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Solidariedade petroleira

História de: Sinésio Pereira dos Santos
Autor:
Publicado em: 12/01/2015

Sinopse

Sinésio nos conta sobre sua infância em Salvador e suas viagens para Ilhéus e Rio de Janeiro quando teve contato com a política da época através do Partido Comunista Brasileiro. Fala de seus trabalhos em Alfaiatarias e sua entrada na Petrobrás em 1959. Nos conta sobre o cotidiano no campo de candeias, onde se aposentou em 1978 como apontador. Discorre sobre a militância sindical no Sindicato dos Químicos e Petroleiros da Bahia e o Sindicato Único dos Petroleiros (SUP). 

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História completa

Meu nome é Sinésio Pereira dos Santos. Nasci em Salvador, na zona dos Mares, no bairro do Uruguai, no dia 11 de novembro de 1924.

FAMÍLIA

O nome do meu pai é Domingos Ribeiro dos Santos; o de meu avô, Antônio Hilário dos Santos; a minha avó, não me recordo o nome dela.O nome da minha mãe era Elisia Pereira dos Santos. Os pais da minha mãe também não me recordo. Meu pai era pintor de parede, faleceu aos 78 anos de idade. Trabalhava, e nessa época eu o já ajudava também no trabalho de futurista, eram desenhos que nós fazíamos na parede. Para fazer esses desenhos, cortava-se o papel e eu ia ajudá-lo em cima de uma escada, segurando o purista, uma peça de papelão, para ele com a bomba fazer os desenhos na parede. Ele pintava em toda a cidade de Salvador, e ele por sinal era um pintor famoso, muito procurado, muito exigido para trabalhos.

CIDADE

A cidade de Salvador. Por exemplo, o bairro do Uruguai era um bairro - naquela época não havia calçamento, tínhamos perto do bairro do Uruguai, na localidade de nome Rama, a estação de bonde, esses bondes é que faziam o serviço de transporte de passageiro. Ribeira via Caminho de Areia, Ribeira via Luís Tarquínio, Ribeira /Calçada e Largo do Tanque, Calçada, Cabula e por aí afora. Perto da nossa residência também estava a estação Oeste Brasileiro, que fazia o transporte ferroviário, das pessoas residentes nos subúrbios. O bairro em que eu morava era um bairro muito fabuloso, um bairro alegre, um bairro calmo - ali por sinal deu um grande impulso ao Carnaval da Bahia, de cujo impulso eu participei com a minha família. Mas hoje o bairro está se transformando num bairro muito violento, até hoje nós temos lá a casa onde eu nasci e me criei.

FAMÍLIA

Eu tinha três irmãs mulheres - duas morreram e uma está viva - e um irmão homem. Quando a minha mãe faleceu eu estava com quatro anos de idade. E o meu pai tem uma filha de uma outra mulher que ele tinha, sergipana, que tinha 15 anos de idade. Quando a minha mãe faleceu, ele foi buscá-la, e foi ela quem nos criou.

CASA

A minha casa era uma casa comum, de parede-meia em um terreno ribeiro, esse  terreno era de propriedade do Sr. Edgar Martins, hoje falecido. E é também um terreno que está dentro dos limites da área da Marinha - nós até certo tempo pagávamos a renda, mas depois veio uma lei, que essas casas, até um certo limite  à beira d’água da maré, estavam isentas de pagar essa renda, daí nós paramos. Temos a casa até hoje, lá renovada, e é uma casa de mais de  anos.

INFÂNCIA

Na minha infância as brincadeiras eram boas, eram  brincadeiras de roda, chicotinho queimado, picula, pingue-pongue, essas eram as brincadeiras daquela época. No tempo de São João, as festas  juninas, nós fazíamos aquelas brincadeiras de fazer feijoada na casa de um e de outro, corríamos atrás de balões etc.. Era um tempo que me deixa saudades.

CASA

Era maré - e por sinal, no fundo da minha casa a maré vinha até a beira da terra. Hoje, com os alagados, a maré desapareceu. Lá mesmo naquela época existiam duas salgadeiras, uma era de Geminiano, e a outra não me recordo o nome da pessoa agora. Nessas salgadeiras aportavam barcos, embarcações, que vinham trazer materiais para aquelas casas, para o bairro, trazer mercadorias para feira, e aí é que vai começando a história. Quando aquelas embarcações voltavam, principalmente na maré de março, nós crianças pegávamos a embarcação e saíamos correndo até Massaranduba, até Lobato, e foi a partir daí que nós começamos a conhecer também o trabalho de petróleo na Bahia. As embarcações vinham de diversas partes do recôncavo trazendo mercadorias, materiais de construção, etc e ancoravam na ponte do Geminiano. Quando elas descarregavam e iam retornar, um grupo de crianças como eu, nós pegávamos a embarcação e saíamos nela até Massaranduba, às vezes Lobato. E quando elas chegavam, e que iam partir para Itapagipe, para seguir  viagem, nós caíamos no mar e íamos nadando. Quando cansávamos, parávamos para segurar uma galha do mangue, para descansar um pouco e depois voltar para o ponto de origem, a ponte de onde nós tínhamos pegado as embarcações, escondido de meus pais.

EVENTOS HISTÓRICOS

Ouvi falar do petróleo; era no Lobato, próximo à linha férrea, vivíamos sempre na ribeira, e ali morava o Manuel Inácio Bastos, que eu conheci de vista, porque eu via sempre da janela lá de casa e me diziam que ele era o dono do petróleo da Bahia. E conheci Oscar Cordeiro, Oscar Cordeiro eu conheci pessoalmente. Quem foi Manuel Inácio? Engenheiro civil, topógrafo e um geólogo autodidata, se dedicava muito à pesquisa de petróleo. E certa feita ele foi aconselhado por um funcionário, que uns dizem que era empregado da Oeste Brasileiro e outros dizem que era dos Correios. Eu fico mais com aqueles que dizem que ele era empregado dos Correios - me recordo bem do apelido dele, era Candunga. Ele chegou para Oscar Cordeiro, sabendo que Oscar Cordeiro vivia essa vida de pesquisar petróleo, aconselhou Cordeiro a examinar a água das cisternas daquelas casas lá do bairro de Lobato, que era uma água que ninguém bebia e não suportava o cheiro, porém essa água eles se serviam dela, para botar em candeeiros, bibianos, pra iluminar suas residências, daí é que nasceu a história de se furar poço de petróleo no Lobato. Acompanhei essa história, muitas vezes eu ia ao poço para ver o trabalho e recordo-me hoje que em 1937 uma comitiva de estudantes foi em visita ao poço e quando retornavam, uma composição da Oeste Brasileiro atropelou e matou um estudante de 17 anos de idade.

Recordo-me também quando Getúlio Vargas foi ver um poço de petróleo e lá tomou  uma salpicada de petróleo e se sujou todo, foi preciso alguém emprestar roupa a ele, para ele poder retornar para o Rio de Janeiro, assim foi que nasceu essa história do Petróleo. Muitos de nós não conformamos, quando se diz que foram Oscar Cordeiro e Manuel Inácio; eles eram parceiros, trabalhavam juntos, mas o trabalho principal mesmo foi feito pelo Manuel Inácio, eram dois abnegados, eram dois lutadores. Inegavelmente o Brasil deve a eles o descobrimento do petróleo. O Manuel Inácio faleceu aos 49 anos de idade, mais ou menos, e morreu contrariado, teve um infarto porque ele era perseguido - na época o interventor na Bahia, Landulfo Alves. Ele por isso se apaixonou, gastou muito dinheiro na pesca do petróleo, como também o Oscar Cordeiro; o Oscar Cordeiro acabou  as economias dele todas, empregando nesse trabalho do petróleo. Oscar Cordeiro, o grande sucesso desse trabalho de petróleo, aí sim se deve a Oscar Cordeiro, ele ficava em cima das autoridades, procurando obter recursos e conseguia, e aí então eles foram levando a história,até que em 1939 no Lobato jorrou petróleo pela primeira vez. Em 1939. Tinha uma cisterna no Lobato, o pessoal cavava a cisterna, tirava água, mas não bebia a água porque a água tinha um gosto ruim. Era em todas as cisternas. Então ele foi aconselhado por esse amigo dele, Candunga, que ele deveria analisar aquela água. Ele analisou e viu que tinha um cheiro diferente e começou então a pesquisar o petróleo lá no Lobato, onde foi o primeiro poço furado na Bahia, depois daí a luta deles continuou. Eles partiram para Candeias, e em Candeias furou-se também um poço, o C-1 (Candeias um). E esse poço deu petróleo, mas um tal geólogo Link, um americano, ele fez um relatório, dizendo que, independentemente de Candeias, nenhum município mais do Recôncavo Baiano tinha petróleo. Enganou-se redondamente porque aí começamos a furar em São João, deu petróleo, Catu, deu petróleo, São Sebastião do Passer, todo o Recôncavo Baiano, onde furou deu petróleo. Hoje que o petróleo baiano está um pouco esgotado. Ora, naquela época eu já ouvia dizer que o petróleo brasileiro não duraria 20 anos; veja quantos anos nós temos e quantos anos o petróleo tem durado.

INGRESSO NA PETROBRAS

Depois da primeira parte da minha história eu vim lutando para entrar na Petrobras, mas na época era um trabalho rude, eu não tinha condições físicas para aquilo, e todas minhas tentativas foram em vão, não consegui, até que enfim, em 1959, eu consegui ser admitido.

ESCOLA

A primeira escola que eu tive foi a escola da professora Ester. Eu aí comecei a fazer, aprender as primeiras letras, e depois, em 1937/38, eu passei a estudar na escola Sátiro Dias, na Vila Fernando da Cunha, que era uma escola da Igreja Batista dos Mares. Depois completei o curso primário e parei de estudar, embora meu pai insistisse comigo, mas eu não queria saber de estudo. Depois eu decidi que queria fazer um vestibular e entrei num curso de segundo grau, esse curso de segundo grau, mas já havia necessidade de trabalhar - meu pai era um pintor de parede. O trabalho, trabalhava uns dias, levava meses, eu aí ingressei para aprender a profissão de alfaiate; o meu mestre, o mestre Geraldo.

TRABALHO

Eu estava nessa época com a idade de uns sete para oito anos, quando comecei a trabalhar, era o mestre Geraldo, eu sem falsa modéstia era considerado um bom alfaiate, aí fui chamado para trabalhar na Alfaiataria Olga. Aí é que vem a história - vou voltar para citar -, foi aí que eu conheci o Oscar Cordeiro pessoalmente. Nessa Alfaiataria Olga eu não perdi a esperança de trabalhar na Petrobras, insistia, insistia, insistia, até que em 1959 eu consegui, depois de 20 anos de trabalho de alfaiate. Algumas vezes... Em 1947 eu sofri um acidente e fui afastado do trabalho, me deu vontade de dar um passeio do lado de cá, peguei um pau-de-arara, um navio com o nome de Arapaú, vim embora para passear, consegui uma passagem de graça. Nesse Arapaú nós viajamos de Salvador até Ilhéus durante cinco dias; de Ilhéus para o Rio de Janeiro levamos 11 dias viajando. Eu não agüentei mais, desci do navio, peguei o trem e fui para Santos, na casa de um amigo meu; passei uma noite aqui no Rio de Janeiro - me lembro como hoje - e dormi até numa favela, do lado da Central do Brasil, na casa de um outro amigo; fui para Santos, não trabalhei e lá comecei a me envolver com política. Me lembro como hoje, que nessa época nós fizemos uma campanha, o Partido Comunista fez uma campanha dos cinco milhões, nós saímos de Santos para Jundiaí com uma composição de mais de vinte e poucas classes, só cantávamos. Posso cantar? “Avante comunistas, avante sempre temer com Prestes à nossa direita/ nós unidos havemos de vencer/Carlos Prestes cavaleiro da esperança/ nosso líder varonil/ com Prestes à nossa direita/pela grandeza do Brasil”. Minha filha, quando nós chegamos em Jundiaí, pernas para que te quero, a cavalaria deu em cima da gente, foi um corre-corre. No outro dia, quando amanheci, foi embaixo de um pé de árvore, com os pés por dentro das pernas de um português que morava em Santos. A nossa felicidade é que nessa época o Gustavo Capanema era ministro de alguma coisa aí, e intercederam junto a ele; ele mandou a cavalaria debandar, porque nós retornamos em paz para Santos. Nessa época estavam comigo o Lourival Eduardo dos Santos - era o amigo que estava comigo em Santos - e tinha também uns portugueses. Nós morávamos na rua São Francisco, 175 - hoje é a venda São Francisco - e estávamos com essas pessoas juntas. O Lourival era alfaiate. Depois, quando veio aquela campanha de Eduardo Gomes, presidente da República, eu fui ao Pacaembu para assistir aquele comício dele - e lá lembro-me bem as palavras de Eduardo Gomes. Pacaembu até hoje era um campo de futebol e agora é um monumento histórico. Quando foi no outro dia, surgiu a notícia de que Eduardo Gomes tinha feito um discurso no Pacaembu, dizendo que não queria o voto de marmiteiro, aí foi a derrota de Eduardo Gomes - lembra-se disso?-, de que não queria o voto de marmiteiro. Então essa é a história da minha infância.

Também ali um dia, no Uruguai, um serviço de alto-falante - a voz da 8 de Maio - onde eu fazia um trabalho de locutor com outros companheiros, entre eles esse José Jorge Randan, que hoje tem uma empresa de publicidade na Bahia, muito grande, trabalhávamos juntos na rádio, nesse serviço de alto-falante, e aí começamos aquele trabalho do Carnaval. Íamos para a feira do curtume aos dias de domingo para comprar presente de barro para dar aos blocos, para dar para os caras que iam por lá, e aí a história do Carnaval foi evoluindo, evoluindo, evoluindo, até que chegou a um ponto onde os grandes baluartes desse Carnaval foram desaparecendo, e o Carnaval foi morrendo. E um dos grandes baluartes, com todo respeito, ele vai me perdoar que ele está vivão ainda, Manuel Carlos Correa, funcionário civil da Marinha, uma pessoa muito decente, ele tomou conta desse Carnaval do Uruguai e, para deixar a presidência desse Carnaval, ele deixou como se diz hoje, no peito e na raça: “Não quero mais”, e saiu da reunião e abandonou mesmo. Eu lembro também, quando nós estávamos na política, em Salvador o professor José Santana, nessa época isso é um pouco perigoso, nessa época nós fazíamos o movimento do PC, saíamos durante a noite, na madrugada, eu, o João de Deus, profeta, Benerval Araújo, que está vivo também, e o professor Santana, pichando os muros com a propaganda do PC. Quando eu via a luz de um carro apontar longe, eu largava a lata de tinta no chão e pernas para que te quero - às vezes era a polícia e às vezes não era. Eu felizmente nunca apanhei da polícia, mas pobre de João de Deus - apanhou muito. Meu interesse pela política é um ideal, entendeu, um ideal. Deu-se até um fato muito interessante, muitas campanhas no Uruguai e uma certa noite o professor Santana virou-se e disse: “Sinésio vamos lançar a candidatura de Héreles Machado a prefeito de Salvador?”. Eu digo: “Vamos”. Preparamos tudo, armamos o palanque para o comício, e na hora H, alguém descobriu qual era o nosso propósito, se antecipou a mim e ao professor Santana e lançaram a candidatura de Héreles Machado. O professor Santana depois, aproveitado por Héreles Machado, passou a ser o secretário de assuntos da Prefeitura; fez muita bobagem, abandonou a família, e o Héreles Machado botou ele para fora da Prefeitura. E Deus me perdoe, esse professor Santana ,ele não morreu de fome como os filhos e a mulher porque nessa época eu já andava por Bom Jesus dos Passos e ele foi abrigado lá em Bom Jesus no Clube Rendeiros do Recôncavo, que era junto à casa da minha noiva - a primeira mulher que eu tive -, e lá nós é quem dávamos toda alimentação para ele. Depois o próprio Héreles Machado ainda socorreu ele, porque conseguiu Héreles Machado, deputado federal, conseguiu botar ele como escrivão em Brasília, escrivão de polícia em Brasília, e lá nos consta que ele foi assassinado dentro da delegacia, essa é mais ou menos a minha história, até a minha juventude.

INGRESSO NA PETROBRAS

A história do meu ingresso na Petrobras é até um pouco engraçada. Eu tinha um grande amigo, que era sargento-alfaiate da polícia e morava perto de mim lá no Uruguai; certo dia, eu chegando na casa dele, ele me perguntou: “Você quer ir trabalhar na Petrobras?” Eu olhei para ele com uma fisionomia de desprezo. Ele virou-se para mim e disse:  “Está duvidando de mim?” Eu disse: “Estou sim, quem é você para me botar na Petrobras?” E por intermédio dele, ele era alfaiate de um chefe de segurança da Petrobras, sobrenome Padula - uma boa para estudar essa história, Padula convivia com uma mulher, mãe do chefe de serviço pessoal da Petrobras. Então acertaram, eu fiz o teste, passei e aí fui aproveitado no dia 1º de agosto de 1959, vim para Candeias para trabalhar como apontador. Nós fazíamos o ponto dos trabalhadores.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Depois eu passei para outros serviços - encarregado de embarcações de férias -, e aí, depois de muito barulho, porque a vida sindical fez com que muitos chefes de campo não gostassem de mim, tinham medo de mim, porque eu era do movimento do sindicato e eu sofri uma perseguição muito séria do chefe do Distrito Norte, dr. Silvan, e com isso me aborreci e já tinha tempo; já tinha 20 anos de alfaiataria, mais 19 anos de Petrobras e pouco, eu disse: “Sabe de uma coisa, eu vou pedir minhas contas na Petrobras”. E fiz um acordo.

RELAÇÕES DE TRABALHO

Quando nós chegamos para a Petrobras, o trabalho ainda era muito rude, muito bruto, ainda havia muita perseguição. E então tinha um grupo de pessoas, entre as quais está Wilton Valença, que resolveram fazer um movimento para assumir um sindicato de petróleo. Quando assumiram o sindicato de petróleo foi que a coisa se modificou na Petrobras. Por exemplo, os trabalhadores da Petrobras que viviam em Salvador, eles tinham um alojamento lá em Candeias, e naquele tempo não tínhamos estrada como temos hoje; o transporte era feito de trem. A pessoa saía para trabalhar de trem às 18h da estação de Calçada, vinha para Candeias trabalhar, e o trem retornava no outro dia pela manhã, às 6h da manhã. Mas acontece que esses trabalhadores trabalhavam até às 7h, 8h, e não dava tempo de pegar o trem, então construíram-se esses alojamentos. Foram feitos em Candeias três alojamentos para pessoal e um alojamento intermediário; o alojamento pessoal alojava os peões e, o intermediário, os técnicos e chefes de serviços. Era uma época em que o transporte desses trabalhadores era ou eles irem de pé ou então iam de carro de boi. Depois veio a história de botar caminhões-caçamba - os trabalhadores viajavam sentados na carroceria do carro, ou então de pé um com a mão no ombro do outro para segurar. A situação foi se modificando, começou-se também a botar transporte em caminhões para Salvador, levava a turma de tarde e trazia pela manhã. Aí veio uma coisa pitoresca, um companheiro nosso de sindicato, numa certa reunião, nós estávamos discutindo, e ele zangado: “Esses maloqueiros!” Então botou apelido em nós na época maloqueiro, com o decorrer do tempo foi que vieram esses ônibus, a coisa já melhorou um pouco. Os trabalhadores daquela época trabalhavam com muito amor, muita dedicação. Eu me lembro de fatos, como eu me lembro por exemplo, de um túnel de perfuração e o mestre Zé Bispo - apelidado por mestre Zezinho. As pessoas chegavam numa área onde ele estava, com a furadeira, furando, dava gosto de ver a organização, tudo bem asseado, tudo bem arrumado, e por muitas vezes eu indo na sonda, fazendo ponto, por umas duas vezes, eu encontrei esse Zezinho chorando. Ele já era de uma certa idade, eu fui e perguntei: “Senhor Zezinho, o senhor está sentindo alguma coisa?” Ele me respondeu: “Não é possível, Moby Dick -  meu apelido era Moby Dick, a baleia -, tanto trabalho, tanto sacrifício, tanto dinheiro gasto, tanta luta desses meus auxiliares, e agora o poço deu seco”. O poço não dava óleo, o poço deu seco. Eu ficava penalizado com aquilo, mas aquilo era uma demonstração do amor dele, que ele tinha pela causa petróleo. Bem, nessa história do petróleo ainda nós temos aí elementos de muita recordação minha, como Antônio Aníbal Fracasse, mestre Agostinho, mestre Jonas, Edmundo Cão, que chamavam ele de Mundo Cão, Benfica, homens de uma história deslumbrante.

SEGURANÇA DO TRABALHO

Vocês não sabem, em 1990, quando ocorreu aquele incêndio de Mapele, a Petrobrás gastou fortunas, importou até técnicos dos Estados Unidos para apagar o fogo - e não conseguiram. A experiência, a dedicação do trabalhador, do peão, foram eles que tiveram a idéia de dizer: “Bom, agora vamos cavar um túnel, levar até a boca do poço, e lá nós vamos botar o poço com água para ir se apagando.” Isso foi feito, e apagaram o fogo assim, os trabalhadores baianos. Fizeram um túnel por baixo da terra até a boca do poço e apagaram o fogo, isso lá em Mapele, o incêndio de Mapele em 1990.

RELAÇÕES DE TRABALHO

Naquela época nós não tínhamos guindastes, nada disso. Aqueles pesado materiais eram conduzidos ou em carro de boi ou então no ombro dos operários; a comida era levada em uma caixa, e o próprio cozinheiro e o ajudante de cozinha iam levar - às vezes, parece graça, mas é verdade, às vezes atravessando lamaçal, com lama quase no pescoço e a caixa na cabeça. Recordo-me também que certa feita, em Maracangalha - essa Maracangalha tão cantada por Dorival Caimmy, é uma localidade, perto de Candeias. A estrada não dava acesso a carros, e estavam fazendo um serviço de sondagem e pensando como é que iam mandar os trabalhadores. Então o engenheiro Silva Carneiro teve uma idéia e pediu emprestado a Alécio o tróler. Alécio emprestou o tróler; agora precisava ver quem é que ia conduzir o tróler. Ele perguntou para o chefe de transporte se não tinha alguém que soubesse conduzir o tróler. O chefe do transporte era Pedro Silva; disse: “Eu vou ver aí e depois lhe respondo”. Então encontrou mais dois abnegados, Eraldo Sabiá e Firmino Motorneiro, eles passaram um dia a pela manhã levar a turma que ia entrar e trazer a que ia deixar o trabalho, e à noite a levar a turma que entra à noite e trazer a turma que arriava à noite, isso no tróler. O tróler eram uns vagões abertos, sem segurança nenhuma, uns vagões abertos que carregavam cargas. Eles eram conduzidos aí e assim sucessivamente. Uma história muito bonita.

ENTREVISTA

Eu só lamento uma coisa, esse trabalho que vocês estão fazendo agora não ter sido feito há mais tempo, chamando pessoas mesmo, que viveram a história desde o tempo do Conselho Nacional do Petróleo, que estavam vivas e poderiam contar ela muito bem contada, Enail, não sei se está vivo. O Antonielli, foi o empregado número 1 da Petrobrás, não sei se está vivo ainda; Aníbal Fracassi, que morreu; o mestre Agostinho está vivo, mas está mais velho do que eu, aí com seus 80 anos; mestre Jonas morreu; temos ainda vivo o Edmundo Cão; Gilberto Fonseca morreu - esses eram os homens que sabiam mesmo a história a fundo. Eu sei dela assim detalhadamente, é, mesmo porque a história de quando começou o petróleo, porque eu ia ver, eu acompanhava, eu morava no Uruguai, o Uruguai é distante do Lobato, nós íamos pescar, íamos ver esse movimento, então conheço bem o princípio da coisa como foi.

SINDICATO

STIEP/SINDIPETRO/SUP/SINDICATO DOS QUÍMICOS E PETROLEIROS DA BAHIA

FUNDAÇÃO

O sindicato, olha, o sindicato, antes de eu entrar para a Petrobras, em 1950/52, eu era domiciliado também em Candeias e eu tinha um cunhado que era petroleiro e sempre conversava com ele a respeito do movimento sindical. Tinha também um outro amigo - eu tenho uma foto aí com ele -, o Andrezinho, conversávamos também muito, a respeito de sindicatos. Como começou o sindicato? Em Candeias, um grupo de companheiros nossos - André Apóstolo, Cristiano Joaquim de Jesus, Anísio Araújo, está vivo ainda, o Cristiano é morto, Manuel Bonfim, Álvaro Bulcão, Mário de Santana, Sinésio Pereira dos Santos, o André Apóstolo da Silva -, eles diariamente, depois da bóia do meio-dia, eles se reuniam às escondidas na frente do depósito de materiais lá na Pitinga de baixo, lá em Candeias, com a intenção de criar uma entidade para defender os direitos deles. Era uma época, eles diziam, que dava o vale do trabalhador até uma caixa de fósforo; se reclamava mandava embora. Então surgiu assim essa idéia, e eles iam conduzindo as reuniões nesse sentido, até que em 1954, no dia 17 de outubro, eles se reuniram em Candeias, na sede de um clube chamado Ideal, e aí resolveram formar uma associação. Escolheram uma diretoria provisória, acertaram alguns pormenores e marcaram logo de imediato uma reunião para o dia 27 de outubro. Fizeram essa reunião, aí criaram uma diretoria provisória, Brisciano Joaquim dos Santos. Primeiro foi Associação Profissional dos Trabalhadores da Indústria de Petróleo, depois que recebemos, antes de recebermos a carta sindical, colocamos o nome de Associação para o Sindicato, aí criou-se o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Extração de Petróleo. Essa criação, em 26 de novembro de 1957, Percival Barroso expediu a carta sindical nossa, aí ficou prevalecendo Sindicato dos Trabalhadores da Extração de Petróleo do Estado da Bahia. Tinha também na época o Sindipetro, que era o sindicato dos trabalhadores do refino. E quando nós criamos o sindicato nosso, participaram também da criação, Carnaúba, que era do refino, mas na época a lei não dava direito a se fazer o sindicato de refino junto, porque refinaria era uma atividade de petróleo, como é até hoje, e extração é outra atividade, então ficaram criados dois sindicatos. Mais tarde, veio também - tenho escrito aí - a união do Stiep com o Sindipetro. Criamos essa unificação, ficou Sindicato Único dos Trabalhadores de Petróleo, mas isso ainda não foi suficiente, devido a essa política que está aí. Nós achávamos que nós deveríamos criar o sindicato do ramo de petróleo, aí foi que veio a unificação  nossa com o Sindiquímica, e transformamos o sindicato em Sindicato Químico/Petroleiro.

SINDICATO

STIEP/SINDIPETRO/SUP/SINDICATO DOS QUÍMICOS E PETROLEIROS DA BAHIA

DIRETORIA

Por alguns anos eu procurei disputar a eleição, mas perdemos todas as eleições. Em 1966, após o golpe de 64, foi eleita, depois de muitas intervenções, a primeira diretoria com a revolução, e nessa primeira diretoria eu virei segundo secretário, mas o primeiro secretário, por razões que nós desconhecemos, ou melhor, que nós conhecemos mas não queremos falar, ele desistiu de ficar no sindicato. Eu então assumi a secretaria, uma época muito trabalhosa, vivemos muitas decepções, mas foi uma época em que era presidente da Petrobras o Inácio de Carvalho, e o secretário dele era o general Barros Nunes.

RELAÇÕES DE TRABALHO

Nós vínhamos de Salvador para tratar os assuntos da Petrobras; não chegávamos à Presidência antes de passar pelo Serviço de Informações. O Serviço de Informações não nos procurava para saber diretamente o nós viemos tratar, mas faziam a pesquisa. Depois que eles viam mais ou menos qual era a nossa intenção, éramos liberados. Agora, contávamos, a bem da verdade, com a grande colaboração do general Barros Nunes e também de um assistente administrativo da época, Laércio Leal, que era secretário do Sindipetro do Rio de Janeiro. Vou contar aqui um fato importante. Nós estávamos numa época de acordo coletivo de trabalho e já tínhamos mais de cinco semanas andando pela Petrobras; a Petrobras prometendo dar o índice de reajuste e não havia meio de cumprir com a palavra deles, dela. Laércio Leal, numa tarde, chegamos ao general Barros Nunes e conversamos com ele a situação. Era ministro da Guerra o General Lott. Na mesma hora Barros Nunes ligou para o Ministério da Guerra e falou com Lott; disse: “Olha, vão aí uns dirigentes sindicais ter uma conversa com você, que há mais de semana que eles estão vindo para o Rio para haver uma decisão do percentual de aumento deles.” Nós chegamos no Ministério da Guerra umas seis e meia da noite; quando nós chegamos, um dos assistentes do Marechal Lott disse: “Vocês vão entrar, e nós vamos conversar por 10 minutos só, está na hora do marechal ir embora”. Nós entramos, conversamos com ele, e ele então garantiu que nós voltássemos e que naquela mesma noite ele daria o aviso para nós de quanto seria o percentual de aumento e nos disse: “Por favor, quando vocês chegarem nas suas bases, não digam que fui eu, porque eu não quero contrariar o Inácio de Carvalho”. Mas quando foi 11 e meia da noite, ele telefonou para Nei, que era o presidente do Sindicato de Cubatão, e deu o percentual. Então foi uma ajuda muito grande. Nós, por exemplo, naquela época, não temos que nos queixar dos homens que estavam à frente da Petrobras por força de uma revolução, de um golpe. Sempre fomos bem tratados, bem atendidos, conquistamos ainda, tivemos muitas conquistas – como, para a Bahia mesmo, tivemos a conquista do pagamento da dobradinha, que todos os Estados que tinha petróleo pagavam a dobradinha O que era a dobradinha? Domingos e feriados trabalhados, nós ganhávamos em dobro, não folgava, mas ganhava em dobro. E outras conquistas também de menos relevância, mas tudo isso na época da revolução. Com o golpe acabaram com o nosso sindicato.

SINDICATO

STIEP/SINDIPETRO/SUP/SINDICATO DOS QUÍMICOS E PETROLEIROS DA BAHIA

INTERVENÇÃO

Eu tenho um arrependimento grande hoje, que lá em Candeias a primeira sede do Sindicato de Candeias foi na praça Gualberto Dantas Fontes, a porta da delegacia foi arrombada a tiro de fuzil e metralhadora, na época ainda consegui achar duas cápsulas que explodiram e tinha guardadas, mas não esperava chegar a este auge que nós chegamos e eu botei fora, mas tenho um arrependimento porque fiz isso. De forma que essa foi mais ou menos a nossa luta. Tem muitos fatos, mas não me recordo, fiz um esforço danado, você sabe, 79 anos de idade, o pessoal se admira no sindicato de mim, me tem um respeito, consideração, toda diretoria, eu fico até às vezes escabriado pelas apresentações que eles me fazem às autoridades. Então lutamos muito, eu hoje estou satisfeito, satisfeito mesmo, continuo firme no sindicato, eu sou o coordenador do departamento de aposentados.

TRAJETÓRIA SINDICAL

Eu estou no sindicato desde a hora que eu entrei na Petrobras, desde 1959. Eu acompanhei o sindicato desde a época da associação, mas nesta época eu ainda não era empregado da Petrobras, só vim me empregar na Petrobras cinco anos depois - e não me empreguei antes porque na época o trabalho era um trabalho braçal, um trabalho muito rude, e o Paes Barreto, que era o chefe de obras da Refinaria Landulfo Alves, por várias vezes disse que não me aceitava porque eu não  tinha condição física, eu era magro. Uma época, quando o chefe pessoal da região - por acaso eu não consegui me engajar, mas nunca perdi a esperança de um dia a casa cai, caiu mesmo. Aí eu ingressei nela e aí comecei a trabalhar com muita dedicação. Sofri um pouco, porque quando eu entrei para a Petrobras, o chefe de campo era o engenheiro Manuel Marcino Borborema, e ele reconheceu que eu estava fazendo um trabalho muito bom, que por sinal eu fui estagiar com um companheiro nosso que é vivo até hoje, Gilson Aibere Borges, e Gilson me deu todas as coordenadas, me ensinou o que era o trabalho, como é que eu devia proceder.

RELAÇÕES DE TRABALHO

Eu era um apontador. Due dificilmente eu cortava o dia de um empregado - o empregado faltava dois, três, quatro, cinco dias, eu não fazia como os outros,  que pegavam e cortavam, faziam a comunicação; eu aguardava ele chegar, quando ele chegava conversávamos, se eu visse que o caso tinha jeito eu levava ao encarregado dele para tomar as medidas necessárias. Por sinal o único dia que eu cortei foi do superintendente da região de produção da Bahia, doutor Amilton de Jesus Lopes. Na hora da saída dos carros eu não vi chegando o carro. Ele estava trabalhando no estádio, e não vi. Nós costumávamos, mesmo a pé, depois de irmos ao local de trabalho, andávamos alguns quilômetros a pé; era doloroso sair dali da área de Candeias para ir para Roça Grande e para Pitinga, era andar muito. E eu fui lá no local onde ele deveria estar; não encontrei o superintendente: “Vou comunicar a falta dele”. E comuniquei a falta dele. No dia seguinte, quando ele chegou para o trabalho, já estava no caminhão, eu cheguei  com o ponto, anotando - que nós tínhamos que ter capacidade de conhecer a pessoa e saber o nome para pegar no livro e ir marcando - e quando ele: “Apontador, eu estou aqui”. Foi o único dia que eu cortei e comuniquei. Foi de Amilton Lopes, e de fato isso deu um problema muito sério, naquela época nem todos ganhavam periculosidade. Se você trabalhava num setor e depois ia fazer um trabalho num setor que era considerado perigoso, nós apontávamos, fazia um ponto de lápis vermelho para saber que trabalhou em área periculosa. Eu cheguei num certo período, e um apontador doente e o outro folgando, me pediram então para acumular o trabalho e fazer o ponto também do pessoal das oficinas. Três dias consecutivos eu fui à oficina e não encontrei o soldador José dos Reis Bispo -  não, José Brito Santana; Reis Bispo era o Zezinho -, mas como eu disse, eu não gostava de cortar o dia. Quando chegou no quarto dia eu cheguei no local; ele estava, tinha aberto o ponto e disse: “O que é que é isso, o ponto, por que é que está em branco?”. Eu disse: “Eu não o vi aqui no trabalho”. Ele, em vez de ajudar, disse: “Você devia ter procurado o encarregado, porque nesse período eu estava em Madre de Deus, não em Ilha de Maré, trabalhando no lugar do sondador. “E qual é o sondador, Valmir?” “Não Valmir não. Valmir saiu para fazer Carnaval em Recife, acertou com Magalhães [que era o chefe da sonda] e contratou um sondador que estava de férias lá em Madre de Deus, este sondador foi pegar a lancha para ir para Ilha de Maré, caiu da lancha embaixo, se feriu, quase morre, quem socorreu ele foi João Fernando Maciel”. Eu: “Não estou sabendo dessa história”. “Mas está sabendo agora”. Ora, era uma história que se eu não levasse ao conhecimento da chefia de campo, eles iriam saber, e quem iria sofrer as conseqüências era eu. Então fiz a comunicação. O chefe da sonda era Magalhães. Ele só não foi posto para fora da Petrobras porque Ivan de Carvalho era o superintendente da região e era parente dele, levou um  bocado de tempo diferente comigo, mas depois ficou numa boa, viu que eu tinha razão. Um outro fato era um bombeador, com nome de José Ferreira da Mota. Esse rapaz me faltou ao serviço 29 dias, e eu não comuniquei ele. Quando ele voltou para o trabalho, eu fui conversar com ele, ele virou-se e: “Ah! Rapaz, eu estava por aí”. Eu procurei José Fidelis, que era o chefe dele, historiei para José Fidelis o que estava acontecendo; José Fidelis disse: “Sinésio, vamos apontar o dia desse pobre, chefe de família, gosta de andar de cara encharcada, esse homem pode tomar uma demissão por justa causa e ficar arruinado na vida, pode apontar o dia dele que eu cobro as folgas dele depois.” Eu apontei, chegou ao conhecimento da chefia, a chefia então procurou se organizar para me dar uma punição, punição era essa que podia ser até a minha demissão. Quando José Fidelis soube do caso, procurou o doutor Borborena - não, já era Jaime Otávio nessa época, procurou Jaime Otávio e falou: “Olha, Jaime, se vocês tiverem de demitir alguém por causa do caso de Josué, demitam a mim, mas o Sinésio não, porque fui eu quem mandei apontar o dia”. Foi o que salvou a situação, estes homens - José Fidelis, Palma, Lourival da Costa Santos, Guilherme Perreira dos Santos -, esse pessoal, foram essas pessoas que ensinaram na prática esses grandes engenheiros da Petrobras a trabalhar. Tinha elementos como um sondador por nome Álvaro Rocha, esse rapaz não sabia fazer um o com o copo, mas preparou muita gente ali para - lembro-me até de um caso também, um caso interessante com ele. Bebia muito, o apelido dele era Neganua, eu dormia numa cama e passava a outra a ele, e os carros, quando iam sair da área, a sirene tocava para dar o aviso de que estava na hora do embarque.  Certa noite ele estava dormindo, eu acordei e disse: “Álvaro, está na hora, rapaz”. Ele se levantou, vestiu as calças, apanhou a bota, calçou a meia, quando vestiu a bota, que botou o pé assim no armário para amarrar, o apito soou. Aí tinha uma brincadeira: “leva o carro”! “Levo”. Aí caiu , dormiu e não foi trabalhar, mas finalmente, Zezinho era – puxa, também, era elemento que não fazia mal a ninguém, mandou que apontasse o dia dele, são esses fatos, são muitos fatos pitorescos.

GREVE (1990)

Entre as lutas mais marcantes do Sindicato na Bahia está a greve de 1990. Essa greve, nós começamos com ela por causa da situação de salário, e não havia meio da Petrobras defender. Aí houve um  movimento em Catu, onde até um determinado número de operários - estão até respondendo esse processo agora -, dizem que cortaram as correias das máquinas quando tinha aquele cavalo mecânico, que existia para paralisar o trabalho, e denunciaram esses rapazes. Esses rapazes foram demitidos, foi feito um inquérito policial; o caso foi passado para a Procuradoria Geral do Estado, mas a luta do sindicato pela readmissão deles finalmente se concretizou, e nós conseguimos agora a anistia deles. Tem ainda um processo na Justiça, ia ter uma audiência no dia 28 agora passado, mas eles foram orientados pelo nosso Jurídico, que nenhum deles botasse a cara na tela para não ser encontrado e ter que tomar nota da notificação da audiência. Isso eles fizeram; a audiência foi prorrogada, não sei do resultado dela.

SINDICATO

STIEP/SINDIPETRO/SUP/SINDICATO DOS QUÍMICOS E PETROLEIROS DA BAHIA

FATOS MARCANTES

Um fato também que foi importantíssimo é que, quando nós unificamos o SUP, o Stiep com o Sindipetro, tinha uma corrente diferente, como tem até hoje, e essa corrente resolveu acabar com toda a auferição nossa, acabar com tudo. Alta madrugada eles chegaram na sede do sindicato, ali no Jardim Baiano, arrombaram a porta do gabinete médico, tiraram todo material médico, esconderam, roubaram carro do sindicato. Nós demos em cima, descobrimos quem foram os autores, mas por questões do sindicato a coisa se acalmou ali dentro entre nós mesmos, isso foram as coisas de mais importância, de mais relevo que se passou, mas são coisas tolas, são rusgas que não levam a canto nenhum e ainda existem até hoje. Desde quando me aposentei continuo no sindicato. Eu era do Stiep, depois unificamos, SUP, e agora estamos unificados com o Sindiquímica, que é o Sindicato Único dos Petroleiros. Hoje eu sou o coordenador do departamento de aposentados, porque hoje o regime sindical nosso é o estilo parlamentarista - o sindicato é distribuído  por departamento, cada departamento tem o seu coordenador. O coordenador tem o livre arbítrio de fazer determinadas coisas, mas quando é assunto que envolve dinheiro e outras despesas, nós não podemos fazer sem que haja autorização da executiva ou da diretoria plena. O sindicato hoje ele é composto por  90 diretores, sendo 45 da base petroleira e 45 da base petroquímica. Desses 90, 45 são executivos e 45 plenos - tem um detalhe também, um outro detalhe é que tínhamos uma coordenação, era o Bassuma, que hoje é deputado federal. Bassuma contou a história dele, na greve de 90 ele era o chefe do serviço de gás, da estação de gás de Catu, e na hora da greve a chefia do Distrito queria botar para substituir os grevistas lá no Sergás, como era chamado o órgão, trabalhadores terceirizados. Bassuma disse para o chefe de Distrito: “Comigo aqui na chefia, não vou consentir terceirizar pessoal para trabalhar porque trata-se de uma atividade perigosa, não vou botar em risco o material da empresa e a vida deles  próprios”. Com isso, o chefe do Distrito dispensou ele do trabalho; ele o que fez? Saiu e veio se aliar a nós petroleiros, aí se elegeu na primeira eleição dirigente coordenador do sindicato. Quando ele entrou para coordenação do sindicato, nós tínhamos uma ação da PL de 83, que veio do tempo de Alberto Sampaio, outro diretor. Essa PL de 83, aproximada, do tempo de doutor José Martins Catarino, ele vinha recebendo mensalmente cinco mil reais - cinco mil cruzeiros, depois reais - para acompanhar o processo. Bassuma olhou e disse: “Isso não está correto”. Aí consultou o nosso departamento jurídico, o departamento jurídico disse: “Não pode, porque essas questões trabalhistas são questões de risco; e depois, o sindicato nada tem a ver com isso porque quando essa questão foi ingressa na Justiça o sindicato não representava ainda os trabalhadores.” Então o que fez Alberto Sampaio? Chamou os reclamantes, tomou procuração e encaminhou pra José Catarino: “Pode cortar o pagamento dele”. Aí cortou, essa questão vem rolando desde 83, agora a Petrobras recorre daqui, recorre dali, não há mais recurso, o único recurso que pode vir daí é ela completar o cálculo. José Catarino arranjou um perito para fazer os cálculos, o perito começou a fazer os cálculos e depois disse que queria 300 mil reais do sindicato, nós tornamos a consultar o nosso Jurídico, e o nosso Jurídico fez ver que não era possível isso que ele queria, porque aí essa questão quem vai determinar qual é o valor do perito é a própria Justiça. Quando a pensão fosse paga, é X para o sindicato, é X para o trabalhador, é X para o perito. Ele aí abandonou a questão, nós arranjamos outro perito, por várias vezes nós fomos a José Catarino procurar saber: “Bom, ele quer 300 mil reais, quanto é que vai sair para cada reclamante?” “Ah, não sei”. O sindicato perguntou para ele: “Como é que nós vamos chamar os trabalhadores para pedir a eles que dêem uma determinada quantia para pagar a PL se nós não sabemos quanto eles vão receber?” Então a coisa está nesse impasse, agora que nós vamos convocar uma reunião para o dia 26 agora para chamar José Catarino para pôr o prato, pôr a coisa a limpo, passar a coisa a limpo.

TRABALHO

Diariamente eu atuo no sindicato - de segunda a segunda, é o que nós fazemos. E nos finais de semana... Sábado nós fazemos visitas àqueles companheiros que não são sindicalizados, visitamos pontos onde eles se reúnem  para conversar com eles. Nós vamos a campos de futebol - na Bahia nós temos o Bárbaro Lasca, em que se reúnem ali mais de 200 aposentados -, vamos por sete clubes, e isso nos tem trazido um resultado satisfatório, porque nós estamos fazendo cada vez mais crescer o número de associados

CASAMENTO

A minha mulher mora comigo em Salvador, mas eu não fico mais; ela se acostumou.

 

FAMÍLIA

Também eu tenho um filho que é escrivão da Justiça comum, hoje em dia trabalha com um desembargador. Tenho uma outra filha que tem uma escola, tem um outro filho que é soldado de polícia, tenho um que estava numa boa carreira na Marinha, mas por questão de paixão por mulher abandonou a Marinha. Eu tenho oito filhos, estou dando risada porque esse que abandonou a Marinha, ele é, como diz esse menino aí do programa, essa semana ele é CA, corno anônimo. Eu tenho uma filha, essa também é professora, ela leciona na Prefeitura de Candeias, trabalha no Juizado de Menores, trabalha com menor de rua, trabalha muito, e o salário não chega a 400 reais, eu é que como aposentado estou sempre desembolsando o que eu não tenho, que eu não tenho um vintém no bolso, e a coisa que eu mais sinto na minha vida é quando um filho meu pede uma coisa e eu não tenho para atender.

Eu tenho oito netos. Olha, eu tenho um neto desse meu filho, aquele eu nunca vi, vou contar aqui dois casos, o menino é violento, violento mesmo, ele não atende ninguém, ninguém mesmo, é uma dificuldade, agora que ele está tomando medo do pai. Certa feita ele estava pintando, brigando com a mãe dele. A mãe dele fala: “Rafael!” E ele continua pintando. E ela chamando: “Rafael”. Da última vez, quando ela chama “Rafael!”, ele responde: “Consultório 4”. Quando ela vai ao médico, o médico se chama Rafael, consultório 4.

SONHO

O sonho que eu tenho para  realizar é um dia na Glória me encontrar com Cristo, esse é meu único sonho, eu não penso mais em nada para mim, agora o grande sonho que eu tenho mesmo comigo era que Deus me desse uma sorte na vida para eu ajudar essa pobreza que anda por aí. Isso me constrange, me dói, eu sempre digo a meus filhos: “Talvez Deus não me dê essa sorte, porque se eu tivesse dinheiro, fosse o homem mais miserável da Terra”. Esse é o único sonho que eu tenho. Agora, eu gosto de ajudar e continuo ajudando todo mundo.

ENTREVISTA

Para mim, eu vou dizer uma palavra que vocês vão entender, foi um galardão, ou seja, uma honra muito grande mesmo. Agora, repito o que eu disse no princípio, só tenho um sentimento, é de só agora isso estar sendo feito, mas é um trabalho maravilhoso, que eu sei que vai ter uma grande repercussão no meio petroleiro, principalmente no meio dos aposentados.

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