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História

Ser de verdade, na arte e no social

História de: Patrícia Maia
Autor: Larissa Rodrigues Vieira Jesus
Publicado em: 08/10/2019

Sinopse

Patrícia conta uma história de superação, disciplina, união e muita arte.  Nasceu na região da Casa Verde, em São Paulo, em 1985. Conta que seu pai sempre trabalhou como gráfico, desde que chegou da Bahia em São Paulo, teve oportunidade nessa área, acabou se especializando e trabalhou em grandes empresas na capital. Já sua mãe começou a trabalhar muito cedo para poder ajudar no sustento de sua família, com 11 anos já trabalhava como garçonete, balconista, e por conta disso estudou até a quarta série. Depois, casada, e com quatro filhos, optou por cuidá-los. 

Patrícia lembra de uma infância difícil, com quatro irmãos morando em um quarto e cozinha, mas que ao mesmo tempo os deixava ainda mais unidos. Recorda que suas brincadeiras eram muito corporais, como jogar futebol, vôlei, karatê, tudo relacionado às artes e esportes porque brinquedo em si, ela e seus irmãos não tinham, não. E o principal, que Patrícia destaca, foi a sensibilidade de seus pais por perceberem sua paixão pela dança e sempre apoiá-la em seu sonho de se tornar bailarina, uma modalidade que há trinta anos era para ricos, não para meninas da periferia. E não só seus pais, mas também seus irmãos que tiveram privações para manter suas aulas, compras de uniforme, excursões. Sua família, muito unida, que permitiu que ela lograsse nessa profissão. 

E ela fez por merecer. Sempre foi uma aluna aplicada, nunca faltou a uma aula, sempre se cobrou muito por resultados e podia dançar das oito horas da manhã até às oito horas da noite todos os dias. No colégio, nunca tirou notas vermelhas e sua profissão nunca foi um empecilho para suas obrigações escolares. Com 14 anos, já dava aula o período todo, dividindo seu dia somente com o tempo da escola. 

Depois desse início como professora de ballet, passou a trabalhar em uma agência. Após uma árdua seleção e participação de um evento, Patrícia foi chamada para trabalhar como assistente e de lá para cá sua carreira deslanchou, logo estava dando aulas, cursos, preparando atores e modelos para eventos, e com 18, 19 anos, já estava coreografando. 

Patrícia também não deixou de estudar, se formou em teatro com Beto Silveira e cursou Educação Física, formações que revolucionaram seu modo de trabalhar, de preparar suas aulas, de olhar para os alunos. Diz que gosta muito da metodologia do Beto porque se trabalha com “o de dentro para fora”, e é isso que passa a verdade. Patrícia sempre foi uma bailarina e coreógrafa muito crítica com seu trabalho, e sempre quis passar a verdade, estar íntegra em cena. Diz que hoje só trabalha dessa maneira. 

Além de sua vida como professora e artista, Patrícia se envolveu em um projeto social chamado Vid´Art Centro Artístico. O projeto surgiu no Colégio Humberto Dantas, um colégio Municipal localizado na Casa Verde Alta, colégio onde fez o primário, ela e seus irmãos. Conta que ela foi a escola e perguntou se eles gostariam de uma professora de ballet. A conversa se desenrolou em uma apresentação, em suas palavras, uma coreografia de Enya dentro de três horas de “É o Tchan!”; para sua surpresa, todos adoraram, diretores, alunos, funcionários e os pais. A partir desse cartão de visitas, começou a pensar realmente em um projeto. Inicialmente, entrou na escola com Jazz para depois inserir o ballet. 

Foi uma vitória construir uma sala de balé dentro de uma escola da prefeitura, mas com o tempo, com a falta de apoio, sempre com pressões para fechar a sala ou mudá-los de espaço, Patrícia ficou desmotivada para continuar seu projeto. Seus pais, percebendo tudo isso, resolveram montar uma sala de dança no quintal da casa deles, colocaram algumas folhas de espelho na parede e uma barra. Com isso, o projeto passou a receber a comunidade dentro da casa de seus pais, e ali passou a acontecer o que Patrícia prometeu, montar um projeto social para oferecer ballet e jazz para qualquer pessoa. O projeto cresceu tanto que sua família já está pensando em mudar de espaço, além de se institucionalizar e virar um centro artístico. 

Patrícia, atualmente, trabalha como bailarina, professora, coreógrafa e coordena o Vid´Art junto com sua família. Se vê muito realizada profissionalmente, casada e com uma filha, sua prioridade. Sonha alto sobre a  Vid´Art, sente que ainda falta muito, vislumbra uma sede própria, com aulas acessíveis para todas as idades, com refeitório, com vestiário, uma brinquedoteca para as crianças da comunidade... Eles já têm o apoio comunitário na zona norte. Trata-se de um sonho que ela lutará para se tornar realidade.


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História completa

Eu tive uma infância muito difícil, com quatro irmãos morando em um quarto e cozinha, e hoje, que também sou mãe e que acompanho muitas outras no ballet, como professora de ballet, realmente, o que mais me marca é que há trinta anos, meus pais, com quatro filhos, vivendo de aluguel, tendo só o salário do meu pai,  ainda assim, apoiaram o ballet na minha vida, uma modalidade que há trinta anos era só para rico, não tinha como uma garota da periferia estudar ballet. Eles acreditaram. 

Às vezes, eu vejo crianças, pais, desistindo tão rápido das coisas. Não tem uma sapatilha, já tira do ballet. Apareceu um passeio, já sai do ballet. Meus pais, na época de final de ano, eles abriam mão de tudo para eu participar de um espetáculo, tudo. Era décimo terceiro, o aluguel que eles pagavam depois... Eles abriam mão de tudo para eu não desistir desse sonho, sabe? 

Também tenho muito orgulho dos meus irmãos. Hoje em dia, vemos tantos irmãos brigando por nada, e meus irmãos também tiveram que abrir mão de muita coisa para que eu vivesse do ballet, porque na época que eu comecei a estudar, não tinha projeto social, era muito difícil. Havia a Escola de Bailado Municipal de São Paulo, que hoje ainda existe, e muitos falavam: “A sua filha tem talento, leva para o Municipal”, mas a gente, naquela ignorância, falava: “Esse tal de Municipal deve ser muito caro”. Nós nem sabíamos que era gratuito, e mesmo sendo gratuito, a gente não teria condições de pagar a condução para ir até o centro da cidade. Então, assim, é muito lindo de se ver, eu choro de emoção e de gratidão porque eu pude viver da minha arte, eu acreditei. Um dia, eu virei para minha mãe e falei: “Mãe, eu quero ser bailarina”, e ela falava assim: “Mas, filha, onde você viu uma bailarina?” Porque também não era comum, hoje, você vê bailarina em comercial, em edital, no passado não tinha, há trinta anos, não tinha, não era tão acessível o ballet. Como ela percebeu que foi algo que simplesmente eu falei e pedi, e tinha uma academia no bairro, ela resolveu me matricular e desde então, eu não parei.

Quando criança, eu não parava, ou estava saltando ou dançando. Eu pegava muito as roupas da minha mãe, colocava os vestidos e rodava. Meus pais percebiam que eu não parava de dançar, então, quando falei, realmente: “Eu gosto de dançar, eu quero dançar, é isso que eu quero”. Eles me apoiaram. 

Na época, tinha uma academia no bairro (algo muito raro e acessível), e a gente conseguiu ir. Mas era algo assim, primeiro o ballet da Patrícia e depois o aluguel, água, telefone, luz, eles realmente... E também eu fiz por onde, fui uma bailarina que nunca faltou, era um uniforme por ano, então eu tinha que cuidar da minha meia calça 365 dias porque era uma só; cabelo impecável, apresentações sempre muito rigorosas, sempre cobrei muito da minha evolução, acho que eu retribuía e tento retribuir até hoje.

A dança em si, sempre esteve dentro de mim, da minha vida, eu nunca tive medo, nem receio, eu sempre tive curiosidade. Eu tive oportunidade de trabalhar com coreógrafos maravilhosos, renomados, que viajaram o mundo e aprendi muito com eles. Sempre me desafiei, também fui para a TV, trabalhei em teatro, então, tecnicamente dizendo, eu tinha ansiedade de fazer, se tivesse aula das oito da manhã às oito da noite, eu estava fazendo aula. Agora, sim, havia dificuldades, normalmente financeiras. Antes, minha mãe tinha que deixar o almoço, a janta já ficava pronta uma hora da tarde porque às quatro a gente já tinha que ir para o balé. Muitas vezes não tínhamos condução, então, a gente tinha que andar 40 minutos para ir e 40 para voltar. Por exemplo, nós estamos aqui na Casa Verde Alta, eu já fiz balé ali perto do Anhembi, do Sambódromo, era uma caminhadinha, que de ônibus se fazia em 20 minutos, andando eram 40 minutos, e a gente ia sempre. Não ter muito lanche para os dias de apresentação, não ter carro; em alguns espetáculos a gente terminava faltando vinte minutos para meia noite, eu tinha que socar os figurinos dentro da bolsa e correr para não perder o metrô. Essas dificuldades nós tivemos, mas eu nunca me lamentei, não foi algo que eu usei como arma, como coitada, não, dando certo para mim, era o que importava. Enquanto estava dando certo, com meus pais ao meu lado, meus irmãos, tudo bem.

Eu comecei a fazer aula com cinco anos, e chegou uma época, aproximadamente, com 18, 19 anos, que ficou difícil fazer aula, porque eu já fazia muitos shows, fui para área de TV, gravei programa sertanejo, dancei com dupla sertaneja, e comecei a dar aula em outros lugares, participar de companhias, bandas de baile, que trabalham em formatura, casamento, evento e passei a viajar muito. Fato é que começou a apertar essa questão de fazer aula, mas continuei dançando até hoje. 

Por sinal, hoje, quando achei que estava parando... “Não, vou ficar só no Vid´Art, coordenando a parte artística”, que é um projeto social, há quatro meses me apareceu a oportunidade de ser professora de ginástica de uma academia, então de segunda à sexta feira, a partir das seis e meia da manhã, eu estou dançando na academia, temos aulas de dança. Enfim, são oportunidades maravilhosas que aparecem na vida e eu tenho que me policiar para não abraçar, porque eu tenho vontade de fazer tudo, só que hoje a vida é muito mais corrida, as responsabilidades são outras... E agora, como coreógrafa da comissão de frente do Peruche também, então... Atualmente, estou em quatro empregos e tentando dar conta do principal: Ser mãe da Beatriz.

Quando eu comecei a trabalhar mesmo na área, eu fui em uma agência que, na época, era uma agência muito famosa de modelos. Vi na TV e falei: “Mãe, vamos?” e imagina, Dona Marlene, sem um centavo no bolso: “Vamos, minha filha”. Fomos até o bairro do Bexiga, onde ficava a agência, o preço do book era um absurdo, de ter que parcelar em 20 vezes e tudo mais - e Dona Marlene e seu Luís parcelaram -  foram lá e, por sorte, ou porque Deus quis, eu acredito, quando eu estava fazendo o teste, a coreógrafa da agência passou do lado, abriu a cortina, virou e falou assim: “Estou precisando de uma bailarina que dance flashdance, você conhece esse filme?” Na época, só havia locadoras, e meu pai deixava alugar um vídeo por mês, eu, só escolhia filmes de dança, e os irmãos tinham que assistir junto comigo. Flashdance eu já sabia de cor e salteado, então foi o melhor teste da minha vida, porque até a respiração da atriz eu sabia. Quando a coreógrafa viu, ela falou: “Olha, você é a menina que eu procurava”. 

A fila era gigante, eu estava no momento certo, na hora certa, por isso, que eu acredito nisso. E, mais uma vez, eu volto à dedicação da minha mãe, porque nós chegamos na agência mais ou menos oito horas da manhã, como eu fui escolhida e a apresentação era no dia seguinte, a coreógrafa falou assim: “Olha, vou te deixar na sala porque eu preciso coreografar em outros lugares e você cria a sua apresentação”, então, eu passei a tarde inteira criando a apresentação. Ela só voltou no final da tarde para eu mostrar, aí apresentei, ela concordou, virou para minha mãe e disse: “No dia seguinte, sete horas da manhã, preciso dela aqui”. Então, para você ver, em tempos difíceis... E minha mãe nunca chegou a falar não, nunca cogitou “Ah, vou pensar, não sei”, e eu me senti muito especial, escolhida. Achei que era a oportunidade da minha vida e eu me entreguei, realmente, foi o que deu certo.

Eu participei do primeiro evento da agência e ela me chamou para ser sua assistente, eu tinha por volta de 14, talvez 15, estava no terceiro colegial do colégio Joaquim Leme do Prado, aqui na Zona Norte. Eu saía do colégio meio dia e uma hora da tarde eu estava na agência, trabalhava até às oito da noite, dando aula, curso, preparando atores, modelos para eventos, com 15 anos. Aí eu não parei mais, foram surgindo as oportunidades, me tornei coreógrafa. Com 18, 19 anos, já estava coreografando algumas duplas.

Quando eu entrei na agência, recebi uma ajuda de custo que já pagava minha condução, então, meus pais pararam de pagar e com isso eu já me achava super independente. Por volta de 16, para os 17 anos, eu já pagava todas as minhas contas, todas, porque aí eu já entrei na área de shows. Meu pai me deu um celular porque, na época, eu ficava muito dentro de teatros, de agências, de locais de gravação e meu pai não sabia como falar comigo, às vezes, o diretor não nos liberava para ir ao orelhão ligar, e aí meu pai começou a ficar preocupado. Bom, fez aquele “carnezão”, mais uma vez meus irmãos foram super compreensivos, porque a caçula ganhou celular primeiro, e eu ganhei aquele tijolão gigante para os meus pais conseguirem me encontrar, pois realmente, às vezes, os trabalhos terminavam uma hora da manhã e eu com 16 anos. Detalhe, nunca faltei na escola por isso, nunca tirei uma nota vermelha também. Eu podia dormir, mesmo na época de shows, fazendo educação física, eu chegava em casa, às vezes, cinco horas da manhã, depois de um baile de formatura, dançando a noite inteira, tomava banho, um café e ia para a faculdade, nunca foi motivo algum para deixar de ir aos meus compromissos.

Para entrar no meio de shows, duplas sertanejas, TV, também foi um acaso que eu falo “estava no momento certo, na hora certa”, porque eu participei de um espetáculo com o bailarino Marcos Paulo, ele pegou meu contato, naquela época, só tinha o telefone fixo de casa, que por sinal havíamos conseguido a pouco, porque antes era o orelhão... Mas, naquela época, já tínhamos o telefone fixo, aí eu passei o da minha casa, o da casa da minha mãe, e um belo dia, me ligou uma diretora coreográfica e perguntou: “Eu queria saber quem é Patrícia Maia, porque eu estou limpando minha gaveta e achei esse telefone lá no fundo”, minha mãe falou: “Patrícia Maia é minha filha”, e ela disse: “Olha, eu trabalho com dança, será que ela é bailarina?”, minha mãe falou assim: “Ela é bailarina,  tem 16 anos”, e, coincidentemente, ela estava precisando de um elenco, mais ou menos, nessa idade para uma cantora infantil. Para ver como as coisas caminham, minha mãe falou: “Não, ela está muito interessada em entrar nessa área”. Aí eu fui no teste, passei na seletiva e, através desse trabalho com a cantora, fui formando materiais, as pessoas foram me conhecendo e aí que surgiu essa questão do meio artístico na minha vida, fora da escola de ballet, porque antigamente, muitos pensavam que a vida da bailarina deveria ser fora do país, tinha que estudar fora, algo que eu não cogitava por dois motivos: financeiro e também porque eu nunca fui uma bailarina magérrima, então eu sabia que em companhia clássica eu não entraria, pelo meu biótipo e também por preferir coreografias populares, eu sempre fui muito mais do jazz, do popular, dança de rua, apesar de ter me formado no ballet. Para mim foi uma oportunidade muito boa essa questão de ter entrado no meio artístico, na época, eu nem sabia que eu poderia sobreviver disso, então, quando veio o primeiro cachê, eu estava nas nuvens porque estava dançando e recebendo, e a gente sempre teve que pagar, investir, então foi maravilhoso, muito bom.


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