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História

Sempre pronta para viajar

História de: Maria Adelaide Vieira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/12/2004

Sinopse

Maria Adelaide cresceu na Uberlândia das décadas de 30 e 40 - uma cidade em que a grande diversão era o cinema e os bailes. Nesta entrevista, ela nos conta como foi sua vida e como foi trabalhar na CBTC, chegando a viajar a serviço da empresa.             

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História completa

P/1 - Bom dia, dona Adelaide.

 

R - Bom dia, Luiz.

 

P/1 - Para início de conversa, eu gostaria que, por favor, a senhora me dissesse o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R - O meu nome é Maria Adelaide Vieira. Nasci em Uberlândia no dia 9/07/1932.

 

P/1 - O nome do seu pai e da sua mãe, por favor?

 

R - O nome de meu pai é Alfredo Vieira e [de minha mãe é] Guiomar Vieira da Silva.

 

P/1 - Qual era a atividade do seu pai?

 

R - Celeiro. Tinha uma selaria, ele mexia com arreios. Fazendas, né? Fazia capas de mala, fazia todos os serviços de selaria.

 

P/1 - Aqui em Uberlândia mesmo?

 

R - Aqui em Uberlândia. Primeiro foi na [Avenida] Fernando Vilela,  onde morei [por] 27 anos, no bairro Martins. E depois na Rua Carmem de Fontes, 574, estamos até hoje lá. Papai faleceu em 1982, mamãe está com 92 anos. Cabeça boa, lúcida. (risos)

 

P/1 - Dona Adelaide, a senhora conheceu os seus avós?

 

R - Só a mãe da minha mãe. É Adelaide também o nome dela, mas faleceu quando eu tinha doze anos.

 

P/1 - A senhora saberia dizer o nome dos seus avós de parte de pai e de parte de mãe?

 

R - Os pais da minha mãe são João Máximo Silva e Adelaide Dias Silva. E de parte do meu pai são José Francisco Vieira e Maria Rosa Vieira.

 

P/1 - Os seus avós paternos, a senhora sabe se eles eram daqui da região ou se vieram…?

 

R - Eram do Prata. A família é do Prata. Os meus avós [por] parte da mamãe, o meu avô é de Guaratinguetá... Era português, mas residia em Guaratinguetá, São Paulo. E a minha avó foi em Uberaba, aqui em Minas Gerais.

 

P/1 - A senhora tinha notícias ou teve notícias da atividade...

 

R - Da família de ninguém. Mamãe não teve notícia... Família mesmo não procurava saber a família. Veio o meu avô, casou e era chefe da Estação Mogiana, foi chefe da estação. Uma família de treze irmãos da mamãe e do meu pai também eram treze irmãos.

 

P/1 - E a senhora tem quantos irmãos?

 

R - Nós somos oito, comigo. Quatro homens e quatro mulheres.

 

P/1 - Dona Adelaide, aqui em Uberlândia como era a casa onde vocês viviam na sua infância?

 

R - Na minha infância? Era casa, uma colônia de casas que era do Tubal Vilela, que foi o prefeito de Uberlândia. Era uma daquelas casinhas simples. Muita da infância [foi] assim, pobre. Não era rica, não. [A] selaria era em casa e a gente estudou. Papai queria dar uma educação para os filhos, então eu estudei, fiz o primário no Externato Rui Barbosa [com] a dona Giovanila Ferreira dos Santos, mãe do doutor Homero Santos. Depois fiz o ginásio na escola Ginásio Estadual e [me] formei no Liceu de Uberlândia, no [Curso] Técnico em Contabilidade.

 

P/1 - A senhora poderia descrever como era essa casa da sua infância? Como era ela fisicamente?

 

R - Vou ver se eu me lembro. A oficina era na frente, sala, dois quartos, cozinha. Tinha no fundo uma área para trabalhar que o papai fez, e fez um cômodo no fundo também. Era mais um quarto. 

Foi uma vida difícil, de lutas, né? 

 

P/1 - As crianças tinham algum tipo de obrigação na casa?

 

R - Tinham. Tinha um corredor também, do lado que naquela época, a gente... Como se diz? Era fogão a lenha, então a gente tinha que acender fogo de manhã, pôr água para esquentar. Era uma vida meio assim... E eu, sendo a mais velha, tive que arcar com... Olhar os outros, né? Eram todos crianças e todos meninos mesmo.

 

P/1 - Como era o seu cotidiano, o dia a dia para a senhora nessa época? Com essas responsabilidades...

 

R - Ah, tinha responsabilidades. Eu, de manhã, tinha que levantar, acender o fogo com... Eu que fazia o almoço. Com doze anos, eu já cozinhava e olhava os meninos, e tinha que olhar em casa. Estudava também. À noite, a gente brincava com os colegas, as colegas ali em frente. Tinha muito vizinho, sabe? Muitas pessoas e muitas amigas da gente. A gente brincava em frente de roda, aquelas brincadeiras de criança. 

Foi uma infância até boa, viu? Foi de luta, mas depois a gente foi trabalhando. O meu primeiro emprego foi na Droga Fama. Eu não sei se posso falar?

 

P/1 - Sim, nós vamos chegar lá. Eu queria que a senhora contasse um pouco sobre essas brincadeiras de criança.

 

R - Ah, a brincadeira foi boa, viu? A gente fazia roda, [uma] roda imensa com as colegas; às vezes, eram trinta meninas. A gente brincava de escolinha, a gente dava aula e o pagamento era fósforo, era _______ naquela época. [A gente] teve uma infância assim, a gente sempre recorda. [Foi] muito boa. Aprendi a bordar, a gente tinha as pessoas que ensinavam.  

 

P/1 - E esse momento de lazer, digamos assim, era já na parte final do dia, início da noite?

 

R - Era à noite. À noite é que eu saía para brincar. A gente fazia a obrigação, jantava, arrumava a cozinha e saía à noite. Brincava até [as] 22:00, mas foi muito bom.

 

P/1 - E a rua, como era? Era uma rua calçada...

 

R - Uma rua calma... Calçada de paralelepípedos. Muito boa. Tinha o comércio Geraldino Carneiro, tinha lojas em frente, pessoas muito boas. 

 

P/1 - Dona Adelaide, e essa primeira escola que a senhora foi estudar, fale um pouquinho dela. Como ela era, a sua primeira professora...

 

R - A minha primeira professora, dona Giovanila Ferreira dos Santos, [era] muito enérgica, boa mesmo. Quando eu entrei no primeiro ano, eu estava adiantada porque ela queria me passar para o terceiro ano. “Não, Adelaide, não pode ficar no primeiro ano!” Aí, “não, vai para o terceiro.” O papai não quis. “Não, faz o primeiro, o segundo, terceiro.” Então, era adiantado ali na escola. Tive boas professores, Neuzi Guerreiro, as filhas da dona Giovanila também: dona Gláucia, dona Graciema foram professoras, mas muito boas. Gostei do curso. 

Depois, quanto eu tirei o quarto ano, tinha a... A dona Giovanila falou: “Adelaide, o doutor Jacide de Assis está dando uma bolsa de estudo no ginásio. Vai lá fazer a prova.” Fui fazer, passei e ingressei sem ônus nenhum. Estudei os quatro anos no ginásio.

 

P/1 - Como chamava?

 

R - Colégio Estadual de Uberlândia, [do] senhor Oswaldo, seu Vadico. Lá também, graças a Deus, não repeti nenhum ano. Estudei, teve aqueles professores muito bons.

 

P/1 - Por que motivo a senhora tinha esse adiantamento todo? A senhora lia muito em casa, estudava?

 

R - Não... Eu lia - eu gosto, sempre gostei de ler -, mas fui muito aplicada, gosto de cumprir com as minhas obrigações. Nunca deixei de fazer os deveres e tive boas notas. Então, fui em frente. 

Fui até o Liceu de Uberlândia. Fiz três anos de Comércio, técnico em Contabilidade. Não havia outro curso que... Logo que eu [me] formei tinha Ciências Contábeis, mas Ciências Contábeis não me interessou não, sabe? Não quis fazer o cursinho. Até fiz com uma colega minha, mas não fui adiante. Aí fui trabalhar mesmo. Comecei a trabalhar.

 

P/1 – Como foi esse seu primeiro emprego? 

 

R – O meu primeiro emprego foi na Droga Fama, distribuidora de produtos farmacêuticos. O diretor era o seu Eduardo Macedo, doutor Geraldo Novaes. Fazia todo o serviço do escritório; faturava, fazia até aquele mimeógrafo, antigamente tinha... Passava aquelas notas fiscais. Trabalhei três anos lá. 

Antes dessa Droga Fama, trabalhei um ano na CTBC. Eu já havia trabalhado lá. 

 

P/1 – Então, o seu primeiro trabalho de fato...

 

R – O meu trabalho mesmo foi na CTBC, mas trabalhei um ano e depois eu saí, aí fui chamada para trabalhar na Droga Fama.

 

P/1 – O que a senhora fazia nessa primeira estada na CTBC?

 

R – CTBC era mais escritório, atender o público. Tinha a minha tia que era... Já estava trabalhando, tia Olga. Já estava trabalhando na época da Empresa Telefônica Teixeirinha, e a Ilce...  Eu creio que a Ilce já estava também. E essa minha saída... Quando eu retornei foi em 1958 - 1958 não, 1961... 1951, trabalhei lá. Em 1958 eu já voltei já registrada, toda aprovada. Fui apresentada para o seu Alexandrino [Garcia], comecei a trabalhar com... Já tinha as colegas no escritório das antigas que ficaram até a minha época. Posso citar os nomes?

 

P/1 – Claro, evidente.

 

R – Ilce Fogaroli, Rita Guerra, Yolanda Faria, Edna Morbek, Rosa Maria Macedo e Doralice, que é a minha irmã. Doralice trabalhou também dez anos na Telefônica.

 

P/1 – Para entender um pouco melhor… Quer dizer, esse primeiro trabalho que a senhora teve antes da Droga Fama...

 

R – Droga Fama.

 

P/1 – Da Droga Fama, foi na CTBC? Já era CTBC ou ainda era...

 

R – Não, era Companhia Telefônica Teixeirinha.

P/1 – Ah, sim. A senhora conheceu o seu Tito Teixeira?

 

R – Conheci.

 

P/1 – Fale um pouco dele. Como ele era?

 

R – O seu Tito? Ah, foi tão pouco tempo. [Trabalhava em] uma sala separada, mas eu não tinha muito contato com ele. O meu escritório tinha parado. Mas era uma boa pessoa, viu? A gente não teve muito contato, mas foi bom. Um início bom de serviço correto, né? Muito enérgico também. A gente trabalhou bem.

 

P/1 – Quer dizer, a senhora, quando foi para a Droga Fama, já tinha uma experiência de trabalho?

 

R – Não, não tinha muita experiência. Eu aprendi mesmo foi lá - um faturamento, [de] Departamento Pessoal alguma coisa, porque o escritório era todos os departamentos juntos em uma sala, então a gente sempre [ficava] ouvindo contador do lado, Departamento Pessoal. Naquela época, contador já era chefe de Departamento Pessoal também, então eu também fiz todo aquele serviço. Fiquei três anos. 

 

P/1 – O seu trabalho era feito à máquina...

 

R – À mão.

 

P/1 – À mão.

 

R – Manual, mas tinha aquela máquina de escrever. Eu fiz o curso de datilografia e batia, fazia o serviço manual.

 

P/1 – E como é que a senhora foi... Como é que a senhora voltou à CTBC? 

 

R – A Ilce, a minha prima, me chamou: “Olha, Adelaide, vai ter uma vaga lá no escritório e você, se quiser, retorna.” Eu saí no dia 30 de novembro, ingressei na CTBC no dia 1 de dezembro de 1958. Aí comecei a aprender o meu serviço, a gente já... Tinha prática, né? Na Droga Fama, não foi difícil.

 

P/1 – E como era esse processo de trabalho nesse momento?

 

R – Ali era... Recebia, tinha o caixa. Tinha  também o atendimento da entrega de lista telefônica que era na frente, no escritório, e o interurbano também era na frente. Era bem movimentado ali. Fazia ligação interurbana também, [como] telefonista. Era em cima o Centro Telefônico, no primeiro andar, mas tinha telefonista para atender o público do lado direito do escritório. Comecei ali fazendo aquele serviço. O recebimento eram umas folhas [em] que a gente colocava o nome do assinante, o número do telefone e o valor da mensalidade do telefone. Isso foi desenrolando, foi anos e anos naquele serviço atendendo o público - defeitos, depois teve a instalação dos aparelhos. Todo o serviço era feito ali, passava ali na frente.

 

P/2 – Dona Adelaide, essas telefonistas que ficavam ali junto com vocês, elas atendiam as pessoas que chegavam lá e queriam fazer o interurbano?

 

R – [Que] queriam fazer o interurbano. E ela anotava. Tinha um caderno do registro e transmitia para cima, lá no primeiro andar.

 

P/2 – E a pessoa ficava esperando ali?

 

R – Ficava esperando e ela já tinha o horário, o tempo da demora. Às vezes, saíam na hora também os interurbanos. 

 

P/1 – Quanto tempo demorava para fazer o interurbano?

 

R – Não, não demorava muito, era um minuto só. Não tinha muito não, até quinze minutos. A gente ouvia ela conversar, então a gente ficava a par do movimento ali. Mas era bem movimentada, porque só tinha ali, naquele centro.

 

P/1 – Que local era mesmo, dona Adelaide?

 

R – Avenida João Pinheiro, 620.

 

P/1 – Quer dizer, a senhora então, desde o início, começou num contato muito próximo com o público.

 

R – Com o público. A gente era familiarizado com o público porque todos mesmo iam lá pagar. Tinha uma fila grande. A gente atendia, fazia...

 

P/1 – E qual era o segredo de atender bem as pessoas, de se relacionar bem com o público?

 

R – Eu acho que a gente tem que ser bem educado, tratar bem o público. Isso já vem do berço também, porque os pais da gente sempre ensinaram. Ser educado e... Conversar bem, eu não sei, mas tratar bem o público. As pessoas… A gente conversava sempre. Um bom atendimento é o que... É o progresso em uma firma.

 

P/1 – E quando a gente pega uma pessoa casca grossa?

 

R – Nossa senhora! (risos) Ah, mas a gente sabe lidar com eles. Às vezes, a pessoa queria agredir, então a gente chamava já a pessoa mais antiga. Chamava a Ilce ou, às vezes, tinha também o seu Alexandrino. Às vezes, ele estava passando por ali, então a gente pedia para atender.

 

P/1 – Que tipo de problema podia existir assim...

 

R – Às vezes é uma demora em uma instalação, em um defeito que deu. Mas não era tanto assim, [era] uma vez ou outra porque tinha os funcionários que saíam para fazer o serviço. Não havia muita demora. 

 

P/1 – O assinante ia lá na telefônica para pagar conta?

 

R – No princípio, ia. Depois de bastantes anos é que colocaram as contas em banco, mas isso já foi bem... Muitos anos depois. Eu não me lembro quanto tempo. 

 

P/1 – E como era o procedimento de pagamento? A pessoa chegava...

 

R – Chegava, falava o número do telefone e as contas já estavam na gaveta em ordem numérica. Eu tirava a conta e já tinha o valor ali. Eu me lembro direitinho, até o dia dez de cada mês. Após o dia dez, já tinha multa. Depois a gente colocava [a multa], manual também. As contas eram batidas à máquina, não havia computador na época.

 

P/1 – Quer dizer, a pessoa ia saber o valor no momento do pagamento?

 

R – No momento do pagamento, porque tinha o interurbano. O interurbano era... A gente colocava também na conta o conserto de aparelho, toda a despesa era colocada na conta. 

 

P/1 – Quer dizer, só para entender: a pessoa ia pagar a conta e não sabia o valor da conta.

 

R – Não.

 

P/1 – Ia saber lá, na porta do guichê?

 

R – Ia saber lá, mas às vezes, ligava também. Ligava para saber o valor, a gente colocava à disposição dele. Falava o valor e eles iam com o cheque [ou] com dinheiro mesmo, dinheiro vivo.

 

P/1 – A senhora tem ideia de quantos assinantes tinha nessa época?

 

R – Assinantes? Não sei se era... Não me lembro. Não sei se era 150... Ah, não, na época eu não me lembro. Tinha o livro lá, mas precisamente eu não me lembro.  

 

P/1 – Esse momento de pagamento era um dia fixo no mês ou...

 

R – Tinha do dia 1º até o dia dez para pagar. Então, era movimentado do dia 1º até o dia dez. Depois do dia dez é que... Até o dia vinte é que ficava mais demorado. Ia um, ia outro, mas não... Poucos pagavam.

 

P/1 – E o seu Alexandrino, a senhora esteve próximo dele nessa época? Ele passava lá?

 

R – Tive.

 

P/1 – Como era o seu Alexandrino?

 

R – O seu Alexandrino tinha uma sala separada e qualquer coisa para resolver a gente ia até ali. Ele atendia com muita educação. Era enérgico, mas nos ensinou muito a viver, trabalhar. Eu, principalmente, porque eu viajava, né? Depois de certos... Bem depois, eu comecei... Quando começou a exploração do serviço nas cidades, a gente já ia com os papéis para a venda dos telefones. Eram notas, eram blocos de notas... Duplicatas, eu acho que eram duplicatas...

 

P/1 – Promissórias?

 

R – É, notas promissórias. A gente já ia com o bloco e os recibos, talões de recibos para a gente vender nas cidades. Cidade de Minas, primeiro Prata, Iturama, Campina Verde, Itumbiara, de acordo... Cidades.

 

P/1 – Como é que funcionava isso? Vamos detalhar um pouco melhor. A companhia estava se expandindo, então saía o quê? Um grupo de pessoas daqui, passava dias lá?

 

R – Primeiro, iam os diretores para negociar e... Essa parte até a Ilce que contou. (risos) Iam negociar, já marcavam o dia para a gente ia com os papéis para vender os telefones. Voltávamos, já fazia os borderôs para colocar ali, já sabia os bancos também, né? 

Após essa venda, já com a instalação... Nesse meio tempo, já estavam... Os aparelhos já estavam da Ericsson, já estavam preparando para instalar. Após essa instalação eu ia com os papéis, que eram os testes da telefonias e os testes psicotécnicos também. Eu fazia teste psicotécnico e as provas. Aí já marcava, ia às cidades, já tinha aquelas pessoas, a inscrição das telefonias; eu fazia os testes. Uma sala grande, era tudo manual, mas era gostoso a gente ter o contato com essas novas pessoas. 

 

P/1 – Quanto tempo a senhora ficava em um lugar para...

 

R – Não, ia e voltava no mesmo dia. No princípio, a gente até ficava mais dias porque a gente viajava de Rural Willys naquela época. Depois que foi avançando, aí já no... [Na] época de 1968 já tinha o avião, então a gente tinha o piloto, já ia de avião. Quando eles compraram as cidades de São Paulo, Franca, São Joaquim da Barra, Ituverava.

 

P/1 – A senhora ficou então em uma área de recrutamento?

 

R – É. (risos)

 

P/1 – É isso?

 

R – É. Eu sempre estava: “Vamos viajar!” Eu já estava pronta para viajar.

 

P/1 – Sei. E quem colocou a senhora nessa função? Quem disse para a senhora trabalhar nessa área?

 

R – De viajar?

 

P/1 – Não, de treinamento...

 

R – Treinamento... Ah, o seu Alexandrino, ele escolheu. Chamava: “Vai você, vai [fazer] isso.” Pedia a Ilce para escolher: “Adelaide vai.” Eu sempre estava disposta a viajar, gosto até hoje de viajar. (risos)

 

P/1 – Na sua casa não tinha problema da senhora...

 

R – Não, tinha não. Sempre estava... Falava com papai, mamãe, eles nunca se opuseram, então a gente viajava. 

Às vezes… Depois o doutor Luiz veio a ser o diretor... Não, diretor presidente era o seu Alexandrino, é o administrativo. Então, com ele a gente... Ele viajava, a gente sempre estava viajando com ele. 

 

P/1 – E tinha muita gente querendo trabalhar na Telefônica?

 

R – Tinha. Uberlândia tinha muita gente. Não sei da época, mas quantos telefonistas eram. Depois... Sempre viajando. Fim de ano, não tinha dia, não. Às vezes, falavam: “Depois do almoço nós vamos viajar.” Então, a gente saía. Ia em casa, arrumava alguma coisa e estava viajando.

 

P/1 – Eu queria que a senhora contasse um pouco mais como eram esses processos de seleção que a senhora disse que fazia para escolher as telefonistas. Enfim, como era? Era uma entrevista, testes...

 

R – Não, era em uma sala também, aquelas pessoas com aquela prova já pronta. A gente mandava imprimir e os testes psicotécnicos eram também já impressos. Então, a gente fazia uma pergunta e já era separado. 

As provas eram em conjunto; ditado... Naquela época, era ditado, era uma conta de somar, de diminuir, de multiplicar; não tinha muita coisa, mas para quem... 

Telefonista sempre foi [pra] quem tinha curso primário. Aquela mesma pessoa não tinha muita... Não fazia o curso de ginásio, só até o quarto ano. Primeiro, segundo, terceiro ano, mas, às vezes, a pessoa... A gente via muitas famílias, a pessoa como era, o modo de vestir, modo de... Sempre a gente olhava isso. 

 

P/1 – E depois dos testes, dona Adelaide, o que é que fazia...

 

R – Eu que corrigia.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Eu corrigia, tinha nota, selecionava. Era seleção das primeiras. Tinha fotografia também dela. Ali era a vida dela também, da telefonista. Nome do pai, da mãe, dia que nasceu, cidade... Tanto é que está me fazendo reviver. (risos)

 

P/1 – E o critério de seleção era o teste apenas ou...

 

R – Teste… Não, tinha uma entrevista após. A gente chamava a pessoa para comparecer e tinha uma entrevista; se queria trabalhar, se era solteira, casada... Depois tinha também a telefonista-chefe; a gente admitia e passava aquela pessoa para conversar com a telefonista-chefe.

 

P/1 – E a senhora que fazia, conduzia essas entrevistas também?

R – Não, eu apresentava a telefonista-chefe e depois daí ela que comandava. Ela que ia ensinar o serviço, né? Como que teria fazer os fones. Aí essa parte de telefonista não... A gente visitava lá, mas eu não tinha acesso. Tinha acesso, mas não era da minha alçada, né? 

 

P/1 – Então, por isso que perguntava se era casada ou solteira?

 

R – É, porque as pessoas casadas… Às vezes, tinha muita casada que trabalhava.

 

P/1 – Telefonista?

 

R – Telefonista, mas geralmente... Geralmente, era solteira. Eram moças mais novas mesmo. Tinha pessoa até de quinze anos... Quinze, dezesseis anos porque mais nova não... Eu acho que...  Não, admitia. Funcionário menor admitia. Naquela época tinha carteira de menor. 

 

P/1 – E a senhora foi nessa trajetória até quando, com essa responsabilidade de fazer seleção?

 

R – Seleção? Olha, foi até 1966. [Em] 1966, eu... Eles me chamaram para ser chefe de Departamento Pessoal. É uma responsabilidade do Departamento Pessoal. Aí eu já fui para o segundo andar. A parte de baixo era mais caixa. Eu fui lá em cima, era tesouraria, a Ilce trabalhava. Administração, diretoria, doutor Luiz, a secretária do doutor Luiz, Walter Garcia também, depois... O filho do seu Alexandrino, né? Também era administrador... Vice-presidente, vice-presidente era o Walter. 

Eles separaram os departamentos de Engenharia, Departamento Pessoal, Tesouraria e, do outro lado, Telefonia... O Centro Telefônico onde tinha as telefonistas, o Departamento de Contabilidade mais no fundo e tinha o contador... É, advogado. Tinha também o departamento e Advocacia lá. Trabalhei com eles todos; o seu Arcir Vilela, que era o contador. Depois, passou o seu Sátiro Grama, Lamartine... Doutor Lamartine era o advogado, isso eu lembro.

 

P/1 - E no Departamento Pessoal, quem eram as pessoas com as quais você trabalhava?

 

R - É... Trabalhava com Geraldo... Geraldo Caetano trabalhou no departamento. Depois que foi para a Contabilidade, eu fiquei no lugar dele. O Osório... Osório, Leila, deixo ver se eu me lembro o nome? Sebastiana Calegari, eu acho que o departamento é só isso. 

Quando eu saí para fazer os testes, eu ainda fiquei... Estava no Departamento Pessoal, mas tinha essas pessoas, colegas minhas que ficavam fazendo serviço. O serviço não parava. 

Substitui muitas vezes a Ilce. A Ilce, quando tirava férias, eu fiquei umas duas... Eu acho que mais vezes na Tesouraria, fazendo aquele serviço de depósito no caixa de baixo. Recebia e passava no segundo andar. Então, eu fiquei também conta daquela parte de Tesouraria... Financeiro, né? Cofre, a responsabilidade da gente [era] muito grande. Eu acho que a honestidade é tudo no escritório. Aonde você vai, vai adiante.

 

P/1 - E como era a sua convivência com o seu Alexandrino nessa época?

 

R - Seu Alexandrino? Fora as viagens, a gente sempre estava em contato porque havia reuniões mensais de todos os chefes de departamentos no salão nobre da Companhia Telefônica. Então, cada uma expunha o serviço, a sua... O que tinha de dificuldade ou se não... Para resolver alguma coisa. Cada um, cada chefe falava do seu setor e ele sempre estava presente, ele e o doutor Luiz Alberto. 

Mas era bom. O seu Alexandrino, a gente... Eu, as vezes que eu trabalhei, que eu ia lá, fui bem atendida e a gente tinha o maior respeito possível com eles, então foi muito bom.

 

P/1 - Nessas reuniões mensais, elas se davam... Elas tomavam decisões ali? O seu Alexandrino, doutor Luiz?

 

R - Doutor Luiz? É, dava sim. Sempre tinha um contador, advogado, se era caso de advocacia, então estava ele também, doutor Lamartine Bernardes e eles... A solução, a gente já saía dali com os problemas resolvidos para o próximo mês, para os próximos dias. Mas era só mesmo um departamento. No dia a dia a gente estava em contato com eles.

 

P/1 - A senhora se lembra de algum episódio engraçado, alguma coisa que tenha ficado marcado na sua memória, ou se não foi engraçado, alguma coisa que tenha sido, de fato...

 

R - Apenas as festas. Todo ano... Todos os anos tinha Festa da Telefonista, então a gente fazia aquelas brincadeiras. Era mais assim, eu não tomava parte não... Tomava, tinha... Sempre tinha a missa, tinha os jantares, almoços, jantares com todos os funcionários, mas assim...

 

P/1 - Lá mesmo na companhia?

 

R - Não, esteve em restaurantes, viu? Eu me lembro do Bar da Mineira... Deixo ver se eu me lembro de outra... Não sei. Teve na chácara também do seu Alexandrino; teve festas lá, Festas da Telefonista. Reuniam todas... Vinham as colegas das outras cidades - São Paulo, de Minas, Mato Grosso, Paranaíba. A gente reunia ali todas as colegas. As colegas também de fora, que trabalhava na rede.

 

P/1 - E o serviço parava?

 

R - Não, o que é isso? (risos) O serviço ali era sábado, às vezes, até domingo. O serviço era na hora certa e não tinha brincadeira, não. Com ele não tinha, não. (risos)

 

P/1 - A sua jornada de trabalho... A senhora chegava a ter algum tempo de lazer, em termos de... Para se divertir um pouco, essas coisas?

 

R - Ah, a gente... Aqui, na época, tinha... Era só cinema, então a gente ia muito ao cinema. Dançava, né? Eu gosto de dançar. (risos) Gosto de dançar até hoje. Tinha os sindicatos, _______ de clube. A gente sempre [se] divertia nessa...

 

P/1 - Como era a cidade de Uberlândia, dona Adelaide? Como era a cidade dessa época?

 

R - Ah, toda vida eu gostei de Uberlândia. Tinha os cinemas e tinha o footing na Avenida Afonso Pena. A gente descia, ia na primeira sessão, que era às 18:00 e, após a sessão já tinha o footing da Praça Tubal Vilela e na Avenida Afonso Pena, em frente ao cinema. As moças passeavam e os moços ficavam em pé, todos de terno, todos bacanas, você precisa de ver. Moços muito bonitos, viu? A mocidade da gente foi muito boa.

 

P/1 - Em que dia era isso? Era aos domingos?

 

R - Aos aos domingos. Tinha os flertes, né? (risos) Flertava até, mas era muito bom. Depois ia para os clubes dançar. 

Era tão bom, viu? A gente sente saudades daquele tempo. Moças muito bonitas. Os homens, os moços muito bonitos. A gente já sabia onde estavam, o lugarzinho [em] que eles estavam parados. (risos)

 

P/1 - E saíam em grupos assim, as meninas?

 

R - É, sempre em grupos. Duas, três e a gente conhecia todos os moços, moças. Cidade pequena, né? Hoje, a gente não conhece ninguém. Eu não conheço. Às vezes, eu vejo uma pessoa, parece com uma colega minha, mas já é neta daquela pessoa.

 

P/1 - A senhora se lembra de um filme que tivesse marcado essa época, que a senhora tivesse gostado muito?

 

R - Ah, os filmes eram... Gostava muito de pirata. (risos) Passava muito filme assim, de Stuart Grant, aqueles artistas... Hedy Lamarr. Nossa, é tão antigo. (risos) Eu sou antiga. Então, a gente... Mas eram os artistas bons. Ia sempre ao cinema; gostava de aprontar, pôr o sapato, salto bem alto. Naquela época, era a pé. Saía lá da [Avenida] Fernando Vilela até na [Avenida] Afonso Pena a pé. Depois dos bailes, queria ir a pé também embora. E a mamãe, nos bailes, sempre nos acompanhava. Papai deixava, a gente ia, mas “se a sua mãe for.” Éramos quatro mulheres. Iam as primas também: Vilma, Ilce, Carminha. A gente sempre foi unida, [uma] família muito unida, os primos.

 

P/1 - E esses bailes iam até que horas?

 

R - Até onze e meia, meia-noite. Não ia mais porque no outro dia a gente tinha que trabalhar, né? Tinha o horário também, de quanto a gente trabalhava. Tinha o horário do café. No princípio a gente saía, a gente podia sair, então a gente ia tomar o café em uma... Sempre era convidado. Às vezes, até as pessoas que tinham... Que iam pagar telefone, convidava: “Vai tomar café em casa.” Então, a gente ia ali na [Avenida] João Pinheiro mesmo, naquelas... Vizinhos, sabe? A gente sempre ia em duas, com as amigas da Ilce. Eu falo Ilce porque eu convivi com ela toda vida, né? Era uma pessoa maravilhosa, até hoje.

 

P/1 - Conte um pouco mais dela, fale um pouco mais.

 

R - Nossa! A Ilce é maravilhosa. Até hoje ela vai em casa. 

Tudo a gente perguntava à Ilce. Uma amiga e tanto. A mãe dela é irmã... Era irmã da mamãe. A família da mamãe só tem a mamãe. Está com 92 anos, e [tem] a tia Olga e o tio Geraldo, só três. Morreram todos. E a mamãe tem uma cabeça boa. Quem que foi lá em casa? 

 

P/2 - A Larissa.

 

R - A Larissa foi em casa, levou as fotografias. Você sabe que a mamãe que descobriu quem era. (risos) Ela olhando lá as fotografias, as pessoas: “É fulano, sicrano, tinha o Bonangeia.” Então, ela reconheceu.

 

P/1 - Dona Adelaide, a senhora, nesse momento da CTBC... A CTBC cresceu muito, esse processo de trabalho foi se modificando. Aquele seu Departamento Pessoal ali, como é que ele acompanhou essa evolução?

 

R - Mas eu trabalhei... Ainda era manual em 1972. Depois, eu não... Aí já teve o computador, eu nem sei que época que foi. Mas era tudo manual ali, viu? Quando eu trabalhava era mesmo tudo manual.

 

P/1 - A senhora passava muitas horas por dia no escritório?

 

R - Passava. Às vezes, fazia hora extra ali, ficava até mais tarde para terminar o serviço. Eu não gostava de sair sem terminar o serviço. Se tinha aquela tarefa, eu terminava. Então, eu... E era muita coisa, fazia admissão, demissões, transferência - chegava, às vezes, de última hora: “Vai transferir o funcionário para tal cidade, São Paulo.” A gente já tinha que fazer os papéis ali, seguro contra os acidentes. Não tinha muito não, mas quem trabalha assim, com alta tensão, né? Sempre tinha qualquer coisa, então era sempre na hora. 

 

P/1 - E depois desse período, a senhora continuou na mesma área?

 

R - Não, eu... Depois eu fui para... Eu mudei porque a Doralice, a minha irmã, morava em Belo Horizonte, aí eu escolhi Belo Horizonte, fui para lá. Lá eu trabalhei também.

 

P/1 - A senhora saiu da CTBC?

 

R - Saí.

 

P/1 - Então conte como foi esse processo de saída.

 

R - A saída foi um mês assim, de novembro a dezembro. Eu deixei, passei o serviço todo para a minha auxiliar, que era a Leila; essa baixinha ainda ficou lá, já sabia do serviço. A Leila ficou no meu lugar. Foi a Leila... Leila, creio que foi ela sim. O serviço todo da... Nessa época já não tinha mais... Eu acho que já não tinha mais... Fazer teste não, porque as encarregadas de todas as cidades já faziam. A gente já mandava os testes em branco para os encarregados fazerem, então a gente já não ia viajar.

 

P/1 - E quando a senhora disse que ia sair, as pessoas aceitaram assim, sem mais sem menos?

 

R - É, houve uma... É uma história que eu não gostaria de falar. Um período que eu não gostaria de contar.

 

P/1 - Tudo bem. Mas, foi uma decisão sua?

 

R - É, foi entre as duas partes. 

 

P/1 - E a senhora foi para Belo Horizonte fazer o quê?

 

R - Ah, cheguei lá, fiquei... Descansei, viajei, fui para... Para onde que eu fui? Espírito Santo. Depois, eu voltei e fui trabalhar em firmas de pessoas daqui de Uberlândia; _______, doutor Edézio Alves Carneiro - trabalhei no Departamento Pessoal lá [por] três anos. 

O início foi difícil porque pessoas que não estavam registradas, eu tive que... Eram chofer de caminhão, ajudante. Eu tive que ir a eles para ver se eles estavam registrados. Então: “A carteira está aqui dentro do bolso.” “Deixa eu ver.” Em branco. Então, foi regularizar a situação de todos. Até foi da… Ele é irmão... De uma firma daqui de Uberlândia, Moinho Sete Irmãos. Fui muito bem recebida lá, atualizei o departamento, o fundo de garantia dos funcionários. Depois, saí para casar. (risos) [Em] 1975. Fiquei casada [por] seis anos, mas trabalhei também, na época de...

 

P/1 - Isso em Belo Horizonte?

 

R - É. Casei aqui, mas voltei. Trabalhei um ano no hospital Sara Kubitschek, na secretaria. Também difícil, viu? Muito difícil trabalhar em hospital. Fiquei um ano só. E depois fui chamada para trabalhar na Clicheria Eletro Gravura, são daqui também. Doutor Geraldo Duval e José Duval. Lá eu trabalhei [por] quinze anos na Contabilidade. Em 1992, nós fechamos. Lá também, é um departamento... Tinha Departamento Pessoal, aquelas máquinas de imprimir os livros, [um] serviço muito bonito. Fechamos a firma. Resolveram acabar, fecharam a firma e eu fiquei um ano só assim, eu, o chefe de Departamento Pessoal e eles. Já era o computador, mas o meu serviço era uma máquina até muito pesada, máquina alemã que era... Toda vida foi datilografia. E fechei a firma muito boa. Fechou tudo, pagamos... Foram pagos todos os impostos, sabe? Cada... Um ano para fechar [com] o Ministério da Fazenda, [com] prefeitura. Eu fiz todo o serviço. [Em] 1993, eu ainda estava lá. 

Fiz uma viagem muito boa na Europa, conhecendo oito países, oito capitais. Depois, em 1998, fiquei trabalhando assim, trabalho... Ajudo o meu cunhado e vim para cá em 1998. Estou com a minha mãe agora. Aposentei lá nessa firma. 34 anos de serviço.

 

P/1 - E não teve mais nenhum tipo de vínculo com a CTBC...

 

R - Não.

 

P/1 - Apenas o círculo de amizades.

 

R - Continuo. É, quanto à amizade... A gente, quando muda assim, você parece que desliga um pouco da... Eu também não ia assim, quando eu saía de um serviço, eu não voltava. Voltava, mas não era ficar indo sempre. Eu acho que, trabalhando, a gente nem tem tempo. A gente não tinha tempo de ficar... Naquelas horas mesmo, às oito horas de serviço.

 

P/1 - Como é que a senhora, de fora, tanto tempo fora da CTBC… Como é que a senhora enxerga a CTBC hoje, com toda a sua história?

 

R - Hoje está tudo moderno, então a gente... Tudo imagem, a gente vê imagem, aquelas propagandas e mudou... Expandiu muito, eu nem... Vejo... Vi o seu Alexandrino na televisão, o doutor Luiz na televisão. Quando tinha um evento, qualquer coisa é que a gente via o doutor Luiz, a Ofélia, a gente não tem mais... Não tive mais ligação com eles, mas também porque eu não estava morando aqui. Houve muitas reuniões aqui, que convidavam as antigas funcionárias, mas eu não estava aqui, então não participei desses eventos.

 

P/1 - A senhora participou da formação de tudo isso.

 

R - É, daquele... No início, né? A gente dá tudo da gente para expandir, para melhorar, para ir em frente. Depois, com a televisão, computador, só os outros que vem vindo... A mocidade que vem, já faz aqueles cursos. Eu, computador... Computação, eu não entrei... Fiz curso até lá em Belo Horizonte, mas eu acho que não me dou [bem com] computador.

 

P/1 - A senhora guarda algum tipo de orgulho pelo fato de ter contribuído...

 

R - Ah, tenho sim. Nossa! Eu aprendi muita coisa. Aprendi coisas nessas viagens, como trabalhar, viajar. Tem uma passagem que eu posso falar, né? 

 

P/1 - Claro.

 

R - Uma viagem... Nós... Eu falo nós porque éramos eu, uma colega e o seu Alexandrino. Mato Grosso, Paranaíba. E aquelas estradas… Às vezes, estava chovendo, era de Rural Willys. Tinha um velhinho numa estrada. Eu falei: “Seu Alexandrino, vamos dar carona para aquele.” Ele falou assim: “Ah, tá bom. Você quer dar? Você aguenta?” “Vamos, ué. Eu passo para trás e ele assenta na frente.” E nós demos carona para esse velhinho. Aí o seu Alexandrino, conversando com ele, falou: “O senhor vem de onde?” “Ah, eu moro aqui mesmo.” E aí deu uma dica para o homem? “Quantos o senhor já enterrou?” (risos) “Ah, uns três ou quatro.” Aí, tá bom. “Até onde o senhor quer ir?” E eu atrás, [com] medo, sabe? “Até onde o senhor quer ir?” “Pode me deixar nessa próxima cidade.” 

Desceu o velhinho, retornei à frente. O seu Alexandrino falou: “Está vendo? Vocês querem dar carona! Ele já matou uns três ou quatro.” (risos) “Está vendo? Por isso que eu não dou carona, mas vocês insistiram.” E a gente com dó do velhinho, sabe? E ele parou, deu uma lição na gente. Eu falei: “É mesmo. Nunca mais, seu Alexandrino.” (risos) Mas era...

 

P/1 - Ele era bom de conviver nessas viagens?

 

R - Era. Muito bom, enérgico. Eu falo enérgico porque ele tem aquela postura de chefe, de pessoa já vivida, então ele nos ensinou muita coisa. Mas foi ótimo. Era maravilhoso trabalhar.

 

P/1 - A senhora tem sonhos, carrega sonhos? Sonha com alguma coisa?

 

R - Eu sonho. Tem muitos... Sonho assim, sonho que você fala... Eu sonho muito...

 

P/1 - É, sim, mas o seus sonhos quais são?

 

R - Não, o meu sonho não tem sonho de grandeza, de nada. Eu, às vezes, converso com uma pessoa, como eu... No dia que a... 

 

P/2 - _________.

 

R - Não, no dia que você me ligou, que a Norma me ligou, eu fiquei ver aquelas... As imagens do seu Alexandrino, eu sonhei com ele. Engraçado, né? Sonhei com ele e ele estava até trabalhando no escritório, mas era... O engraçado é que eu falei: “Eu vou perguntar para o seu Alexandrino o que é que eu vou fazer.” Aí eu falei: “Eu posso fazer isso?” Ele falou: “Não.” Eu vi isso direitinho, ele falou: “Não.” Era um servicinho lá. Mas também aparece assim, no sonho, e pronto, desaparece. Aí eu oro; sempre quando eu sonho estou rezando, orando para... Sempre mando celebrar missa, as pessoas...

 

P/1 - Dona Adelaide, essa história que a senhora tem na empresa... Se a senhora pudesse dizer [algo] para uma pessoa que está entrando agora na empresa, o que a senhora diria para ela?

 

R - Revivendo os...

 

P/1 - Não...

 

R - Hoje?

 

P/1 - Uma pessoa que vai começar agora um trabalho na CTBC.

 

R - Ah, não. Hoje, as pessoas… Hoje mesmo eu fui em um salão e a dona disse... A proprietária falou: “Minha filha tem 21 anos. Se ela pudesse entrar na CTBC...” Quer dizer que [em] todos os lugares, [em] qualquer lugar que eu for a CTBC está em evidência. E eles querem que as moças, os rapazes ingressem na CTBC. Não é como antigamente que a gente tinha pessoas que informavam, davam informação daquela pessoa. “Vamos admitir”, ficava responsável por aquela pessoa, daquele funcionário. Hoje em dia é muito difícil porque as seções, os departamentos mudaram muito, mas eu diria que essa firma era a ideal para ser admitido. Mas eu não sei o processo mais lá de dentro, né? 

 

P/1 - Dona Adelaide, a senhora... A gente está satisfeito, a senhora tem alguma coisa que a senhora gostaria de ter dito e não disse? 

 

R - Não, a vida... Foram quinze anos, né? Quatorze anos. No decorrer dos dias, dos anos, das horas, a gente tem muita coisa, mas eu não me lembro. Naquela época foi maravilhoso conviver com as pessoas, nas festas da dona Maria tinha... A esposa do seu Alexandrino, os irmãos dele; a gente conviveu com Vicente, com... Como é que ele [se] chama, do posto? Esqueci o nome dele... Agenor. Foi ótimo, foi maravilhoso.

 

P/1 - O que a senhora achou de ter dado esse depoimento para nós?

 

R - Você sabe que eu estava meio assim, eu falei: “Ih, eu...” Eu até falei com você na... Mas foi ótimo. Estou mais descontraída, foi ótimo. Gostei muito de você.

 

P/1 - Então, está bom. Nós é que agradecemos muito a senhora. Muito obrigado.

 

R - De nada, disponha. Se estiver ao meu alcance, estarei às ordens.

 

P/1 - Foi ótimo, precisava ouvir essas histórias que a senhora contou para nós. A gente só tem a agradecer a senhora...

 

R - Eu que agradeço. Muito obrigada. Eu estou feliz.

 

               


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