Busca avançada



Criar

História

Ser caiçara

História de: Geraldo Gomes Pinna
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/08/2016

Sinopse

Geraldo Gomes Pinna conta em seu depoimento como é ser caiçara pé-rachado ilhabelense, desde sua infância na vila, onde cresceu, brincou – sempre no mar – e estudou. Geraldo aproveitou os cursos oferecidos na cidade para conhecer várias profissões das quais escolheu a enfermagem. Geraldo acompanhou o desenvolvimento da Saúde na Ilha e contou também como foi seu mandato como vereador. De uma família de artistas, artesãos, escultores e músicos, Geraldo conta como entrou no samba e dali para as Folias de Reis. Além disso, como bom devoto, participa com toda a família da tradicional Festa de São Benedito, sempre com muito orgulho de ser caiçara ilhabelense.

Tags

História completa

Meu nome é Geraldo Gomes Pinna. Nasci na Ilhabela, 31 de maio de 1956, exatamente na vila, no centro da cidade. [A gente] Não tinha nada programado na infância sua aqui na Ilhabela, não tinha nada para fazer, não tinha atividade extraescolar. A atividade programada era escola, acordar cedo, ir para escola, depois, chegar, almoçar e ir para a ponte, lá para o píer para tomar banho de mar, brincar de pique, o pique nosso era no mar, você nadava um atrás do outro, peguei. É o pique no mar, não era na terra.

Eu comecei aos oito anos, eu comecei a trabalhar na Santa Casa de Ilhabela, era o único hospital da cidade, né? E trabalhei lá muitos anos, quase 30 anos, quase me aposentei lá e foi uma época boa, eu vi a saúde do município crescer, né? Quando eu entrei, nem médico tinha, você que tinha que resolver tudo. Eu que tinha que resolver tudo, era o único enfermeiro da cidade. Então, eu tinha que resolver tudo que acontecia, né, não só socorrendo um aqui, ou ali. E hoje eu tô aposentado, mas eu desenvolvo a atividade de eletroencefalograma, mas uma vez por semana.

[Da Congada,] Participo desde que eu lembro, desde os sete anos, né? Participo desde os sete anos. A minha família inteira participava, papai, mamãe, todos os meus irmãos, meu sobrinho, todos participam. Todos participam, a Congada vai durar bastante. Lá em casa, foram promessas. Promessas de algumas cirurgias que foram feitas e a mamãe era devota do São Benedito, então, ela pegava na mão do São Benedito e o filho continua pegando, eu também sou apegado a São Benedito, todos nós que participamos, o nosso santo é São Benedito, né? É muito emocionante você ficar numa festa onde você encontra todos os seus amigos de infância, né, hoje de 60 a 80… Tem gente de 80 anos e você encontra uma vez por ano. Eu e os meus irmãos, a gente toca. Nós somos tocadores da Congada, então tenho um irmão que toca marimba, que é o Gilmar, eu toco atabaque, tenho um sobrinho chamado Luiz que já tá tocando atabaque e os outros que já estão gostando, a gente vai ensinando pra não deixar morrer, porque tocar é meio complicado, né, então você tem que ir ensinando os mais novos, como eu aprendi com o seu Dadico, que era um dos maiores atabaquistas aqui da Ilhabela, ele que me ensinou a tocar, ensinou eu e o meu irmão que já faleceu, que era o Burga e a gente tocou se espelhando nele, né, ele tinha orgulho de ver a gente tocar.

Ser caiçara ilhabelense é muito bom, porque você é um privilegiado, né? Quem nasceu na Ilhabela, quem mora na Ilhabela, [com] essa natureza exuberante que nós temos aqui, você pra todo lado que olha, você vê paz, tranquilidade. Ilhabela é muito bonita, acho do país, quiçá do mundo, é uma das ilhas mais bonitas, né? Do Brasil, é umas das maiores ilhas marítimas, né? Mas é um privilégio ter nascido na Ilhabela, porque você tem tudo aqui hoje, você tem um progresso, daqui dois anos, nós teremos até faculdade, inclusive… O desenvolvimento tá vindo rápido e é um orgulho pra gente que nasceu aqui, ver Ilhabela crescer do jeito que cresceu, a juventude tem estudo hoje, tem saúde. É complicado você falar o que é ser caiçara, igual a você perguntar o que é ser brasileiro, né? Mas eu, por exemplo, eu tenho muito orgulho de ter nascido na Ilhabela, ter vindo de uma família tradicional igual a minha e de uma família que tudo que se tem na Ilhabela hoje, carnaval, Natal, Folia de Reis, Congada, futebol, natação, tudo minha família tá incluída nisso, tudo minha família tá presente nisso, então é um orgulho para os Pinna ser chamado: “Estão montando uma escola de samba aqui, dá pra dar uma orientação?”, a gente vai lá, orienta, porque a gente já foi dono de duas escolas de samba, fundamos escolas de samba, hoje nós somos incluídos em Folia de Reis, que é o folclore da Ilhabela. Natação que eu faço natação, defendo a minha ilha hoje em competições. Então tudo que tem atividade que levanta o nome da Ilhabela, a minha família tá sempre presente. É orgulho pra nós… Eu tenho orgulho de ter nascido, eu e a minha família, temos orgulho, todos são orgulhosos de carregar o nome de Ilhabela onde a gente vai, né? Tem vários lugares que eu vou, inclusive, eu tenho atividade em Ubatuba, trabalho um dia por semana lá, e lá eles me chamam de Ilhabela, porque falam: “De onde você é?” “Da Ilhabela”, então eles falam: “Ilhabela…”, de tanto eu falar o meu nome, eles me chamam de Ilhabela, Geraldo de Ilhabela. Outro irmão, o Giba que é pintor, ele é conhecido como Giba Ilhabela, então o Gilmar que expõe pelo mundo todo as esculturas dele, é Gilmar da Ilhabela, escultor da Ilhabela. A gente, onde vai, a gente carrega o nome da Ilhabela, né? É um orgulho muito grande pra nós ser ilhabelense. Caiçara é quem nasce na beira da praia, né? Mas o ilhabelense, ele carrega essa bandeira dele e isso é fundamental para uma pessoa ter orgulho da sua terra, né, porque um povo sem cultura não é um povo é um amontoado de gente. Então, a gente tem esse lema na nossa família Pinna, que a gente vai estar sempre envolvido com cultura, com as tradições da nossa terra, né, não vai deixar morrer nunca, se Deus quiser.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+