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História

Ser psicóloga: uma certeza da vida de Clarissa

História de: Clarissa de Toledo Temer Lulia
Autor: Virginia Toledo
Publicado em: 17/04/2019

Sinopse

Clarissa sempre foi muito incomodada com as desigualdades que o mundo lhe mostrou. Sempre muito questionadora e curiosa, e nada introspectiva. Envolveu-se em trabalho voluntário na juventude e dali em diante nunca mais deixou de pensar no próximo.

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História completa

Eu tenho mais lembranças na chácara da minha família no interior de São Paulo do que de São Paulo mesmo; eu tenho muitas em São Paulo, óbvio, mas acho que minhas lembranças mais marcantes são dessa época, quer dizer, dessas tantas vezes que nós íamos quase todo final de semana para a fazenda em Tietê, que fica no interior de São Paulo, que é onde meu pai nasceu. Meus avós vieram do Líbano e se instalaram no Tietê, então. Todos eles cresceram nessa chácara e, na verdade, essa chácara existe até hoje, está caindo aos pedaços, mas é a casa onde meu pai nasceu, é a casa onde eles viveram. E nós íamos todos para lá, e todos eram todos mesmo, é uma família numerosa, uns sete irmãos e com filhos, e como tem uma grande diferença de idade. Eu tenho primos de primeiro grau que têm idade próxima à idade dos meus pais, que na verdade os meus pares eram com esses filhos desses primos, e eram momentos muitos gostosos. Inclusive muito momentos eu passei com as minhas irmãs. Eu tenho duas, hoje agora depois de adulta eu tenho mais irmãos, do lado do meu pai e do lado da minha mãe, mas, com quem eu cresci, são duas irmãs mais velhas, eu sou caçula. E lá na chácara especialmente, engraçado, lá eu me lembro demais da minha relação com meus primos do que com as minhas irmãs, por que a gente faz os pares, então as irmãs ficavam com as primas do tamanho delas a gente brincava todo mundo junto, mas eu me lembro de perto das primas da minha idade.

 

A minha primeira escola, era um lugar em que eu gostava bastante, tinha uma coisa curiosa, que a gente cantava toda sexta-feira o hino do Brasil, o hino de São Paulo, e o hino da escola, como era uma escola francesa tinha um trecho em que falávamos umas palavras em francês Mas, eu mudei de escola, meus pais me mudaram de escola, e eu lamentei por isso, por não viver essa passagem mas, depois eu gostei muito da escola para onde fui também, foi uma mudança feliz. Eu tinha duas grandes amigas nessa escola: a Larissa, que constantemente o mesmo ano que eu, que não é um nome comum como Clarissa, e eu tinha na minha classe uma Clarissa e a gente era muito amiga; e a Cristiane, a Cris além de tudo ela era filha de uma professora descola, não foi nossa professora, pois, a Cris estava na nossa sala, mas, foi professora da minha irmã, engraçado a gente vai falando e vêm vindo os detalhes. E a irmã mais caçula dela, virou Luciana em homenagem a minha irmã que foi aluna da mãe dela, isso mantinha um vínculo afetuoso, importante para as famílias. Então, essas eram minhas duas grandes amigas, eu me lembro de no último dia da escola, eu chegava a casa ficava chorando lendo a carta que a Cris tinha me escrito, e a tia Nelice que era professora, veio me agradece pela amiga que eu tinha sido para amiga dela. Eu acho que foi o primeiro momento da minha vida que eu vi uma separação, assim, um ritual de passagem, um despedir-se. E quando eu entrei na outra escola eu fiquei muito encantada, porque fui para uma escola muito maior, muito mais moderna, em certo sentido, aliás, muito mais moderna mesmo em relação a essa escola e a minha irmã mais velha já estudava lá, só que minha irmã estava no colegial e então entramos eu e minha irmã do meio. No começo, foi um começo difícil, porque cheguei lá, já tinha as panelas, era uma escola muito mais exigente no ponto de vista de conteúdo. Eu fui para uma nova escola, o Santa Cruz, na quinta série, os meus pais se separaram, em agosto desse ano, e no ano seguinte nos mudamos de casa, fomos para uma casa perto do Santa Cruz, no Alto de Pinheiros, e na época, ainda é, mas época era um bairro muito residencial, muito tranquilo, e mudamos para o lado da escola, então, acho que nesse ano, ia a pé para a escola, eu tinha a chave de casa, imagina, com 12 anos já ter a chave de casa, por que ia, e voltava, às vezes eu ia com minhas irmãs às vezes os horários não batiam, e quando finalmente, eu acho que me integrei, foi uma fase muito boa, mas, muito boa. E eu me lembro de uma coisa muito gostosa também, que tinha piscina na minha casa, então isso era uma delícia, e algumas outras amigas tinham piscina também, nas casas, então férias, a gente ia para piscina de uma, para piscina da outra.

 

E eu me lembro da primeira férias que passe morando nessa casa, em julho, por que a gente mudou, eu acho que a gente mudou em julho, eu acho que a gente fez a mudança em julho mesmo, e eu não me lembro de viajar de ter viajado muito nessas férias, e eu fiquei em casa curtindo essa casa nova, curtindo essa sensação, antes eu morava no Pacaembu que também era um bairro tranquilo, mas jamais tinha essa coisa assim de ser plano, as árvores e minha casa era em frente a uma praça linda, e me lembro dessa sensação, e me lembro de tomar um gosto pela leitura nessa época, assim, muito marcante, me lembro de alguns livros que li, naquelas férias. E nessa época comecei a ler muito e é interessante por que me lembro de uma tranquilidade, de uma paz, de uma possibilidade de estar sozinha, com meus livros, com minha casa nova, curtindo aquela praça, então, eu ia ler na praça, ficava lá. Que eu não sei se tenho tanto hoje na vida como eu tive nessa época. Eu sempre fui uma menina muito sonhadora. Nunca fui introspectiva, acho que eu nunca fui introspectiva, nem deprimida eu fico introspectiva, acho que realmente isso não combina comigo. Eu era bem sociável, sempre fui de ter muitos amigos.

 

Voltando a falar da escola, tinha um dia integral, era meio período, a gente estudava de manhã, mas cada ano passava um dia inteiro na escola. Eu até poderia voltar para almoçar em casa, mas, eu preferia ficar na escola. E eu me lembro desses momentos do intervalo, do almoço e, às vezes, também na hora do recreio, em que eu ficava meio perdida, ali, naquele pátio, e então, tinha uma vigilante, a tia Ida, que era uma senhora muito maternal, muito simpática, e a tia Ida, também, era dona da lojinha, uma portinha, que era uma coisa assim que a gente comprava coisas de emergência, uma borracha, um lápis... E, então, eu ficava almoçando com a tia Ida, eu e ela, ficava, eu tinha vergonha de contar para minha mãe, ou para minhas irmãs, coisas assim, eu achava que tinha que dizer que estava tudo super. Bem, sabe? Que eu estava me dando super bem. Só que na verdade eu ficava com a tia Ida, e ela ficava cuidando mesmo de mim.

 

Próximo a esse período meus pais se separaram, meu pai se mudou para Brasília, então, o tempo com ele, era os finais de semana, tanto que na minha lembrança, a gente, na época, acho que passava mais finais de semana com ele do que com a minha mãe, por que como ele ficava de segunda a sexta fora, acho que eles tinham essa flexibilidade. E a gente ia muito para o interior, muito. Então, na frente da chácara, tinha um banquinho, tem ainda, um banquinho de concreto, super simples que fica ali na frente, e o meu tio mais velho, que era o único tio que ficou, permaneceu morando no Tietê, todos vieram para São Paulo, ele, esse tio na verdade ele foi o pai do meu pai, que meu pai é o caçula , então, o meu avô paterno, por exemplo, eu não conheci, minha avó materna morreu quando eu tinha 6 anos, então, eu acho que as figuras de avô ou de avó para mim, assim como, acho foram figuras maternas e paternas para meus pais foram esses dois tios, a única mulher, que teve 3 filhos, e esse tio que são inclusive, os únicos dois que nasceram no Líbano, que vieram do Líbano para cá. E ele era uma figura curiosa, assim, quando apareceu aquela novela Roque Santeiro, ele era para mim o senhorzinho malta, caipira, chapéu, ele era o chefe da família. Bigode, cara bem simples, ele acordava, tomava café cinco horas da manhã, ele almoçava às 11, jantava às 6 e 8 horas ele ia dormir, ele chegava com o leite da fazenda dele, do sítio dele, trazia para gente, e no fim do dia ele gostava de sentar lá no banquinho, e às vezes ele estava lá e dava para ver o pôr do sol bonito, e vem cá senta aqui com o tio, agora pensando, acho que me sentia meio honrada pelo meu tio, e sentava lá e ficava batendo papo com ele vendo o pôr do sol. E nesse dia da meditação foi essa imagem que me veio mais muito forte.

 

Dessa época, muitas coisas que me lembro são machistas. Tinha uma coisa assim que as mulheres ficavam meio na cozinha, ou na piscina tomando sol, os homens ficavam no quiosque, um quiosque Zinho que tem lá na mesa bebendo uísque. E um dia meu pai falou para mim, não meu tio falou para mim, eu estava lá, pegando uma cenourinha, que eles estavam comendo, e falou “vai passa um café para o tio”, passar café? Eu falei “tio eu não sei passar café” “como você não sabe fazer café? Vai fazer um café para o tio” falei “eu não vou fazer café coisa nenhuma” e meu pai que nunca foi autoritário assim comigo, sempre foi, bem tranquilo, eu acho que ele se vi lá, os tios falando, falou “vai lá, vi lá passa um café para gente” falei “pai, eu não quero ir” “mas, o tio está te pedindo vai lá passar um café” e fui peguei o café, aliás mentira, acho que não passei o café, pediram para pegar um café, ou já passava, não lembro, o que fiz foi o seguinte, ao invés de pôr açúcar coloquei sal no café, coloquei sal no café, e entreguei o café e corri para piscina, eu vi, e achava o que é isso, cuspindo o café, era muito engraçado. E depois, quando a gente era mais velha, a gente ficava muito sozinha lá, assim, a partir do 17, 18 anos a gente ficava na chácara, levava as amigas mas, a gente ficava sozinha, tem uma caseira lá, está lá desde 88, desde que eu tenho 14 anos, então, minha mãe monitorava as coisas com essa caseira, mas era uma deliciosa liberdade. Então, a gente passava a noite fora, ia para o baile que acabava 3:00 da manhã 4:00 da manhã, e às vezes a gente voltava de manhã para casa, só que era uma encrenca voltar de manhã, por que o tio já estava lá, sempre.

 

Voltando a falar sobre a separação dos meus pais, lembro-me que eu fui fazer terapia, e foi um processo superbacana, fiquei uns sete anos com ela, adolescência toda, fiz a escolha pela psicologia nessa terapia mas, eu ficava olhando para ela, e me perguntava como ela aguenta? Entrava, depois que saia uma pessoa, eu saía e entrava outra, ela fica ouvindo problemas dos outros o dia inteiro, um inferno isso, então a minha primeira reação, primeira relação com a profissão, foi uma relação assim, pela negação, isso eu não quero para mim, Deus me livre, mas, durante a escola eu comecei, eu sempre gostei muito de criança, desde que eu era criança, gostava dos menorzinhos, e comecei a fazer um trabalho voluntário, que a escola propiciava na favela e Jaguaré, então, nós íamos, isso no ginásio, a gente ia dar aula para as crianças, da favela de Jaguaré, acho que daí que começou alguma coisa em mim, a respeito de ser professora, que voltou, que criança você brinca de ser professora, então, nessa época voltou. E no colegial, eu sempre fui má aluna, eu não gostava de estudar, vivia pendurada, final de ano eu sempre pegava recuperação. E no segundo colegial eu repeti, e finalmente eu bombei. E quando fui fazer, olha que lembrança interessante foi com a Cau, quando eu fui fazer o segundo ano, a Cau, a gente se conhecia assim, não éramos amigas, mas tinha essa história que os nossos pais tinham se conhecido quando eram crianças, e ela foi super acolhedora falou para mim, eu vou falar com você não caiu na minha classe, mas eu vou falar com o diretor ou com o coordenador que hoje é o diretor da escola, para você ficar na minha classe. E quando a gente foi pedir, ele falou “de jeito nenhum, que bom que a gente colocou ela em uma classe que a ela não conhece ninguém mesmo, que é para ela parar de conversar e ir estudar” então não consegui ir para a classe da Cau, mas tinha uma optativa, você podia fazer uma optativa durante o ano, chama-se introdução à humanidade, e eu e a Cal fomos fazer juntas, eu fui fazer e a Cal também, e, bom, vamos fazer então, junta se no fim do ano, tinha que fazer um trabalho apresentando as várias profissões ligadas à área de humanas, cada grupo apresenta um, e eu era e a Cal escolhemos apresentar psicologia, então, precisamos estudar um pouco, investigar um pouco.

 

Chego no terceiro colegial tive que fazer outra aula crítica de arte, e essa professora, professora fantástica, ela era muito ligada em psicanálise, a gente assistia filmes, ouvia obras de artes, e ela fazia leituras psicanalíticas onde ela foi introduzindo um pouco de Freud para gente nessa época. E eu continuava fazendo esse trabalho na favela, e gostava de criança, então, fui fazer uma orientação vocacional com uma coordenadora, um orientador que tinha lá no Santa Cruz e eu lembro que falei, ou ela me disse, eu estaria entre três profissões pedagogia, serviço social ou psicologia. E ela me aconselhou a fazer psicologia, por que eu acho que na psicologia você vai poder se aproximar mais dessas duas áreas do que ao contrário. E é muito interessante, porque, na faculdade, quando eu estava na faculdade eu fui ser professora de educação infantil, durante metade da faculdade, eu fazia faculdade a tarde e à noite, de manhã eu dava aula para uma escola, que foi um período felicíssimo da minha vida, eu amei ser professora... Me lembro até hoje o nome de todos os meus aluninhos, de todos, eu lembro nome e sobrenome de todos. Mas eu me lembro de um, imagina a coincidência, a mãe dele a psicanalista trabalha com uma amiga minha, e ele virou psicólogo, e ele era um menino engraçadíssimo, E curiosamente meus dois filhos têm nomes de dois aluninhos meus, da época que fui professora André e Tereza, esse grupinho era uma delícia, são todos pequenininhos assim, fofos, mas, o André e a Tereza foram com quem eu tive uma relação especial.

 

Já na faculdade, eu comecei fazer trabalho voluntário em um abrigo porque a minha irmã mais velha, era delegada da mulher, então ela chegou para mim e falou “Ca, eu estou numa situação super difícil, quero que você me ajude, eu estou investigando um caso, em um abrigo, de abuso sexual do diretor do abrigo, com as crianças” Eu falei “vou lá conhecer com você”, a hora que eu entrei no abrigo, eu tive uma sensação muito impactante, por que, como se eu conhecesse o lugar, como se conhecesse as crianças. E comecei a ir duas vezes por semana. Chamei uma amiga que não era da área da psicologia, ela fazia arquitetura, mas, que se interessava em fazer um trabalho social também, a gente ia duas vezes por semana. Eu comecei fazendo, reforço escolar com as crianças. Eu percebi, que eles não sabiam a idade deles, nenhuma criancinha, nem os adolescentes sabiam a idade deles, e por conta disso, comecei a mexer nos prontuários, para saber a data dos aniversários e contar para essas crianças que vai fazer 14 anos, você nasceu tal dia, aí, eu fui descobrindo coisas bizarras como por exemplo, o Leandro, chamava Willian, mas por quê? “ah, não, que quando ele chegou aqui à gente achou que ele era a cara do Leandro cantor sertanejo a gente começou a o chamar de Leandro” começava a pensar com minha cabeça ali, mas, mudar o nome da criança?

 

Foi na faculdade que eu voltei a conviver com a Claudia. A gente não era da mesma classe. Mas no último ano a gente ficou no mesmo grupo de supervisão de estágio. Que eu fiz um estágio no abrigo e ela eu acho que ela não fez no abrigo, ela fez numa creche ou numa escola, não me lembro. Mas a gente estava nesse grupo de discussão juntas, que é um momento superimportante da formação, porque é o momento em que você escolhe os núcleos que você quer fazer, que você já vai meio se direcionando para alguma área. Quando eu voltei da França, a (Cau) falou para mim, falou: “a gente está fazendo um grupo de supervisão clínica com a Renata”, “você não quer entrar?”. Eu falei: “ah, eu quero”. A Cau estava começando o Fazendo Minha História. E eu, paralelamente, entrei no Semear com a Renata, comecei a atender criança e adolescente de abrigo, que a Cau também atendia já. E aí a gente discutia muito diversas questões do Semear e ela levava para a supervisão o projeto, o Fazendo Minha História, que trabalha com histórias de vida. E foi aí que eu também comecei a me envolver nesse projeto. Aí entre muitas idas e vindas, a Claudia falou “A gente precisa ter mais programas”. E a gente teve essa ideia de fazer um instituto que fosse um guarda-chuva para várias atuações, vários programas. Então éramos em quatro na época. A Lola cuidava do programa de formações de educadores, a (Cau) do que hoje é o Fazendo Minha História, a Rê do que hoje é o Contato e eu do que foi o Ato Vivo, que era um programa de oficinas de teatro para os adolescentes nos abrigos. Depois de um tempo eu não assumi mais o programa, porque depois o Fazendo História é um filho, eu fui me afastando um pouco, fui saindo um pouco e fazendo menos coisa. Então foi isso. Depois disso, fiquei dando supervisão para o Com Tato e, também como conselheira, participando das reuniões de conselho, sentando para conversar com as coordenadoras. Um dia a Bel, a atual diretora, me liga e fala: “Cla, eu estou aqui com um pepino, porque foi aprovado um programa que nós mandamos para um investidor, e temos que executar. É de acolhimento familiar Mas eu não podia ser uma coordenadora do programa, porque eu não tenho tempo hábil para fazer isso. Então a gente contratou uma coordenadora e falamos: bom, então eu sou supervisora. E aí comecei a dar supervisão para famílias acolhedoras, e a partir daí eu voltei a uma inserção mais intensa no instituto.

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