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História

Seu Carmo, Agente Comunitário de Saúde pioneiro

História de: Carmo Patrocínio Pinto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/11/2004

Sinopse

Carmo nasceu no dia 28 de julho de 1941 em Monte Alegre, MG. Filho de pais agricultores, teve uma família com muitos irmãos, mas muitos faleceram, algo natural para as condições da época. Desde os sete anos de idade trabalhava na roça, frequentava muito a Igreja Adventista junto com sua família. E aos 26 anos decide estudar e mudar de vida. Muda-se para São Paulo, no Instituto Adventista conclui o 2o grau e começa a estudar enfermagem com uma bolsa parcial, mas precisa voltar para ajudar o pai acidentado. Após um período volta a estudar em São Paulo e conclui o curso. O trabalho em regiões carentes foi um dos motivos para escolher a área. Até que um dia recebe a oportunidade de um projeto novo: O PACS (Programa de Agentes Comunitários de Saúde), 'seu' Carmo se encantaria com o objetivo do trabalho e hoje é enfermeiro e instrutor dos Agentes Comunitários nos municípios do Distrito Federal. Conta sobre como foi o processo de estabelecimento do programa, o contato com as famílias carentes, os conflitos políticos, enfim, sobre a luta diária pela saúde pública no Brasil.

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História completa

P - Nós estamos em Padre Bernardo, município do entorno do Distrito Federal, hoje é 24 de abril de 1997, eu estou entrevistando o Sr. Carmo Patrocínio Pinto. Cláudia Leonor Oliveira. Queria começar a nossa entrevista, pedindo para o senhor repetir o nome  e o local, e a data de nascimento do senhor.

 

R - Nome: Carmo Patrocínio Pinto; data de nascimento, 28 de julho de 1941; o local, Fazenda do Barreiro, município de Monte Alegre, Minas Gerais.

 

P - Qual o nome dos pais do senhor?

 

R - Juvenal Francisco Pinto e Maria Paulina de Jesus.

 

P - Você sabe em que dia eles nasceram?

 

R - É difícil. (riso)

 

P - Não tem problema. (riso)

 

R - O dia eu sei, né? O meu pai, dia 15 de setembro e minha mãe, 1o. de março.

 

P - E o que é que eles faziam, ‘seu’ Carmo?

 

R - Agricultura. Trabalhavam na agricultura.

 

P - Fazendo o quê, exatamente?

 

R - Olha, ele trabalhou muito tempo em roças de arroz, feijão, e depois, nos últimos 30 anos de vida dele, ele trabalhou cultivando exclusivamente abacaxi e arroz. Eu trabalhei muito tempo ajudando, também, até os meus 25 anos eu trabalhei na lavoura com ele.

 

P - Lá em Minas?

 

R - Em Minas.

 

P - Era uma fazenda, onde ele trabalhava?

 

R - Não, ele sempre trabalhou em terra alugada. Ele nunca... Teve terra durante uns dois anos, mas não considero, né, foi muito pouco tempo. A gente sempre trabalhava em terra de terceiros.

 

P - E quantos irmãos vocês eram?

 

R - Quatro. A bem da verdade, éramos treze irmãos, mas nove morreram. Por incrível que pareça, morreram tudo antes de completar dois anos de idade.

 

P - Quantos eram? Treze?

 

R - Treze. Morreram todos os nove antes de completar dois anos.

 

P - E o senhor sabe do que é que eles morreram?

 

R - Olha, pelo que parece é que meus pais são primos, né, provavelmente há incompatibilidade, eles nunca checaram isso aí, naquele tempo não esquentava a cabeça, tá tudo bem, tudo indica que seja isso aí.  Então, nove morreram. E tinham seis meninas, das meninas, não escapou nenhuma. Os poucos que escaparam foram os homens, né?

 

P - Como é que eles chamam?

 

R - Os irmãos?

 

P - É. Esses que sobreviveram.

 

R - O mais velho, Alberto. Abaixo do Alberto, o Onofre, eu e Lázaro. São esses.

 

P - E como é que era a convivência de vocês, lá na fazenda? Os irmãos?

 

R - Você diz assim, em termos do convívio social da família?

 

P - É.

 

R - Era bom. Todo mundo se entrosava bem.

 

P - E como é que era o cotidiano, assim, o dia a dia da casa, vocês acordavam que horas...

 

R - Olha, normalmente a gente acordava muito cedo, não é? Quando ia trabalhar na lavoura, porque nós sempre morou na roça, morou na cidade... Quando morava na cidade, que ia trabalhar na lavoura, levantava em média quatro horas da manhã. E quando morava na roça, tinha que levantar cedo, que a gente vinha pra escola, vinha sempre de bicicleta, ou a pé, tinha que levantar também quatro, cinco hora da manhã. Por isso que às vezes eu chego aqui o posto já tá fechando. (riso) Eu levantava muito cedo. À noite, oito horas, já tava todo mundo dormindo. Era uma vida bem diferente da de hoje.

 

P - E quando o senhor começou a frequentar a escola?

 

R - Escola, eu comecei com sete anos de idade. Com sete anos.

 

P - Como é que era essa escola?

 

R - Mas foi pelo fato da gente morar na roça, a gente perdeu muito ano letivo. Teve ano que não dava pra pôr na escola, outro ano ia, repetia, né? Então foi uma coisa assim, foi demais... é... mais demorado. Você perguntou sobre?

 

P - Como é que vocês iam pra escola?

 

R - Quando a gente morava numa distância... quando eu comecei a estudar, mesmo, morava na cidade. Mas logo depois, nós passamos a morar numa distância de uns oito quilômetros. Fazia a pé. Ida e volta, né? E depois, mudamos pra mais longe. Foi uns catorze quilômetros, aí a gente ia de bicicleta. E depois, voltamos pra cidade, de novo. Aí, já melhorou um pouco mais. Foi mais ou menos assim.

 

P - ‘Seu’ Carmo, e quais eram os costumes da casa do senhor, religiosos...?

 

R - Bom, naquele... Existem duas fases, não é? A primeira fase era quando tinha meus sete anos de idade, que a gente não tinha, assim, nenhuma orientação...

 

P - Bom, a gente tá voltando lá, né? E o senhor estava falando que tinha duas fases...

 

R - Deixa eu desligar esse telefone aqui, sabe?

 

P - Fica à vontade.

 

R - Esse telefone não tá com nada. (riso)

 

P - Então. Aí, o senhor disse que tinha duas fases, né?

 

R - Se desse pra tirar. Se desencaixar...

 

P - Não, não tem problema. Também se tocar, não tem problema. Não se preocupe. Vamos lá, continuando. Que o senhor teve duas fases da vida religiosa.

 

R - Na primeira fase a gente não tinha muito... muita orientação. Mas depois nos tornamos adventistas, meu pai deixou de beber, a gente passou a ter certas orientações sobre alimentação, né, e, em consequência houve uma mudança do nível de vida, alguma coisa pra melhor, né? Daí pra cá, em termos, assim, de vida religiosa, pelo menos, eu sempre fui bastante ativo, comandando grupo, reuniões etc. Sempre tive participação bastante ativa. Agora, você queria saber como família?

 

P - É. Primeiro, como que foi o contato com a Igreja Adventista, como surgiu esse contato?

 

R - Esse contato, nós passamos a morar vizinhos de uma família de adventistas. E meu pai bebia, discutia muito com minha mãe, e essa família começou a frequentar lá em casa, e meu pai achou que era um bom exemplo pra seguir, não é? Depois minha mãe, que ia procurar viver como aquela família vivia, e, até hoje.

 

P - E o senhor lembra de quando começou a frequentar a igreja? Como é que era? O que ficou, assim, de imagem?

 

R - Olha, de imagem, um negócio assim, até interessante, tinha umas reuniões na igreja. Antes de começar a reunião, tem um... normalmente existe um momento de cântico, né, os membros participam, pede o hino que quer que cante, a congregação canta, então, é um momento assim. Naquele tempo, eu tinha uns sete anos de idade, e esses hinos são solicitados através de números, né? Tem o hinário e cada um tem seu número.

 

P - O hino?

 

R - É. Mas eu não sabia lá o que é que era número, o que é que era hino, eu não entendia nada disso. E as pessoas falavam: “Número 10. Número 15”, e tal, eu ouvia aquilo. Quando a pessoa falou lá: “Quem tem um número pra escolher?”, eu gritei o número 50, sem saber o que é que tava pedindo. (riso) Aí, o pessoal cantou o hino, né, só que quando eu vi que a igreja ouviu e começou a cantar, eu fiquei com vergonha e escondi debaixo do banco, né? Então, foi uma coisa que marcou bastante. Tinha também as festinhas de Natal.  Marcava muito, né?

 

P - As festinhas de Natal? Como é que era?

 

R - (TOCA O TELEFONE) Esse telefone tá demais.

 

P - Atende. Atende.

 

R - Posto de Saúde... Olha, nós tamos numa entrevista justamente aqui na sala do telefone, pro pessoal da Abifarma, daria pra você ligar daqui uma hora, mais ou menos? Tá. Tchau. Obrigado. Me dá um tempo, eu vou desligar esse negócio. Não, porque a gente perde o raciocínio, tem que interromper toda hora, fica com a gravação emendada... Você começa num tom, termina no outro... Não presta, não. (riso)

 

P - Esse hino do número 50... o senhor... são hinos...?

 

R – É, os hinos que a gente canta, né?

 

P - E sobre o que é que falava? O senhor lembra?

 

R - Ele falava sobre... é um que falava assim: “presença de Cristo, ver-lhe o rosto, que prazer”. Porque como adventistas, nós esperamos a volta de Cristo, né? Então, esse hino fala desse acontecimento, que será um dia de muita alegria, muita... Então, eu pedi justamente esse hino. Inclusive hoje, quando eu menciono isso na igreja, eu falo que eu gostaria de que... (inaudível) que eu não tenha aquela postura que eu tive aquele dia, né? (riso).

 

P - Quantos anos você tinha?

 

R - Sete anos, né? Sete anos, naquele tempo. E tem também, que eu tava falando, as festinhas de Natal, que a gente participava muito, né? Teve até um fato curioso, uma vez. A gente morava na roça, nessa época eu já tinha dez anos, e eu e mais os dois irmãos mais velhos estávamos participando dos ensaios do programa da festinha de Natal. E nós tínhamos o costume, naquela época, a cidade ficava praticamente aqui como Padre Bernardo, tinha uma subida, mas era bem mais íngreme do que essa aqui, e a gente morava uns oito quilômetros da cidade, na beira da estrada. Naquele tempo não tinha asfalto, era tudo estrada de chão. E nós tínhamos aquele pensamento de que, pra gente pegar uma carona... e o pessoal dava carona sem reservas, era um tempo gostoso. Naquele tempo todo mundo dava carona a qualquer hora do dia e da noite, não tinha preocupação que a gente tem hoje, né? Então, naquele tempo era mais dinâmico. E como naquele tempo passava um carro lá de vez em quando, a gente ficava na expectativa, aquele que viesse, pedia carona. Só que quando a gente saía da cidade, e começava a subir a serra, se a gente via que um carro (era uma reta de uns dois quilômetros), então, quando a gente via que um carro despontou lá no início da reta, a gente subia essa subida íngreme, que dava uns 800 metros, a gente subia correndo, né, porque na subida era difícil o carro parar. E um dia nós saímos do ensaio, eram umas dez horas da noite, a gente tava voltando a pé pra casa. E a gente viu um farol que despontou lá dentro da cidade. Eu falei: “vamos correr, porque se vier pra cá, não vai parar na subida. Tem que chegar lá em cima, né?” Aí, saímos, começamos a correr. Só que não era um... naquele tempo tinha muito caminhão carregado de arroz, não é, o caminhão vinha lento. Não era um caminhão, era realmente um carro fechado, um automóvel, que naquele tempo era muito difícil naquela redondeza. Mas esse automóvel veio, e alcançou a gente na metade da subida. E nós não demos sinal pra parar, porque não adiantava dar sinal, porque ele não ia parar. Mas logo que ele foi passando pela gente, ele não parou: ele fechou a gente, assim, sabe? Aí, era... naquele tempo eu morria de medo de polícia, e pra variar era dois policiais que tavam dentro do carro. Aí, ele já perguntou o que é que nós estávamos fazendo naquela hora da noite, correndo da polícia. Aí, foi aquela situação difícil, né? Aí, nós explicamos que estávamos ensaiando um programa de Natal, e tudo, explicamos, tivemos que explicar porque que a gente tava correndo, né, que era outra história que dificilmente eles poderiam entender que a gente estava na expectativa de pegar uma carona, se não corresse o carro não parava. Aí, tornou-se amigo da gente, deu a carona, chegou lá, mandou dar um abraço no pai, na mãe... (riso) Mas foi um susto grande.

 

P - Os programas de Natal, o que é que eles... O que é que constava no programa de Natal?

 

R - Era a vida de Cristo, né? Retratava quando nasceu, eu lembro muito que a gente teve programa da gente representar o pastor cuidando das ovelhinhas, né, tinha um grupo de garotinhos bem pequenininhos, três, quatro anos, fazendo o papel de ovelhinha, e a gente ali. Depois aparece um anjo anunciando que Jesus ia nascer... coisas assim, próprias de criança, mesmo. E isso até foi bom, porque isso me despertou um, sei lá se foi isso aí, desde então, eu gosto muito de mexer com dramatização, teatrinho, essas coisas, né? Então, já escrevi algumas peças, já foi apresentada em São Paulo, são apresentadas por aqui também, né, em Brasília. Hoje eu não mexo mais com isso, mas eu já fui muito ligado a esse tipo de atividade, mais a nível de igreja. Mas eu gostava muito de trabalhar com isso. É uma coisa que ajuda muito, mexe com a juventude, com as crianças, dá oportunidade pra todo mundo, né? Essa última que nós apresentamos, foi o título “Lágrimas de órfão”, teve participação de coral, o elenco todo deu quase duzentas pessoas, com figurantes, tudo o mais, né? Foi um negócio pra deixar o povo doido. A gente não tem, assim, nenhuma base profissional pra fazer esse tipo de coisa, não tem nenhuma orientação profissional. Quando faz, faz no grito. Então, a coisa é ainda mais complicada, talvez.

 

P - É. Voltando um pouco, o senhor disse que trabalhou com agricultura até 25, 26 anos.

 

R - Foi. A minha vida de agricultura, eu comecei desde criança trabalhando, né? Nessa idade de oito, nove, dez anos, eu já trabalhava na lavoura o dia todo, fora do horário de escola. A gente vinha da escola, e depois da escola eu trabalhava na lavoura. E com 26 anos eu botei na cabeça que queria fazer uma faculdade, e falei com meu pai que eu ia tentar estudar. A nossa igreja tem muitos colégios, internato, né, que você, às vezes, trabalha lá dentro, e lá dentro mesmo ganha um dinheiro pra pagar os estudos. Minha filha mais velha está estudando em São Paulo assim: eu pago metade em dinheiro, ela paga outra metade em trabalho, dentro do colégio, mesmo. Inclusive ela tá estudando onde eu me formei. Lá tem faculdade de Enfermagem, Teologia, Educação, Matemática... E, então, naquela época eu decidi estudar. Eu já tinha completado o 1o grau, ia fazer o 1o grau, aí fui pra esse colégio, comecei a fazer o 1o Grau, mas aí meu pai adoeceu, ele teve um acidente, ficou uns vinte e tantos dias em coma. Aí, com o resultado do acidente, eu voltei novamente pra casa, pra cuidar da lavoura dele, tudo, fiquei três anos em casa, e depois recomecei os estudos. Inclusive foi três anos proveitosos, viajei pra Europa, Estados Unidos, durante essa época, (inaudível) do mundo, foi muito produtivo. Depois voltei novamente pra fazer faculdade. Foi em 71.

 

P - Pra São Paulo?

 

R - É. Aí, naquele tempo a faculdade era três anos, terminei em 73 e daí pra cá a gente veio exercer realmente como enfermeiro. Agora, até aí, sempre foi lavoura. Trabalhando na lavoura. Não teve outra atividade.

 

P - Mas, o senhor sempre morou em Monte Alegre?

 

R - Sempre em Monte Alegre. A faculdade eu fiz em São Paulo, eu morei dez anos em São Paulo, né? Quando eu estudei. Parte do 2o grau eu fiz lá, e depois faculdade. E morei lá mais uns dois anos, trabalhando já como enfermeiro.

 

P - Quando o senhor chegou em São Paulo, que ano que era, o senhor lembra?

 

R - 65.

 

P - E o senhor lembra como foi o impacto, quando o senhor chegou em S. Paulo? O que o senhor viu, o que é que o senhor achou...?

 

R - Bem, eu já conhecia, né? Já tinha ido lá com meu pai, umas duas vezes.  Mas é sempre uma coisa, assim, diferente. Você tá saindo de casa, acostumado em casa, tudo, e vai pra ficar, não vai pra voltar no outro dia. É diferente, né? Então, isso bate um pouco. Mexe com a cabeça da pessoa. Minha filha tá passando isso agora, esse ano. Pela primeira vez ela saiu de casa. Mas eu me adaptei muito, porque o Instituto lá... ele faz, assim, a minha maneira de ser. Então, por exemplo: chegando lá, você cuida do seu quarto, você cuida da sua cama, você cuida da sua roupa íntima, você cuida da limpeza do quarto, tudo isso a gente faz. Eu já era acostumado a fazer isso em casa. Lá em casa ninguém... meu pai não permitia que filho nenhum pedisse à mãe pra passar uma camisa, pra esquentar o almoço, porque chegou atrasado, cada um se virava ao seu modo. Então, aconteceu que no colégio, a vida de internato pra mim já era uma coisa que não fazia muita novidade, né? E eu gostei muito de participar do internato, porque, inclusive essas peças que eu às vezes escrevia, tinha oportunidade de apresentar lá dentro, coisas assim, de você convidar prefeito, convidar a Câmara de Vereadores de S. Paulo, convidar os principais jornais pra estar presentes, momentos assim de doces lembranças que a gente tem. E eu participava muito. Tinha dois órgãos informativos dentro do colégio, eu escrevia sempre pros dois, eu sempre tinha uma coisa escrita, era difícil passar um mês que não saía alguma coisa publicada. Uma crônica, qualquer coisinha assim. Então, foi uma época muito gostosa, não é? Eu acho que da minha vida, o internato talvez seja o tempo mais gostoso que eu tive. Esses colégios geralmente são construídos em áreas de fazenda, no campo, muito espaço verde, muita coisa, era um negócio muito gostoso.

 

P - Onde ficava o colégio?

 

R - Estrada de Itapecerica da Serra, quilômetro 23. Hoje, já tá dentro da cidade, mas o Instituto está transferindo todinho pra Arthur Nogueira, fica perto de Campinas. Mas também fica em área de fazenda, né? Então, várias faculdades já estão funcionando lá nessa nova área. Onde eu estudei, tem Ciências, Enfermagem, parece que só. Porque a área de Teologia já foi tudo lá pro novo Instituto. Lá é uma área muito grande.

 

P - Como é que chama o Instituto?

 

R - Instituto Adventista de Ensino. A igreja deve ter uns quinze no Brasil inteiro, só de menor escala. Aqui, por exemplo, em Goiás, tem o IABC [Instituto Adventista Brasil Central], a maioria deles tem até o nível de curso médio, 2o Grau. E a nível de faculdade, tem Campinas, S. Paulo, Marília, deve ter mais alguns. Agora, internato, assim, até 2o Grau, deve ter uns treze, catorze, mais de quinze atualmente no Brasil.

 

P - ‘Seu’ Carmo, quando o senhor decidiu realmente estudar e fazer uma faculdade, o teu pai te apoiou, ele gostaria que você seguisse alguma profissão, tua mãe também? Eles te incentivaram?

 

R - Meu pai era o seguinte: ele não interferia na escolha profissional, nunca interferiu, nunca falou: “Vocês devem ser isso, devem ser aquilo.” Depois da decisão feita, ele chegou a tecer algum comentário, se tivesse feito outra coisa talvez fosse melhor, não sei o quê etc.

 

P - O que é que ele achava que podia ser melhor?

 

R - Dado o meu envolvimento com a igreja, participar muito, ele achava que se eu tivesse feito Teologia, teria sido melhor. Mas, meu pai era um homem muito... em parte ele talvez tenha até contribuído pra gente não fazer, porque ele, durante alguns anos, ele foi tesoureiro da igrejinha lá que a gente frequentava. E nós devolvemos o dízimo, né? E tinha umas viúvas lá na igreja, pessoas que viviam de esmola, pequenos serviços, coisa assim, né, e essas mulheres, essas velhinhas, traziam o dinheirinho delas de durante a semana, de esmola, punham em cima da mesa e pediam pro meu pai separar o dízimo. Aí, algumas vezes, depois que elas saíam, ele chamava a gente e falava: “Esse dinheiro, aí. Tá vendo?” “Tô.” “Pois é, se você quiser fazer Teologia pode fazer, não tenho nada contra. Só peço pra você nunca esquecer que vai comer desse dinheiro, aí.” Então, aquilo era uma coisa muito forte pra gente pensar depois em não fazer. Hoje eu penso diferente, mas pra gente que era garoto, doze, treze anos, aquilo significava muita coisa. (riso) Mas eu não me arrependo de não ter feito, não, porque a Teologia é uma área muito difícil, você tem que ter muito a cabeça no lugar, precisa ter um controle emocional grande, coisa que eu acho que, em alguns momentos, eu deixo a desejar. Aqui, por exemplo, se alguém extrapola, eu posso falar as verdades pra ele. Na igreja você não pode, você tem que se conter, ainda mais você sendo pastor, aí a coisa muda por completo. Embora meu pai pense, eu acho que não seria o melhor, não. (riso)

 

P - ‘Seu’ Carmo, por que o senhor decidiu fazer enfermagem?

 

R - Aí vem outra coisa que mexe com a igreja, também. A nossa igreja tem uma área de assistência social muito desenvolvida no mundo inteiro. Nós temos uma rede de hospitais muito grande, nós temos uma rede de lanchas que dão atendimento nas regiões ribeirinhas, no Amazonas, S. Francisco, até há pouco tinha no Araguaia. Nós chegamos a ter umas dez lanchas. São lanchas equipadas. Muitas delas têm até sala de parto, todas elas têm consultório dentário, e quando a igreja fez a primeira lancha para o rio Araguaia, ia trabalhar lá na região da Ilha do Bananal, naquela redondeza, essa lancha veio dos estaleiros de S. Paulo e passou lá em Monte Alegre. Eu tava em casa, meu pai chegou assim e falou: “Carmo, a lancha que tá indo pro Araguaia tá estacionada ali.” Era uma carreta imensa. Aí, eu corri lá e fui ver a lancha. Entrei e tal, e tinha já um enfermeiro pra trabalhar na lancha. Ela realmente tem um enfermeiro, né? E os casos de necessidade médica, eles triam. Inclusive, lá no Amazonas, tem dois aviões anfíbios pra dar suporte às lanchas, se tem caso urgente...

 

P - Da igreja?

 

R - Da igreja. O avião aterrissa na água, onde estiver, aterrissa na água ou no seco, pega a pessoa e leva pro lugar de atendimento. Eu vi aquilo e achei bonito, achei que seria uma opção profissional muito bonita, não é? Só que eu fiz enfermagem e trabalhei em lancha três dias, só no estágio. (riso) Trabalhei em outras áreas da igreja, minha primeira atividade como enfermeiro foi em Mato Grosso. Não sei se você... Você era criança na época, quando o Funrural fez uns ônibus, uns verde, era um ônibus todo equipado, o que tem nessa lancha tinha no ônibus, com mais fartura, ainda. Então, o Funrural ofereceu pra igreja vários desses ônibus. Pra igreja colocar a equipe e administrar e eles repassavam os recursos, né? E eu fui cuidar de um ônibus desses. Trabalhei seis meses no interior do Mato Grosso, em lugar, mesmo, onde não vai médico, não vai ninguém, não vai dentista, a gente ia pra lá. Passava três dias numa cidade, cinco dias noutra, dependendo do tamanho da cidade, ficava até atender todo mundo. Na hora que repassava todo mundo, a gente mudava de cidade. Mas, aí, eu fui pra lá, fiz a faculdade de enfermagem. A igreja tem a faculdade de enfermagem, fiz lá dentro da igreja, mesmo, só que ligado à igreja eu trabalhei pouco tempo. Trabalhei também na Golden Cross, não sei se você sabe, o dono da Golden Cross é adventista, o Milton Afonso e trabalhei também com a Golden Cross em Brasília algum tempo, porque eles mantêm dentro dos hospitais para os (inaudível) da igreja. Em termos, assim, de atividade, o que levou à opção profissional, o que pesou mais, foi esse lado que eu mencionei. A gente foi lá ver, achei bonito, e é bonito, realmente, né? E a gente tá seguindo um trabalho, por exemplo, eu trabalho dentro de hospital lá em Brasília, mas eu não gosto de trabalhar dentro do hospital Eu prefiro mil vezes o...  quando surgiu a oportunidade de trabalhar como agente comunitário de saúde, pra mim caiu do céu.

 

P - Como é que surgiu essa oportunidade?

 

R - Essa oportunidade foi uma coisa, assim, muito curiosa. Eu estava... eu não sabia que existia o programa, não. Sabia assim: lá pro nordeste, a gente ouvia falar no rádio, e tal, sabia disso. O namorado da minha filha, a mais velha, ela namora aquele rapaz há quatro anos, ele trabalhava no lava a jato. Eu, naquele tempo, trabalhava só na Fundação Hospitalar, eu tinha muito tempo. Trabalhava mais à noite, ficava o tempo à toa, de dia. Eu falei: “Eu vou lá, trabalhar com você, ajudar a lavar carro.” Ele falou: “Não, ‘seu’ Carmo, o senhor, com faculdade, tudo, lavar carro?” Eu falei: “Vamos, tá pronto?”. Aí ele falou: “Tá bom.” Fiquei lá, lavando carro. Entrava debaixo do carro, saía todo enlameado, né? Aí, numa dessas oportunidades, que eu estava debaixo do carro, lavando, chegou um médico. Um médico que eu já havia trabalhado com ele uns seis anos, na UTI do Hospital  Regional de Taguatinga. E, trabalhamos juntos muitos anos, ele foi o pediatra que cuidou dos meus filhos, mas a gente não tinha aquele vínculo: “Onde é que você está trabalhando? Meu telefone é esse...”, não tinha nada. E ele era secretário de saúde de Santo Antônio Descoberto, naquela época. Aí, ele chegou lá me procurando e falou: “Carmo, preciso de um enfermeiro pra fazer isso e isso, não sei se você já aposentou, o que é que você tá fazendo na vida, sei que você tá lavando carro. É coisa melhor do que isso aí.” (riso) Aí, eu falei pra ele que eu ia pensar e ele falou: “Só que não dá pra pensar. Tô conversando com você hoje, você tem que estar em Goiânia hoje à tarde. Nós não vamos falar com prefeito, falar com nada. Você vai direto pra Goiânia.” Eu falei: “Então, se é assim, vam’bora.” Arrumei minha trouxinha e fui pra Goiânia. Não sabia o que é que era o PACS [Programa de Agentes Comunitários de Saúde], não sabia nada. Cheguei cru de tudo. Aí, chegou lá, já era um curso introdutório para os enfermeiros. Quando eu vi a coisa desenhada, assim, me encantei, né? Realmente, é um programa que faz minha cabeça e se eu pudesse ficar só no PACS eu ficaria, tranquilo. O que prejudica esse programa são os prefeitos. Mas, dependendo do programa em si, tem uma estrutura, uma coisa, assim, que tem tudo pra dar certo. E tem dado, né? Graças a Deus, tem dado certo.

 

P - É. Em que ano que o senhor começou?

 

R - 95... 94. Junho de 94.

 

P - E quando o senhor foi nessa reunião, em Goiânia, que era o treinamento dos enfermeiros, era treinamento?

 

R - Isso, era treinamento.

 

P - O que é que estava sendo colocado? Em, que estágio estava o PACS naquela época?

R - Começando. Me parece que eu fui da primeira turma, mas foi coisa de diferença, assim, de um mês ou dois, de um treinamento pro outro. Então, tava embrionária a coisa, né? Não tinha ainda implantada em município nenhum.

 

P - Em Goiás?

 

R - Goiás e Distrito Federal e entorno não tinha em lugar nenhum. Tava tudo começando. Os outros que tinham terminado o curso, ia fazer mapeamento, fazer aquela série burocrática da coisa... técnica, fazia antes de implantar, propriamente, né? Trabalhar com os agentes. E da pergunta que você fez, como é que foi que você perguntou?

 

P - A implantação. Bom, o senhor participou da implantação?

 

R - Eu participei da implantação em dois municípios. Tive esse privilégio. É porque Santo Antônio Descoberto... eu participei da implantação em Santo Antônio Descoberto.

 

P - Em Goiás?

 

R - É. Porque naquele tempo, Águas Lindas é aqui... aquela pista que vocês pegaram saindo de Taguatinga, indo direto nela vai pra Águas Lindas, aí vocês pegaram à direita, né? Então, Águas Lindas é logo ali na frente. Então, Águas Lindas era município de Santo Antônio naquele tempo, mas não deu pra implantar lá, porque não houve candidato suficiente pra fazer o processo seletivo.

 

P - De agentes?

 

R - É. E depois que implantei em Santo Antônio, foi um ano e meio depois, nós implantamos em Águas Lindas. Eu fiquei cuidando de Águas Lindas e foi outro enfermeiro cuidar dos agentes de Santo Antônio. O que mais você perguntaria sobre...

 

P - Como é que foi essa implantação em Santo Antônio Descoberto?

 

R - Na época, foi muito tumultuado, né? Tumultuado pelo seguinte: ninguém sabia como é que a coisa funcionava, deparamos com uma prefeitura... assim... bastante desinteressada a respeito do programa. Isso é o que eu mais me queixo. Se as prefeituras tivessem empenho para com o programa, diferente do que nós presenciamos em todos os municípios que você vai, com algumas exceções, o programa teria outra infraestrutura. Não tenho a menor dúvida. Santo Antônio Descoberto, por exemplo, nós, do primeiro processo seletivo, conseguimos 22 agentes, e no segundo processo seletivo, aumentava o número de áreas e tudo, nós alcançamos menos da metade disso aí. Quer dizer, Santo Antônio, naquele tempo, com a parte da barragem e tudo, era 78 áreas, até hoje não cobriu nem a metade. Aí, você vai ver, é um município que paga os agentes com dois, três meses de atraso. Simplesmente um salário mínimo. O município não oferece um centavo pra esse agente ir assistir uma reunião, ou qualquer coisa. Então, essas notícias correm e, quando você vai atrás do agente, fica sem agente. Vêm aquelas pessoas que realmente gostam de trabalhar com a comunidade. Nesse ponto, até se seleciona mais, né? Mas, por outro lado, você teria condições de ter todas as áreas cobertas, porque eu costumo dizer o seguinte: um município que tem só uma parte coberta, é um município aleijado, né? Deficiente físico. Porque são coisas que mexem muito com o povo quando fala do PACS, porque é um programa que, quando a gente vai implantar o programa, por exemplo, lá em Santo Antônio, fui no cartório ver índice de mortalidade, colher dados, aquilo tudo furado, morreu, enterra no quintal, não tem registro, não tem nada...

 

P - Enterra no quintal?

 

R - Acontece muito. A criancinha morre, não tem registro civil, vai registrar, gasta dinheiro, a pessoa é pobrezinha... tem demais, Goiás, então... nossa, tem demais. Então, a gente vai na companhia elétrica, ver quantos bicos de luz tem, pelos bicos de luz você tem uma estimativa de quantas casas tem. Vai na companhia de água, tudo, né? Aí, eu costumo falar pros agentes: “Olha, quando nós estamos implantando o programa, a gente procura eles, pra dar informação pra gente. Quando a gente implanta o programa, é essa turma toda que vem na gente. A querer dados. E nós temos dados.” E não é dado do IBGE, que é com dois, três anos de caduquice. Nós temos dados mensais. Do ano passado tá tudo aqui. Nós temos dados mensais: quantas crianças têm no município, quantas sabem ler, quantas não sabem, quanto analfabeto, tudo. Então, é um retrato do município na mão. Então, o programa é um programa fabuloso. Eu acho que um prefeito que souber explorar o programa - explorar, que eu digo no bom sentido - tem subsídios de como conduzir sua política educacional. Ele pega os dados do PACS e ele vai ver o que ele vai fazer. Onde é preciso escola, onde tá mais acentuado isso ou aquilo. Na área de saúde, nem se fala. Na área de saúde pública, né? Onde precisa esgoto, onde não precisa, onde tem mais índice de determinadas doenças, tudo, ele tem o retrato completo, não é? Então, é uma coisa do programa que me encanta, porque o agente é uma pessoa... e outra coisa que eu digo também, é que o agente, praticamente semianalfabeto, muitos deles só sabem ler e escrever, e eles pegam uma bagagem, quer dizer, a gente transmite pouco conhecimento, mas a gente ensina pra eles como adquirir conhecimento. Então, ele vai aprendendo com a própria comunidade. Chega numa senhora: “O seu filhinho tá doente, o que é que você deu pra ele...” e vai coletando de cada, ali, e vai ligando as coisas. E esses cursos que nós fazemos, são cursos que partem do princípio que todo mundo tem alguma coisa pra ensinar, pra transmitir. Todo mundo é importante, todo mundo é útil. Então, ele vai com esse conceito de município, né? Da sua área. Pra começo de conversa, ele é escolhido, não sei se a senhora sabe, o agente é escolhido naquela área onde ele já é conhecido. Então, ele conhece já aquela população que ele vai trabalhar com ela. Isso ajuda muito, né? Nas discussões da comunidade a gente orienta que ela nunca conduza uma reunião de pé. Todo mundo sentado, igualdade, porque se ele fica de pé, já vai inibir alguma pessoa que gostaria de falar: “Ele ali é mais importante que eu, porque tá de pé...” E se ele sentar, abrir o leque de discussões, a coisa... Então, é tudo conduzido nesse sentido, né? A gente orienta pra eles trabalharem assim e o agente que trabalha assim não tem dificuldade na sua coletividade, de jeito nenhum. Ele desempenha muito bem. Isso proporciona pra eles uma bagagem muito grande de conhecimentos. Porque ali, ele vai falar com a professora, ele vai falar com o vereador, ele vai falar com o líder político da comunidade, os diretores de associação, tá todo mundo ali. Tá o João Ninguém também, a Maria da Tuia, todo mundo ali, né? Então, ele tem facilidade pra adquirir conhecimento dessa turma. Se a gente for olhar as horas-aula que a gente dá pra esses agentes, é uma coisa que não tem cabimento ele fazer alguma coisa lá. E ele faz. Querendo fazer, faz muita coisa.

 

P - O senhor faz parte do treinamento dos agentes?

 

R - Isso.

 

P - E qual que é a atividade do senhor dentro do PACS?

 

R - Bom, aqui, os agentes já tiveram o treinamento principal, né? Que é esse: como trabalhar com a coletividade. Depois disso aí, eles tiveram, com a outra enfermeira que me antecedeu, A Saúde da Mulher. A Saúde da Mulher, eles vão ter noções sobre gestação, pra eles poderem orientar as gestantes, sobre exames preventivos, o que é que vai passar essa mulher. Depois, eles tiveram A Saúde da Criança, que é o acompanhamento da criança, saber interpretar o cartão da criança, porque é que tem aqueles risquinhos, porque é que tem aqueles risquinhos vermelhos de baixo, né? O que é que tem que acontecer ali no meio dos dois, se passar pra cima, se passar pra baixo, tudo isso eles recebem orientação pra, lá em campo... Porque eles têm, de cada criança que eles acompanham, uma cópia do cartão daquela criança. Então, nós fornecemos pra ele: nasceu a criança Fulana de Tal, no hospital, levou o cartãozinho pra casa, aí, o agente passa lá, ele tem o cartãozinho no bolso, ele pega daquela criança, mas pra ele acompanhar. Então, ele vai pesando, vai anotando no seu cartão e vai comparando com os pesos que ela vai fazer no Posto de Saúde, ele tem um retrato daquela criança naquele cartão que ele tem em mãos. Ele pesa ela mensalmente, dá toda a assistência para aquela família, então ele tem condições de fazer isso. Esse treinamento que a gente dá, já foi dado tudo isso aí pra eles... Agora, independente disso, a gente vai dando outros cursos-suporte. Eu tô chegando aqui agora, não dei nenhum curso pra eles ainda, eu tô tentando sentir quais são as maiores dificuldades, tudo, né? Por exemplo: eu já comecei a fazer o pré-natal e o CD, que é o Crescimento e Desenvolvimento da Criança, eu tenho notado muita criança desnutrida. Quer dizer, pra uma cidade que já tem um agente comunitário em praticamente 80% da cidade, não justifica você ter uma criança desnutrida numa área que tá coberta pelo agente. Então, a gente nota que esse agente não tá... tá faltando alguma coisinha pra ele chegar lá. Essas três, por exemplo, eu já tava conversando com elas ali, sobre isso, né? Enquanto vocês tavam se arrumando aí, eu tava conversando com elas lá, tava explicando pra enfatizar muito a amamentação, explicar essas minhoquinhas que existem na cabeça do povo: o menino tá chorando, dá mamar. Explicar que o choro é fisiológico, o menino precisa chorar pro desenvolvimento da caixa torácica, e tudo, o que é que representa o aleitamento materno, então, tudo isso. Eu fui repassando tudo isso pra eles, né? No caso da criança ser realmente desnutrida, o que fazer pra tirar ela desse quadro de desnutrição, a alimentação alternativa, o pozinho da casca de ovo, o pozinho da folha da mandioca, os farelos, como usar, né? Mostrar pra eles que é bom ele ir lá na horta, junto com a mulher, colher a folha da mandioca, explicar como prepara, porque o povo é muito, não acredita nessas coisas, tem que ir lá, fazer junto e mostrar. Se pudesse acompanhar uma semana e depois pesar a criança e mostrar que tem diferença, porque faz diferença, realmente, aí você mata a cobra e mostra o pau. Se não fizer isso, o pessoal não acredita, né? É muito difícil eles aceitar.

 

P - Essa coisa que o senhor falou, da folha da mandioca, são coisas que tão sendo usadas pra combater a desnutrição?

 

R - São usadas, e como. Se você usar o pozinho da folha de mandioca, preparado como deve ser preparado, ou o pó da casca de ovo, você usando um cabo de garfo por dia de qualquer um desses dois, eu dou minha cara pra bater, se dentro de 30 dias nós não tirar o menino da subnutrição. Ou se ele não fizer, pelo menos, uma diferença muito grande.

 

P - Como é que é preparado esses dois...

 

R - Dá resultado, assim, imediato, né? A folha da mandioca, o único segredo é que você não pode secar ela no sol e nem no forno. Tem que deixar ela secar na sombra, solta, né? Aí, depois de tudo sequinho, você, com a própria garrafa, em casa mesmo, machuca ela em cima de uma mesa e faz o pozinho. O ovo, você lava a casca do ovo, pode dar uma ferventada, se quiser, pra qualquer micróbio, qualquer coisa, depois você seca do mesmo modo. Só que a casca do ovo, você pode secar ela até pegando um pouco de sol, né? A folha da mandioca, porque, se você secar no sol, tem duas coisas que acontece: ela perde o poder de vitamina, que evapora, e ela tem uma tendência de criar um tipo de toxina, né, pegando sol. Então, o segredo é esse, né? E os farelos, você usa torrado. Pega farelo de trigo, farelo de arroz, farelo é farelo mesmo, desse que trata de cavalo. Quando tá limpando o arroz, não sei se você sabe esse processo, eles limpam, tira a casca grossa do arroz, depois passa aquele polimento. E o farelo é justamente o que fica entre a casca e o grão de arroz em si, né? A massa do arroz. Por sinal, é o que de mais nutritivo tem no arroz. Então, a gente costuma dizer que o povo pega o melhor e dá pro cavalo, e o cavalo puxa carroça, o boi puxa carro-de-boi, tudo, né, e fica o ser humano, aí, botando três palmos de língua pra fora pra pegar uns quarenta quilos e pôr nas costas, porque... (riso)

 

P - Porque ficou com a pior parte. (riso)

 

R - É. Ele pegou o melhor e deu pro porco, aí o porco engorda, fica bonitão. E as criança morrendo de fome, morrendo magra, caquética, e uma criança dessa, qualquer uma pneumonia, é vulnerável, né? É fatal. Então, são essas coisas que a gente passa pra eles, enfatiza, pra trabalhar muito. E não é da primeira vez que ele vai falar que ele vai convencer, entende? É uma coisa repetitiva. Tem que martelar constantemente. Os que fazem isso direitinho têm sucesso. Perfeitamente.

 

P - Quais são os problemas mais sérios que você teve com o desenvolvimento da criança, que aparece? Eles têm doenças...

 

R - Olha, nós temos aí três áreas críticas, né? Nós temos a subnutrição, que é talvez a mais grave, que tá aí grassando por todo lado, onde você for, você encontra sobrando, né? E de carona com a subnutrição, você vai ter a IRA - Insuficiências Respiratórias Agudas - são infecções que tira a vida, mesmo, de muita criança. A criança subnutrida, facilmente ela pega uma pneumonia e dificilmente ela sai dessa pneumonia. E muitas vezes fica aquele quadro, um círculo vicioso, né, sara, daqui a quinze dias de novo, e fica aquele vai-e-vem e...

 

P - Não tem jeito.

 

R - É. Tem que tomar muito cuidado, né? E o terceiro quadro, que tem em muita frequência em quase todos os lugares que a gente vai, é justamente a desidratação. Por incrível que pareça, a desidratação tem plantado raízes. Agora, a desidratação tem muitos fatores, né? Se você for analisar, não é simplesmente o fato da criança estar aí... sem, às vezes, tomar bastante água, e tudo, que é o principal. Mas a desidratação, primeiro parte já de uma criança é... como é que se diz... subnutrida. Porque o desequilíbrio se provoca com muito mais facilidade. Segundo, você vai ver muita mãe que não amamenta, ou se amamenta, acha que o leite é fraco, eu tive uma agora há pouco, antes de vocês chegarem, ela mistura a mamadeira cheia de açúcar e tudo, quanto mais açúcar você põe nessa mamadeira, nessas coisas, mais a criança vai ter desarranjo intestinal. E a mamadeira em si, por exemplo, eu bato firme: lugar de mamadeira é no lixo. Eu não admito mãe trabalhando com mamadeira. Por que por mais - você é mãe, você deve saber - por mais que você lave a mamadeira, você fervente essa mamadeira, você faça tudo, ela cheira azedo. Então, você tem que explicar pra mãe porque é que tá cheirando azedo. Algo de errado tem ali, né? Então, tá formando bactérias, tá, né... E mais ainda, acrescentando a tudo isso, na desidratação você tem o problema da higiene, que é calamitoso, né? Essas crianças, andando descalço pra tudo quanto é lado, tomando tudo quanto é tipo de água, tomando banho em tudo quanto é lugar. E às vezes a família nem tem também como oferecer melhores condições pra tomar um banho todo dia, pra ter uma higiene adequada, pra orientar a família, né? Outra coisa, também, que bagunça muito o coreto, o uso de chupeta. O menino tá... chupeta cai no chão, põe na boca. (riso) Então, a chupeta é uma das coisa que causa muita desidratação porque a criança, ela, a chupeta mistura com tudo quanto é coisa, cai no chão, no cocô da galinha, e tudo, e pra ele tá tudo... então, vem verminose de carona, vem infecção intestinal, né? A própria verminose pode conduzir a uma desidratação, porque a criança desequilibra. Isso aí são fatos que tem com muita frequência.

 

P - Por que é que a mãe acha que o leite dela é fraco? Até isso o senhor consegue identificar, elas falam por quê?

 

R - Bem, ela acha que é fraco por causa da cor. Ela chega assim: “Ah... porque o meu leite tá muito branco, tá muito assim aguado, tipo água.” Aí, você tem que explicar que, embora ele esteja daquele jeito, ele tem toda propriedade que o nenê precisa. Agora, o problema não é só a mãe. Se você pega uma mãe que você fez o pré-natal, ela já tá orientada. Mas você não fez o pré-natal da avó, da bisavó, da vizinha da vizinha, do tio e da tia. Então, existe muita interferência de vizinhos, de parentes, isso aí, né? Inclusive, no meu pré-natal e no CD, eu incentivo as mães pra trazer os esposos, trazer as mães delas, trazer os avós, todo mundo que quiser assistir, que venha. Porque o que eu falo pra ela aqui, os outro ouve de carona. Lá em Santo Antônio aconteceu uma coisa até curiosa: eu tava fazendo o CD e enfatizei isso aí, né, pra trazer as crianças,  os pais pra participar, parente, tudo. E teve uma senhora que o marido sempre ia acompanhado, levava as criança, e tudo, e eu fiz muita - se eu soubesse que ia entrar nesse caminho eu trazia um monte de fotografia que a gente fazia lá - aí eu trouxe... eu fazia muita fotografia desses caso, desses caso assim, por exemplo, um pai tá acompanhando direitinho o CD da criança, o pré-natal, eu faço questão de fotografar, tudo, nos nossos encontro no PACS, apresento, né, e tal. Aí, eu fiz foto desse casal, com a criança, e tudo. Só que esse indivíduo tornou-se um marginal, assim, número um da cidade. E a polícia não o conhecia. E a polícia foi lá no outro município, onde eu estava trabalhando, porque chegou na casa dele e a esposa falou que o enfermeiro do programa tinha fotografia deles. Dele, no caso, né? Então, foi me procurar em busca dessa fotografia. Mas eu tinha feito uma exposição dessas fotos em Goiânia e minha sogra mora lá, eu tinha deixado na casa de minha sogra. Então, eu não tinhas essas foto em mãos, né? Eles ficaram pesarosos, né? Então, eu tava pensando: o programa é abrangente, até a polícia tá dependendo dele. (riso) Tamo ajudando até o detetive. Mas, então, tem assim... Eu procuro, no máximo envolver todos da família. A gente costuma dizer que, por exemplo, no caso da gestante, não é a mulher que ficou gestante, a família tá gestante. Todos têm que ter a sua cota de participação, de solidariedade, de participação nisso aí. E quando isso acontece em família, a coisa muda bastante.

 

P - E como é que é essa receptividade, assim, o esposo tem vindo? Aqui em Padre Bernardo, por exemplo, a família tá participando? Quando o senhor faz o pré-natal, o senhor chama, a gestante vem aqui? Como é que é... o senhor tá há muito pouco tempo, né?

 

R - Eu tô há duas semanas trabalhando, né? Só tive a presença de um pai dentro da sala, até agora.

 

P - E como é que foi?

 

R - Parabenizei, ficou todo cheio, né, (riso) falei que é muito importante ele participar na condução dos filhos, que realmente ele tá entendendo que isso não é uma coisa só da esposa, fiz o que a gente procura fazer, né? Agora, aqui ainda tá assim, porque aqui é o seguinte: aqui tem, eles acostumaram o povo a fazer o CD e o pré-natal tudo junto. Vem CD no mesmo dia, na mesma hora, eu tô atendendo criança, depois é uma gestante, tal, fica aquele negócio meio tumultuado. Mas, de agora pra frente, eu já estou orientando a turma, por exemplo, segunda-feira vai ser só pré-natal o dia todo. Então, essas mães chegam, eu faço uma palestra com elas, tudo, inclusive tem material audiovisual, meu mesmo, que eu tenho pra esse caso, né? Eu tenho material audiovisual do CD, que, aliás,  é a minha igreja que fabrica esse material. Qualquer pastor da minha igreja tem acesso ao material desse pra passar pra igreja, tudo. Porque a nossa igreja olha muito pela área de saúde, né? Tem uma rede de hospitais no Brasil inteiro, o Hospital Silvestre no Rio, Hospital Adventista de São Paulo, aqui em Brasília tá construindo um hospital muito grande, então, nós temos uma rede muito grande de hospitais. E nós temos muito material na área de saúde, muito, muito, muito. E eu tenho projetor de slides, tenho tudo, né? Eu tenho o equipamento praticamente completo. Então, isso aí tem ajudado, ajuda muito a fazer essas palestras.

 

P - Como é que essas outras que o senhor já trabalhou mais tempo, Santo Antônio, né?

 

R - Isso.

 

P - E qual a outra cidade?

 

R - Águas Lindas.

 

P - Águas Lindas? Existe uma barreira cultural, da família participar mais dessas palestras?

 

R - Existe. Existe muito.

 

P - E como que... O senhor fala uma coisa, a avó fala “não”, existe, assim, essas coisas?

 

R - Isso existe muito porque a turma é muito apegada àquilo que os antepassados plantaram. Eles são muito presos às raízes. E pra você desfazer esses mitos, esses tabus, não é fácil. Você tem que provar que aquilo que você tá falando funciona. No momento que você consegue provar pra coletividade, a coisa muda. Por exemplo: quando eu pego uma criança desnutrida, eu trabalho com a mãe pra fazer isso, fazer aquilo, eu faço fotos dessa criança, aí eu mostro pras outras mães, elas acreditam que dá resultado.

 

P - Tem que provar?

 

R - Tem que provar. Nem todos precisam, mas, de princípio, você tem que partir pra isso aí, né? Você fala pros agentes: “Olha, vocês procurem trabalhar mostrando resultados pras famílias. No momento que você mostrar o resultado, a família é mais propensa a aceitar aquilo que você está dizendo. No momento que você não tá, ele fica com o que o avô falou, com que o benzedor lá orienta, você tem que ser muito claro com as famílias, né? Por exemplo: se ela não tá acreditando na alimentação alternativa, você explica: ‘Não, vamos fazer um teste de um mês, não vou exigir da senhora a vida inteira. Vamos fazer um mês. Se der resultado, a gente continua’. Você faz, dá resultado, lógico, aí a mãe passa a acreditar e passa pras vizinhas, né? Isso aí é sagrado.” (riso) Agora, existe muita coisa, você vai trabalhar, por exemplo, Santo Antônio Descoberto. Aqui, é uma cidade limpa, comparada com Santo Antônio. Santo Antônio é uma imundície tremenda, né? Pra você fazer a cabeça do pessoal, pra manter a higiene, tudo, uma coisa que a gente vai orientando muito o agente comunitário, tem que ter muito cuidado pra relacionar com o público, pra não ferir as pessoas. O indivíduo tá aqui com a sua fossa vazando há quarenta anos, acostumou, foi criado vendo aquilo acontecendo, que pra ele não é novidade. Até hoje não sabe, assim, de cartório, quem é que morreu por culpa daquilo. Se morreu alguém, então, não tem esses dados, né? Inclusive, em Santo Antônio, tivemos até um fato curioso lá. Uma vez a prefeitura recebeu uma doação de 400 fossas. E nós saímos, procurando as pessoas que precisavam da fossa, porque a prefeitura ia dar a fossa furada, que tinha recebido uma verba pra isso. Tinha muita gente que não tinha fossa e não quis que a prefeitura furasse.

 

P - Por quê?

 

R - É porque depois da fossa cheia, tem que gastar cinco reais pra esvaziar, e não tem esse dinheiro. Daqui um ano, dois ano, ela vai encher, né? Aí, tem que pagar um caminhão da prefeitura, uma taxazinha pra ir esvaziando. “Eu não vou ter esse dinheiro, então porque mandar furar a fossa? Pra arrumar confusão por meu lado?”. Fica sem fossa. Então, essas coisa, é complicado. Tem muita coisa, que a nível de prefeitura, você teria gastos, assim, mínimos e você teria resultados surpreendentes. Eles ficam... pra começar, você nunca vai ter um prefeito com visão de saúde pública. Mesmo que ele seja médico, se ele não tiver formação sanitarista, ele não vai ter uma formação de saúde pública, né? É onde ele vai entender, que um real aplicado em prevenção, leva aí por dezessete, lá dentro do hospital. Se ele deixar de aplicar um real aqui, ele pode contar certo que vai gastar dezessete depois. Então, dificilmente você põe isso na cabeça de um prefeito, que tem essa mentalidade. Isso aí provoca muita... como é que eu diria... muita discrepância.  Outra coisa que tem prejudicado muito a saúde nos municípios: o prefeito põe na cabeça que vai fazer determinada coisa, e faz, sem consultar a pessoa que poderia orientar melhor.  Nós temos aqui, em Padre Bernardo, dois casos, assim, curiosos. Existem, na zona rural, dois Postos de Saúde. Cada um deles é o dobro desse aqui. Sala pra tudo, área pra tudinho, um monstro de Posto de Saúde. São os dois do mesmo tamanho, em localidade que é um décimo, um terço do que é isso aqui, um quinto do que é a cidade. Aí, eu falei com o secretário: “Secretário, mas por que um Posto de Saúde tão grande numa área dessa? Daria pra fazer cinco, seis em outro lugar, dos outros lugares carentes, né?” Ele falou assim: “‘Seu’ Carmo, o senhor nem imagina o que passava - isso foi do prefeito anterior - o que passava na cabeça dele. Ele falou que queria fazer esses Postos, queria fazer desse tamanho, e fez.” Quer dizer, pra isso não falta dinheiro. Quando quer, faz. Então, são coisas assim, quer dizer, se ele fosse procurar, naquela época já tinha o PACS aqui, eu duvido, se ele procurasse conversar com qualquer, não digo nem o enfermeiro que coordenasse, um agente comunitário, ele tinha feito um Posto de Saúde daquele tamanho. Com o dinheiro de fazer esses dois, ele teria feito cinco, seis, sete Postos. Porque três, quatro salas por aí, já daria suficiente pra atender a demanda de cada localidade, né? Mas é uma coisa, assim, tão complicada, que o secretário já tem essa visão, notei que ele tem. Mas não conseguiu convencer o prefeito. “Eu quero assim, é!” ... Muita coisa, né? Então, somado a tabus, que a gente tem aí, com família e tudo, tem também o tabu político, que é uma, desculpe a expressão da palavra, tá gravando, é uma desgraça, né? É uma desgraça. Porque você vê coisas, assim, do arco da velha. E ele acha que tá tudo bem, né? E vamos em frente. Agora, aqui, levante as mãos pro céu porque fizeram esses dois Postos. É exagerado pela necessidade do local. Mas tem. Agora, vai ver se Águas Lindas, onde eu passei, Santo Antônio Descoberto, tem Postos que, pelo menos, chegam no pé desses aí. Não tem, de jeito nenhum.

 

P - Não tem Posto?

 

R - Águas Lindas tem... Só Águas Lindas, ela deve ter... ela deve ter três vezes mais a população que tem este município. E lá é só dentro da cidade, porque lá não tem município na zona rural, lá é só...

(FITA INTERROMPIDA)

 

R - Fico falando demais, pode ser que tá te atrapalhando aí o seu cronograma.

 

P - Não. Aí, a gente volta. Então, o senhor tava falando que não tinha uma pessoa pra vir aqui pra Padre Bernardo, que ficasse o dia inteiro?

 

R - Não tinha. Porque a maioria não quer dar dedicação exclusiva, né? Quer dizer, eu não tenho dedicação exclusiva, que eu tenho outro emprego, mas lá eu trabalho à noite. Não tem nada a ver. Os cinco dias da semana, eu tô aqui, todo dia. De segunda a sexta.

 

P - E qual é o horário do senhor?

 

R - O horário é tempo integral. Eu chego aqui 7h, 7h15, e fico até 5 horas da tarde.

 

P - E onde o senhor trabalha à noite?

 

R - À noite eu trabalho no Hospital Psiquiátrico. Taguatinga. Inclusive, tá em fase de extinção.

 

P - Por quê?

 

R - Porque toda a psiquiatria do Distrito Federal vai funcionar agora nos, porque aqui tem um hospital especial só pra psiquiatria. Agora, vai mudar. A psiquiatria vai ser atendida dentro dos hospitais gerais. Nessa nova reformulação da psiquiatria. E nós, por exemplo, nós vamos deixar de ser um hospital, pra ser uma unidade dentro do Hospital Regional de Taguatinga. Nós vamos mudar lá pra dentro do hospital. E onde tava funcionando o hospital, vai ser um atendimento é... chama de INAPS,  CAPS, dependendo do atendimento que vai dar. Então, é como se fosse um hospital-dia. Onde funciona o hospital atualmente vai ser o hospital-guia, hospital-dia, com atividades diversas pros pacientes, né? Mas o hospital como hospital psiquiátrico vai deixar de existir.

 

P - E aí, a atividade do senhor é muito diferente? O que é que muda?

 

R - Ah... É muito diferente... Ôxe... Como muda! Pra começar, é uma atividade, lá dentro do hospital, que a gente exerce, mais assim em termos de... mais burocrática. Porque, o meu horário, por exemplo, à noite, é só um enfermeiro pra coordenar todo o serviço de enfermagem. Então, a gente fica mais no sentido assim de... faltou seringa em tal lugar, você vai providenciar; faltou isso, você vai ver; tem um paciente pra remover, você vai ver quem vai acompanhar, né? Fica mais atendendo essa área. Agora, lá eu tenho, assim, por princípio: eu chego, antes de eu assumir o plantão, eu olho, pelo menos dou uma lida geral em todos os prontuários. Pelo menos, pra me sintonizar como está a coisa. Isso, no Pronto Socorro, naquela área de internação, também, não dá pra mim fazer. Eu dou uma olhada geral, né, nos prontuários, visito todos os pacientes, pra mim tomar pé da situação. Daí, a gente começa. Ali, o que vai pintar, só Deus sabe. De repente, pinta uma agitação lá que precisa de quatro, cinco, pra segurar o paciente, às vezes nem tem esse pessoal. (riso) Acontece muito. Mas é uma atividade da área de saúde que deixa o profissional bastante alienado da saúde em si. Porque lá você não relaciona com outros tipos de patologia, de acompanhamento de resultado de exames, de sintomatologia, isso, fica alheio a tudo, né? Só fica ligado na psiquiatria e a psiquiatria é uma coisa muito - dentro da área de enfermagem - uma coisa muito simples. As medicações são padronizadas, é mais ou menos aquele tipo de medicação, quer dizer, toda a medicação do nosso Pronto Socorro resume em quarenta, cinquenta medicamentos, não mais do que isso.

 

P - Quais são os mais usados?

 

R - Ah... tem... tem... o mais usado  mesmo, que a gente... é o feijão com arroz, né, é o Haldol Fenergan injetável.

 

P - Haldol?

 

R - É.  Fenergan. Então, qualquer caso de agitação, bota o Fenergan com o Haldol.

 

P - Fenergan? Por que Fenergan?

 

R - É porque o Fenergan é um anti-histamínico que... porque o Haldol  provoca o que se chama impregnação. O paciente, às vezes, endurece o queixo, fica com o olhar desviado, tudo, com desvio ocular, né, então, o Fenergan corrige essa situação, corta esse efeito colateral negativo do Haldol. Então, a gente dá os dois junto. Quem olha por aí, pensa que o Fenergan só serve pra alergia, né? (riso) Mas ele tem...

 

P - A associação dos dois...

 

 R - A associação dos dois é poderosa. Não se faz Haldol sem fazer o Fenergan junto. Prepara tudo na mesma seringa. E se tá usando comprimido, também usa o Fenergan comprimido. Esses dois não se separam. Tem também, quando a gente trabalha com alcoólatra, né, o paciente chega, assim, alcoolizado, a gente usa muito o ... fugiu agora da cabeça... não lembro.

 

P - Não tem problema.

 

R - Mas é uma medicação, assim, muito resumida. Não tem muita variedade de medicação. Inclusive essa ida lá pro... essa mudança do hospital tá dando um bafafá tremendo, né? Ninguém quer mudar, todo mundo acostumado há vinte anos ali. Por exemplo: eu comecei a trabalhar na Fundação Hospitalar lá nesse hospital. Fazia três meses que ele havia sido inaugurado. E ninguém quer sair do seu cantinho, né? Experimentar... ainda mais, o ser humano... que lá os profissionais de vinte anos atrás, hoje estão, aí, com seus cinquenta anos. É uma fase difícil da pessoa se adaptar a novas mudanças, estar disposta a isso. Então, tá dando uma mão de obra tremenda. Pra mim, não faz falta. Trabalhei no Hospital Geral muito tempo, pra mim, não muda muito. Mas, os próprios médicos estão sentindo. Quando eles chegar lá, vai ter o cirurgião, vai ter o clínico, precisa conversar com esse pessoal, né? E eles tão completamente alheios ao outro lado da medicina, às outras variantes. E isso, com a enfermagem também. Eu tenho um colega enfermeiro que tá apavorado: “Será que eu vou ter que chegar lá e supervisionar a cirurgia, supervisionar a ala de clínica médica, e tal?” Pra mim, não faz diferença, chegar lá e pintar qualquer coisa... (riso) Eu fui um cara muito privilegiado na vida. Quando eu estudei em São Paulo, a nossa faculdade gozava de um - gozava e goza - de um conceito muito grande em São Paulo. Então, nós temos os melhores hospitais de São Paulo pra campo de estágio. Nós estagiamos no Hospital do Servidor Público, Hospital das Clínicas de São Paulo, e eu trabalhei também no Hospital São Paulo, trabalhei no Beneficência Portuguesa, cuidei de paciente do Adib Jatene, naquela época, quando ele tava começando a operar. Cuidei de paciente do falecido Zerbini, então eu tenho, graças a Deus, eu não me queixo porque eu fui, acho que poucos os enfermeiros que tiveram oportunidade de passar pelo que eu passei, né? Conviver com essas pessoas. Trabalhei muito tempo na UTI da Beneficência Portuguesa, naquele tempo era uma UTI de oitenta leitos, muita coisa, né? Isso tudo vai dar num aprendizado, que você vai levando, né? E hoje, estamos aí. O que dá pra dividir com a turma, a gente vai dividindo. (riso)

 

P - ‘Seu’ Carmo, o município de Padre Bernardo tem a zona rural atendida pelo PACS?

 

R - Tem. Só nós estamos com oito áreas descobertas.

 

P - Como se delimita uma área?

 

R - A área, você usa dois critérios: você vai delimitar pela distância que o agente vai percorrer, esse raio, né, e você vai delimitar pela quantidade de famílias existente nessa área. Os dois aspectos são avaliados. No caso, por exemplo, da cidade, você fica mais com o número de famílias. Na zona rural, entra o número de famílias e entra também a distância que ele vai ter que percorrer. Agora, com a bicicleta em mãos, a coisa mudou bastante, né? Nós podemos dar uma área rural maior pro agente, tendo a certeza de que ele vai ter condições de dar cobertura. Mas, os dois critérios são esses: a densidade populacional e demográfica dessa área, a distância que o agente vai ter que percorrer.

 

P - Eles não tinham, antes, a bicicleta?

 

R - Não. Era feito, mesmo, de a pé. Inclusive, é a primeira vez que eu tô trabalhando com agentes de bicicleta. Porque, talvez o pessoal da Abifarma não sabe, mas Santo Antônio Descoberto e Águas Lindas não receberam bicicleta. Por probleminhas políticos, lá, e tudo. O secretário do entorno achou que seria mais prudente esperar eles pôr a cabeça no lugar lá, estabilizar, tudo. Porque Santo Antônio e Águas Lindas, que é o entorno de lá, tem uma prefeitura que deu muito problema pro programa. Muito problema. Prefeitura complicadíssima, né?

 

P - Eles não receberam nenhum equipamento doado?

 

R - Só receberam as balanças, né, que não foi da Abifarma, foi da UNICEF. Balanças e...

 

P - Cronômetro?

 

R - Não. Recebeu balança, recebeu o jaleco azul, que o PACS de Brasília forneceu. Lá, tá com isso até hoje, só.

 

P - E como é que eles trabalham com o equipamento, lá. Eles têm algum equipamento lá em Santo Antônio?

 

R - Não tem nada... Só a balança.

 

P - Só a balança?

 

R - Só. E mesmo assim, eu não sei se os de Águas Lindas recebeu balança. No tempo que eu passei por lá, não tinha recebido, não.

 

P - E aqui, quando teve essa chegada do equipamento, como é que foi? O senhor participou do treinamento?

 

R - Não, o negócio é o seguinte: eu participei da entrega das bicicletas no geral, lá em Brasília, né? E fui em Goiânia, também, na época que foi entregue lá pro governador do estado. Então, naquela entrega estava em Santo Antônio Descoberto. Nas duas eu participei. Então, mas eu lembro que os agentes, cada um já saiu com a sua bicicleta, lá, né, cada um recebeu. Lá em Santo Antônio e Águas Lindas, não recebeu, não. Não teve como.

 

P - E o senhor vê essa diferença de... mais assim, do pessoal, do agente que tem a bicicleta, ou não? A satisfação... com é que...

 

R - Ô!

 

P - O que é que tem de diferente?

 

R - Bom, primeiro você sabe que o agente comunitário recebe um salário mínimo e não tem benefício nenhum por parte da prefeitura. Até reuniões, pra eles assistirem, é do bolso deles. Tem prefeituras que dão um dinheirinho pra deslocamento do agente, mas são poucas. Um fato recente: ontem, por exemplo - essa entrevista seria amanhã, não seria?

 

P - Seria. (riso)

 

R - Aí ligaram, eu disse: “Como é que eu vou ver com esses agentes?” Aí, fui na casa da agente que mora aqui na cidade. Fui lá na casa dela, avisar pra ela que não seria amanhã, seria hoje. É aquela senhora morena, mais idosa, que tá aí.  Eu fui na casa dela. Ela mora lá do outro lado da cidade, é longe pra danar. Aí, cheguei lá na casa dela, só tava uma garotinha. Eu falei: “Não adianta comunicar pra criança.” Passar que a reunião antecipou etc, a menina não vai saber traduzir isso aí. Aí, tinha, aquela menina que abriu a porta aqui, e falou se podia ir embora, ela tava... ajuda a gente na coordenação do PACS aqui no município, e tudo. Aí a menina falou assim: “Não, ‘seu’ Carmo, eu falo. Vamos deixar recado pra menina pra ela falar pra mãe procurar a gente lá hoje.” Que seria ontem, né? Mas, na hora me veio na cabeça: “Como é que essa mulher vai daqui lá?”. Ela falou: “ ‘Seu’ Carmo, ela vai de bicicleta.” Eu não tinha lembrado. De bicicleta aqui, ela vem em 10 minutos. (riso) Foi o que aconteceu.  Ela chegou em casa, a menina passou recado, ela veio na hora. Quer dizer, se não tivesse bicicleta, não sei o que seria feito. Essa mesma senhora, não sei se ela vai colocar na entrevista dela, ela prestou cuidados, atendimento, a um caso de uma pessoa que enfartou, ao mesmo tempo que ela fez massagem cardíaca, fez tudo, ela saiu de bicicleta e resolveu a parada. Procurou recurso, e tudo, quer dizer, uma coisa assim, muito ágil, né?

 

P - Tem que ter iniciativa, né?

 

R - É. Inclusive eu tava pensando, como eu gosto desses negócio de dramatização: “Ó, eu não sei o que esse pessoal vem fazer aqui, não sei quem vem”. A gente pensava que ia ser uma visita, assim protocolar, prefeito e tudo, né? Aí eu falei pra turminha: “Se for assim, a gente vai encenar alguma coisa e mostrar o que é que bicicleta já ajudou.” Aí a gente ia encenar essa parte, né?

 

P - Eles tão com a bicicleta aí? Eles vieram de bicicleta?

 

R - As que vieram da zona rural, não, porque eu trouxe elas de carro. Mas a da cidade deve estar com a bicicleta.

 

P - Depois a gente fotografa.

 

R - Tá. Não, mas tem três bicicletas, aí. Se for o caso, pode levar elas lá fora fotografar.

 

P - Tá. Pegar andando, essas coisas. É interessante.

 

R - Então, eu sei que esse equipamento foi realmente... Porque se fosse depender de prefeitura, de governo do Estado, não ia sair nada, não. Mas não saía, mesmo.

 

P - Pra onde o senhor acha que caminha o PACS?  Aonde ele pode ir, o que é que ele pode fazer mais?

R - Olha, eu acho o seguinte: O PACS, no momento atual, ele tem que expandir e alcançar outros municípios que ainda não chegou, mesmo aqui dentro de Goiás. Agora, tem vários aspectos que precisava passar por uma mudança de mentalidade, né? Porque, atualmente, você ainda está semeando. Você vai colher daqui a mais tempo. Então, eu fico imaginando o seguinte: você vai chegar ao ponto de que toda mãe, toda senhora, está plenamente conscientizada em termos de maternidade, até sobre planejamento familiar, se gestante, como se conduzir, depois de filhos, como conduzir esses filhos. Eu espero que o PACS consiga isso, não a longo, longo prazo, mas a médio prazo. Que ele consiga mudar essa mentalidade existente, né? Pelo menos, numa grande massa do população. Do momento em que ele conseguir isso, aí você vai apenas manter esse padrão que você atingiu e tentar melhorar cada dia mais, mas você já atingiu um padrão. Agora, não. Você está tentando ainda estipular o padrão que você pretende. Você tá, ainda... Você vê: a mãe chegou aí, é agente comunitária na área dela e tá dando mamadeira pra uma criança de dois meses de idade, né? Agora, eu quero ver o dia que, espero, que não precise estar martelando pra essa mãe. Ela já sabe que não é mamadeira o caminho certo. Isso, como todo município, né? Agora, eu tenho enfatizado muito com o prefeito e com o secretário de saúde: nós temos que ter o agente em todo o município. Porque, tendo o agente em todo o município, eu vou ter um retrato do município pra apresentar pras autoridades, pra todo mundo, né? Isso, do PACS em si. Outro aspecto que precisava mudar muito, inclusive o programa tá com essa preocupação: pelo menos para o secretário de saúde, eles darem algum curso, uma reciclagem pro secretário de saúde. Trabalhar com eles. Porque você tem muito secretário de saúde que é fazendeiro, nunca passou perto de hospital, não foi no hospital nem pra nascer. E não tem nenhuma vivência na área de saúde. Tem alguma coisa errada aí, por exemplo, esse negócio da municipalização, o governo repassa os recursos de acordo com a produtividade do município. Então, por exemplo, o secretário de saúde aqui tá doidinho que eu produza, produza, produza, pré-natal indefinidamente. Pra prefeitura é bom. Quanto mais pré-natal fizer, mais dinheiro pra prefeitura. Só, que o programa de agente comunitário não preconiza isso. Eu ficar só fazendo pré-natal, fazendo CD. Eu devo fazer isso, mas eu não posso esquecer o agente, lá. Porque o principal é isso. Se eu não mudar a base lá, onde ele tá trabalhando, se eu não conseguir que aquela comunidade saiba como se proteger da saúde etc, etc, etc, eu vou ficar careca aqui com mãe, com tudo. Então, eu tenho que trabalhar lá, não aqui dentro do consultório. Entendeu, né? Eu devo fazer pré-natal, passar orientação pra mãe, eu devo fazer CD, tudo isso. Mas eu tenho que trabalhar lá. Porque, depois receber criança desnutrida aqui... e aí? Então, eu tenho que ir lá na raiz na coisa, né? Então, com esse negócio de produção, quanto mais produção, as prefeituras têm exigido muito do enfermeiro, que ele faça atividades dentro do Posto de Saúde. E aí você se prende muito dentro do Posto e deixa o agente mais solto. Isso tem prejudicado muito. Nós temos batido muito nisso, só a nível de secretário, fazendo curso, orientando, explicando, pra ele poder entender. Mesmo assim, ainda vai ser difícil, né? Então, isso é um ponto. Outro ponto que tem prejudicado demais o programa é esses Conselhos de Saúde fantasia. Esses dias tava passando na televisão sobre Posto de Saúde. Olha, eu estou aqui no município vai pra quinze dias. Qual teria sido o papel do secretário: me levar, me apresentar pro prefeito, me apresentar pra Câmara dos Vereadores, e antes de me apresentar pros dois, me apresentar pro Conselho de Saúde da cidade. Procura pra ele os membros do Conselho, se ele souber. Se ele souber, eu dou a cara à tapa. Não pode esse tipo de coisa. Por exemplo, o agente, esses dias, veio falar comigo: “‘Seu’ Carmo, a gente não vai ter dinheiro pra passagem do ônibus? Como é que fica? Quem que olha isso?” Eu falei: “Quem deveria olhar isso não é eu, não é a secretaria do entorno, quem tinha que olhar isso é o Conselho de Saúde”. Pra isso existe o Conselho de Saúde, pra disciplinar os gastos, pra participar do planejamento sobre o município, participar dos gastos do município, as despesas na área de saúde, isso tudo, né? Mas, pra gente introduzir o PACS no município, é necessário que exista o Conselho de Saúde e o Fundo Municipal de Saúde. É as duas coisas que eles exigem. Só que o Conselho existe, faz lá a primeira ata, meio martelada, apresenta lá, “Não, tá tudo certo”. Agora, vai ver nessas cidades que funciona o programa, qual delas o Conselho funciona a contento. Se você me der 10% - que 10%, eu tô sendo... - se der 5%, é muito. Agora, aí que tá a história: eu canso de falar pros agentes: “Olha, vocês têm que passar isso pra população. A população tem todo direito de chegar no secretário de saúde e falar: ‘me dá os nomes do Conselho. Quem faz parte do Conselho? Eu quero saber. Que dia é a reunião do Conselho, eu quero assistir.’ ”  Qualquer nome do Conselho tem por obrigação ser aberto à população. Ninguém na cidade sabe disso. E, se sabe, tá desligado. Quer dizer, então, são coisas que você tem que conscientizar a população, né? Por exemplo, eu vejo aí: o governo federal repassa o dinheiro da merenda escolar. E tá dizendo : “Agora é o Conselho Educacional da cidade, juntamente com os professores e prefeito, e tal, que vai ver que merenda é que vai comprar”. Eu não sei se o Conselho, na área educacional tá tendo a mesma utilidade que tá tendo na área de saúde. Se for, é uma negação ao cubo, porque os Conselhos não funcionam, são formados a toque de caixa, só pra atender uma necessidade emergente e morreu. E aí, fica isso, né? Por exemplo, aqui vizinho tem o município Mimoso. O dinheiro do programa, parece, lá no município, a secretária de saúde chama o enfermeiro do PACS e fala: “Olha, do PACS chegou tanto. O que você acha que eu devo fazer com esse dinheiro?” Isso é bonito, né? Nenhum enfermeiro vai comprar sapato pra ele, comprar óculos, comprar nada. Ele vai... “Vamos ver o que é que a gente vai gastar no programa. Bom, eu tô precisando fazer um treinamento tal pros agentes. Tá, tá. Vai precisar de tantas refeições, vai precisar de passagem pra esse, pra aquele que mora lá longe, não dá pra vir de bicicleta.” Puxa, aí a coisa funcionaria. Lá funciona assim. Mas é o único município do entorno que eu sei que funciona assim. Quer dizer, isso é lamentável, né? Agora, não adianta você ficar trabalhando só lá, com a população. Se a parte política não tiver uma outra postura, é muito difícil conseguir a coisa. Fica muito complicado. Haja vista, taí o negócio destes Postos, que fizeram um verdadeiro elefante branco. Quanta coisa poderia ter feito com um dinheiro deste na área de saúde. Pois eu tô falando aqui com o secretário que eu preciso de um Sonar pra fazer pré-natal. Não é que não dá pra fazer pré-natal sem o Sonar. Dá pra fazer. Mas, você já pensou o que é você trazer uma futura mãe pra dentro do consultório, você botar ela pra ouvir o som do batimento do nenê, é outra coisa, puxa. “Chama lá teu marido”. Pra isso, ele vem, a sogra vem.  Mas se você for falar, vai achar que é supérfluo. Nem ele lá usa. Tem coisa, assim, que... eu acho bonito esse programa, entendeu? Esses dias, teve uma senhora aqui: “Ah, o médico mandou eu aqui, fazer pré-natal”. “Qual médico mandou?” “O meu médico particular.” Eu falei: “Mas o seu médico particular?” “É que ele tá fazendo pré-natal também e pediu pra eu vir no Posto pra fazer também.” Eu falei: “Escute, mas eu não tô entendendo, porque você não precisa ter duas equipes te acompanhando pra fazer o pré-natal. Você já teve quantas consultas?” “Eu já tive duas.” “E o seu cartão?” “Não, eu não tenho cartão.” “Ele já pesou você alguma vez?” “Não, não pesou.” “Então, o que ele tá fazendo com você, minha filha? Você tá dando dinheiro pra ele de graça.” Aí, fiquei com ela... porque aqui a gente faz, praticamente, o pré-natal como deve ser feito, né? A gente mede a altura uterina, mede a altura da pessoa, faz os cálculos de peso, tudo isso eu faço. É um pré-natal mesmo, como deve ser. Pelo menos 90% do ideal. Aí, quando eu tava fazendo isso, ela disse: “Eu não sabia que no pré-natal tinha tudo isso pra fazer.” “Vai lá ver se o teu médico particular vai tirar tempo pra fazer, minha filha.” “Não, eu vou ficar só aqui.” Eu falei: “Tá bom.” (riso) No fundo é isso. Você acha que o cara vai tirar tempo pra quantas semanas de gestação ela tá? Ele manda ela fazer uma ecografia, não vai fazer continha, pegar lá do último dia de menstruação, tantas semanas, tal, tal: “Você tá com 25 semanas.” Vai contar até 25 semanas? Vai, nada! (riso)

 

P - Tá OK, ‘seu’ Carmo. A gente vai encerrando aqui a entrevista. Eu agradeço muito a ajuda do senhor, Obrigada.

 

R - De nada. Obrigado vocês.

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