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Sempre na luta

História de: Raimunda
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2013

Sinopse

Raimunda nasceu na roça e teve quinze irmãos. A situação de sua família era de extrema pobreza e, devido aos abusos do pai, fugiu de casa com um homem aos doze anos de idade. Após engravidar e sofrer um aborto espontâneo, fugiu novamente, desta vez com um caminhoneiro, que a deixou em um cabaré e pediu para que ela lhe esperasse. Trabalhou como prostituta no local dos treze aos dezoito anos, quando se envolveu em uma briga com outras garotas e foi ameaçada de morte. Conheceu a Associação de Prostitutas, onde passou a trabalhar e ajudar outras meninas que estiveram nessa situação. Conheceu um companheiro com quem teve duas filhas e teve que voltar a se prostituir para sustentá-las. Uma de suas filhas passou a se prostituir e, através da associação e pelo incentivo de uma amiga, Raimunda a inscreveu no projeto ViraVida. Atualmente Raimunda trabalha com carteira registrada e luta para ajudar suas filhas e outras pessoas em situação de prostituição.

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História completa

Quando nasceu meu primeiro filho eu entreguei para outra família criar. Eu só tinha doze anos e não sabia nada da vida a não ser capinar, roçar, plantar feijão, mandioca e fazer farinha, mas não medi sacrifício para criar as outras duas filhas minhas, que moram comigo até hoje. Foi por causa de uma delas que eu conheci o ViraVida.

 

Hoje eu trabalho com carteira assinada, sou auxiliar de cozinha num restaurante industrial. Trabalho de noite no preparo de 560 cafés da manhã. Por causa do meu horário de trabalho, durmo algumas horas da noite na empresa. Começo no trabalho de madrugada, bem cedinho. Saio do trabalho às dez da manhã levando o almoço já pronto. Pego dois ônibus para chegar em casa. Depois, em casa, durmo um pouco à tarde para completar meu descanso.

 

Trocar o dia pela noite não é difícil para mim. Sempre trabalhei na noite. Comecei num cabaré do interior quando fugi de casa, com treze anos. Fugi de uma vida de miséria, da fome e do meu pai. Ele teve quinze filhos e proibia a gente até de brincar. Ele era muito ruim, dizia que nosso livro era a roça e nosso lápis a enxada. A gente ia crescendo e procurando namorado para tirar a gente dali. Eu e minhas irmãs casamos cedo para nos libertarmos, mas não sabíamos que iríamos cair em outra prisão maior.

 

Fugi do primeiro homem que me levou dali, quando tinha treze anos. Fui estuprada por ele e disso eu tive um filho que nasceu morto. Fugi das surras daquele homem e da fome. Meu destino começou a mudar quando conheci um caminhoneiro que me deu carona até um cabaré. Ali, decidi ser rapariga para ter calçado, roupa e comida. A primeira vez que ganhei dinheiro, fiquei alegre. Passei a ser outra pessoa, nada do que eu era. 

 

Das coisas da cidade, eu não conhecia nada. Nunca tinha visto uma cenoura, um pepino, uma alface. Não sabia o que era água encanada, luz elétrica, o que era chuveiro, torneira. Ficava encantada de ver como a água saía daquele bico.

 

Não sentia nada com os clientes; só raiva, nojo, enjoo. Lá eu fiquei até os dezoito anos, quando tentei a sorte como empregada doméstica em outra cidade. Eu era analfabeta e as patroas não me deixavam estudar. Preferia trabalhar em casa de mulheres solteiras, viúvas e desquitadas para fugir do assédio de maridos desavergonhados.

 

Não me acostumei à vida de doméstica, mas também não queria mais ser prostituta. De carona num caminhão novamente, cheguei na capital, onde conheci o pai de minhas duas filhas, meus maiores tesouros. Quando as meninas ainda eram pequenas, ele partiu. Fui forçada, mais uma vez, a me virar como podia para não faltar comida em casa. 

 

Vida de prostituta é muito discriminada. A gente não podia nem andar na rua, fazem piadas da gente. Você quer respeito e não tem. Aquilo vai desgastando a gente. Me sentia abandonada pela vida. Trabalhei em vários cabarés. Era muito ruim fazer programa. Quando dizem que aquilo é vida fácil, fico revoltada. Aquilo é uma vida muito difícil. Foram tempos difíceis de novo. Eu saía de noite e deixava minhas meninas sozinhas, presas no barraco de taipa.

 

Por causa de uma briga com algumas meninas que me ameaçaram de morte, acabei saindo na televisão e conheci uma associação de prostitutas. Através dessa associação eu acabei me engajando no trabalho de agente de saúde. Fiz cursos e hoje eu ajudo na distribuição de camisinhas, marco consultas em médicos, ajudo a conseguir vagas em creches e ajudo também nos contatos com advogados. Muitas são aidéticas, têm hepatite. Se a prostituta não fizer a vida enquanto é nova, quando fica velha não tem nada. Passou dos quarenta anos, adeus.

 

Eu nunca deixei faltar nada para as meninas, sempre fiz questão de que estudassem. Sempre acompanhei elas em tudo, sou brava e exijo bom comportamento. Ela sempre gostaram muito da igreja e de jogar bola. Um dia, minha filha chegou da escola toda marcada, eu falei: “O que foi isso?” Ela disse que tinha caído. “Mas onde que você vai cair que vai machucar a garganta, o rosto?” Fiquei desconfiada e fui conversar com a diretora do colégio. Ela me disse que a Marlene não estava indo nas aulas, que ia até parte do caminho e estava se prostituindo perto da escola. 

 

Entrei em desespero e dei uma grande surra nela. Ela não tinha necessidade de fazer aquilo. Minhas filhas sempre souberam da minha vida, nunca menti. Sempre disse a elas: “O que faço hoje por vocês nunca vou aceitar que façam por mim.” Um advogado quer seus filhos todos advogados. A prostituta não quer a filha dela prostituta. A prostituta quer sua filha doutora para mostrar que, mesmo sendo prostituta, a sua filha é educada.

 

Uma amiga me ligou e falou do projeto ViraVida. Ela disse: “Lá ela vai ter o que fazer, bota ela para estudar à noite. Se ela estiver fazendo alguma coisa errada, não vai mais ter tempo de fazer. Tu não ajuda os filhos dos outros? Ajuda agora a tua filha.” Consegui colocar minha filha no projeto, mas ela é desinteressada, não gosta de estudar. Apesar disso vejo que ela ficou mais carinhosa, mais cuidadosa. Eu percebi mudanças. Eu pergunto: “Onde você aprendeu isso?” E ela fala comigo: “Aprendi no ViraVida com as meninas, com a professora Fulana.”

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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