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História

Silvana, a magia da moda e da bruxa do bem

História de: Silvana Caetano
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Silvana Caetano nasceu em 13 de abril - Áries no comando. As primeiras lembranças estão na infância, na casa da avó, o frango pulando no quintal, as tias, a mãe, o bisavô. Depois a escola e as brincadeiras, a adolescência, o primeiro emprego, o “mico” do primeiro beijo - ganhou um puxão de orelha da mãe. O amigo com quem sonhava casar-se, mas que fez sua opção sexual. O namoro e o casamento, que durou três décadas e extinguiu-se com a vida do marido, assim, num piscar de olhos, fazendo-a iludir-se que ele simplesmente tinha ido ali e já voltava. Ou não voltava. Que foi o que aconteceu. Mas teve força e determinação, seguiu em frente. Os filhos, a volta ao trabalho, o renovar-se através dos netos, o ir fazendo, conquistando. Diz não ter sonhos, mas tem mágicas de bruxa do bem que encantam os netos.

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História completa

Silvana Caetano, paulistana, ariana - 13 de abril de 1956, uma sexta-feira Santa. O combinado era me chamar Isabel Letícia, acabou ficando Silvana. Minha mãe é meu ídolo; a figura paterna foi ausente. Minha avó materna, descendente de índio, magrinha, pequenininha, fumante desde os sete anos de idade, foi quem praticamente me criou até os dez anos - eu só estava com a minha mãe nos finais de semana. Ou na casa dela ou na casa da minha avó mesmo. Após os dez anos eu passei a ficar com a minha mãe. Digo que tive quatro mães: a mãe verdadeira, a avó materna, a tia mais velha, a tia mais nova. Minha avó era uma cozinheira e tanto: Ela matava o frango lá no quintal. Destroncava o pescoço do frango e deixava pulando no quintal. Mas eu ficava mais tempo mesmo era com meu bisavô. Lembro até hoje da carne bem picadinha, de panela, que ele fazia. A panela ficou para mim quando ele se foi. Era violeiro, daqueles de sentar no banquinho, tocar e cantar. Minha avó me levava para o colégio. Colégio de freiras. A lembrança assim mais constante que eu tenho dessa escola é das aulas de religião: eu, frequentemente, era mandada para fora de sala de aula. Achavam que as minhas perguntas eram provocativas. Ou, no mínimo, impertinentes. E eu tinha uma visão própria de religião. Por exemplo, promessa. Eu nunca fiz promessa, porque sempre me pareceu que religião, fé, crença, não é troca. Nunca fiz troca nem para passar de ano. Ainda com relação à infância, guardo recordações das brincadeiras - comidinhas, queimada - mas nunca na rua, sempre em casa, com o pessoal de casa. E ainda criança tenho uma lembrança assim de que talvez tenha pensado em ser enfermeira. Mas não aconteceu. Talvez porque, na minha vida, tudo sempre foi assim… Nada foi agendado, planejado. E até, quem sabe, pelo tipo de vida que eu tinha, familiar, de passar fins-de-semanas com mamãe, e os compromissos acontecerem sem uma programação. Diziam até, na época, que eu era vanguardista. E as minhas companhias constantes eram a minha mãe e as amigas dela. Inclusive, lembro bem do filho de uma delas, meu melhor amigo da adolescência, por quem eu sentia mais do que amizade. Meu sonho era casar com ele. Sonho que se desmanchou quando fiquei sabendo que ele era gay. Coincidentemente hoje, que eu herdei de minha mãe uma representação de moda, o meu universo é predominantemente gay. Mas, enfim, na época fiquei triste; todavia, ele continua a ser meu amigo até hoje. Mas aí, adolescente, eu tinha muitas paqueras, não é? E, curiosamente, eu tenho uma amiga, da minha idade, cujo marido fala para mim assim: “Olha, eu só conheci fulana porque você estava lá; porque eu queria paquerar você…”. Mas na adolescência tudo acontece rápido, e ao mesmo tempo. Pelo menos comigo foi assim. O primeiro beijo, aos treze anos - minha mãe viu, foi lá e me pegou pela orelha; o primeiro emprego, aos dezesseis anos; o primeiro namorado firme - virou marido, ele quase dez anos mais velho do que eu. Um casamento que acabou durando trinta anos, ou seja, até a morte dele. A propósito, eu não queria casar;”imagina ir à igreja casar”, eu pensava. Assim, não teve planejamento, coisa bastante simples - igreja e Cartório. Só. E convidar lá uns amigos. Um dia no Cartório, o outro na igreja. Pronto! Agora, o começo de vida a dois, pelo menos no quesito cozinha, foi frustrante. Senão desastroso. Eu resolvi fazer um picadinho, na presunção de que todo mundo gosta de picadinho. Todo mundo, menos o meu marido. Serviu, ao menos, para eu me tornar uma boa cozinheira - aprendi com minha sogra. Mas acabou dando certo. Tivemos dois filhos. O primeiro deles recebeu o mesmo nome do bar onde eu e meu marido nos conhecemos. Na verdade, foi até engraçado: esperávamos a Maria Amélia e veio o Gustavo. Mas foi tranquilo. Não senti nenhuma dificuldade, nenhuma insegurança, nunca tivemos problema sério com doença, nada. Só que, naquele tempo, apenas as mães cuidavam das crianças. Não tinha a participação dos companheiros, como a gente vê entre tantos casais hoje. Aí, quando os meninos cresceram, a ponto de não exigir mais cuidados em tempo integral, eu fui viver um pouco. Voltei a trabalhar. Na verdade, sempre gostei de trabalhar, sair, me comunicar, me ocupar, me agitar, me envolver. E ganhar, para poder gastar. Também sempre gostei de gastar. Quando tem pouco, eu gasto pouco; mas quando tem muito, eu gasto muito. E assim foi indo. Em determinado momento, a diferença de idade entre o casal dificultou algumas coisas, mais assim do ponto de vista de interesses, visões de mundo. E houve, também, depois de trinta anos, uma certa acomodação no casamento. Então, de um momento para o outro, ele faleceu. Inesperadamente. Eu, de início não conseguia sequer admitir a morte, não é? Para mim é como se ele simplesmente tivesse ido embora de uma hora para outra. Mas, como tudo na vida, passou! E eu fui fazendo, enfrentando, superando, etc. Viajei, fui para a Europa, conheci um grande amigo, mas não se pode falar em relacionamento porque o meu signo não gosta de relacionamentos, gosta sempre de estar no comando. E depois, eu trabalho com moda. Significa que meu mundo é gay. Assim… Hoje, eu me sinto renovada. Por quê? Porque, como eu costumo dizer sempre, ter netos é um fator de renovação para nós e nossas vidas Eu os tenho e digo para eles que a avó deles é uma bruxa - uma bruxa do bem. Porque ela faz um monte de mágicas: ela lê, ela escreve, ela pinta, ela cozinha… E ainda gosta de vassoura e tem uma aranha em casa. Além disso, ela não planeja nada e nem tem sonhos.

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