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História

Sobrevivência honrosa

História de: Maria Holanda Lopes Carvalho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/11/2021

Sinopse

Maria Holanda recorda de sua cidade natal, no vale do Cariri cearense, e do sítio onde nasceu. Diz que sua mãe, embora semianalfabeta, sempre de muito valor à educação. Lembra das escolas em que estudou e dos castigos com a palmatória, então em uso. Conta como seu deu sua mudança para Brasília, onde trabalhou com professora. Integrou a Associação dos Professores do Distrito Federal, que deu origem ao SINPRO-DF, e participou da greve de 1979, a primeira da história do sindicato. A partir daí construiu uma história de militância que perdura até hoje, malgrado as dificuldades de mobilização dos professores em razão das restrições sanitárias provocadas pela pandemia da Covid-19.

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História completa

A minha mãe, apesar de ser semianalfabeta, dava muito valor à educação. Então nós estudávamos numa escola pública, mas quando nós tínhamos condições ela nos colocava numa escola particular, para que nos preparássemos para ir para escola: nós já íamos mais ou menos prontas para escola. É como se hoje a pessoa [colocasse] uma pessoa na sua casa para preparar o dever do seu filho. As aulas nessa época tinham palmatória, tinha sabatina, a professora fazia aquela fila de alunos para as aulas de matemática: se ela perguntasse dois mais dois, respondia; se ela perguntasse três mais quatro e o aluno não sabia, ela perguntava ao da frente, não sabia perguntava ao outro, aquele que respondesse saía dando bolo. Chamava bolo, bolo de palmatória, do primeiro até o último antes dele. Era duro. Quem não aguentava saia da escola, mas quem ficava aprendia. Éramos bastante pobres. Minha mãe sempre falava: tem que estudar e tem que viver em local legal, que é para ser legal, tem que viver no meio de pessoas de respeito para ser respeitado e ter respeito. A minha irmã veio para Brasília, passou muita necessidade em Brasília. Ela falou: eu não mando nunca falar para minha família como é que eu vivo aqui. Então ela começou a trabalhar, ia para feira do Guará, ajudava nas bancas de feira, até ela conseguir comprar uma banca. E eu vim porque lá a gente não tinha como sobreviver e ela chamou para vir para cá. A nossa família é assim: se um tiver, tem que dividir com todos os outros; se um perder, todos os outros perdem. É uma coisa muito bonita; pode ser até ruim, mas é bonita. Eu era diretora do sindicato, [mas] nessa época eu nunca quis ser direção de nada, nem de escola. Eu acho que direção fica muito preso ao sistema, e eu sempre quis ser uma militante. Mesmo na diretoria eu era uma militante, Eu acho que [esta] é a pior época para o SINPRO, porque o SINPRO usa as ruas para fazer o movimento, mobilizar os professores, e agora o professor não pode sair de casa por causa da pandemia. Não pode se aglomerar numa assembleia, não pode ir para uma reunião fechada. O nosso sindicato, segundo minha avaliação, é o melhor sindicato do Brasil, porque ele consegue reunir os professores, consegue mobilizar, consegue vitórias para nós, mesmo nós em casa. Liga, faz videoconferência, põe a gente direto para falar com os governantes. Eu acho assim, que esse momento é o pior momento do sindicato, mesmo assim ele sobrevive, e ele sobrevive com muita honra. Eu acho que a educação tem tudo para ser melhor hoje, [pois temos] os meios de comunicação, os professores estudam, são todos formados. No Distrito Federal não tem um professor que não tenha o curso superior. Hoje temos condições de ter um ensino muito melhor. Só que o professor é desmotivado: nós temos [quase] dez anos sem um centavo de aumento. Só que eu sou idealista. Eu acredito na educação, eu não queria fazer outra coisa. Se eu começasse hoje, eu faria o concurso para professor novamente. Porque o professor ele molda, ele prepara a sociedade.

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