Busca avançada



Criar

História

Seu Paulo: simplicidade e vitória

História de: Paulo José dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/10/2017

Sinopse

Paulo José dos Santos, nascido em Caculé, interior da Bahia, no dia 15 de fevereiro de 1952, relata sua trajetória de vida até fixar-se em São Paulo, e daí até os dias atuais. Aqui chegou solteiro, voltou para sua cidade, casou e aqui ficou para sempre. Veio fazer o que sempre fez a vida inteira, desde que deixou a Sabesp, seu primeiro emprego: trabalhar com a carne, carregando para lá e para cá, desossando numa segunda etapa de aprendizagem, mas sempre com dedicação e responsabilidade. Da infância, não guarda lembranças, exceto o trabalho duro na roça e a morte da mãe, quando tinha seis anos de idade. Da fase adulta, tem a lembrança do trabalho incansável e de uma vida de retidão. Da velhice - ou quase - lembra do apagar de suas forças, consumido que foi por um câncer. Mas também recorda o dia da alta médica, o dia da vitória definitiva contra a doença. Todavia, registra, também, coisas boas. Como as festas que promovia na sua rua, churrascão de primeira e sonzão sem limites; como a volta aos estudos; como o amor incondicional aos netos, e o carinho que deles recebe.


História completa

Nasci no interior da Bahia, numa cidade chamada Caculé, em 15 de fevereiro de 1952, filho de lavradores. A gente - os filhos dos três casamentos de meu pai - não podia estudar; estávamos destinados ao serviço da roça. Aos seis anos de idade perdi minha mãe, que uma doença levou. Tenho dela vagas lembranças. Minha avó materna foi quem nos criou - a mim e a meus irmãos que minha mãe deixou pequenos. Minha infância foi sempre, e desde sempre, a roça. Nesse ponto meu pai era, digamos, durão. De modo que não havia brincadeiras nem estudo: a escola ficava a quilômetros do local onde morávamos. Lembro, tão somente, de alguma tentativa de ensinar.


Aquelas mulheres que gostavam de ajudar as pessoas, davam aula. Então: “Vamos juntar essa garotada aqui da roça e vamos ensinar a ler e a escrever, fazer alguma coisa”.

 

A gente quase não ia à cidade, porque era longe, muito longe, e tinha que ir a pé - hora e meia, duas horas de caminhada. Quando ia, era para vender o que produzia e fazer a sua feirinha - uma carne, uma mistura. Com dezoito para dezenove anos eu resolvi que queria sair de lá. Achava que estava sofrendo muito: não tinha uma roça, não tinha estudo, não tinha nada. Se precisasse de uma roupa, um chinelo que fosse, ficava na boa vontade do pai dar. E quando dava, não era assim uma roupa boa. Acabei saindo de lá quando minha irmã casou e veio para São Paulo - eu era extremamente apegado a ela.

 

Mas, uma das pessoas que eu mais amei na vida foi a minha irmã [...] minha irmã, para mim, é tudo, é tudo assim…

 

Aí, vim para São Paulo passar um tempo com essa irmã. Arranjei um emprego de ajudante na Sabesp - poderia ter chegado a meio-oficial se não tivesse ido para o Frigorífico Anglo, carregado por meu cunhado. O fato é que voltei para a Bahia, para Caculé, casei e retornei a São Paulo, de trem. Já são mais de 40 anos de casado. No Frigorífico trabalhei duro, sempre como ajudante. É um trabalho pesado, mas é o que aparece para quem, como eu, “tem leitura muito fraquinha”. Com o tempo, passei para o serviço de desossa da carne, trabalhando no açougue. Meus filhos ainda eram pequenos quando o Marcos Bassi, famoso no segmento da carne, convidou-me para trabalhar nos Estados Unidos, mas aí eu precisaria deixar a família aqui. Fui não.

 

Hoje, aos 65 anos, estou aposentado - por sinal, mal aposentado - por invalidez, em função de um câncer que me corroeu por muitos anos, sem eu saber que era câncer. No dia do meu aniversário, fiquei livre desse câncer, segundo o médico, que me deu alta como presente de aniversário. Fiz cirurgia, fiz quimioterapia e fiquei curado.

 

No mais, tenho a dizer que voltei a estudar, que curto demais os meus netos, que sempre vivi em Itaquera, em algumas casas, e que meu sonho é ter a minha casa própria. Aquela em que moro hoje é alugada, por sinal está à venda - vou ter que sair quando for vendida - e estou nela há 18 anos. A rua em que moro é o lugar onde me dou com todos, onde faço festa, até casamento já fiz, começando às seis, sete da noite de um sábado e se estendendo até às oito da noite do domingo. Minhas festas tinham carne à vontade - que eu ganhava, não é? - e um som que eu comprei pequeno, para o meu filho, e hoje é enorme.

 

O som é tudo. Para mim, escutar música é tudo que eu gosto. [...] Meu filho fez 15 anos e eu fechei a rua de ponta a ponta; churrascão era assado no quintal, mas a carne era distribuída na rua, carne na rua. Até a Prefeitura foi tirar meu som… “Quer comer e beber, come; senão, não tem nada não”. O que mais já aconteceu de importante para mim, na vida, foi isso.

 

 Editado por Paulo Rodrigues Ferreira

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+