Busca avançada



Criar

História

Seu Celso, o baixista

História de: Celso Santana de França
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/02/2021

Sinopse

Celso conta sobre a origem de sua família e sobre sua infância em Sete Barras. Fala sobre as festividades que frequentava em sua infância e juventude, sobre o desenvolvimento nos meios de comunicação e transporte na região, sobre sua atuação musical e trabalho.

Tags

História completa

P/1- Bom "Seu Celso" primeiro eu queria agradecer ao senhor, em nome do Instituto Peabirus, do Museu da Pessoa e da Secretaria.

R- [acena com a cabeça].

P/1- Antes de conversar, eu queria, para gente deixar registrado, o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

R- É pra eu falar agora?

P/1- Isso.

R- 2 de Outubro de 1930.

P/1- E onde é que o senhor nasceu?

R- "Ahn?" [se aproxima da entrevistadora para ouvir melhor].

P/1- O lugar que o senhor nasceu.

R- Ah [volta para sua posição], aqui mesmo, pertinho aqui. Quase em Sete Barras mesmo, "laranjeirinha", Laranjeiras. P

/1- Bairro Laranjeiras, né?

R- É.

P/1- E “Seu Celso”, o senhor sabe qual é a origem da sua família?

R- Como é que é [se aproxima da entrevistadora para ouvir melhor]?

P/1- A origem da sua família.

R- Ah [volta para sua posição]. A minha família veio de lá de Portugal, né, e eu tenho um livro lá em casa onde fala do meu avô, do meu bisavô, do dia e data em que meu pai casou, tudo. Tem um livro já, lá em casa, da família França, que veio em 1900 [fecha os olhos como gesto de esforço para lembrar a data]... Há 400 anos atrás! Então, praticamente, o que eu ia falar, o Martim Afonso, que veio colonizar o Brasil, ele veio nessa comitiva, onde uma parte se separou, foram para vários lugares, e meus avós, meus antepassados vieram aqui pro Vale do Ribeira. Montaram fábrica de "pinga", aquela coisa, meu avô ficou como comerciante aqui em Sete Barras, aí se mudaram pro sítio aqui em Olho d'Água, daí os jagunços foram para Eldorado - ainda têm ruas com o nome de Romão de França lá, que é da mesma família, né, já assumiu parente, primo, mas era França mesmo. Então, é uma família que veio dos Açores, da ilha da Madeira, grande parte da Europa que veio, até alguns da França que vieram, né, vieram reunidos, e se espalharam aí em Santos. Aí um pouco foi até lá em São Paulo, um pouco em São Vicente, Iguape, Cananéia, e aqui no Vale do Ribeira, São Miguel Arcanjo. É a minha família.

P/1- Como é que foi a infância do senhor, Seu Celso?

R- "Ein"[se aproxima da entrevistadora para ouvir melhor]?

P/1- Como é que foi a infância do senhor?

R- Como é que é?

P/1- A infância do senhor, quanto...

R- Ah sim [volta para sua posição], minha infância aqui, a única coisa que tinha era estudo até o Quarto Ano, né? Eu estudei quatro anos. Não tinham meios de comunicação para ir pra outro lugar. Aqui não tinha estrada que ia para Registro, nem para Eldorado, nem para São Miguel. O meio de comunicação aqui era fluvial, né? Só vinha o vapor que era o Cândido Rodrigues, Vicente de Carvalho, (Bento Muniz?), Jupiazinho, que eram os de casinha à vapor de pequeno porte, mas outros tinham dois andares, né, o pobre andava na parte de baixo e os ricos em cima, tinham os camarotes em cima, e iam até Eldorado. Naquele tempo era navegado, seria um navio, um barco de bom tamanho, né, tocado a lenha, aquela roda atrás, de madeira, que fazia "ra,pum, pe, pe, pe, pe". Quando você queria parar pra ir viajar para um lugar desses, tinha que pôr bandeira no porto, ___pra apitar, o navio, o barco apitar: "Tchuuuuu", cada porto tinha um pau fincado que era para pôr a corda, para quando o marinheiro saltar, não ter problema de não ter onde puxar para prender o vapor. Vendia o arroz que tinha, o feijão, aquelas coisas, e pegava a passagem também. Ele ia até Eldorado, de Eldorado ia à Juquiá, de Juquiá ia até Iguape, daí fazia essa linha aí, esses vapor, né?

P/1- E o senhor gostava de brincar de alguma coisa? Como é que era na sua infância, tinha festa na cidade?

R- Festa [se aproxima da entrevistadora para ouvir melhor]?

P/1- É R- [volta para sua posição]. Tinha festa aqui na cidade de São João Batista, uma vez por ano só, né?

P/1- E como é que era essa festa?

R- Uhh [revira os olhos], a festa, vinha todo mundo. Vinham de canoa, de tudo...Porque não existia meio de comunicação. Até pelos caminhos tinham lugares que, na época, não podia passar, por causa de água naquelas passadas, cavalo não passava, nem carroça passava. Era o meio de cavalo, aquela coisa, né, o único meio de comunicação era a canoa.

P/1- Como é que era essa festa de São João Batista?

R- Uhh [revira os olhos], era uma festa...Era tudo daqui da cidade da vila, era aquilo, né? E o movimento era todo lá embaixo, _____ , e a igreja era aquela, mas ela é "pequenazinha", né? Tinha outra maior que ela, que eu "marromenos" conheci, que ficava bem pro lado de baixo, e depois há aquela que era em pequena escala, onde me casei ali também [pigarro]. Depois aumentou. Melhoraram ela, deixaram maior e tudo, aquela igreja de São Benedito lá, né, exatamente. Então eu já, depois dos 15 anos, entrei na banda também. Nós tocávamos, a procissão percorria, descia aquele morro no meio de pedra, tudo ali, ia lá em baixo, dava a volta lá por baixo do rio, e subia a (Piê grande?), às vezes nós subíamos morros assim "empinadinhos", tocando, né? A gente ia lá fora e tocava. E eu fui o terceiro baixista, de baixo, depois que o Durval de Castro fundou Sete Barras. Foi um grande homem, eu não cheguei a tocar com ele, mas toquei pra ele quando ele veio aqui visitar. E fui o terceiro baixista, e sou até hoje ainda. Porque meu baixo estragou, parei de tocar, mas tá lá o baixo quebrado, lá em casa. P/1- E o senhor tocava em todas as festas? R- Eu ainda sou presidente da banda.

P/1- Ah, o senhor ainda é presidente da banda?

R- Sou o presidente da banda.

P/1- Então toda festa que tem o senhor toca?

R- Eu toquei bombardino, trombone, e ultimamente é o baixo, porque não tem baixo, tem cinco baixistas aqui, né? Aqui na região só pode ter em Eldorado um baixista novo, e só eu aqui. Muitas vezes vinham me buscar aqui para tocar em Eldorado, Jacupiranga, Registro, né? Porque com a falta de baixista, iam me buscar, me tornava importante nessa parte [risada].

P/1- E como é que foi o senhor...

R- [se aproxima da entrevistadora para ouvir melhor].

P/1-...começar a aprender a tocar, começar a mexer com música?

R- [volta para sua posição]. Com o aprendiz, com os primeiros aprendizes da banda de Durval de Castro… Foi um grande homem em Sete Barras, hein? Acho que esteve aqui mais ou menos, em 1925, 1920 - e eu nasci em 1930, né, eu não cheguei a tocar com ele. Então, esse meu tio aprendeu com ele, e se tornaram maestros também, meu padrinho, "Tomászinho". Então ensinaram, fizeram _____, até que eu entrei também com eles e fiz parte, até eles falecerem. Aí meu tio mudou para Registro, como maestro da banda lá, o Alexandre, e faleceu lá. Aí com o tempo... hoje em dia eu sou o presidente da banda, ainda. Eu via afinação, aquelas coisas, né, então participo ainda de vez em quando.

P/1- E o senhor aprendeu com esse padrinho mesmo?

R- Ahn[se aproxima da entrevistadora para ouvir melhor]?

P/1- O senhor aprendeu com esse padrinho?

R- Com o meu tio, é.

P/1- Com seu tio.

R- É. Tio e padrinho.

P/1- Me conta, tem alguma história marcante desse tempo de banda ou dessa sua infância?

R- É [olha para baixo]. Aqui é um lugar completamente isolado. Se a gente quisesse ir para Eldorado, nem a gente conseguia ir, tinha que ir de canoa, ou para Registro, numa festinha lá. Depois teve uma estradinha, muito estreitinha, né, que tinha porteira para estrada e tudo, a gente ia para Registro lá, então já víamos alguma coisa, não é, que nem sorveteria, que a gente não conhecia sorvete, e já tinha sorvete lá [risada]. Aquela coisa toda, e o único meio de comunicação era esse aí. Aí começou por aí. Porque a maior parte que tinha antes disso era só por água. E quando, aqui pra São Miguel, quando eles vinham trazer mercadoria para vender, batatinha, e cebola, e muito fumo aquele tempo, uma farinha de milho, o material da lavoura deles, vinham com burrada muito grande, aquela tropa descendo da serra. Até teve uma vez em que eu estava caçando, passei onde eles passavam, tinha um corte na serra, assim, da burrada que passava. Aqueles burros que enfiava o pé pra raiz, assim, porque quebrava, deixavam lá e a onça comia o burro lá, porque não podia estar com a perna quebrada, e tinha muita onça, como tem até agora. Eu tenho um sítio lá, um pedacinho de sítio lá e meu filho estava trabalhando, quando uma (anta/ onça?) saiu no meio deles lá, aí tinha caçador perto, e foi sorte que não avisou, se não iam matar ela, dava para filmar ela, assim, é, aqui pertinho, tem mais ou menos uns 21 quilômetros daqui. É uma coisa linda de ver, né?

P/1- E o se...

R- Então a gente distraía, só que uma vez por ano, quando eu ia pra Iguape eu ia de lancha, para assistir a Festa do Bom Jesus.

P/1- Ahh.

R- A gente ia de...Fazíamos a lotação na lancha e íamos pra Iguape assistir a festa, Festa do Bom Jesus de Iguape.

P/1- E tinha uma festa do Bom Jesus em Iguape, e uma aqui em Sete Barras?

R- Pois é.

P/1- Ah tá.

R- E em Eldorado era Nossa Senhora da Guia, né, que foi trazido por essas pessoas que vieram de Portugal. A imagem de Nossa Senhora da Guia não é feita aqui, veio da Europa também.

P/1- E me conta uma coisa Seu Celso, como é que era a cidade nessa época?

R- Uhh, mas era uma coisa, em miniatura, era tudo lá embaixo, todo o movimento era lá, aqui era tudo mato, vinha até mais ou menos, logo perto da igreja ali, daquela igreja de São Benedito, terminava. Tudo mato. Não tinha luz. Então fazia-se uma espécie de uma lamparina, assim, a pessoa acendia logo que começava a noite, e deixava de dia apagada, a lamparina, com óleo, né, tudo pendurado naqueles "postezinhos". Depois que veio um motor aí, tocado a carvão, sei lá, logo perto da minha casa, onde está agora a minha casa. Então já tem uma "luzinha" melhor. Era distrito, naquele tempo, né, Eldorado era com máquina, então Eldorado colocou aqui aquele "motorzinho" lá, que fornecia luz até meia noite, por ali, e depois apagava.

P/1- E o senhor tinha alguma brincadeira que o senhor gostava mais de brincar, quando o senhor...

R- "Óia" a minha brincadeira era mais música, tocava em baile também, toquei em baile, carnaval, até o hospital aqui, que quem fundou foi eu com o primeiro prefeito, Sebastião Madaleno de Souza, de... Sebastião Madaleno, é o nome dele, aí. Então, eu e mais, Janguito, (Najir?), e (finado Severão?) cego, pai do "rapazinha" que mora ali, que tocava sanfona. Então ele me convidou: "Vamos fazer o carnaval? Para adquirir dinheiro para nós começarmos a construir o hospital, então vamos?". Tocamos as quatro noites, na última noite ele não aguentava mais, eu tocava trombone, e ele o saxofone, e ele não aguentava mais, saiu, e eu fiquei sozinho. Fiquei só no trombone, então minha boca estava machucada, eu não conseguia tocar, então eu dava só o começo da música e a pancadaria e o ritmo ficava tocando, até três, quatro horas da madrugada, essa última noite, e foi quando começaram a fundar o hospital, com aquele dinheiro, né?

P/1- E me conta uma coisa Seu Celso, aí o senhor foi crescendo, a cidade foi crescendo...

R- Sim.

P/1-...e você lembra desse crescimento da cidade...

R- Sim, mais ou menos.

P/1- ... o que é que foi mudando?

R- Vou calcular assim, eu acho que até [pausa], até [fecha os olhos como esforço para se lembrar], não tinha ponte, tinha uma canoa só que dava passagem pro pessoal aí, não tinha meio de transporte rodoviário, então eu acho que faz mais ou menos uns 40 anos atrás. Daí foi evoluindo, foram fazendo a ponte, já melhoraram a balsa, já puseram (um já com tubo?) a balsa pra quando atravessar já estar com a estradinha feita, para atravessar com um carrinho pra viajar, né? Tinha um carro que servia como ônibus, a primeira linha, e foi do Sebastião Madaleno, que foi o prefeito, então ele dava umas viagens por dia, pegava quatro, cinco pessoas, e era a linha de ônibus que ia até Registro e voltava. Depois ele ampliou para um ônibus maior, e foi indo assim. Hoje tem asfalto, tem tudo, tem ponte, tem estrada pra São Miguel, que não tinha, você não gasta uma hora e tá lá em São Miguel. Primeiro não. Aquilo ali era só meio de cavalo, de burro, o burro mais que aguentava, o cavalo não aguentava, o modo de trazer aquelas mercadorias que não pegavam, que podiam ser perecíveis, com a chuva, faziam um cesto, um cesto de cada lado, tinha a cangalha, amarrada com o peitoral para não rolar na descida e uma parte, chamada "rabicho", que prendia pra não cair morro abaixo, né? Então eles traziam, num cesto de couro, coberto com couro para não molhar a mercadoria, senão estragava tudo. Então aqui em Sete Barras vinha um burro na frente batendo: "Ding, ding!" um cincerro na frente, chamando a burrada, 20, 30 burros atrás acompanhando. Eu vi muito disso aí.

P/1- E Seu Celso, o senhor falou que o senhor tocava bastante nos bailes da cidade...

R- Sim.

P/1- ...como é que eram esses bailes da cidade?

R- É, (você procurava?), mandavam buscar, já tinha o intermédio, já estava melhor a situação aqui já, né? Aí eu estava com meus 18 anos, 20 anos, aí vinha as músicas, tocava as músicas do momento [entrevistado canta]: "Chiquita bacana lá da Martinica, se veste como uma casca de banana...", aquela coisa [risos].

P/1- [risos]. Canta de novo, canta um pouquinho pra gente.

R- [risos]. Ôh, tem tantas músicas, que a gente... Eu tenho um repertório de música, com mais de 100 músicas lá, né, então eu tenho na cabeça uns dobrados antigos, aqueles dobrados tudo, só que quando pegava no instrumento, às vezes eu me esqueço, porque a cabeça da gente é um computador, né, a gente pega, às vezes me esqueço daquele dobrado ali, agora parei porque não estou muito bom de... problema de coluna, de pressão, né, tô fazendo tratamento. Então quando dá o tom: "Dá o tom pra mim desse dobrado" aí já vem tudo na cabeça da gente. A gente pega um dobrado que é comprido, que é repetido em três, quatro partes, né, toco a primeira parte, repete, vai pro trio de baixo, repete, volta a primeira parte, depois passa pro trio, do trio volta a primeira parte. A gente vai gravando aquilo, então, eu tenho mais ou menos umas 30, 40 músicas, assim, gravadas na cabeça, que eu pego pra escutar na mão, quando eu pego pra tocar, tá na cabeça da gente, né?

P/1- E tinha alguma música da cidade, assim...

R- Ahn [Se aproxima da entrevistador para ouvir melhor].

P/1- Tinha alguma música da cidade...

R- Não, não [volta para sua posição].

P/1-...um hino da cidade.

R- Fizeram um hino aqui de Sete Barras, mas não chegou a progredir, um dia parece que tocaram aí, mas eu não cheguei a tocar. Não, não ficou lá muito legal - a pessoa que fez acho que deixou de pôr alguma coisa importante, acho que não teve orientação adequada para que ela pudesse se inspirar melhor, né? Que nem Eldorado, tem umas músicas de Eldorado, Registro tem, eu toquei algumas de Eldorado, muitas vezes, o maestro, que é falecido, saudoso (Plínio?), vinha me buscar em casa para eu tocar lá em Eldorado com ele, ele estimava tanto. Participei em Registro muitas vezes, ia tocar lá, com a banda de Registro, e eu era o baixista, só eu era baixista. Então, até agora, se pudesse ter um meio de, já que a gente tá falando disso... Meu instrumento quebrou, e o meu instrumento é "Mi bemol". Agora veio um bombardão, que o finado (Gitão?), que ajudou muito pra banda, foi um dos prefeitos número um aqui em Sete Barras, ele tornou a reorganizar a banda que tinha acabado, né, mandou reformar os instrumentos “tudo”. Então, nosso líder José André, que é falecido, sentou na cadeira dele: "Senta aqui compadre! O senhor é o prefeito hoje", então aí ele começou a contar da banda, aquela coisa, né: "Então, temos uns instrumentos velhos aí", então ele mandou reformar os instrumentos, ele comprou um baixo que era muito estragado, mas o baixo logo estragou, que era muito mal feito o baixo, foi meio adaptado, né, e acabou quebrando. Então foi ele que... Depois o outro prefeito, "pff", acabou, não deu mais assistência para a banda. Ele quando nós estávamos ensaiando, ele ia com nós, ensaiar, ajudar, levava refrigerante, ficava feliz com nós, depois acabou, não tinha mais ajuda, ainda toca de graça, quando chamam pra Eldorado, quando íamos pra Eldorado, Jacupiranga, (fez a linha?)[barulho], Juquiá, aí Pedro Barros, Pedro Toledo, Registro, Juquiá, nunca ganhamos nada - era só pra tocar, colaborar com as festas, parte religiosa, porque a banda aqui se chama Banda São João Batista, o padre que sempre botava... Até agora, eu estava conversando com o padre lá. A gente tem tanta coisa, né, que Sete Barras o movimento era só lá embaixo, quando o vapor chegava, o comércio era tudo lá. Só tinha o abate aqui em cima, que eles tinham uma venda já. Então chegava um tal de Sebastião Pombo, que dizia que era muito forte, e ele carregava aqueles fardos de carne seca, vinha tudo enrolado em lona, _____fardo grande de carne, que pesava 60 quilos, ele botava nas costas, subia aquele morro "empinadinho" e vinha trazer aqui no abate toda mercadoria. Numa época que não subia carroça porque era muito empinado ali, então ele carregava nas costas, era um touro de forte ele. E tem descendência dele aqui ainda, tem uma filha dele que mora aqui perto, que é parente do "Andrézinho", aquele bem velhinho.

P/1- E me conta, essa banda que viajou tanto, vocês tocaram em tantos lugares aqui pela região, tem alguma história de algum lugar que vocês tocaram, alguma história marcante, alguma ocasião?

R- Não, quando a gente ia tocar, recebíamos aqueles elogios, muitos foguetes, muita festa, os prefeitos vinham agradecer a gente, aquelas coisas. Mas nem em todos os lugares. Em um lugar mais delicado, vinham agradecer, cumprimentar os músicos, embora eu tenha ido tocar lá em Iporanga há uns quatro, cinco anos atrás - até foi o rapaz, o escriturário da prefeitura, (Odaír?), que nos convidou - então nós fomos tocar lá, o prefeito ficou muito feliz de nós tocarmos...Iporanga você não conhece, né? A ponte, você pega o rio acima, passa Eldorado, e pra chegar em Iporanga dá só terreno acidentado, para nós chegarmos em Iporanga a cidade ela é (com marca?) também. Ao chegar lá é uma "cidadinha" feita de muitas casas feitas à pau a pique ainda, (barreada?) ainda, algumas casas. A ponte, o rio lá tem mais ou menos, uns 20 metros da agulha, essa ribeira aqui, a ponte atravessa na cidade, então quando chegamos lá, nós chegamos tocando, né, a banda estava bem organizada, tocando bem, afinada. Aí o prefeito veio nos buscar, nos receber, deu um almoço muito bom, até a padroeira Sant'ana, mãe de nossa senhora, né, filha de São Joaquim, e Sant’ana, que é a mãe dela, então lá a padroeira Sant’ana. Então fomos tocar na frente de igreja, aí o prefeito gostou muito de uma música que eu toquei, que o baixo toca, "Chora meu baixo" [canta a melodia da música], é uma música bem, que executa o baixista mesmo, né, ela é comprida a música, então eu toquei e ele ficou muito contente, pediu que eu tocasse, e veio e tirou fotografia comigo, abraçado comigo. Então eu assumi o destaque [risos], a parte principal da banda naquele momento, fiquei até meio chateado, porque eu toquei sozinho o baixo, sem a banda, porque ele pediu pra que eu tocasse para ele. A gente sofria muito... Teve muito aplauso, muitas coisas, que eu fiquei muito, gostei muito da música, que me distrai, eu tenho meu álbum de música, às vezes eu olho aquele álbum - quantidade, tem mais de 200 músicas lá. E hoje em dia, me colocaram como presidente da banda, né, só que tá meio [mexe as mãos], a prefeita. Pedi o baixo pra ela, falei com a irmã do deputado Samuel, porque Samuel é sobrinho do meu irmão que faleceu já. A mãe de Samuel, é irmã da minha cunhada, minha cunhada tá viva, (Deaelle?), né, então ela é prefeita de Miracatu. Um dia ela veio aqui para inaugurar esse banco do povo, aí falei, cheguei: "Vou falar com Déia ali!", porque eu tenho muita amizade com ela, todo ano nós nos encontrávamos na festa de Nossa Senhora da Guia, nós almoçávamos juntos na casa do meu irmão, mas era irmã da minha cunhada, aí eu cheguei, ela estava meio distraída, daí toquei no braço dela, e ela: "Ôh Celso!", me abraçou, beijou, _____ [braço na frente do rosto]. Aí eu: "Déia, peça para sua filha, para sua neta, que me traga um baixo pra mim, porque tá quebrado, meu baixo tá desafinado, sai ar por tudo. Vê se traz pra mim, porque pra comprar custa uns seis mil, e eu não ganho nada com isso. (-----) Eu vou tocar para ele mesmo, porque ele vai ser eleito outra vez, votei para ele, e vou votar". Até hoje, falei com a Dona Alice que falasse, dei o tom: "Dona Alice, é Mi bemol, não é Si bemol não. Mi bemol clave de Sol". Então já falei com a Déia, já falei pra Samuel, até hoje ela tá me devendo isso aí [risos].

P/1- E agora Seu Celso, me conta um pouquinho, o senhor trabalhava na roça...

R- Na roça.

P/1- ...como é que era esse trabalho?

R- Até agora eu ainda oriento o serviço da roça, que onde vai tem os filhos. Eu tenho três filhos que trabalham, né, que moram de terra aqui, de 64 hectares, a beira do rio, 100 quilômetros, que lidam com um pouco de banana, um pouco de búfalo, um pouquinho, né. E tem uma outra área lá no quilombo, lá no Rio Grande da Serra, que vai pra São Miguel, maré pequena lá, onde foi que meu filho viu a (onça/anta) lá, né, aquela coisa. Então eu gosto muito de ir lá pra distrair, olhar o mato, aquelas coisas, então assim me criei (inocente?), nesse ritmo aqui, não sabia fazer outra coisa a não ser isso.

P/1- E como é que é o dia a dia na roça, com o que é que o senhor mexe, como é que funciona?

R- A roça?

P/1- É.

R- Ah, precisa saber fazer as coisas pra não fazer errado, plantar no tempo certo, mexer com a terra bem, tudo certinho, plantar banana, observar o mês que vai plantar. Que nem quando a gente plantava arroz, tem a época do arroz aqui, né, que é de agosto, setembro, outubro, o último mês é janeiro, mas o arroz não dá “grande” coisa. Mas agora não plantamos mais arroz, agora virou só banana, porque não vale a pena plantar arroz, compensa mais comprar arroz do que ocupar terra pra plantar arroz. E tem lugar mais fácil de quadra, que é lá em Rio Grande do Sul, vários lugares, que vem um arroz com mais... onde tem problema de água, com irrigação de água, e a banana não gosta de muita água, a banana só gosta da água passageira, né, tem que (valetear?), aquela coisa, preparar o terreno para poder que a água não fique parada ali, senão vai acabar estragando a banana, morre dentro da folha, uma série de coisas, né?

P/1- E agora me conta um pouquinho Seu Celso, o que é que o senhor gosta de fazer hoje, quais os lugares da cidade que o senhor gosta de visitar?

R- Eu não escuto mais [se aproxima da entrevistadora para ouvir melhor].

P/1- O que é que o senhor gosta de fazer hoje?

R- "Óia" [volta para sua posição], eu tô com a saúde meio complicada agora, tô me cuidando, mas assim, de agora em diante eu não vou mais fazer...Trabalhava até agora pouco tempo, há um mês atrás, eu ainda fazia coisa, levantava pé de banana, aquela coisa, desbastando, agora vou parar um pouco, e a idade já não dá, né? Problema da coluna, eu tô fazendo exame de coluna, até vou pegar um exame de densitometria óssea amanhã, para ver se aquela dor que me deixa meio atropelado, então a hora que eu melhorar, que Deus ajude que a gente melhore, eu vou voltar mais a olhar, pra ver, porque cada um trabalha, mas tem um filho que é mais chegado comigo, que eu gosto de trabalhar com ele, que é o meu segundo, o do meio, o Zé Carlos. Sempre tem na família um que tu se entrosa mais com ele, né, o outro já tem... Tem uma hora que não obedecem muito a gente, mas a gente não se agrada muito quando era da administração dele, não aceita, então nesse ______, e é o que está progredindo melhor.

P/1- E Seu Celso me conta, o senhor vem bastante pra cidade? Qual é que é o lugar daqui que o senhor mais gosta, e por que?

R- Daqui de Sete Barras?

P/1- É.

R- "Uai" eu nasci e me criei, eu acho que me sinto bem melhor aqui em Sete Barras. Porque a gente vai pra outro lugar, já é um ambiente diferente, precisa até fazer aquela amizade, a idade da gente tá meio, né, as pessoas de idade já não têm muita aceitação no meio dos jovens, aquela coisa, então a gente se acha melhor aqui, porque vê os amigos da gente. Que nem tem uma pessoa muito importante ali, o (Viê de Gino?), Gino Amaro que mora aqui, uma pessoa mais velha do que eu, um cara muito inteligente, tem muitas coisas a explicar também. Aquele Andrézinho ele falou muita coisa, né, aquele velhinho...

P/1- [risos]

R-... e ele é músico, ele toca uma “trompinha”, aqui. Agora não tá podendo tocar mais, ele toca "pá pa rá pa, pa, pa, pa", ele só faz aquela parte na banda, que faz muita falta na banda, uma trompa, uma harmonia, né, porque o bumbo bate "pum pá pa, pum pá pa" e o baixo toca e já responde "tá tá tum tá tá tá tá tum" pronto é assim então. Ele faz muita falta, foi músico muito velho, e eu tenho mais ou menos de música desde os 15 anos, até agora aos 80, porque eu não tô tocando, entendeu, a banda tá meio parada, né, mas pelo menos ver a afinação dessas coisas, vem ouvir aí, né, ainda entra na cabeça.

P/1- E tem, nesse tempo todo de Sete Barras, alguma história muito marcante na sua vida, algum acontecimento?

R- Marcante...Eu ia até...Não tem...Como assim, você diz marcante de...

P/1- Alguma coisa que foi muito importante pro senhor, que aconteceu em todos esses anos aqui na cidade, algum marco.

R- Sim, igual eu gostei da evolução como melhorou muito, estudo, o ensino já veio, [pigarro], o curso maior, o ginásio, colegial, daqui já saem, tenho já várias pessoas da família se formando, um já advogado, o outro, vários tipos de atividade, né, então a gente se sente feliz, que vão para Curitiba, vão para Registro, os netos, né, e filhas também, formadas, que dão aula, professora, dá aula aqui, e tá se aperfeiçoando cada vez mais. Todas minhas filhas são professoras, é, algumas não estão em atividade porque o marido não quer, né, mas são professoras. Já os filhos ficam na roça, um aprendeu, aquele técnico florestal, e tem que prestar um estágio para receber o diploma dele, pediu até, aqui na casa de lavoura, para fazer um estágio, a moça ficou de dar uma chance pra ele, até hoje não chamou, pra ele receber uma inscrição de que ele pode trabalhar, agir, né, porque, que ele fez os cinco anos, fez.

P/1- E Seu Celso o senhor tem algum sonho de vida, alguma..?

R- "Óia", da idade que a gente tá, quer ver a felicidade dos filhos, porque o que a gente tinha de fazer, já fez, né? Quero que Deus conserve a gente mais um dia, cuidar da saúde, e ver os filhos unidos, porque a única coisa da gente é a união e a paz, né, onde não existe paz, não existe vida. Eu sou religioso, católico, meus filhos que não são.

P/1- E o que é que o senhor achou de dar essa entrevista pra gente, de vir até aqui?

R- Como é que é [se aproxima da entrevistadora para ouvir melhor]?

P/1- O que é que o senhor achou de dar...

R- Ahh [volta para sua posição], eu gostei da conversa, da senhora, muita simpática, dele, muito simpático, tô muito feliz. Têm muitas pessoas, que por causa de nossa idade, não dão importância, às vezes, pra gente, às vezes deixa a gente de lado, a gente fica até meio humilhado, mas me sinto muito feliz com a simpatia dela, com a sua também.

P/1- Então tá. Seu Celso, infelizmente a gente vai ter que encerrar por hoje, mas muito obrigada...

R- Sim.

P/1- ...foi ótimo.

R- Sim [risos]. 

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+