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Só quem viveu sabe

História de: Paulina Brás de Azevedo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/12/2004

Sinopse

Paulina foi contratada como telefonista chefe em 1960 pela Etusa em Uberaba, empresa telefônica que depois seria adquirida pela CBTC. Nesta entrevista, ela nos conta sobre as limitações que existiam na época, das reclamações dos clientes e da surpresa que sente ao ver a evolução do serviço atualmente. 

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História completa

P/1 – Boa tarde, dona Paulina.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Por favor, eu gostaria que a senhora, para início de conversa, me dissesse o seu nome completo, o local e data do seu nascimento.

 

R – Eu me chamo Paulina Brás de Azevedo. Eu nasci em Uberaba, no dia 29 de abril de 1930.

 

P/1 – O nome do seu pai e da sua mãe, dona Paulina.

 

R – Meu pai era Francisco de Paula Bueno de Azevedo, ele era funcionário público municipal. A minha mãe era Nair Brás de Azevedo, dona-de-casa. Eles tiveram quatro filhos, eu sou a segunda desses quatro.

 

P/1 – A senhora conheceu os seus avós?

 

R – Eu conheci somente minha avó paterna, Tertuliana Cristina Marques de Azevedo. Quando ela faleceu eu estava com doze anos.

 

P/1 – Nas conversas com seus pais, dona Paulina, a senhora teve algum tipo de informação da origem dos seus avós?

 

R – Ah, perfeitamente. O meu avô paterno era de Cristina, [no] sul de Minas. Era da família Drummond Furtado de Mendonça, e era por parte de mãe. A mãe dele, Júlia Furtado de Mendonça, era irmã do Salvador, do Lúcio de Mendonça, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. E ela era a mãe do meu avô, era a minha bisavó. Bisavó Júlia. 

Ela era casada com Francisco de Paula Azevedo, lá de Cristina, onde meu pai recebeu o nome do avô. Meu pai, Francisco de Paula, herdou o nome do avô. E a minha avó era de Patrocínio, Tertuliana Cristina. A gente chamava de mãe Tula; era um nome carinhoso, porque ela ajudou minha mãe a criar os filhos. Ela era de Patrocínio. Depois eles casaram e moraram todos ali em Uberaba. Tiveram uma porção de filhos.

 

P/1 – E o outro ramo dos avós?

 

R – O outro ramo dos avós: meu avô, José Antônio da Silva Brás, era de Espírito Santo do Pinhal, [no] estado de São Paulo. Minha mãe conta que a minha avó, Paulina, de quem eu herdei o nome, era de Campinas. Depois eles [se] casaram lá em Espírito Santo do Pinhal e quando vieram para Uberaba já tinham uns três ou quatro filhos. Tiveram um monte de filhos, onze ou doze, não sei. Eram muitos. O restante nasceu aqui em Uberaba e a minha mãe era uma delas.

 

P/1 – A senhora tem notícia do porquê que eles vieram para cá, para o Triângulo?

 

R – Ah, o motivo eu não sei. Com certeza para procurar um meio de vida melhor. Recém-casados, com filho pequeno...

 

P/1 – A atividade do seu pai, como a senhora disse, ele era funcionário...

 

R – É, meu pai sempre foi secretário do prefeito. Meu pai era secretário do prefeito, era secretário na Câmara Municipal. Ele já foi chefe de serviço do alistamento militar. Quando eu era menina eu lembro disso, depois ele [se] aposentou.

 

P/1 – Dona Paulina, e a casa que a senhora morava aqui em Uberaba?

 

R – É, continua. Ela fica na Rua Carlos Rodrigues, número 58 - é o numero que eu me lembro; agora eles mudaram a numeração, eu não sei o número atual. Meu irmão mais velho é que mora lá. É a casa que meu pai deixou; era nossa, dos quatro irmãos que eu tenho hoje.

 

P/1 – E como era essa casa?

 

R – Essa casa era ótima, porque foi uma casa que me abrigou com os três filhos - eu casei e não deu certo lá no Rio de Janeiro, vim para Uberaba. Foi o meu abrigo, com meus três filhos, onde eu criei esses filhos. 

Em 1960 eu entrei para a Etusa, Empresa Telefônica de Uberaba. Entrei como... Eu já tinha três filhos pequenos para criar e entrei como Auxiliar de Escritório. Aí eu aprendi o serviço de caixa. Eu recebia… Toda a grana que entrava dentro da empresa passava na minha mão.

 

P/1 – Nesse seu tempo ainda, de menina, como era a casa? Como se dividiam as tarefas?

 

R – Ah, não, na casa nossa não havia tarefa. A nossa obrigação era estudar. A minha mãe trabalhava, ajudava o meu pai. Ela fazia tricô para fora, fez enxoval de tricô para o povo de Uberaba quase todo. E o meu pai trabalhava na prefeitura. Era uma vida simples, mas era uma vida boa. E depois eu me casei muito cedo. Eu fui estudar, estudei no Colégio Nossa Senhora das Dores...

 

P/1 – Eu queria que a senhora contasse sobre a sua primeira escola. Como é que foi?

R – A primeira escola foi o Jardim de Infância Menino Jesus, da dona Edith França, lá perto da Igreja de São Domingos. Quando eu fiz sete anos entrei para o Colégio Nossa Senhora das Dores, e saí de lá para casar. Completei o ginásio, só.

 

P/1 – A senhora se lembra de alguma professora que tivesse marcado a sua passagem por lá?

 

R – Ah, todas, inclusive tem uma viva hoje, Irmã Maria de Loreto...

 

P/1 – Como é?

 

R – Irmã Maria de Loreto. Ela foi minha professora de Geografia. Ouvi falar que ela está lúcida, forte, trabalhando até hoje. Que eu me lembre, viva, ainda... Eu lembro de todas, né? Da Madre Superiora, _______, lembro da... A gente falava, antigamente era tudo francês; era assim a Domitila, a outra, de Português - agora eu não estou lembrada, mas eram muitas.

 

P/1 – Como era a cidade de Uberaba nesse seu tempo de infância?

 

R – Ontem eu estive em um supermercado aqui na Avenida da Saudade, fui lá com meu irmão. Lá tem umas fotos antigas de Uberaba, fotos que eu adorei ver porque a Praça Rui Barbosa tinha umas palmeiras imperiais maravilhosas e um coreto muito lindo. Eu me lembro perfeitamente dessa praça, que era maravilhosa. Depois eles reformaram, fizeram uma praça mais moderna, mas aquela praça era linda. Ao meu ver, aquelas palmeiras nunca deveriam ter sido arrancadas. 

A praça do Grupo Escolar Brasil também era muito bonita. Era toda feita de cipreste, mas toda podadinha, uma fazendo um bichinho, a outra fazendo... Aqueles desenhos artísticos de jardim. É muito bonita. E a praça Santa Rita sempre foi muito linda, na igrejinha. Na minha época de menina não tinha calçamento ali, era tudo pedra-sabão, mas a igreja sempre esteve ali. E tinha o Colégio Nossa Senhora das Dores. Onde é a Faculdade de Medicina era cadeia pública, o mercado municipal sempre teve, sempre naquele mesmo lugar... (O que) eu me lembro é isso. Aí foi melhorando aos poucos. A cidade foi crescendo.

 

P/1 – Dona Paulina, nessa época como eram as brincadeiras dessa criançada? Como é que a senhora se divertia?

 

R – A brincadeira da criançada era muito pura, a meninada brincava era na rua. Não as meninas, geralmente as meninas ficavam mais em casa, mas os meninos não saiam da rua. Até os meus filhos brincavam muito na rua. Não tinha esse negócio de clube, uma série de coisas não tinha antigamente.

 

P/1 – E que tipo de brincadeira se fazia?

 

R – Brincadeira de roda, brincadeira de pique, de esconder, de pular corda... Brincadeira de criança, porque não existia televisão, não existia rádio; até o rádio era muito precoce, muito ruim. Eu me lembro, no tempo da guerra o meu pai escutava notícia. Era uma luta para ouvir alguma coisa, ficava todo mundo com o ouvido pregado no rádio.

 

P/1 – (risos)

 

R – Então a meninada brincava era na rua mesmo.

 

P/1 – A senhora disse que não tinha muita obrigação dentro de casa...

 

R – De casa, não tinha, não. Pelo menos na minha casa a minha mãe não exigia que a gente fizesse nada.

 

P/1 – Certo. E como era o cotidiano, um dia típico da menina Paulina? Como é que era?

 

R – Ah, era fazer os deveres de manhã, levantar e fazer os deveres, almoçar e ir para a escola. A escola era o dia inteirinho, não era poucas horas, não. Ficava o dia inteiro na escola. Voltava de tarde, era o jantar; depois ia brincar com as amigas na rua, na casa de uma vizinha ou outra, ou as amigas vinham para casa. Brincava na rua, depois ia dormir. Dormia cedo; não tinha televisão, não tinha nada.

 

P/1 – Acordava cedo também?

 

R – Acordava cedo também.

 

P/1 – E os momentos da família, tinha almoço de domingo? Esse tipo de coisa?

 

R – Todo domingo tinha. Domingo era um almoço especial. O prato que hoje em dia é corriqueiro, era primeiro. Tinha o primo prato, como o Jean fala, o primo prato era de macarronada. Depois da macarronada vinham os outros pratos, tinha frango. Frango era comida de domingo. E depois a sobremesa, muito doce, tinha muita fartura antigamente. E era assim, a vida...

 

P/1 – Aí a senhora disse que...

 

R – E eu morava, a minha mãe e o meu pai moravam… A minha avó ficou viúva, essa Tertuliana, então o meu pai morava na casa da mãe dele. E lá que a minha mãe teve os quatro filhos que ela teve - aliás ela teve cinco, até morreu um. 

Então na casa de meu pai morava um tio solteiro, na casa da minha avó, uma tia solteira que casou e depois foi para o Rio de Janeiro e tinha uma outra tia também que era deficiente, ela era muda e surda. A casa era grande e era cheia de gente.

 

P/1 – (risos) Tinha quintal?

 

R – Tinha quintal. A minha avó gostava muito de jardim, gostava muito de planta. Tinha um quintal, sim.

 

P/1 – E a criançada brincava ali?

 

R – Brincava, era ao lado da minha casa, que hoje é o banco Itaú lá na [Rua] Segismundo Mendes, porque eu nasci na Segismundo Mendes. A Rua Segismundo Mendes é onde tem o banco Itaú. O senhor conhece, né?

 

P/1 – Mais ou menos.

 

R – É no centro da cidade, perto do Grande Hotel, ali perto da [Avenida] Leopoldina de Oliveira. Esquina da Leopoldina de Oliveira com a Segismundo Mendes. Eu nasci ali. Ali é que era a casa dos meus pais quando eu era menina.

 

P/1 – Segismundo Mendes, o nome da rua?

 

R – É, Segismundo Mendes, esquina com Leopoldina. Ali tinha um terreno grande, gradeado; a gente falava que o campinho. Era gramado. Depois virou posto de gasolina ali. Mais tarde virou banco Itaú, mas quando virou banco Itaú nós já tínhamos mudado para a [Rua] Carlos Rodrigues.

 

P/1 – A senhora disse que fez até o quarto ginasial, lá no seu colégio...

 

R – É, quarta série ginasial do colégio.

 

P/1 – E a senhora já tinha alguma atividade, gostaria de fazer alguma atividade, ou saiu para casar?

 

R – Saí para casar. 

 

P/1 – E como foi esse encontro?

 

R – Ah, isso é uma coisa que eu não gosto muito de relembrar, não.

 

P/1 – Então tudo bem.

 

R – Coisa ficou no passado. Não foi uma coisa muito boa para mim, mas graças a Deus eu tive os filhos que recompensaram.

 

P/1 – Certo.

 

R – Filhos ótimos.

 

P/1 – E aí trouxe as crianças para cá?

 

R – Trouxe, eu vim com três filhos pequenos para cá. O mais novo tinha quatro anos. 

 

P/1 – A senhora ficou muito tempo fora de Uberaba?

 

R – Fiquei dez anos no Rio de Janeiro.

 

P/1 – Onde, no Rio?

 

R – Eu morei em diversos lugares. Morei em Nilópolis, que meu sogro tinha… Quando eu me casei ele tinha uma granja, então morava lá. Depois nós mudamos para o Rio mesmo. Moramos na Tijuca, moramos na Rua Almirante Copa, moramos na avenida Maracanã e eu já morei em Vila Isabel - meu filho até nasceu em Vila Isabel. Aí depois não deu certo, eu vim embora. 

 

P/1 – E a cidade que a senhora encontrou aqui, como é que era essa Uberaba da sua volta, depois de tanto tempo fora?

 

R – Ah, foi ótimo, porque eu adorava aqui. Eu achei muito boa. No começo foi meio difícil, mas logo eu arranjei a colocação na empresa e pronto.

 

P/1 – Como é que a senhora vinha do Rio para cá? De ônibus?

 

R – Vinha de ônibus. A viagem aqui de Uberaba para o Rio de Janeiro era demorada.

 

P/1 – Como é que era o trajeto?

 

R – Porque daqui ia até Ribeirão Preto. Em Ribeirão Preto fazia baldeação, almoçava em Ribeirão, pegava o ônibus para São Paulo. Chegava em São Paulo fazia baldeação. Eu geralmente pegava noturno, o trem.

 

P/1 – Em São Paulo?

 

R – É, em São Paulo, porque ia dormindo com as crianças. Chegava no Rio de Janeiro de manhã.

 

P/1 – Era o dia inteiro de viagem?

 

R – Era um dia inteiro. Um dia e uma noite.

 

P/1 – Para voltar, a mesma coisa?

 

R – Para voltar, a mesma coisa.

 

P/1 – Como foi essa chegada sua na Etusa, foi o seu primeiro emprego?

 

R – Essa chegada sua na Etusa eu vou contar para o senhor. É o seguinte: o senhor sabe que a dona, os donos da Etusa eram os Cunha Campos, né?

 

P/1 – Hum, hum. 

 

R - E eu tinha uma tia querida que é a segunda filha do Alexandre Campos, é a filha do Alexandre Campos - Maninha era o nome dela. [Era] casada com o doutor José Mendonça. José Mendonça era o meu tio, irmão do meu pai. E eles eram acionistas também, ela era filha do Alexandre Campos; era dona também. 

E através do meu tio, da minha tia, porque na minha... Eu não tinha muita escolaridade, para começar. E outra: naquela época, em 1957… Eu casei em 47. Era muito difícil uma mulher jovem - eu tinha 27 anos - com filho pequeno, separada do marido, arranjar uma colocação. Não era fácil. Pelejei durante muitos anos, mas em 1960, quando Anita e o Zé Campos vieram tomar conta da empresa… Eu chamo Anita porque ela, para mim, é tida como uma irmã. E ela me chama de Paulina, nós somos muito amigas, então ela me arranjou um emprego na empresa telefônica. 

Eu comecei de baixo, como lhe falei, no escritório, serviço de caixa. Eu recebia o dinheiro, lá. E o meu chefe era o seu Edmundo de Carvalho. O meu escritório não ficava bem no prédio da empresa, não. Hoje é a CTBC, hoje é a porta o lado direito da CTBC, onde fizeram hoje a sala de espera com aqueles... Ali era o escritório, dava em frente para uma casa de móveis. Ali eu fiquei alguns anos. 

O telefone em Uberaba, o número de telefones começou a aumentar. Fizeram um plano de expansão e aumentou o número de telefones; a mesa de interurbanos que nós tínhamos era muito precária, muito pequenininha. Aqui em Uberaba tinha duas companhias: tinha a Telemig, que era 01, e a Etusa, que era 04, interurbano, porque o assinante era alcançado através de discar o 04. 

A Anita precisava de alguém da confiança dela. Tinha algumas telefonistas, mas não tinha ninguém para comandar nada, nem horário, nem ver o que estava fazendo ou deixava de fazer. Aí ela me fez uma proposta, se eu toparia fazer um curso de telefonia para mim, que eu podia melhorar lá dentro da empresa, se eu quisesse. Topei a parada, deixei meus filhos com a minha mãe, fui para o Rio de Janeiro, de novo. Fiquei três meses lá, na casa da Anita, hospedada na Galeria Menescal, em Copacabana. E eu ia para a CTB. Toda manhã pegava o ônibus, ia para a CTB. Fiquei três meses começando o serviço de telefonia. Porque eu não sabia nem como pegava em uma _______, eu trabalhava no escritório.

 

P/1 – Certo.

R – Aprendi em três meses, mas eu ficava [do] horário de manhã até de tardezinha. Ficava o dia inteirinho lá, almoçava e tudo, lá na CTB.

 

P/1 – E onde era a CTB?

 

R – A CTB eu não me lembro muito bem, não, mas eu sei que era perto da Central do Brasil. Não lembro o nome da rua, muito bem, não. Não guardei o nome. Eu vinha de ônibus de Copacabana, porque a gente morava lá. E voltava de tardezinha. Isso foi [durante] três meses. Não vi meus filhos por três meses, só falava com eles por telefone. Mas eu fiquei. Aí vim como Chefe de Telefonista. (risos)

 

P/1 – Sei.

 

R – Já melhorou, né? 

Logo foi reformado o prédio e foram ampliadas as mesas. O começo foi difícil, porque muitas vezes as telefonistas sabiam mais do que eu. Eu aprendi muita coisa, mas era muita coisa. Aprender serviço de telefonista, aprender serviço de encarregada, de chefe de telefonista, fazer horário, decorar aqueles códigos todos, porque era eu que dava instrução... Porque ela teve que contratar mais telefonistas e quem ia dar instrução às telefonistas? Era eu, né? Saber a regra, explicar para elas qual era a obrigação, os deveres das telefonistas e o que elas podiam ou não podiam fazer ali. 

Tive que aprender isso tudo em três meses. Aprendi e aos trancos e barrancos. Foi e graças a Deus me saí muito bem, porque, modéstia à parte, os meus chefes me queriam muito bem. E outra coisa: a Anita sempre foi assim, espetacular, para comigo e para todos os funcionários delas. 

Aí, falando para o senhor, começou a expansão dos telefones em Uberaba. A companhia ficou pequena e o prédio lá da Etusa, a central, não comportava mais um telefone. A Anita já estava cansada, idosa, ela pensou em vender. Ela recebeu várias propostas, mas ela sempre pendeu mais para a CTBC, para o pessoal lá de Uberlândia. O coração dela sempre pendeu mais por lá. Até que foi indo, foi realizada a compra. E quando foi... A gente comia apavorada, que ia mudar, mas não aconteceu nada de diferente, continuou tudo a mesma coisa. Na compra da CTBC para a Etusa eu tive a honra de assinar como testemunha. Meu nome está naquela… Na ata que foi lavrada. Estava presente o Luiz Alberto Garcia, o pai dele, o...

 

P/1 – Seu Alexandrino?

 

R – Seu Alexandrino Garcia, eu não me lembro mais. Estava o neto, Dr. Alexandre Campos Neto, que também era diretor, ao lado da Anita. Eu me lembro que tive a honra de ser testemunha também e fiquei muito orgulhosa disso, porque eu quero muito bem a essa gente.

 

P/1 – Certo. Antes disso um pouquinho, ainda, no tempo da Etusa, como era o local onde as telefonistas ficavam, onde a senhora foi chefiar?

 

R – Foi feito um anexo, onde era a cozinha e a copa foi desmanchada e foi feita uma sala. Eu vou mandar a foto para o senhor ver. Era até bonito, era um chão quadriculado de verde e branco. Tinha a mesa das telefonistas, tinha o dormitório e o banheiro. E tinha a copa-cozinha antes da sala do tráfego, da entrada. Era uma sala boa, arejada, mas não era muito grande. E tinha uma mesa de telefones semiautomáticos. Quando começaram a aumentar o número de telefones começaram com semiautomáticos, que aliás era uma coisa que acabava com a vida da gente. Porque era um negócio triste, aquele negócio de semiautomático.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque as telefonistas confundem. Aquele monte de pedra, pede a ligação e às vezes vai puxar uma, passa a outra, corta a ligação das pessoas. Dava um trabalho, e recebe reclamação de empresa... Aquilo foi fogo.

 

P/1 – (risos) E como é que foi resolvido esse problema?

 

R – Foi resolvido quando aumentaram os números de telefone. A CTBC comprou a telefônica, aumentou um monte de central de telefônica lá de andar; foi subindo, subindo, subindo... Acabaram os semiautomáticos, aqueles semiautomáticos eram fogo. E os telefones rurais?

 

P/1 – Como é que eram os telefones rurais?

 

R – Tinha telefones rurais aqui em Uberaba. Tinha centrais rurais em diversos locais aqui. Tinha em Veríssimo, em Peirópolis, tinha mais não sei onde, não estou me lembrando... Ponte Alta, e tinha mais uma outra que eu não estou bem recordando. E nessa tinha o centro, que falavam que era centro telefônico. Atendia, a pessoa morava lá nesse centro. Tinha um local… Eu nunca fui lá, não sei explicar como é que era, mas eu sei que ele atendia. E o assinante que tinha telefone nas fazendas falava nas fazendas deles através desse centro. Mas era muito difícil, nossa! Muito custoso.

 

P/1 – E era tudo linha física?

 

R – E era linha de... Às vezes ventania derrubava o fio e tinha que ir o empregado lá consertar, era muito difícil. Telefonia, no começo... Hoje em dia, quem tem um conforto de um telefone, de um DDD, de um DDI... Olha, o meu genro tem uma fazenda lá no Mato Grosso do Sul, ele fala na Itália. Fala em Londres, tem uma filha que mora em Londres, fala na Itália com o pai dele, italiano. Ele liga lá do Mato Grosso do Sul, da fazenda ele liga. Só fazer assim, não precisa de ninguém para ajudar.

 

P/1 – (risos) Mudou um pouquinho, né, dona Paulina?

 

R – Mudou um pouquinho? Mudou mas foi muito, né?

 

P/1 – (risos)

 

R – Foi um progresso maravilhoso, só quem viveu que sabe. Porque no dia em que inaugurou o DDD aqui em Uberaba… Eu tenho a foto, eu vou mandar para o senhor. A primeira ligação quem fez, é lógico, foi o Dr. Luiz, falou com não sei quem lá no Rio de Janeiro. Mas a segunda ligação fui eu que fiz para a Anita. Aqui de Uberaba, de pessoa, fora o diretor, o dono da empresa, fui eu que fiz, tive a honra de fazer. Falei com a Anita lá em Copacabana, lá na casa dela.

 

P/1 – E ela? Como é que ela...

 

R – Ah, ela ficou emocionadíssima. 

 

P/1 – Eu queria que a senhora falasse um pouquinho dela, descrevesse a pessoa.

 

R – Ela é uma pessoa maravilhosa, [uma] pessoa assim de um coração maior do que ela, muito justa. Ela não era paternalista, ela era justa, sabe? Queria bem a todos e vivia os problemas dos empregados dela. Era muito boa. E a Telefônica de Uberaba cresceu com eles, com ela e com o irmão dela, o seu José, que faleceu um pouco depois. Depois ficou por conta do filho dele, Dr. Alexandre - dos dois, né?

 

P/1 – E ela tomava a frente do negócio?

 

R – Ela vinha todo mês. Ela tinha -  aliás, ela deve ter até hoje horror de avião, então ela comprava duas passagens no ônibus do Rio de Janeiro para cá. Ela vinha deitada nas duas cadeiras. Todo mês ela vinha; ela tomava pé nas coisas, ela e o irmão dela. Mas o Alexandre vinha de carro e ela vinha de ônibus, ou vinha de avião com o Alexandre, não sei.

 

P/1 – E ela conversava com vocês?

 

R – Nossa, com todo mundo. Em época de Natal era assim, era presente para todo mundo. Também eram poucos empregados, lógico. 

Ah, tem outra coisa que eu queria contar para o senhor nesse ínterim, que eu esqueci: aí vai que tinha telefonista em Uberaba. Eu não me lembro quantas eram da CTBC, mas era uma porção. Aí a CTBC encampa a Telemig. Houve uma época que começou um ti-ti-ti [que] ia acabar derrubando a CTBC em Uberaba, então todo mundo ficou de olho arregalado na CTBC: “Ah, meu Deus, o que vai ser? O que a senhora sabe? O que a senhora conta para a gente?” “Eu não sei de nada, Anita não tocou nesse assunto comigo.” Um belo dia a CTBC entrou para a Telemig. Acabou foi a Telemig, não foi a CTBC que acabou derrubando. O nosso chefe era o seu Ataíde; eu gostava muito dele, seu Ataíde Dias, lá de Uberlândia. Ele era muito meu amigo. Ele falou assim: “Não se preocupe, dona Paulina, não vai acontecer nada.”

 

P/1 – Seu Ataíde Barata Dias?

 

R – É, do Dias Barata. Inclusive a filha dele uma vez fez vestibular aqui, ela dormiu na minha casa. Eu não me lembro o nome dela, mas ela dormiu na minha casa. Eu tive a honra de receber essa menina para fazer vestibular aqui em Uberaba. 

Bom, aí a Telemig acabou aqui em Uberaba. As telefonistas de lá, a chefe, dona Reginalda, e as mais velhas, que puderam [se] aposentar, [se] aposentaram. As outras, tivemos que levar, foram todas lá para a CTBC. O trato foi as moças continuarem com o emprego.

 

P/1 – Certo. 

 

R – Aí pulou para sessenta moças lá comigo. O senhor sabe, sessenta moças?

 

P/1 – Como é isso?

 

R – Nossa Senhora! E depois umas moças que já vinham assim, com hábitos diferentes. O senhor sabe, de uma companhia para a outra sempre há uma certa rixa entre as moças. Por mais que não queira, mas o senhor usar de um recurso de não desagradar nenhuma nem outra, fazer elas combinarem uma com a outra, demorou um pouco, não foi fácil. Elas queriam saber mais do que as nossas, tinham mais tempo de casa, com certeza, lá. Mas elas não tinham o manejo do serviço de discagem direta que as nossas, da casa, tinham. Porque lá elas faziam o quê? Elas faziam Araxá, elas faziam… Era aquele serviço antigo de sinais. Não tinha discagem direta.

 

P/1 – Faziam só para as localidades, Araxá...

 

R – Araxá, alguma... Sei lá, [cidade] de Minas aí, mas que não tinha rede da CTBC.  Elas faziam.

 

P/1 – Certo.

 

R – Aí depois a CTBC passou a comandar tudo.

 

P/1 – O que mudou basicamente no serviço da companhia?

 

R – Ah, mudou demais. Facilidade. Antigamente, quando eu comecei a trabalhar como telefonista chefe, aqui em Uberaba nós tínhamos três circuitos para falar em São Paulo, com esse monte de banco, esse monte de estudante para falar em São Paulo, então era muito difícil. Se uma ligação era muito demorada, os assinantes de casa não compreendiam que uma telefonista não podia fazer milagre, não podia desligar uma ligação para fazer outra. Rio de Janeiro eram dois circuitos, aí foi aumentando aos poucos. Quando a Embratel entrou, tomando conta do serviço, ela foi ampliando, mas antigamente era uma coisinha de nada, não tinha pouco, era muito difícil. Se eu falar para o senhor… Fala uma localidade, por exemplo, aqui em Uberaba tinha muito comércio com… Como é que chama aquela localidade que vendia flores ali perto de Campinas?

 

P/1 – Holambra?

 

R – Holambra, não, para cá. Aquela cidade para cá. Que eles compravam, esqueci agora.

 

P/1 – Valinhos?

 

R – Não. Ah, também não é Valinhos, mas eu esqueci. Vamos falar... Onde tem muito haras, muito cavalo.

 

P/1 – Mogi? Depois de Campinas?

 

R – Não. É encostado, a primeira cidade chegar em Campinas. É uma cidade muito conhecida.

 

P/2 – Limeira?

 

R – Não. É do lado de quem vai de Mogi-Mirim.

 

P/1 – Jundiaí?

 

R – É a primeira cidade para quem vai de Mogi-Mirim. Hortolândia, não? Hortolândia é cidade-satélite de Campinas. É uma outra, esqueci o nome agora. Não me vem na memória. Mas falando para o senhor, para falar nessa cidade, o senhor tinha que falar em São Paulo. São Paulo Além - se chamava circuito São Paulo Além, porque o São Paulo era uma coisa e São Paulo Além eram as cidades.

 

P/1 – Para outras localidades.

 

R – A telefonista de lá atendia, o senhor pedia a ligação, aí ligava com Campinas. Aí o senhor pedia para Campinas, Campinas que ia ligar nessa tal cidade. Ah, meu Deus do céu, era uma luta! O assinante não podia imaginar o que uma telefonista fazia para conseguir uma ligação. Às vezes demorava cinco, seis, sete horas, ele ligava furioso. Achava que a telefonista estava com preguiça, estava com má vontade. Aí era a hora de eu entrar, conversar, explicar... Tudo isso eu tinha que explicar para o assinante. Era desgastante, chegava em casa às vezes cansada porque...

 

P/1 – Quer dizer, na verdade, quem levava a reclamação pior era a telefonista mesmo?

 

R – Era a telefonista.

 

P/1 – Quando a coisa ficava grave era que a senhora entrava?

 

R – Ficava grave, ficava tão grave que eu tinha que intervir.

 

P/1 – Qual era o segredo de explicar para uma pessoa nervosa, mal-educada, às vezes?

 

R – Ah, é ir com calma, né? Ir com calma, ligar na casa do assinante, explicar para ele que não era má-vontade, porque estava acumulada. Às vezes o assinante, se completou uma ligação dele, ele tem direito de falar 20, 30 minutos. E é um circuito só; quem está na espera tem que esperar, ele está pagando!

 

P/1 – Certo. E as pessoas compreendiam?

 

R – Às vezes compreendiam. A maioria das vezes compreendiam. Só uma ou outra vez que encrencavam, mas...

 

P/1 – A senhora teve que descascar...

 

R – Muito abacaxi, tive. Mas eu adorava ali. 

Saí porque a minha filha do meio, a Maria Lúcia ficou grávida em São Paulo, sozinha. Precisava trabalhar e não tinha com quem deixar a menina, aí eu pedi demissão. Fui ajudar as filhas. Formaram, casaram, e eu, como já era sozinha, ficar longe dos meus filhos já era uma coisa que meu coração pedia para ficar perto deles. Aí fui criar neto.

 

P/1 – (risos) Sei.

 

R – Criei meia dúzia, mas foi ótimo.

 

P/1 – (risos). Dona Paulina, nesse período, especialmente quando a CTBC começa a se fixar em Uberlândia, a senhora conheceu o seu Alexandrino?

 

R – Conheci muito, o seu Alexandrino, ele era comendador. Teve uma festa muita bonita, que ele foi...

 

P/1 – A senhora pode falar um pouquinho como ele era?

 

R – Ah, ele era muito... Eu não tinha muita convivência, eu conhecia assim, muito de vista, porque ele ia pouco em Uberaba. Ele não ia sempre. Quem ia muito em Uberaba era o Dr. Luiz Garcia, a esposa dele, a dona Ofélia. Eu conheci muito, tinha mais trato pessoalmente era com o seu Ataíde, que era do meu departamento. Qualquer coisa eu recorria a ele. Mas o seu Alexandrino era uma pessoa muito simpática. E o Dr. Luiz, então, nem se fala. Uma pessoa muito boa.

 

P/1 – A senhora tem alguma lembrança de algum episódio com o seu Alexandrino?

 

R – Não, não tenho, não senhor. 

 

P/1 – E o que as pessoas pensavam e falavam dele no seu grupo de trabalho ali?

 

R – Ah, o conhecimento não era muito, porque ele vinha pouco. Sabia que ele era pai do Dr. Luiz, que ele era uma pessoa muito boa, que era uma pessoa sofrida, que ele tinha perdido um filho há pouco tempo, naquela época. E era o que falavam.

 

P/1 – E com relação ao Dr. Luiz Garcia?

 

R – Dr. Luiz Garcia era uma pessoa muito boa, e ele ia sempre em Uberaba. Quando eu pedi a minha demissão, ele me falou: “Dona Paulina, o que a senhora está pretendendo fazer? A senhora não faça isso.” Ele me aconselhou muito, que eu não devia fazer, mas o coração de mãe pendeu mais. Eu sei que às vezes eu penso, foi uma loucura que eu fiz, deveria ter esperado aposentar, mas já estava feito mesmo, pronto.

 

P/1 – Quanto tempo a senhora tinha de empresa nessa época?

 

R – Nessa época eu tinha dezessete anos - ia fazer dezessete anos.

 

P/1 – Está certo. E aí a senhora mudou-se daqui de novo? 

 

R – Eu fui porque a minha filha estava em São Paulo e ela estava grávida, estava precisando de mim, e eu fui para lá ficar com ela. Se eu fosse pedir licença era pouco tempo, eu tinha que voltar. Não tinha outro jeito. Ou eu saía, ou não ia.

 

P/1 – E os outros filhos?

 

R – Os outros filhos? O mais novo ainda era estudante de Medicina, aqui. Quando ele casou, ele propôs de eu ir morar com ele em Jundiaí, porque ele era muito apegado comigo. A minha nora aceitou e eu fui, aí eu ficava perto dos três.

 

P/1 – (risos) Certo.

 

R – Eu não saía da estrada, São Paulo-Jundiaí-Campinas, Jundiaí-Campinas, Jundiaí-São Paulo.

 

P/1 – (risos) Cuidando dos netos.

 

R – É. Cuidando dos netos. Ficava um pouco com um, um pouco com outro. “Ah, hoje eu quero ir no cinema”, “hoje eu vou não sei aonde..” Vai a mãe. Não saía do ônibus.

 

P/1 – Está bem. (risos) E a senhora vinha a Uberaba com alguma frequência?

 

R – Eu vinha sempre, porque tinha minha mãe aqui ainda. Minha mãe morava com o meu irmão, mas a minha mãe foi falecer já [com] mais tempo. Minha mãe fez oitenta anos, já estava com 85 anos, então eu vinha sempre ver a minha mãe. E a minha nora também tinha família aqui. Ela queria ver os pais, os irmãos, então nós vínhamos sempre.

 

P/1 – Hoje a senhora está fixada?

 

R – Hoje eu estou fixada em São Paulo, lá no Itaim-Bibi, na [Rua] Pedroso Alvarenga, lá com a minha filha.

 

P/1 – Certo. E as crianças já grandes, né?

 

R – As crianças? O mais novo está fazendo o segundo ano de Medicina, o caçula. Fazendo lá na Santa Casa de São Paulo.

 

P/1 – Está certo. (risos) 

Dona Paulina, a senhora que acompanhou esta trajetória, desde o tempo lá do magneto, da telefonia rural, como é que a senhora vê o que vem pela frente aí para a CTBC, e para o serviço que ela pode prestar?

 

R – Ah, eu vejo cada vez mais, porque cada vez que eu me encontro com a Anita... Eu não tenho assim muito contato, porque a gente vai ficando mais velha, sai pouco, mas a Anita que me conta. Ela fala do progresso do Dr. Luiz no setor do telefone celular, até ela andou me contando muita coisa e eu acho a CTBC cada vez maior. Eu fiquei orgulhosa de saber que uma daquelas, pelo jornal… Ru não sei se estou falando certo. Tinha banda não sei o quê, era por conta da CTBC. Uma região enorme que abrangeu a CTBC.

 

P/1 – Ah, sim, isso. A banda B, o Rio e interior de São Paulo.

 

R – É, foi isso que a Anita me contou.

 

P/1 – Dona Paulina, a senhora disse que...

 

R – Hoje, o telefone… A pessoa sabe quem está chamando, pode atender a pessoa. Lá na casa da minha filha, meu genro tem um aparelho que [quando] ele está falando na Itália com o pessoal, com a filha dele lá, ele aumenta assim, todo mundo escuta e fica falando todo mundo junto. Beleza, né?

 

P/1 – Quem diria?

 

R – Quem diria. A pessoa pelejando, gritando... Nossa! Vou contar uma coisa para o senhor. Às vezes, para conseguir uma ligação o senhor tinha que falar até que era caso de morte. 

Eu tinha um rapaz que veio de uma fazenda aí, que o tio quebrou, do centro rural, então eu pus para atender. Ele só atendia em uma mesinha. Ele chamava Miguel, o nome dele. Eu não sei a localidade que ele veio, aí da roça. Aí ele falava assim: “Atenda, Uberaba, caso de morte.” Eu falei meu Deus: “Miguel, você não pode falar assim, que você vai matar quem atender o telefone de lá.” Mas às vezes para conseguir uma ligação tinha que falar que era caso de doença, que era caso de morte. Era duro, viu?

 

P/1 – (risos) Era o jeito de passar na frente?

 

R – O jeito de conseguir às vezes uma ligação de um assinante que já estava perturbando o dia inteirinho. E às vezes nem conseguia. Quando dá defeito nesses circuitos, aí não conseguia mesmo, nem poder de reza.

P/1 – (risos) Certo. isso mudou um pouco, mas o cliente continua o mesmo...

 

R – Não, hoje o cliente não precisa exigir nada, ele mesmo faz a ligação dele... Se ele não conseguir, azar é dele, ele vai brigar com ele mesmo, ele não vai mais brigar com telefonista. Telefonista hoje quase não tem mais, ligação através da telefonista acho que é muito pouco. Nem internacional tem mais. Eu lembro que lá na CTB no Rio de Janeiro tinha um setor da internacional; eu só vi, me levaram lá para eu ver. As moças, cada uma falava a língua do país que ela trabalhava, então ela tinha que saber a língua.

 

P/1 – Devia ser uma dificuldade maior ainda.

 

R – Devia de ser maior ainda. Nessa parte eu nunca entrei, não.

 

P/1 – Certo. A senhora agora está vivendo em São Paulo, mas o fato de vir para cá com frequência é mais por uma vontade de rever a cidade? Tem parentes?

 

R – E depois eu tenho meu filho, meu filho mora aqui. A Neuza foi me pegar na casa do meu filho. Meu filho, minha nora, meus netos. Eles estudam fora, mas os pais moram aqui, eles estão agora nas férias. Eu vim esses dias para encontrar com os três. 

Um está fazendo residência lá em… Um estuda em São Paulo; o outro está fazendo o Exército lá em Brasília, porque o Exército em Brasília chamou e ele teve que ir, vai terminar o estágio dele no Hospital do Exército, em Brasília. Vai terminar e volta para São Paulo, para continuar a residência dele. E o outro estuda em Catanduva, mas de vez em quando eu venho encontrar.

 

P/1 – Continua criando os netos.

 

R – Ah, eu tenho paixão por eles.

 

P/1 – Perfeito, dona Paulina. A senhora gostaria de dizer alguma coisa que a gente não tivesse perguntado? Que a senhora gostaria de ter dito e não disse?

 

R – Não, não tem nada. Tudo que eu tinha vontade de dizer o senhor perguntou e foi muito bem perguntado, senão eu não falaria, porque às vezes a gente quer falar uma coisa, mas não lembra. E foram muito boas as perguntas. Eu fiquei muito satisfeita, espero que tenham gostado da minha entrevista, que tenha valido para alguma coisa.

 

P/1 – Sempre vale. O que a senhora teria para dizer para uma pessoa que fosse começar a trabalhar amanhã na CTBC?

 

R – Ah, que ela fosse com muita fé e muita vontade, que ela vá adiante. Se ela tiver perseverança, vontade de trabalhar… Eu acho que não é só a companhia que tem que fazer pelo empregado; o empregado tem que fazer força também. Ele tem que entrar com vontade, não ter medo de trabalho, que ele vai. O patrão que vê um bom empregado… 

Olhe um diretor como o Dr. Luiz. Ele não tinha tanto contato assim comigo porque foram poucos anos que eu fiquei depois da compra da CTBC, né? Ele me falar: “Não faça isso, dona Paulina. Por que a senhora quer sair da nossa empresa?” Eu saí porque eu precisava sair e ficar com as meninas, mas isso para mim foi muito bom. Saber que eu não fui mandada embora ou que deram graças a Deus de eu ter saído, que iam sentir a minha falta. E eu deixei em meu lugar uma pessoa de muita confiança. Aliás, era o que eu queria falar, da Rosa Maria Pucci, que fui eu que indiquei para ficar no meu lugar, porque era a pessoa de maior confiança que eu tinha ali, era meu braço direito. E, de todas, a Abadia, que fez entrevista, todas essas meninas eram ótimas. Elas não eram... Eram como minhas filhas, eu tinha confiança de falar, o que eu falava para minhas filhas eu falava para elas.

 

P/1 – Dona Paulina, como é que a senhora se sentiu e o que a senhora achou de ter dado esse depoimento para nós?

 

R – Achei ótimo, achei muito bom. Não me senti nem um pouquinho inibida e gostei muito.

 

P/1 – Que bom, a gente também.

 

R – Fiquei realizada. (risos)

 

P/1 – (risos) Está bom, dona Paulina, muito obrigado, viu?

 

R – De nada.

 

P/1 – Pela sua gentileza.

 

R – De nada, sempre às ordens. E quero que o senhor, por fim, dê um grande abraço no Dr. Luiz, na dona Ofélia, que eu sempre estou lembrando deles. Eu tenho a foto lá, às vezes eu pego na caixa de fotos para lembrar, e me lembro com saudades.

 

P/1 – Muito bem, está ótimo. Será dado o recado.

 

R – Obrigada.



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