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História

Sete noites sem dormir

História de: Ki Hyok Song
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/12/2012

Sinopse

Nascimento e primeira infância, marcada pelas brincadeiras com as agulhas de seu pai, farmacêutico e acupunturista, e os moldes de papel de sua mãe, modelista. A situação na Coreia e a vinda para o Brasil, com estabelecimento em São Miguel Paulista. A mudança para o Brás e a abertura da primeira loja. A prosperidade dos negócios e a abertura de outras lojas. A decisão de abrir sua loja própria, especializada em vestidos para festas. A presença marcante da colônia coreana na cidade de São Paulo e as transformações e características do comércio de roupas nos bairros do Brás e do Bom Retiro.

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História completa

“Minha mãe trabalhava como modelista. Não sei se vocês entendem de modelagem, mas é uma coisa que usa muito papel, então eu e meu irmão mais velho vivíamos brincando: a gente fazia espada de papel, barco de papel, avião. Era uma infância feliz, mas a situação na Coreia estava difícil. Aí um dia uma amiga da minha mãe, que tinha vindo para o Brasil, fez contato com a gente. Ela tinha uma fábrica de algodão em São Miguel Paulista. E ela falou para a minha mãe: ‘Vem para cá que aqui está bom.’ Aí o meu pai pegou o que ele tinha, minha mãe também; venderam tudo, a gente pegou o dinheiro e foi embora. Primeiro paramos no Japão, depois fomos para a Itália, passamos um tempo nos Estados Unidos e, quando chegamos na Bolívia, acabou o dinheiro. Por sorte meu pai conheceu um coreano que era um sujeito bem rico lá. A gente ficou na casa dele uns três meses, e ele ainda levou a gente de carro de La Paz até o Rio de Janeiro. Até hoje ele é amigo do meu pai. A gente começou a vida aqui em São Paulo num apartamento na Rua Barão de Ladário. Meus pais ficavam num quarto, no outro quarto meu pai montou uma mesa para minha mãe trabalhar. O pessoal trazia a roupa, então minha mãe desmembrava a roupa, desenhava com giz no papel, recortava e levava o molde e a peça descosturada de volta para a costureira. Aí um dia um amigo do meu pai falou assim: ‘Sua modelagem cai bem melhor do que as dos outros. Por que você não abre uma loja?’ E meu pai respondeu: ‘Imagina! A gente não tem dinheiro.’ E esse amigo insistiu: ‘Eu banco. Porque vocês vão ganhar dinheiro rápido e depois de um ano vocês me pagam.’ No fim, meus pais decidiram abrir a loja, só que, como a gente estava apertado, eles alugaram um ponto que ficava um pouco fora do centro comercial do Brás. Ficava bem longe, na verdade, da Rua Oriente, da Rua Miller, da Rua Maria Marcolina. Para não ter loja e casa, a gente montou uma loja com a casa atrás. Putz! Isso é muito ruim, porque, imagina, de manhã cedo já tem gente trabalhando ali do lado. Um tio meu que era marceneiro acabou vindo para cá. Ele comprou madeira e a gente fez uma loja toda de madeira e vidro. Você acredita que eu quebrei a vitrine no dia da inauguração? Não sei por que eu fui martelar uma madeira que estava segurando o vidro. Foi só um totozinho de nada. Puf!, não era para quebrar! Meu pai ficou muito bravo. Mas enfim a gente montou a loja. A minha mãe fez então uma compra que seria hoje mais ou menos mil reais em tecido. Ela falou que ficou uma semana sem dormir, porque achava que alguém ia vir e levar embora esses mil reais que ela tinha de tecido. Nossa! Foi duro esse tempo. Mas o amigo do meu pai tinha razão. A gente ganhou dinheiro rápido. Dessa loja a gente foi para uma loja na Conselheiro Belisário e depois abriu outra na Rua Miller, de esquina com a Oriente. Eu lembro que nós chegamos a ter até dez boxes espalhados pelo Brás. E com o tempo eu passei a acompanhar o meu pai, ia para oficina com ele. Ele falava: ‘Anota isso para mim.’ Tipo o quanto a gente trazia, o que estava sendo entregue. E eu comecei a pegar gosto. Quando fiz 18 anos, falei para ele: ‘Se você quiser, eu vou lá fazer oficina.’ Tanto é que o primeiro carro que eu ganhei do meu pai foi uma Saveiro, já para colocar os cortes atrás. Mas tudo bem, eu sempre gostei de picape, não me importei muito.”

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