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História

Seu Dédinho, o bar e a mercearia 31 de Março

História de: José Nicodemus de Góes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/02/2009

Sinopse

Nasci em Caraúbas, Rio Grande do Norte. O meu pai era fazendeiro e a minha mãe era doméstica, cuidava das coisas lá da casa do meu pai. Eu trabalhei em Brasília de 1970 até 1973. Eu sou apaixonado por futebol. Bar e Mercearia 31 de Março é o nome do meu comércio. Eu era cliente do Banco do Brasil esse tempo todo.

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História completa

P/1 – Bom dia, senhor Dédinho.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Pra começar eu gostaria que o senhor dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é José Nicodemus de Góis, nasci no dia 27 de novembro de 1947, em Caraúba, Rio Grande do Norte.

 

P/1 – E por que apareceu Dédinho? Da onde vem esse apelido?

 

R – Não, esse apelido Dédinho é que meu pai todo filho ele botava um apelido, tanto fazia ser homem como mulher. Agora ele botou esse apelido em mim, nem eu sei porque, todo mundo pergunta, né, eu não sei porque esse apelido. E é pouco Dédinho que tem no Brasil, pelo menos eu só conheci um lá no Rio Grande do Norte, e até o cara dizia assim: “Ei Dédinho, quando a coisa” ... E aqui em Boa Vista não tem nenhum com esse nome. Tem Dédim Gouveia, mas é Dédim, o meu é Dédinho. Dédim Gouveia a senhora sabe quem é, né? Aquele sanfoneiro lá do Nordeste.

 

P/1 – Eu gostaria que o senhor falasse o nome dos seus pais.

 

R – O meu pai o nome dele é Cícero Gentil de Góis, nasceu em Caraúba, no Rio Grande do Norte, primeiro de novembro de 1893. 

 

P/1 – E a mãe?

 

R – Francisca Neiva de Góis, nasceu no dia 10 de novembro de 1921.

 

P/1 – E qual que era a atividade profissional dos seus pais?

 

R – O meu pai era fazendeiro, e a minha mãe era doméstica, cuidava das coisas lá da casa do meu pai.

 

P/1 – E fazendeiro assim, ele cultivava era isso?

 

R – Não, era fazendeiro porque era, a família dele era tradicional todo mundo fazendeiro lá no Rio Grande do Norte, né? O meu pai foi o seguinte: ele nasceu no século passado, em 1893, e quando morreu deixou 33 filhos. Ele morreu no dia 05 de junho de 1961, eu tinha 14 anos de idade. 

 

P/1 – Bastante irmão, hein?

 

R – Muito irmão. Agora domingo morreu um, uma irmã minha. Só em São Paulo moravam oito, morreu todos os oito já também. Ele era casado, foi casado três vezes, né, cada família. A minha mãe teve 15 filhos, 12 partos, eu tenho seis irmãos gêmeos, foi 12 partos todos normais, não teve esse negócio e era na fazenda mesmo. 

 

P/1 – Na fazenda mesmo?

 

R – Era. 

 

P/1 – Então assim, você consegue falar pra mim o nome dos irmãos do maior para o menor?

 

R – Não, o meu irmão mais velho se chamava Francisco Sinvaldo Moraes, aí tem o Manoel Gentil de Góis, tinha o Rui Lorival de Góis, o José Nicodemus de Góis, sou eu. Aí tinha o Antônio Gentil de Góis, Getúlio Gentil de Góis, isso é só os homens, né? Aí Rosilda Gentil de Góis, tinha Maria de Lourdes de Góis, Maria Antônia de Góis. Tinha Maria do Socorro de Góis, Maria do Carmo de Góis, Angelita Neiva de Góis, Damiana Neiva de Góis, Damião Gentil de Góis. Aí para lembrar mais [risos] é muito. Aí tinha Olívio Gentil de Góis. Tinha a Maria do Céu de Góis. Tinha a Neném que morreu agora também, Maria de Lourdes de Góis. Aí tem o nome dos dois maridos, sobrenome: Góis era casada com Gurgel, casada com Fernandes, casada com Silva, né?

 

P/1 – E o que que fazem os seus irmãos hoje?

 

R – Não, hoje já morreu 16, só tem 17 vivos. Aqui mora nove, aqui em Boa Vista, né? Aí os outros moram no Nordeste, tem uns que são empregados, outros aposentados, né? Um mora em Natal, o outro em Fortaleza, em Caraúbas, que é a minha terra onde eu nasci e me criei. 

 

P/1 – Tudo espalhado.

 

R – É tudo. Agora aqui não, aqui mora nove, né, era dez mas morreu um, a minha mãe morreu aqui em Boa Vista mesmo, aqui pertinho, tinha uma casa aqui. Esses irmãos da minha família da minha mãe, aí eu trouxe todo mundo pra cá, trouxe a minha mãe e veio os meus irmãos pra cá também, só tem um lá que é o mais novo, foi uma irmã minha que criou ele, é o Francisco de Assis, né?

 

P/1 – Eu queria assim, ah uma curiosidade, então o senhor é mais ou menos o filho do meio, né?

 

R – Eu sou o do meio, mais ou menos. Não, eu sou o seguinte, da terceira mulher que é do meu pai eu sou o mais velho. Porque quando o meu pai morreu, ele morreu em 1961, em 1959 nasceu o casal gêmeos, antes dele morrer ele ainda fez dois filhos na minha mãe. Hoje mora aqui em Boa Vista, a menina mora aqui, o rapaz mora lá. 

 

P/1 – Então, o senhor chegou a acompanhar muitos partos na casa quando era criança?

 

R – Muitas vezes. Até quando mamãe começava a sofrer eu corria, me escondia, pra não ver o sofrimento dela, né? Aí o pessoal ia pegar a parteira, a gente chamava ela de mãe, porque a parteira lá no Nordeste tinha essa tradição: quem pegava a gente, já pegou o filho, a gente tinha aquela obrigação de chamar ela de mãe, que era mãe Maria, mãe Antônia. Aí papai: “Manda pegar a parteira!”. Aí o vaqueiro, o Caboclo Antônio Luzia, que trabalhava com a gente, né, pegava o cavalo e ia, a parteira vinha na garupa do cavalo. Pra senhora ter uma idéia eu tive um problema nesse dedo aqui, um Panariz quando eu tinha cinco anos de idade, lá da fazenda da gente pra Caraúba era nove quilômetros, uma légua e meia a gente chamava, e pra pegar o enfermeiro pra sarar esse dedo foi quase um dia de viagem, porque é um sacrifício pra pessoa ir e tinha que ir a cavalo, e nesse tempo tinha um inverno muito grande, o rio enchia, tinha que atravessar pro outro lado, era desse jeito.

 

P/1 – Foi bom o senhor ter tocado nesse assunto porque eu queria que o senhor falasse um pouco da sua infância. Como é que era a infância do senhor, a casa, o quintal?

 

R – Nossa casa… lá a Graça foi a primeira vez e nunca tinha visto uma casa tão grande, eram 13 cômodos. Pra senhora ter uma idéia a dispensa era quase do tamanho disso aqui, era uma casa que era enorme, toda rodeada de alpendre, né, e trabalhava muita gente com o meu pai, quando meu pai era vivo era ele quem comandava tudo. Depois que ele morreu um ficou com uma parte, outro ficou com outra. Nós tínhamos muita criação de ovelhas, ele tinha mil e 500 cabeças de ovelhas, mil e 600, era o meu pai que controlava, que ele controlava com mão de ferro. Aí quando eu vim pra cá, né, eu voltei lá e encontrei com esse, a gente chamava Caboclo Antônio Luzia, aí eu perguntei dele: “Antônio, quantos anos você trabalhou lá em casa com o meu pai?” Ele disse, ele me chamava de José, “José, eu trabalhei 11 anos, 11 meses e 25 dias”, até o dia eles contavam, o caboclo não sabia nem assinar o nome, faltou 25 dias pra 12 anos. Se fosse outro “Eu trabalhei 12 anos”, ele disse: “Trabalhei 11 anos, 11 meses e 25 dias”, achei interessante isso, eu não sabia que ele tinha trabalhado esse tempo todinho lá, era o pau pra toda obra: “Vá fazer isso, Antônio!” Era quem ia pegar parteira pra minha mãe, era todo mundo, a minha mãe passava 30 dias dentro do quarto sem botar nem a cabeça de fora.

 

P/1 – Era a quarentena?

 

R – Era. Ela tinha que ficar ali, aí ela criava aquelas galinhas, aquelas galinhas no chiqueiro pra ela, era 30 dias comendo galinha, todo dia matava: “Ó a galinha pra dona”. O nome da mãe é Francisca Neiva de Góis, era conhecida como França, “Galinha pra Dona França!” “Galinha pra Dona França!” Minha mãe sofreu muito, sofreu porque o meu pai era uma pessoa muito dura, meu pai tinha 1.90 metros de altura, era um homão era muito duro ele. Ele criou a gente assim com mão de ferro, gritando e tudo. Eu comecei a trabalhar... eu nasci em 1947, vou completar 61 anos agora, 27 de novembro, comecei a trabalhar com dez anos de idade. Eu e as minhas irmãs… 1958 foi uma seca muito grande no Nordeste, uma seca grande, a gente tinha que dar água pra bode, água pra criação, queimar xique-xique, eu tinha 11 anos de idade nessa época e acordava duas horas da manhã pra fazer esses negócios. Por isso eu estudei pouco, eu comecei a estudar em 1947... Em 1957, com dez anos de idade, quando foi em 1961 que ele morreu e eu parei de estudar, estudei só quatro anos.

 

P/1 – Mas dessa época da...

 

R – Ele morreu assim... eu até senti muito a morte dele, eu era um dos filhos que ele mais gostava, ele nunca me bateu, sempre que fazíamos qualquer coisa. Mas eu senti muito a morte do meu pai porque ele sempre sonhava que eu me formasse em alguma coisa, né, aí ele morreu quando eu tinha 14 anos, morando ali no Nordeste.

 

P/1 – Eu vou voltar um pouquinho. Nessa casa então com você criança e tal, mas você tinha brincadeiras, você brincava?

 

R – Tinha. 

 

P/1 – Quem que eram seus amiguinhos? Que brincadeira que tinha?

 

R – Não. A brincadeira que tinha mais assim era, digamos, a Semana Santa que vinham os outros filhos que moravam fora. No São João que tinha aquele negócio daquela fogueira, ele comprava aqueles fogos pra gente, né? E aquela “desbuia” de feijão, “desbuia” de feijão no Nordeste quando era pequeno era uma festa, né, porque o pessoal juntava aqueles vizinhos todinhos pra, “Olha, vai ter uma “desbuia” lá na casa de Cícero da Jeruméia”, que era o nome do meu pai, Cícero de Góis, mas a fazenda, o nome da fazenda dele era Jeruméia. Lá no Nordeste é assim, o cara tem a fazenda e o cara não diz pelo nome é o Cícero da Jeruméia, todo mundo que chegasse na cidade todo mundo conhecia. Meu pai era uma pessoa tão bem quista lá que todo mundo era compadre do meu pai, e todo comerciante, quando meu pai morreu, devia pra ele. Ele era uma pessoa muito controlada, digamos, todo filho tinha ovelha, tinha gado, se ele vendesse um garrote meu ele botava, emprestava pra aquele comerciante pra ir correndo juros, naquela época, e ele anotava tudo. Ele era analfabeto, mas era uma pessoa muito inteligente. 

 

P/1 – Mas a escola, assim, apesar de ter sido pouco tempo você lembra da escola? Como é que você começou a estudar?

 

R – Lembro, lembro é Grupo Escolar Antônio Carlos, eu estudei nesse colégio. Eu comecei a estudar não foi nem no colégio, eu comecei a estudar numa casa particular que era o cara era muito amigo do meu pai, ele era professor, aquele professorzão que é do tempo da palmatória, palmatória em cima da mesa e tal. Eu era meio rebelde também, assim fazia muita presepada, né? Aí quando era dia de sábado que ele encontrava com o meu pai na feira ia contar mesmo. Aí papai fazia aquela zuada, meu pai e tal, mas quando chegava em casa ele maneirava, né? Aí eu tinha um tio que morava vizinho do meu pai que era mais, aí sempre: “É, porque se isso passa a mão na cabeça do José”, Dédinho é só mais o pessoal assim, mas meu pai só me chamava de José, meus tios, minha mãe, era José, Dédinho é apelido mas ele não, chamava pelo meu nome, né? Aí sempre tinha aquele negócio, aí depois com muito, estudei nesse colégio, colégio não, essa casinha particular, aí fui que eu me matriculei na cidade.

 

P/1 – como é que era a escola?

 

R – A escola, o nome da escola é Grupo Escolar Antônio Carlos, né, era uma escola moderna, até hoje existe lá em Caraúba, apesar de terem construído outra escola estadual, mas lá era municipal, era do prefeito, a escolinha tinha oito salas, a primeira professora que eu peguei era até prima legítima do meu pai, prima legítima do meu pai, né?

 

P/1 – O nome dela?

 

R – Maria da Conceição, tem até uma historiazinha sobre ela. Era prima legítima, era filha de uma irmã, de uma tia de meu pai, né, e ela tinha a maior raiva do mundo que chamasse ela de Maria Coroca, [risos] Maria Poroca. Aí naquele tempo tinha aqueles negros, né, a pessoa apagava e tal e ela mandou eu fazer uma, um negócio lá no quadro e tal e eu me esqueci que ela só queria que chamasse ela Maria da Conceição, “Maria da Conceição, Maria da Conceição!” Aí eu chamei ela de Maria Poroca e ela tava do meu lado assim com o apagador, né? Rapaz, quando eu chamei ela de Maria Poroca ela deu assim na minha cabeça que rachou aqui, o sangue escorreu. Isso foi uma confusão muito grande quando eu cheguei em casa, aí o meu pai teve que vir. Até a diretora era Dona Tevinha, né, era Adaltiva, a gente chamava ela de Dona Tevinha. Aí tive que falar, aí com ela eu só estudei um mês, o meu pai tirou e eu fui estudar com dona Maria Sales, que era casada com um primo. É que lá a nossa família é muito grande, família grande, muito irmão, muito, né?

 

P/1 – E o que que é Poroca?

 

R – Eu não sei nem o que é. Maria Poroca é assim tipo uma porca, né, Poroca [risos] e ela tem esse apelido Maria Poroca. Ela tá até morando em Belém hoje, o marido dela veio pra Belém e ela veio embora com ele, tá aposentada, porque todos os anos eu fecho isso aqui e vou pro Nordeste, eu passo todo o mês de janeiro, aqui é fechado e aí eu vou pro Nordeste encontrar com o pessoal da minha família e encontro com ela lá, ela se lembra desse negócio. 

 

P/1 – E o senhor ficou então até que série, até que idade que você ficou na escola mesmo?

 

R – Fiquei até os 14 anos só, de 1957 a 1961. Quando o meu pai morreu, ele morreu no dia 5 junho de 1961, aí eu terminei quando foi em 1962 eu não estudei mais. 

 

P/2 – Aí o senhor começou a trabalhar? Como é que foi?

 

R – Não, aí em 1960... nada, aí quando foi, eu fiquei lá, né, cuidando das coisas lá na fazenda com os meus irmãos e tal. Aí comecei umas farrazinhas também, a minha mãe. Aí quando foi em 1970 eu fui pra Brasília, 70, 1970.

 

P/1 – O que o senhor foi fazer lá? 

 

R – No dia 21 de janeiro de 1970. 

 

P/1 – O que o senhor foi fazer lá? 

 

R – Não, eu fui trabalhar na Cavalcanti Junqueira de apontador. Cavalcanti Junqueira era uma empresa do Rio de Janeiro que construía prédios pro Banco do Brasil, na época, né? Aí eu cheguei lá e tinha... Porque o nordestino é um pessoal assim muito unido de você, é que essa empresa que eu cheguei lá tinha um pessoal de Caraúba que trabalhava nela, chegou lá e já me empreguei lá com eles, né? Por sinal quando foi em 1973 que eu vim pra cá, eles vieram comigo, né?

 

P/1 – Mas então, foi alguém...

 

R – Eu trabalhei em Brasília de 1970 até 1973, né?

 

P/1 – Deixa eu só entender uma coisa, senhor Dédinho, o senhor tava em Caraúbas. O senhor ficou sabendo de Brasília ou alguém foi lá e chamou o senhor?

 

R – Não, porque Brasília. Brasília começou a ser construída em 1958, a senhora sabe, né, 1958. E naquele tempo o pessoal chamava de candango, e ia muito gente do Nordeste, naqueles pau-de-arara ia pra Brasília, né? E foi muita gente, hoje, até hoje a gente se encontra lá em Caraúba quando eu, é aqueles meus primos, eu tenho muito primo em Brasília, nossa família é muito grande. Aí começou o negócio começou a fracassar, eu vendendo o gadinho que eu fiquei, que eu herdei do meu pai, as ovelhas e tal. Aí comecei a fazer uma farra e tal. A última novilha que eu tinha eu vendi e fui embora pra Brasília. 

 

P/1 – E o senhor foi, como que o senhor foi?

 

R – Não, aí juntou uma turma assim aqueles meus amigos que ia no barzinho lá da praça, chamava Barzinho da Praça, aí a gente bebia lá aí dizia assim: “Embora pra Brasília, embora!” Aí um dia nós cismamos de ir embora. Porque lá no Nordeste, lá na minha cidade tinha aquela tradição: depois, que a festa de janeiro a gente chama lá festa de janeiro, que é a festa de São Sebastião, começa no dia 10 de janeiro, todos os anos vai eu e minha mulher, vai meu filho, todo mundo, né, até tenho uma casa lá que era do meu pai, a minha casa lá em Caraúba, né, eu tenho uma casinha lá, e a gente vai, aí ele disse: “Olha, vamos terminar a festa e nós vamos embora”. Aí quando é no dia 21 de janeiro nós terminamos a festa, porque vai até o dia 20 de janeiro porque tem uma procissão de São Sebastião, a gente vai pra procissão, aí quando termina a procissão todo mundo vai, aí terminou a festa. Aí quando foi no dia 21 de janeiro de 1970 eu fui pra Brasília.

 

P/1 – Antes de ir pra Brasília, essa festa é importante na cidade?

 

R – Mas muito importante! Essa festa, esse ano ela completou 150 anos, quando nasceu a cidade, que São Sebastião a gente chama São Sebastião dos Caboclos, a imagem que eles encontraram no rio e tal e levaram lá pra Caraúbas e fizeram uma capelinha, hoje é uma igreja muito grande, muito bonita. É uma das maiores festas do Nordeste, é uma festa que dá na procissão dá 30 mil pessoas, né?

 

P/1 – E o que acontece na festa? Tem comida, tem o quê?

 

R – Não, a festa é o seguinte: começa dia 10 de janeiro, tem a abertura da festa. Até na abertura da festa tem o hasteamento de todas as bandeiras de todos os estados, a de Roraima quem levou foi eu, né, a de Roraima quem hasteia a bandeira lá sou eu, porque eu sou o representante de Roraima lá. Aí começa a festa, depois da festa tem aquelas barraquinhas, né, você vai pra lá e fica bebendo ali, tem aqueles agora lá que o prefeito de Caraúba é o dono da Saia Rodada, não sei se você já ouviu falar nessa banda Saia Rodada, que é uma das maiores bandas do Nordeste, e todo dia tem uma banda diferente, né, na festa lá. Até os meus meninos adoram ir. Aí tem o dia 18, 19 tem um leilão, né, chama o Leilão São Sebastião e tem um bolo tradicional que até o ano passado eu já arrematei esse bolo por R$ 2.200, né, porque é uma tradição do nordestino: tá e o cara vai, aquela festa! Aí dia 18 tem o bolo que é o leilão dos Caboclos, que os caboclos são um pessoal tradicional lá do Rio Grande do Norte que é o dono do santo, o santo é São Sebastião dos Caboclos, né? Aí dia 18 é o leilão dos Caboclos, né, dia 19 é o leilão de São Sebastião, tem o bolo, aquele bolão bonito, a pessoa vai e todo mundo quer olhar o bolo e tal. E no dia que eu arrematei o bolo aí eu mandei cortar o bolo e todo mundo comeu, porque tinha gente que arrematava e levava pra casa, eu mandei, dei pra todo mundo o bolo, todo mundo pegava um pedacinho [risos]. É muito boa essa festa lá, eu todos os anos eu vou desde 1982. Eu, quando vim pra cá, cheguei aqui em 1973 eu passei 19 anos sem ir lá, em Caraúba, aí quando eu fui a mulher gostou, no primeiro dia ela estranhou, né, mas depois ela adorou lá.

 

P/1 – Agora é sempre. 

 

R – Quando ela agora chega lá é uma festa. Todo mundo já fica esperando: “Quando é que o Dédinho mais a Graça vai chegar? Quando é?” Aí é muito bom isso aí. 

 

P/1 – Agora vamos voltar então pra ida do senhor pra Brasília. Eu queria saber da condução, foi um ônibus? Como é que foi?

 

R – Eu fui de Caraúbas de trem até Sousa, na Paraíba. Sousa é uma cidade fazia o entroncamento de Caraúbas você pegava o trem até Sousa, era o final da linha, né? Aí de Sousa eu peguei um carro pra Campina Grande, um transporte, um coletivo pra Campina Grande. De Campina aí eu peguei um ônibus pra Brasília direto, direto pra Brasília. Aí cheguei em Brasília na rodoviária, assim de noite, com aquela malinhazinha de fibra, fazendo um frio maior do mundo, nunca tinha saído de Caraúbas pra canto nenhum, sentei assim na rodoviária e eu pensei: “Onde é que eu estou?” Aí, puta merda, foi o pior dia da minha vida, porque a mamãe quando ela soube que eu ia ela passou cinco dias chorando:“E aí, mamãe”, ela disse: “Não, meu filho, só de pensar que tal dia você não tá aqui e tal”. Ela me acompanhou até a estação de trem.

 

P/1 – E como é que era a cidade? Qual foi a lembrança que o senhor tem da paisagem da cidade?

 

P/2 – Primeira impressão?

 

R – Não, a lembrança que eu tenho foi que eu cheguei ali em Brasília, né, aí ali na rodoviária de noite, fazendo um frio maior do mundo. Ali se eu pudesse pegar um, digamos assim, qualquer coisa pra mim voltar eu voltava.

 

P/2 – Um aperto no coração?

 

R – É, fiquei assim, porque a gente pensa uma coisa é outra bem diferente, né? Pensa que é um negócio assim, mas coisa diferentíssima porque o melhor professor da pessoa é o mundo, quem ensina o mundo. Mãe você só tem uma, agora pai você encontra toda hora.

 

P/1 – E o dia seguinte que o senhor viu...

 

R – Sim, aí eu fui pra Taguatinga, né, cidade longe, fui para um barraco em Taguatinga. Taguatinga era uma cidade... Brasília não tinha quase prédio, né, só tinha mesmo no Plano Piloto, Taguatinga era uma cidade que era só barraco de madeira. Aí fui lá com o pessoal, né, até com um neguinho que o apelido dele era chiclete, era motorista de um fazendeiro lá que foi pra Brasília também trabalhar motorista de ônibus, eu fiquei lá com ele, né? Aí fiquei lá com ele a turma começou a chegar. Aí naquele tempo a cachaça de Brasília era a 29, aí um trazia uma garrafa de cachaça o outro tira gosto a gente tomava pra esquecer mesmo! [risos]. Aí quando foi no outro dia aí foi o (Praxedes?), (Ademar Praxedes?) que trabalhava na Cavalcanti Junqueira, aí perguntou se eu queria trabalhar lá: “Quero”, aí fui trabalhar lá, né? Trabalhei três anos nessa firma. Aí foi aquele negócio e um tal dia: “Rapaz, nós vamos embora pra Roraima” “Embora!”. Aí o doutor Horta que era meu chefe, era um mineiro gente boa. 

 

P/1 – Mas qual que era o trabalho do senhor?

 

R – Eu trabalhava de apontador.

 

P/1 – O que que era o trabalho?

 

R – É a mesma coisa que eu trabalhei aqui na ponte _____________ eu trabalhava lá. apontador é o seguinte: é você controlar todo o material que entrava na firma, de areia, tijolo, barro, pá, tudo! Você controlava tudo, tudo. Aí eu fiquei esse tempo na firma, né, aí terminou esse bloco de Banco do Brasil na 303-Sul, que era um prédião grande. 

 

P/1 – Péra aí. O senhor tava construindo o que, eu não entendi. 

 

R – Não, eu conferia todo o material que entrava na firma quem conferia era eu. 

 

P/1 – Certo. 

 

R – Num desses blocos, eram seis blocos. Aí cada bloco eu tomava conta do material que entrava, a carrada de areia eu tinha que anotar, tinha que saber quantos metros que entrava tijolo, cimento, todo material quem controlava era eu, ferro...

 

P/2 – Mas qual que era a construção? A construção que o senhor estava fazendo qual era? A obra?

 

R – A construção era um prédio pro Banco do Brasil, funcionário do Banco do Brasil, um prédio muito grande, todo no taco. Hoje em dia não usa mais isso, mas antigamente em 1973, né? Aquele taco é até o Ataliba que era uma carioca quem fazia os pisos de taco era ele. Aí eu fiquei lá trabalhando na firma, aí quando foi pra entregar os prédios, o Banco, aí tinha que ficar uma pessoa, aí eu fiquei pra mim entregar o prédio pro pessoal do Banco, aí fiquei com o eletricista, fiquei com o encanador, com o pedreiro, tudo pra qualquer defeito, né? E fiquei, aí a firma foi, pegou a concorrência pra construir o Serra Dourada, se a firma tivesse pego a obra lá, que ela ficou em segunda lugar, eu não tinha vindo pra cá. Você vê como é o destino da pessoa, né? E aí nós todos íamos trabalhar lá.

 

P/2 – No estádio?

 

R – O estádio Serra Dourada. 

 

P/2 – Ah, o de Goiás?

 

R – É, foi construído em 1973, ele começou, a concorrência foi em 1973 pra fazer o Serra Dourada lá o estádio, e a Cavalcanti Junqueira participou da concorrência e tirou segundo lugar, eu fiquei na expectativa e tal. Aí ela ficou sem obra, né, o pessoal ficou sem fazer nada, eu entregando os prédios pro pessoal do Banco do Brasil, né? Aí nós combinamos: eu, o Luciano, o Ademar e o Medeiros, a gente trabalhava juntos, “Rapaz, a firma tá sem obra e tal, nós vamos, vamos pedir conta e vamos embora pra Roraima, pra Amazonas” “Embora!” Aquele negócio de cabra solteiro e tudo, né?

 

P/1 – E como é que vocês foram também? Foram de ônibus? Como é que foi isso?

 

R – Não, aí deixa eu contar a história. Aí foi, nós nos juntamos e fomos pro escritório pra pedir a conta da firma. Rapaz, quando eu falei em pedir conta o doutor Horta quase endoida: “Mas Dédinho”, ele me chamava Deda, aquele cheio de gíria: “Mas Déda, o que você vai ver em Roraima? Você sabe o tamanho da cidade como é Roraima?” Eu digo: “Não, sei não doutor” “Rapaz, lá não tem nada, lá só tem índio, lá não sei o que. Fica aqui que nós vamos pegar, tem outra concorrência” e de fato que teve outra e a firma até hoje continua pegando obras, né, fazendo terraplanagem e tudo, “Fica aí que nós vamos precisar de você, Rapaz, você é um funcionário que não pode deixar a gente e tal”. Aí foi a gente: “Não, não, doutor, nós vamos, nós vamos porque a gente quer aventura, né, é aventura. Nós vamos viajar”. E foi, nós decidimos viajar. Nós éramos um pessoal assim… porque ele pelejou quase uma semana pra não dar, ele disse: “Já que vocês querem ir eu vou dar as contas como a gente tá botando vocês pra fora” pra pagar todos os direitos, porque você é um funcionário que pede as contas e não tem o direito de que a pessoa... Antigamente, não tinha esse negócio de seguro desemprego, não tinha nada, né, mas aí tinha aqueles direitos de férias, não sei o que e tal. Aí ele foi, deu, aí nós viemos. Aí nós fomos lá na rodoviária em Brasília compramos a passagem, nós viemos da Belém-Brasília, Belém-Brasília de ônibus. Eu me lembro como se fosse hoje, nós chegamos num hotel na beira da estrada que tava aquele horror de carro do exército, aquele pessoal lá e nós descemos lá do mundo e eu perguntei pro cara e disse: “O que tá acontecendo aqui?” Ele disse: “Não, é que o presidente tá aí”, o presidente que era Garrastazu Médici tinha ido inaugurar um trecho da Belém-Brasília, que a Belém-Brasília foi feita no tempo da Ditadura, né, é uma estrada muito grande, tudo. Eu me lembro desse detalhe. Chegamos em Belém na rodoviária, fomos pra uma pousadinha lá em Belém. Aí começamos a gastar o dinheiro. Tinha uma boate lá que até o nome era Pagode Chinês, tinha umas mulheres lá, todo mundo solteiro. E naquele tempo pra Manaus só tinha um vôo por semana, um vôo por semana, em 1973.

 

P/1 – E que hora que era esse vôo?

 

R – Era oito horas da manhã pra chegar em Manaus. Era bem daqueles aviões pequenos, era quase cinco horas de viagem. Aí nós fomos comprar a passagem e o dinheiro já encurtando, né, aí eu: “Vamos embora, embora, rapaz, embora!”. Fomos para Manaus, chegamos e o dinheiro já tinha acabado, então pegamos informação no aeroporto: “Rapaz, qual é o hotel mais barato que tem?” Ele disse: “O hotel Lá” é um hotelzinho pequeninho”, “Onde é que fica isso?” “Na Escadaria dos Remédios”. A Escadaria dos Remédios era um lugar perigoso onde todo barco que chegava encostava lá, né? Aí nós ficamos lá. O dinheiro já acabando… pra encurtar a história, o dinheiro acabou. Aí pagamos o hotel e fomos. Pra gente vir pra cá, ficamos morando em um barco uns dez dias em Manaus, carregando e ajudando a carregar o barco que vinha carregado de sal, papel higiênico, Uísque, Vodka. Ficamos pra ganhar a passagem, viemos carregar o barco, só sal eram 500 sacos, de Manaus pra cá foram 18 dias de viagem dentro desse barco, no meio de Agosto a água ficava lá embaixo como tá agora, né? Aí o barco encalhava e a gente tirava o sal, aí tirava o sal e botava na areia, desencalhava e botava de novo. Teve uma hora que a gente ficou aborrecido, aí decidimos, um pegava o sal aí em cima, né, e o outro dentro d’água, aí o cabra me disse: “Rapaz, vamos jogar esse sal aqui dentro d’água pra gente não descarregar mais sal”. Aí começamos a jogar. Quando o Velho Chagas, que era o dono do barco, dava as costas a gente “pá” jogava o saco dentro d’água. Eu só sei que teve uma hora que esse veio se ajoelhou na proa do barco e a gente comendo aquele peixe seco, era só aquele peixe velho na água e no sal dentro do barco, sem uma rede pra dormir, sem nada, dormindo em cima dos fardos de papel higiênico. Rapaz, esse velho se ajoelhou na proa do barco, fez o pelo sinal assim: se enquanto ele tivesse vida e viajasse de barco ele nunca mais trazia um passageiro de Manaus pra cá [risos]. Aí chegamos em Manaus, descarregamos o barco. Tinha um caminhão lá pra pegar o sal, aí nós falamos com o motorista de um caminhão velho: “Rapaz, eu só levo vocês se vocês garantirem carregar o caminhão aqui e quando chegar lá em Boa Vista, descarregar o carro, o caminhão, porque aí eu levo vocês”. “Tá, tá tudo bem” a gente tava precisando mesmo, eram quatro: veio dois na cabine e dois lá em cima. Resultado: saímos... aí quando pegamos esse Caracaraí pra cá, a estrada não tinha nada, a estrada toda esburacada, aí o caminhão começou a vazar a água do radiador, o velho parou, a gente naquelas casas corria lá, pegava, aí vinha lá e tal. Quando chegamos em Cajaí, né, cidadezinha, tava construindo também a ponte, tinha começado. É que essa ponte foi feita toda num tempo só, né, foi no governo Hélio Campos que era um coronel da Aeronáutica, pois se não uma pessoa muito boa. Aí chegamos e aí pronto, pá, Cajaí. Quando chegamos em Cajaí tinha um barzinho assim tipo um restaurante, quando eu cheguei lá no restaurante não era um cabra de Caraúbas? Muito amigo de meu pai, seu Maneco ainda até hoje ele é vivo, tem 90 e poucos anos. Aí eu cheguei lá, falei com ele, não o conhecia, ele também não me conhecia, né, quando ele saiu de lá eu talvez não era nem nascido, era muito pequeno, ele chegou aqui em 1950 mais ou menos. Aí eu falei que era de Caraúbas, o filho de Cícero, “Mas, rapaz”. Aí o negócio já começou a melhorar pro meu lado, né? Aí não faltou mais nada e tal e ficamos lá e tal. E o velho do caminhão lá esperando a balsa pra botar o caminhão em cima pra atravessar pra vir pra cá, né? Aí quando chegou a balsa, aí o velho botou o caminhão em cima da balsa, aí chamou: “Embora __________________”, aí nós viemos no caminhão, né? E esse sal era pra salgar couro no matadouro, no matador o cara matava gado com machado,  tinha que tirar o couro, salgava pra vender pra Manaus, que Manaus tem um cortiço. Aí quando o velho chegou encostou o caminhão, “Agora vamos descarregar todo mundo!” Aí um olhou pra mim assim: “Você vai descarregar Dédinho?” “Eu não”. Aí o cara: “Também não!” Pegamos as bolsinhazinhas, era umas bolsinhas pequenas, né, viemos pro centro da cidade, Começamos a se informar, aí disse: “Rapaz, tem um cara de Caraúbas que tem um bar ali”, o nome dele era Tonheiro, é um bar. Aí foi, “Embora lá no bar do Tonheira”. Chegamos lá ele disse, também comecei “É Dédinho e tal, não sei o que”. Aí arrumamos uma casinha pra gente, nós quatro, ficar, né? Aí nesse tempo tinha começado a construir o quartel do Exército na saída, hoje é na saída que vai pra Manaus, né, e o empreiteiro lá chamava-se Antônio, era conhecido como Tonhão. Aí o Mazinho que era um  rapaz que morava aqui que era, ele trabalhava de marceneiro, ele era marceneiro. Aí tava, pegou serviço lá nessa obra, levou a gente pra trabalhar com ele. Resultado: a fatura era de 15 em 15 dias, quando saiu a primeira fatura, o cabra pegou o dinheiro, foi embora e deixou a gente na mão. A gente trabalhando 15 dias, doido pra pegar um dinheiro aí quando: “Ah, amanhã vai sair a fatura e tal”, quando o cabra recebeu e que procuraram ele, já era. Desses aventureiros que veio pra cá, pois aqui teve muito aventureiro, cara que veio pra cá se aventurar. Aí parou a obra, surgiu o Mazinho, foi pra Porto Macuxi e levou a gente pra lá. Quando chegou lá era o mestre de obras, o Zé Cabeça Branca de Mossoró, no Rio Grande do Norte, vizinho da gente lá em Caraúbas, cabra bom danado, era desse cara que gostava de farrear, de beber e a gente também gostava. Aí empregou a gente na hora, eu fiquei trabalhando a mesma coisa: fiquei tomando conta da cantina, né, e lá trabalhava de noite, de dia, tomando conta da cantina e recebendo material, porque quando... Recebendo material e trabalhando e lá o dinheiro era farto, comida por conta da empresa, né, que tinha uma cantina muito grande. A gente recebia o pagamento e não tinha compromisso nenhum, compromisso que eu tinha era mandar um dinheirinho pra minha mãe, né, aqui não e a gente começava a ir pra farra e tal. Aí foi um dia, eu faço muito, eu gosto muito de fazer amizade, conversar, eu tava num bar bebendo e um senhor sozinho numa mesa, sozinho, bebendo lá, né? E a gente aquela turma danada, sim, resultado, péa aí. Aí eu fiquei aqui, né? E o Luciano, aí tinha uma irmã do Luciano que morava na Venezuela, que é um dos meus companheiros que veio, aí quando a irmã dele soube endoidou aí veio pegar ele pra ir pra Venezuela e queria me levar, eu digo: “Não, não vou não” porque naquela época você tinha que ir de pés, porque a estrada da Venezuela, daqui pra Venezuela não tinha estrada, tinha estrada mas uma estrada muito ruim e pra você entrar lá tinha, era no tempo também da Ditadura da Venezuela, brasileiro não podia entrar lá, tinha que entrar escondido e tal. Aí ele foi pra lá e eu fiquei. E o Medeiros ficou aqui comigo, e o Ademar foi pra Manaus, até hoje Ademar tá morando em Manaus, tá até aposentado, pegou, se empregou no estado lá e eu fiquei aqui, eu e o Medeiros, né? Eu fiquei trabalhando na Ponte Macuxi, o Medeiros também, tal. Aí o Medeiros não gostou, aí mandou pedir a passagem do irmão dele que morava em Brasília, voltou e ficou só eu aqui da turma dos quatro. Eu fiquei trabalhando na Ponta de Macuxi. Aí a gente recebia o dinheiro, trabalhava pra aquele, a ponte não parava, ali era de dia e de noite, é porque a senhora não foi lá, não conheceu a ponte, né? Ali era de dia e de noite. Trabalhava de dia e de noite, resultado: eu estava no bar bebendo, aí tinha um senhor bebendo assim do lado sozinho, aí eu fui lá com ele e chamei, eu nunca tinha visto ele, né? Eu nunca tinha visto ele, aí cheguei na mesa e disse: “Ou, o senhor não quer sentar ali com a gente não, pra beber ali com a gente?” Aí ele: “Ah eu quero, rapaz, tô sozinho aqui”. Começamos a conversar aí eu fiquei do lado dele conversando com ele, eu disse a ele, ele me perguntou: “Você trabalha aonde?” Eu digo: “Rapaz, eu trabalho na  Ponte de Macuxi” “Você é de onde?” “Eu sou do Nordeste, eu vim do Nordeste, morava em Brasília e vim pra cá. E o senhor, trabalha?” “Rapaz, eu trabalho na prefeitura” o cabra disse “trabalho na prefeitura”. E a gente nordestino que vem pra cá tem mania de comércio, de botar um comércio de __________ e tal, eu falei com ele, eu digo: “Rapaz, a coisa que eu tenho mais vontade aqui em Boa Vista é de pegar um terreno, ganhar um terreno pra mim de esquina, de frente pra sombra pra mim botar um comerciozinho pra mim”. Ele disse: “Rapaz, eu trabalho na prefeitura, eu sou topógrafo. Meu nome é Roraima”. Aí começamos a conversar, isso num dia de sábado. Aí quando foi no domingo ele disse: “Vamos lá pra...”, tem um banho aqui que o nome é Cauamé, “Vamos lá no Cauamé tomar um banho?” “Embora”. Aí me encontrei com ele lá, ele tinha umas mulher lá e tal. Aí eu falei pra ele, ele disse: “Olha, eu vou lhe arrumar um terreno, eu vou lhe dar um terreno”. No tempo Júlio Martins, era o prefeito, ele era o topógrafo, era quem fazia a topografia. “Eu vou lhe dar um terreno” “É mesmo, rapaz?” “Vou. Que horas eu lhe pego lá na obra?” Eu digo: “Três horas da tarde. Três quatro horas eu tô lá”. E ele trabalhava e tinha um Jipe da prefeitura, um Jipe. Aí eu nem acreditei, foi, comecei a trabalhar na segunda-feira e tal. Aí quando eu tô lá no almoxarifado aí chega um rapaz: “Dédinho, tem um homem lá na porta, lá no portão, quer falar com você”. Eu disse: “Quem é?” Ele disse: “Não, ele anda num Jipe, eu não sei quem é não”. Aí quando eu cheguei lá era ele, “Embora lá receber o seu terreno”. Aí nós viemos pra cá, rapaz, quando nós chegamos aqui sabe como era o nome desse bairro aqui? Bairro do Palhal.

 

P/1 – Barro?

 

R - Do Palhal, que era tipo uma maloca esse bairro aqui, as casas todas de palha. Era uma casinha numa esquina, outra noutra, tudo de palha, não tinha luz, não tinha nada. Eu digo: “Vixe Maria!” Mas, embora lá. quando ele chegou aqui ele encostou o carro bem aqui assim, aqui não tinha nada aqui, não tinha nada, tinha uma casinha de palha outra ali e tal. Aí ele desceu e disse: “Rapaz, seu terreno vai ser esse aqui”. É isso aqui hoje, né, onde pega a minha casa ali, né, tem a casa, o mercadinho aqui, tem isso aqui. eu digo: “Mas, seu Roraima, o senhor não tá enganado não? Isso é só um terreno?” Ele disse: “É só um terreno, isso aqui tá bom pra você? Você não quer um terreno de esquina de frente pra sombra”. Eu digo, a boa vontade do cara mas isso era muito longe do centro, não tinha, era longe demais, isso um mato dessa altura. Eu digo: “Tá bom, mas rapaz, melhor do que esse... Você não tá enganado, é só um terreno?” “É só um terreno”. 

 

P/1 – Que ano que era isso mais ou menos?

 

R – 1973, foi logo quando eu cheguei aqui. Esses pés de coqueiros que tá plantado aí eu plantei ele em 1974, dia 4 de novembro de 1974, eu plantei esses pés de coqueiro, era dez pés, agora só tem quatro. Aí comecei a construir. Aí foi, né, aí eu digo: “Tá certo, tá bom, o terreno é esse aqui e tal”. Aí eu fiquei tão alegre que eu chamei, o outro dia chamei um conterrâneo meu pra vir olhar, eu digo: “Embora, rapaz eu ganhei um terreno ali do cabra, embora olhar lá”. Rapaz, quando ele chegou ele disse: “Rapaz, você é doido, Dédinho? Porque você quer esse terreno aqui, rapaz, isso aqui eu não quero nem de graça. Isso aqui alaga” e alagava mesmo. Isso aqui alaga e tal, e digo: “Mas eu vou querer o terreno”. Aí fiquei, né? Fiquei e aí construí. Comecei lá quando pegava uma madeira lá, eu quem recebia o material e a tábua lá pra fazer os pilar, eu pegava assim aí começava a separar uns negócios pra mim, aí pegava um cabra lá meu conhecido e botava em cima do carro e ele vinha deixar aqui. Aí pegava dois sacos de cimento. Aí comecei a construir meu barraquinho aqui de madeira, onde é a minha casa um barraquinho pequeno. Fiz um barraquinho de madeira pequeno, foi a primeira barraco de telha de Brasilit construída no bairro foi o meu, o resto era tudo de palha. Comecei a construir, fiz um. Aí comecei um botequinho, botei uma sinuca, botei um negócio daquele de farolzinho que a gente botava querosene e tal, e o pessoal lá gostava muito de mim, quando recebia o pagamento aí vinha de noite todo mundo pra cá, quando a gente tava de folga, né, que eu vendia cachaça e o cara jogando sinuca, anotava, quando era dia de pagamento eles me pagavam. E daqui a cidade era tão pequena que a gente escutava o bate-estaca batendo lá da ponte, a ponta lançada foi lá, aí ali era o bate do bate-estaca aqueles pilares com bate-estaca, um ferro que subia lá em cima de cinco toneladas aí vai “páá...” pra enfiar dentro d’água, e a gente: “Ó bate-estaca batendo. Olha o bate-estaca lá”. Aí começamos, né? E aqui quando chovia no inverno pesado, que aqui na época chovia quase todo dia, quando alagava aqui a gente tinha que sair daqui todo mundo aqui do bairro e ia pra Secretaria de Segurança que é um prédio grande, era o único prédio aqui grande e todo mundo ficava lá, levava o colchão, levava. Eu não ia pra lá porque ia lá pra firma, né, que lá tinha um alojamento grande que era pro pessoal que trabalhava lá e eu tinha o meu lugar lá. Mas aí quando não alagava aqui. Pra você ter uma idéia isso aqui, esse terreno aqui ele pegou 150 carradas de barro pra ficar nessa altura, aqui era um lago, chamava-se o Lago dos Americanos, era o Lago dos Americanos...

 

P/1 – Por que esse nome?

 

R – Hoje onde é o Parque Anauá ainda tem um lago ali, se a senhora quiser ir lá conhecer. Aí começaram a construir fizeram, aí tem um lago aí no parque. 

 

P/1 – Por que que era esse nome?

 

(troca de fita)

 

P/1 – Deixa eu só entender uma coisa [pausa]. Então quando o senhor estava, o senhor construía aqui, o senhor estava no alojamento então?

 

R – Como é que é?

 

P/1 – O senhor dormia no alojamento, na construção? 

 

R – Dormia, dormia lá no alojamento. 

 

P/1 – E construía aqui?

 

P/2 – Tava construindo. 

 

R – Não não, lá na casa. Quando eu... foi a primeira casinha de madeira que eu fiz, que o boteco veio na frente, né, o barzinho. O boteco é só pra vender cachaça, essas coisas, porque não tinha luz nem água aqui quando eu vim morar aqui, né? Eu morei dois anos aqui não tinha luz nem água. O banheiro aqui era um negocinho de madeira, cavava o buraco no chão e fazia o negócio quadradinho de tábua e um buraco pra pessoa fazer as necessidades, não tinha água, não tinha luz aqui, morei dois anos aqui sem água e sem luz. 

 

P/1 – E o senhor trabalhava na construção?

 

R – Trabalhava na Ponte Macuxi.

 

P/1 – Como era esse trabalho do senhor lá?

 

R – Não, o meu trabalho lá era almoxarifado, porém eu recebia a mesma coisa na minha profissão de Brasília. Na carteira era almoxarife, aqui também recebia pá, enxada, recebia cimento, conferia cimento, areia, barro que entrava ali, seixo que ali tinha, o nome da firma era Usiminas, a firma de Minas, né, e tinha diversas firmas fornecendo material pra lá e a pessoa fazia aquilo para quando chegasse na quinzena você faturar, a firma fulana de tal botou tantos metros de areia, a outra botou tantos metros de seixo, outros tantas carradas de cimento e tal, tantos sacos, era assim. 

 

P/1 – O senhor viu a ponte nascer então?

 

R – Eu vi. Aquilo ali o Zé Cabeça Branca ele tomava um litro de cachaça pra andar em cima da ponte, o mais forte que eu já vi na minha vida, era o mestre de obras ele entendia melhor que os engenheiros. Os engenheiros, era coincidência, eram dois Gabriel, dois mineiros… o Zé Cabeça Branca andava em cima da ponte, parecia que estava andando era aqui embaixo porque tinha que ser a noite todinha. Ele não parava, a ponte não podia parar, era de noite e de dia, era 24 horas o bate-estacão pegando lá e ele lá em cima da ponte. 

 

P/1 – E o senhor lembra da inauguração da ponte?

 

R – A senhora sabe que eu não me lembro, eu tava lá e não me lembro a data. 

 

P/1 – Mas como é que foi? Teve uma festa?

 

R – Teve. Veio o presidente inaugurar. Porque essa ponte tem que vir. A _______________ divisa com a Guiana não foi inaugurada porque o presidente Lula não veio, tem medo de vir aqui por causa da área indígena Raposa Serra do Sol.

 

P/1 – Mas com a construção da ponte mudou muita coisa depois?

 

R – Mudou.

 

P/1 – O que que aconteceu?

 

R – Não, aí ficou, porque antigamente pra você ir pra Guiana, você tinha que atravessar esse rio, esperar uma balsa manual que o cara ia empurrando, botar o carro em cima. Aí desenvolveram a de Mucajaí que foi inaugurada na mesma época. A de Uraricoera que vocês vão passar lá também que tinha que atravessar uma balsa pra ir pra Venezuela. Aí foi só uma firma que fez essas. A Ponte do Surrão que vai também pra Guiana Inglesa, né? Porque agora com essa ponte lá que vai ser inaugurada você pra ir pra Guiana Inglesa você chega lá tem que atravessar uma balsa, tem que esperar o cabra ir lá do outro lado, deixar, vim lhe pegar aqui. Antigamente era assim, agora com as pontes aí o negócio melhora, né? Todo mundo ficou muito alegre, ninguém acreditava quando começaram construir essa, “Ah, isso não vai sair não, vai começar e não sei o que”. É aquelas obras do governo, mas antigamente saía, né, agora não que. 

 

P/1 – Mas nessa época que o senhor era jovenzinho ainda, né?

 

R – É, na época, em 1973, eu tinha 26 anos. 

 

P/1 – E como é que o senhor fazia pra se divertir aqui? O que é que tinha, como é que você se divertia? O que é que tinha para fazer? Tinha festa, tinha alguma coisa?

 

R – Não, até as festas aqui antigamente eram melhores do que agora. Tinha a festa do Roraima, tinha o Mingau e tinha essas boatezinhas aí. 

 

P/2 – Festas Típicas? Como que eram as festas? Tinham festas típicas em algum lugar?

 

R – Não, festa típica só no Iate, mais era forró, era carnaval.

 

P/1 – O que que é o mingau?

 

R – Muita gente veio aqui, foi embora porque o divertimento era muito pouco, o pessoal aqui era mais. 

 

P/1 – O senhor falou o Mingau, o que era o Mingau?

 

R – Mingau era uma festa que era gente de todo jeito. Era gente que tinha dinheiro, gente que não tinha, pessoal da sociedade e tal e chamava Mingau. E tinha a festa do Roraima, que o Mingau era na sede do Gás, era um time de futebol que era do Exército, aí fazia aquela festa que era pra arrecadar dinheiro pra segurar o time. E do Roraima que é o Atlético Roraima Clube, que é o time que eu torço aqui, era mais os filhos aqui de Boa Vista, fazia aquelas festas mais chique, né? Da sociedade roraimense que era a sede do Roraima, né?

 

P/1 – Deixa eu aproveitar isso, o senhor gosta muito de futebol então, né? É desde criança?

 

R – Eu sou apaixonado por futebol. 

 

P/1 – Como que é isso, desde quando isso?

 

R – Não, eu sou apaixonado porque a nossa família lá no Rio Grande do Norte tem um time que o nome dele é Baraúna, que é de Mossoró e as cor do Fluminense. E a nossa família era toda. Porque lá na fazenda do velho tinha, aqui os colegas brigavam mas a gente tinha um campinho de futebol e eu toda vida fui apaixonado por futebol. Se a pessoa quisesse me agradar me desse uma bola de presente. Aí começou a surgir aquelas bolinhas pequenas, a primeira bola de couro que eu ganhei que o meu pai mandou fazer foi a maior alegria que eu tive na minha vida. A gente jogava com aquela, começava a jogar com aquelas bolinhas de, como é? De meia, fazia aquelas bolinhas de meia começava a jogar, começou a aparecer as bolinhazinhas de borracha pequena, grande e tal, a primeira bola de couro, eu nem acreditei quando ele levou a bola pra mim, aí eu fiquei. Aí eu sou torcedor do Fluminense porque a mesma cor da Baraúna é a cor do Fluminense. A primeira vez que eu vi, 1970, que eu vi o Fluminense jogando, 1971 contra o Botafogo que foi campeão, 1971 o Fluminense que foi campeão carioca, aí eu digo: “Esse é o meu time”. Aí fiquei, aí me apaixonei pelo time, fiquei, fiz muita besteira por causa do Fluminense. Foi o meu filho Junior que é o mais novo, tem 25 anos, é Fluminense também aí começou a me acompanhar aí eu parei, que aí também não podia o Fluminense perdesse ele ficava doido, que ele é apaixonado também, né?

 

P/1 – Que besteira que o senhor fez?

 

R – Besteira é brigar por causa do Fluminense. Uma vez jogando o Fluminense e Vasco aqui, aí quando o Fluminense ia jogar dia de domingo eu botava uma bandeira, né, lá na, aqui na, lá no botequinho lá. Aí veio um vascaíno assim assistir o jogo aqui em casa, muito meu amigo o cara, o nome dele era Brasil, até morreu há pouco tempo, muito meu amigo. Aí o Vasco ganhou do Fluminense e ele disse que ia arrancar a bandeira do Fluminense. Aí eu peguei a arma e disse que ia matar ele, a Graça se aperreou e tal, aí eu digo essas besteiras aí, às vezes, a gente perde o amigo por causa de um, né? E ele era muito meu amigo pra depois apaziguar esse negócio foi preciso das mulher se juntar conversar e tudo. 

 

P/1 – Que posição que o senhor jogava?

 

R – Eu jogava de zagueiro. 

 

P/1 – E aí quando o senhor chegou aqui então teve uma entrosação?

 

R – Não, não, aqui depois que eu saí do Nordeste, eu não tive mais tempo pra jogar, só tinha que trabalhar porque a mamãe era viúva, precisa muito da gente, né, e era meu sonho era trazer ela pra cá, porque era até melhor porque, digamos assim, eu ia pra uma feira, se eu comprasse um quilo de carne pra mim eu comprava um pra ela. Porque vocês às vezes pra mandar dinheiro você mandava mixaria, e estando aqui você repartia com ela, né? Eu trouxe ela pra morar aqui bem pertinho da minha casa, por sinal ela morreu nos braços da Graça, da minha mulher. 

 

P/1 – Mas antes o senhor mandava pra ela, né? Como que o senhor mandava pra ela, era Correio ou carta?

 

R – Mandava. Não, mandava pelo Correio, não tinha banco lá na minha cidade na época, né, porque o primeiro banco que foi instalado lá foi o Banco do Estado do Rio Grande do Norte, mas quando passou uns 20, 30 anos lá sem banco, não tinha banco. 

 

P/2 – Dédinho, eu queria que o senhor falasse um pouquinho pra mim como surgiu o restaurante? Como é que foi? Você tinha um botequinho?

 

R – Eu comecei é o seguinte: Eu conheci a Graça, né, eu morei aqui um tempo solteiro, conheci a Graça em 1977, 1976, 1977. Aí começamos.

 

P/1 – Mas como que o senhor conheceu ela?

 

R – Conheci aqui. 

 

P/1 – Mas assim, o senhor tava numa festa?

 

R – Em festa, entre festa, começamos a dançar aí começamos a namorar [risos]. Ela trabalhava,  aí eu conheci ela, né? E nesse tempo eu morava só, tinha um botecozinho de madeira e não tinha luz. Aí quando eu a conheci, ela veio morar comigo, aí já tinha luz e tal. E eu toda vida tive uma... Que eu gosto de tomar uma cervejinha, e tenho uma mania que a minha cerveja tem que ser gelada, e aqui o pessoal não vendia cerveja gelada, cerveja daqui você pedia uma cerveja era quente. E quando eu cheguei aqui o tradicional era tomar uísque, esse uísque Cavalo Branco que vinha da Guiana. Até me admirei, porque lá pra fora você: “Ei, me dá uma dose de cachaça. Dose de cachaça”, quem tomava uísque era os caras que tinham dinheiro, muito dinheiro, né? “Fulano tá tomando uísque” a gente até se admirava. E aqui o cabra chegava: “Hei, me dá uma dose de uísque!” E o uísque era, você tomava uísque aqui como tomava cachaça. Até eu entrei nessa onda também, tomava muito uísque, o cara chamava uísque cowboy, né? Aí nós começamos e tal. Comprei já um freezer, né, e o meu nome, a minha firma foi registrada no dia primeiro de abril de 1976, tem 32 anos que ela foi registrada, é o mesmo CGC [Cadastro Geral de Contribuintes], tem a mesma Razão Social, é tudo, nunca mudou nada. 

 

P/2 – Só voltando um pouquinho. O senhor disse que já tinha energia. Como é que foi essa chegada da energia?

 

R – A chegada da energia foi uma vez que o governador veio a uma reunião aqui em casa, né, político naquele tempo era o Tomaz de Souza Pinto, morreu agora, ano passado. Aí ele veio aqui, fizemos uma reunião e tal, aí eu falei: “Governador”, aí ele: “Dédinho, bota uma mesa aqui fora” e esse na base do lampião [pausa]. “Aí bota uma mesa aqui fora pro pessoal fazer os pedidos”, í botou e tal. Todo mundo fazendo pedido e tal, quando terminou eu digo: “Agora, Governador, queria fazer um pedido do senhor” ele disse: “O que foi? O que é?” Eu digo: “Olha, rapaz, eu moro aqui há dois anos e não tem energia, não tem água não tem nada, eu queria que o senhor botasse energia aqui no bairro, principalmente aqui nessa minha rua”. Aí ele, me lembro como se fosse hoje, ele era baixinho mas um cabra de palavra, aí foi a João e disse: “Onde começa a sua rua?” Eu disse: “O senhor tá vendo aquela casa acolá? Começa ali”, “Termina onde?” Eu disse: “Termina aqui”. Disse: “A partir de segunda-feira eu vou mandar o carro aqui pra começar a botar energia aqui na sua rua”. A primeira rua que teve energia e que teve asfalto foi aqui, Otomar mandou botar, ele tirou de uma, ele tava fazendo um serviço aqui no São Francisco. Isso passou o domingo e tal. Eu fui dormir, quando foi na segunda eu nem liguei pra aquilo eu pensei, quando foi na segunda-feira eu estava deitado eu vi foi chegar máquina aí e tal, e a Graça correu lá pra dentro: “Dédinho, se levanta que chegou o prefeito tá aí, o pessoal da Sé”, que era a companhia de energia, agora é Boa Vista Energia, “O pessoal da Sé tá aí e vem botar energia, vem fazer o asfalto e tudo”. Aí eu me levantei e o prefeito já estava lá no botequinho, já estava lá: “Olha, porque o governador ligou pra mim pra fazer o asfalto e botar energia aqui”. Aí eu digo: “Rapaz, é um homem de palavra”. Aí botou, né? E o nome do meu era Bar e Mercearia 31 de Março.

 

P/2 – Como?

 

R - Bar e Mercearia 31 de Março o nome do meu comércio. Nesse tempo o pessoal daqui que tinha dinheiro, filho de fazendeiro, de comerciante, estudavam em Belém que 90% dos formados aqui, desse pessoal antigo - agora não, tem faculdade aqui - se formaram em Belém. E estudante gosta de aventura, né? Rapaz, aí um dia eu tô aí chega três caras sentou aí: “Tem cerveja aí?” Eu digo: “Tem”, isso já tinha botado energia. “Tá gelada?” Eu digo: “Tá”. E eu toda vida tive aquela mentalidade: a pessoa, digamos, a senhora vai tomar uma cerveja: “Vamos tomar uma cerveja ali no bar do Dédinho” e chega aqui e se a cerveja estiver quente você só toma uma, e se estiver gelada toma duas, toma três, toma quatro. O cara: “Não, Rapaz, a cerveja tá quente eu vou tomar só essa”. “Rapaz, tá bem gelada vamos tomar mais uma? Vamos tomar?” Aí começou, né? Aí a cerveja que até hoje a minha tradição aqui é cerveja gelada, tem que ser servida bem branquinha, tem que chegar na mesa branca e como tem muita gente que vem de fora e tal: “Vamos ver se a sua cerveja é gelada?” Aí começou, aí surgiu o nome do bar ________________, vieram os estudantes: “Bom, a cerveja aqui é gelada e tal. Amanhã eu venho aqui”. Aí o cabra andava, andava, que era difícil chegar aqui: “Ô, eu tô com duas horas procurando o seu bar, rapaz, quase não encontro e tal” aí começamos. Aí já trazia outro cabra estudado de Belém, aí eles começaram a chamar: “Bote Dédinho, bote Dédinho, bote Dédinho”, não era aquele negócio “Bote minha cerveja 31 de março”. Bar do Dédinho, quem botou o nome de Bar do Dédinho foi os estudantes de Belém. A senhora tem uma idéia que eles gostavam tanto daqui que quando um se formava que vinha pra cá, ele primeiro tinha que passar no Bar do Dédinho pra poder conhecer e depois ir pra casa do pai dele. Isso aí eu devo gratidão a esse pessoal que me ajudou muito, porque é um pessoal que era gastador. Aí comecei a vender fiado pra eles, tinha vezes que ia pra Belém, quando voltava de férias é que pagava a conta, começava a juntar as mesadas, né: “Não, aqui vamos juntar a mesada pra gente pagar o Dédinho, porque a gente tem que pagar, tem que tomar a cervejinha”. Aí começou aquela tradição da cerveja gelada. E o churrasco, o restaurante começou na época do garimpo, no auge do garimpo, no auge mesmo que aqui teve uma época que era. Aí aqui...

 

P/1 – Onde que era o garimpo? Que lugar que era?

 

R – Aqui tinha garimpo em todo o canto, tinha na Terra Yanomami, tinha na Raposa Serra do Sol, que era no Maú, tinha em Tepequém. O estado é muito rico em minério, né, agora não porque parou tudo, se você for com 50, 60 gramas de ouro a Polícia Federal lhe prende como você é contrabandista, tá trazendo ouro da... Mas antigamente aqui corria muito dinheiro. 

 

P/1 – E que época foi essa do garimpo aqui?

 

R – Foi na década de 1980. Aí nós com o barzinho ali, o bar lá e a Graça disse: “Dédinho, vamos fazer o seguinte: fazer um barraquinho aqui pra gente vender churrasquinho”. Aí tinha os terrenões aqui todos desocupados, era grande esse terreno, aí fizemos o barraquinho de madeira pequeno, uma porta de madeira daquelas assim que abre pra cima, aí botamos a churrasqueirazinha e a Graça fazendo o churrasco e eu vendendo a cerveja, né, cheia de mesa aqui. Aí começou… o piloto de avião vinha, já lá de cima tinha dia nesse aeroporto de ter 500 aviões pequenos, tinha. “Ei, embora pro Bar do Dédinho, o Bar do Dédinho”, aí chegava, né? Uma vez eu contei 82 pilotos de avião aqui e a Graça fazendo churrasco, eu vendendo cerveja, cerveja gelada, já tinha aumentado o freezer. Teve um mês aqui que eu vendi 444 grades de cerveja, quem controlou foi o representante: “Aí, Dédinho, esse mês você vendeu 444 grades de cerveja”. Aí vinha aqueles pilotos, vinha garimpeiro. E aqui foi inaugurado no dia 4 de novembro de 1974, nunca houve uma ocorrência policial aqui, nunca disseram: “Vai lá no Bar do Dédinho, corre lá que tem uma briga!”. Nunca, nunca! Dizer que teve um negócio lá no Bar do Dédinho, graças a Deus nunca. Porque na época do garimpo aqui todo dia matava um: “Ah, mataram um no bar do fulano, mataram um não sei aonde”. Acerto de conta, o cabra chegava lá de Itaituba, do Madeira e tal e quando chegava aqui: “Ah, rapaz, eu sabia que eu lhe encontrava “, matava” era desse jeito, né? Matou até uns caras que freqüentou aqui que foi o Chico Jacaré, foi o Biô. E aí nós começamos com churrasquinho, começamos a ganhar um dinheirinho, os pilotos gostavam tanto daqui, que eu tinha aquele terreno ali que tem aquela vilazinha de apartamento ali que eles disseram: “Dédinho, construa um negócio aqui, você não tem um terreno aqui perto?” Eu digo: “Tenho”. “Construa um negócio pra gente vir morar aqui, rapaz!” Aí eu digo: “Vou construir”. Aí comecei a construir aí, aluguei ali pra 12 pilotos. Sabe quantos morreram? 11. Ficou só um, até hoje mora aqui comigo, é o Sardinha, mas todo dia morria um piloto, morreu até um genro meu que era piloto casado com a Márcia, essa menina aqui ela é viúva, morreu o piloto, Joãozinho. 

 

P/1 – Mas essas mortes eram o quê, acidente?

 

R – Acidente de avião, caía na mata. Eles com ganância de ganhar dinheiro, porque na época no garimpo, só quem ganhou dinheiro foi piloto de avião, garimpeiro esse pessoal todo ficou pobre...

 

P/1 – Mas por quê?

 

R - ... e eu ganho um dinheiro também, né?

 

P/2 – Que é o atravessador.

 

R – O garimpeiro é o seguinte: Ele ia pra frente do serviço aqui, bota um par de máquina que são dois motores, um puxando e outro. Aí tira um quilo de ouro, aí ele vem pra cá vende o ouro, cresce o olho e leva mais dois pares e tira 2 quilos. Ele só sossega quando não dá nada, aí aquele, quando começa a não dar nada, eles quebram, o piloto de avião é quem ganhou dinheiro, quem ficou vivo, né, porque morreu muito piloto de avião.

 

P/1 – Mas assim então... quem frequentava mais aqui eram os homens, né?

 

R – É só homens, só homem, só homem.

 

P/1 – Como é que começou a mudar isso aqui?

 

R – Sim, aí começou a mudar quando o garimpo começou a fracassar, né? O garimpo começou a fracassar nós ficamos com um dinheiro, fizemos um negocinho ali também. Aí fizemos, começou já o pessoal a frequentar aqui, né e tal e aí eu fiz isso aqui só. Começamos com churrasqueira, churrasco e tudo isso aqui era cheio. Aí começou a crescer porque hoje em dia aqui não tem mais nada pra construir.

 

P/2 – Mas quando o senhor fazia o churrasco ainda era bar, né?

 

R – Era, era bar, quando o churrasquinho era pequeno, vendia o churrasco com o pratinho e uma farofinha. A Graça fazendo e eu vendendo cerveja. 

 

P/2 – E quando começou o crescimento, virou o restaurante?

 

R – Aí começou o crescimento foi depois do garimpo, aí começamos a construir, começou a aumentar e já botamos peixe assado, churrasco, aí começou.

 

P/1 – E as mulheres começaram a frequentar? Como que foi? Como começou isso?

 

R – Porque tinha aqui, na época do bar, tinha mulher quando: “Você tava onde fulano?” “Ah, tava lá no Dédinho” “Como é que você freqüenta aquele bar, não sei o quê?. Aquele homem é muito grosso e tal”. Eu tinha uma fama assim, porque eu fiz isso daqui com mão de ferro, porque o cara chegava aqui e não podia beber armado, não podia entrar sem camisa, aquelas ignorâncias do Nordeste. Por isso que, graças a Deus, nunca houve nada aqui. Se o cabra chegasse do banho sem camisa aqui, aí não entrava pra beber. “Mas rapaz, não. Você pode ter o dinheiro que tiver no bolso”. Aí o cabra tem que ter moral, né, aí depois as mulheres foi quando ligava: “Você tá onde fulano? Ah, tá aí no Dédinho? Tá, tudo bem? A dona Graça tá aí?” “Tá”. Aí a Graça aqui ela já confiava. Aí começou a vir a sociedade, hoje em dia o meu bar é bem frequentado, frequentado só por uma freguesia muito boa, eu acho que Boa Vista e a freguesia que eu tenho é muita boa gente.

 

P/1 – E começou a vir assim família com criança? Como é que era a criançada?

 

R – É com criança. Outra coisa que eu não aceito aqui é música, nunca botei música. Esse negócio do cabra chegar aqui e encostar o carro ali e abrir o carro e botar o som alto eu não aceito. O que o pessoal vem aqui dia de jogo aqui isso aqui enche. O pessoal gosta de vir assistir o jogo, tem duas televisões ali, ali é pro jogo, ali é pra novela, a mulher vem assistir a novela com a sua família, senta, vai assistir a novela. Outro vai assistir o jogo. 

 

P/1 – Eu queria que o senhor contasse uma história aqui de quando vinha, às vezes, criança, filho assim o próprio pessoal deixava cuidando, alguém cuidava das crianças, das pessoas? Pro pessoal ficar aqui?

 

R – Não, aqui a criança fica a vontade, a pessoa vem com as suas crianças fica a vontade. Porque a Graça até o seguinte, hoje em dia os filhos do pessoal que frequentava aqui, de estudante, hoje continuam frequentando. Até a Graça: “Dédinho, se a gente tivesse tirado fotografia desse pessoal”, hoje os próprios filhos que estão todos formados, como o meu filho que tem 25 anos, né, que era amigo de infância desses meninos, hoje em dia eles são meus fregueses, no lugar dos pais, né, eles freqüentam aqui também. É um negócio até assim que a gente fica emocionado quando vê um assim que: “ah, papai frequentava aqui, né, tio?” Todos me chamam de tio, tudo formado já, outros se formando. 

 

P/1 – Eu queria que o senhor falasse sobre os pratos que são servidos aqui.

 

R – Não, aqui a gente tem o peixe ao molho de camarão, tem o peixe frito, tem o peixe escabeche, tem o peixe à milanesa, tem o prato à moda Brasil, né? Aí tem o peixe grelhado na chapa, tem o tambaqui assado, tem a matrinxã assada, pescada assada, pacu assado. Tem a caldeirada de dourado, caldeirada de filhote, tem a caldeirada de pacu. Qualquer peixe desse pode ter, a caldeirada de pescada que é um peixe muito bom, peixe que qualquer pessoa pode comer, né? Aí tem a picanha, tem o churrasquinho de alcatra, tem a calabresa, tem a lingüiça caseira.

 

P/1 – Eu sei que a esposa do senhor...

 

R – Tem a panelada de sábado que é hoje é o dia da panelada, né? Tem a galinha caipirinha que é dia de quinta-feira, que vem os meus filhos com a galinha, hoje mesmo tem galinha.

 

P/1 – Eu sei que a esposa do senhor que tem...

 

R – Não, ela é quem, ali ela tá...

 

P/2 – Ela que é a chefe.

 

R – Ali ela trata com mão de ferro o pessoal, até as cozinheiras acham ela muito enjoada, mas ela tem que ser do jeito dela. 

 

P/1 – E o que que o senhor acha, qual que é o segredo dela pra cozinhar tão bem assim?

 

R – Eu nem sei porque a Graça é uma pessoa o seguinte: porque o segredo da cozinheira é se ela gostar de cozinhar, e ela adora. Até as filhas reclamam porque ela passa a semana todinha aqui, quando a gente vai pro sítio ela ainda fica na cozinha, porque ela é daquela pessoa que gosta mesmo de cozinhar, ela gosta, ela faz porque gosta. E tem gente que chega aqui se a Graça não tiver na cozinha ela não come, “Ei, cadê dona Graça, ela tá lá na cozinha?” Eu digo: “Tá” . “Então pode pedir, faça meu pedido que já sabe que ela tá lá”. E tem uma caldeirada aqui, que é a caldeirada Dourada aí o cara: “Ei, hoje a dona Graça não tá na cozinha!” ele já sabe quando é ela: “Hoje a dona Graça tá na cozinha que a caldeirada tá do jeito dela”. 

 

P/2 – Ela já inventou algum prato?

 

R – A maior parte desses pratos quem inventa é ela e a Márcia. A Márcia também ajuda muito ela, faz o cardápio é ela. 

 

P/2 – E qual que é o prato que mais sai?

 

R – O prato hoje que mais sai aqui é o... sim, ainda tem o medalhão, né, tem o medalhão. Aí tem bife, bife de fígado, bife de carne, tem assado de panela. É aqui tudo, o que você quiser comer tem, picanha, né? O prato que mais sai é peixe, porque o pessoal gosta mais de comer peixe. Peixe grelhado sai muito, peixe ao molho camarão também. Peixe à Milanesa. 

 

P/1 – E quem são os fregueses aqui? quem frequenta? Hoje quem são, quem mais frequenta aqui?

 

R – Não, aqui frequenta da classe média alta a baixa, né? Frequenta juiz, frequenta todo mundo. Aqui é muito bem frequentado. Até a minha venda da cerveja caiu por causa dessa Lei Seca, porque o pessoal vem sem medo, né? “Ah o bar tá bebendo lá no Bar do Dédinho saiu embriagado e tudo, não sei o que” aí caiu um pouco. 

 

P/2 – Seu Dédinho, conta pra gente um pouco como é a rotina do restaurante. O senhor acorda de manhã, como que a rotina de trabalho?

 

R – Não, a rotina do restaurante a gente acorda oito horas, né, eu vou fazer as compras, vou fazer, comprar verdura que tem que todo dia tem que comprar, né, porque tem que ser a verderuzinha, tem que comprar o peixe. E a Graça fica na cozinha aí. Na cozinha e aqui no balcão controlando, que sai muita marmita, né, ela fica anotando aquelas marmitas, né? Aí a rotina é essa, é até um negócio meio estressante. 

 

P/2 – Os senhores abrem pro almoço, pro jantar? Como é que é?

 

R – Pro almoço. A gente de segunda a sexta a gente abre pro almoço e o jantar até a meia noite, né, pro almoço e janta [pausa]. De segunda à sexta a gente abre pro almoço e sábado só até 6hrs da tarde quando a gente fecha e vamos pro sítio que é aqui pertinho, é um negócio bem estruturado, tem casa lá, tem tudo, tem  um caseiro tomando conta das coisas, tem galinha, tem porco, a gente cria carneiro. Tem um igarapé muito bom pra tomar banho, tem antena...

 

P/2 – É o lazer predileto de vocês?

 

R – É, ave Maria! Eu quando vou pro Nordeste eu só me lembro de lá, que eu não gosto de tomar banho na água salgada, eu gosto de tomar banho em igarapé assim, água natural. Lá é muito bom. 

 

P/1 – Assim, o senhor olhando pra essa história do restaurante: quais foram assim, as maiores dificuldades pra chegar hoje no estado que...?

 

R – Não, a maior dificuldade pra gente fazer esse negócio aqui é que a pessoa tem que fazer com recursos próprios, né? O que foi feito aqui, não teve negócio de banco, não teve nada, a gente teve recursos próprios porque num ponto eu até agradeço o Banco do Brasil. Eu sou e toda vida fui muito bem tratado no Banco do Brasil, tudo que precisei do banco, até hoje eu não tenho o que dizer nada, muito bem, porque teve até muita gente: “Pô, Dédinho como é que você vai abrir conta no Banco do Brasil e tal”, porque a minha conta no Banco do Brasil surgiu o seguinte: antigamente aqui tinha um Banco do Estado de Roraima e todo mundo que morava aqui tinha, era quase uma obrigação ter uma conta no Banco do Estado de Roraima e tudo passava por ele, e pra você ter uma conta no Banco do Brasil precisava ter um cacife bem alto. Até o finado Zé Barbosa que morava nessa casinha aí, que é até da viúva dele, nós éramos sócios de um garimpo lá na Serra Verde, aí ele pegou um ouro lá na Serra Verde chegou e disse: “Dédinho, rapaz, você tem que ir em Manaus comprar outro motor porque eu tô precisando de quatro motores lá pro garimpo”, eu digo: “Eu vou pra Manaus” e isso minha conta no Banco do Estado de Roraima, né? Aí eu vou pra Manaus, daí cheguei lá me hospedei no Hotel dos Viajantes, que é um hotel tradicional, aí vou comprar os motores, quando eu chego no hotel o recepcionista: “Seu Nicodemus” sou José Nicodemus de Góis, “Seu Nicodemus, tem um telefonema urgente pro senhor de Roraima” eu “O que será?” A gente pensa logo, “É pro senhor ligar pra lá”. “Pá”, eu liguei e a Graça: “Olha, Dédinho, é pra você vir urgente que o Banco do Estado de Roraima quebrou, quebrou e quem tem dinheiro lá tem que… -  eu tinha uma mixaria lá - tem que tirar”. Rapaz aquilo ali foi mesmo que dar uma... porque o Banco do Estado de Roraima era banco de político, eu vi uma vez o Mozarildo aqui, quando era deputado, pegar um papel de cigarro e dar uma ordem pro cabra pegar o dinheiro, aí quebraram os bancos, os políticos quebraram o banco. Aí eu tive que vir urgente, né, pra cá. Aí cheguei, fui lá no banco, acertei as coisas. E eu tinha dois fregueses aqui, esse aqui não tinha nada, né, lá no boteco, dois fregueses que eram promotores de justiça, um era mineiro e o outro era filho daqui, doutor Nelson Urbano e doutor (Hilton?) Lucena. E esse doutor Nelson Urbano era um cara muito rígido, muito ignorante e tal, e eu toda vida ela chegava aqui e vinha do fórum, ele vinha direto pra cá pra tomar o Uísque dele, tomava muito Uísque ________, e eu era muito brincalhão com ele, era um cara muito respeitador, mas comigo ele era. Aí ele chegou e notou que eu estava assim meio... e disse: “Seu Dédinho”, até hoje o pessoal nota quando eu tô diferente, não sei porquê, né? “Ô Dédinho, o que está acontecendo com você? Tá com a cara meio ruim, não sei porquê?” Aí o doutor Nelson: “Dédinho, eu tô notando que o senhor tá meio chateado”. “Não, tô não doutor”. “Não, você tá chateado”. Eu digo: “Não, doutor, é porque eu tinha uma conta no Banco do Estado de Roraima, o senhor sabe que o Banco quebrou.” “Eu sei que o Banco quebrou”. “Eu tinha um dinheirinho lá, rapaz, e não sei, o cara disse que eu não vou perder o dinheiro que eu tenho lá, mas a gente fica...”. Ele disse: “Tá, não é pra menos, não sei o que é e tal. Eu vou lhe dar um conselho como amigo, seu amigo: abra uma conta no Banco do Brasil” que naquele tempo tava quebrando banco, né, “Abra uma conta no Banco do Brasil porque no dia que o Banco do Brasil quebrar, os outros já terão quebrado tudinho, é o último banco que quebra” que ele era daquele, a conta dele era no Banco, só tinha conta no Banco do Brasil. “E se o senhor precisar eu falo com o meu gerente” porque na época não podia abrir, não sei se é do seu tempo que a pessoa… no meu tempo, quando abri conta no Banco do Brasil, não era todo mundo, até os funcionários, um pessoal todo assim besta e tal, aqueles, “Trabalha onde?” .“No Banco do Brasil”. “Pô, você trabalha no Banco do Brasil?” Era assim, aquele impacto. Hoje em dia não. Todo mundo. Aí foi dito e feito: “Se o senhor quiser”. “Eu quero doutor, que eu preciso de abrir a conta no banco e eu vou seguir o seu conselho”. O doutor (Hilton?) morreu até de acidente, o doutor Nelson também morreu de cirrose, ele bebia muito. Aí “Se tu quiser, eu falo com o meu gerente”. O promotor de justiça chegou no Banco do Brasil, o gerente era até o Armando Ladeira, me lembro como se fosse hoje: “Fala com ele”. Aí ele chegou aqui: “Falei com o meu gerente, o senhor pode ir lá abrir a sua conta”. Eu fui lá, fui muito bem recebido, abri a minha conta, aí precisei de dois avalistas pra abrir a conta e foi o doutor (Hilton?) e o doutor Nelson, dois promotores. Aí até hoje sou cliente do Banco do Brasil, nunca abri conta em outro banco, só no Banco do Brasil mesmo. Eu corri, segui corretamente o que o doutor Nelson falou e eu não tenho que dizer do Banco do Brasil, muita gente reclama mas eu não, no Banco do Brasil nunca peguei fila, eu toda vida fui bem tratado, né?

 

P/1 – Agora sobre a própria trajetória do senhor, o senhor lembra assim de algum caso, alguma história engraçada, alguma coisa que é marcante em toda essa... uma coisa que o senhor tentou fazer…?

 

P/2 – Que aconteceu aqui no restaurante ou com a tua vida?

 

P/1 – Algum caso?

 

P/2 – Uma história, um caso?

 

P/1 – Assim… o senhor nessa luta pra montar o restaurante, deve ter acontecido muita coisa, né?

 

R – Não. 

 

P/1 – Tem alguma que é marcante pro senhor?

 

R – Tem, tem. Tem duas histórias que foram marcantes, não foi nem no restaurante, foi aqui no bar quando era o barzinho mesmo que não tinha luz. Eu tenho um, João Melo, que era até torcedor do Flamengo também, era no banheiro, né, o banheirinho assim e não tinha vaso sanitário, não tinha nada. Isso aí é um negócio que eu nunca me esqueço, aí João Melo bebendo ali, aí vai no banheiro, né, e deu vontade de espirrar, “páá”, espirrou e a chapa dele caiu, a dentadura dele caiu dentro do banheiro. E o Cláudio que morava aqui, ele até trabalhava comigo de soldador na Usiminas lá na ponte, gostava muito de dinheiro, era um maranhense que... Aí o Cláudio lá jogando, até o Cláudio tava jogando sinuca e tal, aí chegou: “O que foi que aconteceu, João?”. O João Melo todo triste: “Rapaz, eu perdi a minha dentadura ali, caiu ali dentro da fossa [risos]. Caiu ali dentro da fossa a dentadura”. Isso aí até a Graça hoje, a gente quando conta, ninguém acredita, né? Caiu a dentadura e aí o Cláudio escutou: “Que foi João?”. “Rapaz, a minha dentadura caiu dentro”. “Quer me dar tanto? Eu vou pegar lá”. O Cláudio pediu, aí o João Melo disse assim: “Rapaz, você vai mesmo?” “Vou! Vou!” “Aí eu dou tanto pra pegar essa dentadura lá”. Rapaz, o Cláudio não contou com o velho, tirou a camisa, ficou só de calção, aí “pá, pulou dentro do buraco lá [risos], procurou, aí lá vem o Cláudio com a dentadura toda suja de [risos], com a dentadura na mão, né? Aí: “Aqui João!”. Sabe que foi que o João Melo fez? Foi na pia, lavou a dentadura lá e botou na boca [risos]. 

 

P/1 – E a outra, o senhor falou que tinha duas histórias?

 

P/2 – É, conta a outra. 

 

R – A outra foi também um negócio de um documento que uma pessoa inventou que tinha perdido, né, e esse mesmo Cláudio também foi atrás do documento e o cara inventou que tinha perdido a carteira com dinheiro pra não pagar a despesa, o cara tava liso e tal e quando foi na hora de pagar a despesa, aí disse que tinha perdido a carteira no mesmo local. E o Cláudio tava lá também e foi atrás dessa carteira e não a encontrou, era mentira do cara que não tinha perdido, ele inventou que tinha perdido pra não pagar a despesa. Essas histórias... porque aqui o pessoal vinha jogar dominó, bozózinho, jogo de bozó, né?

 

P/1 – Bom, agora a gente vai mudar um pouco tá, vai retornar um pouquinho na...

 

P/2 – Questão do Banco, né?

 

P/1 – Não, já falamos do Banco, já falamos. 

 

P/2 – Você quer fechar? Avaliar?

 

P/1 – Só uma coisinha. A gente tá fechando já. O senhor falou um pouquinho do Banco, só uma questão pra não passar, qual é a importância que o senhor vê na sua assim… Na sua opinião, qual que é a importância do Banco do Brasil aqui pra região?

 

R – Hoje, o Banco do Brasil tem a maior importância aqui na região, pois tem umas linhas de crédito muito boas. Eu acho que hoje, o Banco do Brasil tem uma parcela muito grande no desenvolvimento aqui do Estado, muito grande mesmo, mas grande. Você tem uma conta no Banco do Brasil hoje e não tira o dinheiro lá se não quiser, com juros barato, com prazo pra pagar, né? Você tem uma conta no Banco, eu mesmo na hora que eu preciso me aperreio e vou lá, não precisa nem de avalista, pelo menos eu não. Eu acho que se não fosse o Banco do Brasil aqui em Boa Vista, porque esses bancos particulares tem, mas é muito diferente do Banco do Brasil, tem a linha de crédito, mas é diferente e o banco particular é muito mais rígido, esses gerentes parecem ter medo de trabalhar. Já o Banco do Brasil não, pelo menos aqui em Boa Vista ele tem uma parcela muito grande, muito grande mesmo. Ele tem duas agências aqui, tem uma aqui no centro, tem três agências: têm duas no centro e tem uma lá no ________.

 

P/1 – Agora a gente vai voltar um pouquinho. O senhor falou que tinha se casado com a dona Graça, né, o senhor pode falar o nome inteiro dela?

 

R – Maria das Graças Barbosa de Góis. 

 

P/2 – Quantos filhos o senhor tem?

 

R – Nós temos cinco filhos.

 

P/1 – O nome deles?

 

R –  Três mulheres e dois homens. 

 

P/1 – Dá pra falar o nome deles?

 

R – É José Nicodemus de Góis Junior, que é o caçula, Francineiva Barbosa de Góis, Márcia Macedo, Evandro Barbosa de Góis e Marcilane Barbosa de Góis. 

 

P/1 – O que é que eles fazem hoje?

 

R – A minha, a Márcia, trabalha no Tribunal de Justiça, né? A Marcilane trabalha no consultório do marido que é médico. A Neivinha que é a Francineiva é advogada, trabalha no… Ei Márcia, a Neiva trabalha onde? Ministério Público. O Junior trabalha na Secretaria de Saúde e o Evandro na Prefeitura. 

 

P/1 – Agora, olhando essa história toda do senhor de luta e de sair de Caraúbas e ir pra Brasília, passar por Manaus, vir pra Roraima, o que é que o senhor diria assim... quais foram as maiores lições na sua vida?

 

R – Não, as maiores lições da minha vida, o que eu acho é o seguinte: o mundo, o mundo ensina a pessoa. Porque tem muita coisa assim que você pensa que, às vezes, o cara pensa que é  dono do mundo, é tudo, mas não é. A maior lição que tem hoje é você sair no mundo sozinho como eu saí, porque aí você… mãe é só uma, é o que eu digo pros meus filhos: mãe é mãe, agora pai, você encontra em qualquer esquina dessa, você encontra pai, quer lhe bater, quer lhe gritar e tudo mais, mãe é mãe. Até quando eu cheguei aqui eu fui me apresentar no exército, não tinha me apresentado, isso aí eu não me esqueço nunca que o comandante lá gritou pra gente, nós todos na fila lá e disse: “Olha, vocês aqui não tem pai, o pai e a mãe de vocês aqui sou eu”, é isso que eu tô dizendo, né? Porque mãe você adoece tem o chá e tudo, mas a gente no mundo lembra muito é da mãe.

 

P/1 – E o que o senhor diria que foi a maior...

 

R – Pra mim a segunda mãe é essa aqui ó, minha segunda mãe. 

 

P/1 – O que o senhor diria que foi a maior realização da sua vida?

 

R – Não, a maior realização da minha vida eu queria ver meus filhos todos no seu lugar, sem precisar da gente, todos já dependente só deles mesmos, todos trabalhando como tá hoje, né? E a gente vive uma vida mais tranquila, porque eu já estou com 61 anos, ela está com 59, vai completar 60, né? Nós estamos trabalhando demais, olha e esse negócio aqui dá dor de cabeça.

 

P/1 – E se pensarmos em termos de futuro, o que que o senhor diria do futuro? Como o senhor vê o futuro?

 

R – O futuro, eu queria viver uma vida tranquila mais ela, né, sem esse negócio de tá lutando com gente, porque a pior coisa do mundo é você lutar com, é a dor de cabeça maior do mundo é eu aqui fora e ela lá na cozinha. Tem dia que falta o pessoal que mais precisamos: duas cozinheiras, o garçom que não vem trabalhar, às vezes, porque vai desmotivando a pessoa, né?

 

P/1 – O que o senhor acha...

 

R – Que a gente tá gerando emprego, tá trabalhando, gerando emprego e ajudando as pessoas, porém muitas não reconhecem, isso é o que eu fico mais decepcionado. É com essas coisas. 

 

P/1 – Então, o futuro tá ligado a uma questão de geração de emprego, é essa a idéia?

 

P/2 – Não. 

 

R – Não, o futuro é o seguinte: é ver meus filhos estabilizados no canto deles e a gente ter uma vida mais sossegada, né? Porque a gente já tem um negocinho em Natal, o dia que quisermos passar dois, três meses lá em Natal, já tem um apartamentinho lá. Esse nosso sítio é o nosso sonho. É passar a morar futuramente lá, né? Porque isso aqui é muito agitado, a pessoa... Vou completar agora, dia 27 de novembro, 61 anos de idade. Eu comecei a trabalhar com 10, quer dizer, 50 anos trabalhando, né, e duro. Trabalhando duro para criar os nossos filhos, formar como formamos os filhos todinho. Hoje não é fácil não.

 

P/1 – Seu Dédinho, só uma historinha aqui que eu fiquei sabendo que parece que no dia do casamento o senhor esqueceu do casamento. 

 

R – [risos].

 

P/2 – Ah, o senhor vai ter que...

 

R – Ainda teve isso ainda [risos]. Quantas horas são?

 

P/1 – Então, dá pra contar essa história do casamento aí?

 

R – Não, essa história do casamento é o seguinte: eu toda a vida eu botei na cabeça o seguinte que o casamento é união, porque algumas irmãs minha casaram, às vezes, do primeiro casamento e do segundo, aí faziam aquelas festas lá na fazenda e mamãe chorando para os cantos porque elas iam sair de casa. Não sei o motivo e tal que eu ficava de olho, né? Aquele casamento o pessoal gastando tudo com véu, com tudo não sei o quê! Moravam dois, três meses e o casamento se acabava, eu digo: “Eu nunca vou me casar!”. Porque para mim casamento tem que ser união, casamento eu acho que… o que é melhor do casamento do que a união? Não adianta você casar na igreja com testemunhas, com aquelas festas, com o não sei o quê pra depois... Aí comecei a namorar com a Graça e tal, nós moramos foi 22 anos, né? [pausa]. Não, eu digo mas sem casar. 30 anos sem casar... 13, ah, foi 13 anos, né, sem casar. E depois de 13 anos eu digo: “Ah, acho que agora dá pra casar” aí ela: “Embora pra marcar o casamento” [risos]. Quando eu era solteiro eu dizia: “Só caso se for na polícia, nos três”. Tinha aquela brincadeira: no padre, no cartório e na polícia também. E no dia do meu casamento quem foi servir de testemunha foi um cunhado meu e um delegado de polícia [risos], a coincidência foi esse delegado de polícia. Aí todo mundo se arrumou e tal, aí foram pro cartório. E todos lá me esperando e eu não sei, daí eu esqueci que ia casar [risos], quando eu me lembrei digo: “Porra, hoje é dia do casamento, rapaz!”. Aí fazia quantas horas mais ou menos Graça? Era bem umas quatro horas o pessoal todo lá preocupado e me esperando no cartório pra eu casar [risos]. E essa daqui já brava que só.

 

P/2 – E o delegado foi buscar o senhor?

 

R – Aí sim o delegado veio atrás de mim, não foi? O Coelhinho veio atrás de mim pra eu casar. Eu não me lembrava que ia casar naquele dia, já estava tudo marcado. Mas graças a Deus deu tudo certo, né? Até hoje. Meu filho mais novo tem 25 anos. 

 

P/1 – 25 anos de casado? A gente tá fechando mesmo. Bom, tem esse projeto daqui pra comemorar os 200 anos do Banco do Brasil e com isso a gente tá colhendo esses depoimentos. O que o senhor achou de ter participado dando o seu depoimento?

 

R – Não, pra mim foi o maior orgulho do mundo, olha, fora de brincadeira, porque quando a senhora ligou eu nem acreditei, eu pensei que fosse até um trote que a gente fica com medo, né, esse negócio: “É Banco do Brasil  e tal, não o que”. Porque aí hoje em dia a gente não pode, né? E depois que eu fui acreditando quando a senhora foi falando que o Banco iria completar os 200 anos e o pessoal, aí eu acreditei porque eu digo: “Como é que ela descobriu que eu era cliente do Banco do Brasil esse tempo todo?” Aí eu digo: “Então é verdade”. Eu pensei que não era. Porque a senhora ligou umas vez e eu não estava aqui, porque a Graça: “Ei, Dédinho, tem uma senhora do Banco do Brasil que quer falar com você, não sei o quê”. Aí até uma hora deu certo de eu estar em casa, né?

 

P/1 – Ainda bem, né?

 

R – Ainda bem. 

 

P/1 – E o senhor gostou de ter falado?

 

R – Não, gostei demais, foi uma das melhores entrevistas que eu dei. Porque estão fazendo um livro sobre a minha vida também na faculdade, né, foi até um professor que me indicou, né, e eu não sou de dar entrevista. Eu tenho um problema aí, um programa na Folha de Boa Vista que aquele pessoal antigo que chegou aqui e essa mulher ligava todo dia e pedia pra Graça pra eu ir, pedia e tal e eu não ia, e não queria sair na Folha, não sei o quê. E no dia que eu resolvi, cheguei lá, não falei nem nada pra ela. Foi até no dia de quinta-feira, quando eu bati na porta que disse que ia dar entrevista e essa mulher quase: “Não, não acredito seu Dédinho, pelo amor de Deus, o senhor vem mesmo e tal” e chamou o pessoal, porque eu não gosto de aparecer, fora de brincadeira, eu não gosto de sair em jornal, não gosto de aparecer mesmo.

 

P/1 – Mas ainda bem que o senhor aceitou aqui. Olha, em nome da equipe toda aqui do Museu da Pessoa...

 

R – Até gostei demais, muito bom.

 

P/2 – Valeu a pena.

 

P/1 – A gente agradece, muito obrigada.

 

P/2 – Muito bom. 

 

R – Muito bom. Muito bom, foi um papo descontraído, né, que é um negócio da vida da gente. E tudo que eu falei pode botar que é verdade.

 

P/1 – Então tá certo. Muito obrigada.

 

R – Obrigado também.

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