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História

Sonho de atriz

História de: Micheline Lemos Rodrigues
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/05/2013

Sinopse

A entrevista de Micheline Lemos Lopes foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 25 de Abriel de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Micheline Lemos Lopes nascida em Maceió conta que desde cedo já tinha migrado para outra cidade, Sergipe.Ela conta os problemas familiares que passou em casa com seus pais e apuros porque seu pai bebia.Conta de uma infância feliz em sua casa com muitas brincadeiras de ruas e no quintal. Conta de uma vida de trabalho que começou aos 19 anos e a realização de passar na escola de Arte dramática da Universidade de São Paulo que é onde estuda até hoje.

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História completa

Nasci em Maceió. Nasci lá e muito novinha fui para Aracajú, Sergipe. O meu pai bebia, tentou matar a minha mãe várias vezes. Depois que eu soube de toda a história, consegui perdoar o meu pai. Hoje ele me liga, eu consigo chamá-lo de pai. Nunca tinha visto ele chorar, nem na morte do meu irmão, nem na morte do pai dele. Há uns dois anos atrás a minha mãe falou que viu ele chorando porque estava com saudades de mim. Minha casa de infância era uma casa muito grande, porque antes de casa, era uma garagem para caminhões. Depois de um tempo, o meu avô construiu uma casa e fomos morar lá. A parte que eu mais gostava era o quintal, que era muito grande, com várias árvores e tal. Tinha um tanque grande, como uma caixa d’água, de cimento. Eu gostava muito de água e minha mãe, enquanto fazia as tarefas, às vezes colocava um pouco de água. Era a minha piscina ali.

Era a parte que eu mais gostava. Lembro que a casa tinha muitas plantas, que a minha mãe gostava muito. Tinha um portão grande, de madeira, que tinha uma portinha muito pequena, para passar botijão, essas coisas. Minha casa na verdade era na rua, porque a gente brincava o tempo inteiro.E minha irmã sempre gritando: “para dentro! Para dentro!” Trancava o portão, mas eu sempre arrumava um jeito de sair. Teve um episódio que foi muito engraçado. Era para ser trágico, mais foi engraçado. Morávamos nessa rua, que de vez em quando passavam muitos bois e touros, onde lá pra frente da cidade tinha um matadouro. Um dia eu escapuli de casa e fui para a rua. E minha irmã dentro de casa: “cadê essa menina, cadê essa menina, pelo amor de Deus?”. Nós temos nove anos de diferença. Quando ela abriu a janela, eu estava no meio da rua e tinha uma boiada para vir para cima de mim. Eu tinha cinco anos. E então os vaqueiros correram e ficaram na frente dos bois, para que eles não me atropelassem. Um vizinho, menino, foi quem me pegou e jogou para dentro de casa. Se não, a boiada ia passar por cima de mim e não ia sobrar nada. Meus pais se separaram há pouco tempo. Minha mãe disse que se separou depois de uma coisa que eu disse para ela.

Eu disse que não aguentava mais aquilo. Eu fui a última a ficar em casa, então vi todas as brigas por mais tempo que meus irmãos. Minha mãe conseguiu passar em um emprego público, por um concurso no TRT (tribunal regional do trabalho) e hoje a muda mudou, de 15 a 16 anos para cá. Continuou com meu pai, que continuou bebendo. Com uns 26, 27 anos, um dia eu falei para a minha mãe calmamente: “mãe, eu chego a ter raiva da senhora porque você parece amar mais o marido do que os seus filhos. Eu não escolhi o pai que eu tenho, mas você escolheu o seu marido. Então você pode desfazer esta história”. Então um dia eu comprei um apartamento e disse a eles que estava me mudando, que estava me separando deles. Eu fui embora, ela se sentiu abandonada, mas foi a partir disso que ela conseguiu se separar do meu pai, que não acreditava que ela fosse fazer aquilo.

Eu trabalhava já desde cedo e aos 19 anos a minha mãe conversou seriamente comigo, dizendo que eu precisava voltar a escola. Nessa época, alguém indicou a ela que eu fizesse supletivo, porque assim eu não precisava frequentar a escola. Fiz o supletivo junto com a minha mãe. Ela fazendo o segundo grau. Foi ai que eu consegui frequentar a escola, com ela fazendo o mesmo curso que eu. Ai era bem diferente, era todo mundo adulto, mães, pais, então eu fiquei mais sossegada. Então eu tirei o segundo grau assim. Tentei fazer vestibular para educação física, mas não conseguia fazer mais nada que me lembrasse escola. Eu era muito revoltada com isso! Porque eu queria muito frequentar uma escola, mas não conseguia. Até que eu descobri a EAD (Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo) e, com 31 anos de idade, falei: “vou fazer e vou passar!”. Fiquei estudando em Aracajú mesmo.

Aí, uma companhia de teatro de São Paulo tinha ido para Aracajú e estava precisando de duas atrizes para compor o elenco, eu fiz o teste e passei. Mas eu já tinha planejado para vir para São Paulo. Mas me programei para vir em setembro, e isso era em abril, maio. Eu já estava estudando para o vestibular e tal. Um mês depois que a companhia voltou para São Paulo eles me ligarão e disseram porque eu não iria antes, pois tinha um trabalho lá para mim e tal, inclusive com um teste para a novela Malhação (rede Globo de televisão). Eu ficava meio desconfiada, mas serviu como uma mola para eu vir. Vim com a passagem de ida e quarenta reais. . Nessa época eu peguei uma PET de refrigerante e comecei a juntar todas as moedas de um real que eu via. Fiz um cofrezinho que começou em março. Todos dez, vinte reais que eu pegava, trocava por moeda e colocava lá. Quando foi em junho, que eu precisava vir para São Paulo, fui a agencia para ver o preço da passagem, que era 315 reais. Eu estava sem grana porque tinha montado uma cantina em uma escola pré vestibular e estava sem grana. Tinha quebrado, estava para perder o carro e tal. Ai pensei: “bom, o dinheiro que eu tenho está lá na PET de refrigerante”.

 Abri a PET e tinha 314 reais. Ai falei: “mãe, você me empresta um real”? . Ai eu tinha mais um dinheirinho e enfim, comprei a passagem e me lembro que cheguei no dia 22 de junho de 2006 aqui em Guarulhos. Aqui, fui trabalhar, fiz curso de oratória, fiz outras coisas. Quando eu voltei para Aracajú eu contei para a minha mãe que tinha passado, recebi a maior bronca dela e da minha irmã, então passei a receber um dinheiro dela. Pouco, mas eu recebia. Também fazia alguns freelas (trabalho free lancer), comecei a fazer eventos, trabalhos com publicidade, ia me virando. Então eu dei aquela respirada e quando voltei para a EAD, ai sim eu dei conta do meu curso.

Em 2009 eu fiz um teste para o filme “Lula, o filho do Brasil”. Passei e fiz uma das irmãs do Lula, ai já ganhei algum dinheiro e fui trabalhando assim, fazia teste para publicidade, teatro, comecei a fazer uma produção no Butantã, mas não deu certo. O curso era muito intenso, e fiquei dedicada a só isso. Fiquei atuando. Fiz quatro ou cinco filmes, tem um que está passando agora no exterior, que chama “o amor que não ousa dizer o seu nome”, onde sou a protagonista. E tenho também um projeto meu e da Bibi, Gabriela Gonçalvez. No início a gente tinha muita vontade de fazer um movimento com mulheres que tocassem tambores e contassem histórias.

Então os tambores foram eliminados, uma outra menina que trabalhava conosco saiu e acabamos dando um tempo. Em 2011 nós retomamos, mas também não deu. Nesse ano retomamos novamente e agora o projeto está com tudo. Ontem tivemos uma reunião de trabalho, onde recolhemos depoimentos de pessoas diversas e, em teatro, transformamos isso em dramaturgia, com orientação de um diretor, um orientador, na verdade. Através de improvisos, nós vamos contando a história, ai surgem caminhadas, trejeitos dessas pessoas, falas, e ai vamos contando as histórias assim. Nesse episódio nós estamos contando as nossas próprias histórias, as partes da infância. Isso tudo se transforma em contos e vão surgindo canções também. A Bibi e eu somos compositoras.

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