1 – … Você lembra quem foi a professora que te alfabetizou, qual o nome dela?



R – Não lembro... Não me lembro... Eu lembro das duas professoras, mas nome não. Eu me lembro da professora de segundo ano, que era Vera, mas não lembro o sobrenome.



P/1 – E, Guida, me fala uma coisa: depois do processo de alfabetização, que história que você lia, que você ouvia, você lembra de alguma historinha pra contar pra gente, do que você, que logo depois do processo de alfabetização que liam pra você ou que você leu… Que te marcou assim?



R – Não, não lembro... Agora assim não tô lembrando de uma coisa...



P/1 – Não tem problema… E tinha essa coisa de fanfarra, coral, tinha essas coisas na escola? 



R – Tinha. Tinha o coral... A escola era muito bem equipada, então nós tínhamos aulas de música, nós tínhamos aula de piano, tinha talvez uns 12 pianos, que era uma cabine de piano com uma professora de piano pra cada aluno. Então, eu estudei piano uns seis anos da minha vida individual, dentro dessa cabine. O que eu me lembro é que eu tinha pavor é quando a professora saía e ia pra próxima cabine, eu não gostava de ficar com a porta fechada e tinha que fechar porque era tudo à prova de som, pra não ir pra outra sala e eu não queria de jeito nenhum! Então, pra mim era um drama quando a professora saía e ia pra outra sala, apesar de ser tudo em vidro, você via a professora lá com a outra criança, com a outra aluna, trabalhando com outra aluna. Mas pra mim esse era o pior momento, então eu acho que eu deixei de estudar piano porque eu ficava fechada e eu não gostava, eu nunca gostei de ficar fechada num lugar...



P/1 – E, Guida, me fala uma coisa, você falou que a sua mãe tinha o hábito de encaminhar todos os filhos pra uma escola, pro internato em Belo Horizonte ou no Rio, por quê?



R – Porque a gente morava, quer dizer, meus pais moravam em Governador Valadares e a minha mãe queria muito que a gente estudasse. E se você fica morando no interior, filho de fazendeiros, a tendência é você ficar fazendeiro igual. E a minha mãe não queria que nós nos tornássemos fazendeiros. Meu pai queria, meu pai queria que a gente casasse com fazendeiro e continuasse fazendeiro. E a minha mãe não, minha mãe falava: “Não, eu não vou criar filho pra ser fazendeiro não, tem que… ” Então, ela tinha essa coisa de ser engenheiro, de ser advogado. Quer dizer, o sonho dela é que os filhos fossem engenheiros, advogados, médicos… Então, sempre quando chegava nos 9, 10 anos, iam as meninas pro internato e os meninos pro outro, porque era um desejo dela que nós nos tornássemos… Eu me lembro muito engenheiros, advogados e médicos, e, assim, eu nunca esqueço, sabe a Usiminas? Quando a Usiminas se instalou lá em João Monlevade, que hoje chama Usiminas o lugar, mas era João Monlevade que a gente falava. Tinha um trem que ia de Governador Valadares a Belo Horizonte, ainda vai, porque é onde leva o minério! E eu me lembro que eu tava viajando de trem com a minha mãe pra Belo Horizonte e aí nós passamos por João Monlevade, e eles traziam na época importavam uma porção de japoneses pra trabalhar na Usiminas, os engenheiros japoneses e aí eles construíram aquelas casinhas germinadas, todas iguais! E eu me lembro que a minha mãe falou: “Tá vendo, olha, quando você ficar moça, você vem aqui, você vai casar com um engenheiro.” Aí eu olhei pra ela e falei: “Não, eu não quero casar com engenheiro, eu não quero casar com casinha igual (risos), todo mundo tem casinha igual!” Eu fiquei tão indignada! E eu me lembro que eu tinha entre 8 e 9 anos e fiquei indignada dela estar falando isso pra mim: “Você vai morar aqui, vai casar com engenheiro.” Quer dizer, tinha essa cultura que engenheiro e médico e advogado era o máximo que você podia fazer profissionalmente.   



P/1 – Trocar a fita? Vamos trocar a fita!



(Troca de fita)



P/1 – Guida, você lembra o primeiro dia que… Como é que foi a conversa da sua mãe com você pra falar que você ia pro internato? Ela explicava por que é que você tava saindo de casa, que você ia pra escola… ? Você lembra disso ou não?



R – Lembro, lembro. Ela falava muito porque é que nós mandava pro internato, eu me lembro antes de chegar a minha hora de ir, porque como as minhas irmãs mais velhas foram, desde a Julieta, a Julieta hoje tem dez anos mais que eu ou doze mais que eu... É, ela é dez anos mais que eu. E me lembro quando elas foram, a minha mãe falando:  “Elas vão estudar fora, porque se for estudar aqui não vai se formar, não vai ser médica, não vai ser engenheira e advogada.” Então desde que… Primeiro foi Julieta e (Alita?) e José Altino e o Ângelo, né. Os quatro foram pro Rio, pra internato no Rio. E aí quando mais tarde foi Lenora e Lulena e Ângelo, a gente já sabia, eles iam e significava estudar pra mais tarde ter um diploma. Então pra nós, a gente já sabia que ia chegar 9 anos, máximo 10, eu também iria. Então quando começou a preparar meu enxoval, porque tinha um enxoval todo específico. Eu me lembro do banheiro no Santa Marcelina, era um banho que a gente tomava o banho comunitário, né, todo mundo junto. E era uma salão imenso, tudo em mármore, com várias cabininhas com chuveiro, você fechava a porta, mas todo mundo já tinha a sua toalha na mão e vestida de uma camisola, já tomava banho com uma camisola. E aí nós entrávamos, todo mundo saía já do dormitório vestido com esse camisolão do banho e com a toalha na mão, com sabonete, xampu, quando nós entrávamos, ela batia a mão (som de batida) significava que pode abrir o chuveiro, aí batia a mão de novo pra fechar o chuveiro e ensaboar. Então, cada palma significava uma coisa pra fazer. Então, era tudo cronometrado, tudo! E eu me lembro na hora em que minha mãe começou a fazer o enxoval e eu queria mais ver, a curiosidade de experimentar era esse camisolão de tomar banho, porque pra mim era uma coisa bárbara: ia tomar banho de camisola! (Risos). Então eu vivi muito esse momento dela preparando as minhas coisas. Meus talheres eu tenho até hoje! Eu tive, sabe? Foi uma das coisas que eu pedi pra minha mãe… Minha mãe guardou muito, de todos os filhos. Então, quando ela ainda estava viva ela me deu a minha bolsinha com os talheres. Do uniforme eu não tenho, mas eu lembro que pra mim era como se fosse fazer uma viagem e eu tava pronta pra essa escola. E fui muito feliz! Assim, gostei muito!



P/1 – E como é que era o cotidiano lá da escola, você nos falou que levantava de manhã, arrumava a cama e ia pra missa, mas como é que era essa coisa da formação de vocês e tal… ?



R – Nós levantávamos que devia ser umas seis e quinze, arrumávamos a cama nós mesmos e íamos à missa sem café da manhã. Todo dia a gente comungava! E aí uma vez por semana confessava. E aí depois da missa é que nós íamos tomar café da manhã e depois nós íamos pra sala de aula. Aí sempre freiras alternando com uma professora dando aula. Então, além de todas as matérias eu lembro que tinha aula de religião, talvez três vezes por semana. E depois íamos almoçar e depois do almoço tinha a hora de estudo. Depois da aula de estudo tinha artes manuais, que aprendia a bordar, tricô… 

 

P/1 – … Crochê… 



R – E aquela coisa de quando rasgava alguma meia, assim… 



P/1 – Cerzir, pra cerzir… ?



R – É, botava o ovo, todo mundo tinha seu ovo pra cerzir a meia. Horário de brincar a gente tinha pela manhã talvez uns 40 minutos e depois desse tear manual aí, a gente tinha talvez mais uma hora de brincar e tomava banho, jantava e dormia, eu acredito umas oito horas.



P/1 – E qual eram as brincadeiras que vocês faziam nesse internato, você lembra ou não?



R – Eu lembro que a gente jogava muita bola, nós não podíamos ficar sentadas muito tempo conversando, as freiras não davam mole. Elas viam um grupinho sentado: “Vamos levantar! Vamos jogar bola!” Então, lembro que assim, cada uma ia pro seu jogo preferido. Então eu gostava de jogar vôlei e queimada. Queimada a gente jogava muito! Todos os dias, queimada! E brincar de roda, de cantar, mas tínhamos poucos momentos de ficar sentadas conversando. Eu lembro que era uma coisa assim quase que proibida. Porque isso foi Santa Marcelina, depois eu fui pro (Regina Schelling?) no Rio e eu me lembro que lá nós não dormíamos em dormitórios como no Santa Marcelina, dormíamos em 30 num dormitório! Lá eram quatro crianças, quatro adolescentes em cada quarto. E eu tava lembrando um dia desses como é que criança é má, né. Porque eu lembro que pro meu quarto chegou uma menina da Coréia e era a época da guerra, os pais saíram da Coréia por causa da guerra e nós tínhamos cada uma um radinho de pilha, lembra do radinho, né. Que a gente podia em alguns momentos escutar esse radinho de pilha e aí no noticiário falou alguma coisa da Coréia e a coreana que não falava uma palavra (porque agora eu tenho muitos coreanos na escola, por isso é que me veio isso na memória), a coreana que não falava uma palavra viu que estavam falando da Coréia, aí eu falei: “Ju, ó, Coréia!” Quando acabou de falar a notícia, ela falou: “O que é que foi que falou?”.E eu: “Ó, Coréia, ó: acabou!” (Risos). E aí ela começou a chorar e eu fiquei em pânico quando eu vi o que eu tinha feito, né, porque ela explodiu coitada! E eu nunca, nunca esqueci isso na minha vida, nunca! Pra mim isso me marcou pra mim… Eu assustei! E aí eu fico pensando como criança é inconsequente, faz coisas tão más. E eu devia ter o que? Uns 11 anos, quando eu falei: “Coréia, ó, acabou!” (Risos).



P/1 – E Guida como é que era, que materiais que você usava, assim, que a escola usava pra ensinar? Tinha jogo, tinha massinha, vocês usavam canetinha… ?



R – Tinha massinha, e não, não tinha canetinha, não. Era massinha, lápis de cor aquele John Faber de madeira e caneta, nós só podíamos começar a trabalhar com caneta tinteiro no quarto ano, antes era com lápis e caderno de caligrafia e todos os livros eram adotados, né. Quer dizer, não tinham fichas como hoje a escola faz as fichas atualizando a cada ano. Era a História do Brasil, Educação Moral e Cívica… Todos os livros adotados, talvez eles permanecessem cinco, seis anos, sem nenhuma edição nova. Nunca tinha uma revisão, como hoje. Você pega material didático hoje, tem revisão anual, né. E eu me lembro desses livros assim. Nunca foi uma coisa sedutora pra mim ficar estudando História do Brasil. Como era em Minas Gerais a gente estudava muito sobre as cidades históricas, isso eu gostava, ficava impressionada com Aleijadinho, com Tiradentes, a história de Tiradentes, mas a organização política e social que a gente tinha e que acho que a gente era muito jovem pra ter isso, que era do regime militar, então nada disso me seduzia. E Português eu gostava das professoras de Português! E eu gostava de composição, que hoje é o texto e eu adorava fazer composição!



P/1 – E, Guida, me fala uma coisa: como é que era essa coisa de vocês irem a Belo Horizonte depois irem ao Rio? Era uma coisa que tava ligada à escola, eram escolas de referência, como é que era?



R – Era. Porque Santa Marcelina na época era escola de referência, então iam meninas do Brasil todo pra Santa Marcelina. Então, eu lembro que tinham muitas, muitas da Bahia, do Amazonas, do sul do Brasil… Iam muitas! Era uma escola de referência na época e era uma escola que era considerada onde as meninas saem muito bem educadas, não educadas pedagogicamente, mas com boas maneiras e isso era muito valorizado na época! E aí quando a gente fazia 12, 13 anos, nós íamos pro Rio, porque tinha o (Regina Schelling?) que também era outra instituição religiosa. E eu me lembro que no (Regina Schelling?) tinha meninas da Argentina, de Buenos Aires, do Uruguai, já era… Porque o Rio era capital. E era um colégio imenso, imenso, na Barra! Não era na Barra da Tijuca, não, era na Tijuca, no morro da Tijuca. Existe hoje, mas hoje é uma escola universitária, não tem mais essa escola. Eu fui visitar e é totalmente diferente. Mas é lá na Tijuca, lá no Morro da Tijuca. Na época era floresta, floresta da Tijuca.



P/1 – E, Guida, me fala uma coisa: quando nessa escola, você falou que eram quatro meninas que ficavam lá. Você ficava com as suas irmãs ou eram outras meninas que te faziam companhia?



R – Hum, hum. Irmãs não ficavam juntas nunca! Não, era quatro meninas mais ou menos da mesma idade, então eram 12, 13 anos, assim, nessa época. E, assim, era um corredor imenso com os quartos e quatro amigas em cada… 



P/1 – … E as suas irmãs estudavam nessa escola também?



R – Estudavam, mas já estavam em outro andar, em outra ala...



P/1 – E vocês não se viam durante a semana… ?



R – Via, via, no refeitório, nós nos encontrávamos no refeitório. Os momentos de playground, né, de recreio que chamava. Alguns momentos nós fazíamos juntas, mas não eram com tanta frequência. Mas a gente não se via tanto, não, via mas não tinha os momentos das irmãs conversarem, não tinha esse momento. Eu me lembro da minha irmã, da Lenora, que ela odiava a escola e ela sempre ficava falando, como ela era a mais velha nessa escola, conosco, comigo e com a Lulena, pra gente quando meus pais viessem, pra gente falar que a escola era ruim, que nós detestávamos, que a gente tinha que sair, pra convencer meus pais, pra convencer a minha mãe, né. Porque meu pai era uma manteiga, por ele ele tirava e deixava morando lá na fazenda e tava muito bom, mas pra convencer a minha mãe a nos tirar da escola. E eu sempre falava: “Eu não, eu gosto da escola, eu não quero sair.” E ela falava: “Você gosta porque você é criança, quando você ficar moça (e ela devia ter 14 anos, 15 anos) quando você ficar moça você vai ver o quanto é ruim ficar dentro da escola!” Então pra mim nunca foi um problema ficar… 



P/1 – E seus pais iam sempre? Porque você falou que…



R – Não, eles só iam uma vez por mês visitar. Aos domingos, acho que era o terceiro domingo do mês. E no Rio a mesma situação, no Rio também nós podíamos sair o fim de semana todo, aí eles iam buscar no sábado de manhã e devolviam no domingo à noite. Aí eles iam ao Rio também. Porque o meu pai teve o avião dele a vida inteira, então ele pilotava, vinha com a minha mãe, nesses fins de semana. E meus irmãos no internato, os meus irmãos era um fim de semana alternado, então eles iam pra Paty de Alferes, que era onde era a escola. Pegar meus irmãos no fim de semana pra ficar… Então, as meninas sempre estavam numa escola e os meninos na outra, então já era uma rotina.



P/1 – E o que é que vocês faziam quando seus pais chegavam ao Rio? Vocês iam pra hotel nesse final de semana ou o que é que vocês faziam?



R – Não, nós tínhamos apartamento no Rio e em Belo Horizonte, então nós íamos para o nosso apartamento. Agora, nós fazíamos esse turismo: Pão de Açúcar, Corcovado, pra praia, todo mundo junto. Todo mundo junto! Então era… Íamos almoçar fora, meus pais com todos os filhos. E nesse almoço fora a gente podia escolher o que é que podia comer. Eu me lembro que isso era uma coisa importante: escolher o que é que ia comer! Porque no internato você não tinha escolha e criança! Porque meu pai era muito exigente que a gente comesse verdura, e polenta, o angu, e tudo… Então, esse almoço fora era uma coisa que a gente esperava muito. E eu me lembro num Natal, nós ainda no Rio, nos preparando pra ir embora, pra passar o mês de janeiro em Vitória, num… Meu pai falou: “Cada filho escolhe um presente pra ganhar no Natal.” E eu falei: “Eu quero um frango.” E aí meus irmãos todos: “Ah, mas por quê?” E eu falei: “Não, mas porque eu quero comer o peito do frango sozinha!” (Risos). E aí a minha mãe falou: “Um frango minha filha?” Porque todo mundo pediu brinquedo, roupa, sei lá o que… E eu tinha uns 12 anos nessa época e eu falei: “Não, eu quero comer um frango sozinha, eu quero comer todo o peito do frango!” Eu adorava peito de frango! E eu lembro quando a gente ia pra praia, nesse fim de semana que estávamos livre, tinha aqueles frangos que ficavam rodando, que hoje chama TV de cachorro (risos), aqueles frangos rodando assim e eu ficava louca pra comer o frango! Aí a minha mãe mandou a babá, a empregada ir conosco, eu comprei o frango. Ela mandou comprar uns cinco frangos pra dividir e ela falou: “O seu tá aqui, na sua frente!” E eu tinha um irmão, tenho, né, muito mais velho do que eu, que falou: “Guidinha, você não vai aguentar!” E eu falei: “Vou!” E comecei: come uma coxa, uma segunda coxa, um pedacinho do peito… Aí eu já comecei a chorar, chorar, chorar (risos).



P/1 – Você não tava aguentando mais… 



R – E aí a minha mãe falou: “Você vai comer o frango inteiro! Você pediu, você vai comer!” E eu fiquei ali acho que umas duas horas na frente daquele frango, até a minha mãe falar: “Agora você aprende que não pode ser gulosa desse jeito! Eu falei pra você que você não dá conta de comer um frango inteiro!” Mas eu queria, eu acreditava que era uma coisa, e não sei por que eu tinha o desejo, porque na minha casa sempre teve muita fartura, sempre, sempre! Mas como eram muitos irmãos você não podia escolher a parte do frango, sabe? Porque eu lembro que muitos gostavam de coxa, outros de asa, outros de peito. E acho que a grande maioria devia gostar do peito, porque sempre o meu pedacinho de peito era pequeno e uma outra parte do frango (risos). Então, pra mim isso ficou na história, nunca esqueci desse caso do frango! Nunca esqueci de tanto que eu chorava! E eu não sabia que a minha mãe tava fazendo isso como uma brincadeira, eu acreditei que eu tivesse que comer, então foi um sofrimento de umas duas horas, até descobrir que: “Não, pode levantar e ir embora pra você aprender que não pode ser gulosa!”



P/1 – (Risos). Guida, você falou que vocês passavam as férias uma parte no Rio e uma parte em Vitória, em Vitória vocês tinham casa também?



R – Tinha, tinha uma casa em frente o mar, na Praia da Costa, que a nossa era única casa daquela praia quilométrica! E eu me lembro que o meu pai comprou duas bóias que era pneu de trator, como eram muitos filhos, então cada meia dúzia ficava naquelas bóias sentados e ficava no mar o dia inteirinho, o dia inteirinho! Verão significava ficar na praia das nove da manhã às cinco da tarde: pegando sol, descascando três vezes por mês, descascava o corpo inteiro, nariz, rosto e tudo maravilhas! E à tarde lá em Vitória nós íamos sempre numa fábrica de chocolate, que era Bombons Garoto. Então, esse era o programa, quando nós saíamos da praia ia visitar Bombons Garoto ou ir comer peixe em algum lugar. Mas era o momento em que nossos pais ficavam conosco, era nessas férias… E não ficavam a semana inteira, não! Ficavam de quinta a domingo, segunda cedo eles pegavam o avião e iam embora e aí a gente ficava com as babás na praia. Mas pra nós, verão significava um mês no Rio, em Copacabana, nós tínhamos apartamento, e um mês em Vitória.



P/1 – E, Guida, você estudou nesse colégio até que ano mais ou menos? Até com quantos anos você ficou nessa escola?



R – Até 15 anos, depois eu fui morar com um casal de amigos dos meus pais que tinham uma filha, única filha… Quando eu saí do internato eles pediram pra eu morar com eles, porque eu estudava no Rio no internato, então era uma situação que pra mim convinha e pra eles também porque eles queriam que eu ficasse com essa filha que era a única filha. E aí nós íamos pra escola juntas. E eu comecei a fazer secretariado, porque eu quis fazer curso de secretariado. Então, eu ia pra escola todos os dias. É, eu tinha 15 anos e fiquei depois… Minha mãe não quis que morasse mais no Rio, achou que: “Não, não quero você morando com a família.” Me tirou do Rio e eu fui pra Governador Valadares, porque lá começou uma escola de eletrônica, né. E aí eu comecei a fazer esse curso de eletrônica, conheci meu marido, o pai dos meus filhos, com 17 anos e com 18 eu não acabei o curso de eletrônica e eu fui morar com ele. E com 19 anos eu tive meu primeiro filho…  



P/1 – Vamos voltar um pouquinho: quando você sai do internato e você vai morar com essa família, e onde era? A família morava em que lugar do Rio?



R – Na Rua Bolívar, na mesma rua onde meus pais tem apartamento até hoje. Como a gente tinha uma família grande, meus pais compraram dois apartamentos e quebraram a parede e a gente morava nesse apartamento nos fins de semana, íamos lá. E essa família morava no prédio quase que em frente ao nosso. Então, nós brincávamos muito. A Rua Bolívar naquela época, as crianças brincavam na rua. No Rio de Janeiro, todas as crianças brincavam na rua e iam pra praia em Copacabana só com as empregadas, era muito seguro naquela época! Então, foi onde eu fiz amizade com aquela família que me convidou pra morar com eles.



P/1 – E quando você saiu… A Lenora já tinha saído da escola, já… ?



R – Todo mundo lá em casa casou muito cedo, todos os irmãos! Dezoito, 19 anos, todo mundo, as meninas casavam, os meninos com 21, 22 também já estavam casando. Então, eu quando saí do Rio, que tinha, é, 16 anos quando eu saí da casa dessa família, e voltei pra Valadares, por causa dessa escola que começou nova. Fiquei lá dois anos e no terceiro ano eu vim embora pra São Paulo, porque casei com meu marido, que na época não casei, resolvi morar junto e meus pais acharam que eu era muito jovem, tinha...  casando com alguém que tinha 18 anos mais e nós entramos num acordo que nós íamos morar junto pra ver se daria certo. E que foi uma coisa totalmente revolucionária na minha família, absolutamente revolucionária! Pra minha mãe foi inadmissível, mas foi uma conversa que entrou advogado, entrou meus irmãos. E eu não tinha, eu queria casar! 



P/1 – Você o conheceu onde, Guida?



R – Esse meu ex-marido que é o pai dos meus filhos, ele foi professor na universidade em Miami da minha irmã Lenora, ela estudava Inglês com ele, ele era professor de língua, da língua inglesa. E quando ele veio ao Brasil, ele começou a ligar pra os ex-alunos dele. E ligou pra Lenora e nós encontramos com ele no Rio, foi quando eu o conheci. E na época era época do twist e eu adorava dançar, adorava! E ele me apelidou de mosquito elétrico, então quando eu reencontrei novamente, eu tinha uns 17 anos, eu tava estudando já em Governador Valadares, tinha ido passar um feriado ou fim de semana no Rio, encontrei na rua por acaso: “Ah, mosquito elétrico, como vai, não sei o que… ” E começamos um namoro. E minha mãe falou: “Não, sem terminar de estudar você não vai casar” E ele já queria casar duas semanas depois. E foi aquela revolução, né. E eu: “Quero, quero, quero, quero!” Então, tivemos uma reunião: meus pais com ele, meus irmãos, com advogado… E eu me lembro dessa advogada numa discussão com meus pais falando, minha mãe falava: “Mas ela não vai ser feliz” E a advogada falando pra ela: “Mas você sabe o que é ser feliz? Porque é tão difícil, como você diz isso?” Então, eu me lembro que eu fiquei pensando: “Mas o que é que a advogada está querendo dizer com 'você sabe o que é ser feliz?', o que quer dizer ser feliz pra cada um é diferente.” Então, como eu era menor, meus pais tiveram que assinar um documento que eu poderia ficar morando em São Paulo. Então, eu morei com ele sete anos antes de me casar, tive os dois filhos, como ele era americano eu precisava registrar as crianças no Consulado Americano logo que eles nasceram, então as crianças estavam registradas como filhos de pais solteiros e depois de sete anos a gente resolveu casar, porque... Por que resolvemos casar? Não tinha uma razão, assim, já tava tudo muito documentado. E três anos depois nós nos separamos. Nós vivemos dez anos juntos.



P/1 – E, Guida, como é que… Eu vou voltar um pouquinho: quando você sai, vai pro Rio, tá morando com essa família aos 17 anos e depois vai pra Governador Valadares… 



R – Até 16 eu morei com a família, depois...



P/1 – É… Como é que era essa coisa de diversão, o que é que você fazia? Porque você falou que você gostava de dançar, era… ?



R – É, a gente nessa época, no Rio, era praia fim de semana e festas à noite, mas não era todas as noites. Talvez sábado à noite, não era uma coisa... A gente não saía muito, não. E essa família era família de televisão. Então, foi a época em que eu assisti novela na minha vida foi por causa dessa família, porque eles assistiam muita novela, muita televisão! Então, era a época que ia da escola pra casa e fim de semana era festa, praia… Esses programas do Rio de Janeiro de ir jantar fora nos fins de semana e Corcovado e Pão de Açúcar. Isso a gente fazia muito, muito, muito! 



P/1 – E você convivia com seus irmãos nessa época em que você tava morando com essa família? Eles estavam no Rio também ou não?



R – Tinha um irmão que morava no Rio, que nós fomos muito amigos a vida inteira, que é o Tininho, que é mais velho que eu, dois irmãos acima. E também nós éramos muito amigos, então nós convivíamos e ele morava nesse apartamento dos meus pais com uma empregada. Mas não saíamos juntos, não, porque ele já namorava uma moça mais velha e já tava em outra turma, mas nos víamos, assim… 



P/1 – E aí quando o seu marido, que foi professor da sua… Quando ele veio ao Brasil ele falava português já ou não?



R – Já. Quando ele chegou ao Brasil não, falava só inglês, mas ele aprendeu muito rápido, eu acho que um ano e meio aqui ele já tava falando português bem.



P/1 – Ah, quer dizer que ele veio ao Brasil e ficou, ele acabou ficando aqui?



R – É, ele veio na verdade por curiosidade, porque tinha muitos sul americanos em Miami nessa época, que os sul americanos eram mais cubanos do que brasileiros. Então, ele tinha uma curiosidade pelo país. E aí se apaixonou por aqui, pelo Rio, né. Que ele veio pro Rio e se instalou lá e aí os pais dele vieram depois, então ele ficou morando com os pais no Rio. Ele era muito ligado aos pais. Ficou morando com os pais no Rio. E ele tinha uma filha do primeiro casamento, que foi ele que criou essa filha. Então, eu acho que os pais vieram em função da neta que tava aqui. Ele veio pro Brasil com 35 anos, com essa filha, que tinha 2 anos. Então, eles moravam no Rio e aí ele começou a vida dele: ele montou uma escola de inglês e começou a cuidar da escola dele. Ele dava aula e cuidava da escola, então ele fez a vida dele no Rio até nós resolvermos a morar juntos e fui eu quem sugeri: vamos pra São Paulo? Eu acho que vai ser melhor, as oportunidades… E ele aceitou a minha ideia de vir morar em São Paulo.



P/1 – E nessa época você chegou a ter Inglês na escola, nas escolas em que você estudou, você chegou a ter Inglês ou não?



R – Cheguei, cheguei, mas eu acho que o meu inglês eu aprendi foi com os Beatles.



P/1 – (Risos) Por que?



R – Porque eu adorava os Beatles, adorava, adorava! E eu ouvia… Adorava música até hoje eu adoro música, adoro! E sei letras de todas as músicas! Então, eu ficava ouvindo os Beatles, eu lembro que era Beatles com 10, 11, 12 anos… Mas eu lembro de Elvis Presley quando eu tinha uns 5, 6 anos. Eu lembro que meus irmãos escutavam Elvis Presley e eu ficava louca pra repetir o que Elvis Presley cantava. Então, eu acho que foi a música que me ensinou inglês. Eu me lembro depois teve, ai, meu Deus, um… Tinha Pat Boom, não sei se você já ouviu falar, já ouviu falar? Eu lembro também. Eu acho que foi os Beatles que eu comecei realmente a falar muito inglês por causa de música.



P/1 – Bom, aí quando vocês casam, vocês resolvem morar juntos, vocês vão a São Paulo, aí vocês vão morar onde, Guida?



R – Nós fomos morar na Granja Julieta, numa rua que chama Adelino Costa, perto da Américo Brasiliense, perto daquele Pueri Domus da Granja Julieta. E fomos morar lá e meu ex-marido foi trabalhar no Graded. E eu não tava trabalhando, não tava nada e pensando: “O que é que eu vou fazer?” Porque eu tinha deixado a escola de eletrônica e eu fiquei grávida duas semanas depois que eu vim morar, quer dizer, me descobri grávida duas semanas depois que eu cheguei em São Paulo. Então, eu não voltei a estudar e o Marcão nasceu, eu cheguei pra São Paulo no dia 9 de fevereiro, e o Marcão que é o meu mais velho, né, nasceu 5 de novembro. E aí eu fiquei mãe cem por cento do tempo até ele ter 5, 6 anos, quando eu comecei a trabalhar. E não parei mais, né. 



P/1 – E você, dessa época você tinha o seu filho mais novo também, quando você começa a trabalhar?



R – Já. Na verdade, eu acho que eles tinham menos quando eu comecei a trabalhar, porque meu primeiro emprego foi de corretora de imóveis, eu fui trabalhar no que hoje é a Lopes, na época eu acho que não chamava Lopes. E eu fui trabalhar lá como corretora e gostava muito do que fazia, mas eu queria ser professora, que era uma coisa que eu queria desde 12 anos e aí tinham muitos! Aos fins de semana, nós ficávamos com muitos americanos da escola graduadas e todos esses americanos queriam aula de Português, aí eu comecei a dar aulas de Português pra esses americanos. E era corretora de dia, dava aula de Português às seis da manhã, sete da manhã, no horário de almoço e à noite. E durante o dia era corretora, nas horas que eu tinha livre. Depois o número de alunos estrangeiros aumentou muito, então eu comecei a dar aula de Português o dia inteiro. E, ah, eu acho que os meus filhos tinham… O Daniel tinha uns 3, 4 e o Marcão uns 2 anos mais, bem novos!



P/1 – E você falou que desde que você tinha 12 anos você queria ser professora. Conta pra gente um pouco porque é que você queria ser professora? E como é que a sua mãe que queria filhos médicos, como é que ela aceitou isso? (Risos).



R – É, eu assim, hoje em dia eu realizo que eu queria ser professora tanto porque eu comprava uma revista que chamava Pais e Filhos e eu me lembro que a minha mãe tinha muita bronca que eu comprasse essa revista, porque ela falava comigo: “Você tá querendo me ensinar a educar os filhos?” Eu me lembro. E na hora… Porque eu queria saber como é que educava crianças e eu tinha 12, 13 anos, quando saiu, porque era fascículos, né.  E a minha irmã mais velha, a Julieta, tinha três meninos, uma escadinha, e eu gostava de eu colocá-los pra dormir, eu gostava de dar banho nele, na praia eu que ficava perto da água com eles, assim, eu era uma babá pra esses meus sobrinhos. Eu lembro fazendo eles dormirem na rede, eu tinha uma paixão por criança, desde 12 anos, sempre foi assim! Eu era quem cuidava das crianças! Quando a gente cuidava de casinha, as amigas todas, eu não gostava de ficar brincando de boneca, eu gostava de ficar organizando a casinha, ficar como se fosse a mãe delas. Então, mais tarde que eu comecei a pensar sobre isso, quer dizer, eu já gostava de uma brincadeira com criança onde eu era a professora, onde eu cuidasse, né. E aí com 15 anos a gente ia muito pra fazenda, nas férias, fim de semana e eu pedi ao meu pai se ele podia fazer uma escola pra mim na fazenda, porque eu queria passar umas férias inteiras trabalhando com criança. E eu e a Ângela, essa minha amiga, nós fomos na casa dos colonos, né, que eram os vaqueiros e falamos:  “Vai começar uma escola e pode mandar as crianças.” Então, a nossa sala de aula tinha 27 alunos, crianças de 2 até 12 anos, todo mundo junto na mesma sala. E a gente cantava com eles, ensinava a ler alguns deles, numas únicas férias que nós fizemos isso. Com essa cartilha Eu me Chamo Lili. Porque essa cartilha eu acho que ainda existe, se procurar hoje eu acho que ainda acha em algum lugar… Então aqueles que já podiam começar a ensinar o alfabeto, a gente trabalhava o alfabeto; aqueles pequeninhos, quer dizer, tinha um agrupamento vertical, que na época eu nem sabia o que é que era agrupamento vertical, mas a Maria Montessori fez exatamente isso, né. Agrupou crianças de 2 a 10 anos numa sala e trabalhou com as dificuldade de cada um individualmente. Então, foi o que a Ângela e eu fizemos. E a gente não tinha, era uma coisa muito empírica, não tinha nenhum estudo pra fazer isso. E eu me lembro, assim, quando acabaram as férias eu fiquei apaixonada! Que a gente ia voltar pro Rio pra estudar e a escola ia acabar. E aí, assim, eu sempre queria ser professora, sempre queria! Quando eu encontrei esse pessoal do (Greyved?): os professores, os estrangeiros… Eu falei: “Pronto, é a minha chance de ser professora!” Mas aí eu comecei a trabalhar com adultos, dando aula de Português pra esses estrangeiros e eles começaram a me perguntar: “Não tem uma escola, um jardim da infância, você conhece algum aqui em São Paulo? Porque onde nós estamos levando as crianças é só em português e é difícil eu entender o que é que as professoras estão falando. Para os meus filhos não tem nenhum problema, mas pra mim tem, porque eu não consigo me comunicar.” E daí eu comecei a pensar: “Poxa, tem um nicho aqui que ninguém tá fazendo. E as crianças, os meus filhos brincavam com crianças brasileiras falando português, mas quando eles chegavam em casa, quando eles entravam com os amigos, meus amigos falavam em inglês com eles. Então, eu via que as crianças começavam a repetir o que os meus filhos falavam muito tranquilamente, sem vergonha, sem sotaque... E eu acho que foi isso: foi juntando essa necessidade, não tinha uma escola de educação infantil falando em inglês. Eu vi a facilidade que era pra essas crianças repetirem e tive a ideia: “Ah, eu vou começar agora e vai ser a minha chance de ter a minha escola de educação infantil.” Mas eu nunca pensava em escola como business, nunca, nunca, nunca! Muitos anos depois que eu vi que escola é um business, muitos anos! Porque eu comecei como uma coisa prazerosa, que era reunir as crianças, falar em inglês 100% do tempo e que eles saíssem da escola com 6, 7 anos da escola falando inglês e fossem pra as escolas normais, né. Porque antigamente não tinha as escolas estrangeiras recebendo… Tinha Saint Paul, Chapel, Graded, mas eles não tinham educação infantil nessa época, quando a nossa escola começou. Então, eu recebi todos esses alunos em potencial pra as escolas estrangeiras, foram pra minha escola. Inclusive as diretoras dessas escolas traziam os filhos delas, as professoras pra nossa escola. Quer dizer, eu não diria que eu comecei uma escola pensando:  “Ai, eu vou montar um negócio.” Como as pessoas pensam hoje. Eu vi nisso a minha oportunidade de ter a minha escola que eu tanto queria! Mas eu não contratei ninguém pra cuidar do financeiro, nada! Eu fiz tudo sozinha, assim, eu não tinha dinheiro, porque foi no momento de separação do pai dos meus filhos e como eu dava aula o dia inteiro e nós entramos num acordo, ele ficou muito mal com a separação, muito mal! E uma das estratégias que ele fez pra me segurar, ele falou: “Eu não vou dar pensão. Se você quer se separar você vai criar os filhos sozinha.” E eu nunca fui de brigar com advogado, nunca fui. E meus filhos estudavam no Pueri Domus, então eu fui ao Pueri, falei com a Bete, que pra mim essa mulher me deu uma lição de vida! Falei com a dona do Pueri: “Ô, Bete, estou me separando, meu marido falou que não vai me pagar uma pensão e falou pra eu colocar meus filhos em escola pública.” Quer dizer, pra mim colocar meus filhos em escola pública, que vinha de uma família que dinheiro nunca foi problema, nunca, imagina! 



(Troca de fita)



P/1 – Vamos voltar um pouquinho, Guida. Seus filhos estudavam no Pueri Domus e na época da separação você foi conversar com a Bete, conta um pouquinho como é que foi essa conversa, só pra retomar… 



R – É, eu contei pra ela, né: “Estou me separando e meu marido está dizendo que não vai me pagar nenhuma pensão e que se eu quiser manter os filhos aqui eu teria que pagar ou então leva-los pra uma escola pública. Então queria saber de você se você me dá bolsa.” Quer dizer, eu era completamente inocente, né. Ela não tem nada a ver com a minha história e eu achando que ela fosse me dar bolsa. E ela falou: “Ai, Guida, eu vou te dar sim, eu vou te dar um incentivo pra você trabalhar.” Eu já era professora! Dava aula o dia inteiro! Aí eu falei: “Ah, ótimo!”. Ela falou: “Eu vou combinar com você o seguinte: eu não te dou a bolsa, mas você pode atrasar os pagamentos, quando você pagar você paga dois, três, quatro carnês. Esse ano, se você quiser, você pode deixar de pagar o carnê, mas o ano que vem você começa a pagar os quatro carnês, os dois desse ano e os dois.” Então, eu fiquei um ano sem pagar o Pueri, um ano! E comecei a escola exatamente nesse ano. Porque eu me separei em janeiro de 1981, a escola começou a funcionar em fevereiro de 1981, 2, 3 de fevereiro de 1981. Então, eu mudei pra escola, pra onde hoje é a escola, que era uma casa na época. E nesse ano de 1981, além de estar trabalhando na escola durante o dia, eu saía da escola às cinco da tarde em ponto, acabava, eu tomava um banho, me trocava e ia dar aula de Inglês, de Português pra os estrangeiros. Até a última aula que acabava dez e meia da noite! Voltava, dormia e no outro dia era eu quem fazia a perua, né. Ia buscar os alunos na Liberdade, tinha muito japonês! Era eu quem ia buscar os alunos. E nesse primeiro ano eu não paguei nenhuma mensalidade. No ano de 1982 eu já comecei a pagar as quatro mensalidades. E meus filhos nessa época, o Marcão é de 1971 e o Daniel de 1973, então eles já tinham 10 e 8 anos, então eles estavam no Pueri, eu da hora em que ia buscar as crianças, deixava os meus no Pueri e ia buscar os meus alunos. E eu acho, assim, que a Bete realmente me deu uma lição de vida, quando ela me disse: “Não, eu vou te dar um incentivo pra você trabalhar.” E pra mim, eu sempre penso: os pais que ficam dando mesadas, marido que dá pensão alimentícia, realmente a pessoa fica numa posição de conforto, na zona de conforto, não vai atrás. Então, talvez seja muito duro eu pensar assim, mas eu acho que tem um momento na vida em que você tem que se assumir. E eu acho que foi com essa fala da Bete que realmente eu vi que eu tinha que assumir mesmo! Não que eu achasse que meu marido tava certo, eu acho que ele tinha que ter assumido meus filhos completamente, mas infelizmente ele pensava diferente, ele achava que era uma maneira de me castigar, né. Porque eu tava me separando.



P/1 – E, Guida, vocês vão pra essa casa e era alugada? O que é que era?



R – É, eu aluguei essa casa porque eu passava em frente sempre e via. Essa casa fechada e eu tava procurando um espaço, eu resolvi montar a escola eu acho que foi em julho, quando eu comecei a pensar: “Ah, eu acho que vou montar uma escola pra realizar esse meu sonho de trabalhar com criança, com uma escola.” Porque era um jardim da infância, né. E aí eu sempre passava em frente a essa casa e eu fui conversar com o proprietário que tinha um escritório ao lado e lá era zona um, como até hoje é! E ele falou comigo: “Olha, aqui não pode fazer escola, é zona um, não vou assinar com você um documento de locação, porque você vai ficar três meses e eles vão te tirar fora, a prefeitura vai te tirar, então não vamos fazer nenhum contrato de locação, você vai me pagando.” E eu lembro que ele falou pra mim: “Mas quem vai cuidar do negócio? Quem vai ser responsável?” E eu falei: “Eu.” E ele falou: “Mas quantos anos você tem?” Porque eu era muito magrinha, de rabo de cavalo, parecia uma menina, né, (risos). Aí eu lembro que ele ficou muito impressionado e com medo que eu não fosse cumprir e eu falei: “O senhor pode acreditar!” E eu tinha muitas jóias na época, que meus pais tinham me dado. E eu peguei as minhas jóias todas, levei na Caixa Econômica, ali na Rua Augusta, onde você penhorava as jóias e comprei o mínimo de material e fui pagando o aluguel com as minhas aulas de Inglês e Português que eu dava à noite e eu tinha uma motocicleta que teve que ser vendida pra pagar décimo terceiro, quer dizer, o primeiro ano meu foi muito apertado, muito apertado! Mas eu fui equacionando tudo bem. E fiquei um ano lá sem a prefeitura me incomodar. E depois do segundo ano a escola já tava grande, mas sem contrato nenhum, nunca assinei nada, nada! Eu fiquei 15 anos nessa casa sem nunca ter assinado um contrato de locação, nunca, nunca, nunca! Assim, foi um acordo com esse proprietário que eu sou tremendamente agradecida a ele. Muitos amigos falam que eu não preciso ser tão agradecida, porque pra ele também interessava, era um business, a casa tava fechada, tava fechada, porque foi acho que um dos primeiros assaltos em São Paulo foi nessa casa, então ele se mudou na segunda-feira depois do assalto. Então, pra ele interessava que alguém cuidasse dessa casa. Mas eu digo que sou agradecida, porque é difícil você encontrar alguém que fale: “Não, eu te alugo, não assina nada.” Eu nunca, nunca, nunca atrasei um dia de aluguel. Nunca, ele ficou numa pressão pra aumentar, não era uma pressão descomunal, assim, ele falava: “Agora é época de reajuste do aluguel.” Assim, nunca teve nenhum abuso sem nada no papel. Então, eu me considero uma pessoa de muita sorte, muita sorte!



P/1 – E, Guida, nesse primeiro ano você falou que você também era a perueira da escola, como é que era a estrutura da escola nesse começo: você contratou professora, como é que era?



R – É, eu contratei três professoras, três americanas, duas do Graded, que saíram do Graded pra trabalhar comigo e uma da Dona Érica. Dona Érica tinha uma escola que era bilíngue, mas falava uma sala só português e a outra sala só inglês. Quer dizer, não era um bilíngue como a nossa, que falava imersão total em inglês. As crianças ficavam trabalhando português e em alguns momentos em inglês, na escola dela. E a Vicky que foi a primeira pessoa que eu contratei veio trabalhar comigo. E era Vicky, era Mary Beth e Maxine, as três americanas. E tinha a Miriam, uma grande amiga minha, ficou encarregada da alfabetização em português. E eu fazia todo o resto! Eu tinha duas funcionárias: uma cuidava da cozinha e do lanche e a outra da limpeza da casa. Então nós éramos, contando tudo comigo, seis. Então eu era secretária, eu fazia banco, eu atendia pais… E as três professoras trabalhavam: uma trabalhava em meio período, as outras duas em período integral. Então, nós tínhamos crianças que vinham de manhã, crianças que vinham à tarde e crianças que vinham em período integral. E aí no outro ano nós já contratamos mais professores e daí fomos crescendo. Dessa estrutura de meia dúzia, no terceiro ano talvez já tivesse uns 30 funcionários.



P/1 – E nesse primeiro ano você foi morar nessa casa, onde você morava? Porque a casa principal ficou a estrutura da escola.



R – Não, eu morava dentro dessa casa principal na verdade. O meu escritório, eu tinha um escritório lá, era meu quarto, ninguém sabia. À noite eu botava meu colchão no chão e dormia ali, ali era minha casa. E meus filhos, como essa casa tinha uma edícula, os meus filhos moravam nessa edícula, que era exatamente atrás, assim, eu saindo do meu escritório, a dez metros estava essa edícula. E eles dormiam com essa empregada que tá comigo até hoje, a Marinalva. A Marinalva tinha a Angélica e essa edícula tinha dois quartos: a Marinalva num quarto com a Angélica e meus filhos no outro quarto. Então, a gente jantava nós todos juntos à noite na mesa de jantar ali da escola, porque era o lugar onde as crianças almoçavam. E o almoço a gente almoçava com os alunos. Porque desde o princípio tinha alunos que ficavam o dia inteiro, então a gente almoçava com os alunos. Mas eu morava ali, no meu escritório, ali era a minha casa, durante quatro anos ali foi a minha casa!



P/1 –  E, Guida, me fala uma coisa: você falou que quando você passava por essa rua, que você via essa casa pra alugar, isso foi em outubro de 1980 e você se separa em janeiro de 1981. Quando você falou com seu marido você já tinha intenção de montar a escola, qual foi a reação dele?



R – Não, eu comecei em julho a pensar isso, que eu queria montar uma escola. Mas pensava e falava com a Miriam, que era a minha grande amiga na época. Mas não tinha, assim, estruturado pra fazer uma escola bilíngue. Eu sabia que eu queria uma escola de imersão em inglês, porque eu via as crianças amigos dos meus filhos. Então, quando eu vi essa casa pela primeira vez, eu vi em setembro e em outubro foi que eu fui falar com esse proprietário e aluguei, assim, dez dias depois já tava de posse da casa. Mas eu tava já infeliz no casamento, com o marido muito mais velho, tava começando a descobrir o Brasil (risos). E com amigas da minha idade e que meu marido tinha amigos da idade dele. Então, os meus amigos da época eram os amigos do meu marido, quando eu cheguei pra São Paulo, porque eram os amigos da escola graduada. E daí eu comecei a fazer o meu círculo de amizade e comecei a ver que tinha um disparate muito grande de interesses muito diferentes e comecei a falar com ele: “Eu não tô feliz, eu não tô feliz… ” Eu fiquei um ano tentando essa separação amigável pra nos divorciarmos, na época era desquitar, separação consensual, ele: “Não, não, não, não vou deixar!” E aí eu falei: “Minha independência é sair um dia.” E assim eu fiz. Eu não falei pra ele, porque como ele sempre falava: “Você vai, você deixa, os filhos não irão com você, porque você não tem condições de sustentar como professora.” Eu aluguei a casa, não… Ele, o seu Odair, que era o proprietário, perguntou: “Quem é o fiador?” Eu falei: “Ah, fiador é meu marido.” Não contei pra ele que tava me separando. Peguei, fui lá e falei pro meu marido: “Eu tô alugando uma casa pra fazer uma escola, você assina pra mim?” Ele assinou, mas ele não tinha uma ideia de que isso significava a minha independência. Ele assinou pra ser o fiador e eu peguei meus filhos, mudei pra essa casa, durante o dia, ele tava trabalhando durante o dia, eu fiz a nossa mudança que era o mínimo, era o mínimo! Que era colchão e roupa. Foram as únicas coisas que eu levei. Contratei uma Kombi que levou os colchões e meu carro levou as malas de roupa. E mudamos pra essa casa. Meu marido ainda foi umas duas noites tentar me convencer a voltar e eu falei: “Não, não, não.” Isso era janeiro. E nesse mesmo mês de janeiro em que eu me separei, eu já tinha ido à Stella Barros Turismo, lembra que levava crianças pra Disney? Que eu pensei: “É mais uma maneira de eu levar uma grana pra começar a escola.” E nesse mesmo janeiro eu ainda levei crianças pra Disney, levei um grupo de 30 e tantas crianças, eu sozinha, porque na época era só uma única guia, que trabalhava lá com o receptivo. Então, levei essas crianças, voltei, trouxe um pouco de material dos Estados Unidos e começamos a escola em fevereiro. E meu marido ficou acho que uns dois anos acreditando que teria uma volta. Mas eu no dia em que eu saí, eu tava determinada, assim, eu sabia que não ia voltar.



P/1 – E como é que, nessa… Bom, você sempre quis montar um play garten mesmo e como é que estruturou a empresa? Como é que você foi atrás de abrir a escola, por que é que… Como é que se deu a escolha do nome? Conta um pouquinho pra gente disso!



R – A escolha do nome eu lembro até hoje: eu tava cozinhando com a Mirian, e fazendo jantar dos meus filhos, e eu falava muito com essa Mirian: “Não vou contar pro meu marido que ele vai ver que é a minha independência.” Então, eu só falava com ela desse projeto e convidei ela pra trabalhar comigo. Ela era professora, era a profissão dela na época, era professora alfabetizadora. E aí eu cozinhando, a gente falou alguns nomes e eu falei: “Ah, PlayPen. Porque playpen é aquele cercadinho, vocês sabem o que é que é, né? Como é que chama? É cercado, né? Cercadinho. E inglês chama playpen  e na hora eu pensei: “Vai ser um lugar pra brincar, mas ao mesmo tempo um lugar seguro, onde a criança não vai se machucar, a criança vai estar protegida!” Então por isso que eu coloquei esse nome PlayPen. Porque a ideia era essa: um lugar pra brincar. E como a língua falada seria o inglês, eu coloquei o nome em inglês justamente pra as pessoas lerem e saber que significava um espaço pra criança brincar, em inglês. E aí coloquei só uma faixa: “Aqui futura kindergarten PlayPen e imediatamente… Mas estruturar, estruturar, não teve uma estrutura. Eu sabia o que precisava mais ou menos uma escola, e eu fui atrás de contador, porque desde o princípio tinha funcionário pra pagar e você tinha que ter uma empresa. Então, o contador ficou cuidando dessa contabilidade e eu cuidei da outra parte burocrática, fui eu que comecei a ver qual era a documentação na delegacia de ensino, porque você tinha que fazer essa documentação, então eu fui fazendo tudo sozinha, fui aprendendo com a necessidade de fazer isso.



P/1 – E nesse primeiro ano, quantos alunos você tinha, Guida?



R – No primeiro ano eu terminei o ano com uns 34 alunos. Mas eu comecei já com 13 alunos. O primeiro dia, eu abri a escola com 13 alunos! E me lembro, assim, das primeiras famílias: Gabriela, Daniel, os primeiros alunos, o Tomás… Lembro muito dos pais, conversando com os pais nas entrevistas e eu fazia tudo ali: eu recebia as famílias, depois recebia as crianças, ficava na sala vendo as professoras trabalhar, porque era o que eu mais queria e consegui bastante ficar dentro de sala de aula, mas depois começa a crescer você já não fica mais tanto. Mas eu tinha sim uma relação muito próxima com todas as famílias durante os primeiros 15 anos da escola. 



P/1 – E como é que foi essa coisa: quando você pensou em estruturar a escola inteira, até de suporte para os pais, essa ideia da escola já ser em período integral, de você ir buscar as crianças na escola, como é que você… Você estruturou isso por que e como?



R – Olha, eu não copiei de ninguém, porque não tinha isso no Brasil. Eu me lembro, porque quando eu estava casada eu ia muitas férias pra os Estados Unidos com meu marido e as crianças. Meu sogro morava na Califórnia. E eu via lá que as crianças lá iam pra escola das oito e meia às quinze. E aí eu achava isso perfeito, né, pra as famílias trabalharem, pra as mães trabalharem. Então, eu pensei, primeira coisa que eu pensei: “Eu quero fazer uma escola onde a criança possa ficar o dia inteiro, pra mãe trabalhar.” E imediatamente chegaram famílias que as mães trabalhavam e queriam deixar lá. Não era um berçário, a gente não fez um berçário! Era escola mesmo, quer dizer, eles ficavam em sala de aula brincando a partir de um ano, pra entrar na escola a condição era que a criança andasse. Essa era a única condição, que já tivesse andando e aí eu comecei a estruturar, comprei colchãozinhos pra por eles pra dormir à tarde, assim, fui vendo quais eram as necessidades. Então, Marinalva fazia o lanche, e eu fui estruturando, assim, de acordo com a necessidade, não tinha... Só cinco anos depois, seis anos depois é que eu comecei a ir pra Chicago e ficar praticamente internada dentro de escolas de educação infantil. Levava três, quatro professoras comigo e a gente começou a fazer um curso de especialização em educação infantil que demora dois anos esse curso. Então, todas as férias eu ia pra Chicago pra ficar nessa escola e essa escola nos mandava pra berçários, pra ver crianças desde bebê no berçário… Foi cinco, seis anos depois, que eu comecei com essa estrutura de escola mesmo, recebendo crianças já em todas as fases.



P/1 –  Então, assim, no começo essa coisa da definição de linhas pedagógicas começou mais nessa época em que você começou a ir pro Chicago?



R – Pra Chicago, foi. Que a escola começou a seguir a linha da Montessori. 



P/2 – Eu queria saber como é que chegou no símbolo, porque, assim, logo que a escola começou veio o nome e aí veio o símbolo, o triângulo… 



R – Das formas? 



P/2 – Das formas, é, como que chegou?



R – Porque os primeiros brinquedos que as crianças têm são as cores primárias, né, que é azul, vermelho e amarelo, todos os brinquedos! E quando trabalha com formas, quando brinca com formas, sempre teve esses brinquedos de madeira de montar, era sempre o círculo, o quadrado e o triângulo. E aí comecei a… Na época a gente fez o primeiro logo, era um círculo e um retângulo. E depois mais tarde é que nós mudamos e adicionamos o triângulo nesse logo. E o primeiro, na verdade, fui eu quem desenhei, não tinha, na época eu não tinha diretor de arte, não. Aí no segundo é que eu contratei o diretor de arte da DPZ que é Roberto Cipolla, e aí ele já era “bam-bam-bam” e aí ele desenhou camiseta, desenhou as agendas, mas isso talvez tenha sido uns oito ou nove anos depois. Mas tudo, assim, fui eu que fui fazendo de acordo com as ideias de…  



P/1 – E, Guida, desse primeiro ano você falou que teve muita dificuldade e pelo segundo ano, pelo que você nos conta, no segundo ano você já tava um pouco mais estruturada, a escola já deu um salto em termos quantitativos, né? E como é que era a convivência dos teus filhos com a escola, eles estando dentro da escola, né?



R – Eles, coitados, né, eles moravam dentro da escola. Então, tempo livre deles era brincar dentro da escola mesmo. Os fins de semana em que a escola tava vazia os amigos deles iam pra lá e brincavam dentro das salas de aula, porque a nossa casa era a escola, brincavam dentro da sala de aula! E aqui em São Paulo tinha uma fábrica de material pedagógico, na Mooca, eu não sei se ainda existe hoje, então desde o princípio eu comprei materiais dessa fábrica, materiais Montessori dessa fábrica. E lia muito sobre o trabalho da Maria Montessori e aí as crianças usavam esses materiais Montessori como os brinquedos deles, eu não tinha brinquedo pra eles, porque já a escola era um play, né. Então eles tinham bicicleta e lá no playground atrás eles andavam de bicicleta e brincavam dentro da escola. Então, o fim de semana deles era dentro da escola, pouco viam de televisão, via à noite, assim, fim de dia. Mas essa era a vida deles, era dentro da escola, assim… 



P/1 – E me fala uma coisa: como é que do primeiro pro segundo ano você começa com seis pessoas, quando há o aumento dos alunos? Como é que você fez pra selecionar novos professores, conta um pouquinho pra gente como é que se dá isso. 



R – É, na verdade, olha, acho que nossa escola teve muita sorte desde o princípio, porque muitos professores me procuravam. Professores que trabalhavam no Graded o dia inteiro, porque o Graded não sei se vocês sabem onde é que é, na Giovanni Gronchi lá em cima. E na época não tinha trânsito nenhum, então todo mundo que ia pro Graded não ia pela Marginal, ia pela Giovanni, então passava obrigatoriamente em frente à escola, quem morasse nos jardins, em frente à nossa escola. Então, os professores começaram a me procurar que queriam trabalhar meio período comigo, porque no Graded era obrigatório trabalhar período integral, e aí começou. Então, esses professores eles foram me procurando e foi através deles que eu descobri esse curso Montessori em Chicago, porque as professoras do Graded iam pra Chicago pra fazer o curso nessa escola montessoriana. Então eu acho que o terceiro, quarto ano, eu fui e levei as minhas professoras por causa dessa turma do Graded que veio trabalhar comigo. E na verdade eu tive muita, muita ajuda dessas professoras! Como elas, realmente, eram todas americanas e iam nas férias pra os Estados Unidos, todas vinham com mala lotada de material pra escola! Então, eu tive muita ajuda dessas professoras, muito, muito! Foram pessoas incríveis essas professoras! Todas eram mães, levavam as filhas para a minha escola e tinham esse conforto de trabalhar só meio período. Então, pra elas era, hoje eu penso, pra elas era o ideal e pra mim foi o máximo porque elas queriam muito que a escola ficasse bem! E aí então foi uma coisa coletiva mesmo, o trabalho de uma equipe que tava super envolvida com a escola. Vendo as fotos agora para coletar esse material, eu penso: “Nossa, realmente eu tive uma equipe que tava super envolvida! Super envolvida!” A professora de música que era fantástica, tinha feito Juilliard, a faculdade. E ela saiu do Graded pra trabalhar comigo, porque ela tinha dois filhos pequenininhos e não queria trabalhar tantas horas. E era uma professora de música que nunca mais a gente teve igual, nunca mais! Com uma formação maravilhosa, maravilhosa! Então a gente tinha festa na escola, no princípio da nossa escola, maravilhoso: coral maravilhoso, tudo ensaiado por essa Bárbara! Então eu tive muita sorte! Eu sempre tive muito bons profissionais! E isso vem acontecendo até hoje, eu nunca vou atrás de profissional, eles aparecem, então a gente tem milhões de currículo. Hoje em dia manda currículo pela internet, antigamente tocava a campainha e falava: “Sou professora, com quem eu falo?” Então eu sempre tive essa sorte de ter muita gente nos procurando e assim a escola foi se formando. Eu acho que cinco anos depois tinha 30 profissionais, 40, não sei… 



P/1 – E, Guida, me fala uma coisa: aquela ideia inicial de ficar numa escola muito focada no primeiro estágio da criança, muito do play garten mesmo. Como é que você veio com a ideia de implantar o fundamental e por que é que você decidiu implantar e tal?



R – Ai, é porque os pais pediam muito pra começar um fundamental, porque eles não queriam mandar… Quando eu recebi os alunos, primeiro era pra aprender a falar inglês e pra preparar as crianças para as escolas estrangeiras. Menos da metade iam pra escolas brasileiras, que na época já era Vera Cruz, Santa Cruz, Pueri Domus… E aí os pais começaram a falar, esses que tinham a intenção de levar as crianças pro Graded: “Ah, o ideal seria que você começasse o fundamental (que na época chamava primeiro grau) começar o primeiro grau, daí as crianças ficariam aqui.” E aí eu pensei: “Não, então eu vou convidar uma equipe pra implantar esse primeiro grau.” E comecei a conversar com algumas profissionais e fui apresentada à Ana Maria Machado. E ela trabalhava no Vera na época, e ela veio pra escola, nós fizemos uma entrevista, assim, foi rápido, nosso amor à primeira vista! E ela me perguntou: “Que tipo de escola você quer ter? Qual é a sua ideia?” E foi nesse momento que eu falei pra ela: “Eu tenho uma ideia de fazer uma escola onde as crianças cheguem às oito da manhã e vão embora às três e meia da tarde, e em algumas horas seja feito o trabalho em inglês, outras horas em português.” E eu me lembro ela olhando e falando: “Ai, que maravilha, tantas horas na escola, significa um trabalho! Vai desenvolver pra gente desenvolver um trabalho com muita qualidade!” E eu notei que ela ficou muito seduzida por esse número de horas na escola! Não ficou tão seduzida pelo inglês, não, Ana Maria não falava inglês e nunca tinha tido essa experiência, né, de trabalhar em escola americana; e aí tava começando uma escola bilíngue que não existia, que não tinha um modelo, então eu lembro que ela não ficou segura disso, mas aceitou a minha ideia. E ela falou: “Posso trazer uma equipe?” Que eram as assessoras, então ela trouxe assessora de Matemática, assessora de Português, assessora de Geografia, assessora de História… Acho que essas quatro... E assessora de Artes. Desde o primeiro ano a escola começou com as cinco assessoras e a Ana Maria. E aí ela foi contratando excelentes profissionais e a escola foi tomando forma de escola mesmo. E isso foi em 1987, que a gente começou o primeiro ano.



P/1 – E como é que você lidou com essa coisa do inglês? Porque você sempre quis ter uma escola bilíngue, então como é que você estruturou nessa época o inglês?



R – É, do inglês cuidava eu na época, eu comprei o material, contratei essas professoras, quer dizer, então ficou combinado que o período da manhã seria em português e a partir do almoço, depois do almoço, começaria um trabalho em inglês. Então, eu contratei duas professoras, de educação infantil já tava funcionando normalmente, aí vieram duas professoras pra trabalhar no primeiro ano com o inglês. As duas trabalhavam juntas, na sala do primeiro ano com o inglês à tarde, até três e quinze da tarde. Então, quer dizer, não tinha um diretor do Inglês, tinha a Ana Maria que era a diretora da escola e Ana Maria fazia encontros com essas duas professoras pra ver que tipo de trabalho tava sendo feito com Matemática, um pouquinho de História… Assim, aquilo que podia acontecer em inglês, não tinha livro formalizado, a não ser pra trabalhar a língua, quer dizer, o language arts. Agora, um livro de História, de Geografia, em inglês nós não tínhamos nessa época. A gente trabalhava a língua só.



P/1 – Ah, mas de qualquer forma os conteúdos também tinham de Matemática e de Português, em inglês?



R – Tinha pouco conteúdo e eram sem livros, eram fichas. As professoras começaram a trabalhar com fichas, a construir as fichas. As mesmas fichas que nós construíamos em português, porque a nossa escola não tinha livros, todo o material eram fichas que eram elaboradas pelas assessoras juntas com a Ana Maria. Então a escola chegava no fim do ano e tinha aquele livro construído pelas professoras, né. Então, a mesma coisa nós começamos a construir as fichas do inglês. Não tinha um livro. E a Ana Maria supervisionava essas fichas do inglês pra garantir que o trabalho tava sendo feito, o mesmo trabalho de matemática, o mesmo trabalho que tava sendo feito em português e que tava sendo feito em inglês. Mas ela não trabalhava com a língua inglesa, porque ela não falava inglês, então eu ficava traduzindo o que é que tava sendo trabalhado, as propostas. Ela dava as propostas e eu tava elaborando o material junto com as professoras. E isso nós ficamos até os quatro primeiros anos, só as professoras e eu. Depois eu contratei uma coordenadora do Inglês e aí foi evoluindo, né, até chegar num que foi chamado diretor, o (Lion?). Mas eu tive umas quatro pessoas antes do (Lion?) que cuidava da parte do Inglês.



P/1 – E, Guida, me diz uma coisa: você para de dar aula de Português pra adultos logo no segundo ano da escola ou não?



R  – No segundo ano eu tive que parar, porque daí já era muito trabalho, muito, muito! E a escola já se sustentava! Eu já tava pagando os carnês da escola dos meus filhos, no segundo ano, no primeiro ano eu dei até dezembro, no segundo ano eu só trabalhei… 



P/1 – E você morou na escola até quatro anos dela estar lá?



R – É, eu mudei da escola, eu saí da escola em 1984, eu fui morar no Portal do Morumbi, que na época até hoje são sete quilômetros e na época eu gastava sete, oito minutos, da escola no Portal. E era como se fosse uma fazenda o Morumbi, né. Vazio, totalmente vazio! E eu mudei pra lá em 1984 e morei no Portal acho que uns quatro anos. 



P/1 – Vamos voltar um pouquinho pra essa questão dessa escola: até a chegada da Ana Maria, quem falava com os professores sempre foi você e daí quando vem a diretora, quem é que faz essa interlocução com os pais?



R – A Ana Maria. Não, atendimento a pais, quando vinham pela primeira vez, era eu que recebia, os pais da educação infantil a vida toda fui eu quem recebi, a vida toda! Do fundamental, do primeiro grau era a Ana Maria quem recebia e fazia a entrevista e trabalhava com os professores a parte pedagógica. O fundamental a Ana Maria cuidou completamente, da parte pedagógica. Agora entrevistas com pais, pais novos, era sempre Ana Maria e eu. Da educação infantil era eu sozinha que recebia os pais novos, agora reunião pedagógica, aí nossos professores do Inglês começaram a fazer as reuniões junto com os professores do Português. 



P/1 – E você tinha algum critério de seleção dos alunos? Qual é que era seu critério pra selecionar os alunos da escola?



R – Os alunos não, não tinha critério nenhum. Ele tinha que estar andando já, esse era o único critério. Agora, a gente trabalhou muito com inclusão! Eu tinha alunos com vários tipos de limitação, nunca foi um problema. Eu tinha uma aluna que não andava, ela só rastejava. E nenhuma escola queria receber, a Karen. E eu me lembro que pra nós, sabe, quando a mãe veio na reunião, me falou dela, falou: “Posso trazer a minha filha pra você ver? Ela é um amor!” E a mãe se emocionava cada vez que falava. E imediatamente eu chorava (risos). Assim, porque eu fiquei com tanta pena dessa mãe. E a Karen nunca foi problema! O único momento em que nós colocávamos ela no colo era pra levar ela da sala de aula no playground, chegava no playground, punha ela no chão, parecia uma cobrinha, ia se arrastando, nunca foi um problema. Então, não tinha um critério pra escolher a criança. Para escolher a professora tinha, tinha que falar inglês completamente bem, muito bem! E tinha que trabalhar na área de educação, a professora. Até hoje você tem professoras que têm outra formação. Eu tenho hoje uma professora super dedicada que a formação dela é Economia. Ninguém imagina que ela fez Economia! E que agora tá na faculdade à noite fazendo Pedagogia. Trabalhou no mercado financeiro e viu que o negócio dela é mesmo educação, então abandonou e tá fazendo Pedagogia à noite. Então eu tive professoras que eram arquitetas… Outras, estudaram outras profissões e acabaram trabalhando na educação, porque era o que queria. Mas o critério pra trabalhar conosco era que falasse inglês muito bem! Que fosse completamente fluente na língua e que não fosse falar português. Porque quem é fluente completamente é muito tranquilo falar inglês 100% do tempo, mas se você não é fluente você só fala inglês quando tem alguém perto, né. Então, esse era o critério para o professor, pra receber a criança não, não tinha nenhum critério… 



P/1 – E aí… Trocar a fita.



(Troca de fita)



P/1 – Guida, a Ana Maria fica com você quanto tempo?



R – Ela ficou dez anos. Ela começou em 1987 e saiu em 1997. E Ana Maria quando ela veio pra trabalhar conosco, ela já veio falando do construtivismo da Emília Ferreiro. E a nossa escola era puramente Montessori, que é, sabe? É totalmente diferente, porque o material da Maria Montessori tem sempre: te mostra o erro o tempo todo, então o aluno não consegue errar, porque a hora em que ele vai fazer uma montagem diferente, tá lá! Ele não consegue fazer, porque ele não consegue ser criativo porque o material para, quer dizer, mostra que não dá pra errar. E o construtivismo é exatamente isso: aprender com hipóteses, aprender com os erros. Então, nós fazíamos reuniões de pais à noite, primeiro as reuniões da educação infantil e depois nas salas do primeiro grau. E aí a Ana Maria falava comigo: “Ai, Guida, a gente tem que mudar a educação infantil! Esse material montessoriano é totalmente diferente de tudo que o construtivismo acredita!” E eu falava: “Ai, meu Deus, eu adoro esse material Montessori! Eu adoro a Maria Montessori, assim, o trabalho que ela fez.” Então, pra mim foi muito difícil aceitar isso. Fiquei uns dois, três anos namorando o construtivismo, eu ia pra as reuniões que ela fazia com as assessoras, então eu gostava muito. Mas aí falava: “Não, só porque tá chegando agora (porque pra mim dois anos era pouco tempo) agora já vou mudar? Não, agora a escola não é mais montessoriana?” Então a escola tava toda montada e com essas profissionais que eu levei pra Chicago pra estudar. E aí chegou um momento, acho que três anos depois que não dava mais. Eu tava completamente apaixonada e convencida que realmente a gente tinha que ir pra linha construtivista. E fomos fazendo isso devagarinho. E na verdade eu já recomecei com crianças, na sala de um ano já sem material montessori. Aí comecei a fazer um trabalho mais construtivista e a cada ano a gente foi tirando, tirando, tirando o material, quer dizer, não foi anunciado: “A escola não é mais montessoriana.” Eu fui devagarinho retirando o material, aí começamos a falar a mesma língua: o primeiro grau com a educação infantil. Isso aconteceu três anos depois que Ana Maria tava lá e ela ficou comigo dez anos.



P/1 – E, Guida, que tipo de material você substituiu pra essa fase do infantil  pra poder trabalhar com as crianças? Que tipo de material era diferente?



R – Não, tem muitos jogos ainda! Jogos pedagógicos, tem muito material dentro de sala de aula! Mas o material montessori ele é bem específico. Assim, você vai aprender números, por exemplo, então tem os pinos com uma bolinha número um, duas bolinhas número dois, então você vai preenchendo aquilo, então chegar no dez, se o aluno não colocou as dez bolinhas, ele vê que tá errado, porque tá lá o vazio. E é exatamente isso, essa hipótese dele deixar só com nove, contar…  Não existia, porque ele via que tava errado. E trabalhar com formas, por exemplo, quadrado com retângulo, ele tem que colocar exatamente no lugar, se ele não colocar no lugar, não entra o material. Então, ele não levantava nenhuma hipótese, porque tava pronto esse material. E a Emilia Ferreiro era exatamente isso: a criança tem que levantar hipótese, tem que ter as questões que a Maria Montessori não tem muito, mas tem uma coisa muito boa que é trabalhar com crianças com alguma limitação! E eu sempre tive crianças com inclusão, casos de inclusão na escola, então realmente pra mim eu ficava muito seduzida pelo material Montessori. Mas hoje, assim, lembro com saudade, mas não faria novamente de jeito nenhum uma escola montessoriana, porque nós trabalhávamos com agrupamento vertical, que eram crianças de 1 a 3 anos numa sala e de 3 a 6 na outra sala e eu agrupava dez crianças de um 1, dez de 2 e dez de 3. Eu tinha 30 alunos numa sala, 30! E depois na outra sala: dez de 4, dez de 5 e dez de 6, com três profissionais. Então, uma professora trabalhava alfabetização em português com um grupo, a outra com inglês e a outra cuidava do resto que não tava trabalhando com alfabetização. E eu lembro que tinha algumas crianças, alguns americanos, que as mães falavam: “Olha, eu não quero que ele aprenda português, alfabetização não! É em inglês porque ele vai pra escola americana.” E eu tinha um aluno, tive alguns, mas esse eu nunca me esqueci, porque a mãe falava: “Olha, eu não quero que o William aprenda a escrever em português, ele vai ter problemas, vai ficar confuso!” Então a hora do português, a gente falava:  “William, você não pode ficar nesse grupinho.” É um grupinho de três alunos com uma professora, sempre trabalhava assim, nessa sala é que tinha 3, 4 anos, 5 anos e 6 anos. Esse William tinha 5 anos, quando a gente olhava ele tava em pé, assim (risos). Olhando a alfabetização em português. Ele aprendeu, ele se alfabetizou antes dos brasileiros em português. Ele já escrevia em inglês lindo, lindo, lindo! Então, assim, era uma coisa, que esse trabalho com essa diversidade, é muito lindo! Com a Maria Montessori, é muito lindo! Essa oportunidade que os mais novos aprendem com os mais velhos e os mais velhos meio que cuidam dos mais novos. Isso proporciona, sabe, um trabalho muito rico, quando você põe esse agrupamento vertical! E hoje em dia, infelizmente, a escola trabalha com faixa etária, então é a sala de 1 ano, a sala de 2, a sala de 3, a sala de 4. E pra uma professora se bota seis meses mais jovem já fica falando: “Ai, mas é muito diferente! É muito difícil ficar com uma criança por faixa etária tão diferente!” E eu acho, assim, que foi uma riqueza pra minha vida profissional de ter esse agrupamento vertical que são oportunidades que você dá às crianças que vale ouro! Mas por outro lado não tem esse material que proporciona a criança de trabalhar com hipóteses, como é o construtivismo.  



P/1 – E, Guida, a Ana Maria ela resolve sair por quê? Como é que se deu isso depois de dez anos e tal?



R – Eu acho que ela saiu por causa do inglês, porque ela começou a achar que o grande interesse dos pais era do aluno falar inglês. Eu lembro que ela questionava muito, me questionava: “Pra você não é difícil, porque os pais vêm aqui pra saber do inglês, eles não vêm pra falar do trabalho pedagógico, né, do português. Eles vêm pra saber em que nível a criança está no inglês, se já tá escrevendo, se tá com sotaque.” E eu via e era bem claro uma frustração na Ana Maria, que fazia um trabalho maravilhoso em português, não era tão valorizado como o trabalho do inglês. Assim, era claro, eu via isso! E ela era uma profissional muito competente, muito envolvida, totalmente envolvida! Era uma educadora, totalmente! E ela ainda influenciada pelas professoras do Português que não falavam inglês, então era um problema, era outro problema que você tem em escola bilíngue é aquela professora que não fala inglês, tá sempre questionando: “Ah, por que é que a professora do Inglês faz isso?” Então, eu acho que tem uma pressão muito grande, eu senti na Ana uma frustração. E como eu não tinha tido experiência de escola antes, quando a Ana Maria me falou: “Eu vou sair, porque eu tô muito sozinha.” Eu não entendi o que ela quis dizer com esse “muito sozinha.” Hoje eu entendo, ela não tinha uma outra parceira no português pra dar força aquele português, ela era a única diretora em português, as outras eram professoras e as assessoras vinham de vez em quando, que era uma vez por semana que as assessoras vinham. Mas lá dentro ela era sozinha, era só ela de diretora. E ela não é, a Ana Maria não é uma pessoa que quer ser absoluta, ela é a única diretora, sabe? Hoje eu penso: “Se eu tivesse contratado mais duas coordenadoras que fizessem um corpo para o português, talvez ela tivesse ficado. Outras pessoas também fizessem frente a esse português.” O time do inglês era maior, então parecia mais valorizado. A escola era a única escola bilíngue, então falava-se em PlayPen, falava-se em inglês, imediatamente pensava-se: “É uma escola de inglês, uma escola onde as crianças… ” Então, hoje eu entendo perfeitamente essa saída dela. Na época eu fiquei muito triste, porque a gente perdeu essa competência toda. Mas hoje eu entendo porque ela se sentiu muito só.



P/1 – E aí, Guida, quando ela vem com essa proposta de sair, como é que você resolve essa questão da diretora… ?



R – Quando ela vem com essa proposta? (Risos). Ela me falou no dia 22 de dezembro, às 16 horas, no último minuto. A gente tava apagando as luzes da escola, quando ela me falou que: “O ano que vem eu não volto.” E eu lembro que ela me deu umas flores e falou: “Olha, Guida, pra mim tá muito difícil trabalhar com essa questão dos pais, que o interesse dos pais é só o inglês (ela não falou que tava difícil ficar sozinha). A questão dos pais aqui eu vejo que o interesse deles é o inglês, eu não falo inglês, eu não trabalho com o inglês. Então, eu acho que você pode pegar uma outra diretora pra trabalhar o português e cuidar do inglês, porque eu vejo que essa comunidade que vem aqui vem por causa do inglês.” E eu tentei convencê-la ainda, ela falou: “Não, eu tenho… Eu construí material que vocês podem trabalhar com esse material durante dois anos sem fazer nenhuma revisão!” Era um material de ponta, porque elas também faziam assessoria no Vera Cruz, esse grupo, essas assessoras. Então ela falou: “É um material de ponta, você pode trabalhar dois anos, sem nenhuma revisão. Tá aqui a Rosana (que é uma professora que trabalhou comigo acho que 14 anos). A Rosana tá aí, acho que ela pode assumir a direção da escola. E não se preocupe que a Rosana toca!” E a Rosana era jovem na época, devia ter uns 35 anos, a Ana Maria era mais velha, devia ter 50 e tantos. E eu pensei: “Não, não vou deixar a Rosana se tornar a diretora, não, eu vou atrás de alguém.” E fui e comecei a conversar e durante as férias eu fiquei conhecendo a Márcia, já as férias de janeiro. E a Márcia falou pra mim: “Olha, eu tenho um compromisso com a minha escola, eu não vou pedir demissão em janeiro, eu preciso cumprir lá seis meses até que eles achem uma outra profissional.” Então, eu falei: “Tá bom, então nós vamos fazer de conta que nós temos uma diretora, a Rosana será a diretora para as professoras, a Rosana é que vai dirigir o trabalho pedagógico do português. Mas eu vou contratar alguém pra receber os pais, pra falar que eu coloquei alguém no lugar da Ana Maria.” E a Maria Laura era diretora de uma outra escola, mas eu não tava convencida de que a Maria Laura seria a diretora adequada para a escola. Então eu falei: “Maria Laura, é uma escola bilíngue (ela nunca tinha trabalhado em escola bilíngue). Eu vou te ajudando pra você ir entendendo como é que funciona uma escola bilíngue, mas eu quero uma outra diretora com uma proposta construtivista.” Que era a Márcia. A Maria Laura trabalhava em uma escola super tradicional, super tradicional! Com livros, não fazia as fichas, não produzia material. E eu falei: “Eu vou te familiarizando com o trabalho… ” Mas eram seis meses só e ela aceitou isso. Porque ela era diretora, ela sabia desenvolver essa função de diretora, mas ela não conhecia o trabalho construtivista. A Rosana ficou trabalhando com as professoras, no pedagógico. E a Maria Laura e eu recebendo os pais. Quando foi julho a Márcia entrou e aí a Márcia ficou comigo dez anos.



P/1 – E a Márcia ela implantou alguma coisa nova em termos pedagógicos ou ela deu uma continuidade no trabalho que a… ?



R – Ela deu uma continuidade no trabalho da Ana Maria. Mas a Márcia tem uma coisa assim de formação de professores que é muito forte, é muito forte! E é uma pessoa, assim, muito reflexiva! Ela colocou essa cultura dentro da escola de reflexão, de formação do profissional, de trabalhar a individualidade de cada criança, de trabalhar com inclusão muito forte, aí ela começou a contratar profissionais pra vir fazer palestras de como trabalhar aquela criança com inclusão. Então, assim, ela realmente deu uma enriquecida muito grande e ela contratou coordenadoras, né. Quer dizer, ela já montou um corpo de profissionais que a gente não tinha antes. Porque a Ana ela foi construindo a escola devagarinho. Então, a Márcia já recebeu a escola com 300 e tantos alunos na época. E aí ela deu mais qualidade a esse trabalho, mais qualidade, assim, com mais profissionais, ela trouxe mais profissionais! E aí eu tinha uma outra pessoa que cuidava do inglês, que era a Silmara, que cuidava do programa do Inglês e tinha uma coordenadora da educação infantil, que era a Marta. Então, quer dizer, a escola começou a tomar um corpo maior.



P/1 – E o seu papel nesse momento qual era? Qual era, Guida, qual ficou o seu papel na escola?



R – Ah, quando a Márcia entrou eu já tava muito no administrativo! Porque a escola já tava muito grande, muito grande! Eu ainda recebia pais, mas era muito menos. Porque no tempo da Ana Maria, os dez anos da Ana eu recebi todos os pais, mas aí já comecei a trabalhar muito com o administrativo na época da Márcia. Mas aconteceu uma coisa engraçada, porque a Márcia se tornou a minha maior amiga, até hoje nós somos muito, muito amigas! E eu acho que nós ficamos muito próximas, porque eu me apaixonei pelo trabalho pedagógico da Márcia! Assim, ela é uma educadora completamente envolvente com os profissionais e com o aluno! Então, eu assistia todas as reuniões pedagógicas que ela fazia, eu fui me envolvendo muito, mas durante o dia eu tava trabalhando muito no administrativo, já não tinha tempo de ficar dentro de sala de aula, entrevista com pais era ela quem fazia. Então, fiquei no administrativo e daí pra frente cada vez mais. 



P/1 – E como é que se dá a compra da escola e o processo de reforma? Em que momento isso se dá e como é que foi esse negócio de ampliar a escola, Guida?



R – Olha, na verdade, os pais e perguntavam muito por que eu não construía um prédio, por que eu tava cheia de alunos e não tinha um prédio? E eu gostava dessa coisa de escola pequena, eu achava, sabe, a ideia de ter um grupo pequeno significava mais qualidade. Até hoje eu ainda acho que uma escola pequena você tem condições de fazer um trabalho de mais qualidade. E os pais na pressão. E eu me lembro que o Pércio tava no Bndes [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] ou no Banco Central, não consigo me lembrar, porque ele esteve nos dois. Não, era no Banco Central. E ele falava comigo: “Ai, Guida, por que é que você não constrói uma escola?” E depois mais tarde no Bndes: “Você deveria construir!” Porque a gente ia construindo puxadinhos, né. Porque eu primeiro aluguei essa casa e o terreno, onde eu fiz o playground e depois eu aluguei o escritório do seu Odair que era um escritoriozinho que eu fui aumentando, porque a gente falava “barracão”, “puxadinho”, aquela coisa e foi virando um labirinto. E aí os pais exigindo que fizesse um prédio adequado, exigindo não, me pedindo. Que fizesse uma prédio adequado e eu não tinha condições financeiras. E aí o Pércio me falou: “Olha, eu tô no Bndes agora, se você quiser me usar pra fazer esse pedido ao Bndes, você tem uma escola que tá dando certo.” E eu não tive coragem, falei: “Não, não vou fazer um prédio, sabe, uma estrutura muito maior, eu não vou ter condições de pagar.” E aí os pais me apelidaram de Peter Pan, porque eu não queria crescer (risos). E eu não sei o que é que aconteceu, eu fui amadurecendo, amadurecendo e eu resolvi comprar esse terreno que eu tava, essa casa. E na verdade, assim, eu me lembro desde o primeiro dia em que eu entrei lá e eu perguntei quanto era pra comprar, não tinha um real na minha mão, um cruzeiro, mas ele me falou um valo, e eu comprei por esse valor 15 anos depois, ele falou em dólar. Na hora em que ele falou eu quase desmaiei. E ele me vendeu por esses dólares que ele falou a primeira vez na vida. Pelo mesmo valor! Não foi nada desvalorizado, não, foi milhões de dólares, mas quando ele falou ele tinha na cabeça tantos dólares. Quando eu fui falar com ele, 15 anos depois ele falou: “Não, não mudou, dona Guida, ainda tantos milhões de dólares.” E eu comprei por isso 15 anos depois, sem assinar nenhum papel, tudo verbal! Ficou combinado em dólar, que eu pagaria ele em dólar. Então, todos os meses eu ia e pagava e ele me dava um recibo, todos os meses! Eu fiz isso durante uns cinco anos. Acabei de pagar o terreno, a casa, tudo e comecei a investigar como é que era pra fazer o financiamento no Bndes, aí chegou no meu escritório um rapaz, José Carlos, que fazia toda essa tramitação junto com o Bndes. E aí ficamos trabalhando uns seis meses, porque é uma quantidade de documentos, é um projeto, né, pra fazer esse financiamento, né. E aí fomos na reunião e imediatamente o banco, que fazia negociação junto ao Bndes aprovou o crédito e, sei lá, demorou uns 90 dias e tava aprovada a nossa, quer dizer, o cadastro da escola tava aprovado pra financiamento. Então, qual era o próximo passo? Projeto de arquitetura! Aí eu passando, vi uma casa do Marcio Kogan, gostei. Depois vi uma casa do Isay, gostei. Não sabia quem eram esses arquitetos! Eles não eram conhecidos. Mas eu toquei campainha, perguntei: “Quem fez o projeto?” Uma era do Isay, outra era do Marcio Kogan, daí eu falei pra minha secretária: “Descobre esses endereços pra mim.” E ela descobriu esses dois nomes. E eu falei com Marcio e falei pra ele: “Olha, eu gostaria que você fizesse um projeto, mas eu gostaria que fizesse junto com o outro arquiteto Isay Weinfeld.” Aí ele falou: “Olha, que coincidência, nós hoje estamos fazendo um projeto juntos! Que é o Fasano, o Hotel Fasano.” Então, foi muita sorte, que eles já eram amigos, não foi sugestão de ninguém, era uma ideia minha. E aí eles… Eu comecei a ter várias entrevistas com eles, demorou um ano e meio ou talvez até dois, pra esse projeto ficar pronto. E teve que ser aprovado na prefeitura, mais seis meses… E quando ficou pronto o Bndes liberou a verba, né. Eles vão liberando durante um ano, enquanto o prédio tá sendo construído, não depositam tudo de uma vez. Mais quatro, cinco meses depois, tava essa construção. Nós começamos a construção, na verdade, em janeiro de 2002. E aí a vizinha telefonou, vocês já sabem dessa história?



P/1 – Não, mas conta pra gente!



R – A vizinha ligou pra mim e pediu: “Ai, Guida, tá fazendo muito barulho, eu tô jogando tênis e eu gostaria que a obra só começasse depois que eu acabasse de jogar a minha partida.” E ela jogava tênis todos os dias até às onze da manhã. E ela me ligou à noite: “Então, daria pra você pedir pra obra só começar a partir das onze da manhã?” Eu inocente, falei: “Ah, dá, vou falar com eles!” E eu tinha assinado um contrato de 330 dias de obra, se eles atrasassem um dia, eles pagariam multa pra mim. E aí o senhor Oscar da construtora falou: “Não, nós temos um contrato com a senhora, não podemos trabalhar a partir das onze, não existe isso. A senhora liga pra essa vizinha que não, que nós temos um contrato.” E aí quando eu liguei de volta falando: “Clara, eu não posso fazer isso, porque a gente tem um contrato que temos que cumprir.” Ela falou: “Não, mas o prejuízo é seu, você leva esse prejuízo!” E eu falei: “Mas, Clara, a escola tem que estar pronta, porque é durante um ano só.” E o que incomodava ela era o bate-estaca, que era a duração de 21 dias. Aí ela falou: “Ai, Guida, você sabe…” Ela era uma franco-italiana, era não, ela é, e aí ela falou: “Você sabe que eu tenho milhões de dólares!” E eu falei: “Ah, sei, já ouvi falar.” (Risos). Aí ela falou: “Guida, nem que me custe milhões de dólares, eu vou acabar com a sua escola.” Daí eu falei: “Clara, vamos conversar um pouquinho, peraí.” Eu vi que ela já tava pronta pra desligar, ela falou: “Não, eu não tenho mais o que conversar, você vai se arrepender, porque eu vou acabar com a sua escola! Me custe milhões de dólares eu vou acabar com a sua escola!” Aí desliguei o telefone e fiquei perplexa, mas não acreditei, não achei que isso era possível acontecer. E no outro dia nada aconteceu, uma semana depois, acho que duas semanas uma vizinha foi lá: “Ah, quero falar com a Guida.” Aí veio com uma conversa de colocar a  filha dela, me pediu bolsa, que ela não tinha condições de pagar e nessa ela falou pra mim: “Você sabe que os vizinhos estão se reunindo pra fazer um movimento pra fechar a sua escola?” Eu não acreditei nisso, mas eu comecei a ouvir, né, ela falou: “É, tem um movimento grande aí, esse vizinho aí atrás, a Clara com o marido, eles estão falando em fechar a sua escola, e eles criaram uma sociedade, Sociedade Amigos do Bairro Cidade Jardim, porque se eles perderem a causa, você não pode pedir indenização, porque é uma sociedade sem fins lucrativos. E se eles fizerem uma ação sozinhos e se eles perderem eles tem que indenizar você.” Então, quer dizer, já foi me comunicado que alguma coisa estava acontecendo. Isso deve ter sido maio, mais ou menos. Quando chegou 11 de setembro (risos), chegou um oficial de justiça com uma carta que eu tinha que parar a obra imediatamente que cada dia em que eu continuasse a multa era de 8 mil reais, um horror, um horror! Tinha que parar e provar que essa obra era legal, que o alvará não era fraudado, que tudo tava legalizado e tudo estava absolutamente legalizado! Porque o Bndes é o primeiro a inspecionar toda a documentação! Toda a documentação! Junto a Prefeitura de alvará e tudo, eles não soltam dinheiro se não tiver alvará tudo legalizado. E aí paramos, a construtora falou: “A senhora tem que demitir todos os funcionários, porque eram todos meus contratados, eu tive que mandar embora 200 e tantos funcionários: pedreiros, carpinteiros, todo mundo…” Tive que demitir todos e preparar toda a documentação que o Ministério Público me pediu pra preparar provando que esse alvará não era fraudado, porque o que eles escreveram é que era tudo fraudado, que eu era amiga da prefeita, que era Marta na época, então que a Marta tinha facilitado. Eu nem nunca tinha visto a Marta na minha frente! E que tinha amigos com esses, pessoal que trabalha na Subprefeitura, os fiscais, que era amiga de fiscal da prefeitura. E eu não conhecia ninguém, ninguém, ninguém nessa época! E eu tinha 30 dias pra entregar essa documentação, fiquei preparando a documentação com um advogado que me foi indicado por um pai da escola. E esse advogado em algum momento falou pra mim: “Olha, Guida, se eu fosse você, eu vendia esse terreno pra os seus vizinhos, porque é muito difícil a gente ganhar essa causa, esses vizinhos realmente são muito poderosos, eu não acho que a gente vai conseguir ganhar isso, não, se ganhar é daqui dois, três anos!” Eu falei: “Não, não, vamos, vamos continuar! Vamos fazer uma reunião pra os pais falando que vai demorar.” Isso nós estávamos alojados em uma casa alugada, que até banheiro virou sala de aula, então vocês imaginam como os pais estavam felizes! E aí na reunião de pais à noite, o advogado voltou a falar a mesma coisa que ele falou pra mim, o mesmo discurso: “Olha, pode ser que demore dois, três anos, vai ser muito difícil, então não quero animá-los e dizer que a escola vai retomar a obra rápido.” Então, é lógico que deu uma murchada nos pais, que estavam com essa expectativa do prédio novo e devagarinho os pais vieram, com toda educação, com todo carinho: “Olha, não dá pra continuar, porque a gente não sabe quando… ” Mas aí quando acabou essa reunião à noite, eu liguei pra um amigo meu que é advogado e contei pra ele e ele falou: “Guida, muda de advogado já! Acabou esse advogado, ele já tá do lado de lá! Pode procurar outro advogado. Vou te dar um nome que se ele aceitar o trabalho, ele é seríssimo e se ele aceitar esse trabalho, você pode entregar de olhos fechados que tá ganha essa causa!” Aí eu fui falar com esse outro advogado, com esse novo advogado, cancelei o doutor (Andriani?) e fui falar com o novo advogado. E o novo advogado falou comigo: “Me dá duas semanas pra eu dar uma estudada nesse caso.” E ele falou: “A senhora não lembra de mim, dona Guida?” Eu falei: “Não.” Ele falou: “Eu fui pai lá na sua escola.” Ele falou: “Eu só fui lá uma vez na minha vida, quem levava lá meus filhos era o motorista, não sei o que… ” E lembrou da Marinalva (risos). “E a Marinalva ainda tá lá?” Falei: “Tá!” E aí ele falou: “Não, eu simpatizo com o seu caso, porque os meus filhos fizeram o jardim lá (porque na época muitos faziam só o jardim, depois iam pra escola americana), fizeram o jardim da infância lá, eu vou pegar o seu caso!” E aí comecei a trabalhar com ele, fazer reuniões com ele de quatro, cinco horas e ele falava: “Me conta isso, me conta aquilo… ” E aí foi uma canseira, abandonei praticamente a escola com a Márcia e fiquei só cuidando dessa coisa, dessa burocracia pra montar toda a documentação. E aí eu me lembro que nós fomos, ele falou comigo: “Hoje eu vou levar pro juiz, todos os documentos prontos. Dona Guida, a senhora não pode entrar na sala do juiz (risos), a senhora faça de conta que a senhora não sabe que não pode entrar e entra comigo pra ouvir o que o juiz fala e se der uma chance a senhora conta pra ele a verdade.” Aí quando ele me viu, assim, entrando, ele não teve coragem, era bem jovem, um juiz jovem, ele não teve coragem, mas era o juiz que tinha concedido a liminar mandando fechar a escola. E aí ele falou: “Ai, doutor Rui, como vai? Não sei o que, doutor Rui (ele tinha sido professor dele na universidade), como é que vai?” “Ai, tá aqui o documento, todos os documentos aqui.” Ele falou: “Muito obrigado, o senhor pode deixar.” E aí eu falei: “Ah (o juiz doutor Allende), doutor Allende, deixa eu falar pra o senhor o que é que aconteceu?” E ele falou: “Olha, a senhora não pode me falar.” Eu falei: “Mas o senhor não sabe por que é que a escola tá fechada?” E comecei a falar e ele falou: “A senhora não tem ideia como eu fico mal todos os dias em que eu dirijo em frente a esse prédio, é um prédio que eu mandei fechar, uma escola que eu mandei fechar. Mas você não tem toda a documentação completa, eu não posso deixar a escola continuar.” Aí eu falei: “Não, eu tenho, eu tenho toda a documentação, vou mostrar pro senhor, está tudo aí, mas isso foi um capricho de alguém!” E aí eu comecei a chorar e o juiz ficou, assim, sem saber o que falar. O doutor Rui falou: “Ah, vamos sair e tal.” E o juiz falou: “Mas o que é que aconteceu? Como é que essa turma implicou com a senhora?” E aí eu contei, que ela falou: “Ah, nem que custe milhões de dólares, ela vai acabar com a minha escola.” Ele falou: “Se a senhora está com a documentação correta não vai acabar. Deixa eu dar uma olhada nessa documentação e depois eu falo com o doutor Rui.” E saí de lá. E uma semana depois esse mesmo juiz caçou a liminar, mas com uma condição que eu tinha que abrir mão do playground, porque os vizinhos não queriam barulho. Então o terreno de mil metros ao lado entrou na negociação, que eu não poderia deixar as crianças brincarem lá, porque tem uma lei que o vizinho tem que assinar a favor da escola. Então, eu perdi esse terreno que tá lá parado. E eu comecei, retomamos a obra, a obra retomou, isso foi dezembro, quando o juiz caçou a liminar, quer dizer, ficou parada de 11 de setembro até a primeira semana de dezembro. E aí foi uma festa que nós fizemos, nós fizemos uma festa lá, uma festa grande, todos os profissionais da escola e retomamos a obra em janeiro. E, assim, eu lembro que tava saindo aquele CD [Compact Disc] dos Tribalistas: “Hoje a minha escola vai sair na avenida”, lembra que teve essa música que foi o maior sucesso? Então, a gente escutava na escola essa música o dia inteiro, assim, pra comemorar e virou um hino da nossa escola, essa música dos Tribalistas! E aí retomamos a obra em janeiro. Mas nessa eu já tinha perdido 60% dos alunos, foram embora, então eu fiquei com esse 40% ainda meio semestre nesta casa e voltamos pra lá em julho. Eu mudei dia 30 de julho pra esse prédio novo, sem aluno, porque era férias! Primeiro dia que nós todos instalados, umas seis horas da tarde, tava a Márcia e eu, um engenheiro, a Daniela Almeida, umas seis e meia da tarde chega um oficial de justiça pra fechar a escola. Primeiro dia que nós mudamos! Um oficial de justiça pra fechar e tal. E aí eu liguei pro doutor Rui, que era o advogado: “Põe esse oficial de justiça no telefone, por favor.” Tava o oficial de justiça com dois advogados. Aí ele falou: “Mas não tô entendendo, mas de onde? De qual fórum? De qual regional que tá?” Aí ele falou: “De Pinheiros.” Ele falou: “Mas como? É uma segunda ação no mesmo caso?” Porque é crime, né? Quer dizer os vizinhos conseguiram começar uma segunda ação pra usar uma outra regional. Ele falou: “Isso é um crime! E não, não vai fechar nada.” E aí eu morrendo de medo, teve 31 de julho que a gente ficou lá e pronto: primeiro de agosto, vieram os alunos! Mas eu saí de lá desse prédio com 332 alunos. Voltei com 112 alunos, quer dizer, o prédio era um elefante branco. O Brasil inteiro me falando: “Venda, venda, venda! Você perdeu, a escola não retoma! Venda! Você vai viver com o dinheiro desse prédio.” Quer dizer, com o dinheiro do prédio eu tinha o Bndes cinco anos pra pagar, a única coisa que eu era proprietária era do terreno que eu dei como garantia para construir. E aí começou a chover de propostas, outras escolas querendo comprar, comprar a nossa escola, comprar a PlayPen, não é comprar o prédio, queriam comprar a escola. Teve propostas de escolas pra eu tocar a escola, como se fosse a minha escola, mas era uma outra escola que seria mantenedora e tal. E eu ouvi todas as propostas e nunca fiquei seduzida. A Márcia mesmo falava: “Guida, não sei como você aguenta, vende, vende! Você tá se acabando.” E não, e aí devagarinho, devagarinho comecei a receber alunos, mas, assim, um pouquinho, porque era um prédio que só um andar tinha alunos, dois andares vazios, completamente vazios. E a gente completamente desmotivada, imagina: todos os profissionais completamente desmotivados, porque a gente já tinha tido uma escola maravilhosa e tava retomando naquele que a gente chamava elefante branco. E nós voltamos em julho pra lá. A Márcia já há um ano vinha falando que queria sair, que queria sair, que queria sair, que os netinhos tinham nascido e que queria mais tempo pra ela. Mas falou: “Eu fico com você até a escola tomar corpo de novo, depois eu saio.” E nós nesse prédio vazio, em setembro fomos para Alter do Chão, não sei se vocês já ouviram falar? Alugamos um barcão grande, a Márcia, a Simone, minha maior amiga, e eu. Só nós três nesse barco pelo Solimões ali. E aí eu falando: “Márcia, você tem que continuar comigo e tal.” E aí a Márcia falou: “Não, Guida, eu não quero mais, eu tô desiludida de educação, educação nesse país não é respeitada, eu não quero, eu não quero! A hora em que a escola reestruturar eu vou sair.” Aí a Simone que era a minha grande amiga falou: “Você já saiu, Márcia! Sua alma não tá lá dentro da escola lá.” Eu acho que a Simone falou isso pra mim, pra mexer comigo, porque como a Márcia e eu éramos muito amigas, eu não conseguia ver a escola sem a Márcia. E aí eu falei: “Ah, então, Márcia, então quando eu chegar lá eu começo a procurar alguém.” E foi aí que ela falou da Célia, ela falou: “Vamos procurar essa pessoa, que é uma pessoa muito executiva, ela não trabalha com pedagógico, mas ela tem conhecimento muito grande de profissionais, vou te apresentar a Célia!” E foi ela quem me apresentou a Célia e a escola talvez tivesse 120, 130 alunos nesse semestre todo. E o (Lion?) já estava comigo fazendo assessoria, ele não trabalhava, ele trabalhava numa outra escola e vinha fazer assessoria. E aí veio a Célia em novembro e o Lion veio em agosto, e a Célia veio em novembro…   



P/1 – E como é que você conheceu o (Lion?) Deixo.



(Troca de fita)



P/1 – Guida, vamos voltar um pouquinho: nessa coisa da reforma, que é aprovado o financiamento do Bndes e tal, você teria que sair da escola e como é que você resolve esse problema, como é que você… Pra onde você levou a escola e como é que foi isso?



R – Não, eu queria continuar ali naquela área, eu não queria sair de lá. E aí eu tinha essa casa que é de um ex-pai da escola que tava pra alugar a casa. Mas ele morava lá e colocou a placa “aluga-se”. Então, ele tava numa condição financeira ruim, então ele só queria sair de lá quando ele alugasse. E nós alugamos a casa e ele falou: “Eu tenho alugado pra fazer eventos nos fins de semana, mas se eu alugo pra você um contrato mensal, anual, eu vou parar com os eventos.” Eu não tive dúvida que ele ia parar com os eventos. E aí nós mudamos pra lá e ele chegou pra mim e falou: “Olha, dona Guida, eu vou ter que continuar com os eventos, porque só o aluguel da senhora não tá suficiente, com os eventos eu recebo muito mais. Então, eu vou ter que fazer os eventos aqui dentro.” Eu falei: “Não, Ramon, a nossa conversa não foi essa.” Daí ele falou: “Não, então a senhora pode deixar a casa.” E ficou nessa pressão, nessa pressão, eu falei:  “Bem, eu não tenho condição de ir pra outro lugar agora.” Era um ano só de obra. Eu falei: “Eu aceito esses eventos nos fins de semana.” Então o que é que a gente fazia? Às sextas-feiras a gente desmontava a escola, todas as sextas-feiras cobria tudo com papel craft: tudo, tudo, tudo! Botava tudo numa única sala, esvaziava a escola, completamente pra ter esses eventos. E fora a pressão dos pais na segunda-feira: “Ah, eu não quero meu filho estudando numa escola onde tem eventos nos fins de semana, eu não sei se eles vão encontrar garrafa de bebida, se eles vão encontrar drogas.” Todas essas problemáticas que eles acreditavam que uma festa podia ocasionar. Então, quer dizer, eu lidava com os pais e eu lidava com o meu locador, que queria convencê-lo e: “Não, não, não, não, não, não!” E não tinha outra coisa. Então a gente ficou um ano ali vivendo desse jeito. E com os pais me dizendo: “Olha, Guida, eu sinto muito, eu gostava muito da escola, mas eu não vou ficar, eu vou sair no fim do ano.” Então, quer dizer, foi um ano muitíssimo difícil, muitíssimo! Então fui visitar, tinha algumas escolas que tava com muitos poucos alunos e daí ficava me oferecendo pra eu me associar a elas, quer dizer, levar meus alunos pra esses prédios que já estavam prontos. Então, eu ia visitar, eu ouvia conversa, ia visitar mas sabendo que não era o que eu queria, mas eu falei: “Não custa ouvir.” E nunca me convenceram, nunca me convenceram. Eu tava convencida de que eu tinha que batalhar mais! Eu nunca fiquei convencida de que eu ia vender a escola, nunca, nunca! Assim, eu achei que uma hora eu fosse ganhar, eu não acreditava que isso não teria um fim positivo. Então, eu fiquei. Quando nós voltamos pro prédio e voltamos 30 de julho de 2003, fiquei… Você me perguntou como é que eu conheci o (Lion?), eu fui num workshop na Saint Paul e sentei ao lado desse cara muito simpático e começamos a conversar, e a gente tinha crachá, ele olhou e falou: “Ah, você é da PlayPen? Ah, eu queria visitar a sua escola!” Eu já tava no prédio novo, vazio, totalmente vazio: “Eu queria visitar a sua escola.” Eu falei: “Ah, então vai visitar!” E nessa visita ele falou: “Ai, eu gostaria de trabalhar aqui.” E eu falei: “Ah, você não quer trabalhar com assessoria um pouco?” E ele começou a dar assessoria pra gente, então todo esse material novo de Inglês que nós adotamos, ele começou a dar assessoria como trabalhar com esse material. E isso foi… Nós fechamos o contrato fim de novembro, ele começaria em janeiro, e ele ficou de janeiro até julho trabalhando com assessoria. E a partir de agosto ele foi contratado como diretor pedagógico do Inglês. E tava a Márcia e (Lion?) juntos. Isso em 2003, não, 2003, porque… E aí a Márcia e eu fomos pra entrevista com a Célia em novembro de 2003 e contratamos a Célia. Então ficaram Márcia, Célia e (Lion?) trabalhando comigo. E em fevereiro a Márcia sai e fica a Célia e (Lion?), e isso é fevereiro de 2004, que ficaram eles dois.



P/1 – Além da perda de alunos, você também teve perdas de professores, de profissionais nessa época da escola, que teve essa evasão de alunos?



R – Ah, saíram, mas não saíram tantos profissionais, não. Não. A escola era bem enxuta, assim, com profissionais. Hoje em dia a escola tá gorda de profissionais, mas não tinha gordura nenhuma, era bem enxuta. Era uma empresa que eu conseguia tocar com muita qualidade, mas bem enxuta! Hoje eu tenho uns luxos lá que eu não tinha, hoje eu tenho quatro professoras numa sala, antigamente eu só tinha três na educação infantil. Que eu não vejo necessidade, não precisa ter esse quarto! E hoje tem menos alunos na sala, eu tenho sala de 20 alunos na sala, antigamente eu tinha sala de 30, 37, 34 com duas professoras. Então, quer dizer, era mais enxuto, a estrutura da escola. Então não saíram tantos profissionais, não, o que saíram foram alunos, alunos saíram muito!



P/1 – E, Guida, me diz uma coisa: a proposta de se trazer um diretor como um Mister French e pra assumir uma diretoria de Inglês, por que é que você achou necessário?



R – Ah, porque eu vi que quem tava na época era a Daniela Leonardi que tava fazendo inglês quando o (Lion?) começou e eu comecei a ver que a educação infantil precisava ter uma coordenadora só pra educação infantil, e eu comecei a achar que o perfil da Daniela era pra educação infantil, que ela deveria permanecer na educação infantil. E aí ela era professora da educação infantil e coordenava o Inglês do fundamental, quer dizer, tava nas duas funções. E aí eu comecei a ver que o ideal era deixá-la só com educação infantil. E o (Lion?), eu contratei o Lion pra ele cuidar absolutamente, quer dizer, eu saí completamente fora, a Dani Leonardi saiu e eu via a necessidade que tinha de ter, sabe? A escola tava começando a aumentar o número de alunos... E eu vi que esse era o momento de dar um salto. Então por isso que nós contratamos o Lion, por isso que eu...



P/1 – E com a saída da Márcia e a entrada da Célia, o que é que mudou pedagogicamente? Qual foi a proposta e por que a escolha da Célia? Na verdade, o que é que te levou a contratar a Célia?



R – É, a escolha da Célia acho que foi feita pela Márcia, não foi por mim, não, foi mais a Márcia que falou: “Eu acho que você agora precisa de alguém pra recuperar os alunos. E a Célia é uma pessoa de muito marketing.” Assim, ela realmente sabe fazer esse marketing da escola, porque eu e a Márcia somos zero à esquerda pra marketing da escola. E ela falou: “Eu acho que você devia contratar essa pessoa agora. Pedagogicamente, a escola tá muito bem estruturada, mas com as pedagogas você não tá conseguindo pegar aluno e agora tá na hora de você ir atrás de gente de marketing.” E aí nós contratamos a Célia com essa ideia dela estar fazendo reuniões e apresentando a escola para os pais, pra nós recuperarmos os alunos. E o (Lion?) quando ele veio, uma das coisas assim que ele falou comigo muito, estressou muito: “Eu sou um homem de marketing. Então, eu quero fazer o marketing da sua escola!” E realmente ele é muito bom no pedagógico, mas eu me lembro quando ele falou isso, ele fez um contrato assim: “trabalhar com marketing, dar visibilidade a escola, dar visibilidade ao trabalho pedagógico.” E a gente tinha muita reclamação dos pais: “Vocês não mostram nada do que vocês fazem, vocês não vendem a escola.” Sempre os pais falavam isso comigo: “A gente não sabe de nada! A gente pergunta e vocês não falam!” E era assim uma reclamação ao meu respeito e a respeito da Márcia. E a Márcia falou pra mim: “Eu acho que tá na hora de você contratar essa mulher (que era a Célia, né), que realmente sabe vender a escola. Eu já vi o trabalho dela no Lourenço, realmente ela é uma mulher de marketing e muito respeitada!” Então, quer dizer, quem me falou da Célia foi a Márcia, quem me falou desse marketing da Célia foi a Márcia. Agora, o Lion foi ele mesmo quem me falou: “Eu sou uma pessoa que te prometo fazer um marketing da escola que vai dar visibilidade a essa escola que não tem.” E na verdade não tem e tava no pior estágio, assim, tava uma escola ameaçada de acabar. Então, realmente valeu muito ter esses dois, que além de bons profissionais da educação fizeram esse lado de marketing que nunca foi feito, nunca! Eu nunca pus anúncio da escola, nunca fiz nenhuma divulgação. Eu sempre achei que escola que fazia anúncio e não sei o que, era comercial. E, assim, foi engraçado porque o Negrão, que é dono da Antena 1, ele mora perto da PlayPen e ele viu toda essa ação e um dia toca o telefone lá: “Quem tá ligando é o Negrão da Antena 1 e quer falar com você.” E ele falou: “Ah, vem aqui no meu escritório que eu quero te conhecer.” E aí eu fui conhecê-lo e ele falou pra mim: “Olha, eu te chamei porque eu tô sensibilizado essa história, eu tô achando um crime que estão fazendo com você, eu não te conhecia, mas eu boto meu rádio aqui a sua disposição, quantos minutos você quiser, fazer jingle, eu te dou, eu te dou de presente, porque eu tô horrorizado com essa ação.” E eu nunca pensei em fazer jingle, nunca, nunca. Imagina, no rádio! E eu não sei fazer propaganda, não sei falar em propaganda e ele falou: “Não, tem que ser você falando da sua escola e não vou cobrar nada de você, quanto tempo você quiser! Se você precisar de seis meses, se precisar de um mês, tá a disposição.” Aí ele mesmo já ligou lá pra um estúdio, mandou uns caras prepararem lá um texto e a Márcia e eu fizemos uma fala, então toda hora tocava no rádio isso, ficou acho que um semestre na Antena 1. Então, assim, eu sou muito agradecida ao Negrão que nunca quis receber um real!____ Ah, não me lembro, viu? Eu e a Márcia fizemos, que os caras da agência lá preparam, quer dizer, a gente contou lá pra eles como era o trabalho lá na escola, qual é que era o diferencial. E, assim, era uma entrevista da Márcia e eu falando um pouco sobre educação e falando o que é que acontecia dentro da nossa escola. Mas ela falava: “Guida.” E eu falava:  “Márcia.” Quer dizer, era um diálogo entre nós duas sobre educação e a gente falava: “Isso tudo tá acontecendo lá dentro da nossa escola Cidade Jardim.” E apareceram alunos por pais terem ouvido isso na rádio.



P/1 – E quais foram as ações que tanto o (Lion?) quanto a Célia que ajudaram na retomada dos alunos, fora essa coisa da propaganda, houve alguma mudança na questão pedagógica?



R – Eu acho que uma das ações que ficou muito clara foi a ida para o Canadá, porque eu não tinha nenhum programa de viagens pro exterior e nessa época já tava começando a surgir em São Paulo escolas levando os alunos pra o exterior: o Dante levava, o Miguel Cervantes, o Stance Dual. Então, o (Lion?) adicionou isso da ida pro Canadá no sexto ano e aí o (Lion?) é uma pessoa muito criativa, muito criativo! Trouxe mil ideias, os Standards junto, a Cultura Inglesa… Foi ele quem implantou na escola, eu não tinha isso do aluno sair da escola e ser testado na Cultura Inglesa pra ver o nível de inglês. Ele quem trouxe esse programa. Ah, tem vários aspectos, assim, ele é um cara muito criativo. Leitura, a gente tinha um dia por ano onde todos os alunos estão lendo mesmo, o Reading for the Record que ele trouxe esse programa pra escola. Ai, ele tava sempre pensando em alguma coisa nova pra trazer pra escola. O pedagógico ficou muito, muito bom! Porque ele insistia muito que os professores testassem os alunos pra ter certeza, pra garantir que o trabalho estivesse sendo dado, o professor tendo que preparar testes, ele só pode preparar o teste se ele der a matéria, então, quer dizer, isso é uma garantia que o trabalho pedagógico estava sendo dado no seu total. Então, isso realmente o (Lion?) fez um trabalho fantástico, fantástico! E ele é uma pessoa que fala muito bem da escola e que vende muito bem, então, realmente ele adicionou bastante pra escola, eu acho.



P/1 – E, Guida, como é que se deu o processo de mudança das fichas para os livros?



R – É, porque a Célia implantou, porque a Célia nunca tinha trabalhado com projetos e a Ana Maria e a Márcia eram completamente de trabalhar com projetos. E a Célia falou: “Ai, eu não acredito, eu não acho que o aluno fica completamente preparado pra ser testado em outras escolas e eu acho que formalizar, tem que ter livros!” Então, a gente com dor no coração adotamos livros. Eu ainda acho que trabalhar com projetos é o máximo! Mas eu acho que a expectativa dos pais é que eles vejam esse material concreto nas mãos, que é o livro! Então eu acho que foi com a Célia, que foi implantado esse trabalho com livros. Agora, esse material de inglês eu já tava trabalhava com essa publicadora, que hoje, ainda hoje o (Lion?) trabalhou. Eram os mesmos livros, o (Lion?) enriqueceu, mas a gente trabalhava em inglês com esses livros. Agora, português nós não tínhamos livro nenhum, nenhum… 



P/1 – E, Guida, como é que, eu queria que você falasse um pouquinho dos congressos, porque você nos contando a história da PlayPen, a gente percebe que você sempre, desde o começo, você teve uma preocupação muito grande na formação dos professores. Lá atrás você indo já a Chicago pra buscar informações e tal. Como é que se dá essa coisa da formação dos professores,e essa coisa dos congressos que você faz hoje? Conta um pouquinho pra gente.



R – Eu acho que no princípio de 1990. Não, princípio não, 1998, 1999, já com a Márcia comigo, a gente… Nós éramos muito procuradas por escolas do Brasil inteiro que queriam fazer escolas como a nossa, escolas bilíngues. E aí um sábado por mês nós oferecíamos os workshops para os nossos professores. Aí começamos a falar para essas pessoas que tinham outras escolas, se quisessem podiam participar desses workshops aos sábados. Aí a coisa foi crescendo, aí resolvemos abrir uma empresa de curso pra professores, a Márcia e eu, que chamava Centro de Educação Bilíngue. Aí montamos uma empresa que é o Centro de Educação Bilíngue. E começamos a dar curso para professores fora da nossa escola, quer dizer, recebendo professores fora da nossa escola. Então, a gente tinha esses encontros às sextas-feiras à tarde e ficava até domingo o dia inteiro com profissionais oferecendo cursos. Eram os nossos professores, a gente não trazia ninguém de fora, eram os nossos professores que davam os cursos pra professores de outras escolas. E isso era curso de fim de semana. E com a entrada do (Lion?), ele resolveu fazer congresso mesmo! Trazendo profissionais de fora, do mundo inteiro, então ele realmente agigantou esses cursos que nós dávamos em fins de semana, fazendo congresso, trazendo gente do mundo inteiro. Quer dizer, aí ele já começou a contratar pra financiamento, supporting, esqueci como fala… 



P/1 – É… Patrocínio.



R – … Patrocínio desses profissionais. Então, ele realmente profissionalizou completamente. A gente dava curso de fim de semana pra professores de outras escolas. E não vinham só professores, vinham os mantenedores, vinham diretores, quer dizer, tinha um ambiente gostoso! Mas não era uma coisa pra ganhar dinheiro, não era, a ideia era pra fazer aquilo que a gente gostava e profissionalizar um pouquinho. E o (Lion?) veio e fez uma coisa gigante, ele fez dois congressos grandes com 600 participantes. Nós tínhamos 100, 110 participantes por fim de semana.



P/1 – E esses congressos acontecem todos os anos?



R – Não, a cada dois anos. A gente tem ideia de continuar com os congressos, mesmo agora com a saída do (Lion?).



P/1 – Ele tá saindo? Não sabia (risos).



R – Não?



P/1 – (Risos). Eu não sabia, ele sai agora? Ele tá saindo por quê?



R – Ai, ele tá saindo porque ele foi convidado pra trabalhar no Beit Yaacov, ele vai ser diretor lá da educação infantil até o ensino médio, eles estão abrindo o ensino médio o ano que vem. Então, ele falou pra mim agora em outubro, ele chegou pra mim e falou: “Eu tava indo pra Argentina pra um congresso da Reggio Emilia e ele falou: “Ai, Guida, eu sei que você tá indo viajar amanhã, mas eu queria conversar com você. Eu recebi um convite de uma outra escola e gostaria de dizer que fico com você até dezembro.” Eu fiquei meio olhando, assim, ele já tinha pedido demissão já há uns dez dias, eu fiquei olhando, assim, meio sem entender. Não falei uma palavra e ele falou: “Não, não ofereça, não faça nem uma proposta financeira, porque eu não tô saindo por dinheiro, eu vou ganhar lá mais ou menos o que eu tô ganhando aqui, tem pouquíssima diferença, mas lá eles vão fazer ensino médio e você já me falou…” Porque eu falei 5 mil vezes que eu não quero fazer ensino médio, eu não quero. E ele falou: “Porque eu acho que aqui eu já fiz o que eu tinha que fazer, e eu quero coisa nova, eu quero desafio novo e lá eles vão me deixar trabalhar com educação infantil (porque conosco ele nunca trabalhou com educação infantil) e vão fazer o ensino médio, então eu vou cuidar de todos os segmentos, vou dirigir todos os segmentos! E isso você não pode me oferecer!” Eu falei: “É, realmente não, porque educação infantil vai continuar com a Dani e ensino médio eu não vou fazer”.



P/1 – E quando é que você implantou o ensino fundamental dois, quando é que começa?



R – Ah, seis anos depois, porque eu comecei o fundamental um em… O primeiro ano foi em 1986 ou 1987, não consigo lembrar, vocês que fizeram o levantamento…  



P/1 – Mas não tem problema, a data não tem problema.



R – Mas foi 1986 ou 1987 que eu começo o primeiro ano, então a cada ano eu fui fazendo um ano: então primeiro, segundo, terceiro, então até o quinto ano e depois então, cinco anos depois, eu comecei os… 



P/1 – Foi mais ou menos depois da reforma do prédio?



R – Não, na verdade quando Ana Maria já estava comigo eu tinha o sexto e o sétimo ano, e daí o prédio tava muito pequenininho e eu falei pra Ana: “Eu quero fechar, eu não quero continuar.” E isso foi uma das razões também que a Ana ficou desmotivada, eu falei: “Eu não vou continuar com o ginásio, vou ficar só com o primário.” E aí fechamos essas duas salas: o sexto e o sétimo ano. E aí quando a Márcia veio trabalhar comigo, a gente continuou. Então, nessa casa que nós morávamos, onde dava festas, já tinha já o sexto e o sétimo ano. Então, quando mudamos pra lá mudamos com o sexto e o sétimo, não tinha… Não! Na casa tinha até o nono ano lá! Porque fizemos formatura lá de um oitavo ano. Então, quando nós mudamos pra esse imóvel, já tínhamos o fundamental dois, mas com um número pequeno de alunos, como é até hoje. Hoje nós temos o nono ano com 16 alunos e as outras salas todas lá embaixo têm 25 alunos. Então, agora a escola tá crescendo pro fundamental dois também. Porque ela é grande na educação infantil, na educação infantil é muito grande. No fundamental um hoje tá com 300 e tantos alunos. E no fundamental dois deve estar com 60, no total! Agora, pro ano que vem vai estar maior!



P/1 – E, Guida, como é que foi pensar essa coisa de pensar as atividades extracurriculares e que atividades foram essas que vocês implantaram? Tipo, por exemplo, o alemão, como é que você? Que hoje é uma escola, é uma atividade extracurricular?



R – Não, o alemão não. Os cursos extracurriculares começou com o balé, judô, futebol…  Aí depois com o prédio novo a gente teve a ideia de oferecer Espanhol e Francês. Depois começaram a questionar por que não o Chinês, aí oferecemos o Chinês. E aí começou tênis, acho que é isso, ah, a yoga… Agora o alemão eu fui receber uma visita do Consulado Alemão que perguntou, ah, na visita eles falaram: “O governo alemão tem uma ideia de implantar o curso de alemão em mil escolas pelo mundo, então nós estamos fazendo visitas nas escolas pra ver quais escolas que teriam condições de aplicar isso. Nós oferecemos todo o material e nós damos o apoio pedagógico, então o coordenador seria alguém do Instituto Goethe.” E ele falou: “Mas nós queremos escolas que tenham ensino médio”. E eu falei: “Não, não vou fazer o ensino médio.” Então, eu considerei aquela visita errada ali naquele dia. Eles falaram: “Aqui em São Paulo nós vamos ficar visitando umas oito escolas na próxima semana e voltamos a falar.” Passaram três meses eles ligaram querendo uma segunda reunião conosco e eles falaram: “Olha, a gente já visitou várias escolas: Salvador, Rio, Porto Alegre e São Paulo. A sua escola foi uma das escolas escolhidas. O Vértice e a Escola Cidade Jardim.” E eu falei: “Mas eu não tenho ensino médio.” Aí ele falou: “Não, mas vai ser a única escola do Brasil que a gente vai fazer, vai implantar isso no fundamental.” E aí eu pensei: “Ah, não posso deixar de oferecer isso.” Eles não dão dinheiro pra escola, mas eles dão todo o material pedagógico e falaram: “A gente pode oferecer pra vocês toda a parte tecnológica que você sente que vocês precisam nós oferecemos.” Então na época eles compraram 30 laptops, compraram TVs pra todas as salas do fundamental, quer dizer, telas bem grandes! Então deram um equipamento tecnológico bem grande pra gente implantar o alemão. Então, estamos com esse alemão há dois anos. Ainda é uma guerra com os pais, porque muitos pais não concordam, acham que não precisa, que a língua lá é o inglês que acham que não deveria ir pra uma segunda língua. Eu acho que a gente deve tentar mais um ano, dois anos, porque agora eu já vejo resultado, já vejo criança falando, não todos, de jeito nenhum, mas já tem criança falando alemão! Que é uma gracinha, em dois anos!



P/1 – E começa já no… 



R – Não, começa no fundamental dois, começa no sexto ano, mas só tem dois anos, mas qualquer coisa em escola com dois anos só é muito novo! A gente não sabe se vai conseguir permanecer com o alemão, mas pro ano de 2011 com certeza nós vamos continuar com o alemão!



P/1 – Guida, você falou também dos intercâmbios, vocês começaram a ir pro Canadá e vocês fizeram intercâmbio pra Suíça também, não foi?



R – Fizemos.



P/1 – E qual que era a proposta?



R – Esse pra Suíça foi o seguinte: quando meu filho tinha 12 anos, o Daniel, ele queria, ele ficava falando que queria estudar numa escola na Europa. Aí eu dei uma vasculhada, nem tinha internet pra procurar na época, comecei a perguntar a amigos meus e eles falaram de Leysin, dessa escola americana na Suíça. E na época era totalmente diferente: mandar dinheiro pra pagar a escola, era difícil e tudo. E aí o Daniel foi, foi sozinho, saiu daqui, levei em Viracopos, despachei pra Suíça e ele ficou lá dois meses, julho e agosto, e amou esse tempo lá! E voltou falando inglês melhor ainda! E chegou um momento em que as crianças do nosso oitavo ano estavam falando que gostariam de fazer uma viagem, Porto Seguro, porque parece que as escolas todas, a grande maioria, vão pra Porto Seguro e eu lembrei do Leysin. Aí entrei em contato de novo com a escola e vi que o programa ainda existe, que é férias de julho e agosto, quer dizer, começa 15 de junho até 15 de agosto. E aí entrei em contato rapidinho e ofereci para as mães e primeiro ano foram quatro alunos, segundo ano seis, terceiro ano três, porque é um programa muito caro. Então, a gente não vai continuar com esse programa no ano que vem, esse ano só foi uma aluna nossa e aí eu vi que era inviável pelo valor, era muito alto! Então o ano que vem, provavelmente, as crianças irão para a Alemanha, porque como a gente agora tem o alemão e eu comecei a pesquisar e descobri na Experimento, tem um programa pra Alemanha, tem vários! E achei um que vai servir muito bem para os nossos alunos, perto de Frankfurt, uma cidadezinha que chama Höchst, uma cidadezinha bem pequena. E eles vão ficar acampados na própria escola. Então, Suíça o ano que vem não tem mais, os pais já estão avisados que terá Canadá no sexto ano e Alemanha no nono ano.



P/1 – E a saída da Célia como se deu, Guida? Porque você nos contou do (Lion?) que ele ouviu uma nova proposta, e da Célia, a saída dela se deu como?



R – Olha, eu acho que a Célia já tinha cumprido já o papel dela na escola, que era de captação de alunos. Na verdade quando… Eu só contei pra Célia isso agora depois da demissão dela, porque a Márcia falou pra mim: “O pedagógico da escola, Guida, tá muito bom, você não tem que mexer em nada do pedagógico, mas você tem que colocar gente de marketing aqui dentro. Então, fique com ela três, quatro anos e depois você então muda pra uma diretora do pedagógico, pra rever o pedagógico, pra ver se ainda está com a mesma qualidade.” E aí eu entrei naquela zona de conforto, né. O pedagógico tava muito bem, a Célia fazendo o trabalho dela muito bem feito, não pensei nunca em trocar, em trazer alguém pro pedagógico. E eu acho que a Célia foi ficando desmotivada lá porque, ah, porque eu acho que eu não dei tanto espaço pra ela mudar o pedagógico, não dei mesmo, ela sabe disso e fala disso com muita mágoa, que eu não dei, que eu não aceitei ela mudar o pedagógico. Quer dizer, ela já implantou livros que era uma coisa muito diferente do que a gente acreditava com a educação, a gente trabalhava com projetos, ela já fez essa grande mudança. Outras ideias que ela teve de só trabalhar com alunos de excelência, não gostava de trabalhar com inclusão, quer dizer, tava muito diferente do que eu acreditava em educação, não queria uma escola com standards. Eu queria uma escola com aluno fraco e o aluno bom, uma escola com aluno com limites e aluno… Tem o aluno que pra escrever ele tá no sexto ano, mas escreve como uma criança de terceiro ano, porque ele tem uma série de limitações. E eu não queria terminar com isso. E aí quando ela ficou me questionando muito, eu falei: “Não, não vou mudar, eu não vou mudar aquilo em que eu acredito.” E aí um dia ela me falou: “Olha, Guida, eu acho que o meu papel aqui está cumprido, porque se era captar aluno, os alunos estão aí e se você não me dá o espaço pra fazer mudanças no pedagógico eu não tenho mais o que fazer. E eu acho que esse é o meu último ano aqui.” E aí na mesma hora eu falei: “Eu entendo, eu acho que você tá certa mesmo.” Eu não sei se ela tava acreditando que a minha reação seria essa ou não, mas pra mim era muito tranquilo, assim, que tava na hora mesmo de ter alguém de novo no pedagógico, cuidando desse pedagógico, no pedagógico em que eu acredito. 



P/1 – E aí como é que você foi em busca dessa pessoa, você já tem essa pessoa? Quem é?



R – Já tinha, eu já tinha feito uma entrevista com essa moça em julho. Por coincidência ela me procurou, a Fernanda Zocchio lá do Pueri Domus me ligou, falando: “Eu quero te apresentar uma pessoa que gostaria de fazer formação de professores, quero saber se você quer?” Eu falei: “Não, eu quero conhecer”. E quando ela veio eu de cara gostei da profissional, de cara! E a Célia não fazia essa formação de professores que a Márcia fazia. Então, esse tempo a escola ficou sem uma pessoa fazendo a formação dos professores. E quando ela saiu, eu falei pra Gabriela: “Olha, Gabriela, quando a Célia sair, ó.” Mostrei a Fernanda. E a Gabriela conhecia a Fernanda do Pueri, que a Gabriela trabalhou no Pueri também. E aí quando a Célia falou: “Eu resolvi, vou parar de trabalhar e tal.” Imediatamente na minha cabeça só veio a Fernanda. Então, a Célia falou umas dez da manhã, eu liguei pra Fernanda umas três da tarde. Marquei um café da manhã no Santa Maria no outro dia e uma semana depois já tava contratada, a Fernanda. Agora eu vou começar o segundo problema, como é comunicar pra comunidade: para os pais, os alunos, para os profissionais. Isso tudo é um trampo, um trampo! E quando o (Lion?) me falou, eram dez dias depois da Célia, eu falei: “Não, uma coisa de cada vez, não vou comunicar nesse momento.” E eu sabia que pra achar um profissional como o (Lion?), aqui em São Paulo eu não ia achar, eu teria que ir atrás em busca nos Estados Unidos ou na Europa, sei lá onde. Mas aqui em São Paulo eu não ia, não ia tirar de uma outra escola, de uma escola americana alguém. E aí resolvi a questão da Célia, comuniquei aos pais, aos profissionais, não sei o que. Depois disso tudo comunicado, chamei os pais pra comunicar do (Lion?), então foi outro choque. Mas pra minha surpresa foi um choque menor, eu não sei se eles já estavam anestesiados com a saída da Célia, não questionaram tanto. Então, agora eu tô fazendo entrevista com profissionais via internet, Skype, videoconferência, profissionais dos Estados Unidos. E agora, minhas férias começam hoje, é que eu vou… Tenho 245 currículos de profissionais americanos que querem trabalhar aqui. Então, eu já dei uma lida, assim, mas não liguei pra nenhum deles, então agora eu vou começar a ligar pra dois, três por dia, desses melhores currículos e provavelmente agora em janeiro… 



[Interrupção]



(Troca de fita)

 

  

P/1 – Guida, eu queria que… Vamos fazer um exercício um pouco de abstração aqui: como é que você vê a PlayPen daqui a cinco anos? Como é que você imagina a PlayPen daqui a cinco anos?



R – Eu via… (risos). Com um conselho, e eu quero continuar com essa ideia, eu quero criar um conselho, porque é uma empresa privada hoje. Agora eu vejo a escola como uma empresa, né. Quando mais jovem, quando eu comecei eu não via isso, não via como uma empresa, via como uma paixão minha, com todas as minhas melhores intenções. Hoje eu vejo como uma empresa mesmo, como um business, que tem que cuidar pra não acabar. Então, o ano passado eu já estava falando em um novo formato: criar um conselho, ficar na presidência do conselho, mas não ficar mais trabalhando dez horas por dia como eu trabalho dentro da escola. Eu queria criar esse conselho e eu queria que meus filhos fizessem parte desse conselho e que, eventualmente, na minha morte, eles fossem assalariados, né. Não que eles virassem os diretores, mas que eles fossem assalariados por essa fundação. Então, isso eu tenho pensado nos últimos cinco anos, desde que o prédio ficou pronto. E tinha uma ideia de colocar, sei lá, o (Lion?), na direção. Por que? Porque eu tive a Márcia dez anos, a Ana Maria dez anos, o Lion só estava há seis, imaginava o Lion mais dez como as outras e que aí ele virando diretor do conselho seria uma coisa que seduzisse a ele, né. E agora eu tenho que continuar com essa ideia, eu tô, já comecei umas, já tive duas reuniões com uma empresa que faz isso, uma empresa da Inglaterra, que faz isso da sucessão de instituições. E, provavelmente, eu vou fazer um contrato com essa empresa em Londres pra cuidar, pra fazer essa escola se tornar uma fundação e… Porque eu sou a única proprietária, tenho dois filhos homens, quer dizer, se eu não começar a cuidar disso agora, vai ser muito complicado na minha morte, né. E ao mesmo tempo eu acho que enquanto eu tô viva e com muita saúde, eu quero sair um pouco e ficar morando um tempo fora. Quero morar na Europa um pouco, quero morar nos Estados Unidos um pouco. E eu acho que eu só posso fazer isso a hora em que eu criar um conselho. Então, eu vou trabalhar nesse ano de 2011, mas 2012 eu quero estar estruturando esse conselho pra sair um pouco fora e pra no momento da minha falta não ficar uma empresa que é novo, que o proprietário não tá mais. Então, quero estruturar desde agora, acho que a gente tem que fazer isso em vida.



P/1 – Guida, se você fosse olhar pra tudo isso que você nos contou, o que é que seria os principais desafios que você enfrentou? Quais foram os principais desafios que você enfrentou?



R – Olha, eu acho que a compra desse prédio, a compra dessa propriedade foi um desafio grande, assim, eu mesma não acreditava que eu iria conseguir pagar, mas sempre pensava: “Ok, se eu não conseguir pagar, perdi.” Mas, assim, eu sou uma pessoa muito organizada financeiramente. Nunca, nunca, nunca aconteceu na minha vida de comprar uma coisa, me comprometer com uma coisa e não ter dinheiro na hora, nunca, nunca! Então, eu já tinha feito meu estudo junto com meu garoto, porque eu tenho um menino que trabalha comigo, o Edson… Ah, vocês entrevistaram o Edson! Quer dizer, se você pensar, é uma coisa super caseira eu e o Edson. E ele me falava: “Não, eu acho que você consegue pagar tantos.” Era tudo dolarizado antigamente, então a prestação era em dólar. Ele falou comigo: “Você consegue pagar tantos dólares por mês.” Então, eu acho que isso foi um desafio que quando chegou no último. Na primeira vez em que eu fechei, eu chorei muito. E quando eu paguei o último eu chorei mais ainda, e foi uma pena que o proprietário tá com alzheimer e o coitadinho não entendeu muito o que é que tava acontecendo, porque eu fui na casa dele junto com o pessoal do cartório pra assinar, porque tava pagando a última prestação. Mas eu chorei de emoção assim de ver: “Puxa vida, eu fiz esse compromisso e cumpri! Assim, sem nenhum atraso!” E aí, e lembro quando a gente tava negociando lá no prédio do Bndes, eu era a única mulher, tinha esse assessor o José Carlos, tinha meu advogado, tinha o pessoal do banco, tinha a construtora e teve uma hora em que eu levantei, assim, tudo aqueles homens conversando de coisas que eu não tinha a menor ideia! De prazo e juros e tipo de juros, eu só sabia que eu queria pagar. Mas esses detalhezinhos de “esse tipo de juros e aquele tipo de juros e não sei o que.” Eu levantei e fiquei olhando a Marginal, assim, porque o prédio era próximo a Marginal e fiquei pensando: “Meu Deus, eu realmente sou doida, eu entro numas loucuras, mas eu vou embora!” Então, pra mim esse foi um grande desafio: eu ter resolvido fazer esse financiamento.



P/1 – E a sua maior dificuldade qual foi?



R – (Silêncio). Ai, eu não lembro assim de uma coisa… (Pausa) Difícil eu não sei, assim, uma coisa difícil, ter problema… 



P/1 – Não tem problema. E a sua maior alegria, qual foi?



R – Ah, eu acho que eu tive alegria quando meu filho mais velho nasceu. Eu me lembro disso que eu fiquei muito impressionada! Eu era muito jovem, então pra mim era um presente que eu tava ganhando, assim! Foi uma grande alegria! Ai, eu acho que voltar pra esse prédio mesmo completamente cheia de problemas, eu acho que foi uma outra alegria voltar pra esse prédio construído, foi uma realização muito grande! Eu acho que o ano passado, eu vivi, assim, um ano inteiro de muitas alegrias, porque eu me senti bem realizada com vários aspectos da minha vida profissional e da minha vida pessoal. Eu me considero uma pessoa que… Que consegui fazer muito do que gostaria, do que eu sonhei, eu acho que eu fiz bastantes dos meus sonhos. Todo mundo me vê como uma criança, me via como uma criança boazinha e me via como uma adolescente boazinha, mas eu não fui, eu fui completamente rebelde! E eu consegui realizar tudo que eu quis, pra mim não tinha uma coisa que eu achasse difícil, uma coisa que eu tivesse medo, eu tinha medo de ficar fechada num lugar e… E tinha medo, às vezes, de avião cair, porque meu pai como ele era piloto, brincava muito, sabe. Dava rasante e tal, então eu tinha pavor! Mas de outras coisas eu nunca tive medo, assim, eu me lembro que uma vez eu fui na 25 de março com uma irmã mais nova e ela com medo: “Ai, Margô, você não tá com medo de ser assaltada?” Isso a gente andando numas vielinhas, assim, que me falaram. E eu olhando pra ela e falando: “Mas, ________, você tem medo de ser assaltada?” E eu fiquei pensando, assim, eu lembro aquele dia que eu fiquei pensando: “Mas de que é que eu tenho medo?” Sabe assim? Eu não tenho muitos medos não, isso… Então acho que por isso que eu não vejo dificuldades, assim, talvez até tenha sido loucura entrar nessa escola toda sozinha, em tudo que eu construí, que não existia escola bilíngue. Quer dizer, muita gente fala comigo: “Você teve uma coragem, hein?” Não fiz pedagogia, entro num business sem a formação dele e deu tão certo! Então, eu nunca fiquei receosa, eu sempre achei: tem que tentar!



P/1 – E, Guida, o que é que… Qual que é a vantagem ou o que é que você acredita que a metodologia do bilinguismo traz de benefício? Porque, assim, você acreditou nisso muito, né? Então, quais que são as vantagens e o que é que você acredita que é bom?



R – Ah, eu acho que faz um cidadão com a mente completamente aberta, eu acho que você aprender duas línguas ao mesmo tempo desenvolve inteligências que te deixa capaz de ver o mundo completamente, mais aberto, assim. Eu me lembro de momentos dirigindo nos Estados Unidos com amiga brasileira que não falava inglês, e eu achava que eu tava sozinha, porque eu ia lendo os billboards, outdoors e não traduzia muito e pensava: “Engraçado que (pensava comigo) ela não faz um comentário, porque ela não tá vendo os Estados Unidos, ela não… ” E eu acho que como cidadão você perde se você tá num lugar em que você não fala o inglês, você não vai na mesma viagem, não. E eu acho que não vai na mesma viagem, eu lembro de um billboard que era bem grande, assim: “Stupid”. Que era muito agressivo, muito agressivo! E a gente tava no deserto de Mojave. É só deserto, deserto, deserto e a estrada no meio. Quer dizer, aquela paisagem maravilhosa e daí tem aquele billboard imenso e só escrito assim: “Stupid!” e exclamação e aí uma faixa que vinha na placa do lado debaixo como se fosse proibido aquela faixa, aí embaixo assim: “That's what you are if you don't use seat belt”. E aí eu falei: “Nossa, que coisa agressiva!” E a minha amiga não falou uma palavra e eu fiquei pensando: “Ah, mas o cara tem que falar inglês, porque se não falar inglês não tá na mesma viagem.” E isso tem muitos anos, isso foi no princípio dos anos 1980, que eu tava nessa viagem! A Márcia até fica brava comigo quando eu falo: “Olha, quem não fala inglês tá um pouco surdo!” (Risos). E ela fala: “Também não exagera!” Mas eu acho, porque você falar inglês, qualquer lugar você tá andando e a placa tá escrita em inglês e eu acho que uma língua pula pra outra. Por exemplo, agora eu tô casada com um alemão: eu leio todas as placas na Alemanha. E eu acho que eu leio por causa do inglês, porque as palavras são muito similares e aí eu começo e aí eu pergunto a ele pra ter certeza: “O que tá escrito é isso?” E ele fala: “É.” Quer dizer, ele corrige algumas coisas, mas eu vejo os benefícios que o inglês dá pro ser humano, né. Então, eu acho que você tem uma visão de mundo quando você é bilíngue. E isso não precisa ser necessariamente inglês! Eu vejo esses alunos que… Eu recebi um aluno, Joshua, ele veio do Líbano, o pai era libanês e a mãe italiana. Então, o pai falava francês e libanês com ele e a mãe falava italiano, então ele já chegou na escola falando três línguas. Chegou com 4 anos e a gente falando só inglês com ele. Seis meses depois ele falava um inglês lindo! E seis meses depois ele também falava português. Então eu acho que uma segunda língua te facilita para uma terceira língua! Então eu não sei, se hoje eu me tornasse mãe, eu não colocaria meu filho numa escola bilíngue, eu colocaria numa escola no mínimo trilíngue. Eu acho que só uma segunda língua já não é mais suficiente, eu acho que, quer dizer, agora eu realizo isso porque eu trabalho do bilinguismo, eu acho que quanto mais línguas você oferecer a uma criança, melhor é! 



P/1 – Guida, vamos voltar pro seu lado, a questão pessoal: você tá casada com um alemão, mas você conheceu logo depois que você se separou do pai dos meninos? Como é que foi?



R – Não. Eu me separei em janeiro de 1981, foi quando eu comecei a escola. Aí eu namorei (risos), namorei um cara que trabalhava numa agência de propaganda, um diretor de arte, namorei quatro anos. Depois comecei a namorar o Luís, que também trabalhava com propaganda, que é o amigo do Maurício, pai da Ana Clara, né. Namorei com ele 14 anos, morei com ele! Com esse namorado a gente morou junto uns 12 anos. E depois me separei e fiquei dois anos e meio sem nenhum namorado, foi durante essa construção da escola, durante toda essa problemática. E eu lembro que eu falava pra todo mundo que tava me ajudando nessa questão da escola, a escola fechada, eu falava: “Olha, quando acabar essa questão, quando a escola estiver funcionando, eu quero ir pra Berlim, porque agora o lugar que eu tô muito curiosa é Berlim.” Mas nenhum momento da minha vida eu pensava em estudar a língua e nem arrumar namorado alemão. Pra mim, a última coisa era arrumar namorado alemão! Nunca! Eu nunca pensava em falar alemão. Eu queria ir pra Berlim, porque eu tava ouvindo todo esse boom de Berlim. E aí fomos numa viagem a Simone, essa amiga que eu fui pra Alter do Chão, fomos nós duas mais uma terceira pra Berlim. Quando a escola começou, já tava lá e a Célia trabalhando. Foi fevereiro de 2004. E aí eu fiquei conhecendo meu marido nessa viagem. E foi uma coisa da língua, porque eu fui, tava num bar e fui pedir água e aí eu falei pra minha amiga que tava comigo no bar: “Me fala como é que fala 'água, por favor' em alemão.” E aí ela me falou e tal, eu fui lá no balcão: “Ah, wasser bitte.” E o cara falava: “O quê?” Porque eu tava falando com sotaque, né. Eu falava: “Wasser bitte.” E aí o (Gernaut?), que é meu marido, ele tava sentado no balcão e aí ele falou: “Ela tá pedindo água.” E aí o cara: “Ah!” E foi buscar a água e eu falei pra ele: “Thank you.” E ele perguntou: “De onde você é?” E eu falei: “Do Brasil.” E ele: “Gostei do seu som.” (Risos). E aí ficamos conversando. E era um fevereiro e nevava, nevava, nevava, um horror! E ele me convidou pra sair no outro dia e no outro dia ele falou: “Ah, eu vou ao Brasil.” E os meus amigos brasileiros que moram em Berlim, falavam: “Ó, você acredita, alemão quando fala que vem, vem mesmo!” E eu não acreditava, quando chegou julho ele veio ao Brasil. E eu não falei nada de família, de diretora de escola, eu nunca falo isso quando eu tô num lugar, assim, viajando, porque diretora de escola sempre é tida como uma pessoa muito séria, careta (risos)...  



P/1 – (Risos). Vou queimar meu filme, né?



R – É. Aí eu falava professora de kindergarten e o meu marido falou: “A hora que você falou isso, eu falei 'não, não vou sair mais nem mais uma segunda noite, professora de kindergarten não!” E por quê? Ele não me contou nada, só me contou isso muito tempo, um ano depois ele me contou, mas ele veio ao Brasil e quando ele veio, ele não sabia nada da minha vida, nada! Ficamos no telefone, não tinha Skype ainda, era telefone mesmo. E aí ele falou comigo: “Eu chego no Brasil.” E aí eu falei: “Nós vamos imediatamente pra Paraty.” E lá em Paraty eu contei pra ele que tinha dois filhos (risos). Eu falei que tinha o filho, mas não falei idade. Ele falou: “Mas que idade?” Isso lá em Berlim: “Ah, eu tenho um filho que tá com 18 e um filho que tá com 20.” (Risos). Isso em 2004 (risos): “Sou professora de kindergarten.” Então, eu falei, não dá pra dizer 12, que a vontade era dizer 12 (risos). Porque o meu marido é de 1963 e eu sou de 1951 (risos). Aí quando chegou lá em Paraty, lá em casa em Paraty, quando ele viu a casa, ele falou: “Mas você trabalha só na escola?”. Eu falei: “É, eu sou professora”. E ele falou: “Então você herdou a casa dos seus pais?” E eu falei: “Não, meu trabalho… ” (Risos). Aí lá em Paraty, fim de semana tava com visita e tal e quando eles foram embora, à noite do domingo eu falei: “Ô, (Gernaut?), tenho que contar pra você uma coisa, uma verdade.” E ele é filósofo e alemão é muito sério, não fala mentira jamais, em nenhuma situação, nenhuma! Eu falei: “Eu tenho que contar pra você uma verdade.” E ele falou: “Verdade?” E eu falei: “É.” E eu tava, assim, com um copo de água, saindo, porque a cozinha é aberta, então você vê quem tá sentado na sala e ele falou: “O que é que é que você não falou a verdade?” Aí eu falei: “Olha, eu tenho dois filhos, você sabe, né? Que você vai conhecer agora quando a gente vai voltar pra São Paulo.” Ele falou: “Sei.” Falei: “Só que eu não falei pra você a idade certa.” Aí ele falou: “Falou, falou, você falou um com 18 e um com 20.” Aí eu falei: “Ah, que bom que eu falei 18 e 20, porque, às vezes, eu falo 12 e 10.” (Risos). Aí ele ficou me olhando assim: “O que é que você quer dizer com isso?” Eu falei: “Ah, porque eu não gosto de dizer quantos anos eu tenho, então não falo a idade dos meus filhos também, porque se não você fica fazendo as contas.” Aí ele falou: “Quanto é?” Aí quando eu falei a idade, ele falou: “Não acredito que você fez isso comigo. Eu construí uma história na minha cabeça e você me contou tudo diferente agora.” Eu falei: “Pois é. E eu vou ser avó.” (Risos). Aí ele falou: “É, é uma história diferente da que eu tinha na cabeça. Vou pensar um pouco nessa história.” E ficou em silêncio… (risos). Eu falei: “Puxa vida, ele tem que encontrar a minha família, minha nora grávida, então tem que… ” Também o (Uia?) ia nascer em abril. E aí quando nós voltamos pra São Paulo, eu convidei ele pra visitar a escola e falei: “A escola é minha, fui eu quem comecei.” Tava aquele elefante branco vazio e aí ele me contou, me contou depois, nós fomos pra Paris em dezembro e ele me falou: “Olha, agora eu vou te contar porque é que eu pensei imediatamente 'eu não quero'. Porque a minha mãe foi diretora de escola a minha vida inteira.” (Risos): “Eu passei a minha vida dentro de escola.” (Risos): “Fim de semana nosso era gincana, era acampamento, era não sei o que dentro da escola. E eu pensava 'a última coisa que eu quero na minha vida é uma mulher professora.'”



P/1 – Não só professora como diretora de toda a escola! (Risos).



R – E aí logo depois a gente viu que não tinha mais volta, que queria ficar junto, mas...



P/1 – E ele veio e mora no Brasil hoje?



R – Ele veio, ele é um filósofo pesquisador na área de Ciências da Universidade Humboldt, então ele nos primeiros dois anos ele ficou trabalhando pra Humboldt, mandando as pesquisas. Agora ele se desligou, quer dizer, está neste ano sabático. Ele está há três anos e meio no Brasil. Ele talvez retome esse trabalho, mas vai morar no Brasil sempre! Nós casamos no ano passado, em maio do ano passado. Porque alemão acredita que tem que casar no papel e comigo foi diferente, porque com meu primeiro marido eu casei sete anos depois. E com Luís nunca casei. E com ele não, ele quis oficializar, não pra ter documento no Brasil, é porque ele achava que era importante oficializar essa relação. E aí a família dele veio toda e fiz uma festa de casamento mesmo! E isso foi em maio do ano passado. Então, acho que o ano passado foi um ano de grandes realizações pra mim, eu tava bem feliz com a escola completamente resolvida, minha vida pessoal… Mas foi um ano em que eu não trabalhei, né. Mas agora tô voltando pra ativa, trabalhar duro! 



P/1 – E o que é que você gosta de fazer na hora de lazer, Guida? Fala um pouquinho pra mim… 



R – Ah, eu gosto de muita coisa, viu? Eu gosto de dançar, eu adoro festa! Eu sou festeira, eu gosto de dar festas na minha casa. Eu tenho uma casa em Paraty que construí com…  Que foi uma das coisas que me deu muita alegria, que também foi outra empreitada muito difícil! Eu comprei um terreno de um pescador numa ilha e você sabe toda a lei de Paraty pra construção, né? É difícil construção! Mas eu construí essa casa sozinha, completamente sozinha e quando o arquiteto me mostrou o projeto: “Não, não vou conseguir porque é tudo em madeira, é muito caro, eu não vou conseguir.” E ele falou: “Não, vai, não sei o que… ” Então trouxe a madeira toda de Belém, atravessou tudo na água, dois caminhões de Ipê de Belém. Naquela época não era proibido ainda. Isso foi 1987 que a casa ficou pronta. Então, eu vou muito a Paraty de fim de semana, eu vou muito ao cinema. Só consigo ler depois das dez da noite. Uma das coisas assim que eu invejo muito, muito, muito, eu falo pra ele, que ele tem muito tempo pra ler e eu só consigo ler dez da noite ou então se eu acordo umas seis horas, eu leio, como eu fiz hoje, eu leio das sete às oito, depois eu tenho que ir embora. Na escola eu não pego nada pra ler, a não ser coisa técnica da escola pra ler. E fim de semana eu adoro, sempre levo bolos de coisa pra ler de fim de semana em Paraty, então eu adoro! E viajar, eu acho que eu conheço quase… Quer dizer, mas é uma coisa que eu herdei da minha mãe, minha mãe sempre mandou os filhos viajar muito, muito, muito! Desde 12, 13, 14 anos a minha mãe mandava os filhos viajar. Então, quando eu tinha 15 anos eu fui fazer uma viagem com a Lulena, a minha irmã mais velha com quem eu dormia, e nós fomos a 17 países viajando. Junto com a escola, a diretora da escola. E que por coincidência, nessa viagem, a gente tava no aeroporto em Londres e eu encontrei com essa banda Rolling Stones e eu tinha 15 anos! E eu lembro que eu parei e falei: “Eu conheço esses músicos, eu conheço, eu conheço.” Mas eles não eram tão famosos. E eu falei: “O que é que vocês fazem?” E um deles olhou pra mim e falou: “We play in a band.” E eu nunca esqueço dessas oportunidades que eu acho que foi a minha mãe que fez isso com os filhos, assim, que deu essa oportunidade. Que ela acreditava que tinha que viajar, então pra mim eu vou hoje, trabalho pro meu prazer, mas meu dinheiro não vai pra nada, nada, nada mais a não ser pra viajar. Então, esse ano eu fui conhecer a Aurora Boreal, que era um sonho que eu tinha de mais de 30 anos! Que meu primeiro marido falava muito, porque ele morou no Alasca, muito da Aurora Boreal e eu ficava louca pra ver essa Aurora Boreal. Então, esse ano a gente foi, conheci a Aurora Boreal na Noruega e são 30 horas até chegar lá em cima, mas valeu a pena! Então eu acho que foi uma das grandes alegrias, fiquei enlouquecida! Tive a sorte da Aurora Boreal ficar três horas no céu, normalmente fica 30, 40 minutos. Então o guia que nos levou pra ver, falou: “Realmente a Aurora Boreal tá aqui pra te dar parabéns.” Porque era dia do meu aniversário, 14 de fevereiro. E ficou lá dançando horas. E em abril a gente ficou um mês no Japão. Eu já tinha ido ao Japão em 1991, tinha ficado 15 dias e não tinha um marido filósofo (risos). Que faz toda a diferença. E com esse marido que nós estudamos, sabe, como um professor, durante um ano a gente estudou o Japão e ficamos seis dias em Kyoto e pegando trem pra ir em algum templo de 300 anos. Foi maravilhoso! Então esse ano realmente… E fui mais a algum outro país também. A gente tava lembrando essa semana: “Tem que trabalhar um pouquinho porque já aproveitamos.” Então fui a três lugares diferentes esse ano, o terceiro, onde mais nós? Ah, e ficamos duas semanas na Bavária, que eu não conhecia a Bavária bem, como eu fiquei conhecendo. Então, foi um ano que eu já aproveitei bastante. E acho que viajar pra mim é… Eu não compro roupa mais há muito tempo, há uns quatro anos, assim, eu falo sempre: “Não, meu dinheiro é pra viajar, esse é o luxo da minha vida.” 



P/1 – E, Guida, nesse tempo todo, com uma família tão grande, com onze irmãos, como é que foi a convivência com esses irmãos e onde eles estão? Conta pra gente um pouquinho desse laço da família de início lá, como é que foi?



R – Eu acho que o fato da gente ter ido pra escola separadas, não deixou a família tão dependente um do outro, assim, eu não sei, eu me sinto totalmente independente da minha família. Eu não sou essa pessoa que tem essa necessidade. Meus irmãos são quatro mosqueteiros, assim, eles estão grudados o tempo todo, os irmãos homens. São quatro homens e sete mulheres. Eles são grudados uns nos outros. Mas com as irmãs não, eu sinto que tem uma independência uma da outra mais. Eu só fiquei muito ligada na Lenora, nessa minha irmã a vida toda, a gente foi muito ligada! E ela é uma estudiosa, ela falava umas oito línguas, então, inclusive grego, então eu tinha uma paixão por ela. Ela era minha ídola! Então, eu fui muito ligada a ela. Então hoje em dia nós nos encontramos ainda, mas agora com a morte dela, não sei se vou a Valadares. Porque meus pais faleceram, minha mãe teve alzheimer, ficou onze anos doente. Mas eu sempre fui, dia das mães, dia dos pais, a gente sempre foi! Mas agora os dois faleceram, a fazenda tá lá, meus irmãos homens estão tocando… 



P/1 – Eles moram todos lá?



R – Moram lá. Então, eu tenho carinho por eles, mas eu não tenho essa necessidade de agora fim de semana pegar um avião e ir pra Valadares pra ver meus irmãos.



P/1 – E tuas irmãs elas vivem aonde?



R – Uma mora em Brasília, uma mora em Recife, outra no Rio e eu em São Paulo e duas em Valadares.



P/ 1 – E a Lenora estudou o que?



R – A Lenora fez Jornalismo, fez História e fez Direito. E ela começou a fazer faculdade depois que ela se separou do primeiro marido é que ela começou a fazer faculdade. Então, ela fez três faculdade, mas ela começou mais tarde, eu acho que ela tinha uns…  Ela foi casada durante uns seis anos, de 22 até 28, aí com 29 começou a primeira faculdade, que foi Jornalismo. Aí acabou Jornalismo achou que devia fazer História. Acabou História começou Direito, então ela se formou em Direito tem uns quatro anos mais ou menos, cinco anos.



P/1 – E ela era casada, tinha filhos?



R – Ela não teve filhos e ficou casada 39 anos com o marido que é mais ou menos a história do meu primeiro marido, também um marido 19 anos mais velho. Então, a gente teve umas similaridades, assim. E que foi… E meu ex-marido era professor dela quando ela tinha 15, 16 anos em Miami. E aí ela casou, ficou com o primeiro marido uns seis anos, se separou, logo depois ele faleceu, ele teve um enfarto, muito jovem, morreu. E aí logo depois ela começou o marido dela e ficou casada 39 anos com ele.



P/1 – E ela faleceu do que, Guida?



R – Ela teve um câncer de mama, começou na mama. Eu tenho duas irmãs com câncer de mama. E ela começou com esse câncer há uns 15 anos e ia lutando, né. Teve remoção da mama, ficou boa, depois apareceu no estômago, fez uma cirurgia, ficou boa, ficou lutando e ficou muito forte até o fim da vida dela. Ela gostava de comer tartufo, então todos os anos ela ia pra Itália pra comer tartufo em outubro, e esse ano ela ficou me chamando pra ir: “Vamos, Margô (ela me chama de Margô, muitos amigos me chamam de Margô), vamos Margô!” Com a história da Célia e do (Lion?), falei: “Ah, não vou, tenho muito trabalho e não vou.” E aí lá da Itália ela me ligou e falou: “Ah, Margô, queria te pedir: não vai viajar no feriado.” Porque tinha aquele feriado, primeiro e dois de novembro: “Eu tenho planos de parar em São Paulo, porque o avião faz escala em São Paulo e que queria passar o fim de semana com você.” E aí ela fez essa escala aqui e trouxe tartufo, trouxe a massa e no jantar, ela chegou de manhã cedinho, quer dizer, ela já tava muito doente! Foi um sobrinho meu com ela na viagem, com a namorada dele e a irmã da namorada e ela chegou bem debilitada mesmo. E aí a gente fez um jantar muito bonito com a mesa super arrumada, tudo perfeito! E meu cunhado fez um discurso falando da importância das amizades, da importância da vida… E eu não sei, naquele momento eu fiquei pensando:“Eu acho que é uma das últimas vezes que a minha irmã vai aguentar vir a São Paulo.” Porque ela tava bem, bem fraca. E no outro dia ela foi embora, mas já foi embora pra ser internada, assim, já tava sentindo falta de ar, porque não tava com oxigenação no cérebro, porque as plaquetas caem muito, aí precisa fazer reposição. E aí pronto, eu comecei a visitá-la todo fim de semana. E uma quinta-feira eu resolvi: eu vou pro Rio, porque eu acho que não vai muito longe, que eu cancelei vocês. E aí que tem duas semanas, duas quintas atrás fui pro Rio e ela, quando eu cheguei aqui em São Paulo na sexta ela faleceu à noite. Mas ela lutou muito, assim, e era uma irmã também que nunca falou: “Ai, eu vou morrer, eu tô mal… ” Sempre, sempre, sempre falava: “Não, enquanto eu puder lutar eu vou ficar boa!” Mas agora eu vejo essa coisa de ter ido pra Itália, de ter me chamado pra ir, eu acho que ela já sabia, mas não falava. E uma das coisas que eu achei muito bonita, que eu tenho meu médico aqui em São Paulo que eu acho ele o máximo e eu achei que talvez ele fosse achar alguma coisa pra minha irmã. Ele é muito sério, assim, profissional. E levei ela lá no Jairo e ela chegou e falou pra ele: “Ô Jairo (com todos os documentos), ô Jairo, eu não vim aqui te pedir milagre, eu só…” (Pausa). Ela falou assim: “Eu só vim te pedir pra você me dar mais uns meses, que eu sei que isso não vai longe, mas eu queria mais uns meses.” E aí eu achei que ele foi muito, muito bacana porque ele falou: “É isso mesmo, Leonora, é isso mesmo! A gente tem que ver que esses meses tenham qualidade, que te deem qualidade de vida, porque o seu caso é muito grave. Não tem muito pra ser feito. Tudo que tinha que ser feito já foi feito.” E eu fiquei impressionada de ver o amadurecimento da minha irmã, porque não era uma coisa de resignação: “Ah, aceito e ponto final.” Era uma coisa de amadurecimento mesmo. 



P/1 – Bom, Guida, qual é o sentimento de saber que o seu trabalho beneficia e beneficiou tantas pessoas, principalmente as crianças, como é que é isso pra você?



R – Olha, eu acho que isso me dá muito prazer, porque eu queria trabalhar com criança a minha vida toda pelo amor que eu tinha a criança. Mas nunca, nunca, imaginava que educação me daria tantos benefícios, sabe? Como hoje eu vejo assim, a minha visão é completamente diferente do que quando eu comecei a escola. Escola pra mim, a minha escola eu pensava, é uma coisa que eu fiz pra ter a formação, mas não sabia da riqueza que você pode ter num ambiente escolar! Então, eu acho que isso me dá muito prazer hoje! Ver, sabe assim, eu encontro meus alunos jovens, né. Que falam da escola com tanta alegria, com tanto amor! Sempre falando assim: “A PlayPen… ” Porque os antigos falam PlayPen, só os novos alunos falam “Escola Cidade Jardim”. Porque não sei se vocês sabem a escola antes chamava PlayPen e quando a gente fez o fundamental que resolvemos chamar de Escola Cidade Jardim. E o Washington Olivetto que trabalhava com o nome, falou: “Não, eu acho que não pode tirar o PlayPen, PlayPen é Bombril, não pode tirar fora esse nome. Então põe Escola Cidade Jardim, mas fica firme com esse PlayPen, não abandona, deixa só quando o seu cliente abandonar, mas você não pode abandonar essa marca!” Então, eu vejo que os novos alunos já falam Escola Cidade Jardim, os mais velhos, mas as mães deles continuam falando PlayPen. Então quando eu encontro aluno hoje que tá com 20 e tantos e fala: “Ai, eu fui tão feliz naquele PlayPen, eu lembro das árvores, eu lembro daquele playground, eu lembro da professora x, eu lembro trabalhando aquele mundo imaginário dos golfinhos.” Porque vocês já devem ter ouvido da quinta dimensão. Tantas coisas que eles vão falando da escola que a gente não imagina dessa importância, né, que o aluno fala muito. Um aluno meu falou pra mim: “Ah, você tinha que ter tido uma faculdade, que eu não teria saído nunca da PlayPen.



P/1 – Você falou das árvores, o que é que é a jabuticabeira, que muitos alunos falam dessa jabuticabeira, o que é que significa a jabuticabeira pra você, pra própria escola?



R – É, essa jabuticabeira antigamente ela tava plantada no centro da escola. Então, aonde você passava, nos corredores assim, aonde você passava você tava vendo a jabuticabeira. E as crianças não brincavam próximo da jabuticabeira, porque ela tava no centro, mas era um jardim de inverno, que ela tava. Então ela ficava protegida, você via mas não ficava subindo nela. Então, ela florescia umas quatro vezes por ano, quatro vezes por ano a gente tinha jabuticaba! Mas ficava lá do último galho até embaixo preta de jabuticaba, completamente preta de jabuticaba! E aí quando ela tava bem carregada a gente combinava: que segundo ano vai subir na jabuticabeira de manhã na quarta-feira; terceiro ano à tarde na quarta; quinta… E assim todos colhiam jabuticaba, todos. A gente fazia isso quatro vezes por ano. Aí com a obra a gente precisou tirar a jabuticabeira, deixar ela num canto e replantar depois num jardim. E hoje elas têm acesso a ela, então as crianças sobem nela, então ela já não dá fruto, porque já não dá mais tempo. Porque as crianças sobem e como a escola cresceu muito, então são muitos alunos subindo todos os dias, então ela já não dá fruto mais. Mas foi uma jabuticabeira que durante 20 anos deu jabuticaba, mas muita jabuticaba! Então tinha um significado muito grande, quando ela fica branquinha das flores, ela ficava linda, linda! E a Márcia, como é uma pessoa com muita sensibilidade, fazia todos os eventos da escola em volta da jabuticabeira, fazia a gente de mãos dadas no primeiro dia de aula, do profissional, quando voltavam os professores, todo mundo fazia, uma fala em volta da jabuticabeira. Então, assim, a jabuticabeira era o símbolo da fertilidade da escola! E tá lá, a gente faz projetos sobre a jabuticabeira no primeiro e segundo ano, todos os anos têm. Mas eu acho que essas crianças mais novas não tem essa afeição pela jabuticabeira, porque eles não veem os frutos, porque eles mesmo com os pequenininhos subindo, não dá mais frutos.



P/1 – E Guida, quais foram os maiores aprendizados de vida que você teve com a PlayPen?



R – Eu acho que foi trabalhar com criança com inclusão. Assim, ver o amor e a dedicação dessas famílias, sabe? E que as crianças com alguma limitação sempre podem superar completamente aquilo tudo que você acredita que não, que essa criança com alguma limitação que deve ficar em escola especial. Hoje em dia eu acho que não, que isso é crime, que tem mesmo que estar junto com a comunidade. Isso é uma das coisas que eu fiquei bem feliz que eu sempre recebi essas crianças! E não sei, assim, eu não acreditei que a escola fosse causar esse nível de satisfação nas famílias e nas crianças que eu vejo hoje. O resultado tá aí, assim, ano após ano eu vejo que… Ah, que a escola realmente deu um prazer! E que quando falam da escola não é: “Ah, eu entrei no vestibular no lugar tal”. Os alunos falam de uma formação, de uma coisa de prazer, não falam de prazer: “Ah, me preparou pro vestibular.” Sei lá, nunca, absolutamente nunca falou sobre isso! E eu tenho aluno que fez Harvard, eu tenho aluno antropóloga que hoje é professora na USP [Universidade de São Paulo] e foi agora pra colocar a filhinha dela como mãe e ela não se apresentou como ex-aluna, ficou calada, sentada, ouvindo e tudo que tava falando da escola e no último minuto ela perguntou: “A Guida trabalha aqui ainda?” Aí a Dani falou: “Trabalha, ela é a dona da escola.” E ela falou: “Ai, chama!” E aí ela falou: “Essa escola me deu tanto prazer, tanto prazer, que eu não podia levar minha filha pra um outro lugar!” E aí começou: o que é que ela fazia e eu falei: “Nossa, mas a menina tá com 20 e poucos anos, já fez mestrado, tá fazendo doutorado!” E em nenhum momento ela falou:  “Essa escola me preparou pra fazer vestibular em algum lugar.” E eu acho que pra mim isso é bem gratificante: quando o aluno vê a escola como uma escola de formação, não uma escola que informou tanto que preparou o aluno pro vestibular. Eu acho que essa é a maior… É uma das qualidades da nossa escola que eu aprecio e quero continuar mantendo!



P/1 – E, Guida, por que a decisão de contar os 30 anos da escola e num projeto que usa as pessoas pra contar essa história, que você usa toda a sua comunidade? Por que essa vontade de você fazer esse projeto?



R – Ah, porque eu achei que eu tinha que documentar essa história da escola, porque não é uma escola que foi sempre, que já tinha um projeto, um grupo de educadores. Porque geralmente o que acontece com escolas é: um grupo de educadores sai da escola x e monta a escola. O meu eu achei que não era essa a história, a história é que eu queria ser professora. E como é que eu ia realizar esse sonho? Fazendo a minha própria escola. E eu vi essa necessidade. E aí tantos empecilhos e tantas boas histórias! E muitos amigos meus falavam: “Ai, Guida, você tinha que escrever um livro! Você tinha que contar essa história!” Essa coisa de você vai fazendo, você vai acreditando, vai superando as dificuldades. Então, eu acho que eu tinha que documentar isso. E quando eu comentei com a Gabriela que eu gostaria de fazer isso, a gente começou pensando numa coisa bem simples. Meu marido falou assim: “Mas de forma alguma, ninguém pode contar a sua história, só você pode contar a sua história! Você tem que sentar, a gente tem que entrar de férias uns três meses e você escrever a sua história, toda a história, a história da escola.” E daí eu tive que convencê-lo que tem profissionais que fazem isso. E ele ficou: “Não, não.” E ficou até o último minuto tentando me convencer do contrário! Aí a Gabriela falou: “Olha, eu vi um livro que o Museu da Pessoa fez. E eles fazem um trabalho muito bonito!” E aí eu vi o do Pueri Domus. Gostei do Pueri. Mas quando você trouxe aqueles livros eu falei: “Ah, não, eu acho que a gente tem que documentar a história da escola, não pode perder!” Achei que era importante, sabe? Importante para os meus filhos, para os meus netos e para os alunos! Eu acho mais importante para os alunos, porque eu acho que o aluno que tá ali dentro, ele é muito novinho, ele não sabe todo esse caminho, todo esse processo que acontece na educação. Então eu achei importante documentar.



P/1 – Bom, Guida, pra finalizar, o que é que você achou de ter participado dessa entrevista?



R – Ah, eu acho que é mais um elemento pra fazer história, né. Acho que é mais um elemento pra contar a história. Eu gostei, eu acho que dá um revival (risos).



P/1 – Guida, eu queria te agradecer em nome do Museu da Pessoa e em nome da própria escola! (Risos).



P/2 – E pra aproveitar que a gente tá no final do ano, assim, não sei se você tem alguma mensagem pro ano que vem, de expectativas, de… 



P/1 – Se você pudesse dizer alguma coisa para os alunos, o que é que você diria pra 2011?



R – Eu diria que só em um aspecto da minha vida eu acho que a idade é boa... É a experiência, porque agora com a saída desses dois profissionais, eu acho que é um ganho, em um aspecto é um ganho, porque me deu uma revigorada. Então eu voltei pra escola como há muitos anos eu não estava. Assim, sabe, querendo dar uma revigorada no trabalho, eu vi que eu tava numa zona de conforto. E eu gosto quando eu tô de novo envolvida com a escola, eu gosto assim, eu fico cheia de ideias. Então, se eu tivesse que falar alguma coisa eu ia falar que o ano que vem vai ser muito melhor! Porque todo mundo que tá ficando tá muito inteiro, muito envolvido e tá todo mundo apaixonado de novo pela escola, parece que a escola tá começando! E eu acho que educação é isso aí, você tem que recomeçar sempre, sempre, sempre! Então eu acho que a escola vai estar melhor o ano que vem! É bom que eu tenha saído da zona de conforto!



P/1 – Que bom, Guida! Obrigada!



R – Obrigada a vocês!



P/1 – Imagina…




--- FIM DA ENTREVISTA ---



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