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História

Seringueiro e tocador

História de: Silvito Malakiech Ribeiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/03/2008

Sinopse

Em seu depoimento, Silvito Malakieck Ribeiro nos conta sobre sua vida na roça com seus pais, como trabalhou desde antes dos nove anos nas plantações e com a borracha por quase toda sua vida. Fala sobre as dificuldades da região com o comércio e os desafios de se trabalhar dentro do mato. Aborda seu lado musical e como resgatou o ritual da festa do sairé, além de como se tornou um mestre griô.

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História completa

Meu nome é Silvito Malakieck Ribeiro, nascido em 13 de julho do ano de 1922. Local de nascimento: Nova Vista, no Tapajós. Do pai e da mãe: Belino Figueiredo e Lavra da Silva Figueiredo. São casados no civil e católicos. Naquele tempo, os pais da gente quase não se interessavam por estudo, interessavam-se mais pelo trabalho. Tinha que amanhecer e ir pro roçado, tinha que chegar a safra da castanha. Você ia pro castanhal, pra safra da borracha. Você ia pro corte de seringa.

Eu lembro de quando era criança que eu não conheci meu pai legítimo nem mãe. Quando eu me entendi, já encontrei esse tio, que eu chamo de pai, foi o responsável por mim. Então foi por isso que ele foi o responsável por mim, pela criação, por tudo que eu precisava dele.

Durante os nove anos que tinha, que eu já podia fazer algum trabalho, a gente ia pro roçado, já ia aprendendo a trabalhar. Eu comecei a tomar conta do seringal. Eu trabalhava numa localidade que chamava Boa Esperança. Trabalhava fazendo borracha, defumando. Fui explorador de mato durante anos. Mas eu vim conhecer o trabalho pesado mesmo de dez anos em diante.

A gente ia por canoa até Santarém. Lá existia tudo. O comércio era grande. Até hoje é grande o comércio de Santarém. É muito avançado o comércio de Santarém. Hoje já tem vários empresários dentro de Santarém. Primeiro não tinha, não. O cara vendia, não tinha nem balcão. Era jogado pelo chão mesmo, de lá uma balancinha por cima de uma caixa. Pesava suco, café; tudo era pesado e embrulhado. Vendia açúcar, café, sabão, querosene. Hoje não, hoje tem aqueles sacos que colocam tudo dentro. Tudo adiantou mais um pouco. Naquele tempo era sacrifício.

Eu fui trabalhador do corte de seringa da Segunda Guerra Mundial, começou em 1933 e foi a 1945. Eu fui um dos soldados a levar a borracha pra mandar pras Nações Unidas. Quando foi agora há pouco tempo foi que apareceu o Felício, procurador da República, foi que veio incentivar pra gente se aposentar como soldado da borracha. Aí o juiz disse: olha, isso logo que terminou a guerra era pra vocês já estarem recebendo. Eram três salários, mas esses cabeças brancas lá tiraram o salário de vocês, até hoje eles estão comendo. Vocês só fazem dois salários, eram três salários de vocês. Esse dinheiro não é do governo estadual, nem federal, vem das Nações Unidas.

Na festa do sairé dá muita gente de fora aqui, pessoal dos Estados Unidos. Veio aqui me entrevistar pra saber como foi pra sair essa festa de sairé. Eu digo: “Olha, quando cheguei aqui, ainda via o pessoal de primeira idade fazer essa festa”. Depois foi o tempo que os padres alemães foram embora, vieram os franciscanos e acabaram com o sairé. Depois de 40 anos se reuniram: Nazaré Sardinha, Argentino Vasconcellos de Sardinha, Luzia Lobato e Carolina Lobato. Fizeram uma reunião pra reviver o sairé. Mandaram me convidar e eu fui lá. Desde esse tempo eu fui entrosado no sairé até hoje. Eu sou um dos coordenadores do ritual da festa do sairé.

Cansava de dizer pros meus amigos, quando era rapaz de 15 anos, eu gostava de tocar violino, cavaquinho. Nós tocávamos aqui ensaiando umas brincadeiras de cordão de pássaros, trovador tupi, dança dos portugueses. Quadrilha, essas coisas, éramos nós que ensaiávamos. Depois de três anos, eu disse: “Quer saber de uma cosia? Vamos formar um conjunto de pau e corda”. Então nós formamos um conjunto de pau e corda: O Espanta Cão.

Ser mestre griô é muito bom porque incentiva cada vez mais a gente. Principalmente pegando papel, lendo, vendo como que é. É um bom incentivo que a gente tem. O encontro da gente é um encontro que procura se organizar e empregar a amizade um no outro pelos grandes encontros que a gente tem. Porque se a gente não tem comunicação com ninguém, o que a gente é? Ninguém. É porque que eu sou analfabeto, mas eu tenho grande comunicação com qualquer pessoa. Eu gosto de me comunicar com eles. E me sinto feliz por isso. Muito, muito feliz.

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