Busca avançada



Criar

História

Seu Bené: um homem de negócios

História de: Benevides Aquino Pacheco
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/03/2020

Sinopse

As histórias do Seu Bené são ricas em pormenores de como conseguiu amealhar um pequeno patrimônio a partir da compra e venda de gado de corte. Com bom tino para o negócio, Seu Bené comprou terras com os pequenos lucros que obteve nas vendas, além dos empréstimos a juros que efetuou. No seu depoimento ainda fala sobre largou o vício do cigarro e sobre o seu relacionamento com Isabel, a viúva com cinco filhos com quem se casou.

Tags

História completa

Nasci em 1943. Meu pai era Antônio José Pacheco e Gertrudes Almeida Pacheco, minha mãe. Meus avós convivi muito pouco. A gente era muito arteiro, apanhava muito na escola, a professora batia muito na gente. Tinha uma vara de marmelo. Eu devia ter uns sete anos de idade, ia a pé daqui do arraial. Ia eu mais meu irmão, minha irmã que era mais velha. Eram doze filhos. Eu sou o terceiro. Morreu uma menina de oito meses primeiro. Depois morreu o Severino, com 22 anos, de acidente. O Amado foi o álcool. Bebia demais, começou cedo, não alimentava, aí deu cirrose, A gente ia lá pra aula, almoçava aqui e dez horas ia pra aula. E saía quatro horas. Aí saía comendo goiaba podre, saía pra estrada com uma fome, chegava aqui, comia uma broa e ia trabalhar. Ir buscar lenha em beirada de mato. A gente tinha que trabalhar. Tinha que roçar, tinha que capinar depois que chegava da escola. A minha mãe fazia roupa pra nós. Comprava o pano e fazia. Minha mãe era muito trabalhadeira. Meu pai tirava um leite. Mas era pouco leite.  Vendia pro laticínio. Aí fazia um dinheirinho, mas tinha que fazer a compra da casa. Esse terreno aqui foi herança da minha mãe. Foi trabalhando ali e foi nos criando. Tem quatro quartos. Tem a sala ali, tem a salinha, tem a cozinha. Dormia tudo junto. Os homens dormiam quatro numa cama só. Eu trabalhei de empregado dez anos, depois a firma quebrou, aí eu saí da firma com mil e oitocentos. Era muito dinheiro. Eu peguei aquele dinheirinho e comprei um pedacinho de terra. Já tinha uns 25 anos, por aí. E aí fui comprando bezerrinho, pus naquele terreno ali e fui negociando aqueles bezerros e comecei a comprar gado de fazendeiro. Comprava a prazo e vendia a dinheiro e fui trabalhando, andando de noite atrás de gado. Comprei esse pedacinho de terra. E ali fui criando um gadinho nesse pedacinho de terra. Fui vendendo aquele gado, ele aumentava, virava boi. Eu vendia cinco bois, dava pra eu comprar dez bezerros. Aí foi aumentando. Cheguei a ter uns 60 alqueires de terra. Vendi pro Renato umas partes aí e construí em Lima Duarte duas casas, depois comprei outra casa lá. Tenho três casas lá. Emprestava dinheiro. Uns pagou direitinho, ainda tem uns dinheiros esparramados aí ainda, mas tem uns que não vai pagar, mesmo, não. Ah, o jurinho meu era 2%, 3%. Vamos supor: o Joaquim pega dez mil. Dez mil a 3% dá 300 reais por mês, né? Quer dizer que aí dava um dinheirinho bom. Tomei ‘uns canos’. Só um freguês vai me fintar 30 mil. E não vai pagar, mesmo, não. Passei muito trabalho na estrada, passando fome. Comprava o gado a prazo. No começo eu não tinha capital. Então tinha que comprar aquele gado com 30 dias e vender pelo menos com 25 dias, pro marchante, pra dali eu pagar com o mesmo dinheiro. Eu tinha um cara lá em Juiz de Fora. Vendia pra um cara lá. Vinha ali embaixo de caminhão e eu levava o gado tocado até Lima Duarte. Eu tinha um pastinho alugado lá, aí punha naquele pastinho até o caminhão chegar. Por exemplo: segunda-feira era dia de levar o gado. Então já ficava marcado, se fosse segunda, na outra segunda, pra trazer o caminhão. Era assim. Não tinha telefone, não tinha nada. Tudo no dinheiro. Arrumei um comprador muito bom, pagava certo, não trazia cheque, não trazia nada. Era dinheiro limpo, mesmo. Essas meninas moram numa casa minha. As enteadas minhas. Duas moram numa e eu alugo uma outra. Quando eu vou em Lima Duarte, eu durmo lá nessa outra que fica fechada pra não ficar amolando ninguém. A gente tem o benefício também, né? Vive tranquilo. Meu benefício nem tiro lá. Fica tudo na conta, lá. O meu pai, o esquema dele era outro. O esquema dele não comprava nada fiado, não comprava nem um canivete, se não tivesse dinheiro, não comprava o canivete, não. Se ele não tivesse dinheiro, ele não comprava, não. Comprava açúcar pra casa aí e o café. Colhia muito milho aqui, comprava pouca coisa na venda. Comprava mais querosene porque não tinha luz elétrica, não tinha nada. E o sal. O resto colhia tudo aí. Colhia arroz, batata, milho, feijão. Comprava quase nada, não.  A Isabel morava lá no Palmonão, morou 22 anos lá com o primeiro marido. Ela tinha cinco filhos quando perdeu o marido. Uns dois anos ela ficou na casa do pai, depois não ficou dando certo e aí chamei pra morar comigo. “Mas o Benevides é muito bobo, como que é bobo assim? Pegou cinco filhos pra criar?” Eu tinha uns 36 anos. Eu fumava. Aquilo dá dor de cabeça. Todo dia. A mulher: “Isso é cachaça”. Cabeça doendo. Ia no médico: “Eu te dei esse remédio aqui, agora vai melhorar essa dor de cabeça”. Ia no outro médico: “Não, essa dor de cabeça sua é falta de óculos. Você vai ali, você fica prejudicando a vista demais, fazendo coisa. Você vai usar óculos”. Colocou os óculos, nada. Eu jantei num restaurante, que ela ia trabalhar de noite, lá, não sei o que, entrei no restaurante e peguei dois maços de cigarro, fui embora pra casa. Cheguei em casa, abri um maço de cigarro e fumei dois cigarros. Eu fumava de noite! Um maço por dia. Abri o maço de cigarro, fumei dois cigarros. Pensei comigo: “Eu vou parar de fumar. Eu não nasci fumando”. Não pus na boca mais, até hoje. Deve ter uns 15 anos. Acabou a dor de cabeça. Não doeu mais. Era o cigarro. Pra você ver! Fumei uns 30 anos. Gastei muito dinheiro com remédio, médico daqui, médico dali, mas agora... dor de cabeça, alergia não sei de que, deu esse remédio: “Agora vai melhorar”. Melhorava nada! (risos) Parou de cigarro, acabou! Ih, nem sei quando minha cabeça doeu! Eu aprendi, assim, com as minhas ideias, mesmo, né? Que a leitura era pouca, né? Nove vez oito, setenta e dois, ninguém sabe. Pode perguntar pra essas meninas, ninguém sabe. Nove vez nove, oitenta e um. Tem que olhar na tabuada. Uai, não adianta, né? (risos) Eu vendi um boi pra esse cara, vai escutando bem a história: cem arrobas de boi, cento e dez arrobas de boi, por exemplo. Quanto a arroba? Vinte conto a arroba, vinte real a arroba. Ele tirava uma maquininha assim do bolso, pra fazer a conta, quando ele acabava de fazer a conta, eu já tinha feito na cabeça. Ele ficava bobo de ver. “Dá tanto. Cento e dez arrobas de boi a vinte conto a arroba. Já fiz”. Quando ele acabava de terminar na maquininha, eu já tinha feito na cabeça.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+