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Sol de primavera

História de: Vó Maria
Autor: Andreia Suli
Publicado em: 14/01/2016

Sinopse

Perder a mãe ainda na infância. Casar por obrigação, sem amor. Ter oito filhos e quase nenhuma condição financeira para criá-los. Comer restos de comida. Dormir no chão. Perder uma filha. Mas, ainda assim, ser forte, dar a volta por cima e ter uma história de amor para contar... Esta é Maria, minha avó, dona de muitas Primaveras que compartilho por meio desta história.

 

***Esta história faz parte do livro e coleção Quase Canções, feito no 25º aniversário do Museu, mostrando que as histórias de nosso acervo também poderiam ser temas de grandes canções.***

 

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História completa

Certa vez ouvi dizer que as árvores perdem suas folhas e flores no outono/inverno a fim de manterem ao menos sua essência durante a escassez e agressividade do tempo, para que possam depois reflorescer na primavera. As pessoas também podem ser assim. A esta energia de ressurgir das cinzas alguns chamam Coragem, outros de Força, há ainda os que chamem de Resiliência. Eu chamo de Vó Maria...

Nascida em 1929, no interior de Minas Gerais, Maria Aparecida Alves, minha avó, perdera a mãe muito cedo e, como acontecia naquela época, foi introduzida ao trabalho da roça, sendo as foices e enxadas seus brinquedos de infância. Além disso, não frequentou a escola, porque, como acreditava meu bisavô “mulher não precisava aprender para não escrever bobagens para homens.” Assim, adormeceu em si o sonho de escrever o próprio nome.

Entre muitas mudanças de cidade e até de estados, trabalhos forçados e tratamento frio, Vó Maria chegou à adolescência e seu pai não pensou muito em arranjar-lhe casamento. Mesmo sem amor, casou-se e logo vieram os filhos – oito -, e também os aborrecimentos de um casamento infeliz, com um homem alcóolatra e rude, que a destratava, que não lhe provia do necessário, que agredia a ela e aos filhos, que saia para festas e a deixava em casa na pobreza. E Vó Maria, mulher forte, carregou todos os fardos com muita determinação. Talvez seja por isto que hoje seus joelhos doam tanto!

Apesar de todas as dificuldades, não se deixou abater: viveu por seus filhos, tendo-os sempre debaixo de suas asas. Garantiu que eles fossem à escola- inclusive suas meninas- e, mesmo em extrema pobreza, cuidava de lavar as poucas roupas que possuíam e secá-las todas as noites com o ferro a brasa para que no outro dia tivessem roupas limpas para estudar.

Deu o melhor de si para seus filhos: ensinou-lhes a serem fortes. Nos campos do interior de São Paulo e do Paraná suportou vê-los comer o alimento destinado aos porcos para não passarem fome.

Tolerou todas as investidas violentas do marido sobre si para aliviar as surras dos filhos. Agregou-se com eles no chão batido porque não tinham colchões para dormir.

Foi encorajadora ao permitir que seus meninos fizessem “carretos” na feira livre em troca de moedas e ainda esperassem o fim da feira para levar os restos de legumes, frutas e verduras para casa.

Com os filhos criados, morando na capital de São Paulo, viveu outro golpe: um deles foi preso. Pouco tempo depois, sua filha mais velha morreu aos 25 anos em um trágico acidente. Neste funeral, duas imagens dilaceraram Vó Maria: o caixão lacrado de sua jovem filha e seu filho algemado entre policiais, em uma licença concedida pela prisão para a ocasião. Duas dores juntas. E seu coração, já tão cheio de cicatrizes, bordou ainda mais estas.

As constantes humilhações em seu casamento só pararam em meados dos anos 1980 quando seu esposo, após uma briga fora de casa, fugiu. Ainda assim, considerando seu compromisso com o matrimônio, o procurou para que voltasse. Ele não quis. Nunca mais voltou e, a partir de então, passou a ser uma mulher separada. Estava livre das agressões e do jugo que suportou por 37 anos.

Aos poucos, passou a frequentar bailes, arranjou alguns namoros, mas algo dentro de si dizia que aquela não era a Maria. Queria um desfecho diferente.

Então, como em um conto de fadas, em 1990, sexagenária, conheceu um homem simples e sofrido, que encontrou na Vó Maria a fortaleza que tanto procurara. Foi amor à primeira vista: em pouco tempo juntaram-se para uma vida de muito companheirismo. Anos depois, se mudaram para o interior, casaram-se como manda o figurino, e juntos, desfrutaram de alegrias e conquistas até que, em janeiro de 2014, inesperadamente, ele fechou os olhos para o mundo.

Mais uma vez, Vó Maria se viu sozinha, sem sua alegria, sem seu esteio, sem sua força. Viveu seu luto, sentiu a tristeza profunda da perda de um grande amor.

Nos vinte e quatro anos que compartilharam minha avó viveu seu auge: foi nessa fase que ela aprendeu a andar de bicicleta. Foi nessa fase que conquistou sua casa própria e renovou a mobília. Foi nessa fase que encontrou prazer na pescaria. Foi nessa fase que passou a frequentar a escola à noite para aprender a ler e escrever e que só abandonou por amor, porque não queria deixar seu “Bem” (apelido carinhoso com o qual ela o chamava) sozinho em casa à noite.

Viajaram juntos, andaram juntos “sempre de mãos dadas”, ela faz questão de lembrar, dizendo que ele sim foi seu namorado, reforçando em seu discurso o quão feliz fora com ele.

Agora estamos no início de setembro de 2015, época do reflorescer, do ressurgir das cores. No próximo dia 18 deste mês Vó Maria completará 86 primaveras, literalmente. E, na semana em que redijo este conto, sua vida deu os primeiros sinais de flores após um inverno rigoroso: novamente, reunindo sua coragem e garra, voltou aos bancos escolares para continuar seus estudos. Está frequentando o clube da terceira idade onde tem se divertido e até jogado vôlei.

Esta mulher que bordou em um lençol o nome de todos os 22 netos e 25 bisnetos e o exibe com orgulho na parede da sala, cuja casa cheira pão que ela mesma amassa e assa em forno de barro, que não se dobra às suas artrites e artroses, que já assistiu a tantas primaveras, suas e nossas, não pensa em desistir. Uma mulher de grande memória que é capaz de gargalhar de coisas que aconteceram há cinquenta anos como se tivessem acontecido ontem. Que carrega o melhor da vida em sua bagagem. Que consegue sentar e brincar com os bisnetos mais novos. Que inventa receitas. Que vai à igreja. Que renasce a cada instante.

Esta mulher é Maria, minha avó, que ama a vida porque sabe que ela é única, nem curta nem longa demais, apenas a sua maior riqueza.

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