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História

Sobre dividir solidariedade

História de: José Roberto de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/01/2019

Sinopse

“Piti”, filho de ourives, não seguiu a profissão do pai, apesar da admiração por ela. A paixão pelos desenhos, que cultivou desde a infância, o encaminhou para sua profissão, como Publicitário. Do trabalho voluntário na Pró-índio, cruzou o caminho de Raí e o ajudou com o projeto da Fundação Gol de Letra, contribuindo por meio do trabalho e dos valores, ao mesmo tempo em que aprendia através do envolvimento com os jovens. Não se trata de “dividir a comida, dividir o dinheiro. É dividir a solidariedade, mesmo”, diz.

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História completa

P/1 – Piti, primeiramente obrigada por você ter comparecido para dar seu depoimento. Para começar eu gostaria que você dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Bom, meu nome é José Roberto de Souza, mas todo mundo me conhece como Piti, foi um apelido que ganhei há muito tempo atrás, era adolescente ainda. Nasci em São Paulo, aqui na capital mesmo, já faz um tempinho, nasci em 1950 (risos).

 

P/1 – E o dia?

 

R - No dia seis de julho.

 

P/1 – Em seis de julho. Tá. Bom, esse Piti... Você é só conhecido por Piti, né?

 

R – É, no mercado publicitário, foi um antigo patrão meu, no primeiro emprego que eu tive, me batizou. Ele era descendente de italianos, e me batizou como Piti, que seria o “Pitilino” da turma, e ficou Piti até hoje. Inclusive o nome da minha empresa virou Piti também.

 

P/1 – Como é o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai chamava José de Souza, e minha mãe chamava Luiza Laurina de Souza.

 

P/1 – E eles são de São Paulo mesmo?

 

R – Eles são de São Paulo. Meu pai é descendente de portugueses e espanhola, e minha mãe de italiano e espanhola.

 

P/1 – E qual era a atividade do seu pai e sua mãe?

 

R – O meu pai era ourives, tinha um trabalho muito bonito, e a minha mãe, do lar (risos), como toda senhora paulistana.

 

P/1 – Como foi esse trabalho do seu pai?

 

R – O meu pai tinha uma empresa de... Uma pequena loja, um pequeno comércio de joias, e ele construía... Fazia artesanalmente as peças de joia: fazia alianças, brincos, colares. Era um trabalho bem interessante. Até queria aprender, mas não era por aí a minha veia.

 

P/1 – E irmãos, você tem irmãos?

 

R – Eu tenho um irmão que chama Vagner.

 

P/1 – Mais velho?

 

R – Ele é mais novo que eu, um ano e meio mais novo, e está bem.

 

P/1 – Ah, é só você e ele.

 

R – Só, só nós dois, dois irmãos.

 

P/1 – Piti, a gente vai falar um pouquinho da sua infância.

 

R – Ok.

 

P/1 – Onde é que era a sua casa, você lembra do bairro?

 

R– Sim, sim. Eu nasci no bairro do Cambuci, nasci em casa mesmo, nasci em casa porque naquela época não havia muito hábito de maternidade sofisticada. Nascia-se em casa mesmo (risos), com parteira. E na mesma casa que eu nasci eu morei até os 19 anos, aí eu mudei para outro apartamento perto, bem pertinho de onde eu morava. Mas a minha infância toda foi brincando na rua mesmo, foi empinando pipa, jogando futebol. Foi uma infância muito gostosa, de bairro mesmo.

 

P/1 – Como é que era esse bairro, que você morou quando era criança?

 

R – Era um bairro de classe média baixa, não era nada sofisticado, de jeito nenhum. Com a medida do tempo ele foi crescendo, mas era um bairro... Eu lembro que a rua era de terra, a gente jogava bolinha de gude e tinha uma segurança muito grande. E vem memórias à cabeça, como o padeiro que passava com a carroça, passa pela rua vendendo pão doce, e tinha um gosto delicioso, misturado com o cheiro do cavalo (risos), que é uma coisa muito interessante. Mas era muito... Foi uma infância muito divertida, muito saudável. Hoje a gente até tem pena das crianças de hoje, que não têm esse convívio com a rua, com a natureza, com a chuva... É uma delícia tomar chuva jogando bola na rua, isso é muito bom. Sujar de terra, cair, ralar o joelho. Isso é muito gostoso (risos). A garotada não tem mais isso hoje.

 

P/1 – Como era o cotidiano da sua casa, quando você era criança: seu pai trabalhando, sua mãe... Como era isso?

 

R – Então, meu pai morava na casa dos meus avós, morava numa edícula no fundo, na verdade, mas eu tinha o meu quarto na casa dos meus avós, que era na frente. Meu pai saía para trabalhar logo cedo, sempre começou muito cedo a trabalhar. Sete horas da manhã ele já saía para o trabalho. Minha mãe cuidava de casa, ajudava a minha avó, e a gente tinha aquela vida assim, bem normal. Eu ia para o Grupo Escolar quando era bem pequenininho, fazia os deveres de casa e depois ia brincar. Não tinha muito o que fazer, né. Mas na adolescência a gente ia ao cinema, nas matinês do cinema, que era muito gostoso. A gente não falava paquerar na época, nem lembro como é que chamava, mas a gente ia mexer com as meninas; era lá pelos 14 ou 15 anos, por aí.

 

P/1 – Deixa eu só voltar um pouquinho. A sua escola... Você lembra da sua primeira Escola, quando você começou a estudar?

 

R – Ah, lembro perfeitamente: Grupo Escolar Professor Gomes Cardim, que ficava, fica ainda, na Lacerda Franco, bem pertinho de casa. Minha mãe me levava, mas a partir do momento que eu comecei a crescer um pouquinho mais, comecei a ir sozinho. E bem pertinho de casa, eu fiquei lá até passar para outro Colégio que não existe mais, que é o Colégio Sete de Setembro. Depois, com 12, 13 anos eu fui para o Colégio Nacional da Glória, que era na França Marista, ficava no Cambuci, era um pouco mais longe, a gente tinha que pegar um ônibus.

 

P/1 – Mas você teve uma professora, um professor preferido, uma matéria preferida?

 

R – A minha matéria preferida sempre foi Desenho; eu sempre fui péssimo em Matemática, que era uma coisa que não ia, para mim. Gostava muito de História, e Desenho para mim era algo que eu me dava melhor, tanto que minha profissão veio daí, desenho mesmo.

 

P/1 – Nessa época da escola, que lembranças foram marcantes para você?

 

R – Ah, época de escola tem muitas coisas marcantes. Tinham aqueles desfiles de Sete de Setembro, que a gente ia todo mundo arrumadinho, em fila, na Avenida Lins de Vasconcelos. Então tinha aqueles desfiles, coisas marcantes... A chegada da Coca-Cola, quando foram fazer uma demonstração da Coca-Cola no Grupo (risos), então todo mundo: “Coca-Cola!”. Ganhei um bonequinho da Coca-Cola. Então foi uma coisa assim... tomo Coca-Cola até hoje (risos).

 

P/1 – Você tinha quantos anos quando tomou Coca-Cola?

 

R – Eu tinha... Coca-Cola...Eu devia ter uns sete anos, por aí. Era bem pequenininho.

 

P/1 – E na sua família havia algum incentivo, na hora que você estava estudando, para você seguir alguma profissão, ou você tinha algum sonho?

 

R – Não, a coisa da profissão é uma coisa... Como todo menino, queria ser Bombeiro (risos), mas eu acho que não tinha muito talento para isso. Mas o mais interessante é que eu sempre, desde pequeno, sempre gostei de desenhar. Até os 14, 15 anos, até uns 13, 14 anos eu não tinha uma noção exata do que eu queria fazer, mas como eu desenhava assim, razoavelmente bem, o meu pai tinha um amigo dele que tinha uma agência de propaganda que ficava perto da loja do meu pai. E ele falou: “Ah, você quer deixar o meu filho fazer um estágio aí na sua...” − não era estágio que se falava na época −, “entrar como aprendiz.” E eu entrei como aprendiz, aí eu desenvolvi a minha profissão a partir daí. Eu era bem novo, tinha 14 anos.

 

P/1 – Então você estudava e continuava estudando...

 

R – Isso, exatamente: eu estudava, trabalhava...

 

P/1 – Você estudava em que horário?

 

R – Trabalhava e estudava na parte da manhã. Trabalhava à tarde, e naquela época, com 15 anos de idade, tinha aquelas... Foi o “boom” da Jovem Guarda, e aí, como todo garoto daquela... Montamos uma Banda, porque na época era um conjunto. E a gente montou esse conjunto...

 

P/1 – Tinha nome, esse Conjunto?

 

R – Tinha, era “Os Demais”.

 

P/1 – Os Demais?

 

R – Os Demais. Eram aquelas bandas de garagem né, e a gente tocou. A gente tocava bacaninha. Estudamos no Conservatório e a gente começou a fazer shows, bailes e festas, e foi por aí. Tocamos até 1970.

 

P/1 – E que instrumento você tocava? Ou cantava?

 

R – Eu tocava, eu toco até hoje contrabaixo. Toco contrabaixo e a minha grande frustração foi não saber tocar piano, porque a minha tia que morava com a gente era professora de piano, e tinha um piano em casa, à disposição, 24 horas para mim, e eu nunca, nunca dei prosseguimento ao estudo do piano. Eu tinha uma diferença como recitar o Bona, que era uma coisa muito chata, e foi por aí que eu desisti do piano.

 

P/1 – Toda essa época de juventude, os locais que vocês iam era para tocar no Baile?

 

R – É, sim, a gente tocava de sexta e sábado, mas geralmente sábado e domingo.

 

P/2 – Onde é que era?

 

R – A gente tocava no bairro, a gente tocava no interior também. A gente tinha convites para tocar em Bauru, Barra Bonita. Foi bem divertido.

 

P/1 – Como é que vinham esse convites?

 

R – Eram de parentes: “Ah, tem um Conjunto que toca assim.” Imagina, a gente tinha 16 anos, a gente foi tocar num programa da TV Record, e a partir daí começou a aparecer um monte de convites para tocar.

 

P/1 – Programa era na Record?

 

R – É, tocava na Record...

 

P/1 – Você não lembra qual o programa...

 

R – Era... Tinham dois programas; O Clube do Papai Noel, que eram dos jovens talentos, e depois, logo depois, tinha o programa do Júlio Rosemberg.

 

P/1 – Foi nesse...

 

R – A gente tocava no Clube do Papai Noel, que era assim, de garotada. O Júlio Rosemberg eram mais profissionais.

 

P/2 – Que músicas vocês tocavam, Piti?

 

R – A gente tocava tudo, tocava qualquer tipo de música. Começamos tocando Self Music, dos anos 60, mas a gente tocava muito Roberto Carlos, tocava Beatles, tudo que era da época, né. A gente tinha que agradar a todo mundo.

 

P/1 – E depois que vocês apareceram na televisão, como é que ficou a vida de vocês?

 

R – Ah, ficou normal, ficou normal. Andei repetindo de ano, evidentemente, mas eu trabalhava, eu já tinha... Até então eu já tinha um encaminhamento para a minha vida, assim: para onde que eu vou? Então, eu tinha uma vida normal: trabalhava o dia inteiro, aí eu inverti tudo, passei a estudar à noite e trabalhava o dia inteiro, e nas brechinhas a gente ensaiava.

 

P/1 – E os namoros, como é que pintavam nessa época?

 

R – Ah, tinha as namoradinhas, que eram completamente diferentes de hoje. Era outra coisa, tinha que chegar às dez em casa, chegava às dez e meia na casa, era problema. Então... Mas era uma... Era divertido, era divertido.

 

P/1 – Os passeios então eram... Como é que eram os passeios?   

 

R – Ah, os passeios a gente... Tinha... Eu tenho um grupo de amigos de infância assim, que nós somos muito próximos, e um desses meus amigos, o Dante, ele tem um sítio, que por incrível que pareça fica há 35 quilômetros de São Paulo, tem 24 alqueires, é muito grande e muito perto daqui. E a gente ia passar as férias no sítio. Nós éramos em sete amigos, todos na faixa de 14, 15 anos, íamos os sete para o sítio e ficávamos uma semana, dez dias, só nós. Então nós cozinhávamos, arrumávamos a cama, fazia bagunça e se divertia.

 

P/1 – E vem cá, a sua escola, você chegou a concluí-la. Como é que foi essa coisa de vestibular?

 

R – Então, o que acontece? A minha vida foi indo, foi indo pra frente, e eu fui meio que deixando a escola, porque eu já passei a não ter tempo para estudar. Por quê? Eu já com 18 anos de idade, já era Diretor de Arte de uma Agência, eu já ganhava, na época, um bom salário. Ajudava em casa: pagar o aluguel, essas coisas todas, manter a casa, com 18 anos.

 

P/1 – Antes de você chegar, você estava sendo Aprendiz, que é uma coisa...

 

R – Ah sim, voltando um pouquinho: eu fui sendo Aprendiz, entrei como Aprendiz e em pouco tempo eu fui subindo, fui subindo, fui trabalhando, fui me esforçando e já era Diretor de Arte com 18 anos. E com 21 anos de idade, me convidaram para trabalhar em uma Agência para eu ser Diretor de Criação. Vê se pode, uma coisa meio maluca. Mas com 21 era Diretor de Criação de uma pequena Agência, que foi lá no Paraíso, e me minha vida foi... Falei: “Bom, agora não tem retorno.” Principalmente porque é uma coisa que eu adoro fazer até hoje. Eu adoro o meu trabalho, isso aí é uma coisa que me fascina até hoje.

 

P/2 – E assim, como é que você teve a sua formação na área, se deu na prática?

 

R – Foi na prática, foi na faculdade da vida mesmo, meu aprendizado, que a gente vai... A gente vai sofrendo, mas eu acho que você não tem um sofrimento quando você faz uma coisa que você gosta. Então tudo aquilo é prazer, e são coisas que você vai acrescentando na sua vida, e é uma coisa... Eu tenho muito prazer até hoje, sabe, às vezes a gente passa aquele sufoco danado, mas é uma coisa muito gostosa de trabalhar.

 

P/1 – Você parou com a escola e não voltou mais?

 

R – Eu parei com a escola totalmente. Parei com a escola, fiz até o Secundário, e não fui para a Faculdade, não fiz Faculdade, então... Mas, por outro lado, sempre fui uma pessoa que... Sempre tive muito interesse em aprender e conhecer as coisas. E eu sempre li livros de História, livros de Antropologia, eu fui meio que me aprofundando por aí, fazia cursos paralelos, cursos de Astrofísica, uma coisa meio maluca, curso de alemão. “Por que estudou alemão?” “Ah, porque é difícil (risos), é gostoso.”

 

P/1 – Me diz uma coisa: esse seu trabalho, como que é o seu trabalho, como você descreveria o seu trabalho?

 

R – Bom, meu trabalho é de criação mesmo, a minha inspiração é de Direção de Arte.

 

P/1 – Como vem a inspiração, como é que... Vem uma pessoa e: “Olha, eu quero isso.”

 

R – É.

 

P/1 – Como é que funciona isso?

 

R – Exatamente, aí a agente precisa rebolar para resolver os problemas. A gente recebe um pedido de um cliente, um briefing, e nós temos que arranjar solução tanto criativa como mercadológica, porque não adianta você ter uma peça super criativa e não produzir efeito nenhum para o cliente. Então o que acontece, você... Eu trabalho 24 horas por dia, eu tenho ideias... Acordo de madrugada: “Olha, resolvi, tenho a solução para o problema.” Chego de manhã, vou lá e faço. Aí passa meia hora e eu mudo tudo, porque a ideia evolui, vai evoluindo sempre. Então é uma coisa muito dinâmica isso. Eu sempre acho que posso fazer uma coisa melhor. Então isso tudo que está na minha vida, sempre que eu faço uma coisa, às vezes eu posso fazer melhor, eu consigo fazer melhor.

 

P/1 – E desses trabalhos que você tem executado, quais você destacaria: “Bom, esse foi o trabalho...”

 

R – Olha, nossa... (tosse). Desculpe. Eu tive assim, momentos muito gratificantes na minha vida. Eu tive a felicidade de ganhar vários prêmios, tanto no Brasil quanto no exterior, e qual o trabalho mais legal... Eu não sei se ele está por vir ainda, sabe (risos), porque de repente a gente pode ter uma ideia tão boa que pode ser o melhor trabalho da sua vida. Eu fiz bons trabalhos, trabalhos que marcaram bastante.

 

P/1 – E foi premiado (_____).

 

R – Foi, fiz filmes para a Volkswagen, para sabão em pó, para vários clientes, vários clientes, que foram trabalhos premiados. Então tenho uma boa coleçãozinha de medalhas de ouro (risos).

 

P/1 – Assim, a gente vai entrar um pouco na história da Gol, da Gol de Letra, mesmo.

 

R – Ok.

 

P/1 – Bom, você está desde o início, você tem uma ligação com a Gol de Letra.

 

R – É, deixa eu te contar, é o seguinte: eu sempre procurei participar ou colaborar com alguma entidade, da gente passar a nossa experiência, porque a experiência que a gente tem, a gente tem obrigação de transferir para as pessoas. O que acontece? A minha ligação com a Gol de Letra, eu já havia trabalhado na Comissão Pró-Índio, que eu fazia a edição do Boletim da Comissão. Trabalhei na Comissão Pró-Índio três ou quatro anos.

 

P/2 – O que era a Comissão Pró-Índio? (_____).

 

R – A Comissão Pró-Índio ficava na Rua Bartira, no subsolo da Igreja que tem lá na Rua Bartira, era para reivindicar a demarcação das terras indígenas, principalmente lutava pela demarcação, e defendia também os interesses indígenas pelo Brasil todo: organizava protestos contra a construção da BR-40, que passava bem no meio da Aldeia. Então a gente tinha assim, inúmeros problemas. Mas o meu trabalho lá na Comissão Pró-Índio era basicamente na edição do Boletim, então eu recolhia as matérias e montava o Boletim com fotos e textos, essa coisa toda.

 

P/2 – E quem eram as lideranças da Comissão?

 

R – Era... O sobrenome eu não vou lembrar. Era Rosa, que era Coordenadora Geral; a Araci fazia parte da Diretoria. Eram pessoas bem influentes. Pouco antes disso eu tinha lido um livro de Antropologia e comecei a me interessar muito pela História do Brasil, especialmente a História do Brasil no Século XVII e XVIII, comecei a ler livros basicamente escritos nessa época, e aí comecei a dar um salto para a cultura indígena, uma coisa que me fascinou muito, a percepção que eles têm das coisas, do que é religião para eles, da formação da família, da comunidade, isso é uma coisa muito interessante. E eu comecei... Me interessei muito por esse assunto indígena, pela cultura indígena, e foi daí que comecei e me aproximei da Comissão Pró-Índio. Eu gostei muito de ter contribuído de alguma forma com isso. Bom, fecha parênteses (risos).

 

P/1 – E qual foi a sua contribuição na Pró-Índio, só pra gente saber?

 

R – Na Comissão Pró-Índio? Foi justamente da edição do Boletim, que era uma coisa semanal, que era bem trabalhosa, a gente tinha que correr bastante com isso.

 

P/2 – Era trabalhosa porque a técnica também... A tecnologia daquela época era outra...

 

R – Exatamente isso.

 

P/2 – Como é que era? Acho que era tudo...

 

R – Tudo montado à mão, não tinha nada de computador, não tinha... Isso foi em 82, 83... 81, 82, por aí. Então era uma coisa muito trabalhosa mesmo. Hoje o computador é muito fácil, muito fácil e rápido.

 

P/1 – E era uma tiragem grande?

 

R – Tinha, tinha uma tiragem razoável, parece que eram 1500 exemplares, uma coisa assim.

 

P/1 – Aí então, da Comissão...

 

R – Aí da Comissão, bom, o que acontece... A minha vida tomou outros rumos, eu acabei montando a minha empresa, e na época eu atendia a conta da Copenhagen, foi quando surgiu a ideia de fazer uma campanha com o Raí.

 

P/1 – Foi o seu primeiro contato com o Raí?

 

R – Foi. Como o São Paulo tinha acabado de ganhar o Campeonato Mundial, e o Raí estava a toda, resolvi fazer a campanha com ele, e ele topou fazer uma campanha com chocolates, e foi aí que eu tive o contato com o Raí. Foi na sessão de fotos que eu tive o contato com o Raí, eu o conheci, e trocando ideias lá nos bastidores, a gente conversando, ele me contou que estava com uma ideia, de montar uma Fundação, que ele precisava criar um logotipo, que precisava de alguém que desse algum suporte para ele nesse começo. Eu falei: “Vamos em frente, vamos lá!” Aí eu comecei a me engajar mais no processo da Fundação, ou seja, a gente criou desde o logotipo até toda a identidade visual da Fundação Gol de Letra. A gente fazia os Boletins, os Relatórios Anuais, até que surgiu a oportunidade do... Porque a Fundação tem as Oficinas específicas: de Teatro, Fotografia, bom, por aí vai. E nós juntamos todo esse pessoal, tinha assim, uns oito adolescentes, cada um fazia parte de uma Oficina, e foi daí a ideia da gente fazer um livro sobre a comunidade da Vila Albertina, contando a história da comunidade, como são essas pessoas, como é que elas vivem, tudo isso aí, e como são as Oficinas da Fundação. Então, o que acontece? Eu peguei... Tinham oito adolescentes, que a gente determinou que todo sábado de manhã eles iriam lá para a minha empresa, e a gente iria conversar e discutir como construir esse livro. Então era uma coisa extremamente democrática. A gente começava a discutir desde: qual o formato que vai ter o livro, que cores que a gente vai usar e tudo isso. E paralelamente a isso, as pessoas da comunidade iam subsidiando-nos com matéria. Eles escreviam a matéria, outros faziam os desenhos, outros faziam as fotos, e a gente ia juntando todo esse material para a formação do livro. E foi uma coisa muito legal, porque nesse contato com esses adolescentes, aprendi bastante com eles. Eu aprendi bastante. E uma coisa muito interessante, tem uma coisa que a gente faz assim meio que inconsciente... O que acontece, eu comecei a mostrar para eles um outro mundo, porque eles jamais tinham ido a uma Agência de Propaganda, não sabiam bem o que era isso, e eu comecei a mostrar para eles o mundo das Artes Gráficas, da Comunicação. Apresentava para eles: “Olha, tem esse livro assim, tem essa revista assim, por que é feito assim, por que usou essa cor, por que usou esse formato.” E mostrava para eles também outras coisas, em termos de música, em termos de filmes publicitários. Assim, eu tinha uma coleção de filmes publicitários de outros países, e fui passando para eles: “olha o que fazem aqui, o que fazem lá fora”, e isso aí começou... Eu percebi... Porque a gente trabalhou durante um ano nisso, todo sábado, para a construção do livro. O que acontece? Isso parece que me despertou alguma sementezinha, que estava nesses meninos, que com o passar do tempo eles começaram a desenvolver, através das Oficinas da Fundação, eles começaram a aflorar esse potencial que eles tinham. Então vamos dizer que eles estavam meio reprimidos em função das condições que eles viviam, que são com pouquíssimos recursos, numa comunidade. E eu achei muito, muito legal isso, desses adolescentes, hoje, sabe, terem evoluído bastante; terem ganhado um rumo completamente diferente da vida deles. Isso é uma coisa assim, muito... Acho que a maior gratificação que a gente pode ter é ver a felicidade deles, é uma coisa muito fantástica.

 

P/1 – Esse livro que você está falando é “A Cara da Vila”?

 

R – É “A Cara da Vila”.

 

P/1 – Para a gente registrar aqui. E esses adolescentes, você manteve contato? Você tem notícias deles ainda, ou não...

 

R – Então, notícias a gente até tem, e eu cruzei com um deles por acaso o ano passado, num mercado, em Moema (risos). Ele estava trabalhando no mercado.

 

P/1 – Ah, então tá. Então, deixa eu só voltar uma coisa.

 

R – Diga.

 

P/1 – Em relação ao livro ainda. Você falou que desde o início, já tinha... O Raí falou para você que precisava de um logo.

 

R – Ahã, isso...

 

P/1 – Mas como é que pintou a ideia desse logo? Como é que pintou, como é que foi essa inspiração, como é que foi isso?

 

R – Bom, a ideia do logo, do logotipo, é o seguinte: a gente precisava deixar muito claro que a Fundação Gol de Letra não é uma Escolinha de Futebol. Então tudo o que está envolvido o nome do Raí, do Leonardo... “Ah, eles são jogadores, são famosos, e vai ser uma Escolinha de Futebol.” Não, não é e não tem pretensão de ser, jamais. O que a gente precisava fazer? Bom, passar no logotipo essa ideia da escolaridade, da formação e do futuro, a gente precisava ter tudo isso como fundamento do logotipo. Então o que acontece? O logotipo, como ele foi criado, ele tem um livro como base, que é a educação, certo? Tem uma criança, para cima, crescendo, fazendo menção de subir, e tem o sol, que é o futuro. Então a gente tentou espelhar nesse logotipo, que ele é todo com movimento, são traços soltos. Ele tem uma base que é a educação, tem o crescimento para o futuro. É uma coisa assim, um logotipo bem embasado. A gente não pode passar um logotipo com umas letrinhas... Ele têm alguma coisa por trás disso...

 

P/2 – E as cores?

 

R – As cores são as cores da bandeira, cores alegres, e basicamente as cores da bandeira.

 

P/1 – E você lembra, quando você criou, qual foi o impacto... Porque assim... Foi logo no início?

 

R – Foi, foi bem no começo. Foi o primeiro trabalho que nós fizemos.

 

P/1 – Foi em 99 mesmo?

 

R – Foi em 99. Foi bem no comecinho.

 

P/1 – Foi 98...

 

R – Foi em 98...

 

P/1 – Em dezembro de 98 foi registrado a Gol de Letra, mas aí a inauguração foi em 99...

 

R – Foi em 99. Foi no começo de 99, foi por aí...

 

P/2 – Agora, foi na Fundação...

 

R – Exatamente, tanto que não existia prédio da Fundação ainda. O prédio não era ainda (risos). A sede da Fundação era em Perdizes ainda.

 

P/1 – Mas você chegou então a ir ao escritório que era em Perdizes...

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Era ali que você ia?

 

R – Ahã, exatamente...

 

P/2 – Com quem você conversava, com o Raí, direto?

 

R – Era com o Raí, e no começo era só o Raí, o sócio... A Tina participava também de algumas reuniões. E a partir disso ela começou a participar mais, o Leonardo estava um pouco mais distante, que ele ainda jogava fora, fora do país.

 

P/1 – E você lembra a primeira vez que você chegou lá na Vila Albertina? Quando foi pra lá...

 

R – Fui, foi logo na abertura. Não estava nem muito pronta a Fundação, e a gente foi lá conhecer.

 

P/1 – E qual foi a sua reação?

 

R – Foi... Eu fiquei surpreso, porque dava pena da gente ver... Porque era uma Escola que já havia existido há algum tempo atrás, e estava abandonada, que foi o Governo Alckimin que cedeu o espaço. Quando a gente chegava lá na Fundação, a gente ficava com receio, assim. Era muito longe, e você chegava lá, você estava no meio da comunidade, e tinha até um receio, até conhecer as pessoas. Quando você conhece as pessoas, a coisa muda tudo. Depois, quando a gente viu que a própria Fundação foi tomando um aspecto... A reforma toda que foi demorada, foi um trabalho muito bem feito, de toda a reforma da Fundação. E uma coisa interessante, que me chamou a atenção, que... Ah, houve uma valorização (tosse) imobiliária, na região. Os imóveis mais próximos da Fundação (tosse) tiveram. “Ah, obrigado, vou tomar uma aguinha, porque ...” (risos). Então os imóveis da Fundação, nas redondezas da Fundação, tiveram um “boom” imobiliário (risos), passaram a ser mais valorizados.

 

P/1 – E como é que era a sua relação com a comunidade? Porque você ficou muito tempo

com a Gol de Letra...

 

R – Isso, ahã...

 

P/1 – Como é que era a sua relação com a Gol de Letra? Ou você também costumava ir até a escola?

 

R – Eu ia. A gente não ia muito porque meu trabalho era mais internamente, dentro da Agência. Na verdade, o que a gente fazia era muito trabalho, era muita demanda, era tipo um Relatório Anual, a gente tem que fazer gráficos, então era uma coisa bastante volumosa. Tinha também as peças de Teatro, que a gente fazia todo o material de divulgação, mas a gente sempre estava presente quando tinha algum evento especial. Estávamos sempre presentes na Fundação.

 

P/1 – E nessa relação, nesse tempo de convívio com a Gol de Letra, o que você poderia situar como momentos marcantes, que você acha... Eventos...

 

R – Momentos marcantes, olha, foram muitos na Fundação. Primeiro quando a gente vê o crescimento dos adolescentes que estavam trabalhando, participando das Oficinas e que a gente acompanhou de perto, de certa forma... A gente vê o crescimento desses adolescentes, e nas apresentações que eles faziam, foi uma coisa muito legal. As Oficinas de Teatro que eles fizeram uma apresentação no Teatro Caetano de Campos, foi uma coisa assim, foi uma peça assim muito bonita, muito bem dirigida, muito bem criada, e foi uma coisa... Então a gente vê isso com uma satisfação muito grande. E outra coisa que marcou muito também na Fundação foi o abraço que eu recebi dos pais e dos parentes desses adolescentes, que eu trabalhei com eles, aquela coisa assim, sem que eu mesmo os conhecesse. Eles me abraçavam como se eu fizesse parte da família deles. Então isso é uma coisa assim: não tem preço. Isso é uma coisa que dá muita satisfação pra gente, das pessoas te agradecerem por você ter participado, de uma certa forma, ter influenciado para o rumo desses adolescentes.

 

P/1 – Tem uma coisa assim, com a Gol de Letra, parece que é uma coisa de relação meio de família. Transparece assim, essa coisa de família, ali com a comunidade...

 

R – Sim, sim, a gente percebe... Bom, que primeiro, a condição fundamental para participar da Fundação Gol, era estar matriculado em alguma entidade escolar. A gente percebe que chegando lá, você vê que das pessoas da comunidade, que trabalham lá, que tem os seus filhos, que tem os seus sobrinhos, são parentes que estão lá dentro, e um chama o outro, porque, o ambiente dentro da Fundação é muito gostoso, então dentro do espaço daquele bairro, a Fundação é uma coisa muito importante para a comunidade.

 

P/1 – Tem alguma coisa que passou, por exemplo... Eu não sei se tem a ver com você, a própria escolha do nome Gol de Letra tem... Porque eu já vi que tem alguns jornais, no início, que foi criada a Gol de Letra, que confundia até, em vez de falar Gol de Letra, falavam Gol de Placa... (_____)

 

R – É, exatamente. Não, isso aí, quando o Raí me falou do nome, que: “Ah, eu estou pensando em colocar Gol de Letra.” Eu falei: “Acho ótimo o nome. Eu acho ótimo porque você vai estar associando, de certa forma, à sua profissão de Jogador de Futebol, sua e do Leonardo, com o gol, certo?” Porque é uma expressão comum, você falar assim: “Pô, eu marquei um gol.” Você não está marcando um gol, você acertou em alguma coisa. E um “gol de letra”, e letra é educação. Então eu achei muito legal esse nome, por isso que a gente... Desde o começo eu tive uma grande preocupação em não passar nada, na comunicação da Fundação, que remetesse a futebol.

 

P/1 – Agora, não sei se você vai conseguir ajudar a gente nisso, mas, nesses dez anos da Gol de Letra, a gente pode dizer que ela passou por várias fases, assim; desde que ela surgiu, ela foi se desenvolvendo. E se você conseguir, assim, mesmo você estando com essa relação um pouco mais distante, que você não vai direto lá, isso você consegue sentir, identificar?

 

R – Bom, acredito que, como no começo, tudo é uma maravilha, então todo mundo quer ajudar porque é o Raí. “Ah, então vamos lá, porque é o Raí...” e o Leonardo também, eu não esqueço do Leonardo também (risos), mas principalmente pelo Raí, do carisma que ele tem, todo mundo queria participar. Então no começo teve aqueles... Ah, muita gente, muitos voluntários, muita gente, e com o tempo isso vai sumindo, vai perdendo. Pelas próprias crises econômicas, eu acredito que a... Eu não entendo muito bem da parte orçamentária da Fundação, mas eu acredito que eles devem ter passado por alguns momentos não tão agradáveis em função das crises que passaram. Mas o trabalho continua, e a gente não pode esmorecer de jeito nenhum diante das dificuldades.

 

P/2 – Vou montar uma banda com a Gretchen ou a Roberta Miranda, um negócio assim, não lembro qual das duas era agora... Foi muito divertido

 

P/1 – Deixa eu voltar um pedacinho aqui que passou meio batido: quando você começou a trabalhar, essa sua relação com a Gol, como é que era isso, no seu meio, quando você falava: “Ah, estou trabalhando com o pessoal da Gol.” Isso, na sua família, o que é isso?

 

R – Bom, o fato de a gente trabalhar, fazer esse trabalho voluntário, eu acho super importante. Acho que não custa nada a gente ajudar e passar experiência para quem precisa. O trabalho da Fundação a gente... Evidentemente eu trabalho totalmente gratuito, e uma coisa muito importante, eu tive apoio de todo mundo, tanto da família, da minha esposa e das minhas filhas, até por minha própria empresa. Os meus funcionários participavam também. E uma coisa que a gente sempre deixou claro pra gente, que nós nunca usamos o nome da Fundação, muito menos o do Raí e do Leonardo, para autopromoção. Então a gente não se prestou a utilizar toda essa influência que eles têm para benefício próprio. Foi um trabalho assim, vamos dizer, de bastidores, bem tranquilo.

 

P/1 – Mas assim, quando você... Eu imagino, você na sua família: “Estou prestando um trabalho comunitário, e tal.” Deve dar um certo orgulho, né.

 

R – Ah, sem dúvida, porque eu não sei se é uma característica da minha família, principalmente da minha esposa, ela é uma pessoa que se doa muito para as pessoas. Ela realmente, para quem precisa, ela está sempre disposta a ajudar. Então é uma coisa que faz parte do nosso âmbito familiar, de ajudar quem precisa.

 

P/1 – Só vou abrir um parêntese aí: a sua esposa você conheceu-a nessa época...

 

R – Ah, a minha esposa eu conheci, tinha uns 18 anos, eu tinha 18 e ela tinha 17, foi minha namorada e nós acabamos casando. Casei com 23 anos de idade.

 

P/1 – Como é o nome dela?

 

R – A minha esposa se chama Sandra, é uma pessoa maravilhosa, tanto que eu estou com ela até hoje (risos). A gente casou em 73, aí tive a minha primeira filha em 75, a Samanta; e a Juliana, que nasceu em 79.

 

P/1 – Deixa eu voltar para a Gol agora. Você deve ter acompanhado... Porque a Gol fez muitos eventos de comemoração do aniversário. Você chegou a acompanhar esses eventos?

 

R – Sim, acompanhei. Não esses últimos, destes últimos três anos; dois, três anos não, mas os anteriores eu estive presente em todos, sempre prestigiando.

 

P/1 – E a própria inauguração, você esteve?

 

R – Sim.

 

P/1 – Como foi a inauguração, você lembra? Festas, pessoas.

 

R – Ah, eu lembro, lembro sim. Nossa, tinha muita gente, tinha muita gente. Tinha personalidades. (Dóris?) Suplicy estava lá também. Tinha bastante coisa, assim, foi um evento assim muito importante para a comunidade. A presença de políticos e gente famosos (risos), em geral.

 

P/2 – Eles falavam alguma coisa?

 

R – Não, foram feitos alguns discursos de inauguração, mas...

 

P/2 – Como você percebe assim, que foi importante para eles?

 

R – Como assim...

 

P/2 – Eles estavam alegres...

 

R – Ah não, a comunidade sim, sem dúvidas, sem dúvidas. Porque ali era o ponto de partida para um recomeço daquela região. Essa última vez que eu estive lá, notei uma diferença muito grande na... No próprio entorno da Fundação: as ruas estão asfaltadas, parecem bem mais cuidadas. A gente notou que teve uma mudança, um progresso muito grande lá. Eu acredito que se a Fundação não estivesse lá, não sei se... Quanto mais iria ter crescido.

 

P/1 – E você chegou a acompanhar... Porque a Gol de Letra abriu uma outra unidade.

 

R – Não, a outra unidade é nova.

 

P/1 – Não, a unidade no Rio.

 

R – Não, participei sim, a unidade do Rio de Janeiro, de Niterói. Sim, quem cuidava em Niterói era o Leonardo, e eu acompanhei. A gente fez todo o material para eles lá também, a de Niterói.

 

P/1 – Você estava também na inauguração?

 

R – Não, eu não pude ir. No dia da inauguração de Niterói eu não pude ir, eu tinha outros compromissos e infelizmente não fui.

 

P/1 – Então... Porque teve a inauguração de Niterói, depois fechou a de Niterói.

 

R – Isso...

 

P/1 – E abriu a de... Você pegou essa coisa de transição?

 

R – Não, essa... Não foi esta transição não, de fechar a de Niterói e de abrir no Bairro do Caju.

 

P/1 – Essa você não pegou?

 

R – Não, essa eu não peguei.

 

P/1 – Bom, dessa época do seu convívio, com a Gol de Letra, você lembra de alguma história, algum caso engraçado ou folclórico, que tenha ocorrido?

 

R – Ah, casos engraçados... Acho que uma coisa que marcou mais foi o seguinte: um dos meninos que trabalhava, que estava fazendo o livro, o Sidney, que era um menino altamente contestador (risos), ele contestava tudo, tudo que o grupo decidia. O grupo decidia: “Não, mas por que tem que ser assim, por que não pode ser “assado”?” Era um menino assim, contestava tudo, e o que mais me surpreendeu: foi o que mais evoluiu, em cima da... Ele partiu para Balé, começou a estudar em cima de dança, começou a estudar Balé, teve oportunidade de uma bolsa de estudos, ganhou esta bolsa de estudos, estudou com o... Ai, como chama? O Coreógrafo Ivaldo Bertazzo, então ele foi dançar na Suécia. Eu achei demais isso, eu achei uma coisa...

 

P/2 – Na Suécia?

 

R – É, chegou a dançar até na Suécia. Eu achei isso uma coisa fantástica.

 

P/2 – (___?) esse?

 

R – O Sidney.

 

P/1 – Foram dois que foram embora, né? (____?)

 

R – Ahã...

 

P/1 – Interessante.

 

R – É que o Sidney  trabalhava com a gente.

 

P/2 – Nesse grupo que se reunia aos sábados...

 

R – É, ele fazia parte do grupo.

 

P/2 – Nesse grupo de sábado, você fala que aprendeu muitas coisas com eles. Quais foram esses aprendizados?

 

R – Olha, eu aprendi... Aprendi lições de vida, sabe? Das dificuldades que eles têm e do esforço que eles fazem quando querem alguma coisa. Se a pessoa está determinada a querer alguma coisa ou a querer crescer na vida, você vai ter que lutar por isso, vai ter que ir atrás. E havia muita determinação nesses adolescentes, e o desejo, assim, de mudança. Então, se a gente começa a aprender, com essas sutilezas de vida... Porque a gente tem uma vida estável, mas eles não. A gente passa por sufoco também, por crises monetárias, financeira, essa coisa toda, mas a dificuldade deles é muito maior. Então eles aprendem com uma dificuldade muito maior, é aí que a gente começa a... Uma coisa específica, não saberia te dizer, mas assim, as sutilezas das atitudes deles, a gente aprende bastante.

 

P/1 – Faltou uma coisinha. Então esses adolescentes foram durante a confecção daquele livro?

 

R – Isso, exatamente.

 

P/1 – E você lembra do lançamento desse livro, o significado dele, quando ele foi lançado?

 

R – Sim, o lançamento foi feito no Teatro, na época foi patrocinado pela Johnson, se não me engano, foi ali na Marginal, no prédio da Johnson mesmo, e a comunidade estava presente, porque a gente retratou no livro a história de muitas pessoas da comunidade. Então faz parte do livro também uma foto que foi tirada, tipo, há 15 anos, e uma foto recente, das mesmas pessoas, no mesmo lugar. Isso... Os meninos da Oficina de Fotografia produziram essa foto. Localizaram aquelas pessoas da foto antiga, colocaram no mesmo lugar e fizeram a foto no mesmo ângulo, ficou uma coisa bem interessante. A comunidade estava todo em peso lá. E foi uma coisa assim... As pessoas se viam retratadas e viam que tinham registro da vida deles. Então senti muito orgulho disso, da presença.

 

P/1 – E vocês esperavam esse resultado? Já tinha uma ideia?

 

R – Eu tinha, eu tinha uma ideia pela própria participação, pela própria receptividade da comunidade. Quando eram questionados sobre suas vidas, ou pediam informação: “Ah, você tem foto antiga, você poderia ceder alguma coisa, ou algum material para fazer parte do livro?” Então foi muito interessante, a comunidade já sabia que estava acontecendo alguma coisa. Mas foi uma festa muito bonita, e foi muito legal.

 

P/1 – Teve dois livros, não teve? Teve “O Olhar Sobre a Vida” e “A Cara da Vila”, não teve?

 

R – Não, a Cara da Vila é o Projeto, e a Mulher Sobre a Vila é o livro que a gente fez.

 

P/1 – Dessa sua convivência com a Gol de Letra, o que você poderia dizer que você tirou para você, de aprendizado, com a Instituição, com as pessoas?

 

R – A gente aprende todo dia, cada dia que passa a gente aprende uma coisa. Então o que acontece? A gente, tendo esse contato mais próximo... Eu que já tive contato com índios, né (risos), aí era outra coisa, é outra conversa. E você ter contato com adolescentes, é uma coisa muito interessante, e o que a gente aprende disso? A gente vai somando essas informações todas. Você observa desde: “Puxa, como é que esse pessoal vive, como é que esse pessoal se vira, o que eles estão fazendo, o que eles fazem bem, o que eles fazem mal, o que eles podem melhorar?” E crescer no que eles fazem bem. Então você começa perceber esse tanto de coisa, e são informações que você vai guardando e vai tentando passar alguma coisa para eles.

 

P/1 – E de valores assim, o que você pode tirar: “bom, isso acrescentou...”

 

R – Ah, valores... Eu sempre tive os meus valores, assim, para minha vida mesmo: de você ser honesto, ser caridoso, ser tolerante. A honestidade, o que acontece, a honestidade você separa em várias coisas: você ser honesto com você mesmo, ser honesto com o outro, ser leal a um amigo seu, você não faz falcatruas, você não se aproveita de situações e nem pisa na cabeça dos outros para crescer. Então a gente vê que essas crianças estavam querendo crescer por conta deles mesmos, e essa simplicidade deles, assim: “Poxa, eu não vou prejudicar o meu amigo que está aqui comigo para benefício próprio”, isso é uma coisa muito importante. A caridade a gente vê que esse pessoal, eles dividem entre eles. Não é assim: dividir a comida, dividir o dinheiro. É dividir a solidariedade, mesmo. Então, quando a gente fala de caridade, não é você simplesmente dar o dinheiro, você dar uma roupa porque está frio, ou coisas do tipo. Eu acho que a caridade você pratica o dia inteiro, mas não é uma data específica. Eu abomino aquele pessoal que sai nos caminhões no Natal, dando presente para criancinhas. Eu abomino isso, acho que se você quiser ajudar, ok, beleza, você vai fazer aquele ato de caridade, você vai dar uma bonequinha de plástico de dois reais para uma criancinha; ok, a criancinha vai ficar feliz, mas isso não resolve o problema dela. O que resolve o problema das crianças, dos adolescentes, são as oportunidades que elas têm. Isso desde a formação de base, da educação, e esse tipo de caridade, essa... De você dar uma informação, de você ajudar ou simplesmente dar uma palavra a quem precisa, no momento correto, isso é uma caridade. Então essa caridade, você pratica sempre. Acho que faz parte da vida da gente, essa caridade. E você ser tolerante, tolerante no amplo sentido também, de você aceitar as pessoas como elas são, não criticar por que fulano é assim. Não, porque fulano é assim. Porque o que acontece, você... Eu sou uma pessoa que, às vezes, me dou mal por pensar assim: “qual o lado bom dessa pessoa?”, e eu relevo o lado ruim, eu relevo. Essa pessoa tem isso de bom, sabe. Então bacana, eu gosto dessa pessoa porque ela tem isso de bom. Ah, ela tem os defeitos, eu também tenho, como todo mundo tem os seus defeitos. Eu relevo os defeitos, fico só com a parte boa. Acho que eu aproveito, eu convivo melhor com as pessoas olhando a parte boa delas, a parte ruim não me interessa.

 

P/1 – Acho interessante que você falou alguma coisa de valores, que vai de encontro com a ideia, mesmo, da Gol.

 

R – Exatamente.

 

P/1 – De você contribuir para com que as pessoas transformem a sua realidade. Acho que vai um pouco por aí, né.

 

R – Acho que por isso que teve essa identificação com a Gol de Letra, que é uma coisa que está dentro da gente. A formação que eu tive, da minha família, dos meus pais. Então, acho que essa formação que você traz do berço, que você leva para frente e, quando a gente vai crescendo, vai ficando mais velho, a gente começa a perceber a importância desses valores e de você passar isso para as pessoas.

 

P/1 – Então foi uma identidade.

 

R – Foi, totalmente.

 

P/1 – E tem uma coisa, não sei se é bem isso que você falou... Quando você sentiu a diferença, quando você foi lá. Porque tem uma coisa que quando a gente fala “a comunidade”, essa ideia de comunidade é você resgatar também esse sentimento de comunidade, o local...

 

R – Sim, ahã            ...

 

P/1 – Essa coisa de um ajudar ao outro...

 

R – Exatamente. A gente vê, principalmente nas ocasiões de festa, que todo mundo participa, está todo mundo lá e é uma coisa bacana de se ver.

 

P/1 – Você acha que isso também contribuiu, no caso, a comunidade estar estimulando...

 

R – Ah, sim...

 

P/2 – Tinha uma coisa assim: “Ah, o Leonardo e o Raí estão olhando para nós? Estes dois jogadores, que ganharam Libertadores...” (tosse) Tinha alguma coisa... Libertadores, campeões mundiais, tinha alguma coisa assim?

 

R – Tinha, porque são duas figuras admiráveis, duas figuras notórias. Eu acredito que eles devem ter sido os primeiros a se engajar nesse tipo de ação, porque depois vieram outros jogadores também. Tiveram a mesma atitude. Mas a própria admiração... Porque independentemente do Clube, o Raí e o Leonardo são pessoas da Seleção Brasileira, são pessoas admiráveis.

 

P/2 – Tetra campeões...

 

R – Tetra campeões, então, aquela coisa toda, e são figuras exemplares, porque o que eu acho assim, muito legal, tanto no Raí quanto no Leonardo, a integridade deles. São desportistas que não se envolvem em escândalos, não se envolvem em drogas, bebidas, acidentes de carro, essa coisa toda (risos). Essa coisa de travestis, essas coisas (risos)...

 

P/1 – É um bom exemplo.

 

R – É um bom exemplo. Eles são bons exemplos, sem dúvida. Eles são bons exemplos de conduta esportiva e de conduta pessoal. Então por isso que eu digo, independentemente do Clube que eles façam parte, a própria figura deles, na comunidade, é uma coisa espetacular. Eu diria que eles se sentiram assim, privilegiados de terem sido escolhidos, a comunidade da Vila Albertina, o próprio início da Fundação, porque ela poderia acontecer em qualquer outra parte, mas aquele pessoal, acho que foi abençoado (risos).

 

P/2 – Maravilha, nossa.

 

P/1 – Estou fechando...

 

P/2 – Fique à vontade.

 

P/1 – Se você pudesse traduzir a Gol de Letra, assim, em algumas palavras, como você traduziria?

 

R – Bom, olha... Eu acho que a Gol de Letra é o exemplo, é um exemplo a ser seguido por outros desportistas, por outros atores ou atrizes, ou quem tenha, não só suporte financeiro, mas muita disposição e muita garra, a montarem outras Fundações, porque a gente vê que não é assim: “Ah, vou fazer uma Fundação porque eu acho legal.” Não, isso exige um trabalho e uma dedicação enorme, não é simplesmente: “Vou abrir uma Fundação, vou dar o meu dinheiro e vou aparecer”, não é por aí. É muito trabalho, é muito esforço, e eu espero que outros sigam o exemplo do Raí, do Leonardo, e das outras pessoas envolvidas também dentro da Fundação: da Cristina, da Bia e de toda a parte da Diretoria da Fundação.

 

P/1 – Bom, a gente está fazendo então esse trabalho de resgate da memória, da história da Gol de Letra, destes dez anos. O que você acha dessa ideia, desse trabalho?

 

R – Eu acho que toda a forma de registro é super importante, porque lá na frente alguém vai querer saber: “Puxa, como é que foi essa história, sabe, como é que começou isso, sabe, como é que eles começaram, por onde eles passaram e até onde chegaram.” Então eu acho super importante o registro de tudo o que aconteceu. E relembrar fatos e passagens, para que fique registrado, para que daqui a cem anos, alguém falar: “Puxa, olha só aquela Fundação, está completando cem anos. Puxa, mas como é que aconteceu isso?” E você não tem registro nenhum. Aí já não tem mais nem para quem perguntar (risos).

 

P/1 – Piti, tem assim, alguma coisa que a gente não tenha abordado, não tenha te estimulado a falar, e você gostaria de colocar?

 

R – Ah, (risos) não sei, não sei. Não sei o que eu gostaria de falar mais. Eu, se começar a falar, falo um monte (risos).

 

P/1 – Alguma coisa que passou e que você quer deixar registrado...

 

R – Ah, eu só quero deixar registrado que eu sou uma pessoa feliz (risos). Eu sou feliz. Eu tenho a minha vida, tenho a minha família ótima. Eu tenho os meus amigos de infância, que são meus amigos até hoje, e é uma coisa fantástica. Tenho uma boa e excelente família, tenho excelentes amigos e estão sempre comigo, e isso é muito importante, e por isso que eu sou uma pessoa feliz.

 

P/2 – Legal, que maravilha.

 

P/1 – O que você achou de estar aí, dando o seu depoimento com tudo isso...

 

R – Ah, eu achei, bom (risos). Obrigado por sermos pessoas eleitas a prestar o depoimento, e eu achei super legal. Assim, me sinto realmente muito honrado de ter participado do projeto.

 

P/1 – Legal, obrigada.

 

P/2 – Obrigada.

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