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História

Somos muito mais que um corpo

História de: Marcia da Silva Moreno
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/11/2021

Sinopse

Márcia Moreno descobriu que tinha dermatite atópica da pior maneira possível: depois de quase morrer em um acidente de carro. Depois disso, vivenciou outras tantas quase mortes. De desesperança, depressão e a vontade de dar um basta em tudo. Nas feridas que coçava. Mas encontrou no amor de seu filho e de seu marido a vontade de continuar. No médico que a escutou e sugeriu outros caminhos. E no grupo que criou no Facebook e se tornou um espaço de compartilhar dores e conquistas. Hoje, só quer viver a vida de outra forma, olhando o lado bom das crises.

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História completa

Eu só tive o diagnóstico da dermatite atópica mesmo em 2014, depois que eu sofri um acidente de carro. Nós morávamos aqui no Mato Grosso. Estávamos voltando para a nossa fazenda e fomos fazer uma ultrapassagem. Mas o caminhão não permitia que fizéssemos. O meu marido ficou contendo o carro ali e não quis fazer. Quando chegou um momento lá que tinha um reto na estrada, ele falou assim: ‘‘dá para fazer a ultrapassagem”.

 

O caminhão dava seta de que a pista estava livre e dava para fazer, só que nós suspeitamos que tinha alguma coisa estranha naquele caminhão. Não tinha buracos na pista, não tinha uma pista ruim para que ele ficasse a toda hora fazendo ziguezague. Falei para o meu marido: ‘‘segura, segura. Tenta evitar. Não se aproxima muito desse caminhão porque ele deve ter tomado alguma coisa e está estranho’‘, só que meu marido falou: “eu estou muito perto. Vamos fazer a ultrapassagem e já nos livramos dele’‘.

 

Nisso, chegou um momento propício para fazer a ultrapassagem. Meu marido fez. E eu me lembro só dos carros que estavam vindo. Era um carro branco e um caminhão branco atrás do carro, assim. Só que deu tempo de fazermos a ultrapassagem e entramos na frente desse caminhão. Os outros veículos passaram por nós e assim que eles passaram, o caminhão que nós ultrapassamos, entrou nos ultrapassando de volta e bateu na traseira do nosso carro. Nos jogou contra o barranco, capotamos o carro e deu perda total no carro. Total.

 

O caminhão bateu bem onde meu filho estava com a cadeirinha dele. Mas a cadeirinha deslizou. Ela deslizou e encaixou no meio do meu banco e do meu esposo. Foi um milagre aquilo lá, não sei.

 

Meu banco ficou totalmente destruído também, quebrou os vidros e eu não ouvi barulho nenhum, de ninguém, do meu marido, do meu filho. Só aquele movimento do carro indo para lá e pra cá e do capim, porque ele foi para a beira do mato. E, de repente, vi que meu filho começou a chorar. Mas ele só machucou a unha. Nós conseguimos tirar ele do carro. Passamos ele pelo vidro. Ninguém nos ajudava. Eu não chorei, não fiz nada, não tive reação nenhuma. Eu só olhava o carro e parecia que tinha um nó na minha garganta. Um nó na minha garganta, não conseguia ter reação nenhuma. Meu marido começou a ficar desesperado. Meu marido chorava, meu filho chorava e eu travada. Demorou muito para uma pessoa parar e nos acolher.

 

No outro dia, que passou o acidente, eu comecei a passar muito mal, com muita coceira no meu corpo. Dois dias depois também e eu fui só piorando. Comecei a inchar. O meu rosto começou a inchar e eu fiquei muito péssima. Em 2012 eu já tinha tido um caso de uma coceira atrás do meu joelho, uma ferida que abriu, enorme, e não sarava. Eu não soube o que era. E aquilo voltou novamente depois desse acidente de carro, até que não teve jeito e tivemos de ir ao hospital. No SUS não tinha um dermatologista e ninguém soube explicar o que era. Só me deram corticoides para tomar, que eu me lembro. Eu dei uma melhoradinha, mas piorei, até que marquei um dermatologista e ele me diagnosticou com dermatite atópica e de contato.

 

Eu contei toda a história de quando começaram as primeiras lesões no meu corpo, mas que eu não sabia o que era. Ele me diagnosticou com dermatite atópica e de contato. E aí eu comecei a fazer um tratamento. Ele falou que interferiu demais o meu emocional, principalmente depois do acidente, que foi o choque maior que eu tive. Atacou o meu corpo totalmente e ele falou sobre o emocional e vários fatores da minha vida que podiam desencadear as crises.

 

Depois do diagnóstico mesmo eu tive mais crises. Assim, em curto prazo, até descobrir um tratamento que deu certo para mim, descobrir o que causava aquilo em mim, controlar mais o meu emocional, fazer coisas para controlar o meu emocional e tentar controlar as crises.

 

Mas teve crises fortes. Eu lembro que em uma das crises depois do tratamento, quando os corticoides já não estavam mais fazendo efeito em mim, a dermatite tomou conta do meu corpo. Eu tentei suicídio, tentei tirar a minha própria vida. Eu só não fiz isso porque eu tive medo de ter sequelas disso e acabar dando mais trabalho ainda e sofrimento para meu filho e meu marido.

 

Eles foram as pessoas que me deram mais força e impediram que eu fizesse qualquer loucura na minha vida, porque eu estava a ponto de cometer suicídio. Eu tentei remédios, eu tentei me enforcar. Eu pensei várias vezes. Fui no local, planejei tudo, mas na hora eu tinha medo. Meu filho, parece que ele adivinhava que eu não estava bem. Ele sempre chegava em mim e falava: ‘‘mãe, vai sarar, vai ficar tudo bem’‘. Ele pegava um algodãozinho e cuidava das feridinhas. ‘‘Mãe, vai passar, logo vai ficar bom’‘. Ele sempre foi a minha maior força nesse período. E meu marido também sempre me deu muita força.

 

Depois que essa crise fortíssima atacou, eu lembro que eu vivia trancada dentro de casa. Eu não tomava sol, passei a não comer muita coisa. Meu marido chegava em casa e eu estava sempre do mesmo jeito: deitada no sofá, com o ventilador em cima de mim e só de lingerie, porque eu não conseguia me mover. Qualquer coisa que eu fizesse eu já queria me coçar. Eu já estava pegando uma escova de cabelo para me coçar. A minha pele estava totalmente cheia de feridas e até o meu rosto estava. Eu estava praticamente entregue à doença.

Mas ele me pegou um dia, bem tarde da noite, eu me lembro, e falou: ‘‘Chega. Eu vou te levar no hospital porque não estou aguentando mais ver você desse jeito’‘. Já não queria ir mais, porque não tinha mais o que gastar, não tinha mais método para tentar fazer alguma coisa. E ele me trouxe no PAM aqui de Primavera do Leste. Eu levei todas as receitas, tudo o que eu tinha. Um médico do SUS, um médico que não tinha nenhuma especialidade na área, foi uma pessoa que falou assim: ‘‘Eu vou te dar uma injeção. É corticoide. Você, até agora, tomou muito corticoide oral. Mas tenta ter outros cuidados. A dermatite não é só stress que você passou ou só o que você encostou ali. Tem muito a ver com a sua alimentação, a sua hidratação. Tenta arrumar alguma coisa para você fazer na sua vida para que você faça toda vez que você se sentir nervosa. Uma atividade física, alguma coisinha para tentar espairecer, que você vê que prende muito o seu tempo, tira um pouco da atenção de outras coisas e, principalmente, evite comer certos alimentos. Toma bastante água, tenta tomar algum suplemento como ômega três e alguma coisa assim, que funciona nesse sentido de anti-inflamatório. Tenta fazer isso e tenta se livrar um pouco de medicamentos tão fortes e tão invasivos como o corticoide, que só vai te dar efeito rebote. O que você está tendo agora é um efeito rebote’‘, que ele falou”.

 

Ou seja: o meu corpo não estava mais aguentando nenhum tipo de corticoide e estava botando para fora tudo aquilo que tinha. Aí foi onde eu comecei a ouvir as dicas dele. Tomei a injeção, melhorei e a partir daquele momento comecei a me cuidar.

 

Qualquer coisa que eu fosse tocar, eu me cuidava para não causar uma crise. Comecei a cuidar da minha alimentação, encontrei uma fitoterapeuta aqui na cidade, que trabalha apenas com plantas e coisas assim. Porque a minha avó tem muito de cura com plantas. A minha mãe trabalhava como auxiliar de uma fitoterapeuta lá no Paraná. Eu ouvi falar nessa mulher e lembrei da história da minha mãe, da minha avó e falei: ‘‘Pode ser que funcione’‘. Porque muitas coisas minha mãe tinha chá e compressa. Para tudo tinha. Encontrei essa mulher. O nome dela é Nair e ela fez um tratamento comigo a base de chás, que limpava o meu organismo. Me deu suplementos para tomar e alguns chás para passar no meu corpo. E foi como tirar com a mão. Eu melhorei absurdamente. Eu passei a ficar uma semana sem crises, depois duas, depois três semanas. Eu consegui ficar seis meses sem ter crise nenhuma.

 

Depois, quando as crises voltavam, eu fazia o tratamento com chás, cuidava da alimentação, tentava me controlar e não me coçar tanto. Usando dicas, assim. Foi por isso que eu criei o grupo, inclusive, no Facebook. Eu não tinha muito acesso, não conhecia ninguém com a doença na cidade. Eu nunca conheci ninguém com a doença. Não tinha nenhum tipo de acesso a isso. Criei o grupo e comecei a compartilhar essas dicas com eles. Como, por exemplo: ao invés de coçar alguma coisa, catar o secador de cabelo com o ar frio e passar em cima da ferida para coçar. Desde a primeira tatuagem que eu fiz e que as pessoas tinham muita vontade de fazer, percebi que as pessoas não estavam tendo vida, como eu não tive por um período. E eu comecei a compartilhar cada coisa que eu fazia, cada coisa que eu usava, eu compartilhava no grupo.

 

Foram vindo mais pessoas, mais histórias e eu, conhecendo as histórias deles e de crianças, principalmente, comecei a tirar o foco de mim mesma. Cigo que a dermatite veio na minha vida para mudar o meu psicológico também, porque eu era uma pessoa muito focada em estética, superficial. E com a dermatite, eu comecei a perceber que nós somos muito além da pele, somos além de um corpo. Por trás de cada ferida, de cada ser humano com um problema, tem uma história de vida, um motivo por aquilo ali estar acontecendo e a dermatite mudou muito a minha forma de pensar e ver as coisas ao meu redor.

 

Com o grupo e conhecendo essas pessoas, eu comecei a tirar o foco de mim e percebi que as minhas crises, a minha doença, não eram nada se comparadas com as de outras pessoas que estavam passando por muito pior no grupo. Criei o grupo para ter ajuda, conhecimento, apoio. E acabei ajudando, dando conhecimento e apoiando. Foi muito bacana para mim. Foi bom criar esse grupo, ter esse contato com as pessoas. Passar pela doença não é uma coisa fácil, mas eu tentei e tento até hoje a cada crise, a cada coisa que acontece, tirar algo bom. Tirar algo bom disso e parei de ficar focada só no desespero de tentar resolver aquela ferida de uma forma.

 

Parei de me desesperar de ficar louca atrás de uma forma, uma cura ou alguma coisa assim. Eu passei a me aceitar muito mais e a lidar com a doença de uma forma um pouco mais, com outros olhos, eu diria.


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