Busca avançada



Criar

História

'Seu' Ugo: Testemunha de transformações

Sinopse

Ugo Souza Trajano nasceu em 10 de agosto de 1938, na cidade de Pombal-PB. Em casa, eram onze filhos, pai e mãe. Desfrutavam de algum conforto: o pai era fazendeiro. Perderam tudo. Com 12 anos veio para São Paulo, trabalhou no comércio. Na terra natal, ficaram as lembranças do que tinham, do que produziam, da casa digna, da escola. Saiu do Exército terceiro-sargento. Chegou às Lojas Pernambucanas há seis décadas. Está ainda por lá. Tem uma história de muita proximidade com a empresa, decididamente, parte de sua história. Tem a gratidão da família fundadora. Tanto que o incumbiram de criar o Memorial. Ninguém melhor do que ele que é testemunha e partícipe das maiores transformações do grupo.

Tags

História completa

Ugo, sem ‘h’. Foi assim que meu tio sugeriu que eu me chamasse. Um tio que teria uma importância no meu futuro, não apenas pelo que ele transmitia, mas por gostar de mim como a um filho, e por ter inspirado a minha perseverança no estudo. Portanto, Ugo Souza Trajano, nascido em Pombal, Paraíba. Quando? 10.08.1938. Trajano veio do avô português, o único que conheci. Dizem que filho de índia com holandês que aportou nas terras de lá. Do pai, meu pai herdou propriedades – seis ao todo – com plantação, engenho, rapadura, etc. Uma casa boa, grande, de tijolos, alpendre na frente, e muitos empregados tocando a produção. Tudo isso lá na nossa Pombal, de onde eu saí com apenas doze anos. Infelizmente, meu pai não soube administrar. Ainda por cima, resolveu se por de braços dados com o vício – jogo de cartas. O resultado não poderia ter sido mais desastrador: prejudicou os onze filhos, a mulher e ele próprio. Com doze, quatorze anos já tínhamos vindo para São Paulo e eu, o sétimo ou oitavo da escadinha, já “ralava” numa doceria. Ôôô, diferença! Lá, a gente tinha mesa farta, empregados para servir, conforto. Na Pauliceia, a casa minúscula para nove, a marmita sendo esticada com retalhos de frios que eu ganhava na feira – na verdade, trabalhava em troca de. O advogado que eu queria ser, igualzinho ao meu tio-exemplo, acabou empregado de uma charutaria e restaurante.

(…) eu juntava todo o dinheiro que entrava e levava para uma das sócias. Eu apertava a campainha, ela aparecia lá em cima, eu amarrava aquele bolo de dinheiro embrulhado em jornal, e ela puxava por uma cordinha. ‘Tchau’.

Na época própria, ingressei nas Forças Armadas. Aproveitei para crescer. Logo de início, consegui terminar o curso de admissão ao ginásio. Em seguida, fiz o curso para cabo. Quando dei baixa, já era terceiro sargento. Melhor que ser apenas “formado no primário”. Jovem, um pouquinho só estudado, cheio de disposição e sonhos, já meio vocacionado para o comércio, o varejo, tratei de ir à luta por um emprego. Nem precisava ser bom. Nem fazia questão de carteira assinada. Nem de uma grande empresa. Com a graça de Deus, tudo isso foi o que veio para mim. Uma empresa responsável, carteira assinadíssima, uma colocação na empresa referência do varejo nacional: Lojas Pernambucanas. Foi uma festa para mim. E em casa. Sem saber, ali se iniciava uma parceria feliz que já dura, praticamente, seis décadas. Um espaço onde pude experimentar, ao longo desse tempo, dedicação e reconhecimento; estímulos e gratidão; sucesso e aprendizagem; e uma forte ligação sentimental. 

Se da família recebi princípios e valores que me formaram como cidadão e como ser social; se até hoje sinto a influência de tais ensinamentos, do ponto de vista da carreira que empreendi eu recolhi lições que permanecem. A própria empresa me ensinou a ter firmeza nas minhas atitudes; a ter amor ao patrimônio empresarial, porque um pouco eu construí; a ter respeito pelo legado que a força do trabalho deixa. Aprendi a valorizar as pessoas; o verdadeiro significado do trabalho em equipe. E assim, fui conseguindo ocupar espaços na organização: cuidando de hora extra; assumindo o Recursos Humanos; a gerência, ainda que provisória, de um armazém em fase de transferência; uma subgerência na Propaganda. Só nessa área fiquei trinta e três anos. Se, por um lado, tenho a convicção de que soube servir, com lealdade e dando o melhor de mim, por outro, tenho inúmeras provas do reconhecimento da empresa. Como também tenho guardadas comigo lições de correção, de caráter, de humanidade, de honestidade, dos gestores da organização. Exemplos de humildade, de simplicidade, de elevação espiritual. Coisas aparentemente menores, mas de um grande significado. Como o neto do fundador que, ao chegar à empresa, fazia questão de cumprimentar todos os funcionários que encontrasse, chamando-os pelos nomes. Demonstrações, nos altos escalões, de preocupação com o outro; providências que deixavam entrever sensibilidade em relação à justiça social; lições de gratidão.

A minha ida para a Propaganda significou uma nova etapa na minha carreira profissional, acompanhando a evolução que se observou, na estrutura da empresa, relativamente à divulgação de seus feitos, de seu crescimento, de sua solidez e da identificação cada vez maior com os anseios do público consumidor. Porque cada inauguração de uma nova loja representa que ela está presente em um ponto a mais do território por onde se distribuem seus clientes. Mas, naquela época, o que havia era o chamado ‘Controle de Filiais’: o gerente organizava o evento, convidava a população e as autoridades, pedia a bênção do padre e registrava por, muitas vezes, precárias fotografias. E aí ele guardava as fotos, mas fazia questão de enfiar uma em um envelope e endereçar: “Ugo Propaganda”. Essa era a “técnica”, a solenidade da inauguração. Dessas fotos, em parte, nasceu o Memorial. O registro, a preservação da memória dos passos da empresa ao longo do tempo e dos acontecimentos. Isso, pode não parecer, mas congrega. Como também as iniciativas no campo do esporte, do lazer, da convivência, dos projetos que vão modernizando a corporação. Isso ficava muito evidente no Grêmio Recreativo, que eu também assumi, em determinado momento. 

E assim, graças ao meu envolvimento com as áreas mais sensíveis da empresa – a criação de uma memória; a integração proveniente das atividades extra trabalho; o contato, respeitoso porém um pouco mais próximo, com a família fundadora – eu pude acompanhar mais de perto as transformações marcantes das Lojas Pernambucanas: por exemplo, o momento de agregar eletroeletrônicos e confecções às suas vendas tradicionais. E que sucesso! E aí descobrimos que a ampla aceitação originou-se da relação de confiança, que se estabeleceu, ao longo dos anos, entre Pernambucanas e a comunidade. E isso é algo que decorre do procedimento reto, da lisura na interpretação das regras comerciais.

Avisaram a um dos diretores que o IPI para tênis era muito alto e que havia uma forma de contornar essa questão. O tênis, então, era considerado produto supérfluo. Já o calçado não. Então, a saída seria indicar ‘calçado’ para fugir daquela alíquota. Ele disse: “Não, o nome do produto é tênis, lança tênis. E vamos comprar”.

Quer dizer, estava implícita nessa mentalidade do que é justo e do que é honesto, a proximidade dos princípios da empresa com os valores morais que a população admirava.

São coisas como essa que explicam a permanência da Pernambucanas por cento e dez anos, não obstante todas as dificuldades e adversidades que enfrentou. E que estão contadas num lugar que, praticamente, me incumbiram de dar forma e conteúdo. E haja conteúdo. O Memorial das Pernambucanas.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+