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História

“Seu” Neves e os caminhos do mundo - da pequena aldeia à aldeia global

História de: José Carlos Neves
Autor:
Publicado em: 28/06/2019

Sinopse

José Carlos Neves nasceu em uma pequena aldeia de Trás-os-Montes, Portugal. A mãe não resistiu ao parto, o pai foi trabalhar em Lisboa. E o menino José ficou aos cuidados da parentela - tias e avós - vivendo o trivial da aldeia, entre hortas, azeitonas, uvas, lareira e fumeiro. Fez as primeiras classes de estudo, chegou o tempo de sair para outros mundos - Lisboa, depois o Brasil. Trabalhou muito, desde os 10 anos de idade. Nem sempre ganhou - já trabalhou por casa e comida - mas sempre aprendeu. Uma escalada de experiências e vivências. Até que resolveu estudar, estimulado por pessoas que cruzaram o seu caminho. Abriu-se a desafios e oportunidades, tornou-se cidadão do mundo. Passou a viver da Literatura sem fazer Literatura. Foram anos e anos em que sua presença no mercado editorial internacional confundiu-se com a história da própria Editora. Deixa em livro o registro de tantas conquistas.

História completa

Quando chego ao rio Tejo, as águas me vão levando/ Abalei do Alentejo, olhei para trás chorando. Meu nome, José Carlos Neves. Natural de Sampaio, mui pequena aldeia de Trás-os-Montes, Nordeste de Portugal. Em 3 de abril de 1945 - ainda em curso a Segunda Guerra Mundial - eu nasci. Órfão de mãe, que morreu do parto, e praticamente de pai - que mudou-se para Lisboa e vinha ver-nos uma vez por ano, eu e minha irmã - fiquei aos cuidados dos avós e das tias. A maior parte do tempo ficava com os avós paternos, mas quando queria carinho, consolo, procurava os avós maternos ou as tias maternas - principalmente estas. Meu pai, embora ausente, nunca deixou faltar nada para a gente, nem mesmo o seu jeito autocrático, rigoroso de ser. Ainda hoje me emociono quando lembro das histórias de amor ao próximo e solidariedade que me contaram, envolvendo as mulheres da aldeia - adotavam, amamentavam os bebês que perdiam as mães no nascimento. E não eram apenas as mulheres da minha aldeia não; de todas elas. Que a mortalidade entre as gestantes era grande. Da infância, trago a lembrança de coisas pontuais - uma travessura ali; passar uma tarde inteira preso na armadilha para coelhos; as brincadeiras com estilingue, com pião; andar e correr pelas hortas - e da ida à escola, assim como de ajudar, desde sempre, nos serviços de roça, fôsse a colheita das uvas ou apanhar azeitonas. Eu sempre me vi na obrigação de ajudar na lavoura, nos serviços da família, talvez porque identificasse, nos cuidados que recebia de meus avós por parte de pai, a obrigação de criar. Mas nunca entendi, mesmo trabalhando em tenra idade ainda, como trabalho infantil como hoje tanto se condena, ou mesmo exploração. Na verdade, sinto que me ajudou a compreender melhor os valores do trabalho e da família. E hoje, eu penso na colheita, no plantio, pegando as azeitonas, retirando as uvas, isso em geral feito no inverno, sob a forma de mutirão; as lonas em volta das oliveiras; o lugar onde se espremia a azeitona; o surgimento do azeite; o pão de centeio no azeite ainda quente… Enfim, tudo isso me vem à memória como algo que suscita saudade, e até um lado bucólico, poético, lúdico da infância. Então, você estudava pela manhã, era obrigatório (...). Na verdade, as crianças da minha aldeia eram os escribas e os leitores, porque os adultos eram quase todos analfabetos. A escola ficava dentro da aldeia mesmo, junto às palhas e aos animais. Uma sala pequena, que eram poucas crianças. Aliás, a aldeia em si tinha cento e poucos habitantes - e continua assim até hoje, 120, 130 pessoas, embora vivendo na modernidade. Brincadeiras? Invariavelmente ao ar livre, em contato com a Natureza; mas alegria mesmo era nas festas da aldeia - a de fundação e a da padroeira, Santa Madalena. E os gostos, os cheiros, os costumes. A lareira, o fumeiro, as panelas de ferro, os enchidos da matança do porco - chouriço, linguiça, paio, bulho, alheira, morcela… Até que, um dia, meu pai levou minha irmã para morar com ele. Mas quando eu fiz nove anos, foi a minha vez de deixar a família da aldeia e ingressar na família de Lisboa: ele, minha madrasta, os filhos dela, minha irmã. Aí eu fui, deixei o meu mundo para trás e parti numa viagem de deslumbramento: o comboio, a cidade maior, a eletricidade, os carros, o bonde, os prédios, pessoas bem vestidas, crianças uniformizadas. Lá eu fiz a quarta classe, fui trabalhar. Aos dez anos, numa drogaria. Mas a chegada a Lisboa, no grande terminal de trens, teve em mim, aos nove anos, o efeito de estar ingressando em um ambiente interplanetário. Conheci o burburinho da cidade grande; coisas diferentes, modernas para quem havia saído de uma aldeia. Como o rádio, o próprio banheiro, o interfone, a luz elétrica. Nem futebol eu conhecia. Aí, terminei o primário e fui trabalhar, trabalhei em alguns lugares, sempre fazendo de tudo um pouco, ganhando pouco e entregando esse pouco para o meu pai. Mas foi bom, conheci o centro da cidade, ruas históricas. O Tejo era o meu mar. Era uma época em que a gente não tinha futuro, a gente só tinha destino. Eu sei que depois de três anos em Lisboa, veio a decisão de migrarmos para o Brasil. Era o “país do futuro”. Tenho recordações muito marcantes da saída de Lisboa, mais do que a viagem e a chegada aqui. O gosto amargo do lugar se distanciando; das pessoas; do nosso passado; da nossa história se afastando. Mas aqui já havia uma irmã da minha madrasta. Apareceu trabalho e moradia para todos, menos para mim. Trabalhei por moradia, dormi dentro de tabuleiro, enrolado em saco de farinha, e isso fez parte do início do meu ciclo de padarias. O ciclo enfarinhado. Esse ciclo começou eu não ganhando absolutamente nada; prosseguiu com pouco ganho, algum aprendizado, e se extinguiu. Foi substituído pelo ciclo do estudo; das conquistas; da formação intelectual incentivada por tantas pessoas que, anonimamente, passaram pela minha vida, mas que tiveram o papel fundamental de me estimular. Então estudei; passei por um processo de crescimento pessoal e social; conheci pessoas; conquistei espaço; me abri para o mundo; venci o excesso de introspecção; encarei desafios; fiz amizades; um pouco passando pelo lazer, pelas Artes; descobri a Literatura, a Filosofia, os clássicos; aprendi outros idiomas; dei aula; investi pesado em mim mesmo e nas minhas perspectivas; passei a viver de Literatura, sem fazer Literatura - ingressei na minha mais longa viagem profissional, na Editora Melhoramentos. Isso depois de ter passado por muitos lugares, acumulando experiência, aprendendo, buscando o caminho e a segurança. A minha ligação com a Melhoramentos foi quase visceral, que era uma empatia recíproca de confiança. Durou de 1980 a 2005. Uma sucessão de experiências, uma sequência de oportunidades. Uma carreira que me fez cidadão do mundo, em contato com o mercado editorial internacional, as Feiras Internacionais do Livro - passei por Unidades da empresa, chegando a chefiar 60 pessoas; só a Buenos Aires viajei 124 vezes; foram cerca de 180 Feiras. Percorri a América Latina, os Estados Unidos, a Europa, fui ao Japão. Nesses lugares, encontrei tiragens inimagináveis da literatura infanto-juvenil brasileira. Como, por exemplo, na experiência norte-americana de distribuição por cadeias de supermercados e grandes magazines. Enfim, durante 25 anos eu fui, principalmente lá fora, para a maioria dos clientes, a própria Melhoramentos. Só que isso teve um preço: a ausência do país, da família - eu não consegui estar presente a 14 aniversários do filho mais velho; perdi muito do filho mais novo, que nos deixou com nove anos. No entanto, apesar de abalos e percalços, não trago arrependimentos - fiz o que precisava fazer; não fugi ao meu destino. Acredito deixar um legado de realizações - na vida familiar; afetiva com esposa e filhos; no campo profissional; sobretudo no plano pessoal, mercê de uma formação humanística, escolhida e conquistada.

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