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História

Sindicato solidário

História de: Roberto Liáo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/01/2022

Sinopse

Nascido no Rio de Janeiro, Roberto morou em Brasília de 1973 a 1977, quando voltou para o Rio. Fixou-se em definitivo em Brasília em 1984, mas ainda nutre carinho pela cidade natal, além da paixão pelo futebol. Roberto chegou à capital federal num momento de grande efervescência política. Foi admitido, por concurso, como professor da rede pública de ensino do DF em 1989, quando se filiou ao SINPRO. De lá para cá, tem participado de todas as mobilizações lideradas pelo sindicato.

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História completa

Papai foi servidor do Banco do Brasil durante muitos anos e na década de 1960 ele se transferiu para o Banco Central, uma das razões da gente ter vindo morar em Brasília, em 1973. Em 1977, voltei só com mamãe para o Rio. Concluí o ensino médio e faculdade na UFRJ, e depois voltei para Brasília, em 1984. Eu nasci [no Rio] no bairro de Botafogo, vivia no Flamengo, morei em Laranjeiras, e para nós o futebol é algo que é uma marca registrada na cidade do Rio de Janeiro. Botafogo é o bairro que deu origem ao Botafogo, clube de futebol, glorioso Botafogo, o Flamengo é uma das paixões da nossa vida, herdada familiarmente desde o vovô: tenho flâmulas aqui da década de 1940, que era do meu avô, e eu com seis, sete anos já estava no ombro do papai, na geral [do Maracanã], assistindo aos jogos. Laranjeiras é o bairro que abriga o Fluminense, Fluminense esse que deu origem ao departamento de futebol do Flamengo. Eu morava próximo ao Aterro do Flamengo, eu tenho fotos de pequeno brincando com meu irmão, com quatro, cinco anos, brincando na construção do aterro, uma área que foi aterrada na orla carioca, que é um lugar belíssimo, encantador. Literalmente era a nossa praia, porque na praia do Flamengo, de um lado, você visualiza o Pão de Açúcar e o bondinho, e do outro lado visualiza o Cristo [Redentor]. São imagens emblemáticas e absolutamente espetaculares, que permeiam até hoje a minha vida, e a minha casa, com fotos, com cartazes, com pôsteres. Então essa história da praia, em especial a praia do Flamengo, e o Maracanã, são determinações muito vivas na nossa memória, que a gente guarda com muita alegria, com muito carinho. [Quando me fixei em Brasília] era época do processo de redemocratização, anos 1980: luta pelas diretas, em 1984, a criação dos partidos políticos, a criação do Partido dos Trabalhadores no início dos anos 1980, a criação da Central Única dos Trabalhadores a partir da CONCLAT [Congresso das Classes Trabalhadoras], em agosto de 1983, enfim, todas essas lutas, com a ditadura cívico-militar dando sinais de esgotamento, criaram as condições objetivas para que os trabalhadores se apresentassem novamente. E nós tínhamos um sindicato [SINPRO-DF] que, se formalmente havia sido fundado em 1979, tinha em sua direção companheiros que fizeram parte de agrupamentos que fizeram a resistência [à ditadura]. Ingressei na Secretaria de Educação em maio de 1989, durante uma greve: toma posse, se apresenta na Regional de Brazlândia e imediatamente vai para o [estádio] Mané Garrincha para participar das assembleias. Este é o nosso cartão de visita: é o acolhimento, as boas-vindas que o movimento sindical deu a um conjunto de trabalhadores que tomavam posse e, se não no mesmo dia, na mesma semana já estavam no quadrilátero do antigo Mané Garrincha, que [tem] uma história de lutas e é um lugar de definições dos nossos movimentos desde muito cedo. Toda a preparação das nossas lutas, por conta das deliberações e da necessidade da defesa da profissionalização da educação, da conquista dos planos de carreira, faz com que o nosso sindicato se mantenha em movimento permanente. Ele não tem o movimento trienal, por conta das eleições internas, ele não tem movimento quadrienal, por conta das eleições gerais. Ele é um sindicato que desde a primeira hora, ao se reconhecer como sindicato de uma fração de classe, e de uma categoria profissional como a nossa, de docentes, ele se coloca em processo de revolução permanente. Não tem interstício, não tem intervalo. Eu já participava das lutas do nosso sindicato na escola privada, então não era estranho para mim a metodologia de trabalho que o sindicato organizava: as assembleias descentralizadas, para envolver os trabalhadores de cada uma das Regionais de Ensino, e à época tínhamos onze Regionais de Ensino, e uma direção colegiada, que era algo que se contrapunha a uma cultura da hierarquização das relações sociais. Você tem uma direção colegiada, mas, afinal, quem é o presidente ou a presidenta do sindicato? Uma das decisões políticas de maior densidade na horizontalização das relações sociais e políticas foi a decisão política do nosso sindicato em não mais ter um sistema presidencialista, mas uma direção colegiada. Isso era emblemático no projeto societário, nas lutas, e na perspectiva de sociedade nós vislumbrávamos, queríamos e continuamos a querer construir. Uma sociedade na qual se reconheçam a diversidade e a pluralidade de cada ser humano, [em que] não se estabeleçam hierarquias nem por divisas, nem por titulações, nem por holerites mais ou menos adensados, mas que sejam reconhecidos como determinações de uma mesma realidade. [Para] os sindicatos de classe não corporativos, que não se vinculam somente às suas pautas, a mediação com o real é a sua pauta, a mediação com o real é a defesa dos trabalhadores da sua área de intervenção, a sua matriz. O nosso sindicato é dos professores, mas é um sindicato dos trabalhadores em educação e um sindicato de trabalhadores. Vincular as nossas lutas, sermos solidários, e não somente no quadrilátero geográfico do Distrito Federal, mas pelo espaço estratégico em que nos situamos, na capital da República Federativa do Brasil, não temos movimentos nacionais ligados aos interesses dos trabalhadores que não passem pela luta, pela solidariedade, pela força material do Sindicato dos Professores. Sejam eles ligados aos trabalhadores da educação ou às lutas mais amplas em defesa do trabalhador e do trabalho – por extensão, da vida digna para todos. É uma casa que acolhe amplas frações de classe, inclusive os movimentos sociais organizados, não somente os sindicatos. Nós temos uma aliança muito forte como os trabalhadores sem-terra, com os trabalhadores sem-teto, enfim, todos aqueles trabalhadores que lutam pela dignidade da vida, lutam por dar força material àquilo que o “livrinho verde” que foi escrito lá em 1988, com muita luta, reafirma como direito social. Seremos aliados desses movimentos que afirmam palavras aparentemente perdidas no texto de uma legislação, mas elas ganham força, ganham vida, quando cada um de nós, com os nossos chapéus, com os nossos carros de som, com os nossos protetores, estamos bradando ali as palavras de ordem, representando a muitos milhares e milhões de companheiros pelo Brasil afora. Quando a gente levanta as bandeiras “o SINPRO somos nós, é nossa força, é a nossa voz”, não é tão somente uma palavra perdida ao vento, mas de fato ela representa aquilo que o SINPRO se tornou desde 1979, e na minha vida desde 1984, nas nossas lutas diárias.

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