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História

Ser o seu fio da meada

História de: Celso Adolfo Marques
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2005

Sinopse

Celso nasceu em São Domingos do Prata em 1952. Musou-se para Belo Horizonte, onde dividia seu tempo entre o emprego no DER e a música, sua grande paixão. Enquanto fazia o show autoral "Coração Brasileiro", no Teatro Clara Nunes, Milton Nascimento te assistia. A partir daí, Milton produziu seu álbum, tocou suas músicas em seus próprios álbuns e, enfim, introduziu Celso na cena da música brasileira da época. 

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História completa

P - Eu gostaria de começar pedindo para você dizer seu nome, local e data de nascimento.

 

R – Celso Adolfo Marques, nascido em São Domingos do Prata em 09 de setembro de 1952.

 

P – Você pode falar o nome dos seus pais também?

 

R – Minha mãe é Maria Gonçalves Marques e meu pai José dos Reis Marques e eu tenho mais oito irmãos (risos), é uma galera.

 

P – Como você conheceu Milton Nascimento? 

 

R- O meu contato pessoal com o Milton Nascimento, o primeiro deles, foi num show que ele fez aqui no Palácio das Artes, nos anos 1970, final dos anos 1970, e tinha Wagner Tiso e tinha Toninho Horta e essa turma toda estava lá nesta apresentação, acho que o Nivaldo Ornelas também estava. E dali a turma foi para Rua Vitório Marçola, porque lá tinha um bar, que se eu não me engano era do Tadeu, que posteriormente veio ser dono da Cervejaria Brasil, acho que ali tinha um QG desta turma, e essa turma foi para lá. E terminado o show, quem está começando, quem fica a fim de saber o que está acontecendo descobre tudo, então o Milton Nascimento não tinha como se esconder em Belo Horizonte, não. Eu sei que no final das contas eu descobri que ele e a turma estavam indo para lá e eu fui atrás. Eu nem sabia onde era o bar, tinha pouco tempo que morava em Belo Horizonte, cheguei aqui em 1969, voltei para São Domingos e depois voltei de novo em 1970. Então eu não conhecia muito a cidade não, mas eu ficava zanzando para todo lado. Show, música, Clube da Esquina, aí pá... baixei lá. Acabei descobrindo onde era o bar, rua Vitório Marçola e quando eu cheguei no bar, duro, sem dinheiro, sem ter como entrar no bar e cheio de respeito pela situação, Milton Nascimento, Wagner, aquela turma toda ali, eu não entrei não, eu fiquei ali fora. Mas qual não foi a minha surpresa? Eles saíram do bar e eles se assentaram no meio fio, todos, e o Milton Nascimento sentou ali e alguém entregou o violão para ele e ele pegou e tocou um pouquinho, ele atendeu o pedido da turma que estava ali em volta dele. Cantou Travessia, cantou outras coisas que eram mais conhecidas naquele momento. E aquilo me impressionou muito. Fiquei quietinho no meu canto, eu não conhecia ninguém, e fiquei observando o contexto da turma e fiquei pensando “Como que deve ser entrar nesse mundo da música”, o que é que era aquele troço todo ali. Fiquei com aquilo guardado. Muito tempo depois, não sei exatamente quantos anos, mas cerca de uns cinco anos depois, ele veio passar uma temporada em Belo Horizonte, 1980 se eu não me engano, ele veio para cá. Eu estava fazendo um show em 1982 para 1983, um show chamado Coração Brasileiro no teatro Clara Nunes que antigamente se chamava Imprensa Oficial, na Rua Rio de Janeiro. Então fazendo este show, o Tavinho Bretas levou o Milton Nascimento para me assistir porque ele estava interessado em conhecer a turma daqui. Aí ele assistiu e tal, eu não sabia que ele estava na platéia. Terminado o espetáculo ele foi ao camarim, se apresentou, ficou na fila, assim meio caladão, entre tímido e observador de tudo que estava acontecendo. Daí nós trocamos endereços e a partir dali foi que eu consegui fazer tudo que eu faço até hoje na música profissionalmente, por causa deste encontro e por causa das portas que o Milton Nascimento abriu para mim. Agora, antes de tudo isso, o que ficou no meu imaginário e no imaginário de todo mundo e aquela história do Clube da Esquina, aquilo ficou muito forte na nossa vida. Eu me lembro muito bem de 1972 quando o Clube da Esquina foi lançado, eu encontrei com o Murilo Antunes, eu morava no edifício Maleta, ali na Augusto de Lima, e eu encontrei com o Murilo Antunes circulando por ali e ficamos conversando. Eu recém chegado do interior e um pouco mais novo do que a turma e assim muito ressabiado, porém muito atento, muito atento a tudo, e do outro lado da avenida vinha descendo o Beto Guedes, eu me lembro perfeitamente da imagem do Beto, bem mais novo, evidentemente, todos nós muito mais novos, o Beto com o cabelo curtinho. O Murilo parou, cumprimentou o Beto e me apresentou, foi um encontro bacana, cordial. E eu fiquei sempre com aquele negócio “Cadê o resto do pessoal do Clube da Esquina?”. Eu demorei bastante tempo para conhecer as peças desse universo musical. Mas ali, eu fiquei com aquele negócio. Eu estudava na Escola Técnica Federal, hoje CEFET, e nós montamos uma peça teatral e fomos para Aracaju gravar esta peça e eu era quem tinha feito a trilha para essa peça. Quando eu cheguei a Aracaju qual não foi a minha surpresa? Só se falava de Clube da Esquina, e os jornalistas que foram nos assistir no teatro, era um teatro também da Escola Técnica Federal de Sergipe e outras personalidades também lá de Aracaju, que ainda era uma cidade muito pequena em vista do que é hoje, e todos eles ficaram em volta da gente, porque a gente era a atração da capital de Minas Gerais e eles queriam saber o que acontecia com o Clube da Esquina, do que se tratava isso. Eu felizmente já tinha ouvido aquele disco muitas vezes, milhares de vezes, então eu estava com tudo muito fresquinho na memória e pude falar pelo menos as minhas impressões de mineiro a respeito daquilo tudo para aquela turma toda de Aracaju. Então o cara falou comigo “Acho que vocês não sabem a importância que isto tem para o Brasil, para nós aqui em Sergipe, olha onde nós estamos e a importância deste disco”. Aí foi a primeira vez que eu estive presente no famoso divisor de águas. Eu vi o disco chegar e ser lançado e presenciei situações em que se falava que a música brasileira tinha isso, aquilo e aquilo outro e tinha, a partir de agora as composições do Clube da Esquina. Os músicos de lá ficaram muito impressionados com o universo harmônico e melódico de que são capazes os compositores do Clube da Esquina. Essa é a marca definitiva que ficou em tudo que se fala de música brasileira até o momento. É um negócio muito bonito, muito criativo, muito profundo e muito genial a capacidade de composição dessa turma que fez esta parte da história, é um capítulo muito especial e muito à parte.

 

P - Eu queria que você falasse um pouco também sobre o seu trabalho, Coração Brasileiro, que foi gravado pelo Milton e que posteriormente foi nome do seu disco.

 

R – Bom, o Coração Brasileiro, foi, naquela oportunidade do meu segundo encontro com o Milton Nascimento, que dizer, esse encontro foi definitivo. Então quando eu fiz o show do Coração Brasileiro e o Milton me convidou a ir a casa dele na Rua Paulo Afonso aqui em Belo Horizonte, ali ele falou “Eu quero gravar uma música sua e eu queria que você cantasse para mim novamente algumas delas”, aí ele escolheu Coração Brasileiro. Ainda me lembro de ter perguntado assim para ele, “Quem vai tocar o violão?”. O meu cuidado com o negócio do violão era o fato de que meu violão tinha uma afinação especial, era uma afinação de viola caipira que eu fiz uma adaptação para o violão e tem uma execução de mão direita também especial para aquela música. Ele falou assim: “Você é que vai tocar”, daí eu pensei: “Nossa, agora o bicho pegou”, porque eu tinha entrado em estúdio uma vez ou outra sem o menor profissionalismo, sem a menor preocupação com alguma coisa tão séria. Aí chegou o momento de ir para o estúdio acompanhar o Milton Nascimento cantando Coração Brasileiro. Ele gravou no disco Anima e falou assim: “Eu agora vou produzir o seu disco”. Aí ele me chamou várias vezes aqui na casa dele para gente escolher repertório, aí juntos nós montamos o repertório do Coração Brasileiro. Fomos para o Rio e assinamos o contrato na antiga Ariola e o Marcinho Ferreira sempre ali com ele, acompanhando nosso projeto, acompanhando tudo. Quando esse disco foi feito e o Milton gravou Coração Brasileiro, eu tive a oportunidade de deixar o serviço público, porque eu era funcionário do DER de Minas Gerais, isso foi um marco importantíssimo, eu tive condição de pedir demissão, “Eu Celso Adolfo Marques, matrícula 504772 peço demissão, pananan, pananan, do DER, pananan, pananan”. Aí eu tive segurança de assumir a carreira profissional na música, porque o suporte que o Milton Nascimento tinha me dado naquele momento foi definitivo, afinal de contas foram os primeiros degraus que eu subi nessa escada que não tem fim e são os degraus de alicerce para começar um negócio de verdade.

 

P – Elba Ramalho também foi uma das pessoas que gravou sua música não é?

 

R – É, na mesma época, na sequência. Uai lógico, o Milton Nascimento botou meu nome no disco dele, o disco vai para o Brasil inteiro, sei lá quantas mil cópias, todo mundo fica sabendo. Na época, ele gravando “Milton Nascimento está fazendo disco novo” “Ele está gravando o que, quem é o compositor novo?” aí o trem se espalha. Então a Elba Ramalho escolheu também esta música, “Coração Brasileiro” e no disco seguinte dela de 1985, se eu não me engano, ela gravou outra música minha, Azedo e Mascavo, aí eu já estava um pouco mais descolado e fui gravar com ela com segurança, com César Camargo Mariano. Esse foi o começo forte assim 1983, 1984, 1985, estes três anos foram definitivos para eu poder botar o pé na estrada mesmo e com o meu próprio repertório, com meu trabalho, com minhas músicas. Porque eu sempre fui assim, eu nunca fui intérprete de coisa alguma a não ser cantar o que eu mesmo fizesse.

 

P – Celso, tem mais algum caso interessante que você queira deixar registrado aqui no Museu?

 

R – Olha, a minha convivência com a turma do Clube da Esquina sempre foi muito respeitosa e sempre com certa distância de convivência. Eu nunca me sentei muito com estas figuras, mas já encontramos muitas vezes, é claro. Mas eu tenho a honra de ter essa convivência com Milton Nascimento, que foi fundamental. Mas eu já ganhei um elogio do Beto Guedes e isso para mim foi uma das coisas mais importantes que eu pude ter ouvido na minha vida aqui. Porque o Beto é aquela figura que todo mundo aplica certa definição da maneira de ser e tudo e eu também sempre achei o Beto assim, sei lá… E um belo dia o Beto me assistiu no Cabaré Mineiro. Eu nunca tinha conversado com o Beto assim. Era sempre nesta distância que eu estou falando. Aí o Beto me fez um elogio que foi um dos três ou quatro elogios que eu tive assim que foram muito importantes na minha carreira. O primeiro foi de Paulinho da Viola em 1976, o segundo foi de Milton Nascimento em 1983, depois teve um de uma figura da imprensa, Tarso de Souza, no Rio de Janeiro e depois esse do Beto Guedes, que é um elogio que eu acho muito importante. Todo mundo pode taxar o Beto de monte de coisa, de maluco, de estranho, mas uma coisa, ele tem uma inteligência musical muito especial, então receber um elogio de uma figura dessa é fundamental. Eu acho que isso é uma coisa pitoresca, porque eu não vejo o Beto Guedes se referindo às pessoas assim normalmente, muito estranho, ele não se refere, só fica na dele e tudo.

 

P – O que você está achando desta entrevista para o Museu do Clube da Esquina?

 

R – Poxa, as histórias têm que ser contadas, tem que ser eternizadas, tem que ser preservadas. Eu tive um encontro com o Nelson Motta que nossa conversa ficou no limite da impaciência da minha parte. Porque ele falava da história da bossa nova, falava da história de não sei o que, falava da história do músico tal no Rio, falava da história de não sei o que do Rio e as histórias todas só eram as histórias do Rio de Janeiro e dos músicos do Rio de Janeiro, ninguém mais tinha história no Brasil, aí eu fiquei pensando e teve um momento que eu joguei uma pitada assim na coisa, porque às vezes pega mal isso, mas eu joguei uma pitadinha assim e disse: “Pois é rapaz, será que não está na hora de alguém contar a história de Minas Gerais, partindo do símbolo maior que é o Clube da Esquina? Isso poderia ter acontecido com esse volume de imprensa, porque história tem, inclusive os que não tem fama, os que têm discos gravados mas vendem pouco, juntar tudo, porque tem muita qualidade nesse meio. Quem sabe isso não poderia acontecer, hein?”. Eu falei isso para ele, falei de frente assim, ele desconversou, o assunto não rende, não adianta, o assunto não rende se chegar nisto. Eu não sei, eu não entendo, é uma relação esquisita, eu não entendo porque isto acontece e isso nos leva a esse papel que até parece que é um pouco bobo, de ficar querendo reconhecimento, de ficar querendo botar o nosso reconhecimento na boca do outro, a gente não precisa mais disso não, vamos contar nossa história. Já estamos contando agora. É fundamental contar nossa história. E esse fato aconteceu antes do Marcinho escrever o livro Os Sonhos Não Envelhecem.  Quando ele escreveu eu falei “Opa”. O Tavinho Bretas foi quem me deu este livro de presente e eu falei assim “Opa, começaram a contar a história”. E o Marcinho como integrante do Clube da Esquina, sujeito que escreve e que tudo mais, que pensa e que lê, é uma figura que tem um peso especial neste contexto do Clube da Esquina, pelo lado intelectual dele é um peso especial, o Marcinho Borges.

 

P – E para você, que significado tem fazer parte desta história?

 

R – Bem, eu vim fazendo a minha história musical, ela não dependeria da existência do Clube da Esquina, mas acontece que, por que existiu o Clube da Esquina, várias outras coisas puderam existir. Muitas histórias poderiam ter sido feitas independentes de haverem outras, mas a gente pode guardar muitos fatos que vieram a acontecer pelo fato de ter existido o Clube da Esquina. Porque projetar um grupo de compositores, como foi o caso do Clube da Esquina, projetar uma idéia musical de riqueza reconhecida nos quatro cantos do mundo, isso é inegável, projetar isso é um negócio muito sério. Então eu vim na sequência dos fatos acontecendo, por exemplo, eu sou compositor, vim fazendo músicas o tempo todo, com minha própria cara, mas eu tinha algumas figuras que eram minhas referências, Chico Buarque sempre foi uma grande referência para mim de tudo. Depois qual outra referência que eu poderia estar neste nível Milton Nascimento e seus parceiros e esse trabalho. Depois veio o Lô fazendo o seu trabalho solo, ele e seus parceiros. Depois tem o Beto. Então esse negócio todo, vem o Toninho Horta, pelo amor de Deus, o Toninho Horta. Esse negócio todo, a ação deles, o fato desta turma estar na estrada trabalhando, faz você pensar assim: “Poxa, esses caras são da minha terra, eu também vou nessa”, e fui. Eu guardo esta relação de comportamento, de viagem musical, sabe? O Paulo Leminski tem até uma estrofezinha dele genial que fala assim: “Isso de a gente querer ser exatamente o que a gente é ainda vai nos levar além”. Somos nós, compositores, que fazemos nosso trabalho do jeito que ele é feito. Isso é o Clube da Esquina que fez tudo que foi feito, pessoas que tiveram na sua integridade, na sua maneira de ser o seu fio da meada. E essas coisas estão nos levando além.

 

P – É isso aí, então novamente em nome da Associação dos Amigos do Museu Clube da Esquina eu gostaria de te agradecer. Muito obrigado

 

R – E em especial para cada figura dessas que é integrante do Clube da Esquina devemos render homenagens constantemente, diariamente, porque essa é uma página da história que foi escrita e que vem sendo escrita na música brasileira, deixando respingos de muita inteligência musical para muita gente no mundo inteiro reparar, se tocar e ver que a música é um negócio muito amplo e muito bacana.

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