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História

Ser cristalizado

História de: Ademir Gomes Rosa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Ademir Rosa nasceu, cresceu e mora em São Paulo. Se descreve como um "ser cristalizado", que gosta do verde, da tranquilidade do campo. Apesar dessa convicção, não conseguiu concretizar o sonho de ir morar no interior. Depois de passar por alguns empregos, hoje trabalha como Presidente da cooperativa de reciclagem Reciclázaro.

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História completa

Meu nome é Ademir Gomes Rosa, nasci em 15 de novembro de 1961, em São Paulo. O meu pai, ele chama José Rosa Filho e a minha mãe Ana Gomes Rosa. O meu pai, quando ele conheceu a minha mãe, ele trabalhava em São Paulo de frentista em um posto de gasolina, aí a minha mãe era operária de uma tecelagem. Ambos se conheceram e ali se casaram. Eu tenho um irmão que chama Pedro, Pedro Geraldo. E irmãs, tenho a Sandra e tenho a Neiva. Da parte de pai eu não conheci os meus avós. A minha avó (materna), a gente costumava chamar ela de Sara. Recentemente eu descobri que o nome dela não é Sara, mas a gente chamava ela de Sara. Uma senhora muito querida, uma velhinha muito amável, espanhola. E o meu vô, ele era o vô Pedro, da parte de mãe que eu estou dizendo. O meu vô, ele sempre foi um autônomo. Do dia que eu vim a reconhecer ele como vô, ele era uma pessoa que trabalhava com máquinas de costurar dentro do lar dele. Ele recebia sacarias, saco de batata, ele ia costurando pedaço por pedaço, fazendo rolos e rolos aonde era usado nas empresas industriais que enrolava todas as ferragens depois de lubrificados, aqueles fardos de sacaria e remendos.

Lembranças da infância - O meu vô, quando ele colocou o projeto de vida dele, ele não pensava só nele. Ele pensava nele, ele pensava na sua filha que é a dona Ana e pensava em toda a estrutura familiar que eram seus netos, tanto que ele foi crescendo, colocando várias casas e alugou todas. Então nós chegamos a morar lá até mesmo como proprietário, residente de uma das casas que ele fez por baixo da casa dele, que eram muitas, no Alto Mooca. Atravessava de uma rua para outra, numa área de declive. Eu me lembro que quando eu nasci, deixa eu ver, quando eu nasci, eu creio que já tenha nascido nesta casa, né? Eu nasci numa destas casas. Eu mudei, nós andamos muito em São Paulo, fui para vários lugares, mas ali eu vivi um bom tempo nessa casa. Eu me lembro que realmente eu tive sim, eu tive uma vivencia muito grande ali, né? Ajudei muito ele na sacaria. A intenção dele na verdade, no projeto de vida dele, era para passar a indústria para nós, então, o meu vô, no final dos seus últimos dias de vida, o que ele fez? Ele queria dar uma casa para nós, ele queria dar uma vida para nós, então ele arrumou uma casa no Grimaldi, na região da Zona Leste, lá um pouco próximo da Avenida Sapopemba, da igreja que eu batizei a minha filha, a Nossa Senhora de Fátima.

Escola - Eu, em questão de escola, eu não sei por que, não sei o que aconteceu, a minha mente por sinal também não ajudou. Porque nem todos nós somos iguais. Eu creio que cada um tem uma dificuldade, e uma das minhas dificuldades, uma delas é não ser abordado. Essa vida é um pouco dura. Ao ser abordado, muitas vezes é ser abordado para crescer, é ser abordado para aprender, ser abordado para mudar atitudes, mas o meu ser, ele é um ser cristalizado, é uma coisa diferente, eu não nasci para ser cobrado. Eu estou sendo abordado por uma coisa que eu já fiz melhor da minha capacidade. Então na minha vida sempre foi assim, professores, o meu pai, as pessoas que me conhecem me colocaram contra a parede e por ser uma pessoa cristalizada, um cristal, um vidro de cristal, eu sempre me senti muito frágil nessa hora. Em vez de me ajudarem, me atrapalharam. Então a escola, por ser uma pessoa assim de ter uma aprendizagem lenta, mas mesmo assim se esforçar, ao abordarem, eles me paravam e eu não conseguia acompanhar. Então os meus estudos, eles foram bem difíceis, mas eu acho que é muita inteligência, ela foi muito mal colocada.

Namoro e família - O meu lado de namoro é uma coisa até interessante. Eu sempre fui uma pessoa voltado para lado da humildade. Se eu encontrasse uma moça que morasse lá na favela e ela fosse de coração puro, não importa se ela fosse bonita, se ela fosse pobre, não importa. Importa que eu ia olhar para ela e dizer assim: “Quer casar comigo?”, seria dessa forma. E o dia que apareceu a Marinalva, minha esposa, ela veio do Norte, não tinha nada, muito simples, não sabia nem falar. É simples até hoje. Eu falei: “Essa é a minha esposa!”. Não namorei muito não, viu? Nós namoramos um mês e casamos. Tenho duas meninas maravilhosas, a Samanta e a Cíntia, e perdemos um menino. A Samanta está com 28 anos e a Cíntia vem logo atrás, está com 27.

Trajetória profissional - Lá atrás, na empresa que eu trabalhei, eu tive uma média de salário de oito salários mínimos, sete salários mínimos, então isso te dá um padrão de vida social muito bom, né? A gente vê que é uma queda, mas eu não trouxe só o meu padrão, eu trouxe o meu conhecimento, eu trouxe tudo que eu tinha de bom que agrega a sua ação hoje. Esse espaço aqui, na verdade, ele permite na formação profissional, né? E aí começou a aparecer o curso da Cooperativa Vitória do Belém, é onde eu começo a entrar. Umas das alunas da Reciclázaro, na aula de Artes, ela ficou conhecendo um pouco o Ademir. O Ademir é uma pessoa meio sentimental, é um homem muito fino, porque não abre a boca para falar palavrão para ninguém, não xinga ninguém, não ofende ninguém e se você tiver um problema, o teu problema é meu. Conhecendo como é que eu sou, ela disse: “Eu tenho um lugar aqui, você gosta demais, lá tem uma área verde, lá na reciclagem. Você vai gostar, tem curso de reciclagem e ter curso para cooperativa e tão lá passando uns tratores lá, tão mexendo lá! Você não quer ir?” “Olha, eu vou lá dar uma olhada”. E essa aluna da Reciclázaro que me trouxe para cá. Eu estou aprendendo com eles, e eles são bons professores, estou aprendendo com eles. E eu estou aqui na reciclagem. Como presidente de cooperativa, eu posso dizer que a função do presidente tem uma colocação, presidir, mas quando se fala cooperativa, na verdade ela é dividida, cada parte de tudo que acontece é dividido, então o cooperado ele é o presidente, ao mesmo tempo ele é o prensista, ao mesmo tempo ele está na esteira.

Trabalho na cooperativa - Cada cooperativa tem os seus caminhões, vão lá nos lugares das coletas seletivas, passam nos apartamentos, nos condomínios e vêm recolhendo e levam para a cooperativa. Como estão cooperando com a gente, deles vêm para nós. Aí esse material chega aqui e nós vamos triar ele. Triando, nós dividimos o vidro, que vira vidro, papel vira papel, o ferro vira ferro, e o ser humano vira ser humano, a valorização do ser humano. Nós vivemos hoje numa situação que os nossos lixões, os aterros eles estão superlotados e os grupos que tomam conta disso, realmente os responsáveis, eles têm uma visão, eles têm uma base que se alguma coisa não for feita isso vai generalizar um grande impacto lá na frente. Eu penso que esse trabalho não é para hoje. Na verdade ele já está sendo feito mesmo para o futuro. É para os filhos dos filhos, é lá para aquela geração e não pode parar, não, pode ser só essa, tem que ser outras e outras e outras e outras. Porque às vezes me dá até dó de ver os nossos rios cheios de garrafa, cheios de pneus, cheios de ferro jogado lá dentro. Você imagina se isso continua dessa forma? Que loucura! Eu tenho como conhecimento que a nossa cooperativa, ela está sendo uma cooperativa exemplo para as outras. Tudo que acontecer aqui sempre será exemplo. Então eu imagino que nós estamos proporcionando, a nossa Cooperativa Vitória do Belém, essa limpeza para o futuro próximo. Não só a Cooperativa Vitória do Belém, mas para todos que estão envolvidos nesse programa, uma grande vitória.

Superação - Olha, a trajetória da minha vida na verdade ela não falha em trabalho, não. Vai ser um pouco do lado emocional da minha vida. O meu pai teve, e eu sei as histórias, que ele esteve muito longe e trouxe uma carga para ele muito grande e essa carga não morreu nele, ele conseguiu passar para mim. Então a maior vitória da minha vida é ter, em determinado tempo na minha vida, podido me libertar disso. Essa foi a pior parte da minha vida, ter que suportar uma carga que não era minha, que foi passada para mim, mas isso ficou para trás. Não tenho mais quer me preocupar com isso, não. No trajeto da minha vida, que todos têm um momento muito difícil, mas muito difícil mesmo que ninguém pode tirar de você, o momento de exaustão. Sempre fui realmente o saco de pancada. Mas sabendo disso, o Poderoso lá de cima, é dele que ele merece toda honra, exaltação, num determinado dia da minha vida ele permitiu que eu tomasse um tremendo banho de óleo numas das máquinas hidráulicas que eu trabalhava, que são essas prensas, mas a prensa em teste, as prensas que estão em teste, e estourou uma mangueira. Essa mangueira captava pela bomba uma grande quantidade de óleo e espalhou muito óleo. Ele me lavou o da cabeça aos pés, me deixou realmente, torceu óleo. Eu fiquei todo lavado, mas tudo lubrificado. Dizem nas igrejas que é ungir, um pouquinho de óleo, ungir no corpo, na mão. Aquele dia eu fui ungido todo, tomei aquele banho de óleo, era no chão, era nas máquinas, era nos colegas, todo mundo se lavou e eu fui para o banheiro e eu botei meu joelho no chão e disse: “Puxa vida, eu tenho passado tanta luta, mas tanta luta e por que essa agora? Que vergonha! Como é que eu vou voltar lá para o meu setor, com todo aquele monte de óleo espalhado, aquele espaço todo, como é que eu vou fazer isso?”. E aí é como se alguém tivesse ouvido e dissesse assim: “Hoje acaba sua luta”. Lá do céu, nem sei porque o Senhor, que eu não sabia o porquê, desce uma unção tão gostosa na minha vida, do auge da minha cabeça e vai até o pé, e me fez outra criatura. Me lavou de uma unção maravilhosa, que eu voltei e não estava preocupado com óleo, não estava preocupado com máquina, não estava preocupado com amigos, eu só estava preocupado em aproveitar aquela graça que me foi dada. E é ela que eu contemplo em tudo que eu vou fazer, eu não sei como vai ser feito, mas vai ser feito. Era isso que só que eu tinha para terminar.

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