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História

Sérgia, a costureira do Flor do Sertão

História de: Sérgia Angélica da Silva
Autor: Instituto Lina Galvani
Publicado em: 09/11/2018

Sinopse

Sou Sérgia Angélica da Silva, do Baixão Novo (BA). Sou costureira e vou contar como meus dotes me levaram até o grupo socioprodutivo Flor do Sertão.

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Sou Sérgia Angélica da Silva, do Baixão Novo (BA). Sou costureira e vou contar como meus dotes me levaram até o grupo socioprodutivo Flor do Sertão. As memórias dos tempos mais duros ainda estão vívidas. Com o olhar distante, sinto como se eu estivesse rebobinando as lembranças dos meus 60 anos, na região dos Baixões, no sertão baiano. Um lugar onde a seca rege a vida e constrói a história de seus moradores. Nas cenas, eu passeio pelos carreiros de terra com a trouxa de roupas nos braços e a bacia na cabeça, percorrendo quilômetros para lavar as peças na cacimba de Angico dos Dias, a salvação quando nem uma gota brotava em meu povoado. No caminho, encontro os vizinhos conduzindo os jumentos que trazem no lombo a água de beber. Cumprimento os homens que saíram à caça de lambus, tatus-peba e zabelês para garantir o jantar. Eu parti às quatro da manhã de minha casa, no Baixão Novo, e só retornarei com a roupa lavada depois do sol se pôr. Com sorte, chego a tempo de me reunir com a família em torno do rádio à pilha para ouvir o jornal sob a luz do candeeiro. As lembranças mais antigas se mesclam com cenas que vieram trazer mais alento à região nas décadas seguintes. A abertura da estrada até Angico dos Dias, em 1968, e o consequente ir e vir "feito tatu-peba no mato" de caminhões transportando aroeira e pau violeta. A produção de mel na caatinga e o doce reforço econômico na época de retirada, de dezembro a março. A construção de uma barragem em Baixãozinho. A chegada da energia, tão importante que eu lembro a data exata: 12 de novembro de 2000. A instalação das cisternas, um antigo sonho que se enche na época das chuvas. A vida ficou melhor nos Baixões, mas a seca e a falta de possibilidades ainda pesam sobre a história de seus moradores. Eu enumero os jovens que partiram para Goiás e Brasília na última temporada de estiagem, que durou seis anos, e nos períodos de seca cíclicos que assolam desde sempre a região. Entre eles, está minha filha, que foi para Anápolis, em Goiás, concluir o magistério, casou-se e por lá construiu a vida. Quem fica, tem como opção o trabalho na criação de animais e no plantio da roça para subsistência e, em boas safras, para vender, ou então batalha empregos no comércio e indústria local ou no serviço público. Diante desse cenário, foi com alegria que eu recebi uma ligação da minha sobrinha. A boa nova que circulava é que havia um pessoal se reunindo para montar grupos de geração de renda em Angicos dos Dias e procuravam pessoas que soubessem corte e costura. Na hora, eu lembrei dos tempos de menina, quando passava as tardes só "curiando" a madrinha entre as linhas e tecidos. Aprendi ali a prática e, aos 15 anos, passei a costurar minhas roupas. A fama chegou aos ouvidos da Rede Social de Angico, Peixe e Região, responsável por aquele chamado para as costureiras da comunidade. Depois de uma corrente de ligações estendendo a notícia para outras amigas, fui participar das reuniões. Descobri que a Rede Social estava criando projetos para dar mais alternativas de renda para os moradores. Além da costura, tinha a opção de me envolver nas atividades de produção de doces ou plantio de vegetais e hortaliças. Mas o encanto estava mesmo na criação de roupas e peças artesanais. E, assim, em 2012, entrei para o grupo Flor do Sertão. Todos os macetes que aprendi com a minha madrinha ou por conta própria agora eram compartilhados com outras mulheres. Recebi delas outras tantas dicas para aprimorar minha costura. É muito bom. A gente aprende, troca experiências e se diverte. Nós também tivemos o auxílio de profissionais da moda em uma série de cursos promovidos pelo Instituto Lina Galvani, que ajudaram o grupo a incrementar as produções. Além do básico em corte e costura, o grupo Flor do Sertão recebeu uma capacitação em design. Foi a minha chance de mostrar outro de meus dotes: o crochê. Eu aprendeu a técnica ainda pequena, com agulhas improvisadas com um raio de bicicleta. Depois, só de olhar eu fazia igualzinho os modelos que via nas revistas. Aprendi na vontade. Da união dessa experiência com o design, surgiram vestidos, blusas e outras peças com detalhes em crochê, um diferencial no mercado. A compra de três máquinas de costura para o grupo e as primeiras encomendas foram um estímulo para a agulha não parar. Mas ainda era difícil colocar preço em algo que, antes, elas só faziam por um misto de necessidade e amor pelo ofício. Outra capacitação ajudou as mulheres nessa tarefa. Aprenderam a organizar a produção, calcular a quantidade de materiais necessária e o valor do tempo gasto em cada peça. Tem que contar os minutos desde a hora que começou a cortar, o tempo de costura e até o dos acabamentos. Depois do curso, quando a gente terminava um vestido, já sabia o quanto tinha gastado nele, dos botões até o tecido. A prova de fogo para o Flor do Sertão testar seus novos produtos e dotes comerciais foi na 1ª Feira de Exposição da Rede Social de Angico e Convidados, em 2015. Nós montamos nossa barraquinha e não demorou para os vestidos e blusas atraírem o público. Vendemos muito nesse dia. O arremate foi o desfile da coleção, com as meninas colorindo a passarela montada na Praça São José. Mais outra cena que, certamente, vou manter no meu hall de boas memórias.
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