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História

Senhor da Esperança

História de: Claudio Eduardo
Autor: Claudio Eduardo
Publicado em: 20/03/2017

Sinopse

A rebeldia, o humor, a valentia e a serenidade de quem se julga desconhecido e, mais que isso, se joga nele. 

"A esperança é um dom que eu tenho em mim"

De Caetano...

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História completa

Minha primeira lembrança de vida é uma briga entre meus pais. Ele do lado de dentro do balcão da loja de armarinhos, daquelas que se vende de tudo um pouco, com coisas miúdas espalhadas por todos os lados e outras tantas penduradas. Ela, do outro lado, esbravejava raivosa comigo no colo. Lembro-me que balançava demais. Eu devia ter uns 9 meses, quando se separaram. Por decisão judicial, minha irmã e eu éramos obrigados a visitá-lo e, com seis ou sete anos e um pouco de rebeldia, eu escolhia sempre uma roupa preta como protesto nessas ocasiões. Já na escola primária, no canto da parede, fui repetidamente chamado de “manteiga derretida” por uma série de mini monstros, vulgo coleguinhas de sala. Não era completamente solitário, tinha Bárbara, Lívia e Felipe, cada um ao seu tempo, colaborou para que minha trajetória social escolar na infância não fosse um total fracasso. Certo dia, acho que tinha dormido na aula e meu cabelo ficou bagunçado, fazendo com que alguns dos brutamontes infantis começassem a rir, então, ao invés de chorar, baguncei o cabelo ainda mais, então a professora/tia também começou a rir e, dessa vez, eles não riam de mim, mas sim, comigo. Na adolescência, fomos surpreendidos com os investimentos de um tio paterno, que tentava através de uma vizinha nossa, saber se a casa em que vivíamos desde sempre e comprada por minha mãe, estava no nome de quem, pois se estivesse no nome de meus avós paternos, quem sabe, fosse dele também. Na verdade estava nos nomes de pai e mãe, com uso dos filhos. Com destino à Bahia, orientado pela mesma advogada que cuidou da separação de meus pais, fui ter com um cara que mal sabia quem era, o que gostava de fazer nas horas vagas ou que pensava sobre mim, uma conversa sobre uma possível justa doação do imóvel para mim e minha irmã. Na primeira noite, me instalei em um hotel de beira de estrada e café da manhã ruim. Fui até o endereço e fiquei distante o suficiente para que não fosse visto, observando por um tempo, até que meu pai aparecesse e me trouxesse a certeza que esse encontro seria possível. Só retornei no dia seguinte. Além da surpresa por estar ali sem avisar, demonstrou um cuidado, ainda que sem jeito, em me receber e apresentar para sua família. Eu já não lembro como foi que consegui ingressar o assunto que viria a ser o motivo que me fez ir até lá, mas jamais esquecerei quando ele me disse que não seria com ele que eu deveria tratar, mas sim com sua atual esposa, uma senhora magrinha e desconfiada, que havia visto umas duas vezes. Passado a noite na casa deles, fomos passear na cidade vizinha, onde tinha acesso a algumas praias e, em uma delas, enquanto meu pai nadava pelado, eu e sua esposa caminhamos pelo tempo suficiente para percebermos que sua relação com meu pai não era muito diferente da que minha mãe mantinha com ele. Com isso, tendo compreendido minhas razões e as necessidades de minha família, ela concordou em colaborar com o processo de doação, contando que liberássemos meu pai do desconto da pensão. Trato feito. Uns 9 meses atrás, em virtude da visita de uma amiga portuguesa que fiz na viagem de férias pela Chapada dos Veadeiros, rodamos pela noite e madrugada de São Paulo, tomando catuaba e rindo Augusta a baixo. Lá pelas tantas, decidimos ir embora, na verdade ela e seus amigos decidem, eu nunca decido ir embora. Pediram um Uber e foram. Claro, fiquei sem bateria no celular e teria, como de costume, pegar um ônibus da madrugada na Rua Xavier de Toledo, no Anhangabaú. Chegando lá, vomitei. Desculpe-me fazer com que leia isso, mas se chegou até aqui, continue, vai ter facada. Sem eu perceber, chegou um cara do meu lado esquerdo me perguntando se eu estava passando bem, se precisava de ajuda. Disse a ele que não, que podia ir embora. Então ele diz gentilmente: Tá bem então, agora me passa suas coisas. Eu me levanto e, nisso, já fui ao chão gritando muito... muito mais do que precisava, pois os caras, dois ou três, já dobravam a esquina sem levar nada. Ainda sem entender, me levanto e retorno ao degrau de acesso de uma loja em que estava originalmente. Sinto um calor nas costas, coloco a mão e vejo sangue. Tinha sido esfaqueado nas costas. Além do susto, uma sóbria consciência de que, naquele momento, dependeria de desconhecidos me tomou. Pedi ajuda para um porteiro que trabalhava em um prédio com as portas de vidro e fui ignorado. Segui até a Biblioteca Mário de Andrade, e dessa vez fui mais esperto: cheguei deitando suavemente no gramado deles dizendo que ficaria um tempo por ali, só enquanto a facada passasse. O bombeiro da biblioteca me manteve acordado, talvez vivo, por duas horas, até o resgate chegar... e começar a zombar da situação, me chamando de marginal, drogado, que se estivesse com minha família isso não aconteceria... e seguiu assim, até chegarmos à Santa Casa. Lá conheci uma enfermeira que me ouviu, mesmo sobre o grito de socorro da Santa Casa, e me deixou carregar o celular e chamar amigas e meu primo/irmão Luiz, para que tomassem conta da situação. Na fria ponta da faca fez-se presente a esperança de um menino vestido com roupas pretas, cabelo bagunçado e que não teme se jogar no desconhecido, esteja ele em Teixeira de Freitas, na Chapada dos Veadeiros, no centro de São Paulo ou nas pessoas.

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