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Simone, suas flores e crochês

História de: Simone Marques de Oliveira Alves
Autor: Instituto Lina Galvani
Publicado em: 09/11/2018

Sinopse

Sou Simone Marques de Oliveira Alves. Resido em Luís Eduardo Magalhães (BA) e vou contar a história que me trouxe aqui e que me tornou artesã.

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História completa

Sou Simone Marques de Oliveira Alves. Resido em Luís Eduardo Magalhães (BA) e vou contar a história que me trouxe aqui e que me tornou artesã. A cantora Kátia estava no topo da parada de sucessos nas rádios. Eu, então pré-adolescente, aguardava ansiosa que o hit Não está sendo fácil entrasse na programação. Também cantava junto quando Sábado, de José Augusto, ecoava no aparelho. Tinha o desejo de escrever longas cartas para a emissora contando quem eu era, o que gostava de fazer e quais músicas sugeria. Porém, o envelope ia para os Correios apenas rabiscado com o nome do artista e a canção preferida. Sentia muita falta da escola por isso. Nessa época, eu tinha apenas 14 anos, mas o peso de um adulto nas costas. Nascida na zona rural de João Dourado, na Bahia, desde criança eu ajudava minha mãe a montar a barraca de comida na feira. Quando tinha 12 anos, minha professora na escola rural percebeu hematomas em meu corpo, soube das agressões em casa e pediu permissão para me levar para morar consigo. Eu iniciava ali uma peregrinação por casas de família, como empregada e babá. Essa rotina já não comportava a escola. Em um dos trabalhos, fui abusada pelo patrão - trauma que represei por quase três décadas. Deixei guardado numa caixinha, escondido. Aos 15 anos, embarquei com minha irmã, de 13, para Salvador. Cada uma já estava "prometida" a uma família na capital. A vida não foi fácil na cidade grande. Por sorte, cruzei com alguns anjos pelo caminho. Guardo com um carinho especial a história do casal que aceitou contratar-me, mesmo grávida de meu primeiro filho, a ida com eles para a maternidade e a ajuda que deram na construção da minha casa. Lembro também da minha avó, que me acolheu, mesmo quando a sociedade considerava vergonha ter uma mãe solteira na família. Recordo o senhor que me ajudou e assumiu o papel paterno na criação dos meus dois filhos. Quando ele faleceu, não suportei a dor: era hora de sair da capital. Cheguei em Luís Eduardo Magalhães em 2000, influenciada pelos meus irmãos, que vieram anos antes, atraídos pela fartura de emprego na cidade em franco crescimento. Alternando os trabalhos mais diversos, de camareira de hotel a vendedora de loja, comprei um terreno onde levantei, em mutirão, uma casa de um cômodo. Em 2014, tive uma experiência que considero um divisor de águas. Fui cuidar do projeto ANA, uma casa que acolhia mulheres em situação de risco. Me via nelas. Estava retribuindo para alguém o que fizeram por mim no passado. Foi algo que me preencheu. Nesse período, aprendi uma atividade que viria ajudar-me a enfrentar um período de depressão: o crochê. Troquei os remédios pelas agulhas e linhas e recuperei o sorriso farto, minha marca-registrada. Sentada na frente de casa, tecia os tapetes que chamavam a atenção das vizinhas, ansiosas por aprender a técnica. Passei a dar aulas para elas. Fazia um modelo, vendia, comprava linha e chamava as meninas. Decidi oficializar a prática no projeto Três Flores e Crochê, com aulas periódicas na sede caprichosamente preparada nos fundos da minha casa. A história se espalhou até chegar aos meus amigos da Igreja. Por intermédio do pastor, eu soube das reuniões que o Instituto Lina Galvani estava fazendo para apresentar seu programa de desenvolvimento comunitário em Luís Eduardo Magalhães. Animada, comecei a participar das capacitações que prepararam os moradores na elaboração de propostas para o edital Ideias e Ações, com o objetivo de apoiar iniciativas que contribuissem para a melhoria da qualidade de vida nos bairros Jardim das Acácias, Jardim dos Ipês e Vereda Tropical. Estava feliz da vida por ter a coragem de dizer a todos que eu tinha um projeto. Era um orgulho para mim! Nas oficinas, aprendemos a organizar e formular nossas propostas. Eu tinha a ideia, mas não sabia como colocar no papel. As aulas me deixaram muito mais aberta e tranquila. Os encontros também foram uma oportunidade para eu ter contato com mais pessoas que estavam desenvolvendo iniciativas interessantes de melhorias para a comunidade. Foi maravilhoso! É muito bom conhecer tanta gente que tem um coração bom, que pensa em ajudar outras pessoas. Mesmo se meu projeto não fosse escolhido eu já estava no lucro por todo aprendizado. A cada encontro, eu voltava para casa mais alegre e cheia de esperança. Tinha gente que dizia que eu estava sonhando demais, mas, sempre que pegava as agulhas, sabia que viria algo de bom para mim. O pressentimento estava certo: o Três Flores e Crochê foi um dos selecionados no edital. Com o apoio, eu tive a chance de expandir a ideia que cultivei nos fundos da minha casa para outra comunidade de Luís Eduardo Magalhães, o Jardim das Acácias. Porém, eu tinha mais um desafio pela frente: encontrar um local naquele bairro para dar as aulas. Na volta de uma das buscas infrutíferas com esse objetivo, encontrei por acaso uma antiga vizinha e contei meu dilema. Lembro com emoção o que a minha amiga disse: "Simone, você foi um anjo para mim quando cheguei aqui sem nada e, no dia que minha panela de pressão explodiu, você me deu uma nova. Eu moro agora no Jardim das Acácias e minhas portas estão abertas para você dar as aulas lá". O depoimento soou como música para meus ouvidos.
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