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História de: Carlos Nunes de Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Carlos Nunes de Lima nasceu em Manaus em 1919. Veio de uma família com grandes recursos, o que lhe possibilitou uma vida farta, boa educação. Após se formar no Colégio Salesiano Dom Bosco, tentou ingressar na Escola Naval, perseguindo o sonho de ser oficial da marinha. Não conseguiu a vaga, e acabou cursando Engenharia de Minas. Foi o primeiro engenheiro da Companhia Vale do Rio Doce, que estava sendo constituída a partir da falência da Itabira Iron. Foi grande amigo e por anos colega de Israel Pinheiro, fundador da Vale. Dentro da Companhia, além de suas funções como engenheiro, Carlos Nunes também foi responsável por quase todas os projetos culturais, que visavam a formação completa dos funcionários da empresa. Foi quem "chefiou" o Valeriodoce Futebol Clube, por exemplo, o time de futebol da Vale do Rio Doce. Sempre teve uma visão abrangente da Companhia, pensando em como a influência dela poderia melhorar as regiões em que estava instalada. Carlos, portanto, estava a todo momento inventando um novo projeto, pensando em possibilidades culturais e de desenvolvimento do Vale do Rio Doce. Caso contrário, diz que não vê sentido no trabalho da Vale. 

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História completa

P/1 – Primeira pergunta é pedir para o senhor se apresentar, nome completo, data de nascimento e o local de nascimento.

 

R – Eu sou amazonense, nasci em Manaus em 16 de setembro de 1919. O meu pai, José Nunes de Lima, era um homem de grandes recursos em Manaus, foi deputado estadual, montou um banco cooperativa. Então, fui um menino bem criado. Estudei no Colégio Salesiano Dom Bosco, naquele tempo uma bela, uma grande escola de... E fiz todo o curso ginasial. Por volta de 1930... em 1947, 47, terminei o curso de ginasial e no Amazonas, no Amazonas a pessoa só pensava em ser militar. Porque os filhos vinham para o Sul, escola militar ou escola naval, e regressavam durante as férias com aquele uniforme bonito, conquistando todas as meninas. E não tinha escola de engenharia, não tinha nenhuma escola lá, então eu quis ser oficial de marinha. E me preparei, vim para o Rio de Janeiro em 1940 e... não, 47 não, 1936! E fiz exame na Escola Naval. Realmente não tinha preparo suficiente e, na Escola Naval, uma coisa muito interessante, naquele tempo, hoje se disputam alunos para essas escolas, e naquele tempo era difícil porque nós tínhamos 29 vagas e eram 3620 e tantos candidatos. Passava-se por um concurso de beleza, nós chamávamos concurso de beleza. Era exame físico. Examinava a sola do pé, não passava, se tivesse um tal de pé chato ficaria eliminado. Dentes e tudo, tudo, tudo. Por isso que eu hoje com 80 anos que eu me lembro que para passar naquele concurso de beleza foi uma glória, né? Mas passei no exame físico e depois perdi. Eram para 3 mil e tantos, foram mil e tantos que conseguiram passar para fazer as provas, as provas do currículo lá. Naquela época eram 29 vagas, mil e tantas pessoas. Eu fiquei classificado em 48o. Então, aí, naquele tempo em 1900 e... já tinha, dava um jeitinho, nós conseguimos dobrar as vagas, então eu estaria incluído. Mas, a Vale, a Vale do Rio Doce... a Marinha, naquele tempo, a Escola Naval funcionava na Ilha das Enxadas, não sei se vocês conhecem, é uma ilha afastada aqui. Estava se começando a Ilha de Villegagnon, onde é hoje a escola Naval. E no meio do curso nós tivemos que ser dispensados, aqueles excedentes, dos 28 excedentes, foram dispensados, foi uma verdadeira tragédia. Foi uma choradeira de muitos lá. Porque nós tomamos trote, fizemos tudo, mas não podia usar uniforme, aquilo era a maior tristeza. Porque eles não consideravam a gente. Éramos alunos mas ainda estávamos sob judicie, chamamos assim, né? Então, foi uma grande fase da minha vida essa expectativa, que era o meu maior sonho realmente ser oficial de marinha. E com isso eu, por questões de parentesco, alguém que morava em Minas, que eu não me lembro, fomos, meu quis que eu fosse fazer Escola de Ouro Preto de Minas. Mas, voltando a Manaus, Manaus era uma cidade muito pitoresca, muito, ainda trazia um pouco do inglesismo, do anglicismo, né? Porque lá tinha o porto, era Manaus Harbour Company, os bondes eram também de uma companhia inglesa. É que tinha sido tudo feito por inglês. E sofisticada, Manaus ainda guardava daqueles grandes monumentos, acho que comparando com o Rio de Janeiro, acho que Manaus tem muito mais monumentos do que o Rio. Monumentos fantásticos, praças lindas! O Teatro Amazonas uma peça que feita no tempo da alta da borracha, em que o preço tinha atingido mais de 100 vezes o valor, de uma hora para a outra. Então, aqueles, o cearense, isso é importante porque eu também descendo do cearense por parte de mãe e de pai. Minha mãe é amazonense, mas filha de cearense. Meu pai era cearense mesmo, filho de cearenses, que vieram, vieram colonizando, vieram de Pernambuco para o interior do Ceará, e o cearense que construiu Manaus. E o Amazonas todo, a época da borracha toda, que era o único brasileiro que resistia à malária, à doença toda que existia. A célebre estrada Madeira-Mamoré de poucos quilômetros até o Amazonas, eles contam que cada dormente era um cara que morria. Cada dormente que assentava da Madeira-Mamoré era uma vida, naturalmente cearense. Os coitados lá. Mas então, naquela época se fez coisas fantásticas. O Teatro Amazonas, as praças de lá, tudo muito, muito, muito, muito rico. As óperas que vinham da Europa, nem vinham para o Rio de Janeiro, antes iam a Manaus. As ligações com Liverpool principalmente, era o porto principal da Inglaterra, né, Paris, e os grandes cassinos, os grandes cabarés que tinham naquela época em Manaus, as orgias que se gastavam, as notas de 500 mil réis até para acender um charuto. 500 mil réis era a maior nota. Então, eu vivi no Colégio Dom Bosco com todo o requinte, um colégio muito bom, a obra muito bonita, também talvez, construído naquela época, que eu formei em 1934 lá em Manaus. Eu já talvez tenha confundido as datas aí, foi 1934 que eu tirei o curso ginasial. E então, aquele colégio muito bom, tivemos passagens muito curiosas. Eu sempre fui muito ligado a esporte e hoje eu digo, aliás, reconheço uma coisa curiosa, nós devíamos aproveitar um pouco os índios. Porque nós disputávamos com aqueles índios que vinham do interior… Porque a Congregação Salesiana, ela tem várias colônias no interior do Brasil, principalmente no Norte, no Amazonas, ela tem colônias de catequese desses índios, né? Então, de vez em quando nós fazíamos nós, eu, por exemplo, conhecia essas, no Alto do Amazonas eu viajei em umas férias para conhecer lá os índios. E eles vinham também. Nós nunca conseguimos derrotar um índio em uma natação. Quer dizer, se pegar um índio daquele talvez ele não caia no crown, no nado de costas, de peito, borboleta, mas se disser assim: “Nada.” Aí ele ganha qualquer um. (risos) No nado dele. No futebol, a raça que eles tinham. Quer dizer, então, eu acho o Brasil devia, hoje não porque os índios estão desmoralizados, está tudo perdido aí, morrendo de fome. Mas seria, naquela época a gente tinha um potencial muito bom pelo esporte. Eu que mexi muito com esporte, eu considerava que aquilo era muito importante se aproveitassem aquela força da natureza, né? Então...

 

P/2 – E a sua casa? A casa da família, onde era?

 

R – Nossa casa é o seguinte, meu pai, meu pai era, era muito polivalente. Então, ele era um homem, naquele tempo formava-se guarda-livros. Talvez seria hoje o contador, um pouco mais do que contador, né, era o guarda-livros. E ele muito bem, o pai, me lembro bem, nós tínhamos assim uma bandeira do Equador lá. Meu avô era Cônsul Honorário do Equador e meu pai ficou sendo depois que o meu avô morreu, Cônsul do Equador, e ficou sendo nossa casa era o consulado do Equador. Uma casa boa, uma casa à moda antiga, janela dando para a rua, não tinha os jardins que hoje se usa, casa normal. Meu pai criou sete filhos.

 

P/1 – E porque essa relação com o Equador? Porque que ele se tornou Cônsul?

 

R – Eu não sei, porque o comércio, comércio, era muito pelo interior do Amazonas, sabe? Então, talvez pelo porto de Belém alguém que vinha pelo Atlântico e tentava o Pacífico, eles, eles... Manaus é como eu estou falando, Manaus era uma senhora, era uma metrópole naquela época, né? Então havia esse caminho, o meu pai, aí, como eu estava falando, o meu pai tinha, era meio polivalente, ele tinha um português que era sócio dele, então construíram e tinham uma fábrica Mimi. A Fábrica Mimi era, vamos dizer, hoje é um supermercado, mas naquele tempo a fábrica tinha torrefação de café, um bruto dum negócio enorme, eu me lembro de criança era um torrador de café enorme. E tinha a mercearia, e tinha a padaria. Meu pai é um homem extraordinário porque ele foi o primeiro, primeiro brasileiro, primeiro, porque os portugueses dominavam lá as padarias, né? E meu pai fez aquela, importou a primeira amassadeira mecânica, seria a primeira, primeira batedeira mecânica. Então, ele era muito engraçado, ele fazia, eu gosto de fazer trovas também, ele fazia umas trovinhas e dizia o seguinte, o emblema da casa dele era o seguinte: “Fábrica Mimi” Então, e tinha aquela maior novidade era a amassadeira mecânica. Eu vi fotografias de portugueses, isso você deve saber que a história é assim, né? Amassava o pé como se faz hoje o vinho ainda, como, amassava-se a massa, fazia a massa do pão com o pé. Então o suor é que temperava o pão. (risos) Aqueles caixotes grandes, três ou quatro portuga pisando aquela massa da padaria. Eu mesmo vi essas fotografias! Então foi um grande passo uma amassadeira mecânica. Então ele tinha na fábrica, que era a Fábrica Mimi, e punha lá um desenho dela escrito assim: “Não cansa e nem sua.” (risos) Quer dizer, não cansava e não suava. Mas então, eu vivi assim num ambiente muito bom. Meu pai era um homem de clubes, também puxei muito dele, minha relação de clubes, essas coisas todas, muito social, muito vaidoso, muito elegante, chamavam o Padeirinho Elegante, porque era tudo portuga, os portugueses tudo rançosos lá. Mas então vivi, o Colégio Salesiano, formei lá com todo conforto naquele tempo. 

 

P/2 – Era interno?

 

R – Hã?

 

P/2 – O colégio era interno?

 

R – O colégio, as viagens do meu pai, o meu pai era assim, não perdia as águas de Caxambú. Então ele vinha fazer estações de água todo ano, vinha de navio de lá para cá, né? Ele vinha fazer estações de águas e nessa época nós íamos para o internato do Colégio. O Colégio formidável, né? Mas tem uma passagem muito interessante, a minha vinda para o Rio de Janeiro, quando eu vim fazer a Escola Naval, eu peguei um navio chamado Campos Sales, do Loyd Brasileiro. E aquela ansiedade, eu ia ser oficial da marinha, entusiasmado. Até Belém aquela beleza do navio, depois que chegou em Belém, de noite nós entramos no mar. Vocês não imaginam, eu amanheci e falei: “Estou passando mal.” No camarote. Eu falei: “Estou passando mal. Não sei o que é que pode ser. Estou passando mal.” Aí, o que é que será, tal. Falei: “O que é que será? O que é que pode ser?” Aí, não, nós estamos no mar. Falei: “Será que eu vou enjoar?” Aí, não deu outra, né? Fui tomar o café, já foi embora o café inteiro, perdi tudo. “Meu Deus do Céu! Eu sou oficial de marinha! Estou enjoando na primeira experiência marítima minha, já estou enjoando.” (riso) Aí, fiz uma força, me desdobrei, o médico disse: “Vai tudo lá para cima.” Respirar! Aquela maresia que dá o enjôo, né? Então eu fui fazer exercício de respiração lá no convés. (riso) Ainda mais eu, aquilo para mim era a coisa mais importante, era, o oficial de marinha enjoando dentro do mar...  E eu venci, mas eu tive companheiros de viagem que se enfiaram debaixo do camarote, só aparecia no porto, tudo definhado. (riso) Foi terrível. Mas eu peguei uma viagem muito interessante de Manaus ao Rio, que durou 26 dias! Dou Graças a Deus, aos grevistas do Loyd Brasileiro daquela época, porque nós chegamos em Belém houve greve. Então está lá cinco dias, então eu conheci Belém. Aí, chegamos em Fortaleza, outra greve. Eles não iam mais né, então parava e nós tínhamos refeição a bordo, né, e ia para a cidade passear. Chegou em Recife, outra greve, tomem cinco dias lá de conversação e nós de conhecendo a cidade. Salvador outra greve, Vitória, Vitória parei...foi tudo, foi. E teve 26 dias de turismo! (riso) Turismo pelo Loyd Brasileiro graças as greves. Então, eu quero dizer tudo de Manaus, eu guardo recordações fantásticas. Uma coisa curiosa é o seguinte, que depois que a gente vem para o mundo maior como Rio, São Paulo, eu vivi nesse triângulo, Belo Horizonte, Rio, São Paulo, e minha vivência toda foi aqui, Rio, São Paulo e Belo Horizonte, eu quando volto a Manaus acho pequenininho. Tudo que eu achava, minha infância, eu por exemplo, o Colégio eu achava que era um, um, o Colégio quase que enxerga lá da minha casa e achava uma viagem ir a pé para o Colégio Dom Bosco. Mas, fui esportista lá, eu fui muito precoce, eu, por exemplo, o terceiro ano primário eu fiz vestibular para o ginásio e passei. Mesma coisa na Escola de Engenharia, peguei o meu irmão que era dois anos mais velho que eu, e eu agarrei nele e fui com ele até formar. Então, muito precoce. Quando depois, quando entrar no assunto da Vale, eu tenho uma história muito interessante, me cobre isso, para eu falar sobre a falta de maturidade do menino que nunca teve patrão. A minha vida na Vale é muito interessante porque eu saí da escola e fui ser chefe. Isso é uma experiência terrível, que eu não aconselho para ninguém. Tanto que eu costumo dizer para os meus netos hoje que eles tem que fazer o serviço militar, porque a pessoa deve viver, deve ser comandada um dia. Não pode tomar conta, levantar o nariz, eu sou dono do mundo. Tem que aprender um pouco a obedecer. E o mal é que as meninadas hoje, ninguém quer fazer o exército, né? Então, papai e mamãe se degladiam e não ajudam a educar o filho, porque quando um diz: “Não.”, o pai diz: “Sim.” Então ele faz lá a chantagem de um com o outro e vai levando sempre na vantagem.

 

P/1 – Como é que era na sua casa? Quem exercia mais autoridade? Seu pai? Sua mãe?

 

R – Minha casa, a época, veja bem, eu tenho no meu livro que eu escrevi, eu tenho uma trova que eu fiz, não é minha a trova, eu copiei não sei aonde, não sei, não conheço essa pessoa, que eu digo o seguinte: “Nesse mundo de empecilhos tudo vem tarde demais, só depois que eu tive filhos eu vi o amor de meus pais.” Isso é um negócio muito importante porque, principalmente nós, antigos, os nossos pais nos tratavam de um jeito, não dava colher de chá não. Eu ouvia muito do meu pai falar para a minha mãe assim: “Olha o seu filho aí.” Quer dizer, essas coisas assim, ele tinha que ganhar o dinheiro e a mãe tinha que cuidar. Então, a mãe era mais apegada aos filhos. Isso na época de, na geração de 30 e tantos, 20 e tantos até 40, você pode, a sua história vai dizer exatamente isso. Quer dizer, não havia diálogo do pai. Eu, eu na minha vida depois eu tive esse problema também com duas filhas, uma eu tive um diálogo duro, a outra, seis anos depois, tinha a chave da casa. Quer dizer, eu não sabia a hora que chegava. Então, veja bem, a coisa foi mudando muito. Eu fico satisfeito hoje de eu curtir os netos, coisa que o meu avô nunca me deu colher de chá. E hoje eu agacho, com 80 anos ainda carrego neto nas costas, brinco com eles, vou a futebol juntos, etc. Tem um ditado em Minas Gerais, que ele diz o seguinte: “Que neto...” Diz assim: “Que o filho amansa e o neto monta.” Quer dizer, esse é um ditado muito interessante porque realmente os netos fazem coisas com os avós que o filho nunca pensou em fazer. Então a minha convivência, eu não tenho saudades daquele tempo porque não tinha diálogo com o pai, a mãe mais, né, mas os pais não davam... Isso é genérico, não é? Não é que seja o meu que foi diferente, porque o meu pai foi um homem formidável.

 

P/2 – E os entre os irmãos, como é que era o convívio?

 

R – Os irmãos, eu tenho um irmão mais velho que eu que era o meu companheiro, foi o meu companheiro de ginásio o tempo todo que ele, ele era, nós chamávamos o gordo e o magro. Eu era o gordo e ele era o magro. (riso) Então, nós dizíamos o seguinte, porque quando nós brigávamos, ele chorava, não, eu chorava e ele não, então o meu pai cascava ele, porque quem chorava estava apanhando, então ele achava que ele que tinha ganho a disputa, então ele que apanhava. (riso) Então ele costuma dizer até hoje que ele definhou, ficou mais magro do que eu porque de tanto apanhar das rixas que eu tinha com ele. Mas as meninas aquilo, as moças eram cinco homens e duas mulheres, as meninas, não, quatro moças e três rapazes. A vida tudo de um puritanismo danado, né, colégio de freiras e Manaus era, a sociedade ainda muito, 1930 e tanto, 1938, 1937, muito difícil. Mas nós vivemos bem, eu não reclamo da minha mocidade, que eu guardo isso e quando, esse meu livro que eu fiz eu usei essa, essa fama para me penitenciar nele, né? Porque eu não convivi com o meu pai. Veja bem, uma história muito interessante que quando eu formei em engenharia, então tem uma passagem, eu não sei se eu estou sendo muito prolixo? Tem uma passagem muito curiosa com os meus pais que ele era no Nordeste todo ele era o rei das cooperativas de crédito. Crédito agrícola, crédito habitacional, crédito financeiro ele era o papa, além de ser presidente do Rotary do Nordeste, era um homem fantástico, José Nunes de Lima, fantástico. E quando nós estávamos em Minas, já engenheiros, ele vinha nos visitar e conheceu dois grandes expoentes financeiros de Minas Gerais, que chamavam-se doutor Vitório Marçola, Doutor Vitório Marçola que era um grande industrial, e Necésio Tavares. Esses homens queriam montar um banco, falei: “Então, você arranja a sua licença, que nós agüentamos o rojão aqui.” Meu pai voltou para Manaus, liquidou os negócios dele todos, mas demorou uns seis, oito meses, quando ele, já com a liberação do banco para montar em Minas Gerais, quando ele chega em Minas os dois tinham morrido. Quer dizer, ele ficou com uma, como é que se diz isso? Tem um nome… Uma licença do negócio do banco, e sem capital, sem ninguém para fazer. Custou a arranjar, tal, depois que você tem um mês lá. Então, essa convivência, nessa época ele veio, eu estava em Itabira, eu estava, esse meu irmão mais velho foi para o Rio de Janeiro no tempo do Amaral Peixoto, que levava todos os engenheiros. Essa é uma passagem curiosa que eu tenho que falar, na época de formatura.

 

P/2 – E o senhor foi com que idade, então, que o senhor saiu de Manaus para ir para o Rio de Janeiro?

 

R – De Manaus com 15 anos, jovem, muito precoce, né? E sempre, para te dizer que eu fui casar com 22 anos, mas já tinha experiência, isso é importante. Quer dizer, a minha precocidade era, porque eu era muito alto, diferente, era o tipo curioso também, você deve conhecer o tipo do Nordeste, do amazonense, do cearense, cabeça chata. Quer dizer, você, quando você crescer, você vai para o Rio de Janeiro. Bate na cabeça assim, tem essa história famosa da cabeça chata, né? E, mas nós, como descendentes de pernambucanos misturados com holandeses talvez, dizia o meu pai que partia um sangue holandês também e eu sou muito alto, para o amazonense eu sou alto. Amazonense é tudo cabeça chata. Então era o maior da turma e o mais novo. (risos) O mais alto e o mais novo da turma do ginásio. Depois, na Escola de Engenharia também teve muito isso, então eu formei com 21 anos, com 22 incompletos. Quer dizer, hoje eu vejo uns netos vagabundos aí com 20 e tantos anos tão, carrega mastigando para entrar na universidade, eu com 22, 21 anos estava formado e com 22 estava casado. É o que eu estou falando, eu tinha já um pouco de experiência, a vivência minha foi muito precoce, né? Porque eu já era grande... Então, quando eu vim para...

 

P/2 – Para o Rio?

 

R - ...depois da Escola Naval infrutífera, né, eu fui estudar em Ouro Preto. Ouro Preto não resisti, uma semana lá, não aguentei. Frio tremendo, um amazonense morando, passou pelo Rio de Janeiro, foi lá para o Rio de Janeiro, foi lá para Ouro Preto, eu não sei como é que aquele povo vivia lá. Tanto que a Escola de Minas de Ouro Preto, ela hoje não sei, eu acho que já mudou, o curso, a tempo de férias é como na Europa: era, as férias grandes era de maio, junho e julho. Quer dizer, então o vestibular seria em setembro, né? Tanto que eu perdi a Escola Naval, corri lá para fazer o vestibular em setembro. Mas não fiquei uma semana lá, porque eu queria era ficar na cama, dormindo, porque é um frio tremendo. Eu costumo dizer que depois da bomba atômica o clima mudou, porque em Itabira aconteceu isso também, era muito frio, hoje não tem mais frio. Então, quando eu fui para Minas, para Ouro Preto, e voltei em Belo Horizonte, já tinha esse meu irmão já estava lá, tinha primos, e tem a Escola de Engenharia de Belo Horizonte.

 

P/2 – E porque que o senhor quis estudar engenharia?

 

R – Olha, quando houve trauma aqui, eu morava aqui no Rio de Janeiro, não sei se vocês conhecem aqui, era a rua Flaquer. Rua Viriato Schumacher, depois passou para rua Flaquer, ou o contrário, eu não me lembro. Eu vim morar no Riachuelo, porque lá morava, por isso é que eu estou dizendo, sempre tem um padrinho. Lá morava o Almirante Carlos Borges de Faria, e que tinha sido amigo do meu pai, tal, então eu fui me hospedar com ele para fazer o preparatório para a Escola Naval. Depois, não deu certo e tal, perdemos até o convívio. Mas eu morava na rua Flaquer, lá no Riachuelo. Fui fundador do Riachuelo Tênis Clube, era um menino quente, animado. No Minas Tênis nós fizemos um time de basquete lá na estação Vergueiro, a gente subia a estrada. Naquele tempo era muito engraçado, Rio de Janeiro, estudante, olha só: você comprava para descer na hora do rush, você comprava segunda e ia em pé na primeira. Na hora do almoço você podia ir de primeira porque tinha lugar para sentar, naqueles trens, a gente descia de trem de Riachuelo até... o ônibus era muito raro, 1934, 35, 36, 35, o ônibus era muito raro naquelas linhas para lá, então nós andávamos de trem, mas tinha esse macete de segunda, era tudo lotado, você comprava bilhete de segunda e ia de primeira tranquilo em pé, porque não tinha lugar mais, mas voltar e sentar você tinha que ter o tíquete de primeira, só para voltar na hora do almoço, porque eu vinha fazer o cursinho, voltava e ficava lá estudando. Estudei pouco porque não passei, né?

 

P/1 – Mas e aí a opção pela engenharia?

 

R – Agora a opção por engenharia talvez tenha sido um primo meu que nos trouxe para Minas, né, no caminho para Belo Horizonte, que estava, veja bem, esse rapaz teve problemas de pneumonia, um negócio qualquer, e veio para Minas para se tratar, ele estava no Rio. E naquele tempo era um verdadeiro sanatório em Santos Dumont hoje, né, chamava-se Palmira, e foi tratar da pneumonia dele lá e acabou indo para Belo Horizonte, arranjou uma namorada e se formou engenharia lá. E foi uma pessoa assim, o amazonense mais, o primeiro amazonense que veio para Belo Horizonte, porque não havia razão de ser naquela época, né, mas talvez tenha sido isso. Primeiro matemática, eu sempre não gostei muito de matemática, mas voltando, quando eu tive aquele desastre da, da, um verdadeiro choque que eu tive ser dispensado da Escola Naval, eu pensei: “O que é que eu podia fazer?” Medicina? Tentei. Medicina, não tenho jeito para medicina, ia ver muito sangue, não, não. Aí, naquela indeciso, meu pai, lá em Manaus, veja bem, aí vem a maldade, rigor, né? Hoje o menino vai de um lado para outro, fica onde quiser, né, e ele me custeava, né, e ele falou assim: “Você não vai ficar no Rio de Janeiro não.” Porque aí eu estava na boa, né?  Ah, rapaz! Flamengo, jogava bem naquele tempo, Flamengo era mato lá, Flamengo e clube aqui, clube lá, etc. E já estava... e ele falou: “Esse cara aí vai ficar vagabundo mesmo.” Então me levou para Minas. E eu fui, casei em Minas, estou feliz, por isso, talvez, tenha sido esse meu primo que foi engenheiro, de eu ter seguido a carreira de engenharia.

 

P/1 – Seu Carlos, conta um pouquinho essa sensação do senhor chegando garoto no Rio de Janeiro, o que é que isso representou?

 

R – No Rio de Janeiro, Rio de Janeiro tem passagens fantásticas no rio. Eu tinha trazido minha... primeiro banho de mar meu quase que eu fiquei pelado. Porque eu ia atravessar a Atlântica você não podia atravessar de peito nu, o homem tinha que ter camiseta. Então, tinha um maiô com alças, tinha um buraco aqui do lado, e o calção e o maiô. Naquele tempo eu fumava, né, então, no primeiro dia, bastou a primeira vez que eu fui lá. Posto 2, você imagina. Filho de amazonense do pai, então eu vinha lá da rua Fláquer no Riachuelo, né, eu ia lá para a Domingos Ferreira, surgia uns graúdo lá, amazonenses, dos meus pais, uns tios, uns parentes, ficava lá domingo, sábado e domingo, aí depois ia para a praia, né? Mas eu me lembro de uma ocasião que eu atravessando, aí, quando chegava no mar você tira aquilo e enrolava, né? E eu tinha uma piteira de tartaruga, que era o meu dodói a piteira. Uma piteira muito bonita, tinha comprado no Ceará, sabe? E eu pego, vou tomar banho, né, entrar no mar, eu enrolo, enrolo a piteira na blusa da sunga, né, e entro no Posto 2. Posto 2, naquele tempo, era o Posto mais ali perto do Lido, era o mais forte, e eu gostava do troço... Eu sei que eu bati lá, segurei o meu calção com a ponta do dedão do pé porque uma... (risos) Uma... (risos) Uma onda daquela violenta me rolou de um jeito, e eu preocupado com piteira... (risos) Eu, mais preocupado com a piteira do que com o calção, o pobre do calção quase foi embora, segurei na ponta do pé, eu tava pelado já. Então, o Rio de Janeiro para quem chega do, aí eu sonhava em ver a Carmen Miranda, eu queria... Carnaval, carnaval de 1930 e tantos eu vi Carmem Miranda no auge. Ver Carmem Miranda passar no corso da Rio Branco. Eu achava que Carmem Miranda, aquilo era uma utopia encontrar um negócio desses. Então essas coisas... Conde Laje, famosa, né, ali na Lapa, meretrício famoso, tinha classe A, B, C, quer dizer, esse Rio de Janeiro eu entrei logo bem, sabe? Eu me dei muito bem porque eu sempre fui muito assim, desde o tempo do ginásio eu era muito, muito para frente, né, naquela época. Sem poder, né, porque não tinha, vivia de mesada do meu pai. Mas tem uma história muito interessante depois quando eu fui para Minas com meu irmão, ele, se não me engano era 200 mil réis, 200 mil réis por mês, nós pagávamos uma pensão lá e ele é que fazia tudo. Ele ia no banco, pegava o dinheiro e me dava o dinheiro, a minha parte, ele ficava com a dele, queria descontar uns atrasados que eu tinha com ele, eu chorava com ele, ele deixava. Eu sei que lá para o dia 15, lá não sei quando, eu não tinha mais dinheiro, precisava pegar dele. Porque ele era muito organizado, caixa de fósforo, não sei o que, tomava nota de tudo, tal, e 2 mil réis para o Carlos. Para o cinema custava 2 mil réis, né? Então: Carlos, 2 mil réis. Um dia ele me trouxe uma nota lá, disse: “Eu não tenho como pagar isso nunca.” (risos) Então, por isso talvez, meu pai, eu não podia ficar no Rio de Janeiro que eu ia ficar na gandaia tranquilamente. (risos)

 

P/1 – O senhor era muito namorador, seu Carlos?

 

R – Ã?

 

P/1 – Era namorador, não?

 

R – Demais.

 

P/1 – É?

 

R – Eu era, modéstia a parte eu era uma boa-pinta, né? Tanto que eu tinha métodos, era vaidoso, eu costumo dizer que eu comecei a fumar diz que era só para fazer, para enquadrar, sabe, ocupar a mão com o que? Tinha que pôr o cigarro. (risos) Então eu já fumava pra compor a figura do jovem... eu era muito namorador. E infelizmente, naquele tempo, tinha uns amazonenses aqui que quase, infelizmente, hoje eu já joguei muito, muito pôquer, muita coisa, fui, não sei se vai pular adiante, mas fui até dono de pata de cavalo. Nós dividíamos um cavalo em quatro, cada um ficava com uma pata. Então aquele negócio: “Aquela pata é minha.” (riso) Que o cavalo, cada cavalo custava 200 mil réis, então a gente não aguentava comprar o cavalo, então tinha cada um... Isso já em Minas Gerais, no Rio de Janeiro aqui tem a história do Manacor, essa é formidável essa história do Manacor. Mas então, tive que ir para Minas e com isso larguei as cariocas aqui. Mas virei a cabeça de muita gente, como eu estava falando do jogo, por exemplo, tinha uma turma aqui no Flamengo que era uma jogatina danada, sabe? Então aquele jogo de pôquer, pôquer, naquele tempo buraco acho que não existia, era pôquer. E aquilo, eu não tinha dinheiro, eu ia lá e o resto, né? Tem uma passagem muito interessante de uma viagem dessas, nessa época eu já estava Minas, no Cassino da Urca, o Cassino da Urca é o seguinte: a gente chegava lá e tinha que pagar o ingresso. Cobrava 2 mil réis para entrar no Cassino da Urca. E esses 2 mil réis você podia jogar com ele. Então aquela entrada era uma fichinha de 2 mil réis. Jogava em uma roleta, jogava num preto, num vermelho, jogava em uma linha daquelas, aquela coisa lá, aí aquilo chamava o sujeito. Depois o almoço lá, jantar de graça, barato. A minha passagem no Cassino da Urca tem ótimos para contar. Eu estou lembrando, eu sou apaixonado até hoje com Dolores Duran porque eu conheci a Dolores Duran chorando na mesa comigo. Eu já era engenheiro.

 

P/1 – Chorando na mesa?

 

R – Chorando de paixão pelo Antônio Maria, aquelas coisas dela, aquela mulher bebia demais. Ela era fantástica. Hoje o que eu tenho de Dolores Duran, tudo quanto é disco que eu tenho, agora me mandaram de São Paulo outro dia uns conjuntos que gravaram todas as músicas dela eram formidáveis.

 

P/2 – O senhor em Minas vinha muito para o Rio, é isso?

 

R – É, em Minas, vinha para alto gabarito. Quando eu estava, quando vou chegar aí, eu estava na Vale do Rio Doce, eu, o Mister Gladi, foi o meu novo pai, né? Um americano dos poucos de muito valor que vieram para a Vale do Rio Doce. E ele me adotou, me adotou, me encaminhou muito na vida, me prestigiou de uma maneira. Então, ele me chamava para o Rio, quando tinha qualquer coisa ele lá ia para o Rio e ficava em um apartamento. Naquele tempo era coisa interessante de moço, né? Hoje eu já sou da asinha, dos lugares dos frangos menores, né? Mas naquele tempo eu gostava dos peitos, né? Eu era um rapaz novo, né, eu era da May West, né? (riso) gostava da pampuda, né? E depois a gente chega em um negócio mais resumido, é muito mais simpático, né? Então o gringo, o Mister Gladi, ele trazia os frangos e só comia as asinhas e largava aquelas coxas na mesa. (risos) Eu me dava muito bem. Mas a intérprete dele era muito, muito, era da família do Correio da Manhã, donos do Correio da Manhã. Então, e ele era casado com uma uruguaia esse intérprete. A uruguaia ficava lá em Itabira e ele vinha comigo para o Rio. Aí nós íamos lá para a Urca, mesa lá do Correio da Manhã, Nicinha Batista, Linda Batista, Pedro Vargas, grande cantor mexicano que estava lá na época, Grande Otelo, Paulo Gracindo, todo esse pessoal eu convivi temporariamente com essa turma do Cassino da Urca. Carmen Miranda eu vi de perto assim, dando show. Era fantástico. Eu não me arrependo da minha vida, eu vi muito.

 

P/1 – E a política no Rio? O senhor assistiu alguma coisa da capital da República?

 

R – Política vai entrar, nós entramos na política já na Vale do Rio Doce. Quando chegar na Vale do Rio Doce tem a passagem famosa da política. Tem até coisa aqui entre parênteses, eu guardei, não sei se você gravou aquilo não, né? Da cópia da cozinha, né? Aquele negócio é indecente, né?

 

P/1 – Não, mas eu digo do poder no Rio, quer dizer, Getúlio, todo esse universo capital da república, não?

 

R – Não, naquele tempo eu era irresponsável. Depois, de muitos anos, eu tive o prazer de sentar com o Getúlio e o pretão, o...

 

P/1 – O Fortunato?

 

R – Como é que chama?

 

P/1 – O Gregório?

 

R – O Gregório servir café, eu sentado e ele chegar com o cafezinho e ele sentado com o Getúlio, lá no Hotel das Paineiras. Tive a oportunidade disso. Agora eu sinto muito desprendido. Esse vídeo, pena eu não assistir com vocês porque eu ia ter tanta coisa para comentar, porque esse vídeo traz o retrato do Carlos Nunes desprendido. Começa com eu assim ó [estica os braços], pelado no vídeo. (risos) É um homem que podia ter fortuna e não tem, não tem. Tem família, tem as casas,  tem a casa, tem a poupança. Quer dizer, podia ter, porque eu nunca fui hiperligado. Na época da Vale do Rio Doce em Itabira então, o cara queria me agradar me deu até problema lá na Vale. Um dia apareceu uma sede social e vieram os bens patrimoniais e a sede não existia. (risos) Como é que pode ser aquilo? Eu quase que fui processado na Vale do Rio Doce porque eu tinha feito aquilo com os donativos que eram, o cara via me cantar, sabe? Me ofereceram: “Pepepepepepe... dois reais passa para dois e cinquenta.” Eu falei: “Bom, você quer me agradar? Quer me dar whisky, quer me dar não sei o que? Pões dois homens lá naquela obra lá, vai fazer. Põe lá você, pões dez sacos de cimento lá.” E eu fiz uma construção da terceira série da Vale do Rio Doce, né? Que tinha três séries, uma dos grã-finos, uma dos médios que era o futebol, e faltava uma terceira que era do pega prá capar mesmo. E eu fiz a terceira, e fiz e recebi um dia, um dia foram ver: “Que prédio é esse? Como é? Quanto custou?” Nada. Apareceu lá um advogado e me, passou aperto. Porque eu fiz negócio assim, não escriturei o negócio não. (risos) Mas isso quando chegar na parte do Rio Doce, estoura!

 

P/2 – Vamos falar da faculdade?

 

R – Faculdade de Engenharia. Engenharia, essa faculdade de engenharia é fantástica. Eu fiz sempre assim muito falante, muito, eu, todo mundo tem medo de prova oral, eu gostava da prova oral. A prova escrita era um negócio difícil, né? Porque tinha que ser. Aí tem a passagem, eu fui passando terceiro ano, terceiro ano, meu irmão continuou e eu tomei banho. Por causa de namorada. Ele queria me achar, nesse terceiro ano foi a época da orgia minha mesmo, né? Eu não sei seu eu posso entrar em detalhes, mas corte se quiser. Eu tinha um primo lá em São Paulo que conhecia as mulheres, as mulheres da cabaré mais famosas, e esse era um boêmio mesmo esse meu primo lá em São Paulo. E ele me avisava: “Vai aí a Verbena de la Verona. É uma argentina, você cuida dela, eu falei que eu tenho um primo aí e tal.” Então aquela para mim, eu fazia a cortesia e o cartaz do astro subia, né? Então, essa época do terceiro ano foi uma época que eu perdi o ano e o meu irmão me achava lá nos rendez-vous. O único lugar que ele me achava. (risos) Mas então a Escola de Engenharia, fiz muito bem, bom desenhista, fazia os desenhos para todos os colegas e ganhava dinheiro, né, porque fazia tal. E bom papo, fui passando, passando, passando. Cadeira de Mecânica Racional é difícil. Professor Ademar Rodrigues, era uma moça, mas muito exigente, né? Depois _________, essa aí não tem jeito. Aí, com a prova final lá, eu me posiciono perto do meu irmão e perto do Laje que eram o primeiro e segundo da turma, os mais brilhantes. Falei: “Aqui eu me situo.” As provas geralmente era uma prova clássica do currículo de livro e dois problemas. A prova do currículo eu fiz normalmente, agora, o problema: “O Raimundo, como é que é o negócio aí?” Eu falei: “Estou apertado.” “A fórmula do tal da questão três...” Ele apavorado para me dar cola e eu... E ele me soltou lá uma questão. E eu resolvi, era uma questão de raciocínio. É porque tem que aplicar uma fórmula x. Falei: “Aplica a fórmula e o resto é... o problema está resolvido.” Aí pronto, fiz uma questão e a outra. Aí eu virei: “O Laje, como é que é ________.” Esse fez a questão três, esse passou a dois para mim e a um eu que tinha feito. No fim tirei nove e setenta e cinco e eles tiraram sete e não sei quanto. (risos) O professor me cumprimenta na aula como brilhante aluno, que nunca tinha visto uma prova tão bonita. Então eu consegui passando dessa maneira, Decano Nacional ele morreu na santa ingenuidade de eu ter sido um brilhante aluno. (riso) Professor Ademar Rodrigues, ele era todo, ele, interessante esse professor, depois coincidentemente um neto dele é casado com uma sobrinha minha, e eu gostei, teve uma fase muito de turfe, e ele vem me dizer que o Ademar Rodrigues jogava no Jockey Clube lá do Rio de Janeiro, lá em Belo Horizonte, de lá ele passava __________. Não é possível, porque ele era todo assim, parecia frufru, sabe? Mas era um sujeito bacana, grande sujeito. Ele nasceu em um berço de ouro, porque o Ademar Rodrigues ele era da melhor família de belo Horizonte, os Estevão Pinto era dono de Belo Horizonte. Então ele era genro desse camarada, desse Estevão Pinto. Então, muito rico, o segundo, tudo é deles lá, até esse neto ainda tem, ainda não acabaram com a fortuna, ainda tem. (riso) Ainda estão usufruindo da fortuna. Mas o meu período de escola foi muito bom, no quinto ano tem uma passagem muito interessante também, que o professor na última, na segunda época, eu formei um quadro e tudo, muito bonito, mas ainda não recebi diploma porque o professor me cascou na nota, e em uma cadeira de Eletricidade que nem fazia parte naquele tempo, mas ele era professor de eletricidade e ele queria ganhar, então ele era professor e dava, e era diretor da escola, então me põe no currículo ái para técnica. Eu brincava com ele: “Mas professor isso de eletricidade de engenharia, só quer saber se pegar as duas pontas do fio eu sei que eu vou ter choque. O resto eu não preciso saber. Ligar motor, etc, alguém vai ligar para mim.” Eu brincava com ele, mas ele me ferrou. Me ferrou e ele é diretor da escola. Você vê a vida, o mundo é cheio de troço atrapalhado, né? Ele era diretor da escola, dominava a escola, mas tinha me dado bomba lá, na segunda época, não podia exercer a profissão de engenheiro. Mas aí o que é que faz? Os professores da faculdade, da universidade, da congregação me chamaram: “Vocês passaram.” É ele mesmo: “Vocês passaram, ele está querendo ferrar, porque a média não é, prática, oral, divide por dois e soma com a escrita, divide por dois, não. Tem que ser prática, oral, escrita, divide por três.” Aí a média subia e nós teríamos passado. E houve então esse problema que a Congregação ferrou o diretor. Tudo feito por ele, o professor não sabia, faz assim e eu assinava. E esse camarada foi na, foi para a Escola, foi professor da Escola ele como diretor ele dizia assim: “Como cidadão justo e provido de bom senso mantenho a minha nota. Porque não sei o que, papapa.” Aí voltou, nós fizemos outra Congregação, Congregação nos deu ganho de causa. O mundo, do mundo nada se leva, né? Anos depois, esse homem, doutor Alcino Vieira, grande sujeito, ele vai trabalhar na Vale do Rio Doce, empreiteiro. E uma grande empresa a dele. Aí, eu chego na obra um dia: “Porque que mudaram essa viga aí?” “A, o doutor Alcino.” “Negativo. Para essa obra aí.” Itabira, naquele tempo, você tinha que viajar umas cinco horas para chegar de Belo Horizonte a Itabira. Eu falei: “Está parada a obra, o doutor Alcino não manda aqui.” Esse tal. (risos) Eu fiz esse caboclo chegar na minha sala, esperar e trazer o projeto, justificando a mudança. Falei “doutor Alcino, (riso) O senhor não repara não, mas…” , ainda tirei a minha casquinha, está pensando o que?

 

P/2 – Mas, doutor Carlos, o senhor trabalhava durante o período da faculdade, ou era só estudo?

 

R – Trabalhei, ainda tem, a minha neta anteontem encontrei no aeroporto, ainda fui a Belo Horizonte. Por coincidência está com um namorado lá, Guimarães. Eu, quando estudante, aí essa passagem foi formidável, eu trabalhei nesse escritório, na construção do Hospital da Baleia. Eu era bom desenhista, sempre bom desenhista então, me exploravam muito, eu fazia muita coisa. Depois, com a pedra-sabão, quando eu fui trabalhar com a pedra-sabão, eu era o design da pedra-sabão, exportar de Itabira. O Jânio Quadros era doido comigo, porque eu fiz todas as casas, ele falava assim: “Se eu fosse… Se eu conhecesse você no tempo de Brasília, eu ia por pedra-sabão onde pudesse.” Em Brasília, você imagina. A história da pedra-sabão depois. Mas então, essa minha neta, ela me fez recordar exatamente o período de que eu trabalhei na Fundação Benjamim Guimarães. Era o Banco Minas Gerais, era o dono do Banco Minas Gerais, e uma fundação médica lá, que tinha hospitais, etc. E eu trabalhava nesse hospital, Luís Josef Januse, era até aqui do Rio de Janeiro. Depois eu tive o meu apogeu. Meu sogro com muito prestígio com o, já era namorado, né e eu falei: “Estou no quarto ano da Escola, o Januse parou o serviço...” E ele me arranjou para trabalhar na prefeitura com o doutor Juscelino Kubitschek. Para mim foi a maior experiência da minha vida. Experiência porque eu convivi, convivi assim com liberdade, como você aqui, com o Niemeyer, quando ele estava começando também. Niemeyer não era ninguém antes de JK, né? Então, eu trabalhava na prefeitura numa equipe que era o dodói do Juscelino, que era, que era, eu pensei que tivesse falado isso para você, que era a obra da Pampulha. Então éramos privilegiados lá na prefeitura. O quadro funcional lá de engenheiros só faltou morder a gente, porque aquilo é tudo de, era para turma da Pampulha. Era extra, negócio de hora-extra,  esse aí de vez em quando deve ter uma hora-extrazinha. A extra é hora fajuta, né? Inventava lá né, 200 horas-extra. Então a turma da Pampulha era o dodói do Juscelino. Chegava a folha lá: Pampulha. E eu trabalhei no Cassino, na construção do Cassino, trabalhei naquela parte toda. Ajudei muito o meu sogro porque eu dava umas dicas para ele comprar umas terras lá e vendia muito terreno lá da Pampulha no princípio, porque ele vinha com procuração, nunca teve nada no nome dele. Mas tivemos uma casa muito boa. Até que eu encontrei a casa para ele lá na Pampulha mais tarde. Então, eu trabalhei na Prefeitura, aí tem, aí eu acho que nós vamos entrar exatamente na Vale do Rio Doce agora. Porque? Eu tinha feito o CPOR, por sinal muito, outra coisa curiosa, eu por causa de ter estado na Escola Naval, eu achei que eu teria direito a certificado de reservista, né? Não é que eu estava no terceiro ano de engenharia e me disseram que eu não tinha. Então todo o mundo, eu tinha que fazer. Falei: “Não vou fazer o exército que eles vão me bater lá.” Tinha uma companhia quadro de não sei de que, eu falei: “Eu não vou. Terceiro ano de engenharia vou fazer CPOR?” Então eu fiz três anos de CPOR naquele tempo.

 

P/2 – Lá em Belo Horizonte?

 

R – E fiz com um rapaz que estava começando a Escola de Engenharia, entendeu? Coincidentemente eu estava no terceiro ano, formei no CPOR, trouxe até uma fotografia muito bonita de formatura. Formei em engenharia e formei junto no CPOR. NO CPOR eu dava aula lá para os tenentes de topografia. Porque eu estava no terceiro ano de engenharia, os tenentes não sabiam nada daquilo e eu que ajudava eles lá. E fiz tanto rolo no CPOR que no final o capitão estava assim: “O senhor não tem frequência não, sabe? Porque...” Eu falei: “O que é que eu vou fazer? Eu vou formar em engenharia esse ano...” “Não, eu vou botar o senhor de castigo, você vai ficar a semana toda aqui comigo.” “Para que?” “Para fazer os desenhos para eles lá, as coisas.” Não me estourava, aí ele me dava presença. Sabe que eu passei no CPOR depois, depois, aí veio a história da Vale do Rio Doce. A razão da Vale do Rio Doce. Você sai da, do filet mignon, do gênio francês de melhor qualidade e vai comer uma carne de terceira, no meio de uma cachaça, de um caldo-de-cana, foi o que aconteceu comigo. Eu estava com o doutor Juscelino Kubitchesk, me tratarem com toda liberdade e foi, acho que foi meu padrinho de casamento o Juscelino, não, quem foi, foi o Israel Pinheiro, foi o presidente da Vale do Rio Doce. A história vem aí. E a guerra pipocando, 1941, eu falei: “Meu Deus do céu.” Naquele tempo formado não tinha emprego, difícil emprego, e eu bem empregado na Prefeitura. Estava formando e ia ser nomeado engenheiro naquela época. Falei para o doutor Juscelino: “Doutor, eu estou ouvindo falar aí que eu vou ser convocado, que eu sou oficial de artilharia, será que tem jeito da Prefeitura me segurar aqui?” “Não tem nem condições, é um serviço público aqui, etc.” Eu falei: “Como é que eu vou me arrumar?” Aí, eu vim aquele negócio na cabeça: “Eu não posso ficar na Prefeitura agora, onde é que eu vou arranjar um emprego? Porque eu não vou brigar com, por causa dos outros lá.” Eu sempre fui contra o Brasil entrar na guerra, né? Então fiquei naquela dúvida, mas aí aparece a Vale do Rio Doce. Vale do Rio Doce foi uma coisa curiosa na minha vida, porque eu estou falando, saí do filet mignon, porque eu fui para Itabira passar mal lá em um lugar terrível, e saí de Belo Horizonte, da fina flor da sociedade, né? A minha mulher por exemplo, foi para Itabira, ela frequentava o Palácio da Liberdade, era amicíssima das filhas do Demiro Valadares. Quer dizer, meu sogro é um cara que foi deputado federal, deputado estadual, foi secretário de saúde lá, de educação no estado de Minas. Quer dizer, era um ambiente society para mim. Então eu teria feito hoje uma carreira em Minas Gerais com Niemeyer a tiracolo, doido comigo. Quer dizer, e eu estava em um ambiente... e eu, a minha tendência artística também. Quer dizer, eu desenhava fácil, eu não desmunhecaria, mas a tendência era de ser um decorador. (risos) Você entendeu? Eu sinto muito, eu estou falando a vontade aqui com vocês, me puseram à vontade, eu fico a vontade, eu tinha a tendência de ser hoje um grande artista plástico, um grande decorador, um cara para ditar, coisas, modas, etc. E fui mexer com minério de ferro.

 

P/2 – Mas como? Quer dizer, o senhor queria um emprego...

 

R – Para me salvar, para eu não ir para a guerra.

 

P/2 – E como que o senhor consegue entrar então na Vale?

 

R – Pois é, na Vale. Porque? Eu frequentava a casa do doutor Raul Pinheiro, as festinhas. Antigamente não tinha clube não, era casa de família, aqueles “tetetê, tal”. A gente se via naquelas festas, casa de fulano... Muitas festinhas, né? 1938, 39. E o doutor Israel, muito amigo do meu sogro, político, Beneditino, Benedito Valadares, naquela época... E muito amigo, e então eu falei: “Doutor Alcene, o senhor precisa me dar uma colher de chá com o Israel porque ele diz que vai ter uma companhia agora que é capaz de me salvar do exército. Porque é companhia criada por esforço de guerra. Capital americano, capital brasileiro, as minas inglesas, é para esforço de guerra.” Aí: “Eu vou falar com o Israel.” Aí Israel mandou me chamar, fui o primeiro engenheiro da Companhia Vale do Rio Doce. Essa é a história da Vale. Eu não abro mão disso, eu trouxe até um documento aí da minha firma do dia 26 de junho de 1942, eu fui fichado e fui para Itabira. Existia uma companhia antiga lá que ela foi, a Vale do Rio Doce continuou. Mas aquilo foi muito bom, eu formei, fui para lá, um bom emprego, etc e tal. E o doutor Israel me olhando bem, eu falei assim: “Você me olhava assim.” “É isso mesmo, estamos precisando de gente para encarar esses americanos.” Porque a época era tudo de refugiado de guerra. A mesma coisa que eu estava fazendo, procurando a Vale para não ir para a guerra, eles também, ia para a Vale do Rio Doce para não ir para as Filipinas, para aqueles malucos japoneses, lá. (risos) Tinha muita gente lá de protegido.

 

P/1 – Tinha muito refugiado?

 

R – Ih, protegido desses americanos engenheiros. Porque aqui, talvez lá nos Estados Unidos a Vale do Rio Doce no Brasil, “Ah, lá esforço de guerra”. Dispensa, dispensa do serviço militar. Mas é uma coisa muito interessante, que se em 1942, exatamente em 1942, em junho eu fui para Itabira, em setembro fui convocado. Tinha que fazer outubro, novembro, dezembro o estágio preparatório para ir para Natal e seguir para lá. Quer dizer, foi um interregno que eu tive na vale do Rio Doce de três meses que eu fui para lá. Aí tem uma passagem muito curiosa, eu te contei do casamento? Houve um casamento, o meu estava marcado para o dia dois de outubro, e eu fui convocado para me apresentar no dia primeiro de outubro. Puu! Isso era uma tragédia, como é que eu vou fazer? A filha do ______ desmanchar o casamento, ou adiar o casamento. Isso era um vexame. Aí eu fui me apresentar, acho que vale, se é para ser história da vida, essa é uma passagem importante da minha vida. 

 

P/1 – Ah, claro.

 

P/2 – Por favor, conte.

 

R – Fui me apresentar, me apresentei ao Major lá e eu, pá! Continência. “Aspirante. Carlos Lima, reserva de segunda classe totototo...” Baixa a mão, baixa a mão, tal “Olha, eu estou me apresentado que eu tenho que...” Aí falei: “Major, eu tenho um problema, eu tenho que me apresentar dia primeiro de outubro e eu vou casar dia dois.” Falou: “Mas não pode casar, tempo de guerra só de capitão para cima que pode casar.” Aí danou-se. (risos) “Mas não é possível, que situação que o senhor me criou major, esse negócio é muito trágico. Esse casamento aqui está sendo esperado, é sociedade, é society. Padre Eustáquio naquele tempo era um santo, padre Eustáquio ia assistir, o casamento ia ser feito pelo bispo”. Esse negócio tá danado, falei, então vou falar lá com o general, general Dacor, cearense. Por isso que eu estou dizendo, eu vou vencendo do meu jeito, quando eu meti a cara, com o general. Ele falou: “Eu sou cearense, sou filho de cearense...___________.” Eu falei: “General, eu estou em uma situação...” “Já sei, papapapa.” Aí o general perguntou para o major: “Como é que ele pode fazer? Tem que resolver o problema do aspirante.” Aí o major falou assim: “Pois não, só se o senhor trouxesse, o senhor não pode casar no civil antes?” Meu sogro, além de prestígio político era um carola de primeira, casar no civil antes. Eu falei: “De jeito... isso é pecado.” Não é possível, mas no entanto, em todo caso. Eu falei: “Se é a solução.” Falei: “Então nós vamos riscar a sua apresentação e o senhor traz o mais rápido possível, antes da sua apresentação traz o certificado aí. Porque casado aí está pronto.” Aí o general: “Aí o resto nós arranjamos. Mais dois ou três dias para você apresentar.” Aí eu cheguei para o meu sogro: “Ih, mas casar no civil?” “É, mas tem que ser. Se não vai tudo por água abaixo.” E fizemos um casamento. Casamento no civil, rápido, peguei. Aí fui, me apresentei, o general me abraçou, me deu os parabéns lá, falou: “Você agora está liberado. Está liberado. Você pode apresentar até a quarta e assim.” Falei: “Como é que eu vou...” “Não, não precisa levar nada por escrito não.” “General, como é que vai ser?” Não, aí muito bem. Eu no casamento, muito bem, depois peguei o trem no dia dois mesmo depois do casamento, dois de outubro. Peguei o trem, fui para Pouso Alegre, sul de Minas, Oitavo Regimento de Artilharia Montada. Chego lá, passei dois dias de viagem, aí tomei o maior trote da minha vida. Recém casado, mulherzinha zero quilômetro, uma gracinha de menina, estou lá no hotel, seis horas da manhã, pápápá, batem na porta. Pá, soldado. Isso porque, os meus colegas todos já estavam apresentados desde o dia primeiro lá. Eu cheguei lá no dia três, ou dia quatro, você entendeu? Ó, ó a maldade que fizeram comigo. Me tiraram da cama da lua de mel, e o bichão lá, peguei: “O que é que é?” “Um ofício para o senhor.” Quando eu abri o ofício assim: “Deveis comparecer imediatamente a este comando sob pena de...”Aí vai, artigo não sei o que, babababa, em farda de gala, armado com espada. “Nossa Senhora, como é que eu, eu não tenho espada”. (risos) Aí lembrei que eu tinha uns colegas que tinham espada lá e saí sete horas da manhã, com aquele uniforme cinza de gravata do exército, que nós tínhamos ganho na formatura. Até isso eles sabiam que tinha, porque senão não iam pedir para eu aparecer com aquilo. E eu saio de Pouso Alegre às sete horas da manhã numa charrete, vou para o quartel. Aí o bobo deu show para todo o mundo. Começaram pelo sentinela, eu com aquela figura de roupa de gala. Eu falei: “Onde é o alojamento dos oficiais, que eu preciso procurar o tenente Célio, que ele tem a espada.” (risos) Aí, eu vou lá, o Célio já sabia de tudo, né, arranjou a espada. Aí eu penduro a espada, aquela buta da espada. Aí começou aquela agonia: “Tem que apresentar para o major não sei de quem.” Aí eu vou lá, isso era dizer o seguinte, que daqui vai para Copacabana, né? Daqui eu tinha que atravessar um punhado de lugar lá e o povo todo apavorado com aquela figura, em traje de gala com espada pendurada. (risos) E eu lá ia procurar o tenente, e o tenente: “Não, não é comigo não. Você vai procurar o tenente...” Aí eu ia para outro lugar lá me apresentado, sabe? A, mas... Lá pelas tantas o capitão, como é que é? Tenente, major... O major estava numa boa lá, fazendo barba lá no Cassino dos Oficiais. Ele falou: “Não, você já apanhou demais.” Que mandaram procurar ele, né, aí procura o major Estorino, onde é que está o major Estorino? “Aahh, está lá no Cassino, lá fazendo barba.” Aí, cheguei lá, tudo continência. (risos) Ele falou assim: “Você já perdeu muito tempo, eles já fizeram demais com você. Agora você vai dar um trote neles. Essa turma está gozando com você. Eles já devem estar satisfeitos, agora você faz uma coisa: você sai daqui, você sai daqui e vai curtir a sua mulherzinha lá no hotel. Não liga para isso aqui. Isso aqui está uma zorra! Nós estamos sem comando. A turma já está toda, já viajou tudo para o Norte, agora nós estamos pegando só os convocados aqui.” “Mas é mesmo? Então isso é trote?” Falei: “É mesmo, é tudo...” (risos) Ah, que alívio! Eu larguei até a espada não sei aonde e saí correndo de vergonha, né? Vim para cá, passei uns dois dias sem ir, até o coronel chegar e eu me apresentar. Foi uma passagem curiosa da minha vida e foi uma temporada ótima no, porque eu recebia pela Vale do Rio Doce, fui convocado e tal. Aí a pouca vergonha, né, o sujeito lá, isso eles nunca vão saber, ele falou: “O senhor não quer receber por aqui não? O senhor mais. Aí nós partimos.” Olha aí, esse é o exército brasileiro de 1942, já tinha essa malandragem. Quer dizer, eu recebia da Vale do Rio Doce, não precisava, não tinha o direito de receber pelo exército. Mas o cabra lá que fazia as coisas, falava: “Recebe aqui, nós rachamos.” Esse é o nosso exército. Mas foi uma passagem boa, depois voltei para a Vale. Eu sinto na minha vida da Vale do Rio Doce, a única coisa que eu senti na minha ausência nesse período foi que o Valeriodoce Esporte Clube, que eu considerava muito mais do que a própria Companhia Vale do Rio Doce, que eu tinha criado, eu não assinei a ata de fundação porque nós estávamos preparados, tudo preparado e foi  quando eu viajei, em outubro, em novembro que foi instituído o Valeriodoce Esporte Clube.

 

P/1 – Calma.

 

P/2 – A gente retoma. 

 

[pausa]

 

R – Muito bem, passamos, aí tem outra passagem curiosa de Pouso Alegre. E, não sei, mas vale a pena isso? Que é um fato, quem sabe se vai para os, quem sabe vai favorecer até a penalização dele. Quem não conhece no Rio de Janeiro, mas em Minas todo o mundo conhece Padre Eustáquio, um holandês, que veio de Poá, interior de São Paulo, e fez o maior rebuliço em Belo Horizonte. Eu falei com você sobre, ele diz que foi chamado de Belo Horizonte _______, pai, pai da Márcia, dessa Kubitschek lá, essa moreninha que é filha do Juscelino. Porque ele era tão milagreiro, ele fez uma benção realmente no Juscelino e depois disse: “A, dona, dona...” A dona do Juscelino, como é que chamava?

 

P/1 – É Sara.

 

R – Ãn?

 

P/1 – É Sara, não? É Sara.

 

R – Sara Kubitschek teve criança, nunca tinha. Tanto que a outra branquinha, que era do coisa, ela é filha adotiva. Essa agora, política e coisa, essa é a filha do Juscelino mesmo. Esse, o Juscelino fez tudo para o padre Eustáquio. Arranjou um terreno, hoje a Igreja do Padre Eustáquio é uma das mais suntuosas de Belo Horizonte, quer dizer, que isso é um milagre dele. Porque ele realmente, eu convivi com esse padre. Na casa da minha sogra, ele chegava lá ela tirava, lavava os pés dele, tirava as meias, punha a meia nova, guardava a meia velha, servia de relíquia. Mandava cortar o cabelo e guardava o cabelo dele. Pois bem, do jeito que era a minha sogra com o Padre Eustáquio, e eu no exército para ir para a Itália, preparado para servir de bucha de canhão, né? Ela rezando lá em Belo Horizonte com o pé agarrando no padre Eustáquio, para eu ser dispensado. E por incrível que pareça aconteceu, para mim não foi milagre, mas eu respeito a opinião que se generalizou, até fomento isso em benefício da canonização do padre Eustáquio. Porque, fim de dezembro, um pouquinho antes do Natal, na leitura do boletim do dia do exército, relacionado todos os oficiais da minha categoria primeiro tenente, segundo tenente, que seriam, que iam embarcar para Natal. E eu fui o único que não estava na lista.

 

P/1 – O único?

 

R – Aquilo foi uma surpresa. Nessa, nessa, nessa eu fiquei, mas o coronel falou: “Ah, não sei, seu nome não veio. A sua turma vai seguir o senhor vai ser dispensado. Todos vão ser dispensados, agora eles vão para Natal, o senhor está liberado.” Eu cheguei em casa no hotel, morava no hotel em Pouso Alegre, e tinha chegado uma carta do padre Eustáquio. Essa carta consta da documentação da canonização dele. Porque nessa carta ele dizia que tinha estado com ______, e que tudo estava correndo muito bem, e que a guerra estava queimando os seus últimos gravetos, e que tal, seria muito bom, como quem diz assim: “Você, não vai acontecer nada com você.”  Quer dizer, é uma coisa, essa carta hoje é disputada em Belo Horizonte, de vez em quando ele pede, é relíquia. Porque é carta de próprio punho dele, com a letra dele, padre Eustáquio e de qualquer maneira eu costumo dizer padre Eustáquio, mas teve um general Dutra também, e teve o doutor Israel Pinheiro, que era o presidente da Vale do Rio Doce, que estava fazendo força, porque realmente quebrou um elo ali na Vale, na Companhia, porque eu estava lá de junho, julho, agosto e setembro, quando deu outubro, quer dizer houve um, já estava mais ou menos engrenado, mas eu fazia falta. Não é vaidade não mas eu teria feito alguma falta. Então eles estavam fazendo força para que eu não fosse para o exército. A minha volta foi, para mim foi um prazer danado que é voltar, e tem uma passagem curiosa, que a minha volta primeira vez que minha, eu já tinha viajado de avião, por causa da Vale do Rio Doce eu tinha andado de avião, mas a minha senhora era a primeira vez que ela entrava em um avião, e num vôo de Belo Horizonte para Itabira, 20 minutos, no máximo meia hora, nós tivemos que pousar no Rio nas férias. Um nome famoso da Companhia Vale do Rio Doce, que deve estar constar na sua história, que chamava-se Peri da Rocha França. Esse rapaz era um engenheiro, um engenheiro bom, mas o doutor Israel gostava dele mais como piloto, e ele foi o piloto oficial da Companhia Vale do Rio Doce. E coincidentemente, veja aqui que coisa curiosa, né, há pouco tempo, ele está muito, muito borocochô, muito ______, aí de vez em quando ele lembra, ele lembra, babababa, porque foi que eu desci? Falei:  “É, você foi desviar e tal.” Porque o motor parou, nós atravessamos o Rio da Velhas e o motor parou no ar. Eu e ele na frente e a minha senhora sentada atravessada do lado de trás, eram três lugares. Eu falei: “O que é que foi?” Falou: “Pifou.” “Mas pifou o que?” “Acabou, acabou o motor. Agora eu estou procurando onde pousar.” Eu falei: “Então está bom.” Aí, ela: “O que é que é?” “Não, está tudo certo, não tem nada.” Aí ele começou a rodar o avião, sem motor já. Era um teco-teco, né? Chamava-se... a velhice é uma tristeza, né? Mas ainda vou lembrar qualquer hora. E nós descemos em uma ilha no Rio da Velhas, estavam tirando areia, esse povo que tira areia do rio. Sem motor, sem fazer barulho, quase que degolava uma meia dúzia de gente lá, para passar, para nós passarmos no avião. E o avião desceu, pousou, chegou na ponta da ilha ele fez o cavalo-de-pau que chamam, né? Ele virou tudo asa e foi bater dentro d’água. Então, nessa altura tinha a fazenda do doutor Souza Lima que tinha sido prefeito de Belo Horizonte, muito amigo do Israel Pinheiro, ele logo, pior foi até a descida. (riso) da ilha para a terra, um barco desse tamanhozinho, balançando. Pegamos um caminhão e voltamos para o aeroporto. Aí falei: “Você tem coragem de pegar outro avião?” A história, o precedente ia ser o seguinte, o avião da Companhia, o Cauê, que eu vou aproveitar e contar a história do Cauê, trouxe até o resto de reportagem dele aí, vocês virem a fotografia. O Cauê era um avião extinço, com flap, extinção quer chama, com cinco lugares, nós íamos pegar o Cauê, o doutor Israel estava em Itabira esperando, e o avião Cauê estava desmontado, com a hélice fora. Aí, quando chegamos no aeroporto ele falou… O Israel era um sujeito, o doutor Israel Pinheiro era um homem que ele, de tão bom que ele era, ele bancava sem-educação para ninguém arrancar tudo dele, sabe? Tem pessoas humanas assim, né? E a defesa dele era ser grosseiro para não dar tudo. Então, se o sujeito chegava na sala dele ele dava um berro: “Que foi!!!??” Se você conseguisse entrar e falar com ele, ele abria as pernas. (risos) Então ele era muito grosso assim. E essa passagem é muito curiosa. Então todo o mundo tinha medo dele, e o Peri falou: “Está me esperando lá.” Então ele montou o avião na última hora assim. Amarrou lá a hélice, tal e tal. Falou assim: “Eu vou dar uma volta com ele vamos embora.” Pegamos o avião e chegamos em Itabira. Doutor Israel, nervoso como ele era, nem para falar: “Foi tudo bem?” Não cumprimentou, entrou no avião xingando, entrou e foi embora, voltou para o Rio. Mas a primeira coisa que ele fez foi ligar para o sogro, para o meu sogro, você vê como são as coisas, ele tinha essa coisa de ser, de ser durão, mas ele era frouxo, ele era bom demais do coração. Agora, como era muito assediado ele procurava dessa maneira. Primeira coisa que ele fez chegando no Rio foi ligar para o meu sogro dizendo que tinha acontecido isso, vão falar muita coisa, pode ser que, mas está tudo em paz, tal, eles chegaram em Itabira e tal. Então, foi essa a minha volta de Itabira. E esse avião Cauê, com esse, não, não foi esse piloto, foi um outro piloto, anos, já em 1940 e… 1949. Outro dia eu estava querendo lembrar essa data e não conseguia. Esse avião estava vindo de Vitória a serviço, quando chegou em Governador Valadares o superintendente lá, o João Paulo Pinheiro, sobrinho do Israel, falou assim: “Você não vai embora não.” Eu falei: “Mas eu estou com toda mordomia, estão me esperando lá em Itabira.” O pessoal da Christian-Nielsen estava as obras da mecanização, né? “Não, não, vamos tomar uma cerveja aqui.” Tal, o avião aqui. “Pedi um avião para você amanhã, o Cauê.” Rapaz, fui dormir em Valadares. Eu estava vindo em um automóvel ligado ao trem, com toda mordomia. Fiquei lá. Dia seguinte ligamos para Itabira, Renato Campos o nome do piloto. Falou: “Às sete e meia, oito horas você pode ir para o aeroporto que eu te pego lá em Valadares.” Até hoje, até hoje. Ele caiu antes de chegar em Valadares e foi-se o nosso avião. E lá para as quatro horas da tarde, depois de procurar, procura daqui, procura de lá, é que nós conseguimos saber que tinha um avião queimando em Naque perto de Valadares. E aí foi a maior sofrimento aqui para o seu amigo, de reconhecer o corpo. Porque eles foram de barco, atravessaram o Rio Doce, foram no local que estava o avião, trouxeram, iam trazer o corpo, eu dormindo em Naque, que é uma cidade pequenininha, uma estação da estrada de ferro, duas horas da madrugada me batem no quarto: “Chegou o corpo.” Aquela hora se eu tivesse morto era melhor, porque veio um grande amigo meu, folião, alegre, expansivo também e eu fui descobrir, reconhecer o corpo e levá-lo de volta para Itabira. Puseram num caixão e eu fui em um automóvel de linha até Itabira. Foi uma tragédia a chegada do corpo dele em Itabira. Um trauma danado, mas infelizmente... Então, essa passagem do avião, do Cauê, quer dizer, o Cauê por duas vezes aviões ligados à Companhia Vale do Rio Doce me deram esse sofrimento, sabe? Esses riscos. Mas voltando a Itabira então o ambiente já, começaram a chegar os americanos, já tinham uns americanos, daí é uma passagem muito importante do, como eu já disse, vinha gente ruim mais do que gente boa. Eu, nas primeiras gravações que eu fiz aqui eu cheguei até contar os casos de, principalmente de Valadares. Valadares existia, Governador Valadares dizia-se que matava-se por engano, porque não tinha luz depois das onze horas, e a luz muito ruim, né, então você já sabe, tem um careca aí, tal, assim, tamanho, um metro e setenta, tanto podia ser eu como podia ser o nosso câmera man, careca, altura, é aquele, pau! Matava, não era esse, era outro. Matava demais, em Valadares era um negócio terrível. E americano chega lá, tinha a figueirinha, chamava Figueira Rio Doce, antes chamava ______, que era o nome do governador, né, aí era figueirinha. Figueirinha era a zona da cidade, o mafuá. Esses americanos chegaram lá como são até hoje, né, os FMI da vida, né, chegavam lá dominando. Então estava uma menina lá no colo do sujeito, estava dançando, ele passava a mão nela e a faca comia. Mas esfaquearam muitos americanos lá...

 

P/1 – Esfaquear americano...

 

R – Porque enchia a cara, né, e predomínio, era dono do mundo, né? Itabira não tivemos isso não, tivemos uns gaiatos. Umas boas piadas lá. Tinha um que era meio Suzan, esse camarada era... aprendi até um negócio, porque americano quando ele inaugura uma casa nova ele diz: “Eu vou esquentar a minha casa.”, e convida para esquentar a casa. Então se ele convida você, cada um tem que levar um negócio para esquentar. Então é pra abastecer sua casa, pra esquentar a casa dele...tinha um lá que tinha um martelinho só pra bater no _______. Ele batia com o martelinho assim só para saber se estava compactado. Quer dizer vinham mesmo pra não ir pra frente. Para evitar convocação. Mas tivemos pessoas lá de grande gabarito como o mister Gordon. Mas voltando um pouco atrás, porque eu trouxe umas fotografias e eu acho que essas fotografias devem fazer parte pois pouca gente deve ter essas fotografias que outro dia eu fui fazer uma revelação, ampliar, esqueci, voltei, já não dava mais tempo, eu trouxe elas manchadas, sabe, é a figura de um xará meu, chamado Charles Gordon, esse homem era um remanescente, vamos dizer, era um homem dos ingleses da Itabira Iron antiga, que estava lá tomando conta daquilo, morava num casarão grande lá, tal e essa pessoa foi quem me recebeu lá em Itabira. Mister Gordon, dava bronca, tal, mas era um doçura, porque naquele tempo a Vale tirava minério dos rolamentos e a estrada de ferro estava vindo.

 

P/1 – Não tinha chegado lá ainda?

 

R – Não tinha chegado em Itabira ainda. Eu quem coloquei a estrada que foi de Itabira até lá em cima da mineração, 10 quilômetros. Então essa história antiga, aquele livro do doutor Demerval deve contar bem, é o bruto, eu fico com medo de perder tanta coisa, porque Itabira é um conglomerado de minério, dividia-se em duas posses: a Itabira Iron Company e a Brazilian Iron Company. Essa Brazilian era ligada ao Percival Farquhar, um homem famoso, a história toda conhece ele e eu conheci esse homem com 85 anos e eu fui ajudar ele e ele falou: “Não!”, está parecendo eu agora, eu queria me segurar e eu falei que não gosto que ninguém me pegue. E ele estava subindo, “não, não...”, danado, 85 anos lá em Itabira. Era um homem de grandes realizações, grandes negociatas no mundo ele fazia e ele é que participou desse grupo da Brazilian Steel, fez a Acesita ligada a Amílcar Jacques de Moraes, que tinha ligações com esse grupo. E Amilcar Jacques de Moraes tinha, a família Jacques de Moraes muito ligada a mineração, o doutor __________, era um sobrenome muito importante, e eles estavam com uma Companhia Itabira de Mineração qualquer coisa assim que estava tirando minério de Itabira junto com... era Companhia Itabira de Mineração e tinha um grupo que estava fazendo a construção da estrada de ferro. Essa estrada de ferro é muito interessante, vocês vão aí ouvir de gente mais capaz, essa estrada de ferro chamava-se Vitória-Diamantina, não era Itabira-Minas não...Vitória-Itabira...ia subir o Rio Santo Antônio. Ia para Diamantina, eu não sei qual a razão para ele parar lá em Diamantina, mas a primeira, essa estrada de ferro de Vitória-Diamantina, mas na época, primeiro eles chegaram no Rio Santo Antônio ali, continuaram, pegaram o Rio Doce e foram até Itabira. Oliveira Castro, quando eu cheguei em 1942 em Itabira, era uma estação, seria a segunda ou terceira estação de Itabira descendo, porque o perfil da estrada de ferro de Itabira é uma coisa muito interessante. Ela desce abruptamente de Itabira até perto de Antônio Dias, na baixada onde está hoje a Usiminas, onde está a Acesita e tudo, então ela deve descer até lá com 600 metros de altitude e da Acesita, Usiminas, daquela região toda desce 200 metros até o mar. Quer dizer, mas essa distância de lá até o mar é 10 vezes maior do que daqui até Itabira. Então é um negócio assim, perfil seria isso, pra descida é maior, por isso que a tração quíntupla numa estrada de ferro hoje eles descem com os vagões carregados com cinco máquinas por causa da frenagem. Para frear é aquele impacto porque os vagões são de 70, 80 toneladas de minério, com cento e tantos vagões é uma estupidez, né, então aquilo, os vagões vão freando até chegar em Ipatinga, daí pode liberar umas duas ou três máquinas para levar até o Porto de Tubarão, né, mas aquela lá é danada, sabe? Mas então tem o Mister Gordon que é um remanescente muito interessante, porque eu conheci lá em Itabira o cemitério dos ingleses, Fernando, vocês devem perguntar a ele, ele deve se lembrar, ele é um menino criado em Itabira, ele vai contar algo sobre o mister ________, um inglês famoso... e por esse Gordon eu imaginei o que é que foram os ingleses no passado, e esse _________ ficou viúvo e pegou a empregada e enfeitou a empregada com as roupas todas da mulher e acabou vivendo com a empregada. Quer dizer, era o mister ________, quer dizer, assumiu o trono da madame que tinha morrido. Então eram tipos curiosos, esse mister Gordon me deu um susto, um menino de 22 anos chega na empresa assim, primeiro emprego assim fora e eu ansioso, né, primeiro dia ele me pega num Ford 29, mandou me buscar pra jantar e tomou o maior pileque que eu já vi na minha vida. Quer dizer, o homem bebia pra caramba e a Dona Clotilde, era uma paulista de Campinas, uma simpatia, uma finura, e aquele inglês debochado, mas na frente dela ele contava as coisas mais escandalosas, das empregadas que ele teve, era um negócio que para mim era um choque na minha vida: “Aonde que eu vim parar?”, e começar uma vida na engenharia, conhecer um tipo daquele, bom  demais, depois convivi demais com ele, e logo depois, uns dois ou três meses ele foi embora não sei para onde, o mister Gordon. Mas aquele choque para mim foi forte: “Aonde que eu vim parar!”, desbocado, contado as coisas da empregada, “eu tive uma empregada aqui que era muito melhor que a minha mulher....”, essas coisas de inglês, um pouco de porre, né? Mas é uma lembrança muito boa, eu trouxe a fotografia dele porque é genial, isso deve constar porque pouca gente sabe da existência desse homem. Era o homem que estava na Vale do Rio Doce e que eu fui chegar lá, não como substituto, porque já existia lá, eu conheci lá um pequeno escritório da Companhia, tinha umas quatro ou cinco pessoas, devem perguntar, até a Fernanda é capaz de saber mais do que eu, um engenheiro chamado Eduardo Carlos _______. Filho de inglês que morreu em Petrópolis. Um rapaz de muito valor, mas muito valor mesmo. Foi meu apoio, um engenheiro recém formado que não aprende tudo na escola, né, tem que aprender na vida mesmo e me dei muito bem com ele porque eu como bom desenhista, primeira coisa que eu fui fazer foi um desenho da topografia do Cauê, quer dizer, o Aeroporto, que o doutor Israel estava preocupado com a construção do aeroporto e imediatamente... então eu me vanglorio de ter escolhido a posição do aeroporto de Itabira, foi muita sorte, porque foi no meio de uma carrapatada danada que nós fomos escolher o lugar e eu posicionei aqui porque lá é tudo morro. Para arranjar 800 metros para fazer uma pista seria muito difícil porque você sabe que aeroporto não pode ter rampas laterais, não pode ser em corte, né, tem que ter o mais possível, então o aeroporto eu cheguei num lugar: “Planta uma bandeira aqui...um aparelho aqui...abre uma picada pra lá, picada pra cá...”, aí nós marcamos a pista e foi aquela pista que foi até hoje. Depois desmancharam o aeroporto, puseram lá umas oficinas e... mais eu tenho essa vaidade de dizer que quem marcou o aeroporto de Itabira foi eu, da Vale do Rio Doce, e esse aeroporto eu cheguei a falar sobre a construção dele que era prioritário porque o Israel era um sujeito formidável, uma grande visão, né, um homem que diziam, esse Peri França, que era piloto dele e outras pessoas que conviviam com ele, como esse que eu vou falar, o Jaques Guimarães que falou aquelas quatro frases da vida, ele disse que a gente tem que ouvir e trancar, porque amanhã ele muda. Quer dizer, ele é tão fértil de imaginação, criativo, quer dizer, que ele não tinha, você estudava um negócio hoje, ele sempre sonhava mais alto ainda, sempre, sempre. Aí Brasília se deve a Juscelino, mas muito mais a Israel Pinheiro que ele era peitudo mesmo, ele numa entrevista teve coragem de dizer na televisão em Minas Gerais o seguinte: “Todo mundo fala que rouba em Itabira. O caminhão entra por uma porta com cimento, sai, e volta com o mesmo saco de cimento pela mesma porta. Se acontece isso, é bem possível que isso aconteça. Mas a senhora na sua casa se for olhar a sua empregada se ela está levando um pouquinho de café ou um saquinho de farinha, ou a batata ou o feijão a senhora não toma conta dos seus filhos, da sua casa.” Quer dizer, administrar Brasília seria inevitável uma orgia de gastos, né, ele quis dizer isso, não podia parar pelas pequenas coisas que era um caminhão desviado por uma empreiteira sem vergonha ou desonesta, né, então era uma expressão dele. Ele tinha a missão de coisas grandes, então Brasília construí-se porque Juscelino deu força para Israel Pinheiro. E Vale do Rio Doce deve a Israel Pinheiro, sem dúvida. Agora, eu contei o caso do aeroporto porque naquela época começava a aparecer os ________. Quer dizer, os ________ são ___________ aquele computador ___________, sabe? E nós conhecíamos eram as carrocinhas, aqueles burros sábios, porque o burro sai daqui, é muito interessante aquilo, você jogava e pá, é que não tem ninguém da época da carrocinha, você enchia uma carroça de terra Pá, pá, pá, pá, e batia assim pi, pi, o burrinho já sabia o que tinha que fazer. Ele saia com aquela carroça, ia lá na ponta do aterro, manobrava, dava ré, aí virava a carroça, o sujeito ia lá pi, pi, e lá vinha ele de novo, era fantástico! As obras daquele tempo das carrocinhas. Os construtores antigos de estradas devem lembrar muito disso. E o doutor Israel estava lá com as carrocinhas, fazendo lá o aeroporto daqui a pouco ele chegava lá e uma chuva danada tinha que ser com carroça. Aí um sol danado, falei: “Porque que, porque que não pôs o scraper aqui? Não, para esse cachorro, para com essas carroças aqui. Busca, busca, busca.” (riso) Vinha trator, aí começava, aí eu tinha que correr para medir aquele serviço, aquela altura, porque entrava a máquina arrancando terra para todo lado. Daqui a pouco, paravam as máquinas, lá voltava a carrocinha. E ele no rádio do Rio de Janeiro e xingando, mas por sorte, eu só chegava lá dava sorte. Eu não via a chuva, então ele xingava porque as obras estavam demoradas. Mas ele era uma estrela, chegava lá o sol. (riso) Bom, fizemos aeroportos, fizemos o levantamento do Cauê, eu não sei onde está, isto que eu digo, a história. O marco de triangulação lá no pico do Cauê. Esse marco deveria ser guardado, marco que a minha pessoa, a minha figura, um engenheiro da Companhia, outros que já passaram lá, presidentes tudo, mas aquele marco contaria uma história. Porque não existe mais o Cauê. O Cauê está lá, era 1363 metros, dizem, me impedem até que eu vá lá que eu posso morrer de choque, que o que tinha assim, esse é até um fato que eu quero detalhar mais. Porque que o que eu tinha acima de 1100, quer dizer 1263 metros, 160 metros, que tem para baixo de 1100. Então tem um buraco enorme lá. Quer dizer, o Cauê já se deu pelo Brasil. Então, veja bem, aquele marco que eu construí lá no pico do Cauê virgem, pessoas como o embaixador da Áustria que eu acompanhei lá um dia, ele beijava aquilo. Aquela pedra virgem no alto do morro, falei: “Isso é uma riqueza fantástica.” Quer dizer, então aquele marco, aquele marco, a história dele é famosa, porque lá no alto do Cauê nós tínhamos acampamento aqui na cota 800 mais ou menos, 780 para ser... e para chegar 1360, 1363 no Cauê, e quebrados. Nós íamos de burro, não tinha estrada naquele tempo para ir. E lá nós vamos assim mesmo. E outra hora acabou a água e nós tínhamos que urinar para poder fazer o concreto. (risos) Para chumbar aquele tubo. Então é essa história famosa de um marco de triangulação do Cauê, quer dizer, um marco que ligava com outros pontos geodésicos da região, era o morro, morro, Cauê era parente de toda região. Esse marco aí eu consegui trazer para o escritório do Campestre, deixei lá na porta assim. Eu gostaria de saber onde é que está aquilo, porque é uma coisa fantástica de recordações, né, porque aquilo é como eu digo no meu livro aí eu faço barracão. Quando fizeram o escritório novo eu comento sobre o barracão. Mas vamos continuando. Itabira...

 

P/1 – Doutor Carlos, quando o senhor chegou em Itabira, a Vale, vocês estavam construindo a Vale? Porque não havia nada?

 

R – Não, não, não acreditavam em Companhia Vale do Rio Doce. Debochavam: “Essa é mais uma aventura, mais uma enganação. Essa que é a verdade.” O pessoal de Itabira, o doutor Pedro Rosa lá, médico famoso lá, ele dizia para mim: “Isso é uma balela. Já estamos cansado de engodo doutor. Isso aí é para enganar, isso aí não sei o que.” Aí o Bernardes, o Bernardes foi um sujeito, presidente Artur Bernardes, ele defendeu muito a Itabira Iron, ele não queria que os ingleses… Defendeu Itabira não, defendeu o minério brasileiro, tirou das mãos dos ingleses. Conseguiu o caso Itabira, te mostrei ou está com você. Está com você, não? Eu tenho um livro sobre o caso, sobre as brigas no Senado tal, sobre Itabira Iron. Que os ingleses, veja bem... Itabira, você entrava numa mina aberta lá, esbarrava com um portão de aço lá no fundo. E eu que fazia a topografia da região lá e estava fazendo os trabalhos de locações e eu consegui esses mapas. São histórias, se tivesse isso ainda aí. Eu quando saí de Itabira deixei lá tudo isso, tinha lá escrito em inglês: “Very rich”, ouro, não era de minério de ferro. A Itabira Iron estava estudando, justificando o minério de ferro, mas ela estava especificando o ouro que tinha na jazida. A mina 6 norte, eu conheci a mina 6, um dia eu entrei na mina 6 e fui, os operários foram abrindo, abrindo, onde é que vai sair isso? Aí nós vimos que era a linha norte-sul. Tinha a mina 6 norte e a mina 6 sul saía lá do outro lado do Cauê. Quer dizer, aquelas galerias todas com observações nos mapas sobre a qualidade do minério de ouro. A Jacutinga aurífera onde foram instalados os britadores, onde foram instalados os britadores, essa Jacutinga deve ter uma porcentagem talvez de umas duas gramas por tonelada, deve ter qualquer coisa de ouro mesmo. Doutor Israel Pinheiro quando queria, quando foi levar lá o ministro Souza Costa que era ministro da fazenda, como presidente do Eximbank americano. O Eximbank americano é o Banco do Brasil americano, Eximbank. Mister Warren Pearce, me lembro bem. Ele falou para nós o seguinte: “Arranja uns candangos aí, umas bateias, vocês vão bateando, que eu quero oferecer para os dois, cada um, um martelinho de ouro com cabo de jacarandá que eu quero tirar daqui das jazidas da região de Itabira.” Ele era um cara formidável. O jacarandá não, mas o ouro nós precisamos inteirar, né? Porque, mas se bateava ouro e tirava ouro, aquelas bateias, tal, quer dizer, nesse minério, itabirita, o que eles tiravam lá, o que tiraram ninguém sabe. O fato é que anos depois, muitos anos depois, a imprensa noticiou e eu fiquei até preocupado, será que fui eu que soltei essa? Porque um geólogo boliviano que trabalhava comigo um dia me chamou no canto e falou: “Eu se vou falar isso, eles vão me expulsar da Companhia, mas o japonês está levando o minério de ferro como subproduto. Porque eu já encontrei além do ouro, da prata, da platina, vanádio e tório.” São os minérios mais importantes que havia na época atômica que começou a se desenvolver no Brasil. Vanádio e tório, para essas ogivas o minério famoso. Quer dizer, está tudo nesse nosso minério. E aí tem um caso, eu não sei se eu estou perdendo o caminho, mas vai, depois vocês põe na ordem, porque tem que voltar atrás um pouco. Porque a Vale do Rio Doce não sei, eu vou explicar isso. Quando eu cheguei lá o minério que se tirava era o minério dos afloramentos… Por isso que eu digo, falta um mapa para rabiscar, para desenhar isso tudo, eram os minérios aflorados de rolamento. Significa o seguinte, o Cauê com as intempéries, com chuvas, raios, ventanias, deslocavam pedras e ela saía rolando, vai quebrando, vai quebrando, vai quebrando, igual ao cascalho do diamante também, lá em Diamantina é isso mesmo, a mesma história. Então, lá embaixo ficavam aqueles amontoados de rolamentos, e é minério super puro, porque veio lavado, veio da sílica que tinha qualquer coisa ali ele soltava aquele minério, então estava aquela... Então, essa Companhia quando eu cheguei lá, eles tiravam esse minério, mulheres trabalhavam, meninos quebravam pedra, enchiam o caminhão e levavam lá para Oliveira Castro na estrada que estava subindo. Não sei como era exportado isso, como era vendido, mas esse minério descia. E por muito tempo a Vale do Rio Doce teve essa, essa fase de, a política entrou no meio, cara de prestígio pedia ao Juscelino, naquele tempo era, uma frente de minério. Porque nós estávamos começando a trabalhar na implantação da maquinaria, os britadores, peneiras, correias transportadoras, mas o Israel nunca admitiu parar, então tinha que produzir. Então, as frentes, o cara você pedia lá ele chegava lá, contratava dez, vinte homens, tornava e tirava minério e enchia o caminhão e pesava o seu caminhão e você se vira, entendeu?

 

P/1 - Isso pela Vale?

 

R – Tudo para a Vale do Rio Doce ela encaminhava aqui. Tinha um serviço de química muito rigoroso para separar as frentes, porque tinha uma frente bonito o minério mas não podia, mas não podia porque tinha muito fósforo, a sílica também é muito grande. Então separava, e as frentes de minério começaram. Enquanto isso nós estávamos estudando os projetos feitos pela Parsons Clark Brigndof & Douglas, uma firma americana que na constituição da Vale ela participou oferecendo todos os projetos. Projetos que hoje, eu sinceramente, quer dizer, muito criticáveis. Eu tive fases durante a construção, quer dizer, Meu Deus do Céu, eu era engenheiro novo mas eu nunca faria isso. O fino de minério vinha lá do fundo, você tinha que bombear, não sei o que, quando chegava tinha uma manilha de 40. Aí, um desses americanos mudando o projeto comigo também, falou assim: “Isso é um absurdo, isso é errado. Porque quem trabalha em mineração sabe que qualquer drenagem a região toda deve ser visitável.” Quer dizer, tem que ter uma manilha de 80, 60 para passar o meninozinho para poder limpar, etc. E lá tinha manilha de 40 séries, então entupia aquilo lá. Erros crassos, né? E inclusive o erro principal, que é o topo do minério 1363, o primeiro projeto foi fazer uma grande esplanada no 1200 e dali viria uma correia transportadora, se estudava a estrada de ferro, a estrada de ferro chegaria lá. Era o schultz, o mikas, vários processos até que chegou-se a correia transportadora. Foi a primeira correia transportadora implantada no Brasil, de 36 polegadas de diâmetro.

 

P/1 – Em 1942 isso ainda?

 

R – Ãn?

 

P/1 – Em 1942 ainda?

 

R – Em 1947, 1946, foi lá em 1947. O projeto ficou pronto, né? Firma Christian-Nielsen foi trabalhar lá, muito conceituada e tal. O projeto era 1200, quando chegou o americano lá, este mister Gliden (?) junto com o mister Whitehead, cabeça branca, white head, eles mudaram todo o projeto. Aí, houve uma consciência, consciência razoável, mas porque esses pensavam, uns dos poucos, que aquele minério lá de 1200 para cima, quem vê hoje o buraco que existe lá, que eu não vou ver, de 1200 a 1363, tiram uns 100 e tantos metros daquele filet mignon que estava aparente, que era uma falha, né, um pico, isso aí se espalhava mais ou menos na altura dos 1000 e tantos metros. E eles baixaram a corda das instalações de 1200 para 1100. Que hoje está provado que podia ter descido mais, porque hoje estão tirando, estão subindo para ir no britador a 1100. Quer dizer, estão tirando de menos de 1000 metros, o minério para subir para dentro da Vale. Eu não tenho assistido lá, eu tenho uma sobrinha que mora lá me falou: “Vai lá e leva lá aquele negócio por debaixo da língua, que se o senhor for ver, pelo seu entusiasmo pela Companhia, seu entusiasmo pelo que o senhor construiu lá, o senhor vai morrer e cair dentro do buraco, porque o que tinha de 1100 para cima, assim direito eu não posso confirmar, tem de 1100 para baixo.” Quer dizer, 163 metros ainda tem um buraco lá de 100 e tantos metros que estão tirando minério. Aliás minério hoje, a hematita compacta é relativamente pouca porque já caiu no itabirito, quer dizer, tiraram o filet mignon mesmo. Venderam, aí eu falo de bosta, venderam uma Companhia feita, integrada por um preço. E o Fernando deve ter trazido o artigo que ele escreveu, esse menino, sem nenhuma capacidade, porque ele não é engenheiro, não é advogado nem nada, mas ele escreveu uma coisa quando se falou na privatização da Vale, ele falou: “Esses valores devem estar tudo errados, porque o que tem de minério, o que tem isso, o que tem, o que tem o potencial da Vale foi vendido barato realmente.” Mas isso não vem ao caso quem está patrocinando são os atuais donos da Vale. (riso) E estão de parabéns porque compraram o negócio bem. Mas então, tiraram esse rolamento, mas aí vem o fato curioso, porque não chega, tecnologia avançada, mudaram o minério de meia polegada a três, veja bem, nós tínhamos os nossos silos, as nossas peneiras, separáveis de meia polegada abaixo era problema. De meia polegada para baixo era o doutor Carlos que resolvia onde é, eu tinha um trabalho de contenção de finos, que meia para baixo era fino. E eu ó, suava para resolver o problema do fino, eu fui o maior criminoso, se hoje tivesse IBAMA eles me degolariam, porque eu faria aquelas bicas para jogar o minério, para o fino ir embora. Porque senão, não tinha área mais para trabalhar. Então eu escoava aquilo pelas grotas, nós temos minério, vestígios de minério de ferro, lá no rio Doce a 100 quilômetros abaixo de Itabira que a água levou. E veja bem, se eu seria degolado pelo IBAMA, seria endeusado pela Vale do Rio Doce, porque todo aquele minério que foi jogado e eu facilitei o escoamento, a Vale depois comprou as fazendas, porque não adiantava brigar e desapropriar, porque estava tudo tomado por minério, a vale comprava por preço barato já, porque o cara tinha perdido tudo, comprou a fazenda e tirava o minério mais puro do mundo que eram aqueles finos depositados. Eu vi fazenda lá com seis metros de altura com aquelas calhas, aqueles grotões cheios de minério.

 

P/1 – Que eram rejeitos do...?

 

R – Quer era o rejeito das primeiras alterações do minério, que era de meia para cima. Abaixo de meia fica na ordem de 40%, quer dizer, para tirar 100 toneladas de minério eu jogava fora 100 toneladas de fino. E esse fino depois os japoneses, aí diz o boliviano para mim, que já pegavam o negócio mastigado, porque o fino, o fino já veio lavado, tirava muita sílica, tirava muita coisa e, então já mudou a tecnologia dos autofornos, em vez de trabalhar com minério granulado... até oito polegadas nós tínhamos, tinha peneira de oito polegadas, de meia a três e de três a oito. E depois tudo foi abolido, começou a trabalhar de meia para baixo classificada em mex, é uma medida de, é coisa finíssima. É que partiu-se então, veja bem, o minério de ferro existe um negócio que é o veneno, que é o fósforo. O veneno do aço é o fósforo que contém no minério de ferro. E o minério de Itabira a porcentagem de fósforo, os norte americanos exigissem muito então chegou-se a  um consenso que o minério era aceitável, mas precisava ter cuidado, porque tinha umas regiões no coisa que subia muito a ocorrência do fósforo. Precisava reduzir isso, tirar isso do minério, então o que é que aconteceu? Os americanos, os japoneses, japoneses, americanos... (riso) Essa máfia, esse pessoal resolveu mudar todo o sistema, a parte de, por exemplo, a granulometria era para fazer a tal oxigenização na hora do forno. Mas por outro lado eles arranjaram outras formas que eu não estudei isso, na tecnologia da fundição e partiram para o fino. Primeira coisa também, que o fino era o minério, vamos dizer, você comprava o minério com um tanto de sílica, tanto de fósforo, tanto de, 67,9% de máximo, 70% diólico da hematita que o minério mais rico de ferro. Mas a hematita compacta dava 68, 67, quase 70%. Aí tínhamos outras coisas, tinha sílica, tinha fósforo, tinha cálcio, aquela análise química tem um punhado de coisa. Se você pega uma frente hoje você vai trabalhar em uma usina com aquele minério, quando chega um outro minério, um outro navio que chega, o minério já não tem a mesma característica. Então, na hora da fusão cria problema no forno. Quem vai fazer um bolo, você põe muita farinha de trigo, ele não estufa, fica manteiga demais ele esborracha, é igual fazer um bolo caseiro. Daí partiu-se para a sinterização. Quer dizer, pegaram do japonês, o minério fino, quer dizer quando, primeiro tiveram, teve uma, eles queimavam, mineiro usava muito minério da, esqueço o nome, mas depois... o sínter, o sínter que é o, todas a companhias da Belgo-Mineira, todo o mundo trabalha hoje com o sínter. Significa o seguinte, é uma argila, pega o pó de  minério e forma umas pelotas, pellets, pellets feed que chama, o minério em pelotas. Essas pelotas foi a salvação dos grandes fornos porque elas já são produzidas com teor. Então, ela entra no forno, seu forno será o mesmo forno permanentemente que o produto vem com a mesma característica, não vem, hoje o minério mais rico, o minério mais pobre que vai ter que esquentar mais, ter que esfriar mais. Então daí partiu-se para a pelotização foi a razão deste minério de meia polegada, para cima passar de meia polegada, para baixo classificar. E, como dizia o meu amigo, era mais vantagem fazer a separação lá dos materiais mais nobres que o minério possuía lá no Japão, e o ferrinho ficava lá guardado. (riso) Eles exportaram muito pó de minério para o Japão, agora eu tenho impressão que é tudo pellets, mas naquele tempo, e saiu no jornal um negócio desses, que o Brasil estava exportando ouro, vanádio no meio de minério. E eu me penitenciava: “Será que fui eu que falei demais?” Porque eu falo muito, né: “Falei demais e alguém pegou por isso saíram em alguns jornais essa coisa, uma onda contra a Companhia.” A Companhia desmentiu, mas em outras palavras o seguinte, seria uma tecnologia muito avançada você pegar o minério e fazer uma usina para tirar o tório, outra usina para separar o vanádio, outra para tirar o ouro, outra, só os japoneses mesmo que podia fazer isso, né? Porque tinha planos para isso. E falou-se isso, quer dizer, estava se exportando minério de ferro como subproduto, porque tiravam coisas mais nobres que o minério. Em quantidade ínfima, mas, milhões e milhões de toneladas que são exportadas, né? Mas veja bem, Vale do Rio Doce, eu, aí vem aquela história, Itabira eu achei a minha família lá, fui morar perto da estrada de ferro, nascia filho adoidado, porque diz que uma curva apertada, cantava a roda e eu acordava, não tinha televisão, né, brincam muito comigo, criava-se família, que eu tenho sete filhos, né? E o lazer? Aí, entra o doutor Carlos, eu costumo dizer que o tempo que eu convivi na Companhia nunca se falava em comunismo. É, essas coisas todas, PT, PTB que eu era PTB, getulista ferrenho. PT hoje, eu fico triste quando eu digo para os meus filhos, meus netos, que nós seríamos um país formidável depois do Getúlio, se não tivesse Brizola e Ivete Vargas brigado. Porque os dois, quando morreu Getúlio, quer dizer estava com o campo aberto para ser o maior partido do Brasil o PTB, e os dois vão brigar. Criaram toda a força que o operário tinha conseguido e estava conseguindo, quer dizer, não é operário, desnível social. Que eu sempre fui muito contra essa, rico ganhar cada vez mais, e o outro cada vez mais para baixo. Então, com a queda do PTB, criaram o PDT do Brizola e a Ivete Vargas com quem eu convivi demais. Estou falando porque eu adorava aquela mulher. Adorava porque eu sentia nela, ela, uma fase da minha vida que eu convivi com ela em Brasília, eu montei um apartamento para ela lá, uma mulher de valor, muito peito, atrevida. Devia ter um, vocês mulheres hoje que estão vencendo na vida deviam fazer uma homenagem à Ivete Vargas, porque naquele tempo era raro uma mulher pegar o Ulysses Guimarães e dá-lhe uma chapoletada. Pegar aqueles ministros e xingava mesmo, eu ouvi nomes horrorosos, era uma boca suja que ela tinha, né, mas ela xingava todo o mundo. Então, essa que é a história. Itabira eu fico satisfeito do meu tempo que tive lá nunca houve isso. Porque? Eu montei um cinema bom, criei uma SA, uma Cine Teatral, com uma cinema de primeira categoria, quer dizer, banda de música estava ruim, eu fui presidente lá uma época da banda de música Santa Cecília, eu fazia  a festa lá para o pessoal. Fui presidente do Valeriodoce, o Valeriodoce, fui do sindicato, sindicato eu era o intermediário entre os operários, entre o sindicato e a Companhia e nunca houve briga, porque eu sabia onde é que se podiam chegar, não adianta querer mais, então isso, é o patrão, é aquilo. Então, esse é que é o vídeo que vocês vão ouvir. Mas, a minha função… A parte técnica essa não tem nem dúvida porque eu fui infeliz, porque um engenheiro civil que construía gastava em uma empresa que vende minério, ele leva ferro, quer dizer ele faz apartamento , porque o engenheiro civil sofre, a empresa, por exemplo, eu levei para lá um engenheirinho novo, menino, engenheiro de minas, chegou lá, deixou um cartaz, deixou tocar lá para baixo, quer dizer, porque? Porque ele produzia, saía tudo mais de tonelagem, e ele só fazia despesa, porque fazia, construía queria, gastava concreto armado, gastava ferro, pedreiro. Então, o engenheiro civil em uma empresa produtora de minério leva ferro. E eu sofri essa vida, sofri mas com tranquilidade, sempre muito respeitado. Então, Itabira para mim era, e outra coisa importante de Itabira, que também você vai ouvir no vídeo, é que chamavam os novatos que chegavam em Itabira de pára-quedista, porque tinha a Serra da Piedade que divide aquela região de Belo Horizonte, então agora vocês pularam por cima de pára-quedas, e chegaram aqui, porque o povo não queria. Chegava gente boa e chegava gente ruim, né? E eu fiz aquela aproximação da cidade com o povo. Fiz a aproximação, não sei seu eu já posso entrar nesse assunto mas quero soltar logo, estou falando de política.

 

P/2 – Da cidade, dos itabiranos, com a Companhia?

 

R – É. Porque o itabirano reagia com aquele povo, você está com os caras mascarados, está dono do mundo, não é igual ao americano aqui no Brasil, pensa que é dono. É assim chega os bobocas lá. Que era tudo afilhado, chegava e mandava chegava o sujeito lá com: “Aqui é o?” “Não sei.” Mandava para cá, aí tinha que arrumar serviço para aquele camarada, muito estrangeiro, muita coisa. Tem passagens curiosas, mas o, e eu fui o único que me aproximei da cidade, me aproximei tanto que certa ocasião, talvez volte atrás sobre outros assuntos, falando em política, 1950, Getúlio voltava ao poder, vocês ouviram falar da época do peleguismo, pelego. Pelego e outros apelidos mais pejorativos para os trabalhadores fajutos, sem vergonha, esses líderes, entre aspas, né, que se aproveitam, hoje tem, eu sei que aqui no Rio de Janeiro tem vereador que não vale um tostão de mel coado. Se fez, né? O bobão, os bobos vão atrás. Então, eu notei logo isso... 

 

[pausa]

 

R - O homem, o homem tem que ser político alguma vez na vida. Eu não era muito político não, mas talvez no meu, sem saber alguma coisa, meu pai foi político no Amazonas, foi deputado estadual, e eu nunca procurei em Itabira, mantive a técnica e a parte social da Companhia, procurava evitar a política. Mas ela sem querer vem. Então...

 

P/1 – Seu Carlos, deixa eu perguntar uma coisa, essa parte social da Companhia já estava desde o comecinho já tinha toda essa atuação de hospital e construir coisas em Itabira, não?

 

R – A minha parte social?

 

P/1 – A parte social, é.

 

R – É questão, questão de nascença, acho que eu gostava de mexer, quando eu cheguei em Itabira falei logo: “Cinema.” “Não tem.” “Então vamos fazer o cinema.” Quer dizer, é o clube da aula de inglês, saiu de lá a turma que fazia o curso de inglês lá, vamos fazer assim, _________. Eu sempre fui muito realizador, eu fiz rinha de galo no tempo que o Jânio proibia, e ganhei um galo. (riso) E essa piada de galo, o cara que fizeram, o dia começou fizeram um torneio, eles faziam, eu dava autorização. Esse ____ é muito importante, dá um jeito, pápápápá, um cara _________________. “Como é que vai fazer doutor Carlos?” Eu falei: “Eu não sei.” Eu  _____ doutor Carlos e o cara gravou, como quem diz, dá uma mexidinha que sai, né? Então, eles fizeram um torneio lá e eu não sabia. Chegou, chegou avião por toda hora lá, desceu, com aquelas caçambinhas com a cabecinha do galo de fora, contei isso para vocês, né? Aí fizemos um torneio de galo lá, em pleno Jânio Quadros. E o torneio de galo lá e os galos brigando e fizeram uma festa no final, e o cara fez discurso também, eu agradeci, aquele negócio todo. Torneio do galo, aí me deu um galo campeão. Eu falei: “O que é que eu vou fazer com esse galo, meu Deus do Céu?” Mas tinha um menino meu lá que gostava muito, trabalhava no clube, eu falei: “Ô 109.” Ele tinha 109, gostava muito de 109 jogando no Fluminense aqui, lá de Caxambú. “109, o galo para mim só na empadinha. 109 você se vira com esse galo, vai guardar esse galo, deixa o moço ir embora aí, que eu vou dar para você e tal.” Mas então, eu sempre fui ligado nessas coisas. Itabira o povo gostava de mim, sinceramente, até hoje. Eu sou cidadão honorário de Itabira, e hospital da cidade eu roubava da Companhia, modo de dizer, meu trabalho, eu ajudava a construir o hospital do município e não recebia um tostão. Sou cidadão, e o prefeito, a comenda lá do hospital, trouxe até a comenda do Hospital Nossa Senhora de Lourdes. Quer dizer, eu fui um homem muito ligado, a liberdade com as mulheres, com os padres, a gente jogava truco na casa dos padres, quer dizer, isso tudo é convivência, né, coisa que os outros não faziam. Os outros, os americanos, me lembro bem, os americanos importavam papel higiênico, quer dizer, é cretinos, importar papel higiênico florido é coisa. O outro só tomava suco que vinha dos Estados Unidos, é filme tinha que ver, era tudo, aquela dentro da cidade ele não gostava desse pessoal. Então, eu lembrei com Claudia que eu, funcionário da Companhia Vale do Rio Doce, alto funcionário, responsável por um grande poder dentro da Companhia, dentro de Itabira, mas Itabira precisou de mim certa ocasião em um Congresso de Municípios e prepararam os textos de projetos.... 


[continuação da entrevista]

 

P/1 - Então, senhor Carlos, o senhor não quer comentar um pouco as consequências da participação do senhor no Congresso?

 

R - Um fato curioso deu-se pela cidade. Como Itabira, com o predomínio da Vale do Rio Doce... porque realizou-se naquela época um Congresso de município fantástico, muito brilhante, que ia ser realizado no Rio de Janeiro, e o presidente da Câmara lá era (Daniel Brizolia?), rapaz muito... tomava umas e outras, e tal, mas era um sujeito muito bacana, sabe, inteligente, mas meio desorientado. Então ele falou: “Doutor Carlos, o senhor precisa de me ajudar nessa… E fazer parte da comissão que vai representando Itabira.” Eu falei: “Não, perfeitamente, vai ser maravilhoso.” Naquele tempo a Vale era eu dentro de Itabira. Tinha uns americanos, que estavam lá, iam passando, mas quem lidava com aquelas coisas mesmo era eu. Fui diretor administrativo lá, fui diretor de toda a engenharia. Então não tinha ninguém, talvez a presidência depois. Se isso teve reflexo eu não sei. Mas eu falei: “Perfeitamente.” Porque eu vivia em Itabira e achava que Itabira também tinha que ter uma participação por parte da Vale, tinha que ter um melhor tratamento. E nós fomos para esse Congresso. Esse Congresso... Nós tínhamos por Itabira um editor, um senhor chamado Idemburgo. Ele escrevia muito bem, ele fez várias leis, projetos de leis, que foram apresentadas neste Congresso dos municípios. Foi fantástico, muito perfeito, importante, Ribeirão Preto, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, um negócio muito bom aqui no Rio de Janeiro. No final até quero dizer a opinião do Aguiomar Balieiro, um político baiano da época. Mas então vamos para o Rio de Janeiro. O slogan, ou melhor, na capa do trabalho de Itabira era assim: “Itabira: município que mais divisas traz para o Brasil e o mais espoliado da república”. Então quando eu vi o documento, eu falei: “Que fria! Eu estou entrando num negócio...” Espoliado por quem? Pela Vale do Rio Doce, mas não era pela Vale, era pelo governo federal, pelo seu sistema de remunerar a Vale, o imposto. Então a Vale pagava o imposto e... se não me engano era 70, 30 e 10: 70 ficava para o governo federal, 30% ficava para o Estado e 10% era do município. Então neste trabalho contam vários projetos em que pedia reformular esse sistema de reembolso, de beneficiar Itabira para melhoria de situação da cidade. E aquilo foi um espetáculo. No final deu em pizza, como se diz hoje, deram uma festa muito bonita. Por isso que eu queria falar sobre o Aguiomar Balieiro. Itabira brilhou, porque esse rapaz, presidente da Câmara, eu me lembro muito bem de uma passagem... na festa de encerramento do Congresso, naquela festa final, quando oradores brilhantes apareceram lá, nós todos corremos para entrar no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Chegando lá estava tudo fechado ainda. Quando eu olho lá dentro das grades do portão do Teatro Municipal, já estava o senhor (Daniel Brizolia?) lá. Ele era muito entrão, sabe? E ele tinha sumido, nós estávamos pensando que estava tomando algumas, sabe? Então ele estava lá dentro já. E vejam que interessante: e nós todos aflitos para entrar, quando nós fomos entrando, ele falou: “Calma, calma, já está tudo arrumado.” Então ele pôs em cada banco de todo o Teatro Municipal um folheto sobre Itabira. Quer dizer, ela ficou conhecida maravilhosamente nesse Congresso. E o mais interessante: a primeira fileira de poltronas ele pôs lá um bruto de um papel assim: “reservado para a polícia”. (risos) E essa polícia era nós. Quer dizer, reservou, rapaz! Quer dizer, a ingenuidade dos vereadores, prefeitos. Ia sentar naquilo não era polícia coisa nenhuma! Mas aquela faixa toda estava reservada para a polícia. E quando nós chegamos, nós: “Onde é que estamos... olha aqui, olha: pode sentar.” (riso) Sentamos na primeira fileira. Mas, para terminar, o Congresso foi muito bonito e, como eu dizia, esse mesmo vereador, desde aquela época, um dos mais famosos deputados representando a Bahia, que era Aguiomar Balieiro, ele dizia, com a sua verve, dizia assim: “Que maravilha o encontro de um vereador do Acre com um do Mato Grosso, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. Espetáculo o encontro do prefeito de Manaus com o prefeito de Porto Alegre, prefeito do Rio de Janeiro. Quer dizer, esses encontros maravilhosos no lugar mais bonito do Brasil, que é o Rio de Janeiro. Então, os senhores aqui hoje viram as mulheres mais bonitas do Brasil, as boates mais alegres do Brasil, os encontros mais festivos. Valeu a pena, (senhores deputados?)?” Ele disse assim: “Na volta dos senhores aos seus municípios, será que esse amor pela causa municipalista, que é a célula mater da nação, esse espírito municipalista vocês vão levando para lá? Levarão para os seus municípios? Ou quando chegar lá, certamente o prefeito, não é o partido tal e temos que conversar.” Então ele queria dizer o seguinte, que aquilo foi muito bonito, mas que não teria efeito. Como realmente esses grandes Congressos acontecem. Quer dizer, o municipalismo ainda está hoje engatinhando, cada vez mais resumindo os seus poderes pelo governo federal, depois que veio o regime militar e acabou mesmo com o município, passou a gerir tudo. Então essa a história da minha participação. Daí, gerou um fato muito curioso, que foi a campanha de Getúlio em 1950. A história deve lembrar do nome que deram nela de peleguismo. Eram indivíduos que se apresentavam como líderes, sempre mal intencionados, porque não tinham cultura, eram políticos, muito extrovertidos, mas sempre procurando o lugar ruim para pisar. Quer dizer, precisa de destruir alguém para poder ganhar a sua vitória. E Itabira naquela época, em 1950, era um grande centro, realmente, operário. E eu não permitia. Eu sou... estou falando eu, talvez seja antipático, mas não gostaria que aquele bem estar dos operários de Itabira, aquela convivência entre o sindicato... Porque eu era intermediário. Quando o sindicato queria alguma coisa, antes dele pretender alguma coisa eu já estava arranjando um posicionamento que meus chefes já teriam concordado. Então arranjava uma forma, nunca teve briga, era um ambiente formidável entre o sindicato e a empresa. E nós tínhamos um clube, a Valeriodoce Esporte Clube, que fazia a parte social, convivência com o sindicato, as festas eram sempre junto. Então tinha essa minha influência dentro do sindicato. Pois bem, um belo dia... eu era gerente também da parte de tarde, não sei se eu falei da Cine-teatral Itabira. É uma passagem muito interessante a Cine-teatral Itabira, que foi... que diziam que era Itabira numa época que... eu sempre muito liderando coisas, eu criei uma Cine-teatral Itabira S.A.. Então essa história eu vou falar depois. Eu estava no cinema, porque eu fazia o contato dos filmes na parte da tarde, saía da Vale do Rio Doce e ia para lá despachar. Estava no cinema quando vieram me chamar, que tinha lá um emissário do PTB. Falaram que numa reunião estava o presidente do PTB, eu tinha arranjado o meu amigo, doutor Campos Rosa, estava lá o presidente do PTB, o presidente do sindicato e também outras pessoas, quando essa pessoa vinha com a função de pedir uma definição sobre Itabira, que precisava de legenda do partido. E aí: “Doutor Carlos, você tem que dizer alguma coisa.” Eu falei: “Não, nós não concordamos com os elementos que estão criando problemas a Cezita, problemas a Companhia Belga-Mineira, problemas a Gorceix, Companhia... usinas metalúrgicas de Barra de Cocaia, porque eles iam para a porta do hospital e perguntavam: “Como é que estão o _____? Os médicos estão dando bom tratamento?” Então ia para a praça pública: “Ah, porque... “, aquele blá, blá, blá. Esse era o sistema dos pelegos daquela época. Nomes como... eu posso até citar: Iraci Correa Lima, Sivaldo Siqueira, Valdomiro Lobo, um cantor lá de embolada, que era candidato a deputado, e outros. Essa pessoas é que vinham a tomar a legenda do PTB para deputado estadual na época. E naquela conversa disseram: “O senhor então vai ser o nosso candidato, é o único jeito. Porque nós precisamos de legenda. Curiosamente o presidente do PSD, que o candidato era o Cristiano Machado, tinha na porta da casa dele o retrato do Getúlio Vargas, um fenômeno para quem é novo hoje, não imaginava que em 1950, com o retorno do Getúlio à campanha política... ele derrotava qualquer pessoa... então o PSD ficou jogando com o nome do Getúlio. Quer dizer, Cristiano Machado em Minas Gerais foi se cristianizado e o Getúlio foi brilhantemente eleito. E essa passagem foi muito interessante, porque em um mês e pouco eu me candidatei, comuniquei a Companhia que eu precisava de uns 15 dias de licença. Não houve objeção nenhuma, e um americano que estava lá comigo dizia assim… Porque havia aquelas coisas inteiras, aquelas brigas, fofocas, boletim na rua etc? Felizmente nunca fui atingido não porque não tinha nada de trás para limpar, para me morder ali. Mas eu dizia: “Mister Glavin, o senhor deve estar horrorizado com essas coisas.” Ele falou: “Não, eu não ouvi falar da mãe do candidato ainda.” (risos) Porque nos Estados Unidos a primeira coisa pesquisa as origens e arrasa com a família. Mas foi muito interessante a experiência, porque eu fui candidato realmente e calculei que por 4 mil votos eu estaria eleito tranquilamente e tive aproximadamente isso. Ah, nesse período houve uma confusão, era PSD, doutor Geraldo Pinheiro, imagina essa figura, um menino novo participando de uma reunião onde estava Juscelino Kubitschek, Benedito Valadares, o meu sogro, que era político lá em Belo Horizonte, Orlinto Orsini, e Israel Pinheiro. E eu no meio desses figurões. Porque eu pretendia que... O operário ia votar no Getúlio. Precisava de um candidato do Getúlio a deputado. Então, o Israel Pinheiro teria o seu voto dos operários. Então continuava a coligação PSD-PTB. E o que aconteceu? O PSD queria que o pai desse que eu me referi, (Daniel Brizolia?), estava doente, continuasse sendo candidato, e ele foi candidato, foi derrotado ele e eu. Nós dois fomos derrotados. Porque não funcionou. E foi feito naquela época, em 1950, talvez a coligação mais ridícula, mais escandalosa, que era justamente o ranço da oposição, que era a UDN, PR, os partidos do Bernardes, com o PTB, linha de Getúlio Vargas, linha de Leonel Brizola, de Ivete Vargas, que defendia a classe trabalhadora junto. E perdemos a eleição em Itabira por 61 votos, foi fantástico. Mas foi uma experiência muito boa. Daí, um fato também que se repetiu mais tarde com a presidência do coronel Juracy Magalhães, que reclamava com as coisas... O coronel Juraci era um homem... já frisei várias vezes neste depoimento... político, mas entrou para a Vale do Rio Doce para resolver um problema que era sério. Ele acabou com os comissionados lá nos Estados Unidos. O minério era vendido a 12 dólares, não sei quantos dólares, ele triplicou o minério porque alguém lá nos Estados Unidos revendia aquele minério. Então ele foi descobrindo isso, e passagens dele, por exemplo: chegou lá, o pessoal falou: “Não, mas seu minério está muito valorizado por que?” Ele falou: “Sua casimira é escocesa. E o senhor é americano, o domínio do dólar. Por que que o senhor não muda para a casimira americana?” “Porque a escocesa é melhor.” “Então eu também estou reclamando o melhor preço porque o meu minério brasileiro é o meu melhor do mundo. E não abro.” Ele pôs peito mesmo. Era um homem formidável. Então ele gerindo a Companhia Vale do Rio Doce ele precisava, e como o recurso para Itabira era muito dinheiro para uma pequena cidade daquela, e era pessimamente empregado pelos administradores da época, era uma orgia, muito dinheiro, __________.  E ele me chamou um dia: “Doutor Carlos, eu fiz uma pesquisa e descobri que o senhor é um homem que pode ser o prefeito de Itabira.” Eu era muito... radicado em Itabira, quer dizer, muito ligado ao povo, eu cantava no coral da Igreja, eu fui presidente de uma banda de música, eu mexia com o Valeriodoce, ligado ao sindicato, quer dizer, eu era um homem realmente diferente dos outros da Companhia que iam lá para ganhar dinheiro. Trabalhar e ganhar dinheiro, deixavam Itabira, nem interessava se Itabira começava com “h” ou com “i”, não ligavam, e eu fui muito ligado ao povo. E ele falou: “O senhor vai ser o nosso candidato.” Aquilo foi uma bomba na cidade.” E eu aceitei aquilo com prazer, falei: “Coronel, acho que é uma coisa até interessante, porque nós fazemos tanta coisa, e precisa fazer bem aqui em Itabira, realmente eu estou de acordo com o senhor.” Ele gostava de tudo muito bem feito. Ele chegou ao ponto... vocês não conhecem o Cauê. Ele chegou ao ponto de criticar a instalação da vila operária do... quer dizer, é um misto de administrador e político. Ele dizia o seguinte: que um crime fazer um alojamento de pessoal tão próximo às jazidas onde eles trabalhavam. Então ele dizia assim: “O senhor imagine, doutor, o operário sai da obra, atravessa esse vale aqui, quando chega na sua casa, vai descansar, vai para a varanda da sua casa, ele está vendo o seu serviço.” Quer dizer, é um dado muito curioso. Hoje eu faria também realmente o alojamento do pessoal, das casas, mais afastado, vendo paisagens melhores, não aquela poeira do minério que o sujeito trabalhava o dia todo naquela poeira, depois de tarde quando queria ver uma coisa melhor, enfrentava a poeira de longe, via aquele... Mas foi uma coisa de passagem, porque logo depois ele teve que voltar para o exército por questão de prazo, foi ser adido militar da embaixada em Washington, e eu não quis arriscar continuar com a minha candidatura, dependendo do doutor Francisco de Sá Lessa, que foi o presidente, era o vice-presidente, foi o que assumiu. Não quis, por... não sei, se ele me desse o apoio, porque ele daria todo o apoio da Vale do Rio Doce. Falou: “O senhor vai ser eleito tranquilamente, porque não lhe faltará nada.” Então foi essa uma passagem política da Companhia, nunca criando problema para a Vale, para a Companhia, apenas essa questão desse Congresso, que acho que houve qualquer ressentimento, assim, mas foi tudo no bom sentido. Nós queríamos alguma coisa que não era aquela. A Vale do Rio Doce não ia dar mais nem menos. Ela dava “x”. Só que ela dava “x” para o governo federal, dava para o governo estadual, sobrava o mínimo para o município. Nós queríamos que o município fosse mais bem aquinhoado.

 

P/1 - Já funcionava o fundo de desenvolvimento do Rio Doce, como é que...?

 

R - O fundo de desenvolvimento eu pensei que ia falar mais adiante, porque houve uma época... eu acho eu até já posso entrar nisso. Eu trabalhei na Vale do Rio Doce em todo sentido, até tinha uma situação muito engraçada, que eu costumo dizer para os meus colegas civis quando vão para uma empresa de produção ou de mineração, dizer assim: “Você vai entrar numa fria.” Por que o engenheiro civil só gasta. E o cara da produção ganha as metas, e vai conseguindo produzir mais, vai gerar receita, e você que vai fazer aquela instalação. Quer dizer, o engenheiro civil planta, faz casa, faz estrada, monta os britadores, monta as correias transportadoras, quer dizer, está vendo que a Companhia está apertada, acabou o dinheiro, e tem que arranjar mais dinheiro. Aí aparece... Eu contei isso a dias, na minha última estadia aqui no Rio, com um engenheiro que eu levei para lá, de produção de minério, menino criado, menino criado conhecido aqui em Diamantina, menino recém formado que eu levei para lá. Pois bem, esse rapaz ganhou dinheiro, vamos dizer, nos pesos, daqui a pouco ele estava valendo mais do que eu que já tinha um currículo na Companhia de vários anos, mas o currículo gastando dinheiro. E ele não, ele cada mês conseguia aumentar mais a produção. Depois eu quero voltar falar sobre a produção, contar um caso da Catedral fantástico. 

 

P/2 - Eu vou pedir para o senhor contar do Juraci Magalhães.

 

R - O Juraci dá um mundo... Juraci e Eliezer Batista, que depois veio a ser presidente da Companhia, há um elo profundo. Eu me lembro de um colega nosso, o Moretzsohn, certo dia nós encontramos com ele e falamos: “Nós precisamos escrever um livro sobre o Eliezer.” Por que essa coisa que passou na Companhia... agora ainda está muito surdo... mas é um nome que deve de servir de exemplo para as gerações. Não era um sujeito de cultura não, mas era muito inteligente, muito vivo. E tem o caso da Catedral que eu vou contar mais tarde. Mas então, na sequência da minha carreira na Vale do Rio Doce, também encaixo aqui a história das fases. Itabira era muito interessante porque sujeito... Então dizia lá o nosso amigo... como é que chamava ele, era... Guimarães é o sobrenome dele... era advogado. E esse advogado... doutor Israel costumava chamar ele para jogar buraco de noite. Era o bobo do rei. (riso) Era o cara que contava as anedotas, que criava ambientes alegres. E naquela época já tinha sujeito nervoso com a Companhia. Ele entrava, aí dizia assim: “Carlos, esse pessoal não entende… A Vale do Rio Doce… A gente atravessa por quatro fases na vida: a primeira fase... qualquer lugar, até no romance, no amor: você pega uma menina, acha que é a melhor do mundo. Então é a fase: você pega o emprego, fala: ‘Meu Deus, isso aqui é o que eu estava sonhando!’ Ai, que lugar bonito, eu vou trabalhar para ganhar a guerra, vamos ajudar os Estados Unidos e a Inglaterra a vencer a Alemanha. Então eu vou trabalhar. Então era a fase do entusiasmo.” Então ele dizia: “Depois vem a fase do tédio. É uma fase que o sujeito sentou, ‘não era o que eu esperava’, mas vai levando e vai vivendo aquele tédio, até que um dia ele vai começando a se influenciar por ou uma política, ou o chefe que não combinou bem com ele, ou com o encarregado da turma dele. Então ele vai começando a se entrosar mais, chega num ponto que ele perde as estribeiras, então é a fase do desespero. Nessa época ele xinga o presidente da Companhia: ‘Pode me mandar embora, que eu estou ligando para isso nada, estou precisando viver com isso aqui...’ É a fase do desespero: ‘Essa porcaria’, bravo, que não não quer, e: ‘o que que eu vim fazer nessa terra?’ e tal”. Mas nessa fase aí há um modo de acomodar. Quer dizer, ele cansou de brigar, cansou de reclamar ordenado, está todo mundo cansado. Como costumava dizer o nosso Jaques Guimarães: “O sujeito reclama do frio, reclama do calor, reclama que está chovendo, reclama que não choveu...”. E tudo era ruim para ele, então depois de tanto resmungar, ele falou: “Deixa estar para ver como é que fica.” Então, chegou uma época na Vale do Rio Doce que já estava tudo feito. As obras todas feitas, puxamos ____ , fiz a barragem de Ana Rita, com abastecimento próprio de energia. Fizemos tudo. E os filhos precisando estudar. Itabira não tinha recurso, mandamos tudo para Belo Horizonte, põe o primeiro filho, põe o segundo, dependendo de viver com alguém, com meu sogro. Apareceu uma sorte para mim, que foi da construção que a Vale do Rio Doce financiou, ligando... a rodovia ligando Itabira até a BR 262, que é para Monlevade, vai para Vitória, né? Essa estrada eram 32, 36 quilômetros _________, e que a Vale do Rio Doce doava, já com aquele negócio de fundo de desenvolvimento que nós vamos entrar nele, ela queria... pedia muito porque estatutariamente... alguém vai dizer mais certo do que eu... tinha 7% dos lucros obtidos na Vale. E esse é um assunto que eu vou entrar depois, é o fundo de desenvolvimento e melhoramento da Bacia do Rio Doce. Então talvez por causa disso, já pretendendo, antes de ter o recurso, mas querendo gastar, agradar governo, o Magalhães Pinto na época, que tinha muita força, o governo de Minas. O Doutor Lessa, Diamantina, politiqueiro, ele doou essa construção da estrada. Eu falei: “É a minha hora. Já fiz a minha parte aqui.” E a despedida fantástica em Itabira: “Doutor Carlos vai embora.” Eu tenho uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, para a Igreja, com o meu tamanho, falei: “Essa aqui vai guardar.” E depois deu uma ceia, digna que eu tive com o padre. Eu saí de lá abençoado. Muita festa, muito choro, muita coisa. Eu tinha compadre direto, eu era compadre de muita gente lá. E aí consegui... a estrada seria Itabira, mas tinha que estar de acordo... como está como BR no Departamento de Estrada de Rodagem, e os contatos maiores etc, empreiteiro, aquela coisa toda, então houve uma boa vontade, houve interesse de alguém para se ver livre de mim. Então eu saí de Itabira e definitivamente mudei para Belo Horizonte para acompanhar a construção dessa estrada. Aconteceu que... foi muito bem, um sucesso a estrada, asfaltada, bonita. Aí quando acabou a estrada, já tinha um escritório em Belo Horizonte montado, que... se não me engano nessa época já... o doutor Paulo Vieira, depois... o Eliezer já estava comandando a Vale. O Eliezer preocupado, político querendo ter cargos na diretoria, ele arranjou uma diretoria em Belo Horizonte para atender o governador Magalhães Pinto. Nessa época a turma lá era só para bater palma, né. E esse pessoal... E o Eliezer trabalhava de uma maneira a jato, com a equipe, depois chamava o diretor, fazia aquelas reuniões para assinar as atas (riso). E ele levou a Companhia para frente. Mas tinha essa diretoria em Belo Horizonte. Então eu fiquei como assessor. Fiquei como assessor, ajudava um, um contrato aqui, justamente de preço de minério: “O que que você acha?” Eu falava: “Espera aí que eu vou dar o relatório.” E esse relatório, é isso, é aquilo... E uma fase também do fundo de desenvolvimento, que era um grupo lá, que nós estudávamos os projetos. Aí talvez o meu primeiro choque na Vale. E aí tem aquela coisa, eu: “Pô, esse cara é político, mais do que funcionário de empresa.” O fundo de desenvolvimento e expansão, eles diziam: “Esse é fundo de valorização e desenvolvimento do Vale do Rio Doce ou é da Vale do Rio Doce?” Por que teve um presidente, o doutor Oscar de Oliveira, que ele dizia mesmo: “O dia que o minério acabar, nossa estrada de ferro vai ficar ociosa. Então nós precisamos criar um Vale, aqui o Vale do Rio Doce, pujante. Nós precisamos de ter indústrias boas aqui que possam manter a nossa estrada de ferro.” Pensava muito certo o doutor Oscar, porque realmente o minério acaba um dia, dizia já o nosso Magalhães Pinto: “Minério não dá duas safras.” Então teria que acabar. E a estrada de ferro ficaria ociosa. Então ele era a favor, mas também teve pouco tempo, eu não peguei ele na diretoria. Enfrentei uma campanha terrível no fundo, que eu era o assessor lá do fundo, que eu queria diversificar qualquer verba, grandes projetos, tudo com toda seriedade, porque... E nesse ponto nós tivemos um diretor do banco de desenvolvimento de minerais, que veio a ser presidente da Vale do Rio Doce. Vão ouvir falar no nome dele: Fernando Roquete Reis. Esse rapaz era de meu contato no banco para nós estudarmos, eu e a equipe dos... Tinha um moço que era superintendente do negócio do fundo, que era o Romeu Nascimento Teixeira, que ia às vezes em Belo Horizonte, de vez em quando para contatar, e nós conversávamos então com o banco, fizemos aqueles projetos. Aí veio minha primeira... meu desgosto. Porque eu entendia, no parecer do doutor Oscar de Oliveira, que realmente precisava de ter um Vale, uma estrutura no Vale... no Vale, não na Vale do Rio Doce. E eu tenho a impressão que as diretorias foram entendendo o seguinte: que o fundo de desenvolvimento era da Vale do Rio Doce, e não do Vale do Rio Doce. Isso é importantíssimo, porque aconteceram depois fatos que eu esfreguei o dedo no nariz de muita gente que me criticava como político. Eu não tinha interesse nenhum político, nunca tive, foi en passant que eu fui candidato. Agora, ficou aquela mancha de político, de politiqueiro. Mas não, eu achava que eu devia, baseado na opinião do doutor Oscar de Oliveira, diversificar as aplicações do Vale. Porque é um hospital, uma pequena fábrica de esquadria metálica, era ferroliga de Valadares, era um beneficiamento de coisas que a Vale do Rio Doce tomava as ações, teria a maioria até que a coisa se implantasse e depois cederia aquilo _______. Porque o interesse, pelo menos no meu modo de entender, era que fortalecesse a região. Então aquela estrutura que a Vale do Rio Doce abria, uma fábrica de esquadria de _______... tem até uma fotografia minha que nós fomos lá com um diretor da Vale para ver se implantava essa Companhia. Ela teria a maioria, não deixaria o negócio... não soltava a peteca na mão dos outros, e quando tivesse funcionando ela se ressarcia daquele capital, e já teria a coisa funcionando. Mas não, o que aconteceu foi exatamente o contrário. Eles não diversificaram, a não ser alguns casos depois que político entrou mesmo, era atender um fulano de tal, atender um outro lá. Mas fizeram a Docenave. Então a Vale do Rio Doce está certa, mas não é _____. Então ali é um caso. Não valorizou, nem desenvolveu o Vale do Rio Doce, desenvolveu a Vale do Rio Doce. Quer dizer, a Docenave foi uma das maiores idéias que se criou na Companhia, porque ela estava com dificuldade com frete marítimo, Petrobrás também com dificuldade de frete marítimo, então juntava as duas, fizeram os navios, misto, quer dizer, levava minério e trazia... tinha garantido minério e tinha garantido o retorno dele. Então nasceu para viver bem, para ganhar dinheiro a Docenave. E a Vale, então tirava o dinheiro do fundo, aplicou na Docenave. Aplicou na Cenibra, Celulose nipo-brasileira no Vale do Rio Doce. Quer dizer, mas massivamente. Então, eu dizia depois quando, em contato, eu fui acionista muitos anos da Docenave. Eu via as reuniões, gostava de ver, era um negócio tão bonito, e eu já afastado da Companhia, mas era o meu elo de ligação com a Vale. E eu dizia para eles: “Você imagina...” E eles apertados, porque precisavam de aumentar o capital. E quem era que podia aumentar o capital da Vale do Rio Doce? Por que a maioria era da Companhia Vale do Rio Doce, então se precisasse de qualquer capital a Vale do Rio Doce tinha que entrar com dinheiro para comprar novos navios, para melhorar os navios, dificultando dinheiro que ela precisava de aplicar na sua instalação de minério, no seu transporte ferroviário, no melhoramento do porto etc. Então o primeiro exemplo foi a Docenave. O segundo exemplo: a Cenibra, Celulose nipo-brasileira. Japonesinho lá com coisinha de nada, né? E o Brasil com aquele capital todo lá, a Vale do Rio Doce. E aí o pessoal agoniado, e o processo precisava desenvolver: “Quanto é que está plantar na floresta? Tira daqui...” Eu lembro que eu fui importar semente de Honduras, foi a melhor fibra que seria da nossa celulose, não deu certo, foi criada a Floresta Rio Doce, essas florestas que foram plantadas com a Vale. E ia precisando de capital e a Vale não tinha condições de aumentar o capital da Cenibra. Quer dizer, a participação dela era tão grande... vamos dizer: o capital de 100, 10% era de alguém, mesclado entre um e o outro. O japonês tinha não sei quanto. Aí 80% para aumentar o capital e 30% daquele desenvolvimento tinha que ser dinheiro da Vale, da Companhia Vale do Rio Doce, rapaz. Então atrapalhava. Então eu dizia: “Está vendo? Quando eu falei que deveria diversificar esse fundo? Era exatamente para isso, porque criava um poderio no Vale do Rio Doce, e a Vale do Rio Doce futuramente teria sua estrada de ferro super bem atendida. Um tal de... não sei se eu falei do setor dos finos do Vale do Rio Doce. Quando falei da produção de minério, a primeira especificação é de meio a três, depois até de três a oito, as peneiras, e depois passou o minério a ser... acho que eu contei isso, sobre o que ficou estocado, falei sobre o IBAMA, que seria eu enforcado. Essa mudança da especificação do minério, que ela ganhou muito dinheiro com o erro que ela fez em jogar o minério morro abaixo. Aquele fino tinha 40, 50%. Eles iam produzir 100 toneladas de minério, jogava fora 40 toneladas de fino. E esse fino, não sei, com Jesus Cristo, com os japoneses, os americanos, resolveram, com a especificação de meia para baixo classificado, apurar aquilo tudo nas fazendas que estavam lá, ________de Itabira, entulhada daquele fino que era só jogado no navio, no caminhão, no vagão e exportar.

 

P/2 - Eu queria que o senhor contasse o caso da construção da Catedral.

 

R - Ela ainda... o assunto de Juraci Magalhães deve teve pouco tempo, que ele estava pouco tempo na Vale do Rio Doce, mas dá para escrever um livro. O doutor Juraci era um homem... o coronel Juraci!... era um homem muito presente. Então dirigiu a Companhia, coitado, ele, naquela época, ele um dos diretores baianos, que era... não era flor que se cheirasse não. Mas ele deixava o _________ encostado lá e dirigiu a empresa com muita eficiência. E os problemas eram terríveis na época, porque nós tínhamos o departamento das minas que produzia o minério, tinha o departamento da via permanente, da estrada de ferro, que era um setor chamado via permanente, tinha aquelas estações de comunicação etc. Mas tinha... a via permanente naquela época era dirigida pelo Eliezer Batista, engenheiro da estrada de ferro. E tinha o porto, que era um outro órgão, assim. Então, vamos dizer, eram três departamentos: mina, transporte e carregamento de porto. Todos com problema porque faltava vagão, faltava local de empilhar o minério em Itabira, de fazer estoque, porque estavam fazendo as mecanizadas, faltava depósitos em Vitória. Então vinha um vagão cheio e os homens não retornavam em tempo e ficava com a mina esgoelada lá, porque não tinha vagão para carregar. Aí entra o Juraci com aquela... e criava um ambiente de briga! Quer dizer, o cara das minas ferrava o da estrada de ferro: “Ô, como é que é?” “Está parado, porque não tem vagão...” Aí o sujeito de vez em quando, quando soltava o vagão e faltava a volta: “Como é que é, o vagão está preso aí?” Então era aquela coisa. Faltava o navio, aí então era outra confusão a programação de navio. E o Juraci enfrentou isso com uma versatilidade danada. E reunia sempre. Essa foi a grande batalha, porque os presidentes... alguns: pá pá pá, pá pá pá... aquelas coisas. E ele juntava tudo: “Vamos pegar aqui, vamos brigar. Por que que você fez isso?” Juntava o pessoal da estrada de ferro e o pessoal das minas. Aí um dia ele contou essa para nós... Ah, o Eliezer já tinha ido aos Estados Unidos. Eliezer, com a turma de ferroviários foram lá conhecer as estradas americanas etc e tal, eu vou tornar a falar de Eliezer mais tarde. Então, e por outro lado também esse meu engenheiro que eu arranjei e tal, eu estava pronto para ir para Kiruna na Suécia, quando chegou o primeiro documento que era para provar que eu era engenheiro de minas. E o Juraci: “Mas doutor Nunes!” Era Nunes que ele me chamava. Eu falei: “Agora eu não posso perder essa bolsa.” “E o senhor não é engenheiro de minas, eu pensei que o senhor fosse engenheiro de minas...” Que eu engenheiro das obras para mineração. “Ah, o senhor é responsável, agora tem que arranjar um engenheiro.” E eu fui para Belo Horizonte procurar o engenheiro e achei esse rapaz, doutor Aécio, brilhantíssimo, muito amigo de Juscelino e tal, e depois me levou para a construção de Brasília. Não sei se vai dar para falar nisso. Mas esse rapaz muito, muito bom, muito inteligente, muito novinho, para falar a verdade ele tomou o lugar, ele foi para a Suécia, ele tem uma filha sueca! Foi lá para Suécia e ganhou um presente de papai noel e eu perdi a viagem. Mas o Juraci era assim: um dia ele reuniu o pessoal lá: “Meu Deus, vocês não podem continuar essa briga! Está faltando élan, está faltando entusiasmo, está faltando sinceridade nisso de propósito, nós temos que ganhar essa guerra, temos que levar essa Companhia para o lugar necessário. Eu vou contar um caso para vocês que eu quero que vocês se espelham nisso. Certo jornalista recém formado, ele foi designado para visitar uma grande obra, aquela terraplanagem imensa lá. E esse rapaz foi então procurar o presidente lá, alguém responsável, ou de maior nível: ‘Eu vou lá, eu sei que nós vamos fazer um empreendimento, vai gastar tantos milhões, e isso vai causar um impacto social muito importante...’, encheu de linguiça o repórter e ele, novato, não teve coragem de perguntar: ‘O que é que vão fazer?’ E começou a descer os escalões.” Isso ele contando já, assim, com toda a simpatia dele: “Veio para o imediato, o diretor das obras, arrogante lá, falou assim: ‘Trabalham 2.000 empregados, tem o setor disso... pá pá pá pá…’ e o menino saiu de zero, saiu sem saber o que que era. Aí chegou no outro, o engenheiro falou: ‘Aqui é a primeira obra de concreto (atendido?) no Brasil. Vai ser isso, vãos maravilhosos, vai ser vencido em arco ali…’, e o cara sai sem saber. E foi descendo os diversos escalões. Perguntou para o carpinteiro, ele falou: ‘Aqui é uma tábua de 2 centímetros... o forno vai ser assim, prensado, não sei o que, escoramento é isso, aquilo, o outro fez a armadura assim, o concreto é isso...’ Aí o cara falou: ‘Eu vou perder o emprego. Porque não sei o que vão construir.’ Aí chegou lá, já ia saindo, assim, passou um servente, mais humildezinho, sujuzinho, saiu com o carrinho dele, assim, ele falou: ‘Menino, vem cá. O que que estão fazendo aqui?’”. Olha só, o Juraci: “Que o menino parou o carro dele: ‘Então você não sabe? Nós vamos fazer aqui a maior Catedral do país. _________ não sei de que, isso aqui vai ser um espetáculo, igual a Igreja lá de Roma, do papa, essa aqui vai ser formidável, muito melhor que a do papa!’ E o cara estava cheio de amor pela obra dele.” Ele falou: “Isso é que eu quero. Eu não quero a metideza do engenheiro não sei de que. Eu quero é aquela sinceridade, aquele élan, do mais insignificante empregado da empresa... ele estava muito mais carregado de confiança na obra que ele ia fazer do que o próprio pastor lá, o próprio bispo que estava tocando aquilo. Então eu peço para vocês: tenham o espírito do servente, nunca dos diretores, de gravata, que ficam enchendo linguiça. Eu quero é trabalho.” Passaram-se alguns meses da confusão que estava ali, se chovia era uma lameira, vagão entupido, prendia lá, aí vem o Eliezer com o espírito maravilhoso dele. Eles passam delegando Eliezer: “Meu caro engenheiro...” Que a via permanente era responsável pela estrada de ferro. “Pelo amor, me dê todos... você que está embargado aí, que a mina está preocupada lá, que os alunos estão retornando e tal.” Ele passou um rádio para o coronel e disse assim: “Senhor presidente, esteja tranquilo, que a Catedral será construída.” Deu uma resposta de grande carga. Quer dizer, esses dois homens, que foram homens que implantaram na Companhia essa vontade, porque infelizmente naquele tempo não se tinha o espírito de funcionário público, não era uma Companhia de governo, absolutamente, a gente trabalhava com entusiasmo. Olha, e eu em Itabira, não sei se eu já falei nisso, eu cheguei a valizar o comércio de Itabira, porque eles falavam: “Para a Vale eu não vendo. Para a Vale do Rio Doce eu não vendo. Se o senhor garantir, eu vendo.” Ah, imagina. Quer dizer, eu era assalariado, recebia, mas eles não vendiam para a Vale, porque ela atrasava. Então crise, porque a Companhia foi criada para produzir 1 milhão e 500 mil toneladas e o capital dela era 600 mil, o dinheiro daquela época, e não dava nem para fazer décima parte disso. Mas era... o Israel Pinheiro queria enfiar o negócio de qualquer jeito. Quer dizer, destruiu a Companhia, enganando, mas pelo menos firmou. Talvez o caminho não tivesse sido muito certo, mas a Companhia foi criada, assim, com erro de nascença. Então foi muito importante esses dois homens. Depois mais um tempo passado, eu cheguei a chegar num diretor qualquer, falei: “Nós temos 23% de pessoal ocioso na Companhia.” Quer dizer, para você ver como é que as coisas mudaram. Como ela ganhou dinheiro, começou a ganhar dinheiro... Eu saí, infelizmente, que o exército brasileiro me desculpe, mas na época da política do exército nós tivemos... procurava um engenheiro, era um major, procurava um diretor, era um marechal, e lá tinha uma carreira militar toda dentro da Vale do Rio Doce. Então é que ia... claro que o militar, alguns podiam ser até eficientes, mas a maioria ia lá para... Houve um tempo aí que um sujeito dizia assim: “Qual é a empresa que não tem um bulldog? Bulldog eram os coronéis, né? (riso) Quer dizer, essa parte que não pode publicar. (riso) Mas então é isso, fui para a Vale, fiquei em Belo Horizonte, aí, minha filha, foi o fim da carreira do Carlos Nunes. Um espírito mais sincero, mais honesto, eu não quis pesar à Companhia, mas mesmo assim fiquei, quer dizer, para não ficar à toa... Ah, teve uma passagem também que eu fiz um Interplanos, a Companhia também doou... financiou o plano diretor da cidade de Itabira, e eu, também para ocupar um cargo, fiquei fiscal do negócio. Quer dizer, a prefeitura e eu representando a Companhia junto a essa Interplanos. Aliás, foi uma grande coisa que Itabira ganhou naquele tempo, um plano diretor, integrado, para não: “Ah, puxa a água para lá, puxa a luz para cá.” Foi tudo muito bem projetado, e nós que fizemos isso em Itabira. E eu era o coordenador desse projeto entre a prefeitura e a Interplanos. Mas aí foi acabando, acabando, acabou a Interplanos. E eu falei... Bom, sabe que Itabira é muito difícil, né? E a Vale tinha um escritório lá. Era só para enganar, para fazer política, né? E eu com um engenheiro... não sei se vocês ouviram aqui no Rio de janeiro, o doutor Brito Pereira, um dos antigos, ele já deve ter morrido. Vocês estão pegando uma raridade aqui de 80 anos! (risos) Ainda pode falar sobre a Vale do Rio Doce! Esse doutor Brito era um brilhante engenheiro sediado aqui no Rio, tinha vindo da estrada de ferro, estava aqui como acessor da equipe do projeto. Grande sujeito, era do Maranhão se não me engano, gente muito fina. E aí nós conversamos: “Brito, o que é que nós estamos fazendo na Companhia? Vamos dar lugar para os novos”. E nós criamos um grupo, falei: “Vamos rejuvenescer os quadros da empresa.” Antes disso, eu fui... fiquei servindo o governo de Minas, o doutor Israel Pinheiro. Eu falei: “Doutor Israel Pinheiro, o senhor conviveu com a Companhia, sabe toda remexida lá, o senhor tem que me levar para lá. E ele me pôs na Secretaria de Desenvolvimento do Estado de Minas Gerais. Mas aconteceu uma passagem interessante: eu fui para o governo de Minas para ser o elemento do desenvolvimento do Estado junto a Companhia, quer dizer, para tomar recurso da Companhia, porque eu conhecia toda a coisa da Companhia, os elementos, onde é que eu podia abordar, o pensamento da Companhia. Então teria condições. Mas naquele tempo o pessoal era muito frio, a presidência do doutor Dias Leites, da Vale do Rio Doce, foi uma presidência terrível quanto à Minas. Então pegou o doutor Israel que era exatamente... foi eleito contra os militares. Foi uma surpresa a eleição dele, eles queriam um e foi o outro... então o doutor Israel... eu me lembro de uma reunião lá... antes de chegar onde eu quero... nessa reunião estava o doutor Dias Leite, ex-governador do Estado, o (Mario Rola?), homem de comunicação, não se sabe bem dele porque ele é um homem perigosíssimo. Mas era um homem que tinha prestígio dentro da Companhia. Mas não foi mineiro, ele puxava, cedia para o que os generais, que os coronéis queriam. Então nessa reunião no Palácio, eu também lá na reunião, no Palácio do governo, doutor Israel dizia assim: “Eu fui o primeiro presidente, criei a Companhia Vale do Rio Doce, eu queria... eu já fui a Itabira várias vezes depois do governo, eu queria que a Vale do Rio Doce fizesse um hotel. Hotel, porque não tem, tem até a hospedagem da Companhia mas não tem um hotel decente. Podíamos fazer um hotel.” Aí o doutor Dias Leite falou para ele assim: “Senhor Israel, nós... antes de fazer um hotel tem muita coisa para fazer na Companhia.” Ele era bravo. Ele falou: “Então, vou me levantar porque não tenho mínima conversa com o senhor.” Levantou da mesa e largou a diretoria da Vale. Estava um mal estar tremendo. O doutor Oscar de Oliveira também em uma ocasião no palácio, falou coisas que eram tristes, a realidade, Minas estava... como está agora, todo mundo sofrendo como o diabo lá. Mas então, nessa época, que eu ia para ver se coordenava, que isso tudo aconteceria, mas eu tinha jeito para amansar os tigres, né? E chegar num ponto e ajudar Minas. Porque o meu problema maior era o seguinte. O pessoal não saia do Rio. Quem é que ia sair do Rio de Janeiro? Um coronel reformado estava no Rio de Janeiro, não ia para Minas nunca. E nós queríamos um escritório em Minas, um escritório da Vale do Rio Doce, e aqui um pequeno escritório de representação. Então, marechais aí ficavam era aqui mesmo, (marechal Lindenberg?), tinha uns nomes... (riso) Talvez tenha sido um pouco a minha razão de ter saído da Companhia esse tempo _____. Depois mais tarde, vocês imaginam, eu ainda peguei isso quando trabalhando na (Idrocer Projetos?), chegava no Ministério de Minas e Energia, a coisa mais difícil era encontrar um engenheiro. Chegava: “É o major.” Aí ligava: “Espera aí: General fulano de tal...” Quer dizer, foi uma fase que nós perdemos as lideranças todas. Mas que está tudo em paz, graças a Deus. Mas quando no governo de Minas, eu ia fazer esse trabalho. Aí acontece uma crise tremenda lá no setor da Sudene. Aí eu fui me afastando da Vale. Quer dizer, eu ia ficar agarrado na Vale, porque eu ia fazer governo de Minas com os departamentos da Vale do Rio Doce, a estrada de ferro etc e tal, e eu fiquei afastado porque ele me entregou, alguém que era diretor da Sudene de Minas, um órgão chamado Sudeminas, ele falou assim: “Só tem um homem aqui no seu governo, doutor Israel, que pode assumir o meu cargo.” Ele brigou mesmo. “É o Carlos Nunes.” E o doutor Israel me chamou, falou: “Você vai assumir.” E eu virei a Sudene pelo avesso, porque Minas nunca ia às reuniões, virava as costas para a Sudene, e eu consegui fazer muita coisa na Sudene, ia às reuniões todas. Então sentei do lado de João Agripino, Sarney, eram meus companheiros de mesa, só os governadores que reuniam. Mas Minas não mandava ninguém, era eu só. O governador nunca foi lá. Depois de uns anos a coisa foi melhorando, e tal, hoje ela tem um diálogo maior. Mas então foi a minha saída da Vale do Rio Doce, com esse rejuvenescimento de quadros. Um grupo do Rio, um grupo da estrada de ferro, nós nos reunimos, foi uma festa, não sei de quantos anos da Companhia, e nós falamos: “Está na hora de... vamos fazer uma campanha aí...” E nós conseguimos coisas melhores para sair, porque naquele tempo, imagine, eu fui um dos maiores criadores da Valia. Hoje o meu mais humilde servente ganha muito mais do que eu, aposentado (riso), ganho do INSS. Dez, doze salários mínimos. E eu era o homem na Vale do Rio Doce... vocês imaginem que na ocasião eu fui chamado ao Rio de Janeiro, pelo doutor Oscar de Oliveira: “Carlos Nunes, o que é que você está fazendo?” “Doutor, não é nada não, é um banco.” Eu fiz um banco para os operários da Vale. E já teve gente que construiu casa com o dinheiro do banco. É uma lista, é promissória e brum! dentro da Companhia. E esse banco criou a mentalidade da Valia depois, que a Valia é importante. Mas aquilo que nós tínhamos funcionava lá, ____,com eleitor, eleição, tudo. Eu não sei se eu contei o caso para vocês do biscoito de polvilho, nessa entrevista que eu falei, isso é importante. Muitos anos depois, descobriram quem que eu era. Que eu numa reunião lá do meu condomínio lá. Falavam para burro. Uma mulher falou assim: “Sabe de uma coisa? Vocês são iguais biscoito de polvilho. É só barulho e não alimenta nada.” Quer dizer, biscoito de polvilho é aquele barulho danado, e realmente não alimenta nada. (riso) Então eu costumo dizer para o pessoal o seguinte: “A função do biscoito de polvilho é ótima. Você toca o fogo. Agora mesmo nós temos uma cooperativa de arte lá em Minas, no nosso bairro lá, umas mulher pintando, outro fazendo arraiolo, um menino fazendo isso, outro fazendo aquilo, e montei a cooperativa. “E aí, doutor Carlos, vai ser o presidente?” Eu falei: “Negativo. Eu sou o biscoito de polvilho. Quer dizer, eu toco fogo, e agora vocês que vão alimentar, porque o biscoito de polvilho não alimenta.” Então eu sou o assessor. Agora mesmo nós estamos mudando de local porque cresceu de uma maneira essa cooperativa, nunca vi, coisa tão bacana, as meninas... A primeira aula que fez para enrolar jornal, fazer aqueles filetezinhos, e fazer aqueles... aquelas cestas... o que que saiu da cabeça daqueles meninos, a criatividade! Entendeu? Então imediatamente as meninas se juntaram para comprar uma máquina para enrolar o papel, e eu estou querendo fazer uma indústria de papel reciclado. Juntar 40 meninas que estão comigo lá, fazer essa indústria de papel reciclado, fazer para vender para as livrarias, todas, aí vende papel matizado, porque papel reciclado é moda agora. Mas então a minha vida é essa. Deixei a Vale do Rio Doce morrendo de tristeza, de paixão, mas certo do dever cumprido. Fiz tudo que eu podia fazer, e essa turma se reuniu, como estou falando, e fizemos coisa  que ninguém faz hoje. Como teve gente lá que ficou esperando até a última gota para tirar da Vale, quer dizer, brigou, aposentou, ganhou tudo, eu podia estar aposentado hoje. Dez, 12 mil reais como que ganha o… Mas tô aposentado com mil e tantos do INSS. Mas não me arrependo de ter saído da Vale, não. Eu tive uma vida, imagine, de 26 anos na Vale do Rio Doce, e curiosamente vivi muito, fui super polivalente, mas depois ela me ensinou tanto que eu fui feliz aqui fora, ganhei dez vezes mais do que eu estava ganhando na Vale. Que eu fui conceituado dentro da Hidrocer quando era a maior Companhia de projetos do Brasil, eu fui pioneiro desse projeto do gasoduto, como eu estou hoje falando aqui como pioneiro, se amanhã fizerem a história do gasoduto no Brasil, lá estou eu. Eu tenho que dar o depoimento da primeira vez que se contactou o governo da Bolívia para o gasoduto da Bolívia. Então nós fizemos acordo com a Companhia, levamos umas brutas vantagens, 26 anos, pagava 52 meses, mais não sei o que, mais não sei o que. Então saí de lá feliz. Só fico com tristeza quando vejo meus meninos lá ganhar 2, 3 mil. Ou então o sujeito que mora no mesmo condomínio de alto luxo lá em... você conheceu o condomínio, né? Mora duas casas da minha. Ele era meu... pegava baliza de topografia. Fez carreira na Companhia, trabalhou de auxiliar de almoxarifado, e tal, mas deve ganhar uns 4, 5 mil reais por mês de aposentadoria. Por isso, talvez venha o assunto, você vai perguntar sobre privatização. Eu fui muito assediado. São Paulo, onde eu convivi mais tempo... Naquela época ainda estava muito ligado a São Paulo, porque eu tinha uma empresa, até pouco tempo. E depois desfiz, deixei meu sobrinho com ela, que hoje eu sou... nós, minha família, meu filho... nós somos a única empresa que industrializa a pedra-sabão no Brasil. O meu filho hoje está com um escritório na Suíça, ligado aos holandeses suíços, e outro em Vermont, nos Estados Unidos. E eu sempre fui... o primeiro projeto da Ouro Preto Pedra-Sabão foi feito por mim, mais o meu filho, com um colega dele, administrador de empresa, nós tocamos aquilo. E mais tarde eu vim a ser o homem que montou o escritório em São Paulo de representação da empresa e que abriu o mercado inclusive internacional. Que hoje é 90% de exportação e 10% capital. No sentido do refratário da pedra-sabão. Quer dizer, a pedra-sabão em si, decorativa etc, essa passou para um segundo plano, porque isso é passageiro, crise e tal, você não vai fazer... Mas mesmo assim há pouco tempo fizemos um... o Banco Mercantil de São Paulo, o dono dele, na fazenda dele tem um chafariz lá de três estágios. A primeira bacia tinha 5 metros de diâmetros, uma peça linda de pedra-sabão. Mas é isso.

 

P/1 - O senhor saiu da Companhia que ano, senhor Carlos?

 

R - Saí em 1968, 1969.

 

P/1 - E o envolvimento do senhor parou aí? Aquela história, o rolo com os empreiteiros, quer dizer, em que momento...?

 

R - Ah, vamos falar... é, exatamente.

 

P/2 - Com o sócio, né?

 

[pausa]

 

R - Uma das passagens após Vale, quando eu saí da Companhia... eu sempre fui muito aberto, não fiquei rico com empreiteiro. Isso é norma, o cara num instantinho fica rico quando mexe com os empreiteiros. Mas eu não, fui muito... tem uma passagem muito interessante em Itabira... porque a oferta vem mesmo... por isso que dizem, quando fala comissão dos empreiteiros, CPI dos empreiteiros, tem que ir mesmo, porque se o cara é prostituído alguém está prostituindo ele, é o empreiteiro. E eu não fui prostituído, graças a Deus. Mas tinha a tentação. Então tinha: “Doutor Carlos, eu queria dar um presente para o senhor.” “Você quer? Então põe dois operários lá no Explosivo.” É a história do Valeriodoce. Eu pretendo falar do Valeriodoce, depois vou ao consórcio. O Valeriodoce... nós nos dedicamos talvez mais do que à própria Companhia. Porque era um motivo social. Era um time de futebol, mas depois tinha a melhor orquestra, com 14 elementos. E a história é muito interessante, que aquilo todo mundo queria ajudar. Um dos empreiteiros foi puxar... agradar. Quis dar um pistão. “Bom, muito obrigado.” Ele deu o pistão para o Seu Lulu, o Seu Lulu era um artista no pistão. Mas devia ter dado para o outro, que era o Alcemar, que já tocava pistão. Mas o Seu Lulu era o homem da ________ lá, um sujeito bacana, gente séria. E ele deu o pistão para o Seu Lulu, e ele chegava na orquestra lá, e ficava. Eu falei: “Seu Lulu, pistão a gente tem que tocar com o peito aberto. O senhor está muito acanhado. O Alcemar toca a milésima parte do que o senhor toca, e ele todo acanhado tocando. Pistão tem que abrir o peito. Era essa coisa interessante... Então nós tínhamos uma orquestra muito boa, nós tínhamos... eu contei a história da rinha de galo? 

 

P/2 - Contou. 

 

R - Então, nós nos dedicamos muito ao Valeriodoce. Muito apoio da Companhia, nos deu uma área que hoje ela morre de tristeza porque o campo está agarrado na empresa lá, não sei nem quero saber como é que vão resolver aquilo lá. E nós caprichamos, deve ter lá várias homenagens ali, porque eu consegui construir uma arquibancada, fazia isso, aumentava, gramava o campo. Gramar era aquela coisa difícil, tinha ajuda daqui, o pessoal ia gramando. Tinha um João Cláudio Teixeira de Sales, um nome... Fernando deve ter falado nele aqui. Teixeira de Sales era um sujeito... Esse saiu na época... na terceira fase! Tanta boa vontade que ele ia fazer, mas topou com os americanos, um dia ele esfregou a cara num americano, quase... foi um custo para segurar, ele queria bater no diretor americano. Era chefe do pessoal, chefe de serviço do pessoal. Quer dizer, é no interior que acontecia, essas fases estão muito bem descritas na vida do sujeito em qualquer empresa, e na Vale do Rio Doce principalmente. Então... e o horário da Companhia era até 5 horas da tarde. Tinha época... naquele tempo, 40 e tanto, não tinha horário de verão. Então você ficava no solão de tarde, era mais razão nós ir para o campo ajudar a plantar grama e melhorar, roubar da Companhia mais um pedaço. E puxava para lá, e fomos embora. Depois eu vim fazer campo de... hoje é uma senhora instalação lá. Eu ia levar, mas não consegui levar, a Maria Ester Bueno para inaugurar quadra de tênis, sabe? Eu era um sujeito... piscina, eu que inaugurei a piscina, nós tínhamos o diploma do peixinho valeriano, quer dizer, a primeira vez que a menina atravessava a piscina de 25 metros, quando ela saía ganhava o diploma. Era uma coisa fantástica. E o operariado comungava com aquela coisa. Então começaram os problemas. Um timezinho que era de brincadeira começou a criar nome. Aí aquela coisa de: “Como é que vai ser? Precisa de jogador.” “Lá em Nova Lima tem um fulano...” Aí eu conversava: “Mas ele diz que é torneiro mecânico.” “Não, não quero jogador de futebol comigo não.” Daí os companheiros meus lá da Vale do Rio Doce: “Mas ajuda o cara!” “Não, não quero.” Então tinha uns que não aceitavam jogador de futebol. E eu, que era parte civil toda de construção, descarregava comigo, né? Porque eu tinha... por exemplo, topografia ia lá para o mato. O sujeito ia lá para o mato, ninguém estava sabendo se ele estava trabalhando ou não, né? Segurando uma baliza, aquele negócio todo. Nós tivemos até um bloco lá, saiu no carnaval: a turma do mais dez, porque todo mundo via aquele negócio: numa estaca, estaca um, mais dez, estaca dois, mais dez, aí de dez em dez metros tinha uma estaca. Então tinha lá: a turma do mais dez. Então o serviço de topografia, tinha jeito de pôr, serviço de construção, também tinha jeito de pôr. Mas lá pelas tantas arranjava alguém mesmo na oficina mecânica para fazer umas coisas e tal. Então nós começamos a fazer jogador de fora. Aí, com todo apoio da administração, de vez em quando um resmungava um bocadinho, mas ele arranjava. “Ficha o cara.” “Mas não pode.” “Mas dá um jeitinho.” “Então ficha esse, ficha aquele, ficha aquele.” Fizemos um timaço. Eu até não trouxe que eu perdi o Botafogo. Nós levamos o Botafogo lá em uma ocasião com o Garrincha, Didi... tinha um que jogava: o Amauri, no gol, um loiro bonito. Amauri, Bob, Campolina, que veio de Cruzeiro de Belo Horizonte, Bob, Juvenal, Nilton Santos, Didi... A linha era Reinaldo, Didi, Paulo Valentim, aquele que falaram que era marido daquela dona, daquela série da Globo, daquela prostituta de família nobre...

 

P/2 - Hilda Furacão.

 

R - Hilda Furacão. Ele que era o marido dela, Paulo Valentim, que foi para Argentina depois. E Garrincha e Canhete, era um paraguaio, jogava na ponta-esquerda. Garrincha era meia. E nós ganhamos do Botafogo, dois a um. 

 

P/1 - Ganharam do Botafogo?

 

R - Uma vergonha para o meu time, Botafogo. (risos) E eu não sabia para que lado torcia. Quer dizer, então o clube ficou, assim, dominou a cidade. Aí tinha o problema da sede. Que tinha uma sede social. A Companhia arranjou uma casa, adaptamos uma casa da Companhia já para fazer o clube, aquelas reuniãozinhas, fazia... imagine, esse karaokê hoje nós tínhamos há muito tempo, aquelas músicas que o cara cantava. Enchia o tempo no interior, né? E fizemos uma sede lá na vila operária: sede do campestre. Então mantinham aquelas duas sedes, mas aí vinha lá um daquele jogador, beiçudo, bico de negão, queria entrar na sede. Quer dizer, olha o problema? O pessoal que tinha lá era médico, engenheiro, aquelas madames, uma orquestra bacana, tocando, e chegava o Júlio, o apelido dele era Júlio cai-cai, porque ele dava aqueles, becaço, né? Chegava o Júlio, queria entrar. Aí ele entrava. Aí ia dar um jeitinho, nunca ia jogar, mandar o preto embora, né? Aí: “Vem cá, Júlio, vem cá, vem cá, vamos tomar uma cervejinha aqui.” Levava lá para o bar lá para o fundo. Sabe aquele figura toda desconjuntada para entrar num salão? Então teve esse problema, eu falei: “Temos que fazer a terceira sede.” Foi quando nasceu o tal Explosivo, era um Explosivo... tinha um Explosivo da Companhia Vale do Rio Doce, e essa sede foi feita assim: diz que pegavam verba, desviava para lá, fazia e tal, porque não tinha verba para aquilo. Uma bela sede, fazia catecismo, e de noite o pau comia solto lá atrás. Era o mafuá mesmo da ralé. Então tinha que manter três sedes. E uma coisa formidável, isso eu me envaideço, de levar os homens mais que não aceitavam aquelas coisas, levava lá. Inclusive nós tínhamos um superintendente, doutor Fonseca, por muitos anos, ele era brilhante tecnicamente, mas socialmente era zero à esquerda. Ele era do trabalho. E eu falei: “Doutor, o senhor vai hoje comigo lá no Explosivo. E vai fazer cordão.” E punha ele no cordão de carnaval. (riso) A Dona Leonora dele, falou: “Não, eu sem máscara... eu ponho máscara, então!” E vamos fazer cordão. Quer dizer, eu que agitava lá. Tinha eleição da rainha, tinha eleição das princesas. Então essa sede do Explosivo aconteceu um problema com negócio de bens patrimoniais. Um belo dia...: “E isso aqui?” Não existia, não tinha um tostão gasto. “Ai, Doutor Carlos, que roubada.” Inquérito! Fui fazer um... Você faz inquérito quando falta, não quando está sobrando. Isso aí foram donativos, operários que estavam folgados, trabalharam lá etc, e o fulano deu o cimento. “Não está escriturado!”, porque ele ia escriturar lá, apareceu a sede, diz que foi um custo para... e ainda por cima de duas falhas da Companhia nesse caso. Foi lá um advogado para cuidar do caso, e ele era... como é que chama o advogado... eu sei no sentido pejorativo tem um nome, sabe? E eu... ele falou: “Que eu sou assim”, fazia advocacia mas não era formado. Então eu elogiei o trabalho dele e citei que ele era um... ai, meu Deus, esqueci o nome. Era um nome qualquer, mas é pejorativo, sabe? Então saiu no relatório meu o elogio chamando o sujeito de sem vergonha. Dizendo: “Fulano de tal foi um belo sem vergonha que veio aqui.” Esqueci o nome. Mas então deu esse problema do Explosivo, tal a dedicação que eu tinha, fiz uma sede, olha, mas tinha escola lá para os meninos, era catecismo, as freiras iam lá e tal, e de noite o negócio era arrasta-pé mesmo. E com isso equilibrava, jogador mais bagunceiro, que tomava as cachaça era lá, jogador que passava para a cerveja era para cá. E tinha jogador que frequentava a outra sede. Aí vem a sua insinuação, eu consegui... o chefe do departamento de abastecimento de Itabira, da Vale do Rio Doce, saiu do futebol: Ataíde Ferreira Lima. Ele foi... pegamos esse rapaz em Barbacena, jogava muito bem. Tivemos a informação, ele foi para lá, e tal, escriturário, não sei o que e tal. E foi embora! O chefe do transporte do hospital, que cuidava dos motoristas, em horário de assistência, aquela coisa toda, saiu do futebol: Germano, Antônio Germano. E esse caso meu do Come-vento, ele era Sebastião Ricardo de Almeida, o apelido dele exatamente porque ele corria muito, era Come-vento. Esse moço é muito interessante, porque quando ele chegou lá, eu falei: “O que que você sabe fazer?” “Eu sei fazer nada.” “Então vai trabalhar na turma de pedreiro.” Ele voltou lá, não deu como ajudante de pedreiro: “Vai para a turma de topografia.” Aí vai para as máquinas escrever, escrevia: “Ô Dona Alfa, deixa ele bater um negócio aí?” Aí chegou: “Ah, Doutor, será que eu podia fazer um desenho aqui?” “Você tem... gosta disso?” Aí arranjo uma prancheta para ele, pego um desenho antigo, com um papel em cima, deu no risco dele. Eu dizia: “Esse rapaz está fazendo muito mal em Belo Horizonte.” Mas ele virou o arquiteto de Itabira. Quer dizer, alguém assinava para ele, mas ele fazia os projetos de prédio de apartamento em Itabira. Casas todas em Itabira, fez muito projeto e ganhou dinheiro, fez sua carreira, saiu da Vale, aposentou. O outro era o Vaduca, o nome é até internacionalmente conhecido, quer dizer, jogou no Atlético Mineiro, foi grande goleador, e hoje é o gerente do América, meu time em Belo Horizonte, gerente lá da... do treinamento deles. “Esse Vaduca, quando entrou na Companhia, foi o chefe do setor de pinturas, que era pintor, foi pintor. E isso foi um grande benefício que nós fizemos. Agora não tenha dúvida que o ruim caia pelas beiradas, né? Apareciam uns caras que davam trabalho para a gente, caíam na bebida, faziam bobagem e tal. Esse ia dilapidando, mas sempre trabalhando com o cara. Então o Valeriodoce virou essa coisa que, lamentavelmente, é uma mensagem que eu queria fazer se alguém da Vale do Rio Doce ver esse depoimento, como nós pusemos... o nome Valeriodoce foi autorizado pelo presidente, quis dar o nome da Companhia, Vale Rio Doce. Era o endereço telegráfico dela: Vale-Rio-Doce, ligado, né: Vale-Rio-Doce. Então ficou Valeriodoce. Depois de virtuado, ficou chamando só de Valério. Então essa meninada conhece o Valério. Quer dizer, não há razão de ser. Mas é Vale-Rio-Doce. Esse clube hoje caiu para a segunda divisão, porque a Companhia cortou todo o apoio. Eu ainda tenho esperança que um dia a Companhia reconheça que o nome dela está em jogo, ou então vai ter que trocar de nome, pôr outro nome para... não há vínculo mais. Mas eu gostaria que a Companhia ainda desse o apoio porque é interessante. De qualquer maneira é um lazer para o operário, futebol hoje é uma coisa importante, não era só o futebol, que o Valeriodoce hoje tem ginásio de vôlei, tem campo de tênis, tem piscina, tem um parque esportivo de grande qualidade, muito bem, para o filho do operário. Tem jogador hoje até na seleção brasileira que saiu lá do Valeriodoce. Um deles, o Talmo, levantador, hoje está jogando no Palmeiras agora, mas ele foi da seleção brasileira de voleibol. Então aquilo é uma escola, o esporte... a ociosidade numa empresa, numa indústria, é a coisa mais séria. Quer dizer, o diretor, o empresário, ele tem que ficar vivo para não deixar o pessoal... Você vê, hoje as empresas estão fazendo corais nas empresas, estao fazendo ginástica na hora do almoço, dançando na hora do almoço, tudo isso porque aquela ociosidade é terrível. Então tem que dar distração para o pessoal. Então a Valeriodoce é uma coisa muito clássica, a Vale tem que apoiar, como agora em Vitória fizeram... O desportivo hoje é da estrada de ferro. Foi mais ou menos na mesma época. E a Vale sempre deu mais prestígio lá a Vitória, porque a Vitória tem mais garra, né?

 

P/1 - As cores do Valeriodoce quais eram?

 

R - Valeriodoce é vermelho e branco, tem uma história já comentada aqui, que eu falei para o jornal. 

 

P/2 - Não, o senhor não contou ainda não. Ainda não contou o por que das cores do time.

 

R - Mas eu comentei num jornal lá de Itabira, tem uma polêmcia tremenda, eles não me responderam. Que o jornal deu uma entrevista contando a história do Valeriodoce. Eu, lamentavelmente, não consto na primeira ata, porque eu estava no exército. Acho que eu falei nisso. A Valeriodoce foi fundado dia 22 de novembro. E eu 1° de outubro estava no exército _______.

 

P/2 - De 1942, né?

 

R - 1942, junho de 1942. Mas a minha data de... eu deixei meu currículo aí... minha data é dia 26 de junho de 1942. A Valeriodoce foi fundada em junho de 1942, no princípio de junho, 1° de junho acho que a gente festeja o aniversário da Vale. Mas nessa minha ausência o Valeriodoce já estava em fase de... só faltava nascer. E nasceu na minha ausência, lamentavelmente. E por isso que eles escrevem bobagem. Porque o cara foi dizer no jornal de que as cores do Valeriodoce... o vermelho é porque o Doutor Israel, na hora de assinar a autorização para o funcionamento, e a obrigatoriedade da indicação do presidente seria da Companhia Vale do Rio Doce, deram uma caneta, não tinha caneta azul, ele assinou com a caneta vermelha. Por isso as cores da Valeriodoce seriam vermelho e branco. Está escrito lá naquele jornal, eu falei: “Vocês estão é completamente fora.” Porque os fundadores da Companhia Vale do Rio Doce, do Valeriodoce, eram americanos apaixonados. Eram o dobro do América. Tinha sido recentemente. Até 1938 eu nadei 1.500 metros pelo América Futebol Clube de Belo Horizonte. Então, e o América, por curiosidade, houve uma transição vermelho e branco, curioso, porque o América do Rio, o Ameriquinha aqui, antigo, era vermelho, camisa vermelha e calção branco. E houve uma fase no América, que foi criado com verde e branco, e preto e meias cinza... Não sei porque, e nós estamos procurando saber agora, porque estamos escrevendo um livro sobre o América, eu estou também ajudando lá. E teve uma fase de oito anos que o América usou a camisa do América do Rio, vermelha e branca. Então na época nós, americanos, estávamos em Itabira, escolhemos então a cor de vermelho e branco. Não tem nada de caneta de diretor. Pode ser que alguém me prove isso aí, mas nunca ouvi falar. Vamos então falar agora de uma coisa de muita repercussão na Companhia, que gerou grande polêmica. A Vale do Rio Doce quando começou a trabalhar tinha as frentes de minerais. Era o minério rolado, quando se estudavam a instalação de britagem, peneiramento, as correias transportadoras, a estrada de ferro de acesso a Itabira, aquela gana de um nome ficar firme, se autorizava a fazer pequenos empreiteiros pegando minério nas fraldas do Cauê. Minério rolado, mais ou menos limpo, mulher e menino quebravam no tamanho de meia a três polegadas, jogava no caminhão, passava na balança, pegava um ticket e aquele empreiteiro recebia o seu... Mas gerava uma confusão, tinha reajustamento, aquelas inflações nossas terríveis. Mas então com isso eram vários empreiteiros. E aquilo era importante, porque me lembro que chegava lá um cara: “Venha, venha, está aqui, me dá uma frente de minério?” Politiqueiro. Me lembro de uma passagem muito interessante do padre Vidigal, um grande político, deputado de Minas, o padre Vidigal chegou lá com o prefeito de Santa Maria de Itabira. Com esse Doutor Fonseca, homem arredio, muito compenetrado, muito sério para o negócio. E o Doutor Fonseca: “Mas o senhor...”, o homem com aquele negócio de padre, eu acho que já estava de calça comprida, mas de preto, “Mas o senhor...” “Não, eu não estou ganhando comissão aqui não, eu sou sócio.” (riso) Ele era muito desabusado, o padre Vidigal. Então ele... “Ah, já é uma frente de minério para o prefeito de Santa Rita de Itabira.” Era uma coisa louca. E aí aquilo para o doutor Fonseca, aquilo era uma tragédia, quer dizer, desvirtuar todo o programa que ele estava imaginando. E realmente criou problema. Chegou num ponto que precisava tirar os empreiteiros. Tirar os empreiteiros porque a Companhia tirava já... já tinha sua britagem, o peneiramento, o ______ que chamava a pilha reguladora, depois tinha a correia transportadora, carregamento direto nos vagões, então aquele pessoal estava sobrando. Mas seria um impacto violento mandar todo mundo embora. Seria uma tragédia dentro de Itabira. Então a Vale falou assim: “Bom, quem tiver mineração por aí, quem tem minério nós continuamos comprando, desde que subordinado às especificações químicas e físicas: bitola e análise química.” E aquilo sobreviveu, mas não aguentaram, a Vale... até isso ela foi cortando. Ela foi evitando, vamos dizer assim... “Eu não posso tirar porque eu vou me degolar aqui.” E começaram a... eram antipáticos aqueles empreiteiros, realmente. Mas os caras tinham caminhões, aquele mundo de operários, aquela estrutura toda, perderam, jogaram aquilo fora e só sabiam fazer aquilo. Aí acontece... foi na época que eu estava saindo da Vale. E eu com aquele espírito sempre de apaziguador, eu por exemplo, eu que fazia os estudos, que foi uma vergonha na época, ainda falei para o diretor: “Que coisa mais fácil controlar o preço de mineração e pôr o preço de dólar.” Companhia vende dólar... vende o minério por dólar, e paga o empreiteiro com dólar, porque o reajuste... aquela inflação constante, o reajuste do preço desses coitados dos empreiteiros era uma tragédia, era uma tragédia que eles choravam e quebravam. Então, eu sugeri isso aí, era uma coisa, para valorizar o negócio dele, mas era verdade, tinha que ser em dólar mesmo. Porque aí automaticamente você paga dois dólares, o dólar subia, o minério alterava o preço quando o dólar subia... Mas então eu fiquei muito, assim, ligado aos empreiteiros. Quando eu saí da Vale, foi lá, eles acharam um cristo para carregar com eles. E um dia me chamaram para uma reunião no consórcio, eram 26 pequenos produtores de minério. Nessa época a Companhia já estava exigindo desses empreiteiros, falando: “Nós só compramos minério de vocês, se vocês tiverem jazidas próprias. Quer dizer, mais um desafio para eles. Todos procuraram, aliás entre parênteses, hoje tem um que vendeu para a Companhia Vale do Rio Doce uma jazida lá por 200 e tantos milhões, doutor (Diogo Bertoli?). Lá ele comprou essa jazida, quer dizer, fazia parte do consórcio, e acabou de vender. Está rindo à toa, (Diogo Bertoli?). Esse homem perdeu a jazida dele que... mas ele tinha o potencial de todos eram mais estruturados, muito ajudado pelo Eliezer, Eliezer confiava muito nele, era muito amigo dele, e ele continuou no mercado vendendo, não para a Vale, vendendo para terceiros. E ele vendeu a Companhia lá de Gongo Soco, a mina de Gongo Soco, que era mina de uns ingleses antigos, e a Vale na época não quis comprar e ele comprou. Ele empregou o dinheiro em fazenda e depois foi ter... Sabe a história aí do dinheiro que você ganha na fazenda e fica perdendo no minério, fica aplicando naquela coisa, né? Mas eu fui presidente de consórcio dos pequenos e médios mineradores de ferro da Bacia do Rio Doce. Que bom, né? Dava cartão de visita, tudo. E aqui começou uma luta tremenda com a Vale. Meus amigos todos me tratavam, assim... eu via que eu tinha pisado em falso. Mas era uma justa causa defender aqueles empreiteiros, porque coincidentemente, na época, Porto de Tubarão ficou pronto. Então os navios para o Porto de Tubarão, que ancoravam em Tubarão nunca poderiam entrar em Porto de Vitória. Então eu falei: “A solução é essa.” Quer dizer, vocês liberam transporte para esses empreiteiros e se a Companhia não quiser comprar o minério... por muitos anos a Samitri comprava minério, ela tinha um contrato leônico... leonino, como se diz. Ela comprava minério da Samitri, metade da produção a Companhia tirava para ela por preço que ela determinava. A Samitri exportava a outra metade, o transporte era pago pelo preço que a Vale cobrava. Então a Samitri ficou louca. Ficou louca, e anos e anos lutou e conseguiu fazer o mineroduto, o Porto de Una no Espírito Santo, quer dizer se desvencilhou da Vale do Rio Doce. Fez um mineroduto, quer dizer, faz um polo de minério, e aquela pasta desce pelo mineroduto. Quer dizer, então nós tínhamos o exemplo desse problema da Samitri, mas eu acreditava que a Vale tinha que concordar, porque aquilo era em benefício dela para manter, quer dizer, todo aquele pessoal, como esse Diogo depois, que ficou tão grande que ela acabou comprando as propriedades dele por 200 e tantos milhões, agora não sei se era dólar ou real, antigamente era a mesma coisa, agora já tem diferença. Então eu queria participar daquilo, quer dizer, nós queremos... o que vocês acreditarem nós fazemos, manter esse pessoal... Aí acontece um belo dia, eu ganhei na loteria, eu acredito muito em loteria porque eu ganhei uma viagem ao México na copa do mundo, num troço desse, era o (Tex Copa 70?). Compro aquele bilhetinho lá e tal: “Quanto é que é?” “Tanto.” “Toma.” “Qual é o time que o senhor torce?” “Américo Futebol Clube de Belo Horizonte.” “Ah, muito bom.” Eu falei: “Mas você vai sortear?” “Vai, agora _____ semana que vem o Blota Jr., no programa...” Ontem eu estava vendo um cara cantar, ele cantou no dia em que eu fui receber a passagem. Aí, uma semana depois, eu estou chegando na chácara com o meu sogro, um cara, ali num canto, eu falei: “Qual o problema?” “Ganharam no (Tex Copa 70?).” “Opa! Foi sorteado em Belo Horizonte? Torcedor do América nunca _________, só eu.” Porque torcedor do América não é abundante assim. “Sou eu.” “Carlos Nunes de Lima.” “Parabéns!” Fui para o México, com o dinheiro, até de passaporte me deram 50 dólares para... Então acredito nisso. Mas então fui o México, e já era presidente do consórcio. E estava lá na cidade do México e nós fomos de trem para Guadalajara, e eu tinha cartão do presidente do consórcio. Eu fui visitar possíveis compradores de minério. Aquilo foi uma alegria para eles, me pegaram no avião, me levaram para (Monterey?), que seria a siderúrgica nacional, seria a Volta Redonda lá do México, bruta duma instalação, uma reunião lá com produtores de minério de ferro. Todos já, olha só, já ressabiados com a Vale do Rio Doce. Porque queriam fazer o contato direto com ela, sabiam que tinha um consórcio por fora. Porque eram consumidores de 10 mil toneladas, de 5 mil toneladas, e a Vale tem uma exportação, quando ela passou para navio de 100 mil, 150 ou de 300 mil toneladas, queira ou não queira ela varejou, caiu no varejo lá. Quer dizer, ninguém vai consumir um navio de 300 mil, engolir aquilo e pagar caro. Aquilo deve ter um troço lá. Então é melhor chegar lá, por dez dólares? Por 50 dólares, sei lá quanto, e aquele que vai ficar estocado: “Eu quero 200 gramas de tomate.” Vai pagar mais do que quem compra uma tonelada de tomate. Então eles estavam sacrificados por isso, quer dizer, estava havendo o... Eu não sei, eu não discuto isso não. O fato que nós levantamos lá... eu trouxe do México sete possíveis importadores, já com a formulação do pequeno contrato. Os preços seriam da época. Paralelamente foi de férias o Sérgio Jacques de Moraes, que era um dos papas da... advogado das empresas de mineração, conhecia profundamente a maquinada do departamento de nosso banco de produção mineral etc. E ele foi de férias para a Europa, eu para a América do Norte. Eu para cá, e ele para lá. E ele fez a mesma coisa também: “Eu sou advogado de consórcio.” Olha como é que é, qual é o impacto, quer dizer, todo mundo ressentindo aquela situação da Vale, quer dizer... E havia um porto, Porto do Paú, que estava ocioso, porque não entrava minério sempre. Então se tivesse tido boa vontade, nós teríamos funcionado muito bem e desenvolvido mais ainda a mineração de ferro na região de Minas. Porque foi, foi, foi, chegamos a ir no CADE: Conselho Administrativo de Defesa Econômica, senadores, mineiros discutindo... Foi um negócio muito sério, de prisão até, prenderam um consorciado nosso aqui do gabinete da Companhia, porque esse também era um... te falei? Se quiser ouvir desgraça da Companhia vai ouvir Anibal Moura. Esse cara não tinha papas na língua, ele falava demais. Aí chegou lá no escritório no meio do Marechal Lindenberg, no meio de coronel não sei de que, ele desacatou todo mundo. E eu trabalhando no Rio já, no escritório fazendo metrô. Estava na Ecel aqui, e esse rapaz um dia procura, ele sumiu! Aí foi descobrir ele no Dops, estava trancafiado, trancado no Dops. Quer dizer, chegou a esse ponto, né? Mas foi uma pena porque seria um... agora hoje é Itabira que sofre com Carajás. Quer dizer, hoje se você tiver dinheiro você compra tudo que a Vale do Rio Doce tem em Itabira, tudo isso aí que ela vende. Tem a usina de beneficiamento de itabirito, pouca coisa faz, porque o filet mignon já foi, a parte aflorada... não sei se eu cheguei a dizer outro dia que se eu fizesse um quadro, um quadro eu ia pintar isso aqui. Eu cheguei a falar da cota 1.100?

 

P/2 - Falou.

 

R - O pico era 1.363. Quer dizer de 1.100, dizem, eu não vou lá... eu tenho que ir lá ver se eu vou ter a via artística ou se eu vou cair duro lá dentro do buraco! Segundo a minha sobrinha, diz que eu tenho que tomar aquele remédio da língua, porque eu contei um... dizem que o que tinha acima de 1.100...1.100 para 1.363, tem 263 metros. Nós fizemos no nível porque aqui teria sido o lugar ideal, tinha que vir 1.200 lá. O primeiro estudo foi 1.200. Depois baixou para 1.100. Também agora tem 263 metros abaixo dos 1.100. É um buraco lá onde se tira minério para levar, subir. Então deve ser uma agonia. Então, tudo de bom já saiu. Agora só tem Itabirito, que é um minério mas friado, tem mais sílica, que a Vale do Rio Doce beneficia lá em Itabira com a usina, ______, ou então o pó, o pó que vem para a pelotização aqui em Vitória.

 

P/1 - Doutor Carlos, esta proposta do consórcio foi levada para a diretoria da Vale, qual era a argumentação para não se aceitar?

 

R - Cartas. Cartas bonitas, não sei o que. Mas aquilo lá é só pró-forma. Cozinham o galo. Eu não sei se eu tivesse na Vale também eu não quisesse agir dessa maneira. Você entendeu? A gente pensa, a gente fala muito e diz assim: “Se eu estou do lado de lá talvez eu também não concordasse. Acho que foi ontem que eu falei isso, ou na viagem de Guarapari para Belo Horizonte, comentando com meu filho não sei sobre o que, que eu meti o pau, depois eu passei para o outro lado, falei: “É contra minha opinião”. Depende do barco que você está. Quer dizer, se eu estivesse realmente dirigindo a Vale do Rio Doce, enfrentando esses empreiteiros, talvez eu tivesse agido dessa maneira: “Vamos lá, vamos cozinhar esse pessoal, não podemos deixar eles crescerem muito não. Vamos levando.” Mas eu daria uma chance para eles. É uma pena, porque faliu, todo mundo quebrou, uns já morreram, outros desanimaram. E eu não perdi nada, era só coordenação, né? Mas fez muito castelo. Fizemos muito castelo. Mas teve um envolvimento muito sério, depois disso o consórcio não desanimou. Eu tive promessa do (Andreaza?). Eu estava no Rio aqui, então eu estava ligado a todo mundo aí, tal, antes de Brasília, que depois eu fui para Brasília. Eu estive com o (Andreaza?) pessoalmente e chegou numa época eles nos deram a Leopoldina. Mas investimento terrível, né? Consertar a Leopoldina, que a Leopoldina veio até Vitória. Então eles desembarcariam pelo Rio, chegando por Vitória ou então chegava pelo Rio. Tinha essa opção. Estudamos, corri toda a linha da Vitória-Minas com os engenheiros lá... da Vitória-Minas não, da Leopoldina. Mas não era possível. E foi-se uma história, e eu estava comentando lá em casa outro dia, até juntei nos meus papéis o contrato da minha última ligação com a Vale do Rio Doce, das minhas ações da Docenave. Eu fui chamado pela Vale, perguntei a todo mundo se eu venderia ou não. Falaram que o valor chegava a 4 mil, se valia a pena vender, qual seria o interesse da Vale em comprar tudo. Nem meus amigos lá, disseram: “Eu não sei, doutor.” “Valia um e 50, ela está oferecendo três e 50, vale a pena o senhor vender.” “Todo mundo está vendendo.” Eu falei: “Mas qualquer negócio que houver aí eu não vou viver para ver. Com certeza”, eu falei, “vai ter um jogo aí...” Mas hoje o que eu estou sentindo... Eu estive, quando houve essa queda de bolsa outro dia, eu recebi em minha casa um expert, disso lá em São Paulo, estava agoniado, porque esse povo que mexe com altos negócios... Então ele estava me contando que esse mundo: Vale do Rio Doce, Samitri, Siderúrgica Nacional, Belga-mineira, está havendo um troca-troca aí tremendo que eu nem quero saber. Vai haver muita coisa nesse... Até, aliás_____: “Você vai cobrar cachê desse trabalho que você está fazendo lá porque estão aproveitando você para vender.” Vender...(risos) a companhia. Mas é isso...

 

P/1 - Por que que o senhor tinha ações da Docenave?

 

R - A Docenave foi o seguinte: a Vale do Rio Doce, quando destituiu a Docenave, ela distribuiu um prêmio para os empregados. Tanto no departamento de estrada no Rio de Janeiro como em Itabira, ela abriu o capital, era assim: 2%, não sei o que. Então era quase como um prêmio, preço especial, descontava no ordenado, pagava menos. E eu, como sempre as coisas tudo eu fazia assim: “Vamos fazer!” Olha o... como é que chama?: o biscoito de polvilho, aí. (risos) Eu animado. E aí eu, passava uns meses, o pessoal: “Doutor Carlos, _____, o que que faz, que que vai nesse troço?... Ação da Docenave? O que que é isso?” Eu falei: “Então me dá.” E ia comprando, fui comprando, fui comprando, e eu fiquei bem aquinhoado da Docenave. Mais por necessidade, certa época eu casei três filhos em um ano só. Eu me lembro que eu vendi 14 mil não sei quanto. 14 mil dinheiro eu vendi umas ações. E fiquei com os filhotinhos lá. Depois fiquei, no final vendi, era mil e tantas ações, 1. 400 e tantas, vezes dois, que era (Docepar?) e Docenave. Mas era prêmio, na verdade o cara me falou o seguinte: “Doutor, o senhor está querendo aí, tudo bem. Teve um cara de Vitória que vendeu 100 mil, ele vendeu cento e tantos mil reais. Esse era bem vivo, olha só: diz que esse camarada, quando morria alguém da Vale do Rio Doce, ele ia procurar: “Você tem Docenave. Você tem ação da Docenave?” Porque era um troço que a pessoa tinha lá: “Mas seja o que Deus quiser.” Guardava. E descobriu muito cara que morria e largava aquele troço sem valor lá. No entanto, dava um dinheirinho para o sujeito, transferia. Juntou um dinheirão: 30 e tantas mil ações, pegou cento e tantos mil. Ele me contou esse caso: que morreu fulano, vai lá que deve ter papel guardado da Docenave, que não acredita mais. Então é dinheiro para ele. E com isso ele juntou. Vamos ver o que vai virar isso.

 

P/1 - Não quer contar aquele caso do navio?

 

R - Do navio? Do ____, já? O ____ foi… O nosso Porto de Paú. A Vale do Rio Doce já começando a crescer, era 15 mil toneladas, 20 mil toneladas, 25 mil era o máximo. Eu acho que houve um navio de 35 mil. Aí aparece o navio aqui, anunciado com bastante tempo, que viria um navio carregar com 45 mil toneladas. seria a maior proeza da Vale do Rio Doce. Até entrar de lancha dentro de Vitória é perigoso, porque aquele canal lá é estreito, imagina um navio de 45 mil toneladas. E aquilo vai numa festa tão grande, que nessa oportunidade veio um grupo da sociedade dos engenheiros e eu vim com esses engenheiros para essa festa. Era uma data qualquer e um dos eventos seria esse carregamento desse navio. O navio chegou com 45 mil toneladas de lastro de água, segundo a voz do comandante do navio, batemos vários papos. Não sei se... não me lembro se era tradutor, ele falava espanhol, qualquer coisa. Também não me lembro a bandeira do navio. Mas ele entrou, morrendo de medo, nos confessava que deixou só 15 mil... deixou 10 mil toneladas de água no navio, entrou com ele carregado com 10 mil toneladas. Então ele carregaria 35 mil, e ia soltando a água no Porto, para inteirar os 45. Foi aquela festa bonita, entre coquetéis e coisa... A festa bonita, aquelas correias: Brrrrrrrrrr, minério adoidado, um bruto de um navio. E ele foi, foi, foi, foi, quando chegou no 35 mil, falou: “Pára.” “Mas tem a água. Agora pode descarregar a água.” “Nunca. Eu vou sair com esse navio assim.” E fomos para o navio, lá por cima. Navio bonito, esses navios de minério mesmo assim eles tinham um conforto danado. Uma vez eu até quis levar o Valeriodoce para jogar lá na Europa, numa excursão. Coloquei o Ademir Menezes, que era antigo, para ir ao Valeriodoce, para chamar atenção. Quase que fazemos essa viagem de navio. Porque tinha uma das firmas compradoras que tinha um timaço também lá. “Então vamos fazer um intercâmbio.” Até isso o doutor Carlos inventou lá: levar o Valeriodoce num navio de minério. Porque tinha um lugar bom, lugar bacana para dormir, um refeitório. E aí nós fomos beliscando lá os aperitivos, o navio foi saindo e ele jogando água fora! Com medo de sair com as 45... ele estava 35 com... 35 eu falei, né?... 35. E 10 mil! Ele não quis sair, ele foi jogando água fora, foi jogando, ele deve ter saído com uns 35, 37 mil, não me lembro. Quando ele estava lá fora na barra, ele fez um verdadeiro carnaval: juntava as mãos assim: “Deus não há de permitir nunca mais eu entrar neste Porto. Um navio tocado por mim, não voltarei aqui. (risos) Não adianta se for 20, 10 ou 5 toneladas não volto aqui de novo.” Era um senhor estrangeiro lá, não me lembro. Então, essas são passagens da companhia que eu acho... dou parabéns a ela fazer essas coisas, porque um negócio desse vai ficar arquivado. (Amanhã?) tem uma história curiosa: o primeiro navio que veio carregado de porte teve essa passagem anedótica que o homem jurou que nunca mais punha... não é os pés, não, é o...

 

P/2 - O casco.

 

R - O casco. (risos) Porque o canal... você sempre está evitando, um barquinho assim você fica com medo. É, eu me lembro quando eu vim de Manaus, __________, era praxe do _____ brasileiro aquelas pedrinhas, assim, no convés, para o sujeito jogar na pedra, nunca ninguém chegava na pedra. Porque era longe, aquela rocha, aqui, rocha aqui. Então dava as pedrinhas para você ver se consegue jogar na... Porque a sensação quando você jogava a pedra, ela batia no morro mas não chegava não, porque... dava, dava impressão, e mesmo assim ainda tinha o canal para passar...

 

P/1 - Isso antes do Porto de Vitória, né?

 

R - No Porto de Vitória, porto antigo.

 

P/1 - O porto antigo, Paú, né?

 

R - O porto que nós convivemos aqui por muitos anos, porque... Interessante, sempre tem a reação. Me lembro Vitória, Vitória sempre foi um lugar muito pitoresco, né? E as praias daquele lado, Camburi, caminhando lá para Jacaraípe, tal, e inventaram o Porto do Tubarão lá, né? Quer dizer, ela aqui tem um porto em Vitória, que era Vitória para o lado de cá e o porto do outro lado. Então, o trem chegava... porque Vitória era ilha, né? O lugar, a cidade, era ilha ligada ao continente. E o porto era no continente, como em Santa Catarina, né? E o povo ficava horrorizado com aquela poeira de mina, que ficava perto. Pó, jogava pó, xingava a Vale do Rio Doce. Aí foi para o Tubarão. Aí só que o negócio em vez de ser 40, 50 mil toneladas, era 200 mil toneladas, o troço era muito maior lá. E agora mesmo eu passei... além do carregamento de minério da Vale do Rio Doce, tem a usina siderúrgica do Tubarão, que é um outro grupo, um grupo gaúcho, né? Que é tudo na ponta do Tubarão, quer dizer, prejudicando aquelas praias mais perto. Porque o navio... como é que o navio ia sujar? Pó de minério suja mesmo, esse vai longe. O ________ é muito fininho, embora seja pesado, mas ainda voa bastante, né? Mas é o seguinte: são os navios, muito navio. Aquela várzea de navio... você vai, por exemplo, Jacaraípe na Bahia, agora há pouco tempo, a gente sai com o pé da praia todo pintado de preto. “O que que é isso?” “É limpeza de navio lá fora. Aquele pixe vem, e pára nas praias... nas praias não, dentro da água, você sai com o pé todo sujo.

 

P/1 - Doutor Carlos, o senhor comentou a respeito Vale, do consórcio, do metrô, Hidrocer, que tipo de outra atividade o senhor foi fazendo nessa... depois que deixou a Vale?

 

R - Bom, eu quando deixei a Vale do Rio Doce, eu tive quase entrando para um grupo concorrente dela,  que era a MBR, onde até o próprio Eliezer foi diretor. MBR, ligado ao grupo do Amin, que era já _______, né? Lá da Serra do Navio, do manganês, eu quase que estive indo para lá. Mas entrei nessa Companhia. Mas entrei nessa Companhia (Ecel?) quando vim para o Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, interessante, eu estava para alguém há pouco tempo: o carioca, o cara que nasce no Rio, ele pode mendigar, mas ele vive feliz. Agora um sujeito de um certo gabarito que vem para o Rio de Janeiro se ele não ganhar muito dinheiro ele não vive. Então eu vim para o Rio de Janeiro trazendo dois filhos só porque já tudo assim é casado, cinco filhos já estavam casados. E ganhava bem. Era cerca de 12 mil, o dinheiro da época. Era um salário bom. Tocando a obra lá da refinaria Duque de Caxias. Todo projeto de parafina foi feito com a minha presença lá, com essa construtora (Ecel?), que teve o melhor consórcio aqui no Rio de Janeiro do metrô que era o (Essicel?). Nós tocamos o trecho da estação Pedro II até o Largo da Carioca. Depois que eu saí daqui deve ter feito outros trechos. Mas, por incrível que pareça, o que eu ganhava não dava para viver no Rio. Para viver bem e economizar também. Porque as tentações do Rio são muitas, então você não pode...  O carioca se vira, e vai para o futebol, e vai para a praia, e vai distraindo etc, sei lá como vive. Agora eu não conseguia viver. Pagava um colégio caríssimo dos meninos lá da Laranjeira, e... morava na Rua Toneleros ali. E eu queria ir para o jockey clube, nessa época eu entrei numa pata de um cavalo lá, quer dizer, tinha um dono da pata do cavalo... o dono de duas patas era eu, e eu e um outro, um dono de uma pata, o outro dono da outra. Então acontece que o dono das outras duas patas era dono da Coca-Cola. Então o que ele queria comprar para o cavalo eu não tinha na minha casa. Porque a cenoura dele era especial. Eu queria ir lá ver o cavalo, pegava a cenoura e levava para casa. (risos) “Eu vou dividir com o cavalo” Era o Manacor, foi recordista 2400 metros. Depois quando eu fui para São Paulo, interessante é que eu fui... Meu mais novo, ele era apaixonado, ele que me viciou no cavalo. Era apaixonado pelo cavalo. Ele chegava nas baias, assim, o cavalo não mexia nada, impressionante. E quando em São Paulo então nós dedicamos ao cavalo, sobre a minha responsabilidade. Mas ganhamos tudo, ganhamos 2.400 de terra, sempre areia, sempre pesada. Sabe que isso é importante no cavalo: o cavalo que nasce filho de grameiro, é bom de correr na grama, o filho de areia pesada, é bom de... Se o pai era bom de areia pesada, ele corre bem em areia pesada. Cavalo que corre em areia leve... Ah! Distâncias maiores: cavalo que ganha 3.000 metros, faz carreira boa de 3.000 metros, os filhos dele correm distância maior, quer dizer, levam fé nos 1.000 metros, 1.200, 1.300, 1.600. Isso tudo eu ficava por dentro. Alguém dizia: “Pô, você podia ganhar  muito dinheiro, você tem tanta sorte.” “Não, eu gosto mais do convívio com os cavalos.” Mas então, eu estava dizendo: no Rio de Janeiro eu vivia feliz! Mas nunca perdi um teatro! Nunca perdi um jogo internacional, um basquete, um vôlei, eu era elétrico. E o dinheiro não dava. Não dava mesmo, porque era muita coisa para atender, né? Quer dizer, eu não era um carioca de praia, de escola... eu frequentei escola de samba aqui, escola de samba eu fui: “Qual é a que ficava mais perto?” “A Mangueira ou Portela.” Eu quase que era presidente dum troço desse, porque eu frequentava a escola de samba também, era tudo. Aliás tem uma _____ aí que é da escola de samba. É importante a minha entrada na escola de samba pelo seguinte: eu dei esse depoimento num... era um contínuo nosso no escritório dela. Então um dia chegaram para mim e falou: “O senhor vai ser o...”: eu fui eleito cidadão-samba. Falei: “Cidadão-samba?” “Não sabia que isso era do samba.” “É uma escola de samba aqui, tal, na Cidade Jardim.” Eu tenho até uma placa muito bonita que eles me deram, está lá na sede, tem umas ampulhetas grande lá dessa homenagem a mim, quando eu fiz 70 anos fizeram uma festa para mim. Eu consegui fazer uma bruta duma sede lá para eles lá. Consegui com o prefeito um terreno que estava lá, a escritura do terreno está lá a única sede: Grêmio Recreativo Escola de Samba Cidade Jardim. Fui 12 anos presidente, 11 anos fui campeão lá da cidade. Era minha função lá. E fui talvez em Belo Horizonte o único, o primeiro que pus as clarinhas lá na escola de samba dos pretos. Porque esse negócio de racismo é mais de lá para cá do que de cá para lá. Quer dizer, o preto tem racismo contra o branco. Quer dizer, ele não aceita muito o branco. Então a escola de samba... as minhas filhas, as namoradas dos meus filhos, frequentavam a escola de samba, começaram a dançar e aí o diabo ficava aceso. No fim, criamos a ala universitária da escola de samba. Aí deixou o branco entrar. Hoje até japonês faz escola de samba. (risos) Mas depois da minha atividade, depois... aqui... eu saí, fui para São Paulo. Saí ganhando três ou quatro vezes mais, foi minha grande carreira em São Paulo. Fui para a Caderneta de Poupança Continental, que era ligada a um irmão meu. Ele estava apertado, precisando de gente honesta, porque o negócio era grande, poupança, construção habitacional, BNH, aquelas coisas. Então eu fui para lá. Aí fiquei em São Paulo 20 anos.

 

P/1 - 20 anos?

 

R - Aí me mexi lá, fui para a Continental, fui até inspetor de basquete. Tinha um timaço lá na Continental. E eu fui diretor, as obras todas do interior eram minhas. Eu conheço mais São Paulo do que Minas Gerais. Porque... tem um fenômeno muito interessante: o BNH vendia as casas... casas pequenas, apartamentos etc, aquele sistema. O cara pagava para nós a promissória e tal...

 

P/2 - Só um minutinho.

 

[pausa] 

 

R - Na época que nós estávamos em Belo Horizonte trabalhando com Interplanos, quer dizer eu era... um cargo, assim, muito... era papel, fazer projeto em Belo Horizonte. E uma vez em Itabira. Conferia lá, prefeito via. Houve até um mal estar, eu sei, que ninguém me falava não, mas falaram que eu dei pouca atenção. Mas não precisava, eu tinha consciência que a coisa estava correndo bem. Então tinha um rapaz... foi 1959. 1960? Não, Brasília foi inaugurada em 1961, né? Sei que a gente estava nos 60. Tinha um engenheiro que estava ainda em Itabira, ele me chamou um dia em Itabira, falou: “Carlos, eu estou apertado.” Doutor (Laércio Ronald Gomes da Costa?), foi aposentado agora com um alto cargo no Departamento Nacional de Produção Mineral, um dos engenheiros de minas. É o tal que foi para Kiruna, na Suécia, e nasceu a primeira filha dele lá. Foi no meu lugar, porque eu não era engenheiro de minas, não pude ir. E ele falou para mim assim: “Olha, o Juscelino quer que eu volte lá para Brasília. E eu não tenho coragem. Você topa nós formarmos uma firma e ir para lá?” Eu falei: “Não fala duas vezes não. Eu gosto é de aventura mesmo.” Tinha uma passagem muito interessante quando eu saí da Vale, sabe que eu... quase que eu ia lá para o... para aquele doido lá do Jarí, projeto Jarí. A minha mulher falou: “Pelo amor de Deus, nós já sofremos tanto em Itabira! Aquela coisa começando, não sei o que, você quer ir para o Jarí?” Quase... eu fui entrevistado, o cara ficou doido comigo, mas o freio da família me prendeu e eu não fiz força, senão eu podia ter ido. Mas, então, esse rapaz, doutor (Laércio?) me chama, nós tivemos uma reunião lá em Itabira. Ele era de Belo Horizonte. Ele falou assim: “Você topa ir mesmo?” “Topo.” “O Hélio,” amigo nosso, ele é advogado, “ele vai preparar um contrato, tal, Juscelino não abre mão, fala que eu tenho que estar lá. E eu estou aqui cozinhando.” Ele era importante lá em Itabira. Menino muito simpático, adoravam ele, ele estava me contando no Rio, essa vez agora... Foi bom dormir aqui, porque eu passei a noite com ele, em Diamantina, eu e Fernando, nós dois fomos para lá. Ele falou assim: “Vocês vieram, só que eu vou viajar amanhã para Ouro Preto.” A mulher dele é de Ouro Preto. Vai lá ver a velha, a sogra dele está com 90 e tantos anos. Então ele disse assim: “Pena, porque senão nós ia beber tudo até amanhecer, até você ir para o avião.” Porque ele é diamantino, e bebia uma garrafa de cachaça com a maior facilidade. Mas é bom, um príncipe. Menino muito bom, bom demais. Então ele falou: “Vamos.” “Vamos!” Aí de cara, e gente já topou Israel lá, meu amigo, meu padrinho, tudo. “Doutor Israel...”. ele ficou satisfeito, e nós começamos. Pegamos o Ministério da Agricultura. Você imagina. E eu que tinha a cancha. Ele não, porque era mais... engenheiro de minas. Eu tinha uma boa cancha já. Então tem uma passagem fantástica. Isso não é para a história da Vale, mas para a história do Niemeyer... Outro dia quase que eu escrevi para ele quando eu li um livro dele. Lembra essas coisas, lembrar essas coisas, porque tem passagens do Niemeyer comigo fantásticas, eu convivia com ele lá em Belo Horizonte, quando era estudante, estava terminando o curso da Pampulha, né? Então eu vou encontrar o Niemeyer lá. E por sorte o meu ministério era aqui e onde ele acamava lá era num outro ministério da frente, não sei qual era ele. Então de lá ele fazia sinal para mim. Pois bem, veja como é que foi Brasília: tudo estrutura de ferro. Ele falou: “Mas Carlos, eu não estou vendo esses projetos aí. Como é que vão fazer as escadas de ligação de um andar para o outro?” Eu ali também não tinha. (riso) E os engenherinhos todo nova carne, todos estava começando, tudo gente nova, tudo com ideal. Ali houve a Catedral, é impressionante, ali houve realmente muito ideal. O Juscelino foi um monstro em construir Brasília com essa rapaziada nova, quer dizer, amigos dele, que entraram naquele barco. Porque nós não tínhamos condições, mas punha dinheiro nosso nas obras de Brasília. Porque faltava dinheiro às vezes. Então o banco: “Não, dá um cheque sem fundo”, não sei o que, fazia aquela jogatina toda, quer dizer, empenhava tudo. E por isso que ele não levava as firmas grande. Que uma firma grande lá a primeira falta de dinheiro parou a obra. Ah, ele não conseguia parar a obra, era o que? 6 horas da madrugada ele estava correndo as obras. Então nós fomos para Brasília para o Ministério da Agricultura. Mas era um tal negócio das escadas. Eu falei: “Niemeyer, fala para os seus engenheiros que depois que criaram a solda de oxigênio e o maçarico, não tem problema. Quer dizer, está uma viga aqui, outra aqui, fura lá, solta três ferros, e pronto, já tem o seu...” “Olha, é mesmo, eu vou dar um sabão nesse mineiros.” Então era essa vida, o Niemeyer um dia nós se encontramos no Congresso pronto, ele falou: “Mas essa é uma bandalheira, né, a gente trabalha, trabalha, agora tem pôr essa gravata para poder entrar na obra que eu fiz. “Vão tomar banho!” Um sujeito formidável. E tivemos a obra, fizemos a obra do _____ do Juscelino na época. Ele tinha lá... era o Iateclube de Brasília. Mandou dá para nós. Deu uma obra fantástica. Tive a oportunidade de conhecer, conviver com ele aqui no Rio. Joaquim Cardoso. Joaquim Cardoso foi o maior calculista que o Brasil já teve. E ele estava com uns 80, 70 e muitos anos. E era o único que quebrava noites de sono para poder atender o que o Niemeyer queria. Então, a gente dizia assim: “Tem que passar...” O Niemeyer desenhava 20 centímetros, qualquer arquiteto, qualquer calculista, dizia: “Não, precisa de 40 centímetros essa _____.” E ele um dia me chamou lá, esse projeto do iate, imagina o seguinte: eram 20 metros de balanço para dois lados, e 60 metros, um arco, assim, de 60 metros, com 20 em balanço. Era um negócio... vinha um arco aqui assim. 60 vão sentado porque tinha... a água do lago entrava aqui por baixo, e 20 de balanço para cada lado, era 100 metros. E esse fecho do arco tinha que ser de 20 centímetros, e o coitado do Joaquim Cardoso suando porque calculava, o cara chegava nos 30 e tanto, 40, 50. Aí um dia ele me chama: “Aqui no Rio...” Ah, antes... já tinha começado a fazer a boate, a boate estava independente do prédio, _______ estava fazendo, então estava sempre em contato com ele. “Doutor, as fundações já estão prontas.” Eram quatro apoios para 100 metros por 20, quatro apoios de 20 por 20. Só imagina. Coisa louca. Era só fera que saía dali. Aí ele me chamou no Rio, falou assim: “Eu...”, a gente sentado no meio de uma sala, numa cadeira assim, velhinho. Eu falo, assim, velhinho, naquele tempo talvez não fosse. Eu sou velhinho, mas não me considero, né? Então, eu cheguei, ele estava lá com uma folha de ficus benjamim, aqueles fícus, que tem uma nervura... sabe essa folha forte? Esses fícus. Ele pegava a folha aqui, a folha fazia assim. Ele falou: “Olha aqui. Está vendo essa nervura aqui? Vamos ter muito trabalho, mas a solução é essa. Para atender o doutor Niemeyer, eu sou obrigado a fazer esses caixotes perdidos, mas é igual essa folha aqui, sai esse principal aqui, você vê que sai esse para cá, sai esse para cá, depois desse sai para cá...” Aquele rendado, olha uma folha que você vai ficar impressionado. Nunca olhou isso. Mas olha uma folha desse fícus, você olha o rendado dela por baixo, quer dizer, o caule principal, assim, aquele negócio, e aquilo sai tudo assim, ramificando e cruzando em uns quadrados, até a pontinha. Então o senhor vai trabalhar com isso para cá, o outro para lá, é o jeito de eu passar _____. E aquilo dava até um calafrio para a gente. A obra não foi para a frente. Não precisa dizer que o Jânio parou a obra no começo. Nós fizemos muitas obras, aquelas passagens bonitas, ambiente formidável, Brasília foi... Porque também era nessas folgas do serviço. Estava lá _____, chegava quinta-feira, em Brasília, trabalhava lá noite e dia. Esse doutor (Laércio?)... cara mais feliz, sete horas da noite ele chegava para começar a trabalhar. Eu falava: “Você é doido! Eu não viro a noite de jeito nenhum.” Ele entrava às 7 horas e faziam um turno de 7 até 6 horas da manhã. Fazia aquele... Levava gente de Itabira, quando... A gente, depois de muitos anos de vida, a gente... que eu acho Minas Gerais, região de Itabira, região dos quadrilátero ferrífero, que é cercado de Serra para todo lado, é a pior região de cabeça de Minas Gerais. São tacanhos, mas míseros tacanhos. O pessoal que nasce em Belo Horizonte, o pessoal que nasce naquela região toda de Serra, aí um sujeito falou: “Mas é natural, doutor.” “Porque o cara nasce criado na porta da cozinha dele, vê um morro na frente, não tem horizonte. Chega na porta, olha na porta da rua dele, é outro morro na frente. Então esse cara nasce derrotado. Diferente do Triângulo Mineiro, que é regime de colinas. Então lugares abertos.” Então nós chegamos em Brasília... o sul de Minas, aberto completamente, o Triângulo Mineiro, a região do baianeiro, quer dizer, a parte do mineiro com a Bahia, é outra cabeça, a parte da Zona da Mata aqui, divisa com Juiz de Fora, (Ubá?), essa região, aquilo deve ser bonito, deve ser de lá, terra do Ari Barroso, aquela visão toda. Aquilo tudo pensa grande! Magina,  Belo Horizonte, nós somos melhores que ______ sempre se contou papo que era melhor que Belo Horizonte. Então era isso, tem razão, porque... Belo Horizonte cresceu, ainda é uma senhora roça na, mentalidade. Hoje já tem indústria de moda, tem coisa, mas ainda é mesquinho. O povo nasce mesquinho porque a natureza... esbarrou da serra. Então levava esses caras lá para Itabira, eles falavam: “Doutor, aqui a gente vê a chuva chover.” Ver a chuva chover: que expressão. Porque você estava vendo um lugar... tinha lá 40 quilômetros, você estava vendo aquele mundo de chuva caindo. “A gente via a chuva chover, Doutor”. Mas foi uma época muito boa Brasília. E eu pegava essas escapulidas, né, passava a semana, o Laércio também, ia para cá. E nós fizemos uma casa preta lá, essa é que é a história. A história de Brasília é essa casa preta. Devia ter... só não foi o presidente da república lá, que era o Juscelino. Mas ele conhecia a casa preta. A casa preta era assim: nós compramos um lote de uma projeção daquela. Caro... hoje deve valer uma fortuna já, mas jogamos fora, vendemos. E para construir o barracão de obra precisava apresentar o projeto. Apresentamos o projeto para a prefeitura e construímos um senhor barracão lá. O barracão era de tábua por fora, assim, pichado de preto. Lá dentro era o maior luxo, decoração finíssima, jardim de inverno dentro, aquela coisa, tinha um cozinheiro que eu levei de Belo Horizonte, que era fantástico. Porque tinha que ter isso, tinha que ter vida boa, né? Então aí nós fazia aquelas festas. Tinha uma feijoada que pegava sábado de tarde, acabava domingo de noite. Emendava a noite toda a feijoada. E isso não era só... a construtora chamava Construtora Nova Deli. Não sei por que Laércio arranjou essa história de Nova Deli. Porque estavam construindo na época a capital da Índia, estavam construindo uma cidade nova para a capital. Então ele falou: “Vamos pôr o nome de Nova Deli?” Ele que colocou o nome de Nova Deli. Tinha um prestígio danado. Eu era colunista, tinha uma dona que assinava lá, Pitucha ou Catucha, sei lá, então nós estávamos sempre na coluna social lá porque eu que fazia as coluna social lá para ela, ela só assinava. Imbecil lá, sabe? E eu fazia tudo. Então foi uma época muito boa, a convivência de pessoa arejada, fantástico lá em Brasília. E o dinheiro era secundário, por incrível que pareça. Aí essa época a Vale do Rio Doce começou a fazer _____, eu apelei tudo para o presidente da Vale. Eu falei: “Doutor Lessa, mas esse povo não abre mão dos conchavos? Não sei quem que fez aquilo, quem ganhou dinheiro. Eu sei que eu estou aqui em Brasília, estou com uma empresa, não quero construir _______, mas quero que não se faça bobagem, não se roube, não fazer nada contra a Vale. Eu estou em Brasília, toda semana eu venho aqui, quando no máximo eu passo 15 dias, estou aqui presente, estou com obra, estou com conhecimento de tudo. O senhor me ponha na direção dessa obra da Vale, para fiscalizar aí esse _______.” Não queria fiscalização nenhuma e até... Depois virou até um Ministério de Minas e Energia, que não estava programado para ser ___________. Então era enrolado, ______________. Mas em Brasília era um negócio tão fantástico que a gente... Tem uma passagem muito curiosa comigo. Eu frequentava _____ o _______, casa de Israel, festas. E um dia houve qualquer coisa na casa de Israel, eu fui lá. Não, minto. Antes. Eu passando de caminhonete na rua, todo mundo: “O senhor vai lá para a ______ dos Ministérios?” “Vou.” “Então o senhor me leva?” “Levo” Aí eu trouxe essa senhora. Aí eu de caminhonete, sujo, trabalhando. Quando chego aqui: “Está bom para a senhora?” “Está bom, muito obrigado.” Aí pegou um trocado e me deu. E eu fiquei sem jeito de dizer para ela: “Não, a senhora está... eu sou engenheiro, estou no meu serviço.” Eu fiquei sem graça. “Se eu disser que eu estava passando, estava tratando... não vou receber isso, ela vai ficar ofendida. Eu vou receber.” Ela me deu o dinheiro porque ela __________. “Muito obrigado, Deus pague o senhor.” Ela era nada menos que a senhora do Ministro da Casa Civil. Esqueço o nome dele, era um cearense, peça fina também. Aí estou na casa ______ de noite, numa festa, a dona esbarra comigo. Ela olhou para mim: “Eu conheço o senhor.” Eu falei: “Eu dei uma condução lá para ____” Ela falou: “Pelo amor de Deus, o senhor me desculpa.” (risos) “Mas eu é que peço desculpa, porque eu não ia dizer nunca para a senhora que eu não era o que a senhora estava pensando, não era um motorista comum, era um engenheiro que estava lá trabalhando.” Mas ficamos muito amigos, era senhora... esqueço o nome dele... do Ministro da Casa Civil. Então isso era lazer. Quer dizer, eu me lembro dessas recepções, as meninas que iam do Rio para lá, dos (IAPB?), (IAPC?), (IAPTEC?), tinha uns que faziam os prédios aí. Elas ficavam lá com a gente. Aí de vez em quando tinha... me lembro um engenheiro com uma namorada. E eu não ia sair para o mundo não, mas não era casado, ainda tinha aquelas brincadeiras, assim, fazia as festinhas, participar das festas, até um certo limite. Mas o meu engenheiro pegava as meninas daquelas lá para fazer programa, para passear, aí quando chegava, ___________: “Ah, não é possível, me leva, não queria ficar aqui nesse troço.” Não tinha condução. Foi um sacrifício para essas meninas virem para cá. Mas tudo... arma a cama, então amanhã vamos trazer outra cama, e vem, traz tudo para lá, e levava para o lugar que elas queriam lá. Porque faltava condução para elas. E aquelas empresas todas tinham gabarito, gastava adoidado, tinha que gastar, né? Eu nao sei se eu contei esse caso do doutor Israel Pinheiro sobre Brasília. Um homem de muita coragem porque diziam que roubavam em Brasília. Claro, roubam em qualquer lugar. Em Brasília teve aquele _______(de abuso?). Então, um dia numa entrevista do senhor Israel Pinheiro, o repórter, mais atrevido, perguntou para ele: “É verdade, doutor, que o caminhão entra com o cimento, dá a nota de entrada dele, dá uma voltinha, sai lá pelo portão, vai tomar um cafezinho, dá uma deitada e volta, e entra outra vez, paga mais ______?” Ele falou: “Deve ser.” Falou na televisão, preto e branco. Eu me lembro que era uma televisão preto e branco. “Deve ser verdade. Evidentemente, entre as firmas lá deve ter alguém com a coragem de fazer uma coisa dessa, porque a gente ouve falar. Nunca podemos pegar uma coisa dessa, ou se pegamos, dependendo, consertamos alguma coisa dessas. Agora a senhora dona de casa, que tem uma família para criar, tem a sua casa para cuidar, se a senhora for olhar todo dia se a sua empregada vai levar um pouquinho de café, meia dúzia de batata, leva um saquinho de arroz para o namorado dela, para o marido dela, a senhora não educa seus filhos, e nem constrói o seu lar. Então eu não posso dizer que isso não seja realidade, será apurado, estamos tentando apurar. Agora eu não posso descer a essas mesquinharias de um caminhão de cimento, ou dois, ou dez, ou 20. Ou outros materiais. Então se acontecer... isso acontece, mas Brasília não pode parar por causa dessas pequenas coisas.” Quer dizer, ele é um homem assim. Ele realmente é isso. Porque se vai fazer mesquinharias... Brasília tinha que ser a jato. Cinco anos em... como é que é?

 

P/2 - 50 anos em cinco.

 

R - 50 anos em cinco. Eu aprendi... pena ter sido já numa certa idade, mas a convivência em Brasília me ensinou muita coisa, e ensinei muita para muita gente. Porque aquela é uma escola para todo mundo, o próprio Niemeyer, quando nós estivemos... ele mesmo falou: “Eu estou aprendendo um negócio desse.” Quer dizer, a história daquele cantor carioca aqui, da história do “pedreiro Valdemar, que constrói a casa e depois não pode entrar”. Quer dizer, são... uma marcha carnavalesca aqui. Ele falou: “Eu estou aprendendo com o pedreiro Valdemar. Quer dizer, nós fazemos um negócio desse, um monumento, agora estão me obrigando a pôr gravata para entrar na minha casa que eu fiz.” Quer dizer, hoje já até entra, mas antigamente era proibido, né? Tinha que pôr gravata para entrar naquelas... Mas... Agora, pegando, fora a Vale do Rio Doce, dessa época de Brasília... Bom, depois entrou o Jânio Quadros. Nós éramos visados. Todos nós lá éramos visados pelo ranço do nosso amigo Jânio. Depois fiquei amissíssimo dele em São Paulo, por causa da pedra-sabão. Eu posso tocar nela aqui agora, porque ele dizia: “Se eu estivesse... fosse construir Brasília e construísse vocês, seria um mundo de pedra-sabão.” (riso) Eu falei: “Que bom, hein, doutor!” Doutor Jânio Quadros também é um homem formidável, aquele também é outro, a dona Eloá. Nós criamos três casas para ele: uma lá na praça de praia de Acapulco, depois um apartamento dele que ele vendeu, que era tudo com pedra-sabão, depois uma casa que ele acabou deixando para os filhos, também tudo _________. Tinha um banho separado dele e da dona _____. Importante. O banheiro dela era mais fresco, mais requintado, o dele era mais... mas com pedra... Ele queria pôr na sala, eu falei: “Doutor Jânio, a pedra-sabão ela risca branco, ela cinza, né?” “Mas não, pode pôr.” “Vamos fazer o seguinte: vou fazer um centro na sua sala... essa mesa tem que ficar aqui. Põe pedra-sabão, porque ali é só o pé que... agora vamos fazer o lugar de passear, de passagem, vamos fazer de madeira, no meio o senhor pode pôr carpete, agora a volta da sua sala podemos pôr placa de 50 centímetros de pedra-sabão.” Porque aí que ela risca muito, as pedras, sabe? Tem um cara de São Paulo que arrastou um piano no piso de pedra-sabão, estragou a pedra toda, porque ela é macia, né?

 

P/1 - Mas o senhor foi para São Paulo para trabalhar com pedra-sabão, não?

 

R - Não, depois de Brasília, quando eu estava em Belo Horizonte, antes de ir para São Paulo, com meu filho nós montamos a industrialização paulista.. Por isso eu estou dizendo: mineiro nunca saiu do mineiro. Mineiro fica fazendo aqueles cinzeirinhos, aquelas bobagens de pedra-talco. Aquela pedra não é a pedra-sabão. Aqueles cinzeiros, aquelas bonequinhas, aquelas frescuras, aquilo é pedra-talco, era muito mais... ela conhece bem... é muito mais macia do que a pedra sabão, que podia ser usado na arquitetura. E que hoje, depoi de muitos anos, ainda estão lá com os profetas, está em fase de estudo, como é que vão proteger os profetas lá, porque a pedra-sabão, a intempérie, está liquidando com aquela cobertura dela. Mas nessa época, então, nós fundamos... um paulista idealizou um bocado de coisa que furou tudo, mas nós continuamos. Exploramos a pedra-sabão lá em Cachoeira do Campo, município de Ouro Preto, e até hoje está indo muito bem. Teve uma crise tremenda depois com o dólar. Mas hoje nós estamos com um escritório em Zurique, grupo holandês com suíço, formaram um escritório em associação com meu filho. E outro lá em (Vermont?) na divisa do Canadá. São os pontos... Lá é o... a Suíça brasileira lá, acima do Estado de Maine, né, na divisa com o Canadá. Lá que nós... Acabou a pedra-sabão no mundo. E lá eles acostumaram com a pedra-sabão como refratário, para revestir os forros, as lareiras etc. Então hoje o mercado... essas panelas italianas vieram para cá, um italiano desenhou vários tipos de panelas para nós, que eles queriam importar. Para entrar na Itália foi uma dificuldade porque tem as _____, que é uma espécie de uma... que faz essas folhas de brasilit, eternit, aquilo é um produto... aquele produto existe numa quantidade ínfima na pedra-sabão. Então a Itália rejeitou, com muito rigor. Porque um negócio para comer, como um material cancerígeno, então tinha que passar por exames químicos violentos, até que aprovassem a entrada da pedra-sabão lá como panela. Mas o desenho foram os italianos, que fizeram, vieram para cá. Porque eles achavam muito ridículo aquela panela com arame amarrado, com duas pontas... essas que vocês conhecem, né, dois pedaços de pau, assim, com arame enrolado para segurar a panela. Então hoje trabalha-se com cobre, com aço inoxidável, com vários... refinados, estamos estudando até de fazer com cerâmica, com _____ mais nobre, né? Então, 90% da produção da pedra-sabão é para o exterior. Essa pedra-sabão ficou em Minas e foi, foi, foi, foi. Quando eu fui para São Paulo, não vamos botar muito a época... eu levei a pedra-sabão para São Paulo. Porque vários representantes, ________. Aí eu montei um escritório. Nessa fase eu estive na Hidrocer, de projetos, muito bem recebido pelo (Maksoud?), mas no final aquilo era um exército, por isso que ele fracassou. Na certa era um regime de... eu era engenheiro... crachá vermelho, que era o crachá mais alto, mas você tem que, no fim do dia... já pensou isso? Você tinha que dizer todos os seus minutos de trabalho, onde é que você trabalhou. Quer dizer, de 8 às 9 foi no projeto tal... Porque ele dizia para mim, eu falei: “(Maksoud?)...”(Henri Maksoud?)... “Isso é ridículo.” Ele falou: “Mas quem vai pagar? São esses aqui que você vai pôr. Se você disser que trabalhou duas horas no projeto tal, esse é que vão pagar, não sou eu. Nós não vamos fazer… O dinheiro vem disso” Então tudo era na base da “parte diária”, que chamava. Quer dizer, você tinha que dar onde é que tinha ____ uma hora e meia aqui... tinha que ter os números dos projetos em execução, e aquilo tudo anotado. Mas eu levei a pedra-sabão, foi um sucesso em São Paulo. Eram quadros e... fizemos obras... bancos, muita coisa importante lá. Eu vivi muito. Eu costumo dizer, eu costumava dizer o seguinte, e já falei isso aqui, né, que a minha tendência artística só depois de velho é que eu vim soltar, escrevendo coisas e essa arte de pedra-sabão, que eu tenho facilidade para desenhar, então eu desenhava os portais, lareiras, fiz muita lareira sofisticada. Eu visitei, por exemplo, o Palácio de Versailles, e copiei, tirei fotografia de lareiras, e me inspirava muito naquelas lareiras porque lá em Versailles cada cômodo tinha uma lareira. Interessante Paris, aqueles prédios tudo tem chaminé por todo lado, porque cada lareira é uma chaminé lá fora. Então um prédio daquele, o Palácio de Versailles, tem mais de seis chaminés lá para cima. E os prédios em Paris também, porque tinha um cômodo lá que a chaminé dava para fora, outro... Naquele tempo não tinha um sistema, hoje já pode fazer... juntar uma lareira com a outra. Aliás, a lareira... tem um caso muito interessante lá em Itabira, que o doutor Israel Pinheiro um dia quase que morre queimado na lareira que pegou fogo. Ele queria que eu fizesse a casa da diretoria igual à dos ingleses antigos. E aí acontecia que nesse período tinha uma lareira que dava para o quarto e para a sala. Ele estava no quarto e pegou fogo a lareira. Um fogaréu, ele teve que sair de lá de pijama correndo. Aí no dia seguinte eu falei para ele: ‘Em vez de copiar a coisa dos antigos, vamos fazer o seguinte: vamos fazer uma lareira para a sala e se quiser fazemos outra lareira. Não vamos fazer duas lareiras, uma emendada com a outra, porque senão o fogo de lá vem para cá, não sei separar.” Quase que tomou. mas fizemos a casa de hospedagem em Itabira a cópia da que tinha dos ingleses antigos. Está lá até hoje.

 

P/2 - Doutor Carlos, se o senhor pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória, na sua vida, o senhor mudaria, o que mudaria?

 

R - Na minha vida? Não, outro dia eu li uma coisa muito interessante: que bom se nós tivéssemos o direito de viver a velhice e depois a juventude. Essa eu achei formidável. Quer dizer, você, quando começa a saber as coisas já foi embora. Você imagine você, depois de velho, você pegar sua juventude. Isso eu li escrito num... eu sou bom em palavra cruzada, né, então na Recreativa de Poços de Caldas tem essas coisas formidáveis, livros antigos, como tem aquela do Michelangelo. Eu tenho de um discurso de uma (neta?) que eu fiz, que o Michelângelo perguntava a ele como é que ele conseguia fazer aquela maravilha do mar. “Não tem nada demais. Eu tiro o que está sobrando da pedra.” Formidável. “Eu tiro o que está sobrando!” Então essa também, que é de palavra cruzada, esse cara... são geniais, essa de Poços de Caldas. Procura essa Recreativa. Você gosta de palavra cruzada? Essa aí é difícil, muito avançada, é escola superior (risos) de palavra cruzada. Mas você aprende muita coisa. Hoje eu sou um expert. Eu tenho um genro que é o Nelson Gomes, que é um dos papas da comunicação, da Getec hoje, foi da Globo, diretor da Globo muitos anos, diretor da Globotec. E está sempre... programa das “Pequenas empresas, Grandes negócios” que é da minha filha... eu falei isso, né? Maria Helena Tornovski. Ela é a produtora do programa. Sucesso o programa, disputado, todo mundo, é Banco do Brasil, é Senai, Sebrae. Então, ele fica impressionado como eu solto a palavra cruzada. “Você tem vocabulário para dar e vender.” Meu filho, é recreação de palavra cruzada. Essa pergunta que você me faz: “O que faria para mudar?” Eu falei: “Eu mudaria isso: depois da velhice viesse uma juventude para eu conhecer ela melhor, e poder curtir melhor a juventude e não jogar fora aquela fase tão boa da vida”. Acho que esse é o melhor conselho que pode se dar para a humanidade. Tomara que a gente inverta, faça a juventude chegar depois da velhice.

 

P/ 1- E o senhor tem sonho, senhor Carlos?

 

R - Sonho? Demais. Dizem... eu tenho uma neta, por sinal, que ela acorda e escreve o sonho. “Minha filha, você vai escrever um romance.” Então, ela acorda... formidável essa menina. Sonho, sonho... Eu já sonhei com vocês. Esse negócio é o seguinte né, a preocupação quando dá, eu sonhei com vocês.

 

P/1 e 2 - Mas sonhos para o futuro.

 

R - Sonhos de preocupação. Eu sou muito tenso. Eu me lembro que um dia um médico foi me examinar, ele estava querendo ver o meu ouvido, eu estava dizendo para ele: “Meu ouvido está um ronco aqui.” “Não, mas está tudo bem.” Aí ele me perguntou: “Você fuma?” Eu falei: “Não, graças a Deus, parei de fumar, e não gosto que ninguém fume, sou um antitabagista, violentamente, sou sem educação. Porque o mal dos fumantes... você amanhã vai ser também, sem dúvida, vocês vão ser, todos aqui, vão lutar para que não fume na frente. Porque eu tive experiências, mas nem quero contar, não, porque... eu vi um filme... aquele dia eu parei. Mas então... o que eu estava falando?

 

P/2 - Seus sonhos para o futuro.

 

R - Sonho com cigarro?

 

P/1 - Sonho de preocupação.

 

R - Ah, bom, não, o médico. O médico então me perguntou: “O senhor não fuma?” Eu falei: “Olha, eu devo ter um _____ muito curioso. Parei de fumar... não é por... parei porque eu tive um choque quando vi um filme sobre pulmões, um médico que era meu cliente. E tenho tentado fumar e graças a Deus não aceito mais, não tem mais. Eu mesmo tentei fumar, procurei. Tem gente que volta, né, eu não, tentei e não consegui voltar. E, pelo contrário, estou tomando café adoidado. Ele falou: “Pare de tomar café e volte a fumar.” (riso) Diz ele que o café é muito pior do que... café em abundância, como a gente toma, em escritório, cafezinho, cafezinho. Interessante que quando eu parei de fumar... eu escrevo muito, muito discurso, muita coisa, eu sou fácil. “Escreve sobre isso.” “Eu escrevo agora.” E, na época que eu parei de fumar eu rasguei papel, eu falei: “Eu nunca rasguei papel na minha vida.” Quer dizer, começa a escrever, e embola e joga fora. Papel é aquele mesmo e vai embora e fica, né?  Falei: “Será que o cigarro já estava me dominando?” Porque cigarro excita, excita e abre o seu cérebro, você sabe disso, né? Prejudica o pulmão mas a cabeça fica bem, criativa. Se diz, né? Mas eu parei. Mas sonho, também, dizem que quem não sonha morre, né? Você sabe disso, né? Então, eu sonho demais. Graças a Deus, eu sonho bom. Mas eu tenho hoje... esse meu livro vocês precisam ler, viu, não guarda só ______, mas vai folheando aí, abre assim, você vai ver cada mensagem formidável que vai ter. É mesmo!

 

P/2 - Já vi.

 

R - A família bem criada, eu trouxe fotografia dos meus netos. Vocês chegaram a folhear as fotografias?

 

P/1- Olhamos.

 

R - Era tudo bonito, forte, bonito. Isso é uma glória, né? Qual é a família que não tem um desgraçado fumando uma maconha, cheirando uma cocaína? Eu tenho 40 pessoas no meu contexto: a minha mulher, meus filhos, minhas noras, meus netos, e a bisneta. Ninguém tem o nariz torto. Nem a orelha torcida. E não tem vícios. Tem um lá que começou... metaleiro... já consertou a vida, já está no bom caminho. Isso é uma glória. Porque eu conheço à minha volta pessoas todas enroladas. Há pouco tempo morreu um amigo meu, lá no Retiro da Pedra, tem 15 ou 20 dias. O rapaz sofre com um filho doente, de vício. Acabou morrendo ele, antes do viciado. Tem um outro lá que o filho morreu aidético. Na minha roda! O diretor da Rádio... hoje é o presidente, porque o irmão dele que era o dono da Rádio Itatiaia, vocês devem ter ouvido falar. Itatiaia é famosa, hoje está super... já ganhou uma televisão. O Januário Carneiro era bicha. Quer dizer, o cara tinha o motorista dele, era o dodói dele, a casa em Lagoa Santa, tinha o patrimônio formidável. E o irmão dele, coitado, que assume lá, tem um filho bicha. Quer dizer, é difícil não encontrar um problema perto de você. Eu solto foguete porque não tenho. Então eu sou um homem feliz. E para terminar a entrevista eu só posso dizer isso: “Está tudo bom da vida!” Se fosse começar, eu ia mudar, alguns caminhos eu ia... ia ser com certeza marinheiro, né, que a minha paixão é o mar. E eu estou morando na Serra, né, a 1.500 metros de altitude. Eu realmente tive uma paixão na vida, que foi a escola naval, aquela foi um trauma na vida. Mas eu tenho até, não sei se... acho que eu vi nas fotografias, eu digo para o meu sobrinho assim: “Rapaz, se você não é marinheiro, você vir aqui...”, para receber o espadim dele, né? “Você não é marinheiro, não é de carreira, mas mesmo como um dentista eu me espanto na sua figura, porque ele recebeu com uniforme de... e hoje é capitão da marinha, capitão médico, né? E está lá. E meu sonho era ali. Eu tenho uma fotografia... eu trouxe a fotografia com ele do lado, do dia que ele recebeu o espadim de dentista da marinha. Ele começou a achar ruim, eu falei: “Não acha ruim não, rapaz. Daqui a pouco você está reformado aí, ganhando dinheiro, tranquilo, tratando da mulher dos capitães, intendentes, aí. E daqui a pouco você está muito bem e toca sua clínica particular. Ele está felicíssimo, está satisfeito, tem uma casa, a marinha que pagou apartamento para ele. Estava desanimado porque era obrigado a fazer umas ordens de vez em quando que não era nada dele. Mas é isso, acho que o final do nosso papo pode ser esse mesmo. E agradecer, porque eu acho que a Vale do Rio Doce está fazendo uma coisa, eu estava comentando agora no avião com um jornalista. E que ele dizia mesmo exatamente isso: “Amanhã ninguém sabe onde é que foi, onde é que era o Rio Doce? Que que é isso? É água com açúcar que rodava por aí?” Ele dizia: “Porque vai acabar.” Rio Doce, o Augusto de Lima, foi governador de Minas, o filho dele, Augusto de Lima Jr., foi um grande historiador. E ele dizia para mim, era meu vizinho, dizia para mim o seguinte: “Eu não tenho valor nenhum. Meu pai me deu um monte de jornal velho.” Que ele cortava, tinha os recortes. E ele disse que tinha coisa do avô dele ali. Então esse homem, Augusto de Lima Jr., escreveu uns 40 livros com aquela papelada, que ele também começou a juntar. Então, coisas que ele escreveu por exemplo, a Nossa Senhora do Brasil, a devoção de Nossa Senhora. O que tem de apelido Nossa Senhora nesse Brasil você não imagina, quer dizer, precisava... alguém publicou e ele juntou isso: a devoção da Nossa Senhora no Brasil. Então, a organização do Salesiano no Brasil, Colégio Dom Bosco. Escreveu um livro fabuloso, tudo recorte antigo, sobre o Amazonas, e ele não sabia o que tinha no Amazonas. Então... e isso pode não valer hoje, mas vai valer para um futuro, que é essa história, por exemplo, se você pegar, por exemplo... Eu não sei se veio nos meus papéis, eles devem ter isso: o problema da Itabira Iron. Foi discutido no Senado, no tempo do Bernardes, essa coisa toda. Quer dizer, eles perderam muito terreno até que se resolvesse... O Israel Pinheiro convenceu o Getúlio Vargas para fazer a Companhia Vale do Rio Doce. Quer dizer, se não estiver escrito isso, ninguém vai saber com é que saiu essa Vale do Rio Doce. Por que da Vale do Rio Doce? Agora hoje tem Carajás da vida, e eu já tenho um projeto. Mas eu não posso falar porque eu sou contra, vou atrapalhar o programa da Vale do Rio Doce. Tenho um projeto sério em outra região, um projeto de ferro, estou estudando com Antônio Carlos Magalhães. Vai ser uma ferrovia, ferrovia de Brasília. Brasília tem um porto de Campinho, lá na região da Bahia, que eu acho que essa estrada tem que ser feita. É o porto mais perto de Brasília. E para fazer essa estrada não se faz com conversa, não. Tem que ter uma base. E a base vai ser o chão. Explorar a terra para... alguém tem que explorar aquilo para depois construir a estrada. Vai ser a estrada de Brasília, estrada de ferro. E ela vai ter um efeito muito importante, porque ela corta, criando grandes pólos de desenvolvimento, a travessia do São Francisco, travessia das (Norte-Sul?) que tem na estrada. Aquelas ali são cidades de pólos de desenvolvimento da região. Eu vi agora, e fiquei impressionado, só Minas que está parada agora. Eu vi no Espírito Santo, a (lubrificação?) da Rodovia do Sol. É uma estrada ligando Vitória às praias do Sul, né, começa com... essa que eu fui lá, né?

 

P/2 - Guarapari.

 

R - Guarapari. Depois vem as outras... Nessa estrada estão fazendo a segunda pista. Uma coisa louca! É fantástico! Então é isso mesmo, daqui a... Eu tinha uma sobrinha que dizia para mim o seguinte: “Tio...”, ela é arquiteta, famosa, Candiotto, lá em Belo Horizonte, menina de valor. Primeira mulher que foi primeira aluna do vestibular, escola de arquitetura, foi um escândalo, uma mulher ganhar primeiro lugar da escola de arquitetura. Agora ela deve estar com uns 50 e tantos anos, mas foi a primeira que tirou o primeiro lugar. Isso era um escândalo. E ela tem valor mesmo, ganha prêmio por aí, na Argentina, exposições, grandes projetos. E ela é encantada com Paris, então ela correu a Europa toda, então eu falei: “Agora eu vou conhecer Paris, conhecer a Europa.” “Vai depressa que está acabando!” O problema... lá está desmanchando. Eu visitei uma cidade: Sevilha, lá na Espanha, está desmanchando, que naquele tempo não tinha concreto armado. Então eles faziam com barro, com bosta de boi, aquele negócio todo, enfiava uns negócios, uma cerâmica e tal. E o negócio está começando a comer. Até já a nossa pedra-sabão do Aleijadinho lá está acabando! Você chega lá, está tudo... estão estudando. Até eu brinquei com meu filho outro dia: “Olha, sabe quem vai resolver esse negócio sou eu.” Porque tem uma resina que a gente usa nos trabalhos de pedra que é só dosar aquilo bem, com o pó de pedra-sabão. Resina sabe que é... massa plástica de automóvel. Aquilo é o melhor material que agrega a pedra-sabão. Você coloca a pedra na outra, e aquela massa plástica, aquela que você passa no automóvel, depois lixa e pinta, que buracos todos desaparecem... Aquela massa, se estudar uma textura com ela, com o pó da pedra, e dosa, fizer diversas experiências, você pode recuperar toda aquelas peças de pedra-sabão, sem desvirtuar. Agora é difícil, porque você vai passar aquilo, tem uma pinta preta, aquelas pinta preta de buraco. Mas tem que ser um negócio bem estudado. E eu ainda vou dar _______ nessa coisa.

 

P/1 e 2 - Obrigada.

 

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