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História

Sempre na torcida!

História de: Nilo Valle Hernandez
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/12/2013

Sinopse

Em seu depoimento, Nilo Valle Hernandez nos fala de vários episódios da história do Santos Futebol Clube, time do seu coração. A construção da Vila Belmiro, a conquista da Taça Intercontinental de 1963 e a trajetória de jogadores lendários como Pelé e Athié Jorge Coury são assuntos tratados em detalhes por este torcedor santista.

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História completa

P/1 – Bom, senhor Nilo, eu gostaria de começar pedindo ao senhor sua data de nascimento.
R - Dia 13 de abril de 1917.
P/1 – A cidade.
R – Santos.
P/1 – O nome do pai do senhor.
R – Juan, espanhol, né? Juan Valle Martin.
P/1 – Valle com dois Ls, né?
R – Isso. É Martin, N no final. P/1 – A data de nascimento deles, o senhor se lembra?
R – Vai ser difícil. A minha mãe morreu com 100 anos, né? Cem anos e 6 meses. Meu pai morreu já faz uns 30 anos mais ou menos, mas era equivalente com a minha mãe. Minha mãe estaria agora com cento e poucos, era no outro século, 1895 por aí.
P/1 – Aproximadamente 95, depois a gente checa.
R – Calcular assim é difícil, né?
P/1 – A cidade de nascimento dele.
R – É  Salamanca na Espanha. Aliás, os meus pais e meus avós eram de Salamanca na Espanha. Não está gravando nada.
P/1 – Está gravando, não tem problema. Qual era a atividade do pai do senhor, atividade profissional?
R – Meu pai era vendedor. Quando ele veio da Espanha... Inclusive, posteriormente, na Revolução de 32, ele foi ajudar a trabalhar no cassino lá no Monte Serrat. Mas ele era, depois ele foi vendedor da Continental, foi, assim, uma espécie do... Como tem o Frigorífico Wilson, Frigorífico Wilson, ele trabalhou, era vendedor.
P/1 – Ele era vendedor.
R – Vendedor, é o termo mais usual, porque era casa de carnes que ele servia por esses bares todos. Quantas vezes, eu era garoto, vinha trazer o presunto aqui no Vela, no Gonzaga, né?
P/1 – Mas ele era proprietário?
R – Não, ele foi proprietário do restaurante em frente a Alfândega, hoje não existe mais. Mas isso nos idos de 40 e poucos. A firma era Valle e Parada, eram dois espanhóis: o meu pai e esse.
P/1 – E o nome da mãe do senhor?
R – Paschoala, é espanhola, é Paschoala, né? Paschoala Hernandez Valle, Hernandez também é com Z. Espanhol, né?
P/1 – Bom, a data de nascimento dela é...
R- É.
P/1 – Mais ou menos 1895.
R – A minha mãe morreu faz 10 anos, né? Não, morreu com 100 anos e 6 meses, ela deveria estar com 112, 1900.
P/1 – Mil oitocentos e oitenta e nove.  Se ela morreu com 100 anos.
R – Se soubesse dessa pergunta já teria tido o cuidado da minha...
P/1 – Mas não tem problema, isso daqui depois a gente, depois da entrevista a gente pega com o senhor no outro momento.
R- Ah, pois não.
P/1 – Bom, a cidade também era Salamanca, né?
R – Isso é.
P/1 – Ela era doméstica?
R- Era doméstica.
P/1 – E quantos irmãos que o senhor teve, ou tem ainda?
R – Eu.
P/1 – É.
R – Ou meu pai? 
P/1- Não, o senhor.
R- Eu, eu tenho... Sou eu e mais duas irmãs.
P/1 – Três, no caso são dois irmãos?
R – São duas mulheres. Somos 3 filhos, né?
P/1 – A situação familiar do senhor agora. O nome da esposa do senhor, o nome completo.
R – Almerinda Seixas Valle.
P/1 – A data de nascimento dela?
R – Vinte e oito de julho de 17.
P/1 – A cidade? Santos?
R – Santos.
P/1 – A data de casamento do senhor.
R – Treze de janeiro de 42. Hoje é 15, aí você vê.
P/1 – Atividade da senhora do senhor?
R – Não, ela não é dona de casa, é...
P/1 – O senhor tem filhos?
R – Tenho dois, um casal.
P/1 – O nome do mais velho?
R – Nilo Alberto Seixas Valle. Ele está com 57, é de 45. A minha filha é de 43.
P/1 – A data de nascimento deles o senhor lembra o dia? Se não eu pego depois.
R – É de 17 de junho de 45.
P/1 – A atividade profissional dele qual que é?
R – Ele agora trabalha na Deicmar, né? Deicmar exportação, importação de veículos, é que tem no cais. Tem o estacionamento, aquilo que embarca os navios.
P/1 – Mas ele é funcionário da Companhia Docas?
R – Não, ele é funcionário do Deicmar.
P/1 – Que é uma empresa que trabalha com exportação e importação, né?
R – Às vezes o pátio tem 2.000, 3.000 carros. E quando tem que embarcar... Então, recebem ordem, eles pegam duas peruas uma na frente e outra atrás e levam dez motoristas com dez carros, e levam lá pro (Roro ?) na entrada do navio.  Aí pegam os dez funcionários, põem nas duas Kombis e voltam pra buscar mais. E assim ficam a noite toda embarcando 300, 400, 500 carros. Não vem às vezes pra casa dormir, não dá. O comandante cisma de embarcar: “Não, está atrasado. Está gastando muito.” Faz pegar meia noite e varar a noite toda.
P/1 – E abaixo do Nilo, o outro filho do senhor qual é?
R – A minha filha é mais velha.
P/1 – Ah, é filha. Ah, é mais velha. Como que é o nome dela?
R – Regina Márcia.
P/1 – Regina?
R – Agora, era Seixas Valle. Agora tem que por Valle de Almeida porque ela casou,  saiu... Quando foi que nasceu? Quarenta e três, que dia?
P/1 – Não tem problema, não. Depois a gente coloca.
R – Eu devo ter aí. Ela foi em 43 e o meu filho em 45. O Nilinho foi em junho, né? Em julho, todos em julho, julho. Os dois são em julho. Você também é julho.
P/1 – Seu Nilo, depois a gente...
R – Depois a gente faz uma repassada.
P/1 – Depois a gente checa direitinho esses dados, que essas datas a gente fica confuso mesmo. E a atividade profissional dela?
R – A minha filha é aposentada, é professora aposentada da Prefeitura. Agora ela está direcionando que colégio? Eu não sei. Eu sei que ela é aposentada já faz tempo da Prefeitura. Ela é professora. Ela estudou no São José, diplomou-se, foi professora no São José, depois fez concurso pra Prefeitura no tempo do Sílvio Fernandes Lopes. Ele demorou uns dois anos para nomeá-la, por fim nomeou e ela ficou trabalhando no monte, de nome Nova Cintra. Numa escola Nova Cintra. Tem diploma de piano, um monte de coisa pra fazer currículo, pra ajudar na...
P/1 – E atualmente ela é diretora de escola.
R – Ela trabalha no Febem.
P/1 – O senhor, a formação escolar do senhor, o senhor estudou até quando?
R- Sou diplomado em 38, no Colégio Liceu São Paulo.
P/1 - Chegou a concluir o 2º grau?
R – Eu tirei o diploma de contador. Eu já tenho até o retrato.
P/1 – Depois a gente vê, depois o senhor mostra. Depois eu quero ver essas fotos.
R – Foram saindo todos e só ficamos cinco. Dos cinco só falta saber o José Perdiz Pinheiro, que os outros três já morreram. E estou eu aqui.
P/1- Depois a gente vê as fotos.
R – Você vai “vê” que pinta que está ali.
P/1 – O senhor tem alguma religião, senhor Nilo?
R – Eu vou na igreja, às vezes, com ela católica, né? Não sou assim um habitué.  Porque tenho um primo padre, né, o Padre Valdemar Valle Martin. É meu primo, é padre e mora... A minha prima também, que é irmã dele, mora na Rua Paraíba. A Lindomar também é professora, né, é diretora aposentada do Estado. Quer dizer, eu tenho um primo padre. Quer dizer que eu contribui pra igreja, essa igreja dos Passos foi justamente o primo que idealizou. Inclusive, eu tenho até uma carta de agradecimento dele, esse, de ajudar como que chama? É, esqueci o nome. Circunflexo? Como que é? A pessoa vai na igreja e se ajoelha ali. Como que é?
P/1 – Confessionário, não?
R – Não, tenho até a carta dele aí, mas esqueço. Como é o nome daquele negócio Mirna? Que a gente ajoelha ali, que eu dei lá pra lá? Depois eu vejo.
P/3 – Oratório?
R – Não é bem oratório, tem um nome exclusivo.
P/1 – Bom eu queria agora saber a trajetória profissional do senhor, o senhor tem alguma atividade profissional? Agora o senhor é aposentado?
R – Então vamos fazer o seguinte, entrei pra trabalhar...
P/1 – Então vamos começar desde o 1º emprego do senhor.
R – Não vai ser muito não, você vai ficar surpresa. Então marque aí: 15 de março de 33.
P/1 - Quinze de março de 33, onde que o senhor entrou pra trabalhar?
R – Escritório Levi Ltda. Câmbio, títulos, aplicações etc, tal, tal. 
P/1 – Qual era a função do senhor no escritório?
R – Quando eu entrei lá com 15 anos.
P/1 – Office boy?
R – É, office boy. Entregava cotação, via como que está o mercado hoje. Aí, sei que lá entregava lá pro pessoal, tal. Foi aí que Athié Jorge Cury não saía do escritório, que foi presidente do Santos. Era muito amigo nosso.
P/1 – O senhor trabalhou como office boy de 33 até quando, quando é o 2º emprego do senhor?
R – Não teve segundo.
P/1 – Então, vamos ver as funções do senhor. O senhor ficou de office boy?
R – Eu fui galgando tudo. Fui correndo feito um louco, aí galgando e tal. Em 1939, o escritório resolveu implantar a seção de despachos. Eu, nada mais nada menos, quem foi convidado fui eu.
P/1 – Responsável pela seção de despachos.
R – É, que tinha o despachante Arnaldo Silveira, campeão sul americano pelo Santos Futebol Clube brasileiro. E quando eu falo em Arnaldo Silveira, pois é, eu tive a felicidade de trabalhar com ele, fazer despachos com ele. E tem um detalhe: quando veio e foi contratar um jogador ele falou assim pra mim: “Nilo, eu vou contratar o...” ai meus Deus do Céu “Eu vou contratar o jogador...” como que é o nome dele? “Por 8 contos de réis.” Gravei isso aí. Eu lembro o nome, às vezes me foge. É isso que eu tenho medo, por causa disso.
P/1 – Não senhor, não tem problema.
R – Quer dizer, eu interrompi isso aí, pra dizer que eu participei também pelo departamento de despacho, não é isso?
P/1 – É a seção de Despacho.
R – É depois eu trabalhei na seção de Câmbio. Porque naquele tempo nós tínhamos a firma de café de (Garbandi Land?), os (Agaladumos?) queriam fazer embarcar café. Tinha que fazer, digamos, 20 mil dólares. Então os dólares eram divididos, digamos, 65% no oficial e 35% no livre e depois tinha o rebate da exportadora pro banco, entende? Quer dizer que isso é um negócio que dá um trabalho danado. Depois nós tínhamos que ir na alfândega conferir o selo, o fiscal do selo tinha que por o numero do selo, aquelas coisas todas. E depois fiquei muito tempo na caixa, como caixa do escritório também, caixa. Aí passei pra corretor, deixa eu ver, logo quando foi criado... A Bolsa de Santos não tinha quase funcionamento. Depois, com advento de várias corretoras de São Paulo que aderiram pra cá, então formou-se um núcleo talvez de umas 13 ou 14. Então os escritórios tinham que ter aqueles cidadãos que iam pro pregão da Bolsa, ficavam ali, comprando isso, comprando aquilo. Essa é a razão que tem um monte de ação aí, que eu também comprava. Não trabalho, agora estou enganando. Eu não falei que engano só de manhã?
P/1 – Ali na Rua 15, né, senhor Nilo?
R - O escritório Levi foi na Rua 15, 59 até 1933, isso foi em 33, né? Mil novecentos e cinquenta e oito, mais ou menos. Aí nós mudamos pro andar de cima, ficamos lá uns dois anos. Aí o escritório resolveu comprar o andar, 2º andar ali do prédio da... Ali está... Como que é o banco ali Rua Frei Gaspar com General Câmara? Itatiaia. Nós compramos, o escritório Levi comprou o 2º andar ali. Aí se instalou, tinha ainda ali uns doutores, umas coisas. Fez sair e nós ficamos com o 2º andar “tudinho”. Porque nós tínhamos a corretora, a matriz  de São Paulo, filial no Rio, da qual eu ia periodicamente pro Rio, razão pela qual eu estava em 63, que eu antecipei as coisas pra fazer... Não vou agora, não. Eu vou na véspera e tal, dois dias antes. Essa é a razão que em 63 eu estava no Rio por isso.
P/1 – Foi assistir o jogo.
R – Já arrumei essa artimanha por isso mesmo.
P/1 – E o senhor foi caixa?
R – Eu fui vários anos, né?
P/1 – E depois?
R – Depois eu passei pra ser o corretor da bolsa, porque nós tínhamos uma clientela enorme, firmas e tudo. Então chegava lá: “Manda comprar 10 mil, Banco do Brasil, 5 mil.” Então fazia a relação dentro da cotação. Ia pra bolsa pregoar, comprava também, vendia. Quer dizer, estava difícil o mercado aqui, eu passava pra São Paulo. Às vezes no Rio o mercado que nós tínhamos sempre pra comunicação, conforme a cotação do que estava melhor, aí tinha que agradar o cliente: “Olha, no Rio está melhor então passa pra lá.” A gente vendia Brahma, Souza Cruz, Moinho Santista, entende? Tudo que eram ações, assim, de Banco, Banco do Brasil, antigamente era Banco da América. Nesse ínterim aí da coisa, o escritório Levi, do qual fazia parte o Hebert Vítor Levi, deputado, ele ainda vive, os outros irmãos... Naquele tempo que eu entrei eram três irmãos: Eduardo, Roberto e o Hebert. O Hebert ainda vive e ele fundou o Banco da América, que posteriormente foi engolfado pelo Itaú, Sul Americano,  essas coisas. E  tem um detalhe: um belo dia ele telefonou, foi na Guerra, não fecharam aqueles bancos estrangeiros? Fecharam o alemão Transatlântico, fechou o Banco de Londres, fechou o Banco Sul Americano justamente. E o Hebert Levi, de São Paulo pra cá, falou pro procurador, que era o Pacheco Salgado: “O senhor vai lá no Banco da América, faz um levantamento.” Mas ele era meio devagar e ajudava lá na Santa Casa. Ele falou assim pra mim: “Nilo, vem cá. Vai lá no Banco Itaú, vai no Banco da América, lá no Banco alemão Transatlântico, faz um levantamento dos bens lá, tudo mais. Então, depois me dá.” Essa uma parada que eu dei justamente, dei a entrada, quando nós fundamos o Banco da América. Fundamos o Banco da América, do qual nós fazíamos parte. Eu entrei, era correntista, acionista, tal. Depois passou tudo pro Itau. Então eu fiz o levantamento completo do que tinha lá no Banco pra dar a  relação pra São Paulo pra eles saberem. Até tem esse detalhe de uma bonita porta de ferro que abria: “Não, eu vou levar.”; “Não, você não vai levar nada daqui, eu vou mandar o que está escrito aqui, eu vou mandar pra São Paulo. Por isso, o que o senhor quiser daqui, o senhor peça lá, porque aqui...”, ele queria levar, escapou: “Não, essa porta aqui”; “Não vai levar nada”, isso foi um pequeno detalhe.
P/1 – E o senhor foi corretor até quando?
R – Setenta e seis eu aposentei. É, mas como eu aposentei pra ficar um pouco mais descansado, mas não fiquei, porque eu continuei lá, entende? Eu continuei lá e pronto e foi. É nesse tempo...
P/1 – Mas o senhor continua como funcionário do escritório, ainda?
R – Eu estava aposentado, mas eu trabalhava, certo? “Não, fica Nilo!” Então, quer dizer, na Bolsa de... Não agora, que foi reestruturada com a Bolsa de Café, ela fica mais adiante...
P/1 – A Bolsa de Valores, eu sei aonde é, um prédio bonito.
R – A Bolsa de Valores, exatamente, foi Alberto Levi que transferiu de onde estava, comprou esse. E o Alberto Levi que era nosso funcionário, depois eu fui sócio com ele no Alberto Levi Corretora. Foi ele que montou lá na Rua XV de Novembro...
P/1 – Do lado da bolsa de Café.
R – Agora, por incrível que pareça, formaram um bingo na Rua XV bem em frente a Bolsa. Até que ponto nós chegamos. Um bingo! Eu passo, saio da Bolsa, passo lá, eu vou na Bolsa pra ver como está a cotação e vejo mulher jogando bingo dez e pouco da manhã, isso é o fim do mundo. Bom, o que mais?
P/1 – O senhor disse que nasceu aqui em Santos, o senhor sempre morou aqui, ou já morou em outra cidade?
R – Não, morar, morar não. Quer dizer, eu tive um período de 39 que eu estive em São Paulo, num escritório em São Paulo.
P/1 – Mas morando lá ou não?
R – Não, não ficava lá, vinha sábado e depois voltava segunda-feira, né? Depois sábado e voltava segunda-feira. Isso porque tinha que tomar ciência de algumas coisas que iam ser implantadas aqui, então tinha que ter conhecimento. Então eu ia lá absorver pra poder trazer, não é isso? Mas eu fiquei lá, isso durou pouco tempo. Eu ia na segunda-feira cedo e voltava. Eu sou daquele tempo que inauguraram a PRF3 no alto do Sumaré, não tinha ninguém lá, só ia eu e Oswaldo Rodrigues. Nós íamos lá ver, Aurélio Campos, Vassourinha, esse pessoal todo. Conhece lá onde era o alto do Sumaré? Antigamente não tinha nada, só tinha a PRF 3.
P/1 – Não, o senhor estava me perguntando da... O senhor estava dizendo que continua a trabalhar, né?
R – Isso, eu ia pra Bolsa, né? Que nós tínhamos o pregão. Tocava a sineta às 10 horas, tinha que ir pra Bolsa, a gente via o pessoal vendendo, comprando. Eu, quando não conseguia fazer aqui, nós passávamos para o escritório de São Paulo, São Paulo/Rio, tudo mais. Quer dizer que nós tínhamos movimento muito grande de clientes e clientes bons. Quer dizer que isso tomava tempo, depois fazia os cálculos da cotação; quando tinha fechado batia a notinha. Recebeu tem que pagar, se ele vendia, aquelas coisas todas. Eu tive a oportunidade de, justamente por isso, uma ocasião houve uma corrida pra comprar ações do Banco do Brasil e: “Compra 1.000, compra 2.000.” Eu passava a quantidade e o nome, mas um funcionário relapso lá no Rio o que é que fez? Comprava e punha tudo no nome do escritório. Então não aparecida os dividendos e nem aparecia as cautelas. “Então vai lá no Rio, vê o que é que houve.” Era qual o nome dele? Aí fui lá: “Vamos falar lá no 7º andar.” Aí, quando pedi a posição, deram a posição das ações em nome do escritório. O escritório não tinha ação e dividendos tinha uma barbaridade de dividendos, tinha que desdobrar aquilo tudo. Você tinha 20 mil, 50 mil ações tal. Mil era de um, 2.000 de outro, 3.000 de outro. E o fulano lá, até me indispus lá com ele porque ele queria cobrar comissão. Isso aí era escritório. Agora, tinha pra desdobrar, então não sei como é que ficou, que eu vim embora né? Eu ia lá porque esse pessoal que estava reclamando foi o que tinha dado ordens daqui de Santos, porque o pessoal do Rio comprava no Rio, tinha ali mesmo, né? Como não vinha, o acionista com razão reclamava: “Escuta, não tem cautela nem nada”. O Banco do Brasil ainda tem o sistema de cautela, mas o Bradesco, o Itaú que eu tenho, não tem mais. Agora extinguiram o negócio. Você tem tantas ações, ”tó”; Você quer vender? Vai lá, vende e tal. Não existe mais. E tinha uma cautela, você era obrigado fazer uma procuração, antigamente era: “De próprio punho por mim feito e assinado, declaro vender tantas ações.” Depois fizeram a procuração datilografada, com firma reconhecida. Então você era obrigado a juntar a procuração, a cautela que você pretendia vender com aquela quantidade, e ia pra Bolsa. 
P/1 – Mas eu queria puxar o senhor um pouquinho. O senhor falou do trabalho aí na Bolsa e tal, mas agora quero falar de futebol, do Santos.
R – Do meu, do Santos.
P/1 – O senhor acompanhou o Campeonato de 35?
R – É, antes de 35 eu já estava lá.
P/1 – Então vamos antes.
R – Não, foi um ano só, 34 mais ou menos. Eu tinha 16 anos, mas era juvenil ainda naquele tempo. Até naquele tempo tinha o técnico italiano Domenico... Não me recordo agora. E logo a seguir veio 35, o Santos foi campeão nesse ano, que o treinador era o Bilú, que jogava, foi zagueiro nos tempos idos. Eu estive acompanhando que o Santos estava treinando justamente pra esse jogo de domingo, 17 de novembro de 35.
P/1 – Que foi a final?
R – É, eu acompanhei, estava acompanhando lá os treinos: “Será que o Raul e o Cabral ganham no jogo?”; “Eu acho que vai jogar o Délcio”; “Não, é o Raul não sei o que, tal, tal”, aquela expectativa. E chegou o dia do jogo eu e uns dois, três amigos, nós embarcamos às dez pras seis na São Paulo Railway, na estação do Valongo. Dez pras seis. Chegamos no Brás umas oito e meia mais ou menos, ficamos por ali então, não sei o que: “Vamos comer qualquer coisa? Vamos pro jogo? É, vamos pro jogo”, aí eu: “Como é que faz pra ir pro campo do Corinthians?” Você vê essas marginais bonitas? Trinta e cinco não tinha nada. “Não, vai passar um ônibus aí, um bonde que diz Penha - um camarão - vocês pegam esse aí”. Entramos no camarão Celso Garcia pa, pa, pa, pa, eu disse: “Olha isso, aqui é ponto final. O ônibus vai fazer a volta”; “O campo fica ali.” Pisando naquele barro ali, ta, ta, ta, acho que chegamos uns 15 minutos pra chegar no campo do Corinthians. Hoje a gente vai pelo asfalto, você vê o ônibus passa até na porta.
P/1 – E aí?
R – Não tinha nada, era terra só. Chegamos lá eram dez pra uma, o relógio marcava dez para uma. Estava preliminar e chegando gente de Santos, porque foi muito, o trem foi quase lotado daqui. O jogo começou mais ou menos quatro horas, um pouquinho antes de quatro horas e tinha o time já escalado. Quando entrou o Rui Cabral Guedes, o Délcio ficou na reserva, no dia que jogou meu amigo Mário Pereira. Um jogo difícil, aquela torcida do Corinthians apertando o Santos. Pra ser campeão tinha que ganhar e não tinha título nenhum, precisava desse título e não estava vendo jeito. Então estava na arquibancada aqui, o primeiro gol surgiu, no gol esquerdo. O Araken, Araken Patusca, né, o pai dele foi o Silvino Patusca, eu acho que foi o primeiro presidente do Santos foi Silvino Patusca. O Araken Patusca recebeu a bola, assim, estava jogando, o beque do Corinthians enganou, empurrou assim. Porque o Raul corria assim, com os pés assim, e a bola foi na frente. E o José, acho que era meio estrangeiro, turco, não sei o que, foi ameaçar de sair e foi seguindo. Na hora que ele saiu o Raul deu um toque sutil, assim. Um a zero. Aquilo veio abaixo: “Caramba! Um a zero.” Terminou o 1º tempo. No 2º tempo, Santos atacando no gol de cá e teve uma falta, um tal de Teixeirinha, ponta direita do Corinthians, bateu. O Ciro era conhecido como Gato Preto, até falei que a cunhada dele esteve aqui anteontem. O Ciro deu um vôo, ele era espetacular mesmo, ele fazia aquelas poses pra aparecer mesmo. De fato ele jogava bem. Ele veio de bica de pé, agora mudou o nome, antigamente era bica de pé. E o Teixeirinha, aquele pessoal apertando de linha... Mas parece que foi aos 18 minutos, numa jogada do Martelete com o Mário Pereira: Mário Pereira cruzou pro Araken e o Araken livrou-se, pumba! Dois a zero. Não perdemos mais, não perdemos mais esse Campeonato: dois a zero. O melhor foi no final, tudo no trem, tudo.
P/1 – E a comemoração?
R – No trem. Viemos com a bola, vim junto com o Neves, aquele pessoal todo, naquela euforia e tal. Era o seguinte...
P/3 – Os jogadores vieram juntos?
R – Vieram juntos, vieram, a maioria veio tudo no mesmo trem, porque não tinha... Trinta e cinco, você pensa que tinha esse ônibus bonitinho aí? Tinha um trem às dez pras seis, outro era às oito e meia.
P/3 – E os jogadores vieram juntos.
R – Viemos à noite, o Correio, o pessoal foi tudo lá pro Café Paulista, Rua do Comércio e nós íamos desembarcar lá na Rua São Bento. E nesse tempo saía um trem de Santos e saía outro trem de São Paulo e eles tinham que engatar a máquina pra poder puxar, porque na Serra a máquina não sobe sozinha, vai com aquele reboque, com especial. Aí paravam os dois no alto da serra, no restaurante. Então um saía pra cá, outro saía pra lá, um corria pra aqui e tal. Resultado: os que tinham que descer, alguns deles embaixo e o outro lá... Porque a pessoa saía e fazia a volta aqui, porque era redondo. Então aqui estava ocupado você ia pra ali, você ia pra lá pra pegar o lugar pra tomar o café, aquelas coisas, e depois você tinha que sair, porque as duas portas uma estava aqui outra aqui, aí você tinha que sair por aqui por aonde você entrou. O nosso amigo pegou... Os dois saíram por aqui e voltaram pra São Paulo (risos). Isso é um destaque, e o pessoal: “Ih, caramba! Eles voltaram pra São Paulo”.  Eu, por exemplo, às vezes vejo, estou vendo o jogo do Santos, um par de cabeça, tal, parece que está impedido. Depois venho me certificar na televisão porque a televisão volta, mostra se não, a bola primeiro, partiu o jogador, não estava impedido. Porque o jogador só está impedido antes do fulano centrar. Porque se o jogador, o companheiro bateu a bola, já saiu, ele, embora esteja em situação como de impedimento, não está, porque vale a saída da bola. Quer dizer, o jogador atualmente está apreensivo ali com os colegas de passar, quer dizer, detalhes de nós que estamos vendo. Aqui a gente vê a posição da jogada, não é isso?
P/2 – Mas aí o senhor estava contando que vocês estavam no trem. E aí?
R – Ah, do trem. E depois na hora nós não demos pela falta, era aquela euforia, não? Aí o trem parou, aí o pessoal correndo pela Rua do Comércio lá pra estação no Café Paulista, aí aquele alvoroço, pessoal tudo chegando. Uns iam pra casa outros não iam e tal, mas depois fizeram uma festa, acho dois dias depois. Até o Agenor fazia aniversário lá na Bocaina e eu fui lá no aniversário dele e estava uma algazarra. Aquilo durou dias.
P/1 – A festa durou dias.
R – Quer dizer, naquele tempo você vê, não é como o mundo de hoje, né, em 35.
P/1 – Mas antigamente era no Valongo?
R – O quê?
P/1 - Que era feito a festa, ali na Rua 15, a Rua do Comércio.
R – Isso é no tempo do carnaval, o carnaval antigo era ali. O carnaval antigo.
P/1 – Mas e essa comemoração de 35?
R – Bom, aí foi aquela aglomeração esperando jogadores, uma pra lá outra pra cá. Uns indo pra casa outros desfazendo ali, ficou muito tempo. Eu também não parei muito tempo. Assim que me viram na terra e tudo mais eu já vinha acompanhando desde lá. Eu estava preocupado de chegar em casa e tal. Dezesseis, 17 anos mais ou menos. Eu sei que prosseguiu durante a noite. Eu não tive detalhes até o final, mas eu sei que depois, no dia seguinte, parece que reservaram, parece que arranjaram não sei, eu soube depois, barril de chopp pra fazer uma festa, né? Então ficaram tomando chopp por aí acho que dois ou três dias por conta do Campeonato.
P/2 – Deixa eu perguntar uma coisa pro senhor: chegaram invadir o campo lá no Corinthians?
R – Não, hoje tem essa moda, mas não teve não. Houve aquela euforia, tal, os jogadores saíram, assim, naturalmente. Não teve, assim, aquelas explosões de... Como tem, solta até foguete, aquelas coisas. Naquele tempo não tinha nada disso.
P/1 – Como que era a torcida?
R – Era mais comedido, a torcida não se empolgava muito. Quer dizer, vibrava e tal, mas de uma maneira bastante calma. Não é como agora que se ofendem, atiram coisas, pega radinho de pilha. Não tinha nada disso não. Antes era uma torcida, assim, que agradava, entende? Torcia, se pudesse estar junto com corintiano, não havia esse... Eles confirmavam: “De fato o Santos jogou melhor, o Santos mereceu.” Eles mesmo diziam o Santos mereceu e tal, hoje não.
P/2 - Senhor Mário, o Sr. chegou a comentar com a gente que vocês jogavam as palhetas.
R – Bom, teve de fato. Antigamente era aqui, o pessoal era tudo de palheta, quase ninguém andava sem chapéu, era difícil. Um dos que eu conheço ele foi jogador do Atlético Santista e chamava-se Bizoca. Foi uns dos primeiros que deixou de usar chapéu: “Está sem chapéu!” A palheta, né? Aquela palheta aquilo era duro, aquilo às vezes eles tiravam mesmo, assim, esporadicamente. Não que eu visse habitualmente não. Porque eu cheguei a ver o jogo, isso foi em 35, eu cheguei a ver o Santos ganhar do (Barraca?) de um a zero, gol de “Feitiço”, na Vila Belmiro, que eu ia com o pessoal da Leoneza. A Leoneza era... Tinha padaria e tudo mais, era... E teve... Você é de Santos? Ah, então não adianta falar no colchão do Luiz XV que era uma da família da Leoneza, eles que levavam, entende? Eu tinha, digamos, dez anos, onze anos. Quer dizer que...
P/3 - O senhor sempre foi santista?
R – Sim, aliás eu tenho uma... Eu fui do Jabaquara e do Espanha, fui do Espanha e do Jabaquara. O Jabaquara, foi do Jabaquara que...
P/3 – E o senhor chegou a jogar nesses times?
R – Não, cheguei a treinar lá. Eu tenho... O Jabaquara tinha campo na Rua 28 de setembro, lá no Macuco. E o meu pai também era diretor lá também. E eu então tive, como é que se diz, não é primo, digamos primazia. Eu vi quando estava construindo o campo e vi no dia da inauguração.
P/1 – O Jabaquara?
R – É, era Espanha naquele tempo, na Rua 28 de setembro, lá no Macuco, lá perto da igreja São José, aquela igreja. E até tem um detalhe, um dia me perguntaram do Leônidas da Silva, Leônidas da Silva deve estar com 86 anos. Por quê? Porque teve um jogo do Bom Sucesso com o Espanha na Rua 28 de setembro em 1930 e o Leônidas veio como meia-esquerda do Bom Sucesso e o Leônidas tinha 17 anos.
P/1 – Fazendo as contas.
R – Quer dizer, ele deve ter nascido em 82 em 0, 8 né...
P/2 – Ele fez 85 anos.
R – Ele tinha 17.
P/2 – O ano passado, né?
R – O Leônidas... Veio de centro-avante o famoso Gradin, do passado. Ele estava mais ou menos... O Leônidas veio com 17 anos em 1930, lá no campo do Espanha no Macuco. Eu estava lá.
P/3 – O senhor jogou então, além do Espanha...
R – Ah, depois no time da várzea, né? No Guarani do Macuco, na União de São Vicente, Itararé, Beira Mar de São Vicente. Bom, o que é que eu estava falando mesmo?
P/1 – Não, a de 35. O senhor estava relembrando o momento.
R – É, e tinha esse detalhe do Bom Sucesso. Eu vi lá no Celta de Vigo da Espanha, lá na 28 de setembro de 1930. Até lembro que depois ele eu conheci bem, ele veio jogar no Santos também o Negreiros, Juvenal Ferraz de Negreiros. Ele estava estreando no Espanha nesse dia em 1930, centro-avante. E o Leônidas da Silva veio com o Bom Sucesso, tinha 17 anos, 17 anos em 30.
P/3 – Só o senhor era santista na sua casa, ou a família inteira torcia pro Santos?
R – As minhas irmãs não são de futebol. É, as minhas irmãs não são de futebol. O meu pai, naquele tempo que vivia tudo mais, que foi diretor, era do Espanha, né? A minha mãe ia sempre com ele lá no Espanha e tudo mais. Eu também acompanhava. Eu até tenho um detalhe, um jogo do Espanha lá no campo do Macuco, a Rádio Cruzeiro do Sul que não existe mais veio com o repórter Galeano Neto pra radiar o jogo. E outro que ajudava ali não sei se se perdeu, não sei o que lá, ele ficou sozinho lá. Entrou o time do Espanha em campo, ele perguntou assim: “Quem é aquele moreno de centro avante”; “Aquele é o Nabor” eu que dei o time, a escalação pra ele. Esse Nabor jogava no Atlético Santista e foi contratado pelo Espanha. E ele ia irradiar o jogo e não sabia como que é, porque o companheiro dele não sei se se perdeu. Eu é que tive a primazia! Rádio Cruzeiro do Sul, que acho que era na Rua Direita, se eu não me engano, nos novos tempos, lá pra 30 e pouco.
P/1 – Senhor Nilo, e o Campeonato de 55?
R - Cinquenta.
P/1 – Esse o senhor acompanhou também?
R – Esse foi mais fácil, esse foi mais fácil. O último jogo foi contra o time daí do Taubaté, aí da Via Dutra, Taubaté, né?
P/1 – Do Vale do Paraíba ali?
R- Justamente deve ser o Pepe, que vocês vão entrevistá-lo. O gol que ele fez, o segundo gol no gol da Rua José de Alencar, no gol do placar velho. Até brinco com ele: “Você deu um tranco no Manduca e tal”. O juiz era o João Edson, deixou passar: “Não tem nada”. “Você deu um tranco no Manduca e foi embora e fez o gol”. Eu sempre falo com ele. E foi dois a um isso. Vinte anos depois, o Santos foi campeão em 35 e veio a ser em 55, 20 anos depois. Em 35 com Mário Pereira, em 55 com o Pepe. Depois o Pepe foi subindo, subindo, foi campeão do mundo várias vezes. Você pega aqui ou coisa aí é campeão paulista de 35, 55, 56, está cansado de ficar pronunciando aqui: campeão Gomes Pedrosa 83, 84, 65. Olha, é brasileiro, é sul americano, é mundial, nossa senhora!
P/3 – Como foi a conquista do troféu Tereza Herrera, o senhor lembra?
R- Foi lá fora.
P/3 – Lá na Espanha. O senhor não se lembra mais, teve alguma repercussão aqui?
R – Teve, eu soube das vitórias dos jogos lá, mas eu acho que detalhes quem deve ter é o Chico Mendes. Porque o jogo foi lá, o Santos teve uma vitória grande lá contra o Portugal: cinco a dois. Dois gols de Coutinho, dois gols de Pelé, o time do... Não. É o Porto! Foi, o Santos foi campeão lá. O primeiro campeonato foi contra Portugal também. De modos que... Bom, depois de 55 nós tivemos uma dura demora, só foi em 84. Chegamos perto, o time caía, chegava em segundo, depois voltava. E outra alegria só de 55. O Pepe jogou em 55 e depois entrou na fase gloriosa do Santos, de 60, 61, 62. Aquilo era um rolo compressor, punha este, punha aquele e ia ganhando o jogo, campeonato. E tinha uma infinidade.
P/3 – O senhor chegou a ver o Pelé jogar várias vezes, não?
R – Vi quando ele estreou em São Bernardo.
P/1 – Conta pra gente. O senhor estava falando da estréia do Pelé?
R- Isso. A irmã dela morava em São Bernardo, era um feriado, 15 de novembro. Eu disse assim: “Vamos ver lá, a Silvia e o sei o que lá” está bom. Peguei o carro e fui lá. Quando cheguei na casa lá, o cunhado, o Armando: “Oh, tem um jogo aí e tudo mais. Vamos lá?”, eu disse: “Vamos, vamos lá”. Era o Santos um time, o Pelé estava até no banco, jogando contra o time do São Bernardo. Ficamos vendo o jogo, depois o Pelé acabou entrando e fez um gol. Isso foi em 50, 56, 57. Ela morava em São Bernardo, depois foi pra Santo André, né? Mirna, está lembrada? Então foi isso. Foi em São Bernardo e o jogo teve muita repercussão. Eu não lembro o goleiro que tomou aqueles gols todos, inclusive do Pelé. Quer dizer, foi muito festejado porque ele ainda estava começando no juniores e levaram-no. Esse dia disse: “Olha, jogo amistoso, feriado nacional de 15 de novembro e tal” e as tantas o time estava ganhando fácil e aí botaram o crioulo pra jogar e aí ele pintou o diabo. E aí começou tal, não sei o que. Daqui a pouco campeonato do mundo em 58, ele estava treinando, jogando em 57, e o gordão, como é que... O técnico do São Paulo chamou: “Puxa, chamou o Pelé!” em 58: ”Tem 17 anos, não sei o quê”. Eu disse: “Se tem qualidade, não importa a idade, está no esplendor da vida e tudo mais” quando levaram o Pelé. Eu tenho aí a Gazeta... Não, a Gazeta é do campeonato de 38. Deve ter qualquer coisa de 58. Aí o Pelé não foi como titular, foi chamado, mas ficou de guarda, né? Era nem ele, nem o Vavá, nem o ponta direita não eram os titulares. Mas o time não se... Ganhou o jogo muito mal, não se portou muito bem no segundo jogo. Então o zum zum começou: tiraram o Dino Sani, puseram o Zito, José Ely de Miranda. Puseram o Zito, tiraram o Mazzola. Tem papel ali, depois a gente recolhe, tem mais coisa aí. Vocês também não querem tomar muito tempo aqui, vocês estão com pressa.
P/2 – De jeito nenhum. A gente tem muito tempo aqui com o senhor.
R – É porque eu estou vendo, não sei se vocês tem compromisso aí, tem muita coisa pra ver, mas eu digo: “Não, vou estar chateando com...” e eu não sei se é isso que vocês querem. Eu falei, depoimento meu que eu vi. 
P/2 – O senhor estava falando da convocação do Pelé.
R – Então, aí já tinha... Ele já foi como reserva, não tinha jogado bem nas duas primeiras rodadas. Aí tiraram o Dino Sani e puseram o Zito, José Ely de Miranda; tiraram o centro-avante, o Mazzola, e puseram o Vavá que era do Vasco da Gama. Tiraram o meia esquerda, o Lupércio, e puseram o crioulo. Aí deu tudo certo. Ah! Depois, no outro jogo, entrou o Garrincha, no lugar do ponta direita, não me lembro agora. Aí jogamos contra os ingleses, o Pelé fez o gol de um a zero e aí não saiu mais do time. Aí depois se machucou, não pode jogar contra a Espanha. Entrou o Amarildo, esse mesmo Amarildo que estava dando trabalho no Milan contra o Santos. O Amarildo fez dois gols no três a um lá na Itália. O Amarildo fez dois gols no Santos e disse que ia repetir a dose aqui no Rio. E houve aquele... É por isso que o Albuquerque, o Almir, tinham pique com ele e andaram se agredindo. E de fato, o Pelé se machucou lá na Itália e os dois jogos de 63 o Pelé não jogou, jogou Almir no lugar dele que, posteriormente, veio ser assassinado no Rio. Aqui ele se meteu numa encrenca, tomou um tiro aqui quando era jogador no Santos. Depois foi pro Rio, mas o Santos deve muito ao Almir no jogo, o que ele jogou nesses dois jogos.
P/2 – Então vamos começar a falar de 63 então.
R – Já falei. Agora já misturei tudo, caramba. Então, porque andou mexendo nisso aí agora? Eu não sabia que podia contar esses “diz que me diz”. O Almir aprontou no jogo. O jogo ia começar agora, o juiz apitou, o Almir foi “pumba” na perna do Amarildo, no começo de jogo. É que o juiz fez vistas grossas, era pra expulsar, de tanta raiva das declarações que o Amarildo tinha feito: “Ah, isso é fácil! Nós ganhamos aqui, vamos ganhar lá também, não sei o quê”. Porque o Pelé fez os dois gols lá e o Amarildo também fez dois. Fez dois pro Milan e o Pelé fez os dois pro Santos. Mas Trapattoni e outro lá fizeram o gol, eu tenho marcado. Trapattoni e outro, e nós perdemos lá de quatro a dois e nós descontamos aqui no quatro a dois com Pepe. Vou falar dos dois canhões que ele fez. Estava ganhando de dois a zero com gol de Amarildo e o Amarildo, então, ditando cartas. Aí começou a chover. Graças a Deus choveu! O Pepe aí, com o canhão, bateu uma foto, o goleiro nem viu! Depois outro. Bateu dois, fez dois gols o Pepe. Aí ficou dois a dois. Aí o Lima, o Almir, o Albuquerque, marcaram quatro gols. Aí devolvemos. Devolvemos os quatro a dois lá, devolvemos aqui. Bom, agora vamos pra decisão que foi a tal que eu já contei que foi de um a zero.
P/2 – Então conte de novo.
R – Ah é, um a zero. Teve o XV de Novembro pelo meio. Quer dizer que antes foi o primeiro jogo e depois do XV de Novembro teve o segundo jogo, que era um sábado à noite. E o Pelé não jogou porque tinha se machucado lá na Itália. Foi nesse jogo que o Almir deu um pontapé no coisa... Mas ele aprontou, o goleiro, um goleiro forte da Itália, ele foi lá no gol, lá deu um (duque ?) lá, o jogo parou, ficou parado um tempão. Coisas do Almir, ele criava esses casos. Ele mesmo vai me arrumar um pênalti lá nesse gol mesmo do lado de lá. E o Juan Brozzi deu o pênalti. Ficou aquele suspense: “Quem bate, quem bate?” Ninguém se mexia, disse: “Caramba!” O Dalmo Gaspar que é de Jundiaí, ainda mora lá, vai bater o pênalti. Disse: “Minha Nossa Senhora, zero a zero. Estou metralhado”. Sabe o que é o Maracanã ficar... Andaram ascendendo uns fosforozinho assim, sabe o que é ficar em silêncio? Você não escutava nada! O fulano pois a bola ali e recuou pra bater a bola, todo mundo em suspense. Quando bateu que foi gol, putz! Aquilo explodiu! Um a zero. E pra agüentar esse um a zero? Agüentar esse um a zero estava difícil. Depois, quando estava faltando cinco minutos, como já contei, nós fomos saindo, eu tinha que vir pra Santos. Eu tinha deixado o carro de frente, quase na saída. Quer dizer, de fato, o que houve após o término do jogo, eu não sei, porque a minha preocupação era vir o quanto antes embora. Deve ter sido, eu vi o jogo até o final já em pé, mas aquilo faz a volta no Maracanã. A gente foi indo, foi indo vendo o jogo, indo, indo até pra descida. Mal nós pisamos assim, o juiz acabou também. Não vi, não sei o que aconteceu no gramado porque eu não vi.
P/2 – Mas quantas pessoas havia no Maracanã?
R – Tinha mais de 200 mil, mais de 200 mil. 
P/2 – Tinha mais de 200 mil pessoas então?
R – Ah, tinha. Nós chegamos cedo, eu e o Carlos Alberto: ”Vamos comer qualquer coisa”. Ela também estava lá, “Vamos ficar por aqui então”. Depois, quando o jogo... Foi nove horas, mais ou menos, o jogo, né? Acabou mais ou menos 11:10. Quando olhei, eu disse: “Olha, Carlos Alberto, 11:10. Vamos embora, vamos descendo”.
P/2 – Mas aí o senhor veio embora direto, o senhor nem teve tempo de voltar?
R – Não, a minha preocupação era vir. Se tivesse de avião... Viria de avião e na manhã seguinte... Mas nós estávamos de fusquinha, né? Fusquinha.
P/3 – E as comemorações do campeonato aqui na cidade? Quando o senhor chegou estava acontecendo? O senhor disse que chegou de madrugada?
R – Não, eu cheguei de madrugada. Cheguei cinco e pouco em São Paulo. Cheguei sete e pouco aqui, fui direto pra casa, peguei um chuveiro...
P/3 – Não viu nada na rua?
R – Não, não, não vi. Entrei com o carro, aí tomei um café, descansei um pouquinho. E depois fui pra praia, não dormi nada, acho que descansei meia hora, que eu morava ali no Cacique. Eu morava no Cacique, na Galeão Carvalhal ali adiante. Eu mudei pra esse da esquina na 5ª Avenida onde o Mansur tem a Rádio, aquele prédio da esquina.
P/1 – Onde tem a Praça da Independência.
R – É, tem a Praça Independência, aquele da esquina. Eu morava ali.
P/2 – Mas e aí? Na praia, o que aconteceu quando o senhor chegou lá na praia?
R – Na praia foi aquela euforia, o pessoal tudo: “Santos, não sei o que lá”. Uns comentavam umas coisas e outras, até fiquei escutando. Aí eu intercedi “Não foi nada disso! Eu tive lá no jogo. O jogo foi assim, assim, o Almir é que deu...”, mas deu lá no Rádio, né? “Isso foi lá no Rádio. Eu estive lá, eu vi!” Então o pessoal não acreditava. Eu acho que fui um dos poucos que apareceram no domingo de manhã na praia falando do jogo de sábado à noite no Maracanã.
P/2 – E quando o time chegou à cidade?
R – Não sei, naturalmente veio de avião no dia seguinte, talvez. Não sei.
P/2 – Mas não teve nenhuma comemoração na cidade, eles não fizeram nada pro time?
R – Não, no dia seguinte não. Depois eles se organizaram, o próprio Santos.
P/1 – É, eu cheguei ver algumas fotos com carro do Corpo de Bombeiros.
R – Ah, bom, sei que foram buscar.
P/1 – Na Praça Mauá, ali na escadaria da Prefeitura...
R – É, eles foram recebidos de fato. Em 35 não, mas em 63, porque como eles ficaram à noite no Rio... Acho que eles vieram, não sei se vieram domingo de manhã de avião, não sei como que foi. Ou prepararam pra vir segunda-feira. Tinham que avisar o Corpo de Bombeiro pra fazer a passeata, porque não pode chegar, não pode requisitar. Tem que ser um negócio pedido com antecipação. Quer dizer que 63... Depois, eu estava trabalhando, tinha muito serviço, eu estava preocupado com o serviço, tinha bastante coisa do Rio. Eu trabalhei lá. Fui no Banco do Brasil resolver uns negócios, na Petrobras... Eu esqueço o nome, aquela Avenida lá, a Vale do Rio Doce, Graça Aranha. Fui muito por ali, estava cheio de coisa pra destrinchar. Quer dizer, nem queria chegar no escritório. Que era dia 18 ou 19, era uma segunda-feira.
P/2 – Mas então, pelo que eu vi, o senhor gostava de ir nos jogos, mas na comemoração o senhor não participava muito, né?
R – É, de fato. Só uma ocasião que eu acompanhei de carro. Coincidiu. Eu vinha com meu carro, fiquei junto, mas assim que eu cheguei na proximidade de casa eu desviei, eu não... Não sei porque eu não... Eu gosto de ver, mas eu não me achava bem eu pulando ali, entende?
P/1 – É o jeito da pessoa, retraído.
R – É, meio retraído. Eu vejo, eu gosto, mas não tenho aquela ânsia de me projetar ali. A não ser, que vocês viram, em 38 ali: barraca de praia, aquela da Dona Dorotéia, que estava o falecido...
P/3 – Eu queria voltar um pouquinho, saber do senhor... Provavelmente o senhor deve ter acompanhado a construção da Vila Belmiro.
R – Ah, no dia que puseram a pedra fundamental, eu assinei lá.
P/3 – O senhor assinou? Conta um pouco essa história pra gente da construção da Vila Belmiro, desse dia.
R – Qual era o nome? Chico Rei, que mora aqui nessa esquina aqui. Conde Chicago que era o apelido dele, ele era encarregado das obras, até consultou uma série de coisas e...
P/3 – Ele é vivo?
R – Não, já morreu faz tempo. Ele era um dos... Porque antigamente a arquibancada era de madeira. Tinha o pavilhão Oscar Costa aqui do lado, um pavilhão que o pessoal ficava lá, os diretores ali. e tinha uma quadra de tênis atrás da arquibancada. Foi muito... No dia da inauguração que fizeram ali, fizeram a pedra e tudo mais. Todos os presentes assinaram, inclusive eu. Agora não me lembro quando foi isso, não tenho a mínima ideia de quando foi.
P/3 – Por volta de 48, mas também a data nem é tão importante.
R – Até as arquibancadas o Santos parece que deu pro Feitiço, pro São Vicente. Não tem São Vicente? Antigamente era Feitiço Futebol Clube. Agora é... Quando um dia cheguei lá pra fazer um jogo no dia de São Vicente, o juvenil do Santos ia fazer o jogo lá, em janeiro agora vai fazer uns 15 anos. Eu não vi lá, eu estou pensando nessa arquibancada: “Essa arquibancada era do Santos, o Santos é que doou pro São Vicente”, que era de madeira, foi desmontada. Agora estou sabendo que eles estão implorando, porque agora já está num bagaço danado.
P/3 – É a mesma, onde que ela está?
R – No campo do São Vicente Atlético Clube, era o ex-Feitiço. Isso era 48, quando que o Santos veio embora? É porque aquilo foi sendo feito por etapas, demorou, custaram pra sair. Fizeram uma parte, depois houve um defeito de um desnível ali. Essa chegava aqui, aqui ficava embaixo, teve um desnível ali, não sei o que é que houve. Fez cálculo de coisa e por isso que aquilo foi demorado. Mas foi indo, foi indo, agora com essas... Depois, posteriormente... Antigamente o vestiário, os jogadores se concentravam na Vila Belmiro onde hoje... Na Rua Tiradentes, ali. Se você chegava ali, estava o pessoal todo: o Pelé, o Coutinho, o Jair da Rosa Pinto. Acho que o pessoal que veio do coisa, moravam ali, naqueles quartos ali tudo. Agora vai ver como está aquilo, aquilo foi tudo modificado. Então eu lembro também da construção da Chácara Nicolau Mouran. Eu não me conformo com aquilo abandonado. Com o juniores já fiz duas temporadas lá, que nós íamos. Em vez de ficar no Pacaembú, nós concentramos na Chácara. Você precisa ver que lugar bom. Agora diz que está tudo desprezado aquilo.
P/1 – Em São Bernardo, né?
R – Está abandonada, tem lá parece que um caseiro, tem um campinho lá, tem um lago, tem uma casa muito... Tem na casa não sei quantos quartos lá, uma boa cozinha. Está tudo abandonado e aquilo o Santos passou a concentração pra lá, porque aqui na Vila não comportava, era muito acanhado e tudo mais. Um conforto, um clima bom, eu não sei, agora gasta um dinheirão pra se concentrar aqui, hotéis de 5 estrelas em São Paulo. Tem a Chácara lá. Então passa para os associados, arrume aquilo lá e dê chance para o associado que tem carro que se locomova até lá e usufrua daquilo lá, que tem árvores e tudo. Não sei, tem certas coisas que... Da Chácara eu lembro, até foi um amigo meu que é Contador, o Maneco Fernandes, que posteriormente eu soube muita coisa por ele, ele é que cuidou quando foi do preço. Compraram daqueles irmãos, tinha dois irmãos que eram atletas em... Irmãos... Não é Caruso. Irmãos, dois irmãos atletas que venderam a  Chácara pro Santos. Mas aquilo é grande: você sai da Via Anchieta né, passa por cima da ponte, depois tem a terra ali, bem batida de terra, você vai indo, vai indo, tem uma bendita entrada ali, fica tudo lá. Você pode guardar carro à vontade, tudo, tem mais de dez quartos, uma big de uma cozinha, sala de tudo pro almoço. Várias vezes eu almocei lá, jantei, tudo.
P/3 – Agora mudando um pouquinho de assunto, voltando a falar do Estádio da Vila Belmiro. O senhor disse quando foi a inauguração do Estádio, você não deve lembrar, mas o senhor estava presente?
R – Não lembro.
P/2 – Não, o senhor estava lá? A data não interessa.
R – Do campo de Espanha eu fui na inauguração, mas o do Santos eu não lembro.
P/3 – E o primeiro jogo noturno com aquela iluminação artificial que teve na Vila Belmiro, o senhor assistiu? O senhor lembra de ter visto?
R – Todos os jogos naquela época eu assistia, até aqueles vários confrontos do Santos e Palmeiras, né? Tem até o Djalma Santos, o Santos ganhou de 7 a 6. Foi uma vitória extravagante esse jogo, não foi? Mas se eu precisar mesmo não sei, não tenho... Por exemplo, essa Rua aqui, Tolentino Figueira, quando se chega perto do canal, sabe o que é que tinha naquela esquina grande ali? Um campo de futebol iluminado que era do City. Ninguém lembra disso. Eu cheguei a jogar lá.
P/1 – City é Companhia City?
R – É, antigamente em Santos era CIT (City Improvement Company), era do Doutor Bernard Brawner que era o gerente. No final dessa Rua Tolentino Figueira, quase na esquina do coisa, tinha o campo do City ali, o primeiro campo iluminado. Talvez no Brasil, não sei se no Mundo, campo de futebol. Eu cheguei a jogar lá uma noite. Quer dizer que é isso aí, eu não sei, tem esses pesquisadores que deviam reviver isso aí e fazer uma revista contando esses fatos, porque eu sei, assim, alternados, um sem o outro: campo de Espanha, campo do coisa o campo do City agora e tal. Fui na inauguração, assim, e aquele negócio, mas coisa salteada. Eu não marco nada e às vezes me falha, pode me falhar. Agora devia ter um historiador aí. Por exemplo: em frente à estação não tem um prédio em ruínas? Você não viu ainda?
P/1 – Onde funcionava a Câmara?
R – É, era a Câmara, tinha um detalhe ali. Enfim, tem aqui a estação do trem.
P/1 – É em frente ao Valongo, eu sei.
R – É, o Valongo está tudo caindo aos pedaços. Quem assinou o meu título de certificado militar, que está aí, foi o Iguatemi Martins. Onde? Lá eu fui na Prefeitura, lá subi, fui lá falar com ele e foi ele, com assinatura dele. Qual o primeiro nome? Iguatemi Martins, e foi na Prefeitura. Esse eu lembro porque eu senti um negócio, porque eu levei o documento e está aí assinado por ele. A Prefeitura era em frente ao Valongo.
P/1 – E agora vai pela ruína.
R – O Santos vai inaugurar dia 23 agora os novos refletores. Quer dizer, daqui há 20 anos, o rapaz vai agora, vai hoje, se você perguntar por ele: “Ah, não lembro não”. Agora eu não posso ir. Se Deus quiser, vou. Agora, não posso te garantir se daqui há 20 anos eu possa responder, não vai dar mais.
P/2 – É isso que a gente está tentando fazer.
R – Quer dizer que vai inaugurar dia 24 contra o Palmeiras. Aí, se Deus quiser e se eu tiver com saúde... Porque aí vocês vão me perguntar daqui uns 30 anos: “O senhor foi na inauguração do coisa?”, eu tenho que dizer que fui, caramba!
P/1 – A Dona Almerinda, ela está lembrando do Hotel, do Parque Balneário.
R – Que judiação! Quando eu vi que aquilo ia por água abaixo eu até comprei, era sócio do Santos, eu comprei o título, está aí o título aí, as estátuas aí. Uma judiação o Santos perder aquilo, não me conformo também. Se você vê os lustres lá, nossa.
P/3 – E o senhor tem alguma história pra contar do...
R – Eu não consegui, muitos levaram coisas de lá, enquanto aquele nosso amigo levou. Mas eu não cheguei a comprar coisa nenhuma e me faz lembrar aquela piada do coisa. Terminou o jogo: “O que você achou do jogo?”; “Eu não achei nada, o Cesar Sampaio é que achou uma medalhinha ali no chão, no gramado”; “O que você achou do jogo?”; “Não achei nada”. (risos)
P/2 – Pois é. A sua senhora estava lembrando que vocês iam almoçar lá no Hotel.
R – É, chegamos. O Santos não passou daquilo, a secretaria toda lá, o Alfredo se empanturrou. Olha, quem pode dar detalhe... Conhece o Alfredo e o Miguel? O Miguel aqui e o Alfredo aqui, certo? Lá a disposição é assim, você pergunta quantas vezes que eu encontrei com ela: “Nilo como é que está aí?”; “Deixa eu ver”. Queria ver lá o arquivo pra ver, tem aí. Ia muito associado do Santos na praia, domingo, por exemplo. Sábado, em vez dela ficar aí fazendo, se martirizando no fogo, nós íamos pra lá. Era sócio, pagava uma cota pequena, os associados tal, tinha e podia me dar.
P/3 – Tinha direito a quê? A hospedagem ou...
R – Tinha uns amigos, quando tinha quarto, um ficou morando lá, mas eu morava, a gente já morava na Marechal Deodoro. Quer dizer, a gente caminhava a pé, almoçávamos lá, ficávamos lá vendo as coisas, aí depois vinha pra casa. Mas tinha um conhecido meu, não me lembro o nome dele agora, ficou morando lá e o Santos perdeu por falta de tiro fino, enfim, uma judiação. Depois, quando eu soube que iam começar a demolir, eu queria aqueles pilares, aquelas coisas bonitas. A picareta derrubando dá até dó, mármore de carrara. Você não conseguia nem sujar com o sapato o piso, mármore de carrara o degrau. Aquilo andaram levando, a construtora não ia quebrar aquilo, uma judiação. Isso é um dos fatos tristes, foi a história.
P/2 – É tem uma foto super bonita que a gente viu aí do carnaval. Queria que o senhor falasse um pouquinho dessa foto.
R – Qual é?
P/2 – Aquela no canto, no carnaval, que vocês estão todos de laço na cabeça.
R – Deixa eu ver a fotografia pra me lembrar do... Eu sei que tem o Saci.
P/2 – Tem os jogadores lá, não tem?
P/3 – Conta um pouco sobre esse dia, como eram essas comemorações?
R – Era salutar nesse tempo. Posteriormente ficou avacalhado, ficou esculhambado, deturparam todo o banho da Dona Dorotéia. Bebedeira, aquelas coisas. Aqui não, nesse tempo aqui... Até um dos últimos anos, estava eu e o falecido Ademir Pimenta na frente. Trouxeram até um elefante. Demos toda volta na Praça da Independência... Isso não foi nesse ano não, acho que foi um ano antes. O Ademir Pimenta, os dois irmãos dele são do nosso grupo aí, os dois jogaram na zaga do Santos. Era Athié, Bilú e David. Esse David era irmão do Antoninho que era do coisa, eu tenho até... Depois eu mostro. E o outro também era David... Aldo, Figueira, Bezerra, Nilo, Orlando, Saci, Isaías e Marvinho. O que está aqui atrás, coisa, é o Adolfo. Esse aqui é Adolfo da Silva Figueira, estudou comigo na Escola Barnabé, nós éramos companheiros. Posteriormente viemos ficar juntos aí, jogamos no Santos. Aqui, abaixado aqui, com essa fita aqui, era o Saci. Saci, o nome do Saci era Aristides Teixeira. Acho que é o telefone, é o telefone ou não? O Saci era esse aqui.
P/3 – E como eram essas comemorações? O senhor estava dizendo que era uma coisa saudável...
R – Era salutar, porque cada clube trazia seu bloco.
P/1 – Era uma tradição, né, senhor Nilo? Conta um pouquinho como é essa tradição do banho Dorotéia?
R – É, esse banho da Dorotéia é isso aí no tempo, depois andaram modificando.
P/1 – É, mas conta a origem pra gente. Como é que é?
R – A origem, um deles ainda está vivo, um é o tal de Bandeira, trabalhou na prefeitura e está meio coisa; o outro é o Paulucci. Se não me engano, o velho Cabral... Lembra do pai do Cabralzinho? O Cabralzinho velho também era um dos... Mas eu sei que tinha uma meia dúzia que organizavam isso. Eu lembro de uns dois. Deixa ver agora quem é... O Aristides que tem. Nós estivemos conversando ainda anteontem quando eu fui reclamar o negócio do seguro. O Russo, o Russo do despachante, do despachante de carro, ali na Rua XV de Novembro. Estava o Paiva, o centroavante do passado que jogava na Portuguesa Santista, aí pronto, começou. Aí me viu ali, pronto! Aí começou falar em futebol ali. Tem até um detalhe: esse Paiva veio do interior. Em um jogo contra o Santos, ele quebrou a cabeça, foi pro vestiário, voltou todo... Repeti isso pra ele anteontem: voltou todo enfaixado. Sabe o que aconteceu? Fez 3 gols de cabeça. Repetimos isso: “Lembra com o Russo lá em Serra Negra?” Nós encontramos com o Russo, estava o Aristides, eu e o centroavante. Como é que eu falei agora? “Ô” caramba! Ele estava fazendo...
P/3 – Estavam vocês três, os que começaram a organizar?
R – Não, nós três. Aí... Não sei porque surgiu agora. Ah, esse Russo despachante também fazia parte, tanto que ele lembrou também 40 anos atrás que nós brincávamos num time lá: “Era bom, seu time era bom”, aquela conversa dele. O Paiva, o centroavante que quebrou a cabeça, o Paiva. Esse aqui, encontrei com ele outro dia: Orlando Lo Vecchio, esse que está abaixado aqui.
P/3 – Tem alguém que o senhor conhece?
R – A pergunta sobre essa fotografia, ela é do banho da Dona Dorotéia, que foi instituído há vários anos e uma semana antes do carnaval era comemorado. Então era uma brincadeira saudável, porque o pessoal tudo, não tinha nada de bebida nem nada, eles fantasiavam, desfilavam, saiam em blocos cantando aquelas canções na época, né, do carnaval de 38. E o que tem lá, deixa vê se eu me lembro de algum aí...
P/3 – O senhor lembra de alguma canção desse tempo?
R – Às vezes vem, eu começo a cantar, depois eu esqueço.  Ah, meu Deus do Céu! “O Brasil ressurgi novo, agora com mais prudência, traz uma melissa no bolso pra ajudar na presidência.” Caramba, deixa eu ver se eu me lembro... Bom, aqui esse Mavinho faleceu; esse aqui também, esse aqui era Orlando Lo Vecchio. Esse Orlando Lo Vecchio, irmão do Vitor Lo Vecchio que quando eu fui nomeado em 48 aí era pra trabalhar junto com esse Vitor Lo Vecchio, que era irmão desse aqui. Esse Vitor Lo Vecchio também faleceu. Vem lá o bloco da Bola Alvi-negra, porque o Santos tinha o bloco da Bola Alvi-negra (cantando): “O bola nasceu do Santo,s numa noite de alegria, a turma é do barulho e não sei”, que era o Bola Alvi-negra. Tinha, posteriormente ficou um bloco de projeção. Isso aqui foi do banho da Dona Dorotéia, mas tinha o bloco do carnaval mesmo que saiam, iam visitar. Isso aqui era mais patuscada, que a gente chamava de patuscada, que eram aquelas brincadeiras, aquelas coisas todas lá. Isso era só num sábado antes do carnaval, depois só pro outro ano. Mas aqui, no mais, é uma brincadeira salutar, todos os clubes, por exemplo, se organizavam, desfilavam, entende? E juntava muita gente, a ponta da praia ficava coalhada de gente pra ver.
P/1 – Que era feito na ponta da praia? Depois vocês pulavam no mar, não era isso?
R – Depois eles se jogavam, coisa e tal, porque era de papel crepom e estava com maiô por baixo, né? Ficava no mar ali, aquela euforia, tudo. É, isso foi em 38, 60 anos, a mentalidade era outra. Hoje você vê aí, eu fico pensando, tenho oito netos, fico pensando. Infelizmente eles desvirtuaram o que era sadio, o que era sadio e bom aí eles desvirtuaram.
P/2 – E o time de hoje? O que é que o senhor acha do time de hoje?
R – Na mão do Leão ou na mão do Wanderlei Luxemburgo?
P/1 – Dos dois?
R – É, o Luxemburgo tinha umas coisas e o Leão também. Tenho aqui até um negócio pra dar pra ele: “Leão, levanta a taça” que ele ganhou lá em Portugal. Eu fui dar pra ele, mas cada um tem uma esquisitice. É o Formiga, ele veio do Japão. Francisco... Esqueci o nome do Chico. Francisco Ferreira de Aguiar é o Formiga. Ele veio, ele é natural de Minas, de Araxá. E o que é que eu estava falando?
P/2 – Do time de hoje.
R – Ah, do time de hoje. Tinha umas esquisitices do Luxemburgo. Ele em vez de se dedicar como fazia o Pepe, não solta ainda, ele não. Fecha tudo pra ele. Se indispôs com o Jarrão, aquele massagista bom. Foi uma bobagem. O Jarrão deixou entrar: “Não quero que entre ninguém aqui” gritando. Ele não é dono do time, ele é funcionário. Isso que eu falei pro Zé Paulo, pro Vicentão: “Vicentão, ele é funcionário do Clube, ele dita carta daqui”. “Eu não quero que entre ninguém aqui”. Ele barrou um fulano que foi convidado do diretor no ônibus. Ele fez sair do ônibus. Com que autoridade? Ele ganha lá o 100 mil, os 90 mil, é pra tratar do time. Eu não me conformo com isso. E o Leão está com a mesma esquisitice. Eu tenho o cartão aí, eu ia fazer um jogo, eu ia com a pasta tal, abria a porta. Não, ele ficava lá trancado e ia fazer o jogo lá, acabava o jogo. E duas vezes eu estava fazendo o jogo com Edevides Soares, que era representante da Federação. Nós estávamos conversando e tal, ele chegou ali e tal, meio sem graça, cumprimentou, mas o Leão também...
P/2 – Mas e o time mesmo?
R – Ah, você diz o time. O time é uma incógnita. Você vê, o Santos tem uma porção de jogadores emprestados, o que quer dizer que pertencem a outros. É sempre aquela dúvida: “Será que vai renovar? Como é que vai ficar o time?” Vai “vê” que o Campeonato vai começar e você não sabe que paradeiro, como é que está o... Como é um deles aí que está problemático? Trouxe o (Maizona?), o Arinélson, o Jamelli, o Caíco, o Caio, o Fernandes. Qualquer um desses é melhor que o (Maizona?). O que é que ele veio fazer do Japão aqui? “É mais é que o Leão...” Não interessa. Isso não vai fazer coisa nenhuma. Agora trouxeram Tomo não sei o que, outro japonês. O pessoal, o César Sampaio, esse pessoal todo no Japão, o Japão está mandando pessoal embora, vem tudo embora. Não sei se o Chico, Chico Formiga, eu acho que terminou o contrato, mas César Sampaio, Luizinho, aquele pessoal todo, o Japão está numa situação danada agora. Eu me admiro eles virem pra cá, porque deve estar ruim lá agora. Teve a experiência do (Maizona?). Agora, trazer outro japonês... Qualquer um que eu mencionei é melhor do que ele. Aquele que veio do norte, como é que... O que tem o nome de um forte que veio do norte? Caramba, como que é o nome dele, ele é paraibano, como que é o... Caramba! É isso que eu digo... Claudomiro! Claudomiro é bom jogador, mas é dono o fulano que faz aquelas geladeiras Prosdocimo, não sei o que. Eles gelam as pessoas ali na geladeira, não é? O jogador não é do Santos, está sempre com a pulga atrás da orelha: “Será que vai ceder alguma coisa?” Quer dizer, tudo isso aí você fica sentindo e vai ficar com esses prata de casa aí, com Edinho goleiro, um outro aí e tal, de modo que...
P/2 – Pra encerrar, deixa eu perguntar uma coisa pro senhor?
R – Estou tomando o vosso tempo aí.
P/2 – Não, imagina, foi ótima a entrevista, está ótima a entrevista. Eu só quero saber uma coisa: o senhor tem o mesmo prazer hoje de ver o jogo como o senhor tinha quando o senhor começou?
R – Não vou, porque às vezes pra sair daqui: ”Ah vou ver o jogo aí.” Eu fico ali só vendo, eu vejo essa violência... No passado você via um jogo, tinha Ademir, David, todo mundo correndo pra lá e pra cá. Hoje não, inventaram essa maldita barreira aí, parece que põem um muro ali, um time pequeno se acua ali, volta todo mundo pra não perder o jogo, o treinador faz isso pra garantir emprego. A beleza do futebol pra mim acabou. Quem via o Zizinho, quem via o Jair de Menezes, você via o Danilo Alvim, o centro-médio, o Jair da Rosa Pinto, depois de veterano do Palmeiras... Queimaram a camisa dele lá no Flamengo e ele veio ser “utilíssimo” no Santos. O Jair da Rosa Pinto, o Jajá de Barra Mansa, quem via esse rapaz jogar, Perácio, Patesko, o Tim que veio do Botafogo de Ribeirão Preto pra Portuguesa Santista, posteriormente foi pro Rio, era um artista. O próprio Araken. O Tim e o Pita que acabaram o coisa, se eles jogassem hoje eles não paravam em pé no gramado, não paravam. Porque tinha aquele jogo vistoso e o adversário não deixava. Você vê, quebravam o luxo. O Raí do São Paulo você vê, aquele Juninho lá na Espanha de jogadas por trás, quer dizer, é pra desarmar o fulano, a beleza o que se via do futebol pra mim acabou. Eu vou porque eu sou meio teimoso e tal, como tem uns amigos aí que eu vejo, que trabalharam comigo no juvenil. Tem uma cidade com o nome dele: Camanducaia. Camanducaia jogou no juvenil: “Meu pai está aí, pode entrar”, fazia o pai dele entrar e tudo mais. Foi no juvenil, foi no júnior e tal, fez aquele gol que aquele safado daquele juiz anulou, Camanducaia. Nós tínhamos ganhado aquele Campeonato aí, agora não lembro. Gol legítimo do Camanducaia. Depois: “Ah, eu não vou aproveitar o Camanducaia, então entrego pro Guarani”. Agora, se pagam qualquer coisa estão chamando o rapaz aí de volta, o rapaz está treinando. Eu sempre gostei muito dele o pai dele, é um senhor muito 100%. Eu faço votos que o Camanducaia vingue aí, mas é isso. E fazem umas injustiças com os jogadores que eu...
P/2 – É eu falei que era a ultima pergunta, mas me ocorreu uma outra que eu não posso deixar de perguntar pro senhor: qual foi a jogada mais bonita que o senhor já viu num gol?
R – Onde?
P/2 – De todos esses tempos, qual foi a jogada mais bonita do Santos que o senhor já viu?
R – Olha, eu vi uma defesa do Athié Jorge Coury, aquilo acho que foi sorte, depois eu conto. Agora, jogada, aquele gol, o gol do Robert que jogava no Santos que ele pegou a bola no meio do campo foi indo, foi indo, foi indo, foi indo, foi até o gol. Foi um gol bonito. O gol do Dutra que o zagueiro saiu fora e chutou... O Dutra está no meio do campo, ele divisou o goleiro fora do gol, do meio do campo ele bateu. A bola vai, vai, vai, o goleiro está correndo, está correndo e a bola entra! Foi um gol espetacular. Aquele do Marcelinho Carioca aqui na Vila, a bola veio da direita, ele deu um chapéu aqui por cima e não deixou a bola cair, colocou também bonito. Agora, esse do Athié, talvez em 30 ou 29, no gol do placar velho ali da Rua José de Alencar... O Athié usava aquela joelheira e não usava luvas. Hoje usam luvas e não usam joelheiras. Antigamente usavam joelheiras e não usavam luvas. O Athié no gol, não me lembro também, só lembro da jogada. O cara chutou, mergulhou mas mergulhou assim, mal, e os dois pés levantaram assim, sabe como é? Ele defendeu a bola ali, sabe como é? Ele mergulhou e afundou assim e as pernas subiram assim pra cima. Assim! Isso aqui veio pra cima assim.
P/3 – Uma cambalhota.
R – E a bola bateu ali e não entrou. Isso foi sorte. Essa é uma delas. E aqueles gols que eu falei do Dutra, do Robert, que ele pegou a bola no meio do campo foi até o gol. Até deram uma placa pra ele, deram pro Dutra. O gol do Dutra você não viu, né? Muito bonito, quase do meio do campo. O goleiro saiu, se atrapalhou, e o beque chutou e a bola veio pra perto do Dutra. O Dutra, de onde estava, ele não avançou não, viu o goleiro fora do gol e bateu, olha aqui, com a perna esquerda, do meio do campo que tem mais de 50 metros. Mais de 50 metros a bola foi, foi, foi, foi e morre dentro do gol. Merece uma estátua.
P/2 – Senhor Nilo, muito obrigado, claro.
P/1 – Posso fazer? O senhor já conclui as perguntas dela, agora vou concluir a minha. (riso)
R – O que eu puder ser útil, eu não sei tudo, eu sei tudo é uma revista do passado: “Eu Sei Tudo.” Não existe mais.
P/1 – Só pra concluir, eu queria que o senhor dissesse a sua opinião, o que o senhor acha desse tipo de trabalho, desse registro de memória que a gente está fazendo, essa entrevista que o senhor está dando depoimento para a história...
R – Eu até estranhei. É uma medida bastante acertada, porque muitos jovens aí não sabem. E vêm vocês captando isso aí e lançando pro coisa... Os outros tem por revista, tem... Os meu netos nunca viram o Pelé jogar, eu que tive a primazia de ver o Pelé do primeiro jogo. E os gols que ele fez, a vaia que ele recebeu no campo do Juventus, ele deu um chapéu em três, fez gol e ganhou o jogo. Contra o Corinthians, a gente estava perdendo de dois a zero, o pessoal do Corinthians vaiando e o crioulo olhou assim e fez dois gols, empatou o jogo. Faltava 5 minutos pra acabar o jogo e ele faz dois gols. Quer dizer, isso aí não existe, é incrível. O que é que você perguntou que eu não respondi.
P/1 – O que é que o senhor achava desse tipo de trabalho...
R – Ah, sem dúvida eu acho muito bom. Até quando ela me telefonou eu ia perguntar qual era a finalidade, mas como seis meses atrás alguém me telefonou, eu estava com um problema sério ali do banco e tal, eu não sei se fui meio rude, eu disse: “Ah, eu não posso, eu não sei.” Ainda falei assim: “A senhora pode obter informações com o senhor Francisco”. Eu disse isso porque eu fiquei temeroso que ela chegou, eu perguntei se não tinha sido com ela, que eu ia me desculpar. Eu não sei se eu fui indelicado, mas eu estava... E quando ela me ligou eu disse: “Olha, eu não tenho nada escrito, eu tenho da cabeça. Fui assistir, vi, vibrei, e se isso vale alguma coisa, vocês disponham”.
P/1 – Com certeza vale.
R – O que precisar saber mais alguma coisa aí dentro, você vê o que tem ali de arquivo de jogos que eu fiz. Eu fico satisfeito que eu vejo de outro tempo William de Jesus, era o goleiro em 69, eu fui no casamento dele e ele foi titular do Santos. Estava jogando no gol da praia agora, esse jogo de praia é Roberto Costa Cabral, jogava no juvenil do Santos. Ele fez 20 anos, não podia jogar mais, o Santos tinha Gilmar. Eu vou mostrar um cartaz do Gilmar. Gilmar, Laércio José Milani que era goleiro morreu e aquele goleiro que veio do Rio, um baixinho, forte, o Pepe se dava muito bem com ele. Eu não me lembro o nome dele. “Ah, senhor Nilo, o Santos me mandou embora.”; “Olha, de fato, com esses três goleiros você não vai ter vez”. Eu e Odair Ribeiro fizemos um esforço e emprestamos pra Portuguesa. Ele ficou jogando na Portuguesa. Daí um pouco nós arrumamos pro Botafogo de Ribeirão Preto. Depois sumiu. Aí eu comecei a ver Roberto Costa, o quê? Vasco da Gama; Roberto Costa, Seleção Brasileira; Roberto Costa... E o tempo passou e antes dele chegar a Seleção eu estou fazendo um jogo do Juniores  no campo do Santos, no gol, atrás do gol do placar novo. Daqui um pouco escuto me chamarem: “Senhor Nilo” eu olhei assim, fui lá. “O senhor não me conhece?”, “Estou conhecendo”; “Ô senhor Nilo, que saudades do senhor! É o Roberto Costa!” Me agradeceu por eu ter ido nessa, eu fiquei até comovido. Ele me chamou, se lembrou, conheceu, veio, me chamou pra falar comigo. Outro aí, lembra? Quando chegou o Juary, Juary quando chegou de Barra Mansa, de outro lugar, difícil, né? Miudinho. Ele ficou ali na porta com a malinha, veio com o pai dele e tal. O Cláudio Adão, o Cláudio Adão estava em Cubatão, eu trouxe ele, estava no Santos. E depois, ele era peralta, viu! Ele vinha tarde e andou subindo pela janela do estádio. Não podia fazer isso. Entrava tarde! E um dia o guarda não deixou ele subir e um diretor que era da alfândega, seu... Eu vou lembrar o nome. Soube disso e mandou o Cláudio Adão embora. Eu cheguei lá, vi o Cláudio Adão com a mala ali no vestiário, ali na porta: “O que está fazendo aí?”; “Seu fulano me mandou embora.” Eu disse: “Por quê?” Aí veio o Antônio Gaia de Oliveira: “O que está fazendo aí menino? Já para dentro!” Tirou, mandou ele sair. O Athié pediu pra fazer um jogo amistoso em Rio das Pedras perto de Campinas. Não, não é de Campinas. Era o candidato a prefeito, o mais novo da região, parece que tinha 23 anos esse prefeito e era do grupo do Athié. Então a festividade lá, então é tanta festividade que eu posso contar que eu quase que chorei, foi em... Deixa eu lembrar... Depois eu conto, foi no Paraná...
P/3 – Rio das Pedras.
R- Aí eu: “Vamos jogar lá.” Levamos o Cláudio Adão, o Cláudio Adão tem a história dele, depois como ele foi vendido e como ele se machucou. O juiz já era conhecido meu. Fez um “partidaço”! Quando terminou o jogo o juiz falou assim: “Senhor Nilo, não dou seis meses esse rapaz está no time de cima.” Mas de fato ele tem qualidade mesmo e ia ser mandado embora. O tempo passou e ele foi centro-avante do Santos e tudo. E jogou lá no São José do Rio Preto, lá no campo que tem hospital, tem o cemitério. Agora tiraram, agora fizeram outro campo bonito. Eu conheço lá por causa do cemitério. Fulano morre aqui já vai pra “li”. E sofreu uma fratura difícil e o Santos então ficou naquela dúvida, foi num sábado. Mas aquele que morreu afogado, o treinador, era da corporação militar. Qual era o nome dele? Cláudio Coutinho. Morreu afogado, um grande nadador. O Cláudio Coutinho não saia lá do posto militar onde o Cláudio Adão estava se tratando. Aí está sabendo, os médicos dizendo: “Ele vai ficar bom, vai ficar bom.” Que faz o outro é do Flamengo, o outro foi deputado lá no Rio, o... Não me lembro o nome dele, me parece que ele é outra vez a presidência do Flamengo. Num sábado eu estou chegando na Vila, parou um carro com um fulano alto e tal, com uma camisa assim esporte número 88,  sabe esses números grandes nas costas? Número 88 nas costas: “Fulano, onde é que fica a secretaria?”; “O senhor pega o elevador, 2º andar”; “Muito obrigado”. Como que é o nome dele? É o Presidente do Flamengo. Ou então quem cuidava das coisas do Santos, o Nilton Neves Teixeira, estava lá ainda, eu falei assim: “Ô Neves, vamos embora. Já são meio dia e tanto e essas conclusões aí não sei não” e ele veio sorrateiramente e falou pro Modesto Roma se queria vender o Cláudio Adão. Ele já veio pra comprar. Sr. Roma pediu: “Eu quero 5 mil” . As negociações estava nesse negócio, depois eu vim embora e depois eu telefonei pro Teixeira. Acabaram vendendo o Cláudio Adão por 4.500. Resultado: o Cláudio Adão ficou bom, está jogando até lá na praia do Rio, faz gol à beça. Seguindo: nós ficamos com cara de pau. Por quê? Olho clínico do cidadão do Cláudio Coutinho. Além de um esperto no futebol, era esperto também, tanto que ele ia, ele foi e ele disse que ia todo dia ver o tratamento do Cláudio Adão. Quer dizer que ele foi lá na certa comprar, comprou barato: 4.500. Hoje você não compra nenhum outro. Se os clubes não se reunirem, mas de fato mesmo, e fizerem um acordo, estabelecer um teto de salário de no máximo 50 mil que já é um salário... Os clubes vão todos fechar, vão tudo pra falência! Porque não se justifica um... É como escrevi agora na Taça São Paulo, como que é o Dunga.
P/1 – O Dunga, do Internacional.
R – O Dunga fez um jogo aqui em Santos contra o Corinthians, o Corinthians emprestou o Dunga e o Deleão pro Santos com a promessa do Santos não colocar os dois. E o Santos colocou os dois e perdeu o jogo e eu fiz a “coisa”. Precisa ver quando eu cheguei com a súmula que o presidente do Corinthians e o Minelli que era o técnico leram. Precisa ver o palavrão que eles soltaram. Porque viram que o Santos tinha colocado os dois. Nesse dia jogava João Paulo ponta-esquerda, jogava pelo Corinthians, e o Biro Biro que veio lá da coisa. João Paulo estava jogando nesse jogo aí.
P/3 – Agora pra finalizar então, aquela pergunta voltando na pergunta da Valéria que acabou saindo um pouquinho: O que o senhor acha desse nosso trabalho?
R- Ah, eu não conclui. Pois é, entrei cortado. Eu acho... Adorei. Adorei porque, por exemplo, muitos que estão com cinco, seis, sete anos aí, tal, não estão sabendo dos casos que surgiram, como foi o futebol e tudo mais. Quer dizer que um trabalho desse, bem divulgado, é sem dúvida uma grande coisa. Eu fico satisfeito em saber. Até quando ela me telefonou eu ia perguntar o porquê disso. A troco de quê? Eu, assim... Ela não veio me perguntar coisa que todo mundo sabe que o Santos foi campeão, isso todo mundo sabe. Quer dizer, quem pode dizer com galhardia foram os que tiveram nas quatro linhas, né? Eu sou um simples. Quer encerrar com Nova Esperança?
P/2 – Vai lá.
R- Teve um convite pra Nova Esperança. Onde é Nova Esperança?  Paraná. Eu tenho até o mapa aí do Paraná, levei o mapa. O motorista errou, em vez de entrar em... Era a festividade de lá da prefeitura, saímos daqui, levamos doze horas pra chegar lá. Chegamos lá: “O senhor quer fazer favor de participar?”, eu disse: “Olha, saímos de madrugada de Santos e pessoal está cansado e o jogo é amanhã, o pessoal vai descansar”; “Não, não.” Dia do jogo, banda musical, bandeira brasileira, feriado nacional, Hino Nacional tocando, entrou o time em campo, jogou. Acaba o jogo, todo mundo assistindo o Hino Nacional tocando, eu fico até arrepiado. Acaba o jogo, desce o prefeito e a senhora dele, vieram falar comigo. Agradeceram a cooperação que nós tínhamos dado e tal, mas ela queria um favor meu, ela queria a camisa 10. Eu não tinha ordem, ninguém tinha me dito, deveria ter levado uma, pedia uma, levava. “Leva!”, que eu tinha levado flâmula, a bandeira e tal, tal. “O senhor não sabe o que o senhor vai prestar pra mim? Ceder a camisa 10.” O que é que eu faço? “O, Fininho vem cá”. O Fininho era meia esquerda que estava com a camisa 10: “Tira a camisa aí!” Puxei a camisa dele assim, dobrei, dei de presente. Prefeito só faltou se ajoelhar: “O senhor não sabe o favor que está prestando! Esse dinheiro vai servir, vai fazer uma rifa, eu vou ajudar as mães solteiras, as crianças que estão passando fome aqui. Deus que te abençoe”. Sabe, eu fiquei até comovido viu! Esse é dos fatos que me comoveu profundamente, o agradecimento da senhora do prefeito ao pedir a camisa do Santos e dizer da finalidade que aquela camisa ia servir, que eu viesse em paz com Deus e que ele saberia. Eles iam fazer uma rifa ali, o que iria dar uma melhoria tremenda. E vocês leiam esses saudades aí, não dei ainda.
P/1 – O recorte.
R- O recorte. Dei aquilo escrito pelo Devanei, o estilista da crônica esportiva prêmio Charles Müller de literatura. Vocês leiam aí, eu que conheci, que joguei com ele. Ele primeiro foi um grande craque do Atlético, depois ele ficou veterano e veio se juntar a nós. E suicidou-se por causa da mulher, suicidou-se lá na praia das Vacas. Não tem a Ponte Pênsil lá?
P/1 – Em São Vicente.
R - E estava na praça da coisa o Saluste, o Salu. Ah, o Salu está na fotografia, essa do Rio aqui. Só pra encerrar.
P/1 – A gente já pega.
R- Isso aqui é o seguinte: em 1948 é o grande São Luís que é representado pelo time do Santos. O destaque aqui não é nenhum desses aqui que somos nós aqui, é esse que está aqui: Gilmar dos Santos Neves, 48, estava começando. Gilmar dos Santos Neves está aqui, está uniformizado. Aí isso só pra concluir. Depois ele foi pró Jabaquara, depois tal, tal e foi campeão do mundo. Está ele aqui, olha. Gilmar dos Santos Neves. Esse jogo nós fomos fazer em benefício lá no Rio, contra o Botafogo do Rio, e a estrela ali... Aqui tem o “Baiazinho” e tal, mas o estrela aqui mesmo que dá o resultado é o Gilmar dos Santos Neves. E o tempo que andei com ele, mesma coisa. Assim, pra mim tem muito valor, porque não tinha nada, cortou isso aí naquela época. Quando veio arrumar a foto veio pra me dar. Então isso ele cortou.
P/1 – Olha, vamos? A gente queria agradecer muitíssimo.
R – Não tem nada que agradecer, eu apenas aceitei um convite. Eu pensei que o meu depoimento fosse só pra uns pequenos esclarecimentos, mas se vocês ficaram satisfeitos e vão ter proveito com ele, eu fico muito satisfeito com isso. Agora, Mirna, prepara lá faça o favor. Vocês vão tomar uma Coca-Cola. Está com sede? Está calor.






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