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História

Ser profissional, mas ser humana em primeiro lugar

História de: Érica Paula Fávero
Autor:
Publicado em: 15/06/2020

Sinopse

Origem italiana da família. Infância e o incentivo que recebeu para jogar vôlei durante a adolescência. A ida para os Estados Unidos com uma bolsa de estudos. Encontro com a religiosidade. Missão como missionária na África do Sul. Volta para o Brasil e readaptação. Começou a dar aulas de língua inglesa. Implementação do projeto social com as comunidades de Capuava, Juta e Santa Maria. Criação do projeto Comunidade Ecofashion. Participação na Virada Sustentável. Atividades nas horas de lazer. Engajamento na causa de proteção aos animais.

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História completa

 

 

P/1 – Bom, Érica, primeiro eu queria agradecer por você ter vindo até aqui, e para começarmos, gostaria que deixasse registrado o seu nome completo, onde você nasceu e a sua data de nascimento.

 

R – Meu nome é Érica Paula Fávaro, eu nasci em São Bernardo do Campo, no dia 14 de abril de 1975.

 

P/1 – E qual era o nome dos seus pais?

 

R – O meu pai é Décio Fávero e a minha mãe é Sueli de La Páscoa Fávero.

 

P/1 – E o nome dos seus avós?

 

R – Da parte da minha mãe é Julia Piron e Lúcio Piron, da parte do meu pai é Silvia Delavechia e Francisco Delavechia, somos todos italianos, descendentes.

 

P/1 – Era isso que eu ia te perguntar, você pode falar um pouquinho da origem da família?

 

R – O que eu sei é que os bisavós da minha mãe vieram para o Brasil nos navios. Então, aconteceram os casamentos. O legal é que a família não se misturou, a descendência ficou toda italiana. O meu pai é filho de netos italianos, a minha mãe é filha de netos italianos, de ambas as partes. Eu brinco que sou 100% descendente de italianos, nesse Brasil que tem uma mistura louca, bem diversificada. Eu já não casei com um italiano 100%, teve uma mistura. Mas a minha família tem essa descendência. Acredito que seja do norte da Itália, mais para o norte, porque somos todos branquinhos, essa cor mais clara. Todo mundo me pergunta se sou descendente de italianos da região da norte, mas eu não tenho certeza da cidade.

 

P/1 – E você sabe se os seus avós ou os seus bisavós se estabeleceram em São Bernardo?

 

R – A localização deles era no interior de São Paulo, em Salto, perto de Itu. Toda a família é de lá, tanto da parte da minha mãe como da parte do meu pai. Depois, por questões de trabalho, o pai da minha mãe veio para São Paulo, foi morar no Ipiranga. Inclusive a casa dele é uma daquelas casas enormes que tem no Ipiranga, que parece que estão tentando fazer um patrimônio tombado. Mas a minha mãe foi para o interior visitar os tios e conheceu o meu pai lá mesmo. Eles se casaram em Salto. A minha família continua lá. Eu não sei se eu vou lembrar o nome, mas tem uma fábrica que existe lá em Salto, que os tios da minha mãe trabalharam todos nessa fábrica, eles já deram muitas entrevistas porque a tia da minha mãe tem 90 anos e ainda está viva. Ela é muito procurada para dar entrevistas em revistas, para falar um pouco dessa descendência, dessa fábrica que eles trabalharam, eu não vou lembrar o nome da fábrica agora, mas depois eu posso passar essa informação.

 

P/1 – E você chegou a conviver com os seus avós?

 

R – Com os meus avós sim, dos meus bisavós tenho raras lembranças, eu era muito pequena, lembro do sotaque italiano, algumas vezes vem alguma coisinha na mente, mas convivo com os tios da minha mãe, que ainda são vivos. É uma família que dura bastante, tem uma de 90, uma de 85, é bem legal. Convivi bem sim com os meus avós, lembro bem do meu avô, lembro que ele jogava bocha, gostava de jogar essas coisas... A minha avó morreu recentemente. Então, convivi com os meus avós por parte de pai, que morreram mais cedo, a minha avó morreu de um câncer, foi embora mais cedo. Ela era a minha madrinha, eu tinha muita afinidade, tenho saudades. 

 

P/1 – E você sabe qual era a atividade dos seus avós na região?

 

R – Sim, o meu avô materno abriu uma oficina no fundo do quintal dessa casa que é bem grande. Ele mexia com torno, me lembro que ele furava aquele material que vai embaixo da sapatilha para o sapateado, achava super legal aquilo. Ele mexia com torno, com essas coisas. A oficina era no fundo do quintal, inclusive, ficou para o meu tio como herança. Ele continuou trabalhando por um tempo, até que aconteceu um acidente e ele fechou a oficina. O meu avô, por parte de pai, trabalhava numa pedreira em Salto. Quando você vai para Salto, na estrada tem os morros, é bem gostoso o cheiro do mato. Ele fazia os paralelepípedos, que na época todas as cidades tinham, o meu avô cortava as pedras para fazer esses paralelepípedos, era um trabalho bem difícil, segundo o meu pai falava, não era fácil, e a minha avó era dona de casa. A família tinha muitos filhos: meu pai tinha seis irmãos, para a gente hoje é bastante, hoje são dois e está bom. A minha mãe tem três irmãos, a minha avó nunca trabalhou, ela também era do lar.

 

P/1 – Você disse que seus pais se conheceram em Salto, mas você sabe como eles se conheceram, como foi essa história?


R – Sei, foi bem legal. Eles estavam em um clube, um clube com piscina. Era um dia de sol, acho que era época de carnaval, não me lembro bem, e a minha mãe estava nadando e disse que o meu pai foi dar um pulo, um salto na piscina, e caiu em cima da cabeça dela. Não sabemos se foi proposital ou não. Mas eles começaram a conversar. Eles não tiveram um relacionamento, talvez só um namorico ali, que ficou por isso mesmo. Ela deu o endereço dela, de São Paulo, porque ela morava em São Paulo, mas passava todas as férias na casa das tias em Salto. Ela me contou que ele veio visitá-la, mas no meio disso tudo teve um desentendimento, não deu certo, e mais para frente eles se cruzaram novamente. Não sei se eu posso falar que foi o destino, mas aconteceu, eles acabaram namorando. Ele foi morar em São Paulo, numa pensão, era uma vida muito difícil para um moço simples, do interior, que tinha que ajudar a família. Sei que a minha avó materna ajudou muito ele, sempre convidando para comer em casa, eles deram apoio. Daí eu acho que foi acontecendo e se casaram.

 

P/1 – E você tem irmãos?

 

R – Tenho, sou eu e mais uma irmã, ela é mais velha. Ficou só nós duas mesmo. A minha mãe diz que eu não fui planejada, meu pai não queria, ela insistiu e eu acabei nascendo. Ele queria um homem, mas não teve jeito, veio outra mulher.

 

P/1– Conta um pouquinho sobre a sua infância, como era a casa que você morava?

 

R – Eu sei que os meus pais pegaram um terreno, na época, esses lotes que começavam, há muitos anos atrás. Eles moravam numa casinha no Ipiranga. Sei que em São Caetano havia esses lotes, e como a minha mãe é muito raçuda, ela teve muita iniciativa. Ela falou: “Eu quero comprar um lote lá em São Caetano.” Não tinham dinheiro, mas a minha avó era aquela senhorinha que ia à feira e guardava 50% do dinheiro escondido do marido para ajudar os filhos no futuro. Quando a minha mãe pediu dinheiro emprestado, o meu avô não quis emprestar, foi aquela situação, mas a minha avó tinha um dinheirinho lá. A minha mãe sempre fala que foi graças à mãe dela, depois não sei se o meu avô começou a ajudar. Viu como era uma coisa legal, mas era tudo... Não tinha asfalto, era tudo loteamento, eles construíram e com o tempo foi crescendo. Hoje é um bairro muito bom, é um bairro bem legal, as casas são bem organizadas. São Caetano é uma cidade boa para se morar. Eles continuam lá, a casa já foi reformada várias vezes, mas eu me lembro como era antigamente: o quintal era vermelho, aquela tinta vermelha, porque não tinha piso ainda, a minha mãe criava coelhinhos, que nós adorávamos. Só podia ter esse bichinho em casa, coelhinho. Foi uma infância bem legal, tinha uma balança no quintal para gente, tinha velotrol, essas coisas eu lembro bem. Eu era a menorzinha, são quatro anos de diferença para a minha irmã. Comecei a ir ao parquinho, a minha irmã ia me buscar no parquinho, foi uma coisa que me marcou muito. De lá íamos para o clube, tinha piscina, íamos nadar, ela cuidava de mim. Nos finais de semana, a minha mãe nos levava nesse clube para fazer piquenique, foi uma infância bem tranquila, bem gostosa. Meu pai estava sempre trabalhando. Teve uma época em que o meu pai e a minha mãe resolveram comprar um terreninho na praia, o meu avô faleceu, ficou uma herança pequena, foi mal dividida, não sei, mas eles investiram num terreno em Itanhaém, Gaivota, e a construção da casa foi um divertimento para mim, porque era uma dificuldade, mas uma criança não vê como é a dificuldade. Nós íamos de ônibus, tinha que andar por horas da pista até a casa, para chegar. O meu pai não podia ir, ele tinha que ficar trabalhando. Não tinha janela na casa, tínhamos que dormir com o pau de macarrão embaixo do travesseiro. Eram umas coisas assim, bem legais. Não tinha banheiro, tinha que sair correndo e ir à casa do vizinho. Foi bem divertido, foi uma infância maravilhosa ter uma casa na praia. Eu gostava de jogar vôlei, com 11 anos comecei a ir para um clube, eu era muito alta, eu sou muito alta, não era, mas para quem tem 11 anos, ter 1,74 de altura, pronto, eu era um fenômeno em São Paulo. Agora tem muita mulher alta, isso é muito divulgado, mas antes não, eu até sofri um pouco de preconceito por ser alta, tive algumas dificuldades para comprar roupa, sapato. Mas hoje em dia é mais fácil, mas, na época, foi difícil, ficava com vergonha... Mas encontrei o clube, que é o São Caetano Esporte Clube, que investiu em mim, embora alta, tinha facilidade na coordenação motora, fui muito valorizada quando cheguei no clube. Nos primeiros anos deslanchei, era a revelação, esticava o braço e já fazia o bloqueio. As técnicas: “Nossa!” Participei de algumas seleções quando jovem, foi afunilando, e quando você vai chegando nas categorias adulto, juvenil, vai ficando muito difícil, e o meu psicológico não conseguiu aguentar a pressão. Tinha que parar de estudar para ficar treinando... Mas voltando no assunto da praia, vamos terminar o assunto da praia, como eu jogava um pouquinho de vôlei, ia para a praia dez horas da manhã, porque não acordava cedo, era férias, e ficava até sete horas da tarde. Minha mãe tinha que ir me buscar. Aquilo, para mim, marcou muito, tinha muitos amigos lá, foi ano após ano. Acho que não teve um ano, já estou com 37 anos, eu tinha 11 quando começamos a construir a casa lá, e nunca deixamos de ir nem um ano naquela casa. Meus amigos já não estão mais lá, já se casaram, já foram embora, não tem mais casa lá, mas a minha família continua. Agora não tenho ido, porque trabalho, mas quando não trabalhava ia e ficava um mês, dois meses e vinha embora chorando. Quando fiz 16 anos, dei uma festa lá com todos os meus amigos, a minha irmã também passou pelas mesmas coisas, então foi uma infância legal, muito boa, pelas condições que os meus pais... Embora o meu pai trabalhasse na Ford, um peão, trabalhava como mecânico de manutenção, os meus pais sempre foram muito bem organizados financeiramente, o pouco eles investiram para dar esse lazer para a gente. Nunca podíamos viajar, ir a um restaurante no final de semana, mas tínhamos a casinha na praia de final de ano. Foi uma coisa maravilhosa para mim e para a minha irmã, foi bem legal. Essa foi a minha infância, na praia com a minha irmã, com a minha mãe, com o meu pai, foi bem legal. E voltando um pouco na história do profissionalismo, do vôlei, comecei com nove e fui jogando, fui jogando. Tinha outra amiga minha que também era muito boa, ela era forte, chamávamos ela de Sandrão. Éramos as duas. Fomos até onde o técnico abraçou a gente, depois começaram a vir os convites para seleção, mesmo infanto-juvenil. Isso começa a mexer um pouco com a cabeça da gente, não sabemos se queremos sair do clube de origem, se não queremos, começa a vir a ajuda de custo, e acabei saindo do clube onde eu nasci. Não sei se foi muito bom, porque depois fiquei encostada no outro clube, já não era mais um destaque, porque eram as melhores e dentro das melhores já não era mais a melhor, fui caindo de produção, fui ficando lenta para a minha posição, porque uma mulher alta tem que ser muito bem trabalhada. Talvez não tivesse as características necessárias, e as portas se fecharam para mim quando virei adulta. Já não tinha onde jogar, ficava em clubinho, não conseguia passar para uma Superliga, e achei que já tinha se encerrado. É muito difícil você ainda jovem, tinha 18, 19 anos, você ter que trocar de vida, sabe? Não sabia fazer nada, só jogar vôlei, no meu colégio praticamente não fiz estágio, chegava, dava uma camiseta para a professora, ela me dava um ponto na nota, isso é verdade, porque eu ficava três meses em alojamentos para jogar pelo Brasil, em Sul-americanos. O vôlei me deu muitas condições de viagens, fui para o Chile, fui para alguns países, ainda nova, acho que com a seleção fui duas vezes para o Chile e viajei um pouco pelo Brasil, Paraná, alguns lugares. Mas estava muito difícil essa transição: “E agora, o que eu vou fazer? Vou entrar numa faculdade? Não vou mais jogar? Nossa, é muito difícil quando você é adolescente, e os meus pais não tinham essa coisa de perguntar, de saber, já não sabia mais o que fazer. Estava nos jogos universitários, já estava na faculdade, estava extremamente gorda, estava pesando quase cem quilos. Engordei nessa fase toda, nunca fui muito leve, sempre tive a estrutura muito grande, talvez por isso eu tenha ficado lenta e não tenha conseguido clubes. Estava lá, jogada, abandonada, quando uma amiga chegou para mim e falou que ela tinha recebido uma proposta para ir para os Estados Unidos. Eu arregalei o olhão em cima dela e disse: “Nossa, que legal!” Tinha acabado de terminar um relacionamento no meio dessa bagunça toda de vôlei, de faculdade, de confusão. Acabei optando por educação física, porque não sabia fazer mais nada. Tinha terminado esse relacionamento, meu primeiro amor, meu primeiro namorado, namorei três anos, mas eu sentia que não queria casar, queria algo a mais, então eu terminei. Estava sem saber o que fazer e a minha amiga falou: “Ah, vai vir uma técnica dos Estados Unidos para cá.” Eu pensei: “Nossa, Estados Unidos.” Mas achava que eu não tinha chance. Ela me passou o contato e eu liguei: “quando vier, o meu telefone está aqui.” Daí, comecei a brincar em casa: “eu vou para os Estados Unidos e tal.” E isso passou. Depois de um mês, me ligaram, era a técnica que estava no Brasil e queria me conhecer. Eu falei: “não, eu não quero, não vou largar os meus pais aqui e ir embora para outro país. Tem tanta coisa errada aí fora.” A minha irmã já tinha passado por uma experiência, a minha irmã trabalhava como modelo, ela é mais miudinha, mais magrinha, então ela foi para esse lado da moda, eu para o lado do esporte. A minha irmã foi para Espanha e caiu naquela coisa que todo mundo já ouviu falar um dia, da prostituição: ela teve que vender bebidas num bar, foi uma coisa bem difícil, mas conseguiu fugir do lugar onde ela estava, com as amigas, e ir para a casa de pessoas que as acolheram. Elas viveram três meses lá, até a passagem vencer e irem embora. Então meus pais se preocupavam muito com isso. Quando comecei a brincar que iria embora, senti que isso abalou a estrutura da minha família e falei: “eu não vou mais.” E passou. Numa semana, uma amiga me ligou e falou assim: “Érica, tem uma técnica aqui no Brasil.” Eu respondi: “Ah, eu tô sabendo.” “E ela me falou se eu não podia arrumar umas amigas, porque ela quer me ver jogar, só que eu preciso de umas seis pessoas para fazer uma brincadeira e ela me ver.” “Ah tá, eu vou.” Porque, inconscientemente, se eu tivesse uma chance, eu queria, mas eu não sabia se teria essa chance ou não. Estava gorda, estava destreinada. Mas fui e arrasei, gente. Me joguei no chão, rebati todas as bolas, estava descansada, não tinha aquele auê de treino, fui lá e fiz o meu melhor. A técnica olhou para mim: “É você quem vai.” Eu falei: “Não, tem a minha amiga.” Ela virou e falou assim, na frente da menina: “Mesmo que você não vá, ela também não irá, ela não está preparada.” Eu falei: “então eu vou. A chance bateu na minha porta, não vou fechar e fui para os Estados Unidos. Em uma semana me mandaram o visto, fui na Embaixada, em São Paulo, na fila, chegou o motoboy para entregar o meu visto. Entrei lá, passei, comprei a passagem, meu pai me ajudou, vendeu o carro, eu comprei a passagem e fui. Foi a melhor coisa da minha vida, teve sofrimentos, teve dificuldades, mas é uma coisa que muda o seu interior, você tem que viver sozinha, você cresce, muda a sua religiosidade, porque é um país protestante, me encontrei lá, porque aqui, católica eu sabia que eu não era mais, tive uma desilusão. Espírita eu sabia que eu não era, já tinha passado por isso, e chegando lá, um país protestante onde a igreja é o comentário dos jovens, Deus é o comentário dos jovens, não tem como você ignorar isso. Na faculdade você tem que fazer quatro, cinco matérias só sobre a Bíblia, é obrigatório no currículo, independente de qual curso você escolha. Aliás tudo, governo da América, história da América, você é obrigado a fazer, eles são bem patriotas mesmo, é bem legal. Lá eu me converti, virei evangélica. Para voltar foi uma dificuldade, pois aqui não é um país protestante, é um país católico, é um choque cultural muito grande. Eu terminei a faculdade lá, tive que enfrentar o inglês, que era uma dificuldade muito grande. Já havia tentado aqui, não passava do primeiro estágio e, de repente, lá demorei um ano. Houve pessoas muito melhores do que eu, que em um mês já estavam falando, também vi pessoas muito piores do que eu que foram expulsas da faculdade porque não conseguiam aprender em inglês, e ainda por cima falsificavam provas. Então, eu me encontrei, passei por tudo isso, tive que tirar a carta de motorista lá, fiquei três anos, e no final de tudo... Joguei, não era uma jogadora muito boa, mas ajudei meu time, éramos seis brasileiras na quadra, a reserva era americana, então tinha briga, era complicado, mas era muito legal. Era muito difícil o treino no começo, a técnica falava: “o último que pegar a bola vai pagar duzentas abdominais.” Eu sempre pagava, não tinha como. Fui a última a chegar, mas a mocinha que já sabia falar tudo, os pais muito cultos, e isso ajuda muito uma criança. Foi legal, foi bem dinâmica a minha história. Me formei e voltei para cá. Existe todo um processo de reabilitação do diploma aqui, de conseguir um emprego. Foi muito difícil, tive que ficar na fé. Conseguia um emprego ali, um aqui, mas não podia ser registrada, não tinha revalidação, foi tudo muito complicado.

 

P/1 – Queria te perguntar se antes de você começar a jogar vôlei, se você já gostava de esportes? As aulas de educação física, como eram?

 

R – A escola começava a dar educação física, na minha época, na quinta série, de primeira a quarta eu me lembro que não tive, mas na quinta série já tem a matéria. Eu estava nessa faixa de 10, 11 anos, então eu mal tive oportunidade de ir à educação física, porque eu já tinha começado os treinos no clube. Mas foi na fila da educação física que eu lembro que uma amiga falou: “Ai...”, eu tinha acabado de comentar com a minha família que eu queria fazer esporte, porque eu era alta. Foi num jantar, me lembro como se fosse hoje, eu falei: “mãe, eu sou tão alta, será que não vou para esse lado?” Porque para modelo não tinha a mínima chance. Eu queria mais esse outro lado, sempre fui grandalhona e tal, e os meus pais me incentivavam. Na mesma época estava lá na fila da educação física para arremessar umas bolas e uma menina falou: “Ai, eu treino lá em São Caetano, mas não tenho ninguém para ir comigo.” Eu falei: “Onde é?” Eu lembro que peguei ônibus sozinha e fui com ela, a minha mãe deixou; depois que a minha mãe foi ver onde era. Lembro até a roupa que a minha mãe estava usando, engraçado. São coisas que marcam, foi tudo muito junto, quando descobri que queria ser atleta. Acho que quando eu era pequena não pensava não, não lembro o que eu pensava em querer ser, e, de repente, veio, acho que pela altura mesmo. Fui jogar. Lembro que quando podia ir na educação física, porque quando somos pequenos não treinamos todos os dias, apenas de terça e quinta, eu descobri que era boa. A professora mandava arremessar lá no cesto, eu atirava as bolas e iam direitinho, nem treinava. Eu falava: “Nossa, que fácil.” Mandava sacar, e a minha irmã lá, coitada, aquele bracinho, a bola não passava, fazia assim e machucava a unha. Eu ia lá, dava um soco na bola, ela ia longe. Foi nesse momento que começou a crescer essa paixão, por causa a facilidade que tive no começo, foi uma coisa espontânea.

 

P/1 – Teve algum treinador que marcou a sua trajetória?

 

R – O meu técnico foi o Rubens, por vários anos. Daqui a pouco comento sobre ele. Se tivesse que agradecer, agradeceria o primeiro mesmo, porque ele foi bem bonzinho comigo, ele teve a paciência de me chamar para entrar no... Você chega, você vai para uma escolinha, que era a Mônica. A Mônica, logo que viu que fazia a passada do vôlei direitinho, inclusive, escolhi o vôlei por causa desse primeiro contato, até tinha pensado no basquete, mas acho que não daria certo, o basquete é muito contato físico, não seria muito para mim. Eu me lembro da Mônica, ela deve ter pensado logo de início: “olha, Valter, tem uma menina bem alta, tem que ser trabalhada.” Imagino como tenha sido, porque a gente faz isso hoje. Eu só poderia passar para o pré-mirim e já entrar nos jogos de competição, se a menina que estava me levando, a Renata, a menina da fila, fosse comigo. Só que ela era baixinha e eles não queriam que ela fosse para o pré-mirim, porque já era uma seleção da escolinha, e eu falei: “Não, então não vou, só vou se ela for.” E logo que eles descobriram que eu poderia ir sozinha, que a minha mãe tinha deixado, que eu já tinha arrumado uma outra amiguinha na turma, eles a dispensaram. Isso foi uma coisa que me deixou bem chateada, mas independente disso, o Val era uma boa pessoa, foi por causa do sistema que ele teve que fazer isso, e comigo foi totalmente diferente: ele me acolheu ali, eu tinha algumas dificuldades, embora tivesse a coordenação legalzinha e tudo, mas eu não sabia correr para trás, eu caia. Daí, ele ia lá, me explicava: “Olha, tem que levantar o calcanhar.” Pegava aquela bola de medicine ball, pesada, para fazer os toques, vinha direto na cara, parecia um pai. Era bem legal. Depois ele foi para a Pirelli, porque, na época, a Pirelli era o estouro, todo mundo queria ir para a Pirelli, e ele era muito bem visto lá, as meninas falavam muito bem dele. Fiquei só um ano com o Val, mas eu agradeço a ele. O Rubens entrou depois, ele era concursado pela prefeitura, um técnico bom em termos de técnica, ele não ensinava para a gente a malandragem, ele ensinava o correto, o certinho, como cair, pegar uma bola, ficou faltando um pouco de malandragem no ensinamento, sabe, é largada ou é ataque? Ele era muito bravo, ensinava com muita disciplina. Até acho que fiquei um pouco com essa coisa dele, pois hoje eu sou um pouquinho brava com as crianças. Sou professora, mas fui criada assim, ele não deixava a gente fazer nada, era só aquilo, não brincava com a gente, era bem ríspido, bem fechado mesmo. Então eu fui cria dele, agradeço a ele também. Mas para uma criança ouvir algumas coisas, não foi muito fácil, porque fiquei com um pouquinho de trauma, não só comigo, eu me lembro dele gritando, brigando com muitas atletas. Inclusive, ele não foi para frente no adulto por causa desse perfil, porque quando você chega no adulto, você vai brigar com uma Ana Moser, vai brigar com uma Cilene; e não vai, elas não vão deixar. Então ele não conseguiu ficar no adulto, pois esse era o perfil dele, ele só conseguia ficar nas categorias menores. Ele foi bom, mas faltaram algumas coisas.

 

P/1 – E das competições, você lembra qual foi a primeira competição, a sua primeira medalha?


R – Lembro. Eu me lembro do meu primeiro jogo, lembro que o primeiro ponto foi meu, porque levantei o bração e o técnico falou: “Vá pro bloqueio.” Eu respondi: “Tá bom.” E pum, a bola bateu na minha mão, eu olhei para ele, ele estava rindo, porque eu era a maior em São Paulo, não tinha ninguém com 1,74 metros. Foi uma cena bem legal, olhei para todo mundo e todo mundo: “Eeee.” E eu: “Nossa!” Foi contra o Tietê, na quadra deles, acho que foi um final de semana, num sábado, me lembro até hoje, o primeiro ponto da minha carreira. Fui muito incentivada pelo Rubens, tenho que falar bem dele, não posso falar mal, essas coisinhas a gente faz, mas eu tenho certeza que não foi por maldade, ele me deu, no meu primeiro ano, a revelação do time. Foi bem legal. Eu me lembro de todos os jogos, eu acho que não nos esquecemos, sempre dá um friozinho na barriga, não tem jeito.

 

P/1 – E você também disse que o vôlei te deu a chance de viajar, conhecer o Brasil, teve alguma viagem marcante? Conta como foi começar a sair, conhecer outros lugares.

 

R – Ah, foi muito legal, eu fui para Santa Catarina, Florianópolis, que é uma cidade linda. Eu me lembro dos restaurantes que a seleção nos levava, porque tinha patrocínio, era o Banco do Brasil, na época, ou era Adidas, não estou bem lembrada, mas tinha os patrocínios e a própria Federação que dava dinheiro. Então, você ia para as cidades, ia para restaurantes diferentes, que você não teria oportunidade. Eu me lembro de muita coisa. Fui para Florianópolis, Blumenau, para Maringá, que é no Paraná, conheci um pouco da cidade, não dava tempo de conhecer muita coisa, porque tínhamos que treinar, descansar. Nessa época, fui para o Chile duas vezes, fui para Vina Del Mar e outra cidade que eu não lembro o nome. Esses são os lugares que eu me lembro mais. Rio de Janeiro, mas fomos para um lugar meio ruim, que é Botafogo, uma cidade um pouco suja, mas é legal porque já vamos formando opinião, é uma vivência, é uma bagagem. Por fim, fui para os Estados Unidos, que foi a bolsa. Eu conheci, acho que, uns 30 estados dos Estados Unidos, porque os jogos são com as faculdades e as faculdades são espalhadas, além de ter aquela cultura do jovem, do adolescente americano, não quer estudar na sua cidade, ele quer ir para outra. Assistimos isso nos filmes. Existem faculdades com 50 mil alunos, que são cidades, você tem que pegar ônibus. A vivência, a bagagem é muito legal. Ia para o Texas jogar, ia para Orlando, conheci o shopping brasileiro que tem lá, brasileiro não, mas tem bastante coisa brasileira ali. Conheci os parques de diversão, foi bem legal. Ia para tudo quanto é lugar. E de lá fui fazer missão, porque na faculdade protestante eles têm a cultura de mandar missionários para os países, tinha para tudo quanto é lado do mundo, inclusive para o Brasil. O pessoal vem para a Amazônia, mas eu fui para a África do Sul. Você põe as opções, eles olham , e você vai para um país. Eu fui para a África do Sul; de lá, eu ainda fui... E você tem que pagar, mas é muito legal, porque o que você tem que fazer para conseguir dinheiro? Mandar cartas para as pessoas que você conhece, explicar para elas que você está indo numa missão. E o jovem missionário é muito valorizado lá, as pessoas sabem, já passaram por isso. Nessa carta você pede apoio de oração ou financeiro, mas você manda a conta, e quando eu fui ver na minha conta, tinha muito dinheiro. Eu mandei para algumas pessoas que eu conhecia lá e para a minha família. Adivinha quem mandou mais? Eles. Mas foi bem legal, porque eu tenho até um tio que é bem pobrezinho, nem é muito meu tio, não é casado de verdade com a minha tia, mas ele me deu os dez dólares que ele guardava e ele falou: “vou te ajudar.” E me mandou dez dólares. Movimentou, é claro, a minha irmã, meu pai também. Mas eu tive que batalhar também, porque era bem caro, eram três mil dólares. Eu consegui uma boa parte do dinheiro com as poucas pessoas que conheci lá na cidade, teve uma pessoa que depositou quinhentos dólares e eu falei: “Nossa!” E teve uma amiga minha que foi para lá, ela já era evangélica, e falou assim: “eu não te falei que dinheiro cai do céu?” Eu falei: “mas eu não vou conseguir juntar esse dinheiro, não tem condição.” Ela falou: “Érica, dinheiro cai do céu, faz o que você tem que fazer.” E eu fiz. Daí, falei: “Nossa, caiu mesmo!” Mas fui limpar banheiro no ginásio, trabalhava lá no final de semana. Não pode trabalhar, porque eu tinha bolsa de estudos, não podia trabalhar, mas eu conheci, no meio de tanta loucura lá, uma brasileira que tinha uma lojinha de donuts, e, ao invés dela me dar o paycheck, que é como deveria ser pago, ela: “não posso, que a imigração me pega.” Ela me pagava em dinheiro, então, fui juntando. No final de semana, ao invés de descansar, ia trabalhar, entrava duas horas da manhã e só saía ao meio-dia do sábado, do domingo. Eu fazia isso. Fui limpar o banheiro do ginásio, mas eu não aguentei, fiquei só duas semanas, era muito cansativo, não era pra mim, limpeza não é comigo, trabalho na cozinha, mas limpeza não dá. Foram muitas experiências, cheguei até a limpar uma casa, logo que eu cheguei uma amiga minha falou: “Érica, você quer um dinheirinho?” Eu falei: “Quero.” E saí de lá sete horas da noite, com gripe, mal, porque foi muito esforço, não me deram comida, nada, para ganhar 70 dólares. Isso foi há muitos anos atrás, mas, nossa, muitas experiências que eu não teria passado se eu estivesse aqui. É muito legal isso de você ir para um lugar e ter que sobreviver, porque você passa por coisas que você não faria se estivesse com o seu pai e com a sua mãe. No fim, eu fui babysitter, morei três meses com uma americana, encerrei a faculdade e não podia mais ficar nos dormitórios. Daí, eu consegui uma amiga, tinha muito brasileiro lá, ela iria se mudar e a casa ficaria fechada. Então, eu pedi a casa emprestada e ela falou: “Pode ficar”. Foram três meses, fiquei lá sozinha, sem nenhuma mobília, só levei um colchão. E tinha que trabalhar, arranjei um emprego de babysitter, como a faculdade era cristã, as pessoas iam muito lá procurar a gente para trabalhar. Eu cuidava de gêmeas, a cultura deles é muito diferente da nossa, porque eles me entregavam as crianças: “Toma, se vira, toma o dinheiro.” E eu tinha que ir ao zoológico com aquelas crianças de um ano de idade, tinha que ir para tudo quanto é lado no meu carro, elas não ligavam, não queriam nem saber. Eu falava: “Nossa, pra raptar uma criança aqui é muito fácil.” Você vê a que ponto chega a diferença de cultura: aqui você não pode fazer isso, a criança vai sumir, desaparecer, e lá eles entregavam as crianças para mim numa boa. Então, assim, a bagagem foi bem legal.

 

P/1 – E como foi na África do Sul?


R – Difícil, porque como eu fui fazer uma missão, estava em contato com os problemas da cidade diariamente. A parte cultural é sempre boa, fui para campos, fazendas, vamos dizer assim, onde se faziam pão, criavam galinhas, as mini aldeias vinham até essas fazendas pegar comida. Eu trabalhei nessa fazenda um dia, eu passava um dia em cada lugar. Na verdade, essa missão é para o crescimento do missionário, porque você não vai ajudar em um dia, você só atrapalha, porque eles têm que ensinar o serviço para você. Então foi mais crescimento para mim e para o grupo. Você chega num lugar onde você tem que se identificar com todos do seu grupo. Passamos por um treinamento na faculdade, todo dia tinha que se encontrar, eles davam alguns desafios para você fazer, tive que ir para um camping subir em árvores, arvorismo, na época nem existia aqui, mas era em cima de montanhas e abismos, muito difícil, eu chorava o tempo todo. Você tem que lidar com o seu eu, você tem que ter fé, eles mandam você pisar no geado, é uma coisa louca. Você chega lá já meio preparada, porque por tudo que você passa, você pensa: “Vai ser difícil.” E é, é muito difícil, você vê aquelas pessoas... Você não tem comunicação, são dialetos, a África do Sul é maravilhosa, são 144 dialetos, são 11 línguas oficiais, uma criança fala português, inglês, francês, glota, africano, e aí vai... E a gente só fala uma língua, entendeu, vai aprender espanhol e acha difícil. Não é considerado um povo tão inteligente, então, o que é isso? É a base, a necessidade, eles vivem com isso no dia a dia e eles falam 11 línguas. Então tínhamos esse campo, tínhamos que matar a galinha, veja só, tinha que ir lá e matar a galinha para dar para o povo levar na sacolinha, distribuir a papa, que é tipo uma massa para fazer uma polenta branca, que eles comem aquilo com a mão mesmo. Então, distribuíamos isso, o pão que era feito ali na fazenda mesmo, esse dividíamos, uma equipe ficava no pão, uma equipe ficava nas galinhas, a outra na farinha e quando chegava essa turma das aldeias íamos distribuindo a comida. No outro dia, íamos orar na igreja, participamos de um revival, que aqui eu acho que é um avivamento onde as pessoas lotam as igrejas e vêem aqueles palestrantes maravilhosos, aqueles pastores, onde acontecem muitos milagres e a multidão cai à espera de um milagre. Trabalhávamos na cozinha de restaurantes para ajudar, foram essas missões que tivemos que fazer, já meio programadas pela igreja que a gente ia. Um dia, a gente foi num lugar que era só de pessoas com problemas, e tivemos que olhar para essas pessoas, tinha várias coisas para se fazer. Conhecemos o lado rico e o lado pobre de Johannesburg, lugares onde as meninas eram estupradas, casas sem portas, favelas bem grandes, com criancinhas, de vez em quando, sem roupas, vimos que tinha o lado pobre mesmo. Tínhamos que comer a comida que era oferecida, não podia fazer desfeita, isso era uma coisa muito difícil para todo mundo, algumas vezes não conseguíamos comer, é uma comida muito diferente. Teve várias coisas, nesse lugar que tinha muita gente doente, era tipo um hospital de doenças crônicas, tinha um hospital e tinha outro que era tipo um abrigo: no abrigo eu fui tirar o pano de uma mulher, ela falou assim: “não tira o pano, só faz a oração.” Mas ela não falava a minha língua, isso tudo tentando se comunicar... Eu acho que eu não entendi direito e tirei o pano, tinha uma ferida enorme, fedida, cheia de mosca, era bem complicado, tive que dar banho, nesse dia. Pediram se alguém poderia ajudar a dar banho nos idosos e eu fui. Do meu grupo de missionários só estava eu e uma amiga brasileira, o resto eram todos americanos, e para os americanos aquilo era muito difícil, porque eles não têm muito contato físico, eles não têm o beijinho no rosto, não tem essa nossa diferença. Foi muito difícil para eles, mais do que para mim. Então, eu me prontificava a fazer, para eu dar banho em idoso não é tão difícil, entendeu? Eu ia, ajudei a dar banho. Eles eram mais ligados a orações, eu não conseguia orar muito em inglês, então, eu ficava mais com essa parte. Eles me perguntavam como conseguia fazer isso, e eu falava que a minha mãe é vendedora, ela trabalhava com venda de Yakult, parou recentemente, e, de vez em quando, eu ia com ela. Então, ela era muito espontânea, falava muito com as pessoas, eu acho que eu puxei isso da minha mãe, de falar muito e ter contato com as pessoas, porque eles me viam conversando com as pessoas e eu não falava a língua deles, mas e o que é que tem? A gente falava em gestos e tudo bem, eu sempre estava no meio deles, do pessoal da África, nunca estava com o pessoal missionário, eles ficavam mais em grupo, e era isso que eu fazia. Tinha um hospital de doenças mentais e doenças crônicas, que eram pessoas que vinham trabalhar em Johannesburg, que é uma cidade melhor, né, economicamente, e eles vinham de Moçambique, eles vinham de Gana, eles vinham de outros países para conseguir alguma coisa lá, para melhorar de vida. Eles eram acidentados, eles eram baleados, porque numa praça lá em Johannesburg sai tiroteio, e muitas vezes eles ficavam paralíticos para sempre, ficavam ali naquele hospital, não tinham dinheiro para ir embora. Eu sei disso porque falei com uma pessoa que estava lá, ele estava na ala de doenças mentais, mas ele não era doente mental, ele falava português, porque ele era de Moçambique. Ele me contou o que aquelas pessoas daquele hospital estavam fazendo lá, e você fica chocada, você sai arrasada, você chora, é muito difícil. Foi isso que eu fui fazer lá na África.

 

P/1 – E você chegou a ver como, no caso a religião protestante, convivia com as outras religiões? Você vivenciou alguma diferença entre religiões?

 

R – Lá nos Estados Unidos?

 

P/1 – Na África do Sul.

 

R – Não, não tive muita oportunidade, eu só vivenciei esse avivamento mesmo, e essas pessoas que procuraram esse avivamento eram pessoas que eram protestantes, que estavam procurando ajuda para alguma doença e tal. Eu não me lembro bem, o país foi colonizado, se eu não me engano, acho que foi pela Holanda, eu não tenho certeza, tô me confundido... Eu estou tentando me lembrar, eu sei, mas agora não me lembro, eu preciso lembrar qual é a característica desse país, eu não sei se a África é uma cidade predominantemente protestante ou católica, mas lá eu só vi essa parte protestante mesmo, não sei te falar dos conflitos. O que eu sei dos conflitos é que teve com o povo ali, tiveram algumas brigas graves por lá, que mataram muitas crianças. Foram os holandeses? Eu não vou saber contar a história, faz muito tempo e a gente vai esquecendo, até a colonização eu estou meio em dúvida. Não foram os holandeses não, mas tudo bem, eu sei que tiveram muitas brigas por lá, o país africano é muito sofrido, vocês devem se lembrar um pouco disso, tiveram os problemas lá, morreu muita gente, tinha muita briga lá, e é só isso que eu fiquei sabendo. Eu fui visitar o cemitério, onde as crianças estão enterradas, só isso. Mas hoje eu não sei te falar se tem muitos problemas religiosos não, eu fiquei mais na parte protestante mesmo.

 

P/1 – Érica, depois do seu retorno para os Estados Unidos, como foi a sua decisão de voltar para o Brasil, depois de viver tanto tempo lá?

 

R – Não foi difícil, eu sabia muito bem o que eu queria e o que eu estava fazendo. Todas as brasileiras que foram para lá, todas não, uma casou e ficou lá, a outra também, casou com um croata e ficou lá, não sei se chegou casar, mas ela estava morando com ele. Eu sabia bem do meu destino, do que eu queria, eu queria voltar. Lá eu não me permiti ter nenhum namorado, também não aconteceu, até para não criar raízes, não tive nenhum caso, nada, então eu estava muito livre para voltar. A minha técnica me pediu para ficar, porque eu estava ajudando com as escolinhas de vôlei, mas para você conseguir o visto lá, o permanente, você fica trabalhando um ano, eles chamam de work visa, depois o trabalho tem que ficar pagando para você todo o ano para que você fique lá, então o trabalho tem que pagar, mas se ele resolve não pagar, você vai ter que pagar. Então, eu falei: “eu vou ter que passar por todo esse processo.” Tinha uma amiga que estava fazendo isso lá, ela estava fazendo esse work visa, e depois não sabia se o trabalho iria querer ficar com ela ou não, eu falei: “Eu não vou passar por tudo isso, depois não consigo ficar...” Então, eu decidi voltar. Eu queria ficar com a minha família também, eu tinha saudade, eu achava que o que tinha que ter acontecido lá, já tinha acontecido, foi bem legal, eu conheci bastante coisa, bastante gente, mas estava na hora de voltar, foi fácil. Acabei a faculdade, já não podia mais morar nos dormitórios, teria que alugar uma casa, fiquei aqueles três meses na casa daquela pessoa, então, eu teria que resolver ali.

 

P/1 – Onde era a sua faculdade?

 

R – É em Tulsa, Oklahoma, chamava Oral Roberts University, que é o nome do fundador da faculdade. Eu não tive dúvidas em voltar, é o que aconteceria normalmente, a não ser que você queira mudar isso lá, arrumar emprego, ou casar com alguém, mas para mim foi bem fácil, acabei a faculdade, fiquei mais um pouquinho e vim embora.

 

P/1 – E nesse retorno, você falou que foi difícil arrumar trabalho, a revalidação, conta mais um pouquinho.

 

R – Então, quando você chega ao Brasil você tem que revalidar, procurar o MEC, tem que organizar toda a papelada, tudo o que eles pedem. Na educação física tem que fazer isso, medicina eu sei que também tem, mas não sei se são todas as faculdades que pedem isso, todos os cursos, então, eu entrei com todos os papéis. Lembro-me que cheguei aqui praticamente falando inglês, pegava um ônibus, já não sabia aonde descia, virava para o cobrador para perguntar onde era e falava em inglês com o cobrador. Eu pensava: “Nossa!” Então, foi muito difícil. Eu me lembro que sentava no sofá e falava: “Nossa, o que eu vou fazer hoje?” Você já não tem mais amigos, fiquei três anos, foi uma transição de faculdade, então, todos os meus amigos da faculdade já estavam encaminhados, trabalhando, formados, eu não estava formada ainda, aqui no Brasil, não tinha emprego, não tinha amigos, entendeu? A minha família trabalhava e eu ficava em casa sem saber para onde ir, para onde correr. Então, tem o tempo de adaptação também, não o mesmo tempo que você leva lá, porque lá você vai aprender uma língua, é uma aventura, aqui não é mais uma aventura, aqui é a sua realidade, então foi muito complicado. Eu falei: “O que eu sei fazer? Falar inglês.” Mas também não sabia tanto, porque eu nunca parei para estudar, eu aprendi a falar na raça, demorei até, então, eu não sabia dar aula: “eu vou fazer o que da minha vida?” Eu fui procurar uma escola de inglês, cheguei na FISK aqui de São Caetano, e lá é uma franquia, então, a dona sempre estava lá, e ela foi falar comigo e me achou maravilhosa, falando que estava com o inglês tão fluente, só que ela me falou: “Você tem erros, vamos fazer um treinamento.” Falei: “Nossa, que legal.” Passei por uma seleção, fui a única que sobreviveu, o método da FISK, como é franquia, era muito metódico, o risco tinha que ir no meio da lousa, era desse jeito que você tinha que ensinar. As pessoas não entendiam o porquê elas tinham que fazer isso, e como não dava aula mesmo, nunca tinha ido numa sala de aula, era tudo novo, estava aprendendo, então, para mim era fácil, para os outros não. Sobrevivi, fiquei, comecei a dar aula, mas não era o que eu gostava de fazer, não era o meu dom, era muito difícil, eu ficava muito nervosa, errava tudo, chegava a falar you is, e todo mundo sabe que é you are. Eu ficava muito nervosa, um dia ela chegou e falou assim: “Nossa, nunca ri tanto com uma pessoa como eu ri com você.” Eu falei: “Nossa!” E ela me mandou embora com três meses de registro. Fiquei com ela sete meses entre treinamento, dando aula, depois que ela viu que eu não tinha jeito, ela falou: “você não vai dar aula.” Eu fiquei triste, mas ela me falou a verdade, eu não vou ser agradecida por ela ter me falado isso, porque não me trouxe nenhum benefício, pelo contrário, eu só fiquei mal. Ainda continuei dando aula em escolas menores, que não exigiam tanto, para crianças, de vez em quando, pegava um adulto. Até que foi bom, ganhei um dinheirinho. Até que em uma escolinha, um amigo meu, porque fui fazendo amigos, não é, um amigo falou: “você não quer dar aula no meu lugar? Eu tô saindo.” Daí, eu peguei uma escolinha para dar aula de vôlei, que era a minha área. O pessoal me indicou para uma escola de Santo André, a Stocco, que é uma escola elitizada, particular, trabalhava na área de esporte. Lá já me chamaram para dar aula de educação física, mas teve um rolo danado lá com outra professora, que ficou enciumada, tive que me dar as aulas para ela, mas não fiquei, graças a Deus, porque dar aula em escola particular é muito difícil, as crianças são difíceis, e eu fiquei esperando. Lá nessa Stocco, comecei a alugar a quadra a noite, a diretora gostou de mim, me entregou a quadra e falou: “Organiza aí a quadra a noite.” Eu montei várias equipes de vôlei e comecei a trabalhar com isso. Ficava o dia inteiro em casa, a noite ia trabalhar e eu esperando esse processo de revalidação terminar, mais de um ano e meio. Fazia concursos por aí, também não podia pegar, mas também não passei em nenhum. Passava, assim, passava na teórica, reprovava na prática, na dinâmica, na redação. Fui percebendo que é difícil entrar, que é difícil entrar porque o pessoal de São Caetano já tem as pessoas, eles só regularizam. De São Paulo é uma coisa mais correta. Você vai aprendendo, vai vendo e nesse tempo todo eu pensava: “meu deus, será que algum dia eu vou conseguir um emprego?” Era meu sonho, nunca tinha trabalhado registrada, era o sonho do meu pai. O pai quer que o filho trabalhe com tudo certinho. Fui esperando a oportunidade e pensava: “Um dia eu vou ter a minha oportunidade.” Agora entra uma coisa legal, religiosa: nesse revival, nesse avivamento que teve lá na África, a minha amiga Ana profetizou uma história no meu ouvido, ela falou: “Érica, não sou eu que tô falando, é Deus”, e ela falou que um dia eu iria trabalhar num projeto social com crianças carentes. Eu falei: “Ah, legal.” E hoje eu trabalho num projeto social com crianças carentes... Mas eu fiquei esperando essa oportunidade acontecer. Nesse meio tempo, umas meninas foram me procurar, na verdade foi um mocinho que comecei a namorar que me levou para jogar vôlei, eu conheci umas meninas que jogavam vôlei e aí elas: “Você não quer treinar a gente, Érica, além de jogar?” Eu falei: “beleza, tem uma quadra que eu tô dando aula.” E começou a juntar tudo. Uma delas era vizinha do Gilmar, que era o diretor social, na época, da Petroquímica União, não era Braskem ainda, e aí ela falou: “Érica, você não quer ver se o Gilmar pode alugar lá pra gente, pra gente treinar?” Aí eu falei: “Ah, tá bom.” Daí vim, acertamos, eu pagava o aluguel da quadra para eles, uma das meninas tinha uma empresa e começou a me pagar, a me dar uma ajuda de custo para treinar elas e a gente começou a montar a equipe. Nessa época, eu saí da Stocco, não deu muito certo, o pessoal começa a ficar enciumado porque você está ganhando bem, porque você está administrando a quadra. Os pais não queriam mais que eu ficasse, daí acabei saindo da escolinha. Comecei a trabalhar só aqui, fechei um contratinho pequeno, dava um treino de sábado e segunda à noite, e começamos a evoluir, começamos a entrar em campeonatos, com o Esfera, clube Paulistano, clube isso, clube aquilo, começamos a ganhar. Na época, o presidente do clube simpatizou muito comigo, começou a me dar patrocínio, tinha ônibus, tinha uniforme, tinha o dinheirinho do lanche, pagava todas as inscrições. Mas a empresa saiu, assim, isso demorou anos, eu estou resumindo... a empresa saiu, foi até bom, porque era difícil receber dinheiro de uma amiga, daí começou a ser por uma empresa mesmo. Nessa tinha uma outra professora de natação que trabalhava e a gente nunca se cruzava, mas um dia eu acho que surgiu a ideia de fazer um projeto social, pela Petroquímica, até foi nessa sala aqui, a Flávia entrou em contato comigo e explicou: “você tá sabendo?” “Ah, legal, não tô sabendo.” “Vamos lá conhecer a Bel.” E começamos a conhecer o pessoal aqui de dentro. Eu até levei uma bronca, porque nunca tinha vindo aqui, nem sabia que podia, daí fui me familiarizando com as coisas e tal. Falaram desse projeto, ajudamos a montar esse projeto, sentamos eu, a Bel... nem me lembro mais da sua pergunta, eu tô fugindo da sua pergunta?

 

P/1 – Não, pode continuar.

 

R – Eu vou falando... Não é todo dia que alguém quer ouvir a história da gente, é uma terapia isso daqui. Daí a Bel falou: “Vamos sentar e conversar sobre o projeto.” E ela me deu uma bronca: “Érica, você não sabe nem das comunidades que vão participar? Senta lá com a Gisele e aprende esse projeto.” Eu sentei lá com a Gisele, ela me explicou tudo, a necessidade que a empresa teria de estar montando um projeto social para comunidade do entorno, porque precisa fazer esse diálogo com a comunidade, tem que ter uma aproximação, tem que ajudar, muitas vezes a empresa precisa da comunidade para apoiá-la, e me explicou tudo, quem seriam as comunidades... Então, precisaria ter um posto de saúde junto para fazer os exame médicos dessas crianças, então foi convidado, aqui em Capuava, o Centro de Saúde Escola, e na época, a doutora Denise, que liderou esse diálogo com a Petroquímica, ela é pediatra e também era coordenadora, acredito, ela via isso como uma coisa bem legal, ela via isso como um campo de trabalho para ela, de pesquisa. Foram feitas muitas pesquisas em cima desse projeto, inclusive, nós temos um artigo publicado. Então, ela tinha essa visão maior, ela aceitou dar os exames médicos não só para a turma de Capuava, mas também para outra instituição que fosse entrar, ficou esse acordo, tinha o contrato, tudo, e fui aprendendo um pouquinho sobre a instituição. O contrato exigia uma instituição que tivesse a inscrição de um número x de crianças e mandassem para gente, então tinha que vir um monitor dessa instituição, aqui em Capuava era o Centro Saúde Escola, que é bem pertinho aqui do clube, as crianças se reúnem lá. O ônibus passaria, pegaria essas crianças inscritas e viria para o clube. A princípio, meninas grávidas eram uma turma, crianças obesas eram outra, por quê? O médico, muitas vezes, ele não pode dar um remédio para uma criança obesa, ele tem que mandar fazer uma atividade física e fechar a boca, ter uma alimentação mais saudável, e não tinha para onde mandar, então, a pediatra, a doutora Denise, viu isso como uma solução. Foi muito legal, só que começaram a surgir problemas dentro do posto, eles tinham que atender crianças que não eram de Capuava, e isso gerava conflitos, é uma bagunça, um monte de crianças que não eram de Capuava indo lá marcar exame e faltavam, os médicos não queriam atender. Outra coisa que aconteceu: tinham que mandar monitores, os agentes de saúde que tinham que ir para a rua fazer as visitações, eles faziam rodízios para poder vir acompanhar o ônibus, mas a enfermeira chefe que cuidava disso já não queria mais fazer isso, ela não queria mandar os agentes de saúde, o que começou a gerar conflitos. A doutora Denise saiu, ela se aposentou, ou saiu, ou mudou mesmo, lá você tem os postos que vão mudando. Entra o doutor Luis, que mesmo perante todos esses conflitos conseguiu manter. Depois entrou a doutora Simone, ela já não entendia mais nada, ela não entendia a origem do projeto e também não quis entender, ela chamou a gente lá e falou: “o que eu ganho com isso?” Olhei e falei: “como assim, o que a senhora ganha?” Ela queria algo em troca, ela queria o espaço do clube para montar uma sala de fisioterapia e o clube não tem esse perfil, não é isso, ela não entendeu e desfez o contrato com o posto. Mas como íamos deixar essas crianças sem um projeto? Não tinha mais a instituição para mandar as crianças, não tinha mais o ponto de encontro, a Bel e o Rafael já não estavam mais aqui, que eram os mentores do projeto, a Gisele já não estava mais aqui, era a secretaria, estava havendo uma mudança na parte da diretoria. Eu e a professora Flávia resolvemos assumir mesmo sem instituição, nós fomos no tal local de acesso das crianças, que é um bar, a gente chama de barraca, mas é um boteco.

 

P/1 – Aonde fica exatamente?

 

R – O bairro é Rina, Jardim Rina, e a rua é Corine Magini, pegou as Nações Unidas, tem uma entrada, é onde começa o morro, a rua começa a descer o morro, então é ali que o ônibus pode ir, porque o ônibus não entra mais para baixo, só entra até ali. Nós fomos lá, conhecemos o Seu Amadeu, da barraca, conversamos com o Seu Amadeu, se ele podia deixar a gente reunir as crianças lá, colocar faixas lá e ele falou que sim, foi super atencioso. À noite lá tem um forró, mas de dia é tranqüilo, o povo tá dormindo. Nós fomos lá, penduramos faixas, inscrição dia tal, aonde, na ACEB, que nem era ACEB ainda. As mães vieram, subiram, dá uns 30 minutos, 40 minutos, vieram a pé, fizeram as inscrições. Então, nós assumimos, mas não tem ninguém que fale: “quem é o responsável?” Na Junta tem a dona Lucia, na Clyde tem a dona Cida, fora que é uma instituição organizada, a gente não precisa ficar tendo contato com pai, a gente tem contato com a instituição, então se tem que mudar horário, alguma coisa, é com a instituição, é bem mais fácil. Nós tínhamos o problema do monitor no ônibus, eu não posso ir até lá com o meu carro, deixar o carro, entrar no ônibus e voltar, depois a tarde ir buscar o meu carro, não vou nem achar o meu carro, é brincadeira. Eu tenho que pegar uma pessoa da comunidade que venha com as crianças no ônibus e que possa passar algumas informações para os pais depois, porque essas crianças no ônibus sozinhas, não pode, são crianças, e essa é a nossa dificuldade, todo ano é uma batalha arranjar um pai, um pai não, na verdade a gente nunca quis um pai, porque o pai perto muda a criança, a criança fica diferente, isso é uma coisa constatada para a gente, mas não temos opção. Então, pedimos para o pai: “olha, não fica falando pro seu filho: ‘Olha, tô aqui, tô aqui’, fala que você é o monitor.” Dá certo com alguns, com outros já não dá, mas a gente precisa deles. Daí começou a ter um certo probleminha, principalmente esse ano, de reclamações de pais, porque não tem a instituição para orientar, para segurar, vem muita reclamação de horário: “Ah, você muda o horário do ônibus.” A gente muda de vez em quando o horário do ônibus porque tem olimpíadas de vôlei. Acabou ontem, então, a gente não sabe qual vai ser o horário por causa da tabela, se o horário deles é 09:45, mas eles têm que jogar com a turma que vem cedinho, o horário muda para as 08:20. Então, os pais não entendem isso, mas as crianças não falam direito e vem muita reclamação, muita bagunça. Os monitores não querem mais vir porque a criança do ônibus xingou ele, daí tem que chamar a mãe, essa parte é complicada, então, a gente está vendo alguma coisa, uma escola, pois não tem nenhum líder de comunidade para assumir como é feito na Junta, porque é um líder de comunidade, mas tem o CNPJ, tem um lugarzinho. A nossa dificuldade hoje em Capuava é essa, se fosse ver pelo contrato nós não poderíamos estar atendendo Capuava, mas é a prioridade, porque é o entorno, temos que arrumar uma solução para isso, mas fora isso, é um projeto muito bom paras as crianças. Vamos falar também um pouquinho de coisas boas. As crianças vêm duas vezes por semana, elas ficam uma hora, esse ano, no ano passado eram três horas, mas era muito tempo, praticamente três horas e meia até você se deslocar, chegar aqui, estava muito pesado para as crianças, eles também têm que estudar, então voltamos um pouquinho, na verdade, começou uma reforma no clube, não tinha espaço, tivemos que reduzir o horário e acabou que os pais estão preferindo assim, provavelmente, vai ficar uma hora mesmo. Então, vamos falar da Capuava: as crianças vêm de terça e quinta, ficam das 10 às 11, eles ganham um uniforme muito parecido com o meu, que eu estou vestindo hoje; as meninas tinham aquele uniforme de menino, aquelas calças largas, hoje tem calça bailarina, os pais adoram os uniformes; tem ônibus, é um ônibus muito bom da Mozzato, que é uma empresa que ajuda muito a gente, é pago, mas tem muita coisa que eles fazem para nos beneficiar, se comovem com a história do projeto; tem o lanchinho, que é pequeno, um Club Social, um leitinho, é pequeno, mas tem, a gente é que providencia, eu e a outra professora, eu vou buscar com o meu carro, é bem legal. Aqui eles têm atividade física, música e dança, eles têm um pouquinho dos três, mas o carro chefe é a piscina, é o que eles mais gostam; mas tem umas crianças que não gostam muito de esportes, ficam mais tímidas, então tem a opção da dança e da música. Nosso objetivo é que a criança se descubra, que ela tenha a oportunidade de ter a dança, a música e a atividade física, que não são matérias oficiais na escola. Aqui ela vai se descobrir, vai ver o que ela gosta, vai falar: “Poxa, eu sei isso, porque quando eu era criança participei de um projeto que ensinava o que é uma percussão, quais os nomes dos instrumentos, o professor fazia brincadeiras de dó-ré-mi-fá-sol-lá-si.” Entendeu? Eu não tive isso, eu não sei cantar, eu não sei entonar a minha voz, mas essas crianças já vão saber. A ideia de colocar dança e música partiu do Lucélio de Morais, isso eu faço questão de falar, foi a pessoa que veio substituir a Isabel, não tive tempo de trabalhar com a Bel, que foi quem implantou o projeto, mas o Lucélio de Morais foi uma peça fundamental para o projeto. Eu me lembro de uma reunião que ele chamou a gente, ele falou: “Érica, Flávia, eu quero isso, isso e isso. Quero e quero tudo de graça, se virem!” Foi embora e eu falei: “a gente não vai conseguir.” Mas conseguimos, tudo o que ele nos pediu fomos atrás. O que o projeto tem hoje, quais foram as mudanças que o Lucélio implantou? Porque as ideias foram dele. Foram na parte cultural; não foi fácil chegar na dança e na música, a princípio, foi uma aula de cidadania, ele queria uma aula de cidadania, e daí a professora veio: “você vai dar uma aula de cidadania, mas o que é uma aula de cidadania?” E a gente não sabia explicar: “Ah, ensinar a mexer com materiais recicláveis...” Não tinha um objetivo a aula, nem as crianças sabiam, nem a gente, nem a professora, ficou uma coisa muito difícil. No ano seguinte foi por demanda social, mas o que é demanda social? Ah, vamos falar inglês, todo mundo precisa aprender a falar inglês, é uma demanda social, mas não tínhamos professor para todas as demandas sociais, voluntários e fomos passando por esse processo até que um dia falamos: “vamos tentar dança e música, uma coisa cultural.” “E qual o objetivo?” “Ajudar as crianças a descobrirem os seus talentos.” Eu acho que foi, fechou com isso. Ano passado tivemos dois professores de dança e música, mas eles não entenderam o nosso propósito, eles queriam talentos e a gente não, a gente quer que as crianças vivenciem isso, que eles se descubram, o nosso objetivo é básico, é falar: “isso é música, isso é dança.” E eles não, eles queriam montar um grupo de dança com os melhores...

 

P/1 – Você estava falando da dança, da música...

 

R – Então, os professores não entenderam muito bem a nossa proposta, eles estavam em busca de talentos e as crianças perceberam isso, principalmente na área de dança, começou a ficar uma coisa muito de exclusão: “você sabe, você não sabe, você participa, você não participa.” Nós vimos isso e falamos com a Débora, que estava nos coordenando, pedimos para retirar a professora, que não era essa a proposta, as crianças estavam reclamando muito, os monitores que estavam juntos com as crianças para averiguar essa situação também estavam reclamando; e a percussão estava muito percussão, não é essa a nossa cultura, nós não vivemos só de samba, e era só isso, só isso, entendeu, não era só isso que tínhamos. Mas também não somos da área, não tínhamos uma visão, no entanto, eu falava com a Flávia, ia algumas vezes no CEU e via os professores darem aula de música, eles pegavam alguns instrumentos, sentavam no chão e conversavam, passavam algumas coisas sobre música, não exatamente sobre samba, sobre percussão. Então, fizemos uma proposta para o professor, sabíamos que ela não iria aceitar, porque teria que sair de outro emprego e tal... tá bom, então vamos começar de novo. Eu fui na Fundação das Artes em São Caetano procurar um professor com essas características e a pedagoga falou para mim: “Érica, não existe um professor que saiba tocar percussão, violão, piano, ou ele é bom em uma coisa ou ele é bom em outra.” Mas aí veio um moço, o professor André, que está com a gente hoje, ele entendeu a nossa proposta, sabe, ele é professor de canto, toca um pouco de violão, de piano, o básico que é para ele poder cantar e tal, mas ele não vai nessa metodologia. Temos uma aula de violão sim, só de violão, específica, mas ele entendeu a proposta, então o que ele faz? Muito ritmo, ele ensina notas musicais, ele ensina às crianças o que é um agudo, um grave, músicas folclóricas. O objetivo é esse e ele conseguiu, de uma forma bem legal, fazer isso, hoje o projeto acertou. Nós temos também a parte de dança básica, onde se ensina alguns ritmos de rua, o break, o street, fazemos os módulos de dança, balé, e as crianças aceitam, elas fazem, gostam. Também passamos um pouquinho de alongamento para eles, já que é tão necessário e a gente não faz isso, mas deveria fazer. É música para as crianças e educação física. Infelizmente, uma hora não dá para eles fazerem os três, então educação física todas as turmas têm, porque eles vêm aqui para brincar, temos isso como prioridade: eles vêm para brincar, é um passatempo deles, não é uma escola, é um projeto social, o que eles querem é jogar bola, é piscina, mas no meio de tudo isso eles têm uma aula de música, uma aula de dança, todos têm tudo. Um projeto demora para você mexer e estruturar, e quando dá tudo certo, desaba, tem que voltar tudo de novo. Então, o projeto passa por essas coisas, como ele também já teve basquete com a jogadora, a Janeth, a Janeth veio, ficou um ano conosco, ela deu basquete para os adolescentes, daí não deu mais certo por questões governamentais, porque é um incentivo ao esporte, não tinha mais esse orçamento e acabou que ela saiu. Portanto, o projeto tem essas alterações. Hoje tem educação física, dança e música.

 

P/1 – E quando o projeto começou, logo no início, quando vocês começaram a desenhar o projeto, falar sobre eles, quais eram os esportes, o que vocês ofereciam? Bem no comecinho.

 

R – Era só uma hora de educação física, era piscina e quando estava frio ou chovendo dávamos jogos recreativos, iniciação esportiva. Eu comecei a trazer algumas brincadeiras que tive no estágio lá nos Estados Unidos, tive uma ótima professora lá, fui estagiar com ela e trouxe muitas brincadeiras americanas para cá, o quatro bases, que já é bem conhecido aqui no Brasil, mas é uma brincadeira que é de lá, porque é meio beisebol, tem as bases... então, eu trouxe algumas brincadeiras recreativas. Hoje mesmo, no campeonato de vôlei eu estava fazendo uma brincadeira que aprendi lá também, o vôlei adaptado para jogar com todas as crianças ao mesmo tempo, que é a educação física propriamente dita na escola. Quem é bom professor que vai atrás de brincadeiras e tudo, ele sabe algumas brincadeiras bem instrutivas que trabalham a parte de coordenação motora, de equilíbrio, de reflexos, de imagem corporal. Então, tentamos abranger toda essa parte da educação física mesmo, embora seja um projeto, tem que ter conteúdo; as crianças fazem esses jogos recreativos, estafetas, que são fileiras onde eles correm, põem a bola, tiram a bola, na ginástica olímpica temos um módulo que é em agosto, quando está frio. A educação física não mudou o conteúdo dela, entendeu, sempre foi isso, então, quando tem oportunidade, está calor, tem a piscina, a criança vem aprender a nadar, e quando não dá pra ir à piscina, por vários motivos, o frio, a piscina quebrou, a maioria da classe esqueceu a sunga e o maiô, enfim, damos essa ênfase no aprendizado dentro da educação física com jogos recreativos e brincadeiras, e a iniciação esportiva, como, por exemplo, o voleibol adaptado, que é uma iniciação esportiva, eles aprendem o que é três toques, que tem o saque, que tem a manchete. No futebol procuramos não dar muito... porque é muita cultura, se deixar é só futebol. Mas damos sim, temos os dias de campo livre, quando eles mesmos têm que se organizar, eles mesmos têm que aprender a não se bater, não ficamos apitando no dia de campo livre. Desde o começo foi assim, para vermos como a turminha está. No começo era muito engraçado: “Professora, ele me deu um soco, ele mordeu meu dedo.” E o dedo lá, inchado; víamos que eles não tinham essa capacidade de se organizar e de brincar sozinhos, então, fazemos a nossa atividade ensinando regras, normas, procedimentos, o que for, vamos ensinando até que eles cheguem num nível que possam brincar sem se bater, sem dar carrinho um no outro, sem morder o dedo, sem dar soco na cara. E melhoram bastante, é incrível. Claro que também falamos: “Se alguém chorar vai sair e vai ficar sentado.” Daí, ninguém chora. É isso que a educação física faz, isso foi desde o começo, esse jeito da educação física não mudou, o que mudou foi as aulas de música e de dança que aumentaram, mas no comecinho foi assim.

 

P/1 – E como foi o início da sua experiência de começar a dar aula para as crianças dessa comunidade, o que foi mais difícil?

 

R – A criança, acho que nem é por questão da comunidade, tem dificuldade de aceitação de uma pessoa mandar nela, um professor substituto sofre, porque já fui substituta e vejo que quando chega um estagiário novo, alguém novo para dar aula eles não obedecem, mas isso eu acho que não é só uma questão do projeto, é da criança em si. Então, quando eu cheguei ninguém me obedecia, falava e eles não aceitavam, eles brigavam entre eles, pedia para ficar quietos e ninguém ficava. Daí, tivemos que começar a colocar algumas coisas, pontos negativos se fizer isso, até eles entenderem que tem um professor e que o professor vai cuidar da classe. Chegamos até a mandar um ônibus embora uma vez, por bagunça, porque não dava para dar aula, mandamos todo mundo embora, e, no dia seguinte, eles voltaram umas florzinhas, porque eles sabem que o professor tem autoridade para mandar o ônibus embora. Foi essa a dificuldade, me lembro como se fosse hoje, lembro até a carinha das crianças me dando bronca, falando que não iam fazer. Eu olhava para a Flávia e falava assim: “Nossa, eu acho que eu não vou conseguir.” Era bem no comecinho mesmo, embora eu já tivesse dado aula em alguns lugares, mas não assim, para 45 crianças ao mesmo tempo e ter que criar as suas atividades, dar ali, pela primeira vez, não dar certo e você ter que arrumar. Então, foi considerável, mas depois e hoje já está muito fácil, porque a maioria das crianças, mesmo mudando de um módulo para o outro, a maioria já sabe como é, eles ficam quietinhos, eles sabem que se eles bagunçarem muito o ônibus vai embora, se não conseguirmos dar aula o ônibus vai embora, ou chamamos o pai, tanto é que hoje não temos mais pontos negativos, não mandamos o ônibus embora - mandamos o ônibus embora só uma vez, só para falar: “Tá vendo, pode acontecer.” Então, hoje é muito sossegado, nem parecem crianças, são super tranquilas, são educadas, sempre somos elogiados quando vamos a um passeio. Esse ano entrou uma turminha nova, que foi o IP, e eles estão com dificuldade de disciplina, a monitora não aguenta mais, eles demoram um pouco para entender que não é oba-oba, é um projeto social, mas tem as suas regras, enquanto as outras classes já não tem mais problemas, então, toda classe que chega passa pela mesma situação, de adaptação, depois acostuma. Por exemplo, essa turma do IP, da tarde, não ganhou o Hopi Hari porque não tem condição de levar, eles se batem, se estapeiam, imagina ficar três horas num ônibus com crianças se batendo, se estapeando, não obedecem, manda sentar, não senta. Então, eles sabem que eles não foram para o Hopi Hari porque eles estão ainda indisciplinados, e isso já vai mudando a cabecinha deles, enquanto todas as outras turmas foram, entendeu? Então é isso, não é porque a gente não quer levar, é porque não tem como levar, é colocar as crianças em risco, uma criança que não obedece não pode ir, isso vai disciplinando e mudando eles.

 

P/1 – Ele está perguntando da faixa etária, mas eu queria acrescentar também sobre os adolescentes, como funciona com os adolescentes?

 

R – Na verdade, no início vinha todo mundo junto, de 07 até 17 anos, e a questão da quantidade de crianças também não foi bem estipulada no começo, para cada entidade, foi visto apenas a necessidade de cada entidade e não a nossa condição de atendimento. Então, a Clyde, por exemplo, ela trazia 86 crianças, vinha um ônibus e meio, tínhamos que atender num mesmo período 86 crianças, em uma hora, com duas professoras, quem ajudava era a professora da própria Clyde, nós dividíamos em três grupos, um ficava na piscina, um ficava no ginásio e um ficava no campo, era uma loucura, era muito difícil atender com disparidade de idade tão grande e fomos tendo que arrumar isso. Então, nós, educadamente, fomos falar com a Clyde que não era justo uma entidade poder trazer 45 crianças e outra 86; 45 por causa do ônibus, é o numero de lugares que tem no ônibus, então, a gente otimiza o ônibus porque, na verdade, não poderiam nem ser 45 crianças em um horário, no máximo 20 para você poder atender bem, mas tem que otimizar o ônibus, o ônibus é muito caro, então tudo bem, com duas professoras a gente começou a dividir. Daí que vinha o problema, qual turma que vai para a piscina e qual turma fica sem a piscina? No dia que chove, a turma que era para ir e não vai, fica uma loucura. Nisso, a gente foi falar com a Clyde, a Clyde entendeu que eram só 45, só que com 45 ficava muita criança de fora, o que fazer? Na época surgiu o projeto Janeth que iria atender os adolescentes, crianças acima de 13 anos. Nós pegamos até pré-adolescentes, de sete a 12 anos, com 12 anos a criança tem um estirão muito grande, ela já é muito maior que o outro, vai para piscina abraça o outro, já tem mais força, vai jogar bola, machuca. Então, a gente fez a divisão de 7 até no máximo 12 anos, de 13 a 17 viria para o projeto Janeth. Então, vinha o ônibus, e quando a Janeth saiu, logo em seguida parece que entrou o Lucélio, ele pediu uma redução de custos do ônibus para poder investir em outra coisa dentro do próprio projeto, então, nós cortamos o ônibus das crianças de 13 a 17 anos, considerando que eles podem vir a pé. Nessa, a Clyde ficou de fora, porque é muito longe, então, nós não atendemos as crianças da Clyde de 13 a 17 anos. Quando há necessidade eles mandam junto com a turminha, é um ou outro que fica lá, que precisa, mas é uma necessidade da Clyde mesmo, então a gente tem uma pequena exceção, mas eles sabem que não dá certo, que a criança maior acaba atrapalhando a atividade. Então, de quarta e sexta a gente atendia as turmas de obesos, grávidas, terceira idade e soro positivo. A turma do soro positivo encerrou as atividades, a casa fechou, era uma casa das irmãs aqui em cima, e fechou a casa, então encerrou a atividade. As grávidas nunca vieram, não tinha essa turma formada; os obesos podiam muito bem ser incluídos com as crianças, é atividade física para todo mundo. Então conseguimos colocar de terças e quintas as crianças de ônibus, e quarta e sexta melhor idade e crianças de 13 a 17 anos, só que não tem ônibus mais, nem para a terceira idade, porque eles podem pegar o ônibus normal, sem pagar, e de 13 a 17 podem vir a pé, não tem necessidade. É longe, dá dó, viu, mas eles têm tanta energia que nem ligam, nunca ninguém reclamou. Agora o que é difícil é a transição da criança de 12 anos para 13 anos, o pai normalmente não quer deixar vir a pé, é onde a gente perde um pouquinho de crianças, mas aí depois ela faz 14 anos e pode voltar, conversamos bastante com os pais em relação a isso. Com o corte do custo do ônibus podemos investir mais em lanche, passeios, e ficou legal, atendemos essas crianças, é menos, só damos 30 vagas, mas quando chega no fim do ano só tem 20, porque eles saem para trabalhar, eles vão procurar estágios e tal, fica uma turminha menor. Eles têm um diferencial dentro do projeto, além da comunicação entre eles ser diferente, porque eles já se consideram adultos, fazemos churrasquinho para eles, na páscoa damos caixa de bombom, diferente das crianças que ganham um ovinho, as crianças tem cachorro quente nos eventos, não tem como dar um churrasquinho; os adolescentes não, eles jogam futebol, parece coisa de gente grande mesmo, comem churrasquinho depois, eles adoram, tem um diferencial, eles sentem esse diferencial. Nos eventos eles sempre apresentam dança, o que não tem como fazer com os outros. Então, atendemos as crianças de 13 a 17, de 18 já não mais porque eles precisam trabalhar, alguns querem ficar, mas eles sabem que têm que trabalhar e procurar os estágios. Só a Clyde mesmo que não teve como fazer, e aí tem a Capuava, a Junta e a Sonia Maria, a Sonia Maria entra nessa turma de 13 a 17 anos somente. 

 

P/1 – E como funciona na Sonia Maria, como funciona a mediação com os monitores?

 

R – Então, não tem, a mãe fica sabendo... Colocamos uma faixa em uma igreja ali de esquina, que seria a principal igreja ali do bairro, uma igreja católica; pedimos para o padre falar para a comunidade que tem o projeto. Tem uma senhora que é líder das senhorinhas da igreja, ela também nos ajudou com as inscrições das crianças, fez uma reunião com os pais para a gente, mas ela não cuida desse projeto. Então, somos nós e o boca a boca do Sonia Maria. Esse ano saiu no jornal o projeto e uma mãe ligou: “eu quero colocar o meu filho.” Mas o filho dela tem sete anos, mas mesmo assim a gente não pode recusar. A nossa ideia é dar algumas vagas para o pessoal do Sonia Maria, o ônibus da Junta passaria na Junta e dez vagas ficariam para o Sonia Maria, pegaríamos 35 vagas na Junta, passaria no Sonia Maria e pegaria mais dez. Mas não houve inscrição, só essa mãe que ligou, eu acho que está mal divulgado, apesar que teve no jornal, tanto que essa mãe ligou, eu não entendi porque a comunidade não veio até nós. E daí, abrimos para esse menino. Como é um menino, a mãe tem que trazer ele até a Junta, a mãe tem condição de levar, tanto é que a mãe vem junto de vez em quando, participa, como é a única mãe do Sonia Maria, é importante que ela venha; o filho dela está com a gente, é o único de 7 a 12 que pega o ônibus para vir, no Sonia Maria. O restante é de 13 a 17.

 

P/1 – E agora fala um pouquinho para a gente do Ecofashion, qual é a história?

 

R – O Ecofashion surgiu através do Lucélio, por isso que eu falo que o Lucélio é uma peça fundamental no projeto, ele fez muitas mudanças; no dia dessa reunião que ele falou da parte cultural desse projeto, que só tinha educação física, falou que queria aula de cidadania e que queria um Ecofashion. E nós: “Ecofashion?” Eu quero que vocês atendam essas crianças, eu quero um oftalmologista, eu quero um odontologista; eu falei: “Nossa, tá difícil.” Achei ele meio assim, mas ele foi muito bem nas colocações dele e comecei a procurar fundações. Só para a gente chegar no Ecofashion, vou falar um pouquinho também das outras coisas ... A minha irmã trabalha na Bidim, ela tem uma parceria com um oftalmologista, é uma fundação de oftalmologia, comentei com ela, ela me falou: “Eu tenho.” E me passou o contato. Você vê, é só a gente querer, é só comunicação. Ela me passou o contato, eu liguei, e hoje nós atendemos as crianças gratuitamente. No começo eu levava, ia até a estação de metrô mais próxima, porque a Mozzato não entra em São Paulo, é área restrita, íamos até a estação de metrô, lá pagávamos para as crianças, o projeto pagava, íamos até a Paulista, colocávamos todo mundo num táxi e descíamos; as crianças eram atendidas, eu e a Flávia ajudávamos, uma mãe ou outra ia para ajudar, e era assim. Só que a gente perde o dia de trabalho, ou o sábado, então, agora eu vejo se a mãe pode levar, cobro o interesse dela em levar, se ela não tem condições ajudamos na passagem. Conseguimos o Dentista do Bem, não sei se você já ouviu falar, fala muito na rádio, é mundialmente conhecido, é um projeto, uma ONG que convida dentistas a participarem e dão tratamento gratuito, inclusive aparelho até os 18 anos, independente se a criança está no projeto ainda ou não, então é uma loucura, todo mundo quer uma vaguinha, acontece uma triagem no clube, esse ano 30 crianças ganharam o tratamento; as crianças chegam com aquele aparelho: “professora, olha o meu aparelho.” É bem legal. Isso tudo foi graças ao Lucélio que nos incentivou, sem ele ninguém nunca teria pensado em ir atrás disso, ele incentivou e uma coisa levou a outra, até chegarmos nas fundações e o projeto cresceu com isso. Os óculos também são gratuitos, é bem legal. E quem faz os testes somos nós, tem uma lousinha, a gente põe lá uma planilha com as letrinhas que o consultório manda, e nós mesmos fazemos; se a gente detecta um problema, chamamos a mãe, perguntamos se ela sabe. O projeto está preocupado em cuidar da saúde também, tem o exame médico, tem o dentista, tem o oftalmologista, tudo muito legal. E aí ele falou do tal Ecofashion, ele falou: “olha, eu quero paródias escrito Braskem.” porque aí já veio a Braskem. “Quero umas músicas curtinhas, quero que as crianças dancem essas músicas, quero um desfile com roupas recicláveis e reutilizáveis.” Eu falei: “Tá bom, eu sou da educação física, tá?” Eu e a Flávia não recusamos nada, o chefe mandou vamos fazer. Daí veio a aula de cidadania, contratamos uma professora que tinha a matéria na faculdade, ela tinha acabado de se formar, ela estava no último ano e tinha a matéria de recicláveis, e ela falou: “Érica, eu tenho umas roupas em casa, sei fazer algumas coisas, tem umas pessoas conhecidas, a gente pode fazer, a gente paga uma costureira.” E eu nem sabia que as roupas iam ficar tão boas. Nós falamos: “tudo bem.” E na verdade, ela nem falou para gente que ela iria pagar uma costureira, ela foi uma gracinha, sabe, e as coisas começaram a acontecer, a gente via as crianças participando: “você quer assim, você quer assado?” A estrutura foi essa professora que fez, eu e a Flávia ficávamos olhando. “Precisa de alguma coisa?” “Precisa de caixinha de leite.” Íamos lá e arranjávamos as caixinhas de leite, só ajudávamos, mas foi ela quem fez todas as roupas e escolheu as crianças. No primeiro Ecofashion íamos fazer uma passarela com pallets, olha que coisa chique, íamos colocar um tapete em cima, uns tatames, me lembro que o Lucélio tinha uma moça aqui na coordenação, o nome dela, acho que era Marcela, Gabriela, não me lembro, e ela falou: “ah, Érica, eu não tô com muito tempo para ajudar na parte estrutural, então eu vou contratar uma empresa para fazer a estrutura da quadra, vamos fazer aí no clube mesmo, vamos pôr uma passarela, um lanche.” Eu falei: “Nossa, vai contratar uma empresa, que bom.” Ah menina, quando eu fui ver, quando chegou no dia era um show, sabe, era um Ecofashion mesmo, as crianças não imaginavam que ia ser aquilo, eu também não. Colocamos todas as crianças na arquibancada, cada turminha no seu lugar, fizemos os pompons e a professora já tinha as musiquinhas da faculdade dela, tipo assim, a musiquinha do pato: “lá vem o pato.” Daí ela só mudou a letrinha “lá vem o lixo, vamos todos reciclar lá lá.” Era uma coisa bem bonitinha. Os pais vieram, tinha as cadeiras para os pais sentarem, tinha um café, nós convidamos amigos nossos para serem jurados, nós que fizemos, as professoras, e a estrutura que a Braskem deu, completou o cenário. Entraram aquelas roupas maravilhosas, ninguém sabia que ia ser daquele jeito, e virou um sucesso, a comunidade gostou, as crianças se empenharam, ganharam os prêmios. Para você ter uma noção dos prêmios: eu fui pegar um cartão, aqueles cartões que você compra no supermercado, um vale cartão de 50 reais foi o prêmio; de 100 reais para o primeiro lugar, 50 para o segundo e uma cesta que a cooperativa mandou, o patrocinador, para o terceiro lugar, umas roupinhas da loja da cunhada da Flávia para os outros lugares, era uma coisa muito caseira. Só que deu certo, foi legal, as roupas estavam bonitas, o evento agradou, o pessoal da prefeitura começou a ver, o pessoal da Braskem começou a ver com bons olhos, viu que aquilo era uma aproximação com a comunidade, e no ano seguinte já foi uma coisa muito mais glamorosa. A segunda edição foi no teatro municipal de Mauá, a prefeitura foi envolvida, os secretários de meio ambiente, o júri já não eram mais os nossos amigos, eram pessoas já... A professora da FEFISA, que até mandou alunos para nos ajudar a fazer os modelos de roupas. A coisa foi crescendo, os prêmios já não eram mais cestas da cooperativa, eram notebooks, câmeras fotográficas, televisão; a coisa cresceu, e, claro, que quem deu uma ajuda para que tudo isso acontecesse na segunda edição foi a Débora, ela abraçou o projeto. Ela chegou aqui na Braskem e como nenhuma outra pessoa fez, ela nos conheceu, conheceu o projeto e teve interesse, ela começou a coordenar essa parte de Ecofashion de uma forma que parecia que era o filho dela. Ela gostou mesmo, ela sabia que o Lucélio gostava disso e ela fez de tudo; nessa edição, ela fez um vídeo para convidar as pessoas a participarem, ela fez coisas bem legais. As roupas também foram bem legais, teve uma revista, a Dia-a-Dia, que fez uma sessão de fotos com os 20 finalistas, imagina essas crianças? As mães participam do feitio da roupa, a Luci que foi quem fez as roupas no primeiro ano não estava mais com a gente, então quem teve que fazer foram os pais. Era legal, porque também não sabíamos o que iria vir, então tivemos que fazer uma pré-seletiva antes do dia do desfile, todas as crianças podiam participar, apareceram 50 crianças, dessas 50 selecionamos 20, inclusive a Larissa foi ajudar; nós selecionamos as 20 crianças e para as outras não ficarem tristes, bolamos outro evento para elas, porque elas ficam decepcionadas. Criamos a reinauguração da quadra esse ano, onde elas tiveram que desfilar, os 20 selecionados foram fazer as fotos na revista Dia-a-Dia, foi um dia de show para eles, de glamour, de modelo, sei lá o que eles sentiram; os pais foram juntos... Teve também a virada sustentável, nós fomos convidados; tudo graças à Debora que entramos em contato com esse mundo da sustentabilidade. Fomos também, teve um desfile, foi num domingo, os pais foram juntos. A cada ano crescendo um pouquinho mais, vamos ver o que vai vir ano que vem agora.

 

P/1 – Fala um pouquinho da Virada Sustentável, como funciona?

 

R – A Virada Sustentável foi feita esse ano lá no Ibirapuera, são setores, eles montam umas tendas, e cada tenda tem uma finalidade. Eu vi lá a nossa tenda, que era um palco, cadeiras, estávamos apresentando um desfile de sustentabilidade, do lado tinham massagens, provavelmente alguns cremes que não agridem o meio ambiente, ou que são feitos sem usar animais para teste. Eu acredito que seja muito voltado a isso, tudo que é voltado ao meio ambiente, à sustentabilidade, modos de não poluir; as pessoas vão lá e apresentam coisas relacionadas a isso. Não tive oportunidade de ver a feira toda, tive que ficar concentrada na minha turma e depois fomos embora. Mas pelo que entendi a Virada Sustentável é isso, parecem que foram três dias de Virada Sustentável, o tempo todo com atividades, toda hora as pessoas que passam ali pelo parque estão participando, eu creio que seja isso.

 

P/1 – E para sua turma, como foi participar?

 

R – Então, foi legal, as mães entendem um pouco mais e sabem do valor; para as crianças é sempre uma aventura ter que ir lá, aquela emoção, aquele nervoso, talvez elas não saibam ainda o quão importante é isso, porque estão participando de coisas para melhorar o ambiente no futuro, para que a gente tenha uma vida melhor, os filhos delas. Então, agora, talvez elas não saibam da importância, mas para elas foi muito legal chegar lá, ser atendido por outras pessoas, ter que se trocar. Eu perguntei se alguma criança já tinha ido ao Ibirapuera, então, também tiveram a oportunidade de conhecer o parque, de estar junto com os amigos, com a mãe, eles gostaram bastante.

 

P/1 – Agora, Érica, eu vou encaminhar a entrevista para uma parte mais final, vamos voltar um pouquinho para as questões pessoais, o que você gosta de fazer nas suas horas de lazer? Você é casada, tem filhos?

 

R – Bom, eu sou casada, me casei em fevereiro desse ano, não faz nem um ano ainda. O meu marido é professor de dança de salão. Quando encerrei a minha carreira de vôlei já nem podia brincar mais, tive um desgaste no fêmur, tenho uma rotura na supra espinhal, tenho hérnia cervical, então, assim, eu realmente não posso mais jogar, fui proibida pelo médico. Então fui dançar, conheci o meu marido na dança de salão, comecei a fazer aula e num baile conheci o meu marido, o que me deixou muito feliz, porque como sou uma mulher muito alta, nunca pensei que iria encontrar um dançarino alto também; pensei que iria encontrar um jogador de vôlei, de basquete. Fiquei super feliz. Começamos a namorar e a entrar nesse mundo de dança, e incentivei o meu marido a começar a dar aula de dança de salão, porque achava que ele dançava muito bem, ensinava muito bem, tinha paciência. Começamos a participar de uns projetos gratuitos para ensinar as pessoas gratuitamente, mas a gente também tinha sonhos e vontades, precisava ter uma renda, eu sou professora de educação física, ele trabalha com pintura, gesso, textura, então, para ajudar o salário, vamos dar aula. Montamos uma turminha, conseguimos um espaço, foi um moço que começou a fazer aula com a gente, ele deu o espaço para gente, em troca ele faria aula de graça. Demos dois anos de aula juntos, foi bem legal, mas eu saía muito tarde do serviço, hoje eu saio mais tarde ainda, na época eu tentava sair 7 horas, 7:30, e estava dando aula até as 10 horas, estava muito puxado, então eu larguei, falei para ele que eu não queria mais dar aula. Mas nesses dois anos eu tive que aprender a dançar, fazíamos aula de tudo, de samba rock, de gafieira, víviamos nos lugares fazendo aula, foi bem legal, bem divertido, aprendi bastante. Não sou muito boa na dança, mas sei me virar, me divirto quando vou para um baile. Eu achava que esse era o meu hobby, mas não era, tem outra coisa que é minha paixão: eu sou protetora de animais. Trabalho numa ONG, é uma história longa, vou encurtar um pouquinho. Eu tinha medo de cachorro, minha mãe sempre me mandou desprezar os cachorros e gatos; comecei a trabalhar aqui na Braskem em 2006, praticamente o dia inteiro, e via os cachorros serem atropelados, aquilo começou a me doer, muitos filhotes sendo jogados no clube, gatos magros, aquilo começou a mexer com o meu coração, e eu falei: “Nossa, eu acho que tem alguma coisa aí que eu posso fazer.” Daí comecei a dar comida, não podia, o meu chefe falava: “Não pode!” As pessoas começaram: “não quero cachorro aqui.” Aquilo começou a crescer dentro de mim, começou a brotar, brotar e eu falei: “Não, eu nasci pra isso.” E é a minha paixão. Hoje queria ser veterinária, mas é muito caro e eu saio tarde do serviço, mas eu sei que um dia vou ser. Comecei a ver que os cachorros não me mordiam, que os gatos me amavam, que eu dava uma ração e eles começavam a me seguir e sou protetora hoje. Um dia fui levar um filhote no CCZ de São Caetano, e eu briguei para colocar o filhote lá, no dia seguinte fui ver o filhote e vi que os cachorros estavam presos, eles não saíam das celas, eu falei: “nossa, eu tenho que fazer alguma coisa, Deus vai me capacitar.” Hoje sou coordenadora de um projeto dentro do CCZ, faço a cãominhada toda segunda-feira lá, já tem de quinta também, consegui dividir o grupo, já estou até entrando na política de São Caetano por causa disso, porque eu tenho que brigar com os vereadores, com os prefeitos. Agora com essa eleição louca, a gente vai atrás deles para pedir para assinar documentos para proteger os animais. Então, assim, eu comecei sozinha, eu passeava sozinha com aqueles cachorros, tinha um monte de gente que me achava doida, estava chovendo, eu estava debaixo da chuva com aqueles cachorros; fiquei três meses sozinha, todo mundo achava que eu iria desistir, aí encontrei um jornalista que me ajudou, ele colocou uma notinha no jornal perguntando se alguém poderia me ajudar, apareceram 20 pessoas lá, todos loucos, malucos e eu achava que eu era a única louca. Hoje sei que tem muito louco, é muito legal, eles falam a minha língua, fazemos um monte de trabalho, brigamos com o pessoal do CCZ direto. De vez em quando, aparece um doido lá para ajudar e temos até que mandar embora, porque tem gente que extrapola. Fazemos uns mutirões de castração, a minha sogra mora num lugar muito ruim em São Mateus, eu acho que eu já castrei todos os animais da rua dela. Eu ponho no meu carro e levo para o médico aqui embaixo, o meu carro está detonado, eu levo para o médico aqui embaixo, é bem pertinho aqui do clube. O meu sonho é que a Braskem, um dia, fale: “nossa, vamos ajudar os animais de Capuava.” Porque tem muito, né? “E vamos patrocinar uma campanha de castração no final de semana.” É o meu sonho, eles têm condição de fazer isso, não é caro, é muito barato, se você for ver, se pegar um veterinário de uma ONG, tem muita gente aqui que eu sei que gostaria, mas uma castração é 120, 160 reais, é uma coisa tão fácil, tão nobre, mas eu não sei porque quem pode não ajuda. É isso que eu queria, entendeu, queria mudar essa situação, é o meu hobby, é o que eu faço hoje. O meu fim de semana é todo voltado para isso, quando eu não estou trabalhando pode ter certeza que estou mexendo com cachorro, com gato. E se você for lá no clube você vai me ver com a panelinha na mão, provavelmente indo por ração. Eu tenho uma gata de estimação no clube, já tive que brigar com um monte de gente para ela ficar aí, ela ficou doente uma época, porque ela precisava de uma transfusão, fiz a transfusão nela e ela é linda, linda, linda, ela fica aí. Estou proibida de dar comida para os cachorros, mesmo assim, eu já doei muito cachorro, já ajudei muito, porque os cachorros acabam ficando, porque tem churrasco. Quando aperta muito eu ajudo, dôo cachorros e tudo, Deus me ajuda muito, porque você acha que não vai conseguir doar um cachorro feio e grande, mas vai, sabe? O meu chefe está até mais feliz hoje com os animais, porque ele sabe que eu cuido. Tem muitos cachorros aí a noite, mas não é culpa minha não, é por causa do churrasco, o clube é aberto embaixo, mas estou proibida de dar comida para eles, eu não dou, mas se eu vejo algum machucado eu cuido. É o meu hobby, é o meu sonho, é a minha vontade, mais do que tudo na minha vida, até o meu marido fica em segundo plano.

 

P/1 – E agora eu queria te fazer mais umas perguntinhas e a gente vai encerrar, o que significa para você trabalhar nesse projeto social?

 

R – Isso é uma história de vida, é uma conclusão de uma profecia, que eu te falei no começo, foi uma profecia isso na minha vida, que eu iria trabalhar com crianças carentes. Eu sempre quis ajudar o próximo, e hoje eu ajudo, sou remunerada para isso, mas não deixo de ajudar. Não é tudo que eu faço aí hoje, o que eu deveria fazer. Acredito que mais de 40% do que eu faço no meu trabalho, hoje, é porque eu gosto, acho que esse é o diferencial, estou aqui, passei por vários chefes, ainda estou aqui, vou completar seis anos de projeto social, no clube estou há mais tempo, estou há mais de dez anos, porque eu trabalhava com vôlei no clube, então, assim, acho que o meu diferencial, e não tiro os méritos da Flávia também, a minha parceira de trabalho, a gente sempre se deu bem juntas. Eu acho que isso é o principal do projeto, acontecer do jeito que ele acontece, se não tem verba para comprar ovo de páscoa para as crianças, não tem problema, a gente sabe que a verba vai vir, nós fazemos um bingo. Agora dia 5 de setembro nós fizemos um bingo, e nesse bingo juntamos dinheiro e compramos ovo de páscoa. Não sei, eu acho que muitos profissionais têm essa visão, mas eu acho que esse é o nosso diferencial, o carinho, pegar crianças e colocar no seu carro e levar para o dentista quando ela não tem como ir. Eu acho que não é só ser profissional, é ser humana em primeiro lugar, acho que por isso o projeto vai bem, as crianças gostam, não é um projetinho, é um super projeto. Levamos as crianças para o Hopi Hari, só um grupo ganhou o ingresso para o Hopi Hari, da empresa, o resto dos grupos fomos nós que conseguimos, entendeu? É bem legal poder ter um trabalho aonde você pode ajudar, saber que o seu diferencial é que você ajuda. Tem trabalhos que você não pode ajudar, que se você sair daquela coisa o seu chefe não vai gostar. Você fica limitado, e esse projeto me dá asas, quanto mais eu fizer para ajudar, melhor para o projeto, tem coisa melhor do que isso? Não tem. Então, assim, não tenho um chefe direto que fala: “você vai fazer isso, isso, isso.” Não, eu sou livre, mas também se der errado é culpa minha. Por isso que a gente tem a equipe, o André, a Flávia, o Ricardo, o Júlio, é uma equipe que trabalha ali no clube. Esse projeto para mim é o cumprimento da palavra de Deus na minha vida, ele me deu essa oportunidade de poder ajudar as pessoas. Tenho o hobby que é ajudar os animais e a oportunidade de ajudar as pessoas. Eu não quero outra coisa na minha vida, é a felicidade plena, estou muito feliz com isso. Acho que as crianças são bem atendidas, elas têm esse privilégio. Perguntamos para elas, tem um questionário que a gente faz no final do ano: “Como você se sente sendo aluno do projeto social da Braskem?” Elas falam: “Diferente, privilegiado.” Na escola já pedimos um relatório de como as crianças do projeto são lá, e eles falam, eles se sentem importantes porque eles são do projeto. É bem legal, tem um efeito muito positivo sobre as crianças: elas aprendem a nadar, se elas forem para uma praia, uma piscina, eles vão saber nadar. Quantos senhorzinhos da terceira idade, alunos meus, falam: “eu não sei nadar, Érica.” Porque não tiveram oportunidade. Então, o projeto é concreto, ele ensina, ele é visual, você vê que eles estão aprendendo alguma coisa, eles têm disciplina, é uma coisa que no futuro eles irão olhar para trás, talvez contar a história da vida deles para vocês, eles vão falar: “tinha um projeto no qual eu ia.” E aí eles podem falar n coisas, não sei. “Mas eu aprendi a nadar lá, eu aprendi música, eu aprendi isso, aprendi aquilo.” É isso. 

 

P/1 – E qual foi o seu maior aprendizado?

 

R – Olha, eu ainda estou aprendendo, não foi, ainda é, eu ainda tenho muita coisa pra mudar em mim, quando a gente nasce a gente carrega cargas, da sua família, do seu perfil, e quando você trabalha com população você tem que aprender a mudar isso. A gente fala que ninguém muda, mas tem que mudar, a exigência dos pais em cima de uma pessoa que está à frente de alguma coisa, de um líder, é muito grande, imagina o que o presidente do Brasil não passa. Se eu que sou uma simples professora passo, então muitas vezes você faz e não está bom, os pais reclamam, você ajuda e não está bom, então você tem que aprender a se moldar perante as necessidades que o projeto existe. Foi muito difícil, tive muitas mães que vieram conversar comigo: “Érica, não pode ser assim.” Então, todo dia eu aprendo, todo dia eu mudo, você tem que ter mais paciência, são crianças, você tem que ter jeito para falar com elas. Todo dia estou aprendendo, essas crianças me ensinam a ser uma pessoa melhor, sabe, porque é muito difícil, muitas vezes você está com um problema, aí você vai lá e grita com uma criança, a criança não tem culpa, então você tem que estar sempre se policiando, aprendendo com elas. Fora a questão profissional, inventando brincadeiras novas, você está sempre crescendo. A questão emocional é muito forte, então você tem que estar sempre muito preparado, tínhamos até um psicólogo no projeto para nos ajudar, mas ela teve que sair. Pegamos crianças com problemas e temos que ajudar essas crianças, você não pode excluí-la simplesmente, seria mais fácil, mas não pode. Você aprende a cada dia com isso.

 

P/1 – E o que você acha desse nosso projeto de resgate de memória, de contar essa história através da história de vida de vocês?

 

R – Ah, eu achei super interessante, porque, assim, eu estou falando da minha vida, para mim a minha vida eu conheço, mas quando a dona Lúcia começou a falar da vida dela, é muito curioso, eu acho isso muito curioso, você saber da vida de outra pessoa. É muito legal ser ouvida, você desabafa. Eu falei, parece um trabalho psicológico, mas você fala das coisas boas da sua vida, pode ver, a gente não falou das coisas ruins, porque o que fica são as coisas boas. E saber da vida de outra pessoa é fantástico. Quando a dona Lúcia começou a falar da vida dela eu fiquei vidrada de saber como ela começou nesse projeto, porque ela é uma líder de comunidade, foi através do que, de quem, o que ela já passou. É muito fantástico, é muito legal.

 

P/1 – E como foi, para você, participar desse projeto, dar essa entrevista, conversar com a gente?

 

R – Eu acho que eu falei demais, eu achei legal, estou bem contente de ter falado, de ter me expressado, de vocês terem me ouvido, muito obrigada. Espero que as pessoas gostem de ouvir a história do projeto. Achei legal também a minha vida ser ouvida, aqui hoje, espero que as outras pessoas possam ter passado por tantas coisas: poxa, eu tive uma viagem, tenho um hobby, estou vendo aqui agora que eu sou uma pessoa viva, que eu gosto de várias coisas, que tinha muita coisa para falar. É isso que eu espero que as pessoas tenham: vida. Me deixou muito feliz falar da minha vida.

 

P/1 – Então, Érica, muito obrigada de novo.

 

R – Obrigada vocês.

 

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