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História

"Ser rubro-negro é ser brasileiro"

História de: Maurício José Farah
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/11/2019

Sinopse

Infância no internato. Ingresso do curso de Direito.  Inicio da carreira e atuação como jogador de futebol. Ingresso no Clube de Regatas do Flamengo como jogador e funcionário. Jogos importantes. Cotidiano, vivências e causos no clube. Casamento e filho. Trabalho como apresentador do programa de rádio Gol do Flamengo. Torcida rubro negra. 

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História completa

P/1 – Boa tarde seu Farah.

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R – Boa tarde.

 

P/1 – A gente gostaria de iniciar aqui a nossa entrevista pedindo para o senhor dizer o seu nome completo, cidade e data de nascimento. 

 

R – Em primeiro lugar, antes de te responder, eu quero agradecer o convite que vocês me fizeram, dizer que eu estou muito satisfeito, muito honrado e respondendo à sua pergunta, meu nome é Maurício José Farah, sou Bacharel em Direito, sou Perito Contador, mas é com orgulho que eu estou no Flamengo há 54 anos, completei agora, dia 19 de junho de 1999. 

 

P/1 – E o senhor nasceu em que cidade?

 

R – Eu nasci em Três Rios, que antigamente era chamada de Entre Rios, porque tinha três rios. Depois passou para Três Rios, porque tinham outras cidades com o mesmo nome, então, eles levantaram a história das cidades e uma cidade do Norte permaneceu como Entre Rios e a minha passou a ser Três Rios, estado do Rio. 

 

P/1 – Em que ano o senhor nasceu?

 

R – Eu nasci em 26 de agosto de 1924.

 

P/1 – E o senhor podia dizer o nome de seus pais e a atividade deles?

 

R – Pois não.  Meu pai, Michel José Farah, comerciante em Três Rios. Tinha uma loja grande, chamada A Exposição e vendia de tudo. Minha mãe, Nasira Assad Farah. Meu pai sírio, minha mãe libanesa. 

 

P/1 – O senhor chegou a conhecer os seus avós?

 

R – Conheci a minha avó paterna, a mãe do meu pai, inclusive veio do Líbano, morou em Três Rios quatro ou cinco anos. Como ela não falava português, eu garotão de 13, 14, 15 anos fui obrigado a falar árabe com ela. Hoje, “a haber kiber kitira” eu falo bem demais (risos).  “A haber é árabe”. E também “Hablo muy bien el castellano porque vivi em Argentina três años em Córdoba. De los nueve a los doce. Estudie en el Colegio Salesiano en Córdoba”.

 

P/1 – Ah, nós vamos chegar lá, mas eu queria que o senhor contasse um pouquinho então dos seus antepassados sírios, libaneses, a influência disso na sua cultura. 

 

R – A influência foi mais dos meus pais. A minha avó, três, quatro, cinco anos, ela morou em Três Rios com a gente e depois faleceu. Tive a satisfação de aprender a falar árabe, que eu entendo 100% e falo 80%.

 

P/1 – O senhor tem quantos irmãos?

 

R – Eu tenho um irmão, que ele é Fiscal de Rendas do estado, José Michel Farah, de Três Rios; tenho uma irmã Ivone; tenho uma irmã Isabel e tenho uma irmã freira aqui no Encantado,  aqui no Rio de Janeiro, há mais de 40 anos, que ela é freira, era Renée, agora é irmã Dorotéia.

 

P/1 – Seu Farah, como era a sua infância em Três Rios? O senhor tem alguma recordação?

 

R – Não, praticamente, a minha infância em Três Rios, foi muito pequena, porque eu garotão mudei para Córdoba, pra Argentina, porque os meus tios moravam lá. Córdoba era como se fosse Minas Gerais, um estado grande, uma cidade grande e os meus tios, irmãos do meu pai, chamaram meu pai para ir trabalhar lá. Meu pai foi, ficamos três anos, mas meu pai não gostou, e voltamos para Três Rios. Esses três anos que nós ficamos em Córdoba, eu me matriculei e estudei no Colégio Salesiano em Córdoba, colégio de padres, e nesses três anos era interno e lá no internato a gente entrava no mês de março e saia em dezembro. Então, não tinha férias no meio do ano e nós tínhamos direito a uma visita por mês, uma visita, os pais iam lá nos visitar uma vez por mês e ficavam lá, uma hora, meia hora. E de dia, de tarde, de noite, era reza, você, pra tomar café, rezava antes, você, para almoçar. rezava, você pra... De tarde tinha ladainha, resultado: depois de... Foram três anos que eu estudei... Agora me deu uma mistura, que eu vou deixar pra depois. O negócio de você ficar diariamente dentro de um colégio rezando dia e noite, aquilo me sensibilizou. Então, eles faziam uma triagem e no fim do ano separavam 20, 30 alunos que queriam ser padres, seminaristas. E eu me inscrevi entre os 30, que padre que eu ia ser? Imagina. Aí me inscrevi, só que tinha que dar a notícia aos meus pais. Imediatamente eu disse: “Não, faltam 20 dias para as férias, a minha mãe era muito sentimental, muito carinhosa, muito minha amiga, vamos fazer o seguinte: deixa falar com a minha mãe pessoalmente, as férias são daqui a 15 dias”. E eu morava em Jesus Maria, Jesus Maria era uma cidade perto de Córdoba, como se fosse Petrópolis e Rio de Janeiro. “Deixa chegar em Jesus Maria e eu falo com minha mãe pessoalmente.” Só que eu cheguei em Jesus Maria: “Amanhã eu falo, não, depois de amanhã, não, a semana que vem.” E fui me encontrando com os amigos, e saí pra aqui, sai pra ali: “Quer saber de uma coisa? Eu não quero ser padre nada.” Liguei pra lá e desisti, mas sou católico, sou praticante, todo domingo à missa.

 

P/1 – O senhor tinha quantos anos nessa época?

 

R – Eu calculo que foi dos nove aos doze anos, garoto. 

 

P/1 – O senhor podia contar um pouquinho mais dessa experiência, dessa rotina. Como era o cotidiano no internato?

 

R – No internato era um colégio muito bom, Colégio Salesiano, o famoso Salesiano. Tinha uma estrutura muito boa, tinha, dentro do colégio, dois campos de futebol, ali a gente fazia as peladas e dali que eu saí, vamos dizer, com uma formação religiosa e também com uma formação futebolística. 

 

P/1 – O senhor aprimorou já ali os seus dotes?

 

R – Não, ali eu comecei. O forte do meu futebol era agarrar. Eu sempre fui o capitão do time, talvez por ter o nivel, sempre fui muito respeitado pelos meus colegas de equipe, então eu dava o exemplo, e eu tinha o dom de chamar a atenção. Naquele tempo não tinha gandula, a bola batia (palmas) no pé (palmas) do meu jogador e saia pela pista de atletismo. O meu jogador ia correndo pegar a bola. Eu gritava com ele: “Deixa a bola que é deles, deixa a bola.” O juiz disse: “Obrigado Farah, obrigado.” Mas quando o juiz errava, apitava um offside [impedimento] que não era offside [impedimento], eu falava baixinho:” Pô, seu juiz, não foi offside [impedimento].” Ele disse: “Eu errei, eu errei, desculpe, desculpe.” Então, eu tinha essa moral, entendeu? Eu me lembro até de um fato que o Miguel Ciccarino, que também era reserva, um dia, nós estávamos indo para o vestiário mudar a roupa, aqui na Gávea, ele disse na minha frente com dois ou três companheiros, ele disse: “Eu tô com uma dor no pé, mas eu vou jogar assim mesmo, porque eu quero é ganhar o bicho”. Naquela época, não tinha substituição, se o cara se machucasse ficava com 10, se fosse expulso não podia substituir, botar um outro e tal. Eu escutando aquilo, na mesma hora falei: “Miguel, tô escutando o que você está falando, você não tem condições de jogar, não vai entrar em campo”. Cheguei pro treinador e falei: “Olha, não tô dedurando, não quero que punam”, mas na cara dele eu falei: “Ele tá dizendo que não tem condições, mas vai entrar. Nós não podemos. É um jogo decisivo e não podemos ficar com 10 de jeito nenhum.” E não entrou. Então, eu tinha uma força em cima do pessoal. 

 

P/1 – Seu Farah, voltando ainda para a sua mocidade, vocês de Córdoba retornaram pra que cidade?

 

R – De Córdoba, nós voltamos pra Três Rios. Aí meu pai reabriu a loja dele e eu vim pra Petrópolis, estudei no Colégio Pinto Ferreira, que depois passou a ser São José, onde eu me formei porque eu era interno também no Colégio Pinto Ferreira, e naquele tempo eram cinco anos de ginásio e dois de complementar. O que era complementar? Era preparatório para Engenharia, pra Medicina e eu entrei para o complementar de Direito. Então, são sete anos, cinco de ginásio e dois complementar. Como eu era interno, estudava só na parte da manhã, tinha a parte da tarde livre. Aí eu me inscrevi como aluno do... Pra me formar em Perito Contador, que naquela época eram três anos de Propedêutico e três anos de Perito Contador então eram seis anos. Ora, se eu tinha que fazer sete anos, e tinha tempo para cursar seis anos paralelamente dentro do colégio, eu fiz os dois. Me formei nos dois. 

 

P/1 – O futebol aparece assim mais como uma vocação, a partir de quando?

 

R – Não, o futebol eu comecei em Três Rios, no América, jogando, vamos dizer, no primeiro time do América. Do América, como eu fui estudar em Petrópolis, eu fui para o juvenil do Serrano, era garoto. E aconteceu que o nosso treinador até hoje, ele tá com 90 e tantos anos, o senhor (Herculano Mozer?), dono de uma flora ali perto do (D'Angelo?), na Avenida. Ele me viu treinar e tinham chegado dois jogadores de Caxias, ou de Belford Roxo, um meia direita e um ponta esquerda. Treinou e o Herculano disse assim: “Não, pode dispensar, não quero não. Tem o Farah aí e tem o Didi, ponta esquerda”. E nos passou do juvenil para o primeiro time e não sai mais. Do primeiro time, fui à seleção de Petrópolis; da seleção de Petrópolis, fui a seleção do estado do Rio, que naquele tempo tinha um campeonato brasileiro, os clubes de cada estado jogavam entre si. O nosso treinador da seleção do estado do Rio foi o Carlito Rocha, que era do Botafogo. Nós fomos eliminados, perdemos pra Minas no primeiro jogo, de 2 a 1, fomos eliminados, mas tivemos um jogo duro, mas o (Haroldo Duarte da Costa?), que era juiz de futebol aqui no Rio de Janeiro, me viu jogar e me convidou... Vou contar uma coisa que é até engraçada, ele me convidou pra vir para o Rio, tentar num clube de futebol. Pra onde ele me levou? Para o Fluminense. Cheguei no Fluminense, o treinador era um uruguaio chamado Cabelli, aí o Cabelli não deixou treinar na terça-feira, mandou eu vir na quinta-feira, eu voltei pra Petrópolis, na quinta-feira desci de novo e encontrei com o (Haroldo Droli?) e ele me levou lá no Fluminense. Chegou no Fluminense, o Cabelli não me deixou treinar, disse: “Olha, vem semana que vem”. Aí o (Haroldo?) ficou pê da vida e disse: “Você não pisa mais aqui”. Talvez o destino (risos) fosse ficar no Fluminense até hoje. “Vou te arranjar outro clube”, aí falou com o Flávio Costa, marcou, eu vim pro Rio de Janeiro, nos encontramos no Largo da Carioca, de lá viemos de bonde, naquela época tinha bonde, viemos para a Gávea e aí treinei terça, quinta e na sexta-feira, o Flávio Costa me disse: “Você treinou muito bem, o Biguá tá machucado e eu preciso de um half direito, se você assinar contrato, você vai estrear sábado à noite no Pacaembu, contra o Corinthians. Cinco mil de luvas e 800 mil réis por mês, casa e comida.” Liguei pro meu pai pra Três Rios, dei ciência a ele e ele falou: “Não meu filho, futebol vai atrapalhar seus estudos”. O sonho do meu pai era me ver advogado. Digo: “Não pai, você já me deu estudo até agora, agora o futebol é que vai me bancar” e assinei o contrato. Inclusive, eu tenho um álbum na minha sala, um dia que vocês... Tenho tudo, tenho fotografias históricas, eu tenho o primeiro contrato que eu assinei, esse que eu estou falando, tá tudo dentro de um álbum. 

 

P/1 – Foi em que ano, seu Farah?

 

R – Em 19 de junho de 1945. Assinei o contrato.

 

P/2 – Conte pra gente a história desse jogo.

 

R – Ah, a história desse jogo foi o seguinte: nos preparamos para a viagem, nunca tinha andado de avião e tive vergonha de falar em chuteira, material e tal, embrulhei num jornal e levei embaixo do braço. Eu não acreditava que fosse jogar e falei: “Não que o Flávio desse um golpe, mas aquilo ele falou de brincadeira. Eu não vou jogar contra o Corinthians, no Pacaembu, não acredito”. Levei a chuteira embaixo do braço. Na hora de subir no avião, o Newton Calegari, o Jaime de Almeida, o Quirino, que era reserva de beque, começaram a gozar: “O avião hoje vai cair porque tem calouro aí. Vai cair” e não sei o quê. E eu meio assim, aí fui. Quando chegamos em São Paulo, ficamos concentrados dentro do próprio estádio do Pacaembu, porque nós fomos no mesmo dia, chegamos lá às quatro horas da tarde e ficamos, sete horas, sete e meia nos serviram o jantar e o jogo era as nove. Aí, quando foi oito horas eu me arrisquei de chegar numa janela lá, olhei assim: "Ahaaaa”, o estádio cheio, eu falei: “Meu Deus, sou um garoto de Petrópolis, será que eu vou jogar no Pacaembu, logo contra o Corinthians?” Não acreditei não, mas daqui a pouco, o Flávio Costa mandou os jogadores mudarem de roupa e também me chamou e pediu para eu mudar a roupa. Até tem uma coisa engraçada, porque o Flávio Costa tinha, não vou dizer raiva, mas ele não suportava camisa pra fora, meia arriada, gorro, ele não suportava. E eu na minha inocência disse assim: “Seu Flávio”, eu me arrumando, “Eu posso botar esse gorro? Porque eu gosto de jogar com uma coisa me apertando a cabeça. Tenho esse cacoete, sem gorro eu vou sentir falta”. E mostrei a ele um gorro do Serrano, azul e branco, ele me deu uma bronca: “Primeiro, que eu não gosto de gorro, segundo, azul e branco, do Serrano? “Pô, para com isso”. Aí, falei: “Como é que vai ser, seu Flávio?” Eu tinha um cabelo grande, eu falei: “Eu tô acostumado com uma coisa”. Ele chamou o roupeiro e mandou preparar uma rede, aquelas redes que a gente usava, que tinha um elástico, mas mandou colocar dentro da meia. “Você começa o jogo, se você se sentir bem, não bota a rede, se você sentir que está faltando um aperto na sua cabeça, você bota a rede.” Com 15 minutos, eu não estava vendo a bola direito, tirei a rede e botei, não passou mais nada.   Depois os reservas me contaram que o Flávio disse que o meu jogo estava na rede. “O jogo dele está no gorro, na rede”.  Mas levamos uma surrazinha de 4 a 1 no primeiro tempo. Flávio Costa deu uma bronca em vários jogadores, alguns de seleção, porque o Flávio Costa era um técnico respeitado, disciplinador, conhecedor, maravilha.  E, três ou quatro ele poupou, não deu bronca. E a mim ele não deu bronca, ele disse: “Você vai continuar jogando como jogou o primeiro tempo.” Eu digo: “Tá bom”. Entramos em campo, reagimos com 4 a 2, 4 a 3 e aí deu aquela nuvem, que outro dia até aconteceu no jogo, foi de quem? Do Brasil?

 

P/1 – ...Copa América. 

 

R – Copa América é, que não se enxergava nada. Diz que nunca houve isso, houve. Naquela época houve no Pacaembu e você não enxergava dois metros, assim, se o goleiro batesse um tiro de meta, você não via a bola.  Aí o juiz quis acabar o jogo, faltavam 15 minutos e estava 4 a 3. Aí o Jaime de Almeida, que era o capitão do time, não admitiu e disse: “Não, nós estamos reagindo, 4 a 1, 4 a 2, 4 a 3, o senhor quer acabar? Faltam (palmas) 15 minutos”. Aí o juiz tocou o jogo, tivemos a sorte de fazer o quarto gol, faltavam oito ou nove minutos e o juiz disse: “E agora?” Aí o Jaime de Almeida disse: “Agora pode, está 4 a 4, pode”. 

 

P/2 – Essa relação de amor com o Flamengo, essa paixão começou aí, ou já vinha desde a infância?

 

R – Não, não. Eu quando jogava em Petrópolis, eu tinha um amigo, o nome dele era Artur Ribas, que ele era flamenguista doente. Então, ele também era de Três Rios e de vez em quando ele me trazia pra ver um jogo aqui na Gávea, e às vezes, o Flamengo quando perdia a gente ficava triste, chateado e quando ganhava, a gente ficava numa alegria louca.  Então, eu passei a ter assim, não vou dizer um amor, mas uma tendência de gostar do Flamengo e consolidou quando eu vim, comecei (tosse) até... O Flamengo se transformou muito, o Flamengo naquela época, só para vocês terem uma idéia, essa praça aqui em frente à Gávea, onde tem a arquibancada, ali era um capinzal danado e tinha um corredorzinho pra você passar. Você chegava, saltava do bonde ali em frente ao quartel, o batalhão e você atravessava aquilo ali. Naquele tempo não tinha assalto, não tinha nada tranquilamente. Hoje o Flamengo é um clube espetacular, graças a Deus. 

 

P/1 – Farah continuando o ano de 1945, como é que os jogos se sucederam? O senhor continuou jogando?

 

R – Não, em 1945, eu assinei contrato (tosse), aí naquela época, tinha uma coisa que hoje eles não fazem mais e que pra mim é uma falha tremenda, porque é a preliminar ser de aspirantes. O que é equipe de aspirantes? Equipe de aspirantes é o nome está dizendo: quem aspira ser titular, ser do primeiro time. Então, você tinha um time de aspirantes com oito jogadores até 21 anos e três jogadores com mais de 21 anos. E jogávamos obrigatoriamente na preliminar, então, por exemplo, no Vasco saiu o Ipojucã, saiu Friaça, todos grandes jogadores de quem? Dos aspirantes. No Flamengo, vários jogadores saíram dos aspirantes, aquilo era colocado na vitrine, os jogadores que estavam pretendendo subir. Então nós, os dois clubes mais representativos, os mais com direito a campeonatos e tudo, eram Flamengo e Vasco, eram tremendos rivais, mas tinha Fluminense, Botafogo. Então hoje em dia, todo mundo daquele tempo sente saudades e acha que... Porque tem várias vantagens, por exemplo, se você tiver um time de aspirantes, você tem jogadores bons que estão na vitrine, quem vai ao Maracanã, por exemplo, vê na preliminar um Juquinha, o Pedrinho e: “Como ele joga, que cara”. Daqui a pouco, o cara tá subindo, outra vantagem: o campeonato é tão bom, tão disputado que os torcedores não são obrigados, se o jogo é cinco horas, a maioria chega quatro e meia. Quando tinha o jogo de aspirantes, o cara chegava três horas, três e pouco pra assistir então, não havia aquele atropelo, iam entrando gradativamente e o aspirante era um chamariz. A torcia igual como torce pro primeiro time, torcia para os aspirantes, mas, terminaram. Eu então jogava nos aspirantes respondendo o que você me perguntou, quando havia uma oportunidade porque o Flamengo tinha um timaço, era Borracha, Newton e Norival, Biguá, Bria e Jaime, Luizinho, que era de seleção gaúcha, Zizinho, Dorval, Jair da Rosa Pinto e Vevé. O que aconteceu? Flamengo tinha Biguá, Bria e Jaime, que eram uma linha de meias da Seleção Brasileira. Então, quando acabava um treino aqui na Gávea, chegava um diretor do São Cristóvão: “Farah, conversei com o diretor e ele vai emprestar você, você vai ser titular do São Cristóvão.” “ Não, eu prefiro ser reserva de Biguá, Bria e Jaime. Se fosse reserva de três jagunços, eu não queria, mas três de seleção brasileira? Pra mim é uma honra.”  Aí, terminava um outro treino e vinha um cara do América: “ Olá, você vai pro América, lá você vai ser titular”. Eu digo: “ Não”.  E continuei, então quando o Jaime não jogava, eu jogava, quando o Biguá não jogava, eu jogava e sempre firme nos aspirantes como capitão do time e me dando bem. A gente dormia aqui onde é a arquibancada hoje, na Gávea, e comia num restaurantezinho que tinha aqui na beira da Lagoa, porque naquela época, vocês não eram nascidos, o Flamengo tinha essa arquibancada, e do lado de cá da Lagoa, tinha uma arquibancada de 10 ou 12 degraus de cimento, a água da Lagoa batia ali. Então, quem sentava no último degrau olhava pra trás assim e via a água da Lagoa batendo ali.  E o nosso restaurante era em cima de um deck de madeira, que a gente até jogava comida para os peixes ali e tal. Depois então, foi aterrado isso tudo que está aí, e virou esse estádio monumental....

 

(P/2?) – E o famoso Fla-Flu da Lagoa?

 

R – Bolas na Lagoa. Pra fazer cera, a gente chutava. Porque naquele tempo, só tinha uma bola, então, se a gente estava ganhando de... Mas o Flamengo sempre foi famoso, principalmente na época que eu joguei, se um time estava ganhando do Flamengo por 3 a 1 e faltavam 10 minutos, não estava garantido não. Flamengo virava de 4 a 3 em 10 minutos, Flamengo tinha muita garra, muito... Então... Agora quando queria fazer cera: Bola na Lagoa. Dava um chutaço, a bola demorava a voltar, tinha que pegar outra bola no vestiário, porque não podia ter duas bolas. 

 

P/1 – Farah, como é que era a indumentária do jogador nessa época? O equipamento esportivo.

 

R – Igual ao de hoje. Chuteira, atadura, alguns usavam caneleira, meia, calção e a camisa. Camisa tradicional, aquela antiga, bonita e tal, com gola. 

 

P/2 – O clube fornecia tudo ao jogador?

 

R – Tudo, tudo. O Flamengo fornecia tudo. 

 

P/1- Mas as chuteiras eram mais rústicas?

 

R – Não. Isso dependia muito de cada jogador, porque tem jogador que gosta de chuteira com trava alta, tem jogador que gosta com trava mais baixa, outros gostam com trava de borracha. Então, isso dependia de cada um, cada um tinha o seu gosto. 

 

P/1 – Então, a gente passa para 1946. 

 

R – Pois não.

 

P/1 – Em termos de futebol, teve alguma coisa que marcou o senhor nesse ano?

 

R – Não, especificamente não. Eu quando cheguei no Flamengo em 1945, o Flamengo acabava de ser tricampeão, 1942, 1943, 1944.  Teve aquele gol discutido que o Válido fez e se apoiou em cima do Argemiro, que era o half esquerdo do Vasco, bateu o corner, o Válido subiu e dizem que ele trepou em cima das costas do Argemiro, outros dizem que não, que foi uma coisa normal. Mas fez o gol da vitória, então Flamengo ganhou aquele célebre tricampeonato. No ano seguinte é que eu cheguei, aí, fui até 1949. Flamengo sempre nas pontas. 

 

P/1 – Tem algum jogo assim, marcante, em termos de alegria ou de tristeza?

 

R – Não, olha, teve um jogo que eu, negócio de data eu não guardo muito. Teve um jogo sim, no campo do Vasco, que caiu, eu não vou dizer a arquibancada, mas uns degraus da arquibancada caíram, e nós estávamos jogando contra um clube, acho que o nome do clube era Southampton, clube estrangeiro.  Houve uma paralisação, mas graças a Deus não machucou praticamente ninguém, se houve algum arranhão, alguma coisa... Foi em São Januário, entendeu?  Mas o futebol de hoje evoluiu demais, é igual pagode. Antigamente a gente fazia um grupinho de pagode pra se distrair, hoje não, hoje são profissionais, graças a Deus, ganhando muito bem e merecem. E os jogadores também, evoluíram muito porque naquele tempo, nós dormíamos aqui onde é a arquibancada, ali onde eram as salas, era o quarto dos jogadores, tinha um lugar que era um Departamento Médico, até vocês devem ter ouvido falar muito no Zizinho, que está vivo até hoje, mora em Niterói. Nós todos íamos dormir 10, 10 e meia da noite e o Zizinho tinha um privilégio de ir para o departamento médico, que era a última sala ali da arquibancada e ficava com a luz acesa, lendo, sujeito muito inteligente, gostava muito de ler e então para não prejudicar os outros e ficar lendo no quarto, as luzes eram apagadas. O Zizinho então tinha esse privilégio. 

 

P/1 – Seu Farah, continuando no futebol, quem eram os jogadores aí mais brilhantes que o senhor já enfrentou?

 

R – Olha, diversos jogadores foram espetaculares, mas eu destaco na minha época o Zizinho. O Zizinho era um Pelé, era um Ronaldinho. Zizinho era sensacional. E até acontecia o seguinte, casualmente, no treino eu marcava o Zizinho e não podia dar facilidade não, tinha que chegar junto (barulho de soco), ou antes, se deixasse dominar a bola, ele jogava ela entre as suas pernas porque ele tinha uma habilidade fora de sério.  E nos treinos às vezes a gente até se digladiavam porque ele dizia: “Para com isso pô, isso é treino. O jogo é domingo”.  Eu dizia: “Mas Zizinho, se eu deixar você dominar a bola, se eu deixar você conduzir a bola, você vai me botar no chão, você vai me dar um drible que eu vou cair sentado”.  “Mas o jogo é domingo”.  “Então vamos fazer uma coisa, quando você pegar a bola, você faz o que você quiser e eu faço o que eu quiser”. “Ah, então está bem”. Eu gostava muito dele, ele gosta muito de mim, um grande amigo, um jogador excepcional. E ele tinha uma virtude muito grande, ele tinha um lançamento como o Gerson fazia também, aquele lançamento de 30 metros. O Zizinho lançava uma bola da linha de half, de quase de dentro da área para o Perácio, o Perácio dava um chutão e às vezes, a bola ia parar lá no Jockey Club, mas o Flávio Costa tinha uma teoria que eu conto pra todo mundo, que além de ser um grande técnico, um grande disciplinador com raízes militares, ele foi do colégio Militar e tudo, educadíssimo também. O Flávio Costa tinha uma teoria que parece brincadeira, ele dizia assim: “Eu quero que a linha chute 20 vezes. Não quero que chute duas, e vou dizer porque, se eu puser uma garrafa ali e tiver 20 argolas, você joga a primeira e erra, a segunda erra, terceira, na décima segunda entra no gargalo”. Errou, errou, errou e na décima oitava entra no gargalo, então, você jogou 20 argolas e tiveram duas dentro do gargalo. Se eu te der duas argolas, você joga a primeira, errou, joga a segunda, errou. O que ele quis dizer? Se os atacantes chutarem duas bolas, não vai entrar nenhuma. Então, ele queria que chutasse 20, que das 20 entrariam duas ou três, entendeu? Ele não se incomodava que a bola fosse lá no Jockey Club, não se incomodava que a bola fosse lá dentro da Lagoa, mas que chutasse. Porque, às vezes, você vê um time dominando o outro, e não faz gol. Por quê? Porque não chuta, tem que chutar. Então, o Flávio Costa, nesse particular ele era exigente. 

 

P/1 – Como é que o Flávio armava o time do Flamengo assim, taticamente?

 

R – Naquele tempo era o goleiro, barreira de beque, linha de half, half direito, center half, half esquerdo. Ponta direita, meia direita, center full, meia esquerda e ponta esquerda. Hoje é 5-2-3; 2-3-5; 4-2-2. Naquele tempo não. Era uma formação, por exemplo, eu joguei, comecei como half beque direito, marcando o ponta esquerda, inclusive quando eu fiz os testes, tinha o Vevé e tinha o Jarbas. O Jarbas que eu marquei, tinha uma qualidade, ele jogava a bola por aqui, corria por aqui e pegava a bola lá na frente de tanta velocidade que ele tinha, mas como eu fui avisado, eu malandramente quando ele jogava a bola por aqui, eu cercava ela, ele passava sozinho e eu saia correndo. Então, duas ou três vezes, ele tentou fazer isso comigo e não conseguiu, mas eu fui avisado. Tinha o Vevé também, que era um grande ponta esquerda, Vevé inclusive fez muitos gols de chilena assim, a bola centrada assim, ele no ar, bem, pegava ela lá no ar. Você me perguntou como os times jogavam. Jogavam dentro de... Era basicamente assim: era um goleiro, a parede de beque, a linha de half, os três, half direito, center half, half esquerdo. E a linha atacante: ponta direita, meia direita, center full, meia esquerda e ponta esquerda. Hoje não, hoje existem muitas táticas novas, muitas formações. 

 

P/1 – Você poderia falar um pouquinho mais do Flávio Costa? O temperamento dele, como era?

 

R – Muito... Eu o considero... Eu tive uns 10 técnicos. O Flávio Costa eu reputo como um dos maiores técnicos que eu conheci.  Por quê? Porque ele tinha um pouquinho de qualidade, de cada coisa ele tinha qualidade. Porque, às vezes, um técnico pode ser muito bom em tática, mas não tem moral ou não tem força sobre os jogadores. Ele pode ser muito rígido, mas não conhece futebol, não, o Flávio tinha de tudo, de tudo um pouco. Ele era durão, como era delicado, ele conhecia o futebol como ninguém. Exigente, todo mundo tinha respeito por ele e pra mim foi o maior técnico que teve. Um técnico que foi muito engraçado foi o Juca da Praia. Esse Juca da Praia, ele que foi juiz de futebol e depois se tornou técnico, mas ele era muito gozador, muito brincalhão, ás vezes, até não vou dizer que faltava com respeito, mas dizia coisas que não devia dizer. Um dia comigo aconteceu um lance com ele, eu garotão e nível universitário, de família classe média alta, então, o time já estava em campo pra treinar e eu entrei em campo atrasado. Quando entrei atrasado, ele me chamou e falou assim: “O que houve? Entrando agora em campo?” Eu falei: “Seu Juca, eu estava na fila da massagem. Dei preferência aos jogadores titulares, aos craques e eu humildemente esperei a minha vez. Só que me atrasei um pouquinho pra tomar massagem” “E quando jogador de merda toma massagem?” Eu falei assim: “O que?” “É. Jogador de merda tomando massagem.” Aquilo ficou na minha cabeça, fiz o treino, e quando acabou o treino, eu procurei o vice-presidente do futebol que era o seu Francisco de Abreu. “Seu Francisco de Abreu, eu não vou ficar mais no time”. “Por que Farah?” Houve isso, isso, isso.  Ele chamou o Juca e falou pro Juca: “Pô, você fez isso com o Farah?” Ele me chamou e falou assim: "Olha Farah, quando você me vê chamar o cara de excelência, senhor e coisa, é porque eu não gosto da pessoa, é porque eu tenho algo contra a pessoa. Agora, quando eu tenho carinho e coisa e tal, aquilo que eu falei com você foi carinhosamente. Quando jogador de merda, mas não foi pra te ofender, porque eu gosto de você”. Eu falei: “Então vou lhe pedir um favor, se o senhor gosta de mim, não me trate mais assim”. Se fosse hoje, eu até receberia, mas naquela época eu era garoto meio tímido. Juca da Praia. 

 

P/1 – O senhor começa como jogador, mas quase que simultaneamente começa a trabalhar no Flamengo também?

 

R – Quase não, simultaneamente. Aliás, eu toquei três instrumentos: toquei pistão, piano e saxofone. O que era? Joguei futebol, estudei na faculdade e depois trabalhei. Fiz três coisas: joguei futebol, faculdade, porque a faculdade era à noite, era na Rua do Catete, Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. O futebol naquela época não era como hoje. Hoje, é dia e noite, naquela época, a gente treinava terça feira de manhã, ginástica, só preparação física, terça de manhã. Quarta de tarde, um conjunto de 90 minutos e sexta-feira de manhã, um apronto de 50, 60 minutos era o apronto. Então o resto, você tinha vago, por isso que eu pedi pra trabalhar. Porque por exemplo, terça de manhã treinava, ginástica de nove às onze, ficava o resto do dia à toa? Não queria ficar, pedi pra trabalhar. Aí eu almoçava e ia lá pra sede velha, lá na praia do Flamengo. Que a praia do Flamengo foi o grande inicio do Flamengo, histórico. Ali, o Flamengo tinha em frente à sede era o mar, a natação era treinada no mar, os barcos saiam da garagem do Flamengo, atravessavam a rua carregados e lá tinha um deck, botavam o barco dentro da água e saiam remando, então o Flamengo não tinha ainda a estrutura que tem hoje, aqui na Gávea. 

 

P/1 – E o senhor procurou quem pra conseguir o emprego aqui no Flamengo?

 

R – Olha, o vice-presidente, o homem que mandava nas finanças do Flamengo era o senhor Haroldo Spinola, ele era do Citibank (tosse), mas naquela época, o Flamengo, a tesouraria, a secretaria, tudo funcionava na sede da praia do Flamengo 1966, 1968, que hoje tem um edifício maravilhoso lá, a sede do Flamengo era lá. Então, quando eu saí da Gávea para receber os 11 dias porque eu assinei o contrato dia 19, e no dia 30 fui lá receber os 11 dias e falei: “Seu Spínola, o senhor não me arranja um lugar pra trabalhar aqui, não? Porque eu estou à toa. A gente treina na terça de manhã, na quarta de tarde e na sexta de manhã, fico um tempo sem fazer nada lá, não sou de jogar baralho, não sou de ficar no telefone uma hora (tosse).” Ele falou:” Pode vir. Eu estou precisando de uma pessoa aqui, mas só posso pagar 500 mil réis”.  Falei: “Eu vinha de graça”. Aí na segunda-feira eu comecei. O serviço naquela época era muito fácil, por exemplo, o serviço que ele me deu era dar baixa dos sócios. Então os cobradores, tinham sete ou oito cobradores que iam nas casas dos sócios cobrar e traziam os canhotinhos. Eu pegava os canhotinhos: Manoel da Silva, pegava a ficha do Manoel da Silva, pagou março e carimbava março e botava no lugar. Antônio Veiga, Antônio Veiga pagou abril (barulho de carimbada), carimbava, quer dizer, um serviço de principiante e fui indo, fui indo. Comia lá também, na sede velha tinha um restaurante do (Sabú?) e então, a gente comia lá às vezes e outras vezes vinha comer aqui na Gávea, quando tinha treino e tudo. 

 

P/1- E aí? A coisa foi evoluindo e o senhor foi ocupando outras funções?

 

R – Foi. Eu era auxiliar de tesouraria (tosse), depois passei a encarregado de tesouraria, depois passei a chefe de tesouraria e Tesoureiro. Então, toda a responsabilidade do setor de Tesouraria até hoje, é comigo.  

 

P/2 – Quando você fez 54 anos como funcionário, recebeu uma homenagem do clube?

 

R – Foi. Aconteceu o seguinte, no dia 19 de junho de 1999, eu fiz 54 anos e a secretária do presidente me pediu que eu desse um pulo na Presidência. Eu subi, já meio desconfiado que alguma coisa eles tinham programado. Quando eu cheguei lá estava o presidente, uns oito, dez, doze diretores, vice-presidente e pessoas importantes do clube e ele me prestou uma homenagem. Me ofereceu um quadro, cujo quadro tem esse ofício que eu te dei uma cópia, em que ele ressalta as minhas qualidades e me elogia e tal. E um quadro lindo, com uma moldura toda dourada, está na minha sala, está na parede, com uma fita assim, bonita, cruzada e tal e fez um discursinho e tal. Dias depois, eu tive a felicidade do Doutor Roberto Abranches, que é presidente do conselho fiscal, uma pessoa que eu admiro muito e ele me considera demais. Aliás, eu tenho uma pasta com mais de 50 ofícios do presidente do conselho fiscal, de conselho deliberativo, de todos os vice-presidentes com quem eu trabalhei, todos... Porque tem uma coisa, não quero me valorizar nem me gabar, mas eu era pra ter nascido militar, porque eu sou linha reta, com 54 anos. "Que hora que você marcou comigo?” 

 

P/1 – Duas horas.

 

R – Duas horas. Eu saí da Gomes Carneiro vinte para as duas e vim enfiado, olhando toda hora pro relógio. “Pô, marquei duas horas.” Tem necessidade? Não tem. Cheguei aqui cinco para as duas. Vocês tinham ido almoçar. Então, eu com 54 anos, meu horário é nove horas? Dez para as nove, você já me vê na sala, entendeu? Às vezes, minha esposa diz assim: “Você está tomando café depressa.” “ Não, estou em cima da hora.”  “ Mas não pode chegar 15 minutos atrasado?”  “Pode, mas não quero.” Eu sou o primeiro que chega e o último que sai, entendeu?

 

P/2 – Farah, me diga uma  coisa, com 54 anos como funcionário do clube, será que tem alguém com história maior em algum clube?

 

R – Olha, eu não sei não. Aqui no Flamengo, o segundo lugar, que Deus o tenha, era o Buck. Quando eu fiz 50 anos, o Buck. fez 38 anos, entendeu? Agora, nos outros clubes, com 30, 40 anos deve ter muita gente, deve ter. Esse Pai Santana, por exemplo, deve ter uns 40 anos de Vasco, 45 de repente. Ele não tem mais porque quando eu sondei o Vasco, quando eu fiz 50 anos, tinha uma mulher que tinha 52 anos. Era a única que me ganhava e ela faleceu coitada, senão ela hoje estaria com 56 anos de Vasco. 

 

P/2 – Então, você tem um recorde histórico aí.

 

R –  É.

 

P/2 – Se Deus quiser.

 

P/1 – E Farah, já que a gente está falando então desse tempo todo de vida do Flamengo, quais foram às pessoas que mais lhe ajudaram aqui na sua trajetória?

 

R – Bom, na parte de tesouraria, que me ensinou muito, que foi um cara sensacional, foi o seu Alberto Quadros. Quando eu entrei para a Tesouraria com o sr. Haroldo Spinola, a tesouraria, o clube praticamente não tinha contabilidade, tinha uma pasta em ordem alfabética, então o cara chegava lá e dizia: “Sou da firma Casa do Construtor”, ia na letra C, tirava, pagava (palmas), carimbava e botava no lugar. E seu Alberto Quadros levou dois diretores que eram da Companhia Brasileira de Energia Elétrica e tradicionais no Flamengo, Luiz Burgos Neto e João Eugênio Granier, levou esses dois como diretores tesoureiros, diretor de finanças e começaram a trabalhar até meia noite, uma hora, durante uns dois ou três meses e organizaram a contabilidade.  E eu fiz parte de ajudar e eu dormia aqui onde é a arquibancada na Gávea, então, saia, às vezes, da sede da praia meia noite, não tinha carro, uma hora, pegava um bonde e vinha de bonde de lá, saltava aqui em frente e um dia o seu Quadros disse: “Não Farah, você muda aqui, pra sede da praia.” Eu disse:” Mas aonde? ”“ Aqui em cima. Tem o quarto do gerente, o Maciel, nós vamos fazer uma divisória, você fica de um lado e o Maciel fica do outro.” E embaixo tinha um dormitório onde dormiam oito remadores, dentre os quais o Doutor André Richter que foi presidente do Flamengo. Eu aceitei e pra mim foi à glória porque a primeira vez na vida que eu comprei um colchão de molas, rádio de cabeceira e um ventilador, então, eu me senti assim como... Porque naquele tempo não tinha televisão, não tinha ar refrigerado, não tinha, então era um ventilador, um colchão de molas e um... Me dei bem lá, então de lá vinha só pra treinar. Quando tinha treino, eu saia de lá e vinha. 

 

P/1 – Tá, então foi o seu Quadros?

 

R – Seu Quadros na parte, vamos dizer, do trabalho. Flávio Costa na parte do futebol me deu muita força e seu Moreira Leite. Seu Moreira Leite que foi um cara que me ajudou muito, inclusive o primeiro apartamento que eu comprei na Rua Artur Bernardes, no Catete, por 11 mil cruzeiros foi ele que me ajudou. Ele era muito amigo do presidente do IAPC na época, falou com ele, o cara me financiou o apartamento em 10 anos e eu pagava uma ninharia e tal, depois vendi e até hoje o seu Moreira Leite me adora, liga sempre pra mim, eu também adoro seu Moreira Leite, gente da melhor qualidade.

 

P/2 – Qual foi a sua maior alegria e a sua maior tristeza dentro do Flamengo?

 

R – A maior tristeza foi aquela que eu contei do falecimento do Doutor Gilberto, aquilo foi uma punhalada no meu coração. 

 

P/1 – O Senhor podia contar de novo?

 

R – Posso.  Aquela do basquete (tosse), que o Doutor Gilberto Cardoso gostava muito de mim e tinha um jogo decisivo no Maracanãzinho, Flamengo e Sírio Libanês, quem ganhasse o jogo era campeão. Ele me chamou: “Farah, você vai ao jogo?” “Vou”. “Vai comigo”. Eu disse: “Não Presidente, eu não vou não. O senhor gosta de ficar no banco dos reservas e eu prefiro ficar mais longe. Depois do jogo, se o Flamengo ganhar eu sei que tem comemoração e o senhor vai ficar até tarde e eu quero vir embora cedo.” “Então, a gente se vê lá.” Falei: “Tá bom.” Aí fui na frente dele, quando eu cheguei, ele chegou, ele estava ali perto onde tem aquelas cadeiras, ele passou por mim: “Quanto está o jogo?” Falei: “6 a 4 Flamengo. Começou agora.” “Vamos lá pro banco de reserva.” Falei:” Não, não. Vai com Deus.” Ele foi.  Aí eu fiquei assistindo ao jogo e o Flamengo ganhou no último minuto, 30 segundos, uma bola que o Mumuta jogou quase do meio da quadra e estava empatado, jogou e na descendente, o juiz apitou o término do jogo, só que quando o juiz apitou, ela estava descendo e caiu dentro da cesta, então valeu os pontos. Diz a regra, dizia pelo menos na época, não sei se ainda prevalece, que na ascendente, subindo, se o juiz apitar ela pode entrar que não vale porque ele apitou antes dela fazer a descida. Mas o Mumuta jogou e na descendente entrou e foi aquela alegria, aquela comemoração. Saí correndo, peguei meu carro, eu tinha um jaguarzinho, peguei o meu carro e fui embora pra casa. E no dia seguinte, a minha empregada foi comprar pão e quando voltou disse pra mim assim: “Tem uma notícia que um Presidente morreu de um clube.” Falei: “ Mas não foi o Gilberto Cardoso não, porque eu estive com ele até uma hora da manhã. Ele estava no jogo de basquete.” Quando eu saí com meu carro tinha um cara sentado lendo o jornal de esportes. Falei: ”Amigo, tem alguma notícia de um presidente que morreu?” Ele virou o jornal e estava assim, em letras garrafais: Gilberto Cardoso faleceu. Aquilo foi uma punhalada. E a maior alegria foi quando o Flamengo conquistou a Copa do Mundo em 1981, foi uma grande alegria que eu tive porque é um título inédito, principalmente aqui no Rio de Janeiro, campeão do mundo só o Mengão. 

 

P/1 – Seu Farah, o senhor assistiu esse jogo aonde?

 

R – Qual?

 

P/1 – Esse do Mundial.

 

R – Não. Do Mundial era mais rádio. Acho que em 1981, não me lembro, acho que não tinha televisão não. Tinha?

 

P/2 – Deve ter sido pela TV.

 

R – É. Deve ter sido pela TV. Eu digo que foi... Porque é o maior título.  O Flamengo teve três, inclusive, anda aqui no meu bolso, bom, como você vê, a canetinha do Flamengo, a carteira do Flamengo, o chaveiro do Flamengo, tudo meu é do Flamengo. Aqui na minha carteira, eu inclusive gosto muito de pagode e uma vez eu fui num pagode e quando eu cheguei, o cara que estava cantando ele disse assim: “Acaba de chegar aí o tesoureiro do Flamengo, Maurício Farah, um cara maravilhoso, o único defeito que ele tem é ser flamenguista”. Eu fiquei quieto, entrei, sentei lá na minha mesa, coisa e tal, daqui a pouco eu fui ao microfone e falei assim: “Toda vez que uma pessoa é agredida ou vilipendiada tem o direito de defesa, esse moço aqui do piano, ele é Fluminense e é um direito que ele tem. Ele me gozou que o único defeito que eu tenho é ser Flamengo, então, eu tenho direito da resposta, viu, meu amigo.” Ele é meu amigo, isso tudo foi gozação e a casa cheia, foi ali na Voluntários da Pátria. Eu peguei esse papel aqui e disse: “Atenção fregueses” e apontei para ele. “Em função da larga superioridade do Clube de Regatas Flamengo no futebol brasileiro, só admito gozações dos torcedores cujo os times tenham o seguinte retrospecto: Campeão Mundial Interclubes, Campeão da Taça Libertadores, Tetra Campeão Brasileiro, Hexacampeão da Taça Guanabara, três vezes, tricampeão Carioca, Campeão Carioca de 1999.” Isso eu acrescentei agora, naquela época não tinha. “E com superioridade de vitória sobre todos os times do Rio de Janeiro”.  Aí eu gozei o cara: “Se não for o seu caso, por favor, disfarce, abaixe a sua cabeça, saia de fininho e torça para que seu clube chegue a esse nível.” Ah, a casa veio abaixo, a maioria era flamenguista.

 

P/1 – Estava preparado para responder. 

 

R – Ah, não. Eu respondi na hora.

 

P/1 – Seu Farah, o senhor falou que sua grande alegria foi à conquista do Mundial. O senhor poderia contar um pouco desse jogo, pra muita gente que nem era nascido quando isso aconteceu.

 

R – Do Mundial?

 

P/1 – É.

 

R – Não. A grande alegria vamos dizer é no sentido genérico, porque especificamente assim, eu não tenho o que contar. O Flamengo tinha um grande time, entendeu? Um grande time, inclusive eu tenho as fotos na minha sala dos jogadores. Porque o Flamengo, por exemplo, o Flamengo se tem um goleiro como o Raul, se tem Andrade, se tem o Adílio, se tem um Mozer, se tem o Zico, então, pô, que time é esse? É um timaço, então, o Flamengo ganhou o campeonato do mundo com um time de primeiro nível e de seleção brasileira. 

 

P/1 – Eu queria recuar um pouquinho no tempo, para o senhor falar um pouco de sua carreira como jogador e como é que ela terminou? Quando que o senhor encerrou a carreira como jogador?

 

R – Eu encerrei em 1949. Em 1949, eu encerrei (tosse), joguei de 1945 a 1949. Como eu não sei se eu falei, mas vou repetir, eu saí do América de Três Rios, então o América de Três Rios veio fazer um jogo com o América do Rio, lá em Campos Salles, ainda era Campos Salles.  No dia primeiro de maio de 1949, aí eu pedi ao Flávio Costa se ele deixava jogar pelo América de Três Rios, ele deixou então, eu joguei de half beque direito e o ponta esquerda do América era o Jorginho, que era da seleção brasileira. Ele tinha uma qualidade de pegar a bola na ponta esquerda, derivar, vinha, vinha, vinha e quando ele chegava na marca do pênalti ele chutava de perna direita e eu já sabendo disso, eu bloqueava ele, bloqueava, bloqueava, mas ele vinha vindo, na hora que ele foi dar o chute, eu fui tirar a bola dele (palmas) e ele me pegou no joelho. Aí eu caí, caí, saí carregado e tal, dali eu fiquei uns 15 dias andando até com bengala e fazendo tratamento e o doutor Paulo Santiago disse: “Nós vamos ter que operar o teu joelho”. E naquele tempo, a operação não era Artroscopia como é hoje, um buraquinho. Eram oito ou dez pontos aqui no joelho e eu com um medo danado. Ele falou: “Se você não operar você não vai jogar mais.” Eu falei: “Então eu não vou jogar mais.” Ele disse assim: “Mas porque você não opera?” “Porque não quero operar.” E encerrei a carreira.  O último contrato meu foi 30 mil, o primeiro foi 5 mil e o último que eu fiz foi 30 mil por dois anos e o meu contrato acabava justamente foi no dia primeiro de maio, acabava no dia 19 de junho, então, eu não ficava devendo nada porque estava próximo, o último foi 30 mil de luvas e mil e quinhentos por mês até eu comprei um carro com a metade, eu comprei um carro de praça em Três Rios e dei para um cara que eu conhecia lá pra ele trabalhar com o carro e me dar um dividendozinho todo mês.  Então, eu não quis operar e eu disse para o Doutor. Paulo: “Eu não vou ficar aleijado?” Ele disse: “Não, pra você subir escada, pra você tomar um bonde, agora pra jogar futebol nem pensar.” Então eu fiquei uns 10 anos assim sem e depois deu pra fazer umas peladinhas e tal, já não sentia mais nada e hoje em dia, graças a Deus, não tenho nada no joelho. 

 

P/2 – E o senhor ainda, então, bate umas peladinhas?

 

R – Não, não. Pagode só.  Pagode, eu entro num pagode 10 horas da noite e saio às três da manhã, sambo no pé, danço e modéstia à parte danço muito bem, e tenho muitas amigas que gostam de ir comigo, então me distraio e me divirto.  E de repente chego lá toco um tantã, toco um tamborim, toco agogô, toco tudo. 

 

P/1 – E esses instrumentos de precursão, o senhor aprendeu com quem?

 

R – Normalmente, eu sempre tive queda pra isso, mas graças a Deus, eu tenho facilidade e até num batuque (batuque) na mesa (batuque), eu tenho ritmo. É uma sensibilidade que eu tenho que eu trouxe comigo do berço.

 

[Troca de fita]

 

P/1 – Então, seu Farah, indo agora para outro aspecto, que é o aspecto familiar.  Como é que o senhor conheceu a sua esposa?

 

R – A minha esposa, eu conheci da seguinte maneira: tinha um amigo meu que trabalhava no restaurante do Flamengo e ele tinha uma namorada e um dia me ele me chamou, se eu queria ir com ele até á Barra da Tijuca, para a gente tomar um banho de mar e almoçar por lá. Era o meu dia de folga, topei, fui com ele e a namorada dele levou a atual minha esposa, aí, nasceu um ti ti ti entre nós, ficamos namorando e estamos juntos há 45 anos. 

 

P/1 – E tiveram filhos?

 

R – Temos um, o Maurício, que é o meu orgulho. Está com 40 anos e tem uma locadora de vídeo, é formado em Direito, foi advogado da Legião Brasileira de Assistência muitos anos e foi diretor do Flamengo jurídico, trabalhou com o Michel Assef, era diretor do Michel Assef. Tinha o dom de absolver os jogadores no tribunal pela habilidade, pela simpatia, não era de dar soco na mesa, como o doutor Michel Assef e como o Eurico Miranda. Ele era mais diplomático e (tosse) conseguia, até o Zico uma vez ele absolveu o Zico. E é um cara não é por ser meu filho não, mas é um cara sensacional. Há uns oito anos ele montou uma locadora de vídeo aqui em Copacabana, e ele é querido por criança, por velhos, por homens, todo mundo para, cumprimenta, conversa, porque ele é muito, muito, muito educado, muito fino, um cara que eu tenho verdadeiro orgulho, graças a Deus, filho único. Agora eu tenho um netinho de três anos, ele me deu um netinho, o Felipinho. 

 

P/1 – Vai ser jogador de futebol?

 

R – Ah, já grita “Mengo”. Outro dia, eu estava na janela do apartamento, um cara do outro lado da calçada com a camisa do Flamengo, ele gritou: “Mengo.” (risos) E na minha sala tem um retrato dele, com um dia, eu botei ele para sócio e tenho o retrato dele com a camisa do Flamengo, com um dia, Felipinho. 

 

P/1 – Com um dia de nascido?

 

R – Com um dia de nascido já botei.

 

P/1 – Vai fazer história também.

 

R – (risos) Vamos ver. 

 

P/1 – O senhor quando chegou ao Flamengo, o Flamengo já era aqui na Gávea? Já tinha essa estrutura toda?

 

R – Não, não. O Flamengo era na Gávea, a parte de futebol e basquete, essas coisas. Tivemos o grande Canela. Canela treinador de basquete, também foi meu treinador de futebol, Canela. Na época, o técnico saiu, eu não me lembro e pegaram o Canela para dirigir futebol. Mas a Gávea tinha uma estrutura muito, muito, muito menor, porque a Lagoa chegava até na bandeirinha do córner, da bandeirinha do córner tinha uns 10 metros mais e depois era água, a Lagoa.  Essa praça aqui da frente, que hoje em dia tem o CIEP, tem tudo ali em frente, a arquibancada, ali era um terreno baldio, não tinha nada, era mato. Então, no meio da praça tinha um caminho de 50, 60 centímetros que vinha lá do Batalhão, a gente saltava do bonde lá e pra vir pra Gávea, em vez de dar uma volta grande atravessava aquele caminhozinho que vinha até a porta do estádio.  Agora a parte, vamos dizer, dos sócios era na sede da Praia do Flamengo, 1966, 1968. Tinha um salão de baile e em baixo do salão de baile no térreo, tinha a garagem de remos, os barcos todos colocados ali, entendeu?  Os remadores remavam ali, tiravam os barcos, atravessavam a rua, botava no mar e saiam. E o salão de festas em cima e tinha as salas da Tesouraria, da Secretaria, do Departamento Técnico, tudo ali na sede da Praia do Flamengo.  Aqui na Gávea era mais o futebol e meia dúzia de esportes.  O Flamengo também teve tiro de guerra, que foi tirado, tinha um stand de tiro, até essa diretoria parece que quer recolocar. Tiraram o stand de tiro pra fazer um futevôlei pro Renato Gaúcho, pra agradar o Renato Gaúcho e ficou abandonado lá, até a plaqueta que fizeram lá, está desbotada. Então aquele terreno ali ficou... Parece que o presidente prometeu reconstruir ali o stand de tiro. E o muro, não tinha muro aqui na Gávea, não. O Flamengo criou uma sociedade auxiliadora, que o José Alcebíades de Oliveira, que já faleceu, ele formou vamos dizer um grupo, cada um deu um tanto, eu tenho até esse livro de controle, vamos dizer 500, em 10 prestações de 50, para o muro, então arranjou 50, 60, 100 pessoas que colaboraram, que começaram a levantar o muro. Eu tenho inclusive um álbum com as fotografias, essa aí eu não deixo ninguém nem ver (risos). 

 

P/1 – O senhor tem um acervo pessoal?

 

R – Tenho, tenho um acervo muito grande. Tenho mais de 250 revistas, eu tenho uns 200 chaveiros, todos diferentes. Eu tenho muita coisa porque tudo o que eu vejo do Flamengo eu compro.  Outro dia, eu estava em Petrópolis saindo da missa e tinha um camel vendendo umas coisas, quando eu olhei tinha uma ambulância com os escudinhos do Flamengo. Uma ambulância de madeira com as rodinhas, eu comprei a ambulância e preguei Tesouraria - Maurício Farah tá lá. Mexi com meus funcionários: “Quando alguém passar mal tem uma ambulância aqui” (risos).  Então, na minha sala tem todas as coisas, tudo eu guardo, guardo com o maior carinho, tenho dedicatórias de ex-presidentes, tenho ofícios de ex-presidentes,  de presidentes do Conselho Fiscal, de todo mundo.  Eu sou muito de guardar as coisas e trabalhei e uma coisa também que eu trabalhei muito e parei o quê? Uns dois anos ou três anos, no Maracanã. Eu que controlava tudo, Deus me livre.  Tinha um jogo as cinco horas da tarde, eu chegava no Maracanã às 11 horas, distribuía o pessoal todo, os meus funcionários pra fiscalizar, eu que recebia a renda, entendeu? Eu fazia um controle paralelo, a Federação lá e eu aqui, em cada bilheteria eu tinha um fiscal meu, tinham oito bilheteiros, o meu fiscal levava um mapa, controlava lá dentro, andava ficava lá dentro.  Esse trabalho que eu fiz foi elogiado pelo Veloso, não o do Flamengo, um deputado que chama Veloso, que ele foi de uma CPI do Maracanã. Quando ele soube, ele me pediu, ele viu o meu trabalho e me pediu pra eu mandar uma xerox de tudo. Eu mandei e ele mandou um telegrama de volta parabenizando e tal. Por quê? Porque eu fazia o seguinte: a carga de ingressos chegava e nós conferíamos tudo, então, a carga era essa: 30 mil. Tinha um jogo, a Federação tinha o controle dela e nós tínhamos o nosso, no fim: “A renda quanto foi?” “123,580.” “É. Bateu”. (palmas). Eu não sabia a deles e eles não sabiam... Quando havia uma dúvida: “120mil.” “Não, 100 mil.” “Não, 120 mil. Vamos ver o que houve.” Então, às vezes era um erro meu, às vezes, era um erro da Federação, mas era corrigido, mas pra mim era muito cansativo porque tinha que estar lá às 11 horas e o jogo terminava oito horas e tinha que sair de lá 10, 11 horas da noite.  Então dei uma parada e uns dois ou três anos eu saí fora. Agora só assisto futebol. 

 

P/1 – E falando em assistir futebol, o senhor acompanhou todo o segmento da era Zico, esse grande time que o Flamengo teve durante anos. O senhor poderia falar um pouquinho sobre isso?

 

R – Bom, o Zico é prata da casa. Começou com o Celso Garcia, aquele radialista, por falar sobre radialista depois quero falar depois sobre o meu programa, que eu tive na rádio Continental, lembrei do Celso Garcia. Celso Garcia trouxe o Zico pra treinar, o Zico arrasou. O Flamengo investiu nele como está investindo no Iranildo, arranjamos uma massa muscular, piscina, ginástica, isso e aquilo, e o Zico aos poucos foi chegando num patamar mais alto, e se tornou um dos maiores jogadores do Brasil. Agora o Zico, o que a gente mais admira nele, além do futebol é a qualidade moral dele, um grande chefe de família, um grande pai, uma pessoa seriíssima, fora de qualquer dúvida, é um cara sensacional.  Eu tive muito contato com o Zico e posso falar isso com a maior tranquilidade. Porque o jogador de futebol pode ser um cracasso e ser um mau caráter, ser um cara que trata mal a família, um cara que não dá um conforto à família, o Zico não, o Zico é nota mil. 

 

P/1 – Seu Farah, o senhor acompanhou excursões do Flamengo para o exterior?

 

R – Acompanhei várias excursões, inclusive quando o Domingos Bosco morreu, o professor Eduardo Mota era o vice de futebol e me escalou para eu ir à Itália.  Eu falei: ”Professor, eu não vou não, porque eu tenho medo de avião.” “Não, mas eu quero que você vá. Não, você é que tem que ir.” Tem, não tem, tem, acabei indo.  Foi uma viagem muito bonita e aconteceram até algumas coisas que eu posso contar dessa viagem, por exemplo, dois caras, que só viviam lendo, viviam fazendo palavras cruzadas, quem eram esses dois caras? Raul Plassmann e Paulo César Carpegiani, o que eles são hoje? Dois caras espetaculares, dois caras que venceram. Enquanto os outros estavam só de brincadeira, de sacanagem, de palavrões, de não sei o que, os dois ali, no primeiro banco, um trocava ideia com o outro e tal, e eu reparando naquilo sempre. E também, eu sou (palmas) muito metódico, sou muito organizado (palmas) na minha vida particular e na vida de Flamengo.  Eu sou um cara que, graças a Deus, eu tenho uma vida, eu controlo as minhas finanças da seguinte maneira: eu sou fiscal aposentado e eu me aposentei em 1992, pelo Flamengo também, só que eu perdi 12 anos, em 1980, eu tinha direito, mas por vaidade: “Não, eu não quero me aposentar”, em 1992, um amigo meu aqui do Flamengo falou: "Você está perdendo dinheiro”, eu me aposentei e tenho meu salário atual. Então, são três fontes de renda, então, eu gasto a metade e a outra metade dá para aplicar, graças a Deus tenho uma vida tranquila e sou muito organizado. Então na excursão, o que eu fiz? Dentro da minha organização, toda vez que o time saia de um hotel, eu pegava o livro e dizia: "Cantarelli?”. “Presente”.  “Fulano?” “Paulo César Carpegiani”. “Presente” cantava todos os nomes e “Vamo embora” (palmas). Aí um dia, uma cara lá, não me lembro quem, falou assim: “Para, para de frescura pô, nunca ninguém fez isso. Por que você está fazendo?” Eu digo: “Mas é uma forma porque nós vamos treinar num lugar que leva 20 a 30 minutos e pode escapar alguma coisa.” “Ah, para com isso”.  “Tá bom, então vamos parar.” Não deu outra, no outro treino, eu não fiz a chamada, quando chegamos no estádio:” Cadê fulano, cadê beltrano? Faltaram dois jogadores, tivemos que pegar um táxi correndo pra ir lá no hotel pegar (risos) os dois lá. “Tá vendo?  Vocês...” Outro fato também que aconteceu na excursão foi quando eu estava com o dinheiro da renda e eu disse: “Olha, é melhor a gente passar ali na alfândega, mostrar que isso aqui é dinheiro”“ Ih Farah, pô, você parece, cheio de frescura.” “Frescura não, rapaz, eu quero...” Aí, o que aconteceu? O Paulo Dantas que até hoje está aí e os outros todos entraram na roleta e passaram e eu fiquei pra trás, na hora que eu fui passar na roleta abriram e viram aquele dinheirão me brecaram. Aí eu gritei: “Ei, ei, ei. Paulo Dantas.” Aí voltaram. “O que é?” “ Estão me brecando aqui, pô” Aí nós provamos que éramos do Flamengo e que o dinheiro era da renda, aí, deixaram eu passar (risos). E um outro caso interessante dessa excursão foi um dia que nós estávamos em Firenze, na Itália, e o doutor Célio Cotecchia, que era médico do Flamengo, ele disse: “Farah, eu vou à Roma, que eu tenho que resolver um negócio lá de Medicina, pegar uns remédios, umas coisas, você quer ir comigo?” Era meu dia de folga e falei:” Vamos embora”, aí fomos. Chegamos em Roma, ele disse:” Poxa, meu sonho era conhecer o Vaticano, vamos até lá?”  “Vamos”,  aí fomos ao Vaticano. Quando chegamos três horas da tarde, não tinha missa, não tinha nada e o Vaticano parecia uma feira hippie, cheio de gente assim, aqueles grupos, aí nós entramos “Pô, que beleza”, aquela coisa e tal, falei: “Doutor Célio vamos tirar um retrato?” Ele falou: “Pô, não trouxe máquina” (palmas). “Eu também não trouxe, vamos ver se tem um lambe lambe lá fora” e fomos lá na escadaria da entrada e não tinha ninguém, eu falei: “Que coisa, como é que a gente vai...” Aí, me deu uma idéia e falei assim:” Vamos ver quem é que a gente consegue desse pessoal que está aí dentro da igreja”. Aí chega lá, um grupo assim, “A blá, blá, blá”, e americano, chegava em outro:” No, no, no”, japonês. Uma hora lá, eu vi um cara que ele disse assim:” Minha filha vamos tirar um retrato aqui ao pé desse altar.” Eu falei: “Esse é brasileiro, vamos lá”, aí cheguei e falei à ele: “Meu amigo, eu sou tesoureiro do Flamengo e o doutor Célio é o médico, nós não trouxemos máquina, estamos aqui numa aflição danada, o senhor permitiria tirar uma foto? Eu deixo o endereço e depois o senhor... ”“ Com o maior prazer.” A mulher dele disse: “Não, não vai tirar não porque nós ainda temos...” “Peraí minha filha, nós já tiramos mais de 40, não podemos ceder uma para os amigos?” Eu disse:” Muito obrigado”. “Onde é que vocês querem”?”Eu digo:” Na escadaria da entrada do Vaticano”, aí fomos lá para a escadaria e tiramos a foto, ele pegou (palmas) o meu endereço e disse assim:” Em uma semana eu lhe mando”. Demorou mais de um mês, nada de mandar, eu até esqueci. Um dia, eu estou em casa, vou ver a correspondência, Receita Federal, Brasília, Maurício José Farah, eu falei: “Meu Deus, eu não devo nada à Receita, quem faz meu Imposto de Renda é o contador do Flamengo, minha vida é um livro aberto, não tenho que esconder nada, nunca dei golpe em nada. Pô, Brasília, aí meu Deus, que merda, o que será isso? ”Quando eu abri, o cara era funcionário da Receita: “Desculpe não ter mandado a foto antes.” Me mandando a foto, aí foi um alívio (risos). Quer dizer... 

 

P/2 – Seu Farah, essas histórias parece que você está organizando um livro?

 

R – É.

 

P/2 – Que outras histórias assim, interessantes?

 

R – Mas se eu te contar todas as histórias depois o meu livro não vai ter...

 

P/2 – Pelo menos uma história (risos).

 

R – Hein?

 

P/2 – Como é a idéia do livro?

 

R – É um livro de histórias assim, que eu vivencie, de pessoas, por exemplo, vou dar uma: Nós tivemos uma vice-presidente social que era dona Virginia Goulart, está viva até hoje, é uma pessoa maravilhosa, filha do Walter Goulart que foi daquela primeira Copa do Mundo, o goleiro. Então, ela foi vice-presidente social e nós fazíamos os bailes na sede da praia, e eu trabalhava nos bailes, eu controlava a portaria e tal, anotava os funcionários e um convite dava direito a um cavalheiro e duas damas. Um dia, ela resolveu sustar, ela disse assim: “Não, cavalheiro vai ter direito ao convite com uma dama, nada de duas damas”. Eu falei: “Virgínia, isso não vai dar certo. Porque trazendo duas damas, uma é dele e uma pro avanço, o baile fica bonito”. “Não, mas não quero não”, e cortou.  Óh, fracassou, mas ela teve a virtude de, um mês depois, ela ver que eu estava com a razão porque o cara levava a namorada e levava uma amiga, quem estava sozinho lá tirava pra dançar e coisa e tal. Uma outra historinha também, por exemplo, eu digo sempre que eu não sei se é verdade ou é brincadeira. O Isaac Zukerman que era um jornalista, ele foi diretor social do Ari Barroso, que foi vice-presidente social.  Um dia, chegou aqui na Gávea e o Zukerman disse assim: “Se eu for presidente do Flamengo um dia eu vou demolir a metade dessa arquibancada, vou aproveitar o cimento todo e vou fechar.” Se ele falou isso de brincando ou de verdade eu não sei (risos), mas como é que ai aproveitar o cimento? (risos) Aí eu digo assim: se ele falou brincando ou de verdade, eu não sei. Então, são historinhas assim que eu vivencie. É muita coisa aí.

 

P/1 – Parece que você fez alguma coisa em rádio?

 

R – Ah, sim. Eu tive um programa chamado Gol do Flamengo, o programa era na rádio Continental. Eu tenho até hoje mais de mil envelopes de pessoas que escreviam para o programa guardado no meu acervo. Então, o programa era toda sexta feira, das oito às nove da noite. Como era o programa? O programa, o locutor da rádio abria o programa assim, já era gravação - “E neste exato momento, a rádio Continental do Rio de Janeiro, passa a apresentar o programa Golllllllllllllllllllll do Flamengooooooooooo Ahhhhhhhhhhh”, era o locutor, aí ele dizia: “Produção e apresentação de Maurício José Farah”, aí eu entrava: “Boa noite galera rubro negra. Estamos mais uma vez para apresentar o programa Gol do Flamengo”, o programa era um sucesso, por quê? Porque o programa, eu fazia primeiro a abertura do programa, cumprimentava a nação rubro negra e tal, e depois jogava um assunto que estava em discussão naquela semana. Vamos dizer: “Flamengo vai contratar o Juquinha?" Não vai contratar o Juquinha? O Juquinha vai ser emprestado? O Juquinha não quer vir pro Flamengo?”  Então, estava aquele semana de turbulência, eu pegava o Veiga Brito, que era o presidente do Flamengo, “E agora vamos entrevistar o presidente Veiga Brito. Presidente, o que o Senhor tem a dizer sobre o Juquinha? Ele vai ser contratado ou não vai?”  “Não Farah, isso é especulação. O Juquinha não vai ser contratado, tá, tá, tá, tá.” Então, o presidente matava um assunto que estava nos jornais todos.  Aí entrava o patrocinador, que eu acho que era a cachaça Tatuzinho, quem era o dono da Tatuzinho? O representante no Rio de Janeiro, acho que era de  Campinas, não sei de onde era o Fadel Fadel, então, o senhor Fadel Fadel me deu o patrocínio, então, eram 500 mil réis por mês: 250 pra mim, 250 pra rádio, só que eu não recebi nem um réis, porque eu  fiz o programa um ano e não recebi. Segundo bloco entrava a propaganda Tatuzinho e “Agora vamos focalizar o esporte amador do Flamengo, aqui está o Buck do remo: “Buck, vocês ganharam essa semana a regata? Me conta aí.” Pá, pá, pá. E o Buck tchu, tchu, tchu, aí entrava a cachaça Tatuzinho. “E agora vamos responder algumas cartas: Seu fulano de tal quer saber como entrar pra sócio. O senhor tem que comparecer na secretaria, preenche uma proposta, junta duas fotos 3x4 e tal, pá, pá, pá e vai pagar tanto por mês, tem direito a sua esposa, seus filhos até 20 anos, as suas filhas enquanto solteiras”, explicava tudo.  E tinha um outro bloco de um sorteio que eu fazia das cartas remetidas, eu embolava aquilo e tal, jogava pra cima e tal: “Fulano de tal do Meier, ganhou uma bandeira do Flamengo, o outro ganhou uma camisa”, o programa era um sucesso.  Depois de um ano eu resolvi parar, parei com o programa e um dia eu encontrei com o Jorge Curi no Maracanã, e o Jorge Curi disse para mim assim: “Pô Farah, o que houve com aquele programa? Tão bom. Eu assistia”.  Eu falei: “Sabe o que é um ano trabalhando não estava recebendo nada e resolvi dar uma parada.” “Vamos levar para a rádio Nacional”.  Falei: “Vou pensar”, mas não levei não, mas foi um grande programa. 

 

P/1 – Você tem alguma fita guardada, dele?

 

R – Não. Não tenho fita não, não. A única coisa que eu guardei foram as cartas dos caras que mandavam.

 

P/1 – Bem seu Farah, nós estamos chegando aí ao final dessa nossa entrevista e antes de encerrarmos eu queria ver se tem algum assunto ainda relacionado ao Flamengo que o senhor queira relatar?

 

R – Não, da minha parte, a única coisa que eu gostaria de deixar gravado é o seguinte: é que eu, como funcionário do Flamengo, aliás, também sou sócio proprietário. Em 1958, eu comprei um título de proprietário do Flamengo, o estatuto diz que o funcionário sendo sócio do clube durante o seu período de trabalho, ele não pode usar a parte social do clube, mas, por exemplo, eu trabalho das nove ao meio dia e das quatro às sete e meia, se eu, às duas horas, quiser tomar um banho de piscina, eu sócio proprietário, se tiver um baile às 11 horas da noite é o sócio que está, mas eu nunca frequentei e uso mais a parte de funcionário, mas o que eu quero dizer pra finalizar é o seguinte: sempre na minha vida dentro do Flamengo, eu tive um lema, o meu lema é ser fiel ao poder constituído do primeiro ao último dia, então eu fui Marcio Braga, fui Hélio Maurício, fui André Richer, fui Veiga Brito, fui Dario de Melo Pinto, fui.. Hoje eu sou Edmundo dos Santos Silva até o último dia, então, eu como empregado, como funcionário do clube eu sou fiel à diretoria. Eu morro, mas não deixo (palmas) de fazer a coisa certinha (palmas), porque seja o Joaquim, o Manuel, o Antônio, o presidente eu tenho que corresponder e isso eu não abro mão de jeito nenhum, graças a Deus, o meu prestígio e o meu nome dentro do Flamengo é esse: de cara (palmas) duro, chato (palmas), às vezes algum: “Pô, você é cheio de prerrogativas, cheio de burocracia.”“ Sou sim, porque eu não quero que amanhã (batida) esse documento volte, o Conselho Fiscal devolva dizendo que está incorreto. Se você não trouxer direitinho, eu não te atendo.” Então, eu sou assim, graças a Deus. 

 

P/1 – Seu Farah, o que significa ser rubro negro?

 

R – Ser rubro negro é ser brasileiro. O cara que é rubro negro é uma dádiva de Deus, porque primeiro que as cores são bonitas, vermelho e preto chama a atenção logo. Você vê agora, essa diretoria deu uma virada, porque a Gávea estava meio abandonada.  Você vê que hoje em dia a Gávea está limpa, o muro está todo pintado de vermelho e preto, então, você passa ali, não só eu, todos os que passam ali tem uma satisfação, é impressionante. Ante ontem tinha uma fila, você vai pensar que é um exagero, de mais de 400 garotos para se inscrever nas escolinhas, 400 garotos, a fila... Porque é na bilheteria que tem a gradezinha, o funcionário está do lado de dentro e dá um cartãozinho. A fila ia da bilheteria, lá em frente ao CIEP até quase aqui na esquina da Cobal, todo mundo querendo jogar futebol no Flamengo (risos), uma loucura. 

 

P/1 – Seu Farah, então pra finalizar eu queria que o senhor falasse como o senhor se sente dando o seu depoimento para o Museu Histórico do Flamengo. __________ trajetória faça parte da história do Flamengo. 

 

R – Olha, pra mim foi uma honra muito grande. Quando vocês me ligaram honestamente eu vou dizer aqui, eu pensei que fosse qualquer um que estivesse ligando, entendeu? Porque isso já aconteceu várias vezes, de várias pessoas ligarem para se aproveitarem disso e daquilo, entendeu? ”Eu vou aí, quero uma história disso, quero...” Mas quando eu senti firmeza, eu com o maior prazer eu aceitei o convite, estou realmente honrado, pra mim é uma honra, porque um reconhecimento, às vezes, de um trabalho é muito gratificante, é melhor do que o dinheiro pra mim. Eu sou sentimental, eu sou um cara muito humano, então, pra mim, me tratando bem, fazendo uma honraria como vocês me fizeram hoje, pra mim é nota 10.  Eu agradeço de coração e uma vez Flamengo, sempre Flamengo. 

 

P/1 – Então, muito obrigado.



[Fim da Entrevista]




 

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