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História

"Sempre gostei de cuidar das pessoas"

História de: Maria Cristina Moreira Lima Carvalho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/12/2004

Sinopse

Maria Cristina Moreira Lima Carvalho conta em seu relato momentos importantes de sua carreira na enfermagem, tais como a sua entrada na Unicef como representante da Secretaria de Saúde e como participou do Programa Nacional de Agentes Comunitários que obteve grandes doações da Abifarma.

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História completa

P/1- Queria pedir para você repetir seu nome completo, local e a data de nascimento.

R- Meu nome é Maria Cristina Moreira Lima Carvalho. E nasci no dia 22 de dezembro de 1954, em São Luís do Maranhão.

P/1- E o nome dos seus pais, Cristina?

R- Meu pai se chama Claudomir Barbosa Moreira Lima e minha mãe Maria (Nazalete?) Borges Moreira Lima.

P/1- O que eles faziam?

R- Meu pai hoje é aposentado do Banco do Brasil e minha mãe é prendas, prendas domésticas (risos).

P/1- Em quantos irmãos vocês eram, Cristina?

R- Nós somos. Eu tenho quatro irmãos: três homens e uma mulher.

P/1- E o seus avôs como que eles chamam?

R- Maternos ou paternos?

P/1- Os dois.

 

R - Meu Avô paterno era José da Silva Borges e Maria Joaquina Hesketh de Oliveira Borges e meus avós maternos eram Bento Moreira Lima e Heloísa Barbosa Moreira Lima.

P/1- O que eles faziam? Você lembra?

R- Meu avô paterno era desembargador e minha avó paterna era prendas domésticas, já meu avô materno era comerciante e minha vó materna era também prendas domésticas.

P/1- Certo. E como era a cidade de São Luís quando você era criança? Você lembra?

R- Quando eu era criança a cidade era mais calma. Era mais calma, tinham poucos carros, eu morava no centro da cidade e tinha a oportunidade de brincar na rua, inclusive de (velocity)?, futebol, empinar papagaio. Nessa época no centro não era um centro comercial, era residencial e nós crescemos lá, praticamente até a fase de treze anos eu tive muitas amizades na minha rua porque nós tínhamos muitas amizades, crianças, né? Muitas mesmo e hoje praticamente essas famílias todas se mudaram do centro da cidade e estão morando em outras áreas porque hoje ela já é um centro comercial muito grande na capital.

P/1- E como é que era o cotidiano da tua casa quando vocês eram crianças?

R- Bom, meu pai trabalhava somente no expediente e minha mãe ficava durante o dia todo com os cincos filhos. E, além de estudar, nós esperávamos ansiosamente a vinda de nosso pai, porque à tarde nós tínhamos muita parte de lazer, de brincadeiras de escutar música, de arrumar a casa, fazer passeios e o carro era uma coisa muito rara, a gente gostava muito de fazer uns passeios à tarde de carro ou andar de bonde que também não existe mais. E visitar nossos avós, tios que moravam todos ali no centro da cidade. Então geralmente à noite se ia à casa dos avós, né? Ou brincar com a vizinhança, os amigos de infância. A gente brincava muito de pegador, de esconde-esconde, preto fugido, essas coisas, roda ou tinha às vezes, quando a gente foi crescendo um pouquinho, aquelas festinhas de adolescente. De botar radiola e começar a fase de paquera com os próprios amigos ali da vizinhança. Depois de certa parte nessa adolescência, nessa fase que a gente morou no centro da cidade, aí houve certa dispersão dos nossos grupos dentro da vizinhança. Que as famílias eram muito conhecidas entre si. Praticamente todos eram casais, eram todos da mesma idade e os filhos foram nascendo todos quase que na mesma faixa de idade. Mas, depois que eu tinha 13 anos, que nós nos mudamos, todos praticamente foram se mudando também e se perdeu o contato dessa vizinhança da infância e da adolescência. Aí já foi se tendo outros tipos de amizades, foi pulverizando em outros locais.

P/1- Para que bairro que vocês foram?

R- Aí nós fomos para um... Que na época era considerado assim pouco fora do centro, mas hoje já virou centro também. No começo não tinha casa, era um bairro chamado Apicum-Açu. A nossa casa foi a primeira e depois foram surgindo outras casas. Foram os terrenos que foram comprados e daí foram construindo, a nossa foi a primeira casa e hoje tem essas casa todas que foram [construídas] justamente na minha fase de adolescência, fiquei lá até os dezenove anos. Meus pais continuam a morar lá, mas a maioria das casa viraram hoje consultórios médicos, clínicas, parte de aeróbia, ginástica, musculação e também acabou ficando uma avenida, virou uma avenida e hoje passa a maioria dos carros ali na porta e fazem com que muita gente comece a se mudar de lá, só que meus pais, pelo que eu vejo, não vão se mudar mais nunca.

P/1- Por quê?

R - Porque eles já se enraizaram muito, né? Eu acho que já tem mais de 23 anos, dos treze que eu me mudei e eles são muito apegados assim com as coisas, os filhos todos já casaram, todos já tem filhos, netos e bisnetos, tudo. Eles ficaram o centro dos filhos com as noras e os netos, genros e eles não têm vontade de sair de lá, apesar da avenida que era tão tranquila e hoje está muito tumultuada.

P/1- Certo. Como é que foi a educação que você recebeu dos seus pais, você tem irmãos e irmãs?

R- Só tenho uma irmã.

P/1- Tem diferença?

R- A gente sentia assim, um pouco de diferença entre a criação dos meninos que eram, são três, né, e as duas meninas, eu e a outra. Então nosso pai, ele teve uma criação bem rígida, antiga e o pai dele tinha doze filhos. Naquela época era uma educação realmente muito rígida, né? E ele era um pai... Ele é um pai, como minha mãe, muito carinhoso, mas também eles faziam com que a gente seguisse o caminho certo, às vezes numa certa rigidez de obediência, de estudar, de se comportar e a gente ia levando assim, a coisa assim, bem organizada na nossa vida, sabe?

P/1- E vocês tinham assim festas religiosas que participavam, festas de final de ano, vocês faziam alguma coisa?

R - Olha, nós tínhamos a igreja lá da Rua de Santana onde nós moramos e todos os domingos ia família toda, não só nós, como a família toda ali do bairro, né, nós frequentávamos ali a igreja. E toda a festividade da igreja, de festa de Semana Santa, Páscoa, Natal, Ano Novo, e missas dominicais também nós íamos todos, né? Houve certa dispersão depois que a gente cresceu um pouco, né? Porque nós mudamos de igreja, mudamos de bairro e a gente passou a frequentar uma igreja até diferente do nosso bairro, mas sempre indo a essas missas. Mas uma coisa assim que marca muito no nosso período eram as festas de Natais que reunia a nossa família, tanto da parte do meu pai, como da minha mãe. Nessa época todo mundo morava em São Luís. Hoje quase todos meus tios também moram no Rio, Brasília, São Paulo, Fortaleza, e daí eu acho que as festas ficaram mais reduzidas à família tronco. Mas é uma festa que marca muito, são as festas de Natais e as festas de aniversário, né? Sempre a família está reunida nesses momentos.

P/1 - Certo. Descreve para a gente como era essa casa?

R - Qual delas?

P/1 - Pode ser as duas.

R - A que eu era pequena?

P/1 - É. Você lembra da casa de quando você era pequena?

R - Lembro. Essa casa era uma... Em São Luís nós temos três tipos de casa que eram conhecidas nessa época. Você tinha a ‘meia morada’, que era uma casa de porta e janela, aliás uma casa porta e janela, que era somente a porta e a janela e bem comprida. Tinha a ‘meia morada’ que você tinha uma porta e duas janelas, e tinha a morada inteira que era uma porta e quatro janelas. Nossa casa era uma casa de ‘meia morada’. Tinha dois quartos, uma sala, tinha uma copa, uma cozinha, e um banheiro e uma dependência de empregada assim muito conjugada com a cozinha. Não era uma casa grande, mas que dava pra... A gente era pequeno, dava pra morar todo mundo muito bem, tanto que foi por conta disso que nós passamos a morar nessa segunda casa que já era um bangalô, que se chama essas casas que tem terraço, né? Aí já era uma casa maior, uma sala maior, tinha biblioteca, tinha três quartos, tinha cozinha, sala, e um grande quintal. Aí já foi uma casa maior porque nós também crescemos e já precisava separar as meninas dos meninos.

P/1 - E, você estudou? Onde você estudou, como é que você...Sua formação?

R - Bom, antigamente a maioria das pessoas que moravam próximas da gente... nós tínhamos um colégio bem pertinho da gente que era chamado Coração de Jesus, então era, na época, uns dos melhores colégios. E era particular, que ajudava a criança desde a fase da alfabetização até terminar... Antes era até o quinto ano primário, que hoje é metade do primeiro grau. E todas essas minhas amigas de infância estudavam lá também. Então quem saía desse colégio, quem estudava nesse colégio, tinha condição de estudar em outros colégios porque preparava que a gente entrasse ou no Santa Teresa que era um colégio de freiras mais avançado Maristas, tinha o colégio Batista e o Liceu e uma escola normal que era esses colégios mais tradicionais da cidade. E nós, todos nós, enquanto a gente não terminava o primeiro primário... Nós estudávamos lá no Coração de Jesus, as professoras eram um grupo de irmãs que praticamente alfabetizaram quase toda, uma boa parte das pessoas de São Luís. Todo mundo estudava lá. E a amizade também era muito forte no colégio daquelas professoras antigas, manda bilhetinho, bota de castigo se não está querendo obedecer, que fica fazendo dever até altas horas se não acertar. Mas a gente aprendia e também criava um círculo assim de família muito grande, e que é essa coisa também. Depois do primário houve uma dispersão de vários amigos de infância, né, e uns passaram a estudar no Marista. Eu fui pra o Santa Teresa, como era de mulher, eu e minha irmã fomos pra o Santa Teresa, e os homens lá de casa foram para o Marista que era uma escola só de homens. E daí quando terminou o primeiro grau, na época era quarta série do ginásio, era comum as Mulheres em São Luís fazer normal, a escola normal. Eu não queria, eu já queria fazer científico, e foi um problema muito grande porque nessa época eram poucos colégios que ofereciam o científico e foi a primeira vez em que o Marista aceitou um grupo de mulheres com intercâmbio com o Santa Teresa, eu acho que eu fui, eu e mais dez colegas que não queriam fazer escola normal, quiseram científico, e foram fazer o científico. E daí eu terminei todo o meu científico no Marista. E minha irmã acabou indo também.

P/1 - Pra o Marista.

R - Pra o Marista. E daí, depois do segundo ano que eu estava lá, o número de mulheres que não quiseram mais fazer normal... Todo mundo queria estudar no Marista. E hoje, depois, daí uma grande multiplicação de colégios, aí apareceram muitos colégios. Porque tinha da rede estadual, municipal, mas o lance na época era estudar no Santa Teresa, ou Marista, né, e daí eu fui para o científico e lá eu terminei meus estudos na fase, até o segundo grau.

P/1- Você sentiu diferença na saída do Santa Teresa para o Colégio dos Padres?

R - Eu não senti muita porque eu na minha... Na minha infância eu convivi com meus três irmãos, então eu tinha muita amizade também dos meus irmãos, assim da ala masculina, né? E eu não gostava muito das brincadeiras femininas, então eu achava mais interessante as brincadeiras dos meninos, e com isso eu aprendi muito a praticar esportes. O meu pai, ele praticava esportes, inclusive ele era da... Como se chama? É, ele fazia parte do grupo do Fluminense lá do Rio de Janeiro, ele fazia Atletismo, jogava Basquete, Futebol, né? Então ele tinha uma bagagem muito grande na área de esportes e isso ele passou para todos nós. Praticamente todos nós fomos atletas, de seleções lá em São Luís. Primeiro os colégios, depois clubes e depois seleção maranhense. E por eu ter muito essa convivência eu achei bom ter ido para um colégio misto porque aí eu pude ampliar mais os meus horizontes, fazer as coisas que eu queria, como continuar a parte esportiva. Eu comecei muito cedo, jogava vôlei, handebol, basquete e daí eu entrei muito facilmente nessa vida de esporte, estudo... E até hoje eu continuei a jogar.

P/1 - Você joga o que?

R - Vôlei. Continuei a jogar vôlei porque basquete e handebol já ficaram um esporte com menos pessoa para jogar, e o vôlei como é mais fácil, tem mais gente, então eu continuo a jogar vôlei, com meus filhos e tudo, e todo mundo pratica esportes, meus filhos também praticam todos os esportes. É uma família muito atlética. (riso)

P/1 - Você falou que seu pai era do Rio?

R - Não, ele nasceu em Colinas no Maranhão, no interior, mas ele pequenininho ele veio para São Luís, porque foi na época que o pai dele veio para o interior. O pai dele é de Colinas e veio morar com os filhos já no nascimento do meu pai. E daí ele quando tinha 18 anos ele foi... Naquela época tinha aquela história de que rapaz fazia 18 anos tinha que virar a vida, ele mandava estudar no Rio e ele estudava e trabalhava. Como ele praticava esportes ele acabou entrando nos clubes que foi no caso o Fluminense no Rio, ele era atleta nas horas vagas, fazia uma profissão e era assim um atleta mesmo daqueles dedicados, competia.

P/1 - Ele incentivava vocês a praticarem algum esporte? Ele tinha alguma preferência?

R - Mas era por isso que a gente gostava da vinda dele do trabalho. Porque à tarde nós tínhamos um quintal, um terreno, né, um quintal lá na nossa casa e a gente fazia do quintal uma área de futebol, de basquete, de ping-pong. Então quando ele chegava... Porque minha mãe ficava cuidando dos afazeres domésticos e às vezes ela não ficava com tempo de ficar brincando. Então a gente ficava doido para ele chegar para a gente começar a brincar de verdade, com bola, aí fazia bagunça, era esse nosso grande interesse. Porque era nessa hora que a gente brincava, que jogava, e no final da tarde, eu ia estudar música, inventava outras coisa. Então nessa chegada dele... Ele trabalhava de manhã e de tarde ficava jogando.

P/1 - Porque que ele trabalhava só de manhã?

R - Porque nessa época era só um expediente.

P/1 - Ele era desembargador?

R - Não. Ele era bancário.

P/1 - Ah! Desculpa.

R - Bancário. Hoje ele está aposentado. Então a gente achava o máximo essa chegada dele, ele mal almoçava, nem descansava, já ia brincar com a gente. E nessa época minha mãe não tinha babá. Nós éramos cinco meninos, um atrás do outro, então era o máximo. De manhã a gente ia para a aula, todos nós, a gente ia para o colégio e de tarde todo mundo. Não só para brincar, para estudar, ia ensinar as lições para a gente e minha mãe ia descansar um pouco, ela era muito atarefada porque ela só tinha na época uma cozinheira, então ela ficava envolvida com cozinha, com roupa, com coisa e tudo e era ela que descansava e nós que ficávamos na ativa.

P/1 - Cristina, quando você acabou o científico o que você foi fazer?

R - Aí eu comecei a me preparar para o vestibular. E no começo eu ainda fiz três vestibulares pra medicina e casei precocemente (riso) com 19 anos, entrei muito cedo pra tentar o vestibular. Eu tinha 17 anos quando eu fiz o primeiro e aí eu perdi três vestibulares e sempre pensando em fazer medicina, né? Que era esse o grande sonho meu.

P/1 - O que te atraía na medicina?

R - Eu sempre gostei de cuidar das pessoas, sempre gostei de tratar, sempre brincava de fazer brincadeira de médico, de enfermeira essa coisa toda e daí eu comecei... Aí que eu conheci meu marido, que é médico hoje, na época fazia segundo ano de medicina, tinha 21 anos na época, nós tínhamos dois anos de diferença, aí nós nos conhecemos assim numa festa de carnaval, namoramos muito pouco, casamos logo e eu fiquei com medo porque com dois meses que a gente estava casado eu engravidei do meu primeiro filho e eu fiquei com medo de não passar no vestibular e com medo de depois a criança, né... Pro próximo vestibular eu ia estar com sete meses de grávida... E não passasse e ninguém me deixasse estudar. Porque primeiro, eu não tinha emprego. Meu marido não tinha emprego e eu fiquei fazendo assim uma... Das aptidões que eu queria ter, eu disse: “bom”... Eu sei que aí eu disse: “Vou ser enfermeira”. Enfermeira parece muito com uma parte da medicina, né? Eu sempre gostei de cuidar das pessoas. Aí eu comecei a estudar enfermagem. Foi aí que eu resolvi, dessa vez eu tenho que passar, tipo uma moral. Fiz o vestibular e a barriga crescendo, as pessoas até diziam assim: “Será que tu passa dessa vez, com essa barriga, com esse corpo todo”. E eu brincava sempre dizendo que ou no primeiro ou no segundo lugar. Aí eu disse: “Eu tenho certeza que eu vou passar” e passei no primeiro lugar. E daí eu comecei a fuçar, até pensei que não fosse gostar e acabei me apaixonando logo no primeiro período que eu estava estudando, né? E meu marido fazia segundo ano de medicina, então a gente casado, estudante, sem emprego veio o primeiro filho, veio o segundo, e a gente se formou com dois filhos, sem nada.

P/1 - Como que vocês faziam o dia a dia da a tua casa? Como é que ficou isso?

R - Olha, como nós acabamos casando, eu acabei indo morar na casa do meu marido, que era da vó dele. Tinha uma irmã também morando com ele, nós éramos sustentado por nossos pais, tanto do lado materno, do meu lado, como do lado do meu marido. Então ele ajudava na alimentação, no vestiário, nos dinheirinhos, assim, de vez em quando e eles davam todo o apoio para a gente. Eles só fizeram uma exigência, que nós tínhamos que nos formar realmente para poder depois trabalhar e como a gente estava tão envolvido com essa questão de se formar mesmo para ser independente, foi a época que a gente mais estudou e o divertimento era muito pouco porque a gente, tanto em medicina quanto em enfermagem tinha aulas práticas de manhã, à tarde, tinha aulas teóricas e à noite, depois de botar os menininhos que iam nascendo para dormir, se estudava a partir de dez horas da noite até de madrugada, e assim a gente estudava muito. Foi aí que a gente passou a fase de namoro, a gente malandrou um pouco porque namorava demais, casamos, a responsabilidade aumentou e nós estudamos de verdade. Nós conseguimos nos formar e eu consegui inclusive terminar meu curso que era quatro anos, em três. Eu fiquei fazendo curso de férias todo tempo, minha sogra me ajudava porque nessa época ela também morava no interior. Quando meus filhos estavam na fase pequena, quando era período de aula, ela levava para o interior. Eu ia final de semana para o interior para olhar meus filhos, eu e meu marido e nas férias a gente se mudava para o interior porque aí não tinha como ficar na casa, não tinha como cuidar da casa financeiramente, nem nada porque_________. Então era como se a gente fosse uma casa de estudantes e finais de semana eram férias no interior. Os nossos pais ajudavam demais a gente porque primeiro gostavam muito da gente e segundo veio a responsabilidade de querer que a gente ficasse juntos, vencer e com essa minha decisão também de fazer cursos para terminar em três anos justamente pra ficar no mesmo período dele, pra ver se gente acabava no mesmo ano e foi o que aconteceu. Ele se formou em julho e eu me formei em dezembro. Ele mal formou e foi pra o interior trabalhar pra poder cuidar da família dele que já tinha três pessoas na frente, né? Daí ele foi para o interior um semestre antes de eu me formar e depois ele foi, eu fui, aí nós ficamos morando na casa da minha sogra, uma casa muito grande, essa casa era imensa, essas casas de_________imensas.

P/1 - Que cidade que era?

R - Pedreiras. Aí foi lá que logo que eu cheguei depois que eu me formei, não demorou muito eu comecei a trabalhar no centro de saúde e meu marido trabalhava no hospital de lá do centro de saúde também.

P/ - Aí você chegou em Pedreiras, trabalhava no centro de saúde fazendo exatamente o quê?

R - Eu entrei trabalhando na parte de consultas, de enfermagem, de gestantes, com crianças, da parte de tuberculose, hanseníase,___________. Eu comecei a trabalhar em toda a parte de comunidade, parte ambulatorial, a parte de prevenção, de educação e saúde. Porque desde a faculdade eu já me identifiquei muito com essa área de saúde pública e não tive nenhuma queda, a não ser na época de estudante na faculdade, de trabalhar assim um pouco em centro cirúrgico, mas também o encanto passou logo quando eu comecei a trabalhar com a parte de prevenção de saúde pública. Eu acho que talvez tenha sido isso, que eu tive uma grande escola lá em Pedreiras, que nessa época a secretaria de saúde do estado trabalhava no mesmo prédio da fundação, que antes era fundação Cesp, né? Então a fundação Cesp era assim uma escola, né? Praticamente eu considero assim uma escola porque eles trabalham muito para saúde pública a parte preventiva e daí eu peguei todas as lições ali que foram aprendidas muito lá e começou também a se expandir, a se trabalhar com comunidades, né, com os bairros carentes, de fazer grupos de gestantes, de parteira mesmo e eu acho que talvez esse meu começo lá em Pedreiras é que me deu embasamento até por indicação do próprio secretário de saúde na época de achar que eu me adequava bem no papel de ser diretora regional de saúde de Pedreiras e no Maranhão era dividido em doze regiões, cada região tem um determinado número de municípios, né? Pedreiras na época tinha oito municípios subordinados a ela. Então basicamente as atividades eram na área materno-infantil, na área da tuberculose, de vigilância pneumológica, nas endemias e eu me identificava muito com esse trabalho porque eu já comecei a trabalhar nisso, aí já fui expandir para outros municípios e eu fiquei um tempo, uns cinco anos nesse trabalho, trabalhando com médicos. Enfermeiras quase não tinham na área que eu morava. Só tinha mesmo em Pedreiras, não tinha em outros municípios. Era mais o pessoal auxiliar de enfermagem, parteira leiga e daí...

P/1- Parteira o quê?

R - Parteiras leigas, aquelas mulheres que fazem parto _______, né?

P/1 - Vocês acompanhavam?

R - É. Na época nós tínhamos um trabalho de ficar fazendo um controle da parteira mesmo. Elas faziam os partos durante o mês, elas informavam o parto, elas tinham palestras educativas, informativas, sobre higiene, sobre todo o parto, os cuidados, além do material que elas recebiam pra usar durante os partos, de esterilização. Então era assim um trabalho assim muito integrado com elas para elas não ficarem soltas, né? E a gente fazia isso em Pedreiras e em alguns municípios dessa região. Nós tínhamos algumas parteiras que já trabalhavam com isso.

P/1 - Essa figura da parteira era muito comum na região na época?

R - Ainda é.

P/1 - Ainda é?

R - Ainda é no nosso estado, ainda tem muitas mulheres que fazem partos em casa, principalmente na zona rural. Eu acho que elas, a não serem as próprias filhas que às vezes acompanham, podem pegar essa habilidade, né? Mas já está... Não se treina parteira, ela é nada, ela aprende a ser e vai ensinando, vai passando essa habilidade assim de avó, dos avós, avó, mãe e filha e eu não sei se hoje as filhas dessas parteiras, pelo menos essas mais adolescentes, né, as netas, se já estão tendo essa vontade de ficar fazendo parto nas comunidades. Porque evoluiu muito, apesar de ainda se ter muita dificuldade de acesso a serviços.

P/1 - Como é que é a estrutura do serviço de saúde pública no Maranhão?

 

R - Bom, nós temos o secretário, né, a secretaria de saúde tem o Secretário de saúde, tem um secretário adjunto, os assessores, jurídico e técnico de comunicação, uma coordenação da área administrativa, econômica e as coordenações técnicas que têm um coordenador da rede dos serviços de saúde, tem a coordenação da AIDS, a ______ é AIDS, coordenação de vigilância __________parte sanitária, tem a coordenação de assuntos comunitários que é essa que eu estou comandando, tem uma coordenação da_____, que trata dessa parte de sangue, hemodiálise, essas coisas todas e uma coordenação de controle e avaliação. Cada coordenação dessas têm as divisões, divisões ligadas, dependendo da coordenação e essas coordenações se chamam, essa secretária junto das coordenações, divisões, tem o nível central da secretaria de saúde e daí, saindo do nível central, nós temos as diretorias regionais de saúde, nós temos municípios subordinados a elas, tem mais ou menos a figura do diretor regional, assistente técnico administrativo, motorista e uma secretária e as unidades de saúde do estado que nós temos desde uma unidade mista de grande complexidade como temos a dos centros de saúde, postos de saúde e isso ligado à secretaria estadual, além de outras unidades de saúde, tem o nível federal, tem de nível municipal, filantrópicas, particulares, quer dizer, chega mais ou menos em termos de unidade a quase 1.500 unidades de saúde em todos esses níveis.

P/1 - Voltando um pouco, quando você começou em Pedreiras, você falou das endemias. Quais eram as endemias mais comuns assim?

R - Em Pedreiras, as grandes endemias que se trabalhava articulado junto, na

época era a ________ e nós tínhamos também a Sucam que hoje é Sucam, Fundação Nacional de Saúde. Então a Fundação que é _________, ela trabalhava muito com tuberculose, hanseníase que eram as principais doenças, principalmente a hanseníase, que eram as principais doenças que eram endêmicas lá no município e através da Sucam nós tínhamos o trabalho da malária e também uma grande área endêmica de malária e se trabalhava integrado, procurando captar os doentes mais precoces possíveis para dar tratamento, orientações e a cura, eram essas grandes endemias na época?

P/1 - O que mudou hoje?

R - Lá na Região de Pedreiras?

P/1 - Hã, hã.

R - Eu acho que continua quase... Eu acho que não mudou muita coisa. Melhorou, mas que ainda continua tendo casos dessas doenças porque essa região fica______________, mas tem muita pobreza também. As pessoas às vezes ainda escondem a doenças e elas ainda ficam sujeitas a investigação, né? Então ainda é uma área endêmica, mas já melhorou muito. De anos anteriores, quase que doze anos atrás, né? Já houve uma melhora, um controle maior desses pacientes, né?

P/1 - Quando você fala investigação o que quer dizer, que elas ficam

sujeitas?

R - Bom quando a gente investiga, o paciente ele pode ter a consulta dele espontânea ou também pode ser a procura, através da visita domiciliar. E nessa época nós só tínhamos como pessoas pra ajudar principalmente na zona rural era o pessoal da Sucam. Então eles visitavam os guardas que chamavam os guardas da Sucam, eles visitavam diariamente, mensalmente as famílias que cada guarda era responsável e eles identificavam as pessoas que estavam suspeitas de algum tipo dessa doença, eles encaminhavam pra unidade de saúde que na época o Cesp e esse paciente ia pra confirmação se ele era doente ou não para se começar o tratamento. Então essa era a investigação que eu diria, investigação, assim, essa busca, essa busca ativa dessa pessoa. Ou então se descobria quando ela iapra consulta por algum motivo e que era descoberto outro motivo, então era essa a busca espontânea, né? Mas na época nós não tínhamos muitas pessoas pra fazer essa busca. Era mais o pessoal da Sucam no nível da zona rural. A nível de zona urbana nós usávamos, eu digo assim nós porque nós trabalhávamos junto com a fundação, né as visitadoras sanitárias. Então elas tinham visitas diárias, visitas domiciliares diárias, mas eram poucas, eram só cinco e a cidade era muito grande tinha mais de 60 mil habitantes, então às vezes elas não davam conta e ficavam alguns lugares descobertos e com isso a gente acabava descobrindo os focos aonde era mais predominante e começava a atacar mais essas áreas predominantes. Então as visitadoras faziam esse trabalho também, encaminhavam, um médico dava um diagnóstico através de exames laboratoriais ou exames físicos e daí se fazia o tratamento e depois ficavam acompanhando esse tratamento, mas era ruim porque o grupo de pessoas era muito pequeno pelo tamanho da cidade e muitas pessoas, acredito, deixavam de ser visitadas ou acompanhadas porque não se tinha perna pra tudo (riso).

P/1 - E aí você ficou em Pedreiras como diretora regional 85 e aí você veio para São Luís?

R - É porque até o motivo não foi nem que eu quisesse sair de Pedreiras, porque eu gostava muito de trabalhar. Apesar de ter sido criada na capital me criou uma raiz muito forte no interior porque não só da parte de trabalho, né, eu me identifiquei muito trabalhando integrado com Cesp e a Sucam na época e as pessoas, né, criei muitos laços de amizades, porque meu marido é de Pedreiras, então através dele eu conheci muitas famílias de Pedreiras e acabei fazendo mais amizades por conta de... Na época, me deixa ver lá, mulher casada ou tinha que trabalhar ou ficar em casa e como eu era um pouco inquieta, já trabalhava, mas faltava a minha continuação da minha parte esportiva, eu comecei a me envolver nas escolas pra ensinar educação física e nem professora eu era, mas como era da capital eu sabia um pouco mais do que elas, então eu acabei começando a ensinar educação física e acabei identificando meninas que podiam jogar vôlei e que nunca tinham pego bola, eu numa brincadeira dessa ia sem remuneração nenhuma porque aí eu aproveitava o útil ao agradável. Eu tanto fazia física com eles quanto me ajudava também, né? Fiz as amizades, comecei a identificar as que jogavam e acabei em três meses fazendo seis times de vôlei nas escolas e com isso começou uma... Eu trabalhava até às cinco horas da tarde, cinco horas da tarde em diante eu estava no mundo do esporte. Então como eu era casada e era “dona” Cristina na época, né, porque tudo era novinha, adolescentes, eu me sentia muito útil fazendo isso porque elas nunca, lá em Pedreiras a gente notava que os jovens, eles só iam para o colégio, terminava o colégio ou iam namorar demais, às vezes tinha até problemas de gravidez precoce, tóxico, então achei que aquilo era uma ocupação pra eles no lazer. Eu comecei a criar uma amizade tão forte que depois das meninas foram os meninos também. Então eu já tinha um batalhão comandado por mim, a única casada, a “dona”, a “senhora”, né, a mulher do doutor e com isso eu tinha o respeito muito grande por essa juventude que hoje já estão todas muitas casadas e com filhos e que a gente promovia essas brincadeiras, toda tardinha a gente ia jogar vôlei. Começou a fazer peladas e depois fazia as competições, fazia competição inter-colégios e eu ficava sempre no meio dessa turma. Eu fui conseguindo cada vez mais adeptos pra isso e quando saí de lá eu deixei assim uma... Eu acho que tinha mais de 100 pessoas, né, adolescentes que começaram depois de 12, 13 anos e quando eu saí já tinha uma média de 17, 18 anos e que eu deixei muitas saudades porque eu fiquei com muitas saudades mesmo. E eles até hoje cobram quando eu vou lá, eu sempre vou lá: “Ah, depois que você”, aí depois passou a ser você, tiraram o dona e passou a ser você e, “Mas era tão bom naquela época, a gente brincava demais, se divertia”. Ainda tinha as festinhas, ainda tinha as coisas para pedir assim quando a gente queria fazer um torneio, uma firma mandava as camisas, outra dava as medalhas, outra dava taça. Um dava uma bola, a gente fazia uma porção de... E isso era uma forma assim que eu achava que eu me sentia muito útil trabalhando com juventude e eu acabava virando a confidente delas da questão de, são aquelas interrogações mesmo de adolescentes de ter, querer falar sobre sexo, sobre planejamento familiar, sobre alguma doença sexualmente transmissível, eles vão perguntando do modo deles e eu ia respondendo à proporção que eles iam perguntando. Acabei sendo a mãe, colega, instrutora, sei lá, eu criei um vínculo muito grande com eles, meus filhos foram crescendo e foi um dos motivos que eu vim embora mesmo. Porque os colégios não eram bons e eu comecei a sentir que meus filhos estavam começando a se prejudicar. Ai eu mandei o mais velho para estudar com o pai lá em São Luís. Ele passou dois anos longe da gente só se olhando no final de semana, às vezes uma vez por mês porque o trabalho era muito grande no interior e depois o segundo que foi também pra São Luís.

P/1 - Com quantos anos eles vieram? O primeiro veio com quanto?

R - Com cinco.

P/1 - Com cinco anos?

R: Os dois vieram com cinco anos. Quando um fez cinco veio, aí quando o outro fez cinco veio também, aí quando foi o caçula, que ele nasceu depois de quadro anos, ele só não nasceu no interior, mas ele foi. Depois que eu estava no interior que eu fiquei grávida dele depois de quatro anos. Eu até pensei que não fosse ter mais filhos e daí eles vieram e a gente começou a se sentir sozinho, casa grande sem aquela gritaria de menino e os avós, naquela fase que a criança é muito danada, eles não estavam mais aguentando a tentação, aí pediram socorro, aí faziam chantagem porque estavam doentes, não sei o que, a gente resolveu arrumar as malas e a gente pediu na época pro secretário de saúde que fizesse a transferência da gente. Na mesma hora o secretário transferiu porque ele conhecia nosso trabalho, meu e de meu marido, que meu marido também  trabalha até hoje na área preventiva, né, e resolveu me colocar no nível central que eu fui para o materno infantil e meu marido ficou no hospital infantil porque ele gosta de hospital. Agora só tem que fazer um trabalho muito educativo com as mães. Ele é um médico bem diferente, assim, não é muito de medicação. Ele orienta muito, ele trabalha muito assim nesse nível que eu trabalho também. Aí a gente veio para São Luís aí a oportunidade foi do caçula, né, que começou a estudar na capital com quatro anos.

P/1 - Como é que foi voltar para São Luís?

R - Aí foi um impacto maior do que quando eu fui para o interior. Porque no interior, como a cidade era menor, a gente andava de bermuda, de tênis, de camiseta, a alimentação era mais sadia. Às vazes eu estava sem trocado na bolsa aí eu chegava e mandava embrulhar os pacotes, mais tarde eu mandava deixar o dinheiro, não andava a base de carro, não tinha muita despesa porque eu morava bem no centro da cidade e onde eu queria ir, ao comércio, ao hospital, ao meu trabalho, qualquer lugar que eu queria ir não precisava usar o carro e quando eu voltei pra a capital eu tomei um choque de novo de morar numa casa menor, de ter que me locomover de carro no horário. Aí começou a ficar meio loucura, né, estressante. As despesas aumentaram mais e deixei de ter aquela vidinha mais tranquila, ficou uma vidinha mais cheia de compromissos, cheia de horários, cheia de carro, cheia congestionamento e eu ainda passei assim, uns dois meses pra ter a consciência que eu tinha voltado pra a capital, mas morrendo de vontade de morar de novo no interior tanto que eu nunca deixei essas raízes, né, de voltar. Eu volto muito lá pra o interior. Sempre vou às datas festivas, festa de santo ou quando é Natal ou final de ano ou quando tem aniversário de alguma pessoa amiga, então a gente vai passar algum feriadão, né,. A gente vai muito para o interior ainda.

P/1 - Sua sogra mora lá ainda?

 

R - Não, não mora mais ninguém lá do meu marido lá. Só tem amigos, os amigos a gente se hospeda e abriga sabendo que é complicado. Que lá também não tem esses hotéis assim, mas a gente fica nas casas dos amigos e aí fica na festa. Inventa um monte de coisa, conversa, almoça na casa de um, janta na casa de outro, vai fazer aniversário, vai pra festas.

P/1 - E assim em termos do seu trabalho o que mudou quando você foi?

R - Aí eu comecei a trabalhar no nível central e eu sempre tive essa tendência a trabalhar com essa clientela que é mulher e criança, né? E fui exatamente pra divisão da mulher e da criança. Então nós, com o técnico lá na coordenação, tínhamos que tomar conta das unidades de saúde, implantando os programas de, parte de diarreia, _____, crescimento. Porque é o atendimento integral a criança e atendimento integral da mulher, o pré-natal, com doenças _________, teste de AIDS e aí vai. Tudo integralmente na área da mulher e da criança. Era o nosso papel, enquanto técnico, desenvolver isso junto às unidades de saúde com os profissionais da área da saúde desde médico, enfermeiras, auxiliar, assistentes sociais, atendentes, nessa época ainda tinha atendentes, implantando os programas básicos, fazendo supervisão e sempre procurando participar de todos os eventos. E foi num período em que eu fiz uma capacitação técnica nessa área de 45 dias e aí que eu me envolvi mais ainda, né? E eu fiquei sempre absorvida com esses trabalhos da parte de saúde pública.

P/1 - Como é que era o dia a dia do seu trabalho?

R - Eu trabalhava de manhã e de tarde sem ter hora para começar nem pra terminar. Eu ia a várias unidades, às vezes viajava para o interior numas unidades onde tinha implantada a parte ambulatorial. Então eu trabalhava muito fazendo supervisão. Era o tempo todo, eu sempre trabalhei muito.

P/1 - A supervisão consistia em que exatamente?

R - De ver se os programas estavam implantados, se precisava de treinamento na área, se precisava de material, então era tudo. Era um monte de coisa. Sempre nessa área materno infantil, né? Já quando eu fui pra divisão materna infantil. E aí eu sempre trabalhando em unidade e comunidade. Começava a trabalhar fazendo reuniões com as lideranças locais e daí a gente começava a discutir o que eles queriam e o que fariam para melhorar a saúde. Aí começaram a trabalhar também com grupo, até em Pedreiras eu trabalhava já com comunidade também, né? Só não se tinha o agente de saúde nessa época. _____ainda em Pedreiras, eu passei um período que eu fiquei como articuladora do polo Nordeste na região de ____________. Aí foi quando foi implantada, já bem no final do trabalho que foi implantado em 70 dias, que era um programa de interiorização de assistência à saúde. Eu passei um ano, já quase no final de terminar o projeto e nessa época foi quando já existiam em todos os... Em vários municípios eles fizeram postos de saúde para forçar um (estilo?) ao orientador de saúde, principalmente na zona rural. Eu trabalhava com o orientador de saúde, ia me esquecendo desse detalhe, então eu treinava, porque nessa não época não tinha como hoje, a figura do enfermeiro. Eu é que dava a assistência pra 27 postos de saúde na época e 27 postos multiplicados por 12 orientadores davam 50, 60, 64, orientadores de saúde. Então eu que treinava eles, que acompanhava, que supervisionava, que coletava os dados deles, que abastecia os postos nesses oito Município que orientava essa região.

P/1 - O trabalho desses orientadores consistia em que exatamente? Fazia pré-natal?

R - É. Basicamente eles trabalhavam numa unidade básica, bem básica que era um postinho de saúde, né? Então a principal tarefa deles era muito forte a parte educativa também. Então eles faziam visita domiciliar, eles faziam incentivo ao aleitamento materno. Alguns postos tinham energia e faziam a vacinação das crianças que moravam lá naquela área com aquele posto daquelas famílias que estavam ali próximas, faziam pesagem. Alguns sabiam fazer curativos, injeções. Quando o médico ia uma vez por mês ou de 15 em 15 dias, dependendo do Município, né, ele ajudava o médico, que vinha aquelas consultas médicas, né, as gestantes, eram pesadas as gestantes, elas sabiam verificar a pressão arterial. Elas faziam, mediam pressão de útero, eles faziam essas atividades básicas, né? E quando o médico estava, eles ajudavam. Serviam assim de um assistente, né? Pra encaminhar os pacientes, ajudava a pegar o medicamento quando o médico prescrevia. E em alguns postos não tinha aqueles medicamentos que já está no posto, de malária, né, eles já entregavam com aquele paciente que morava lá, eles entregavam o, se fosse no caso, o medicamento de hanseníase, os tuberculosos já tinham um acesso a isso, mas desde que estivesse prescrito, né? Só pra saber se estava tomando todo dia. Mensalmente o paciente ia lá e __________ a zona urbana. Ele ia ao próprio postinho próximo onde ele morava, mas eram poucos também.

P/1 - Poucos postos?

R – Vinte e sete postos pra oito municípios. Cada município tinha em torno de dois, três, quatro dependendo do tamanho do município, né? Pedreiras tinha cinco postos, já outro município mais próximo tinha um. Em Joselândia tinha um também. Esperantinópolis tinha sete postos, (Sete Pedras?) também tinha sete e assim, de acordo com o tamanho do município. Aí, os orientadores eram treinados para atender as pessoas próximas de onde eles tivessem, né? Que eles fossem treinados nessa parte educativa, informativa também, então eles faziam algumas intervenções, assim, de injeção, curativo, pressão, eles faziam algumas coisas dessas.

P/1 - Se eles verificassem algum problema, eles encaminhavam?

R - Encaminhavam pra zona urbana. Que às vezes não tinham nem garantia se a pessoa ia ser atendida, ter algum retorno disso, mas era preocupação deles procurar saber isso.

P/1 - Como que era feito esse encaminhamento? Ele...

R - Na época tinha um papelzinho, né? Que era de referência, de chamada. Ele encaminhava que fulano de tal está apresentando, ele apresentava. O que ele entendia porque na verdade quem dá o diagnóstico é o médico. Daí ele encaminhava e o médico lá, pelo encaminhamento dele aí ele examinava o paciente e via se ele estava ou não com problema, né? Se fosse o caso de fazer internação internava, se fosse o caso pra um atendimento à distância e ele levava medicamento, e lá o orientador deveria ver se a pessoa estava tomando remédio ou não, ou se fosse no caso tomar injeção em seguida ele já levava a seringa, essas coisas e só com precisão ele aplicaria, né? Se soubesse fazer.

P/1 - E aí você ficou nisso daí até 85, e aí...

R - Aí eu fui pra divisão da mulher e da criança. Aí nessa divisão da mulher e da criança foi quando em 87, eu passei dois anos na divisão da mulher, foi quando teve uma mudança da secretaria, do secretário, né? Que mudou e mudou o chefe das coordenações, divisões e nessa época a pessoa que assumiu a chefia da divisão materno infantil, eu não me dava muito bem com ela, choques _______(riso), assim de eu por ser enfermeira, eu tinha meus posicionamentos e tinha mais experiência de trabalho, gostava de trabalhar e essa pessoa que na época foi ser chefe de divisão era médica, tinha choques terríveis com outros profissionais e eu não era muito calada, eu rebatia e eu achei melhor sair pra evitar ter problemas, né? E aí eu saí mesmo, disse que não ficava mais lá e fui embora. Eu passei um mês pensando em que local iria ficar que me chamasse a atenção pelo caminho que eu tinha passado nessa área preventiva, educativa, mulher, criança, essa coisa toda. Aí eu tive vários convites. Um deles foi ser diretora da divisão de ______, mas aí eu fiquei, assim, pensando: “Primeiro convite, vamos ver os outros”. E eu já tinha assim um certo conhecimento, aliás, as pessoas já tinham um certo conhecimento técnico meu e quando souberam que eu não estava mais na divisão, aí foi aquela coisa de todo mundo querer que eu fosse (riso). Aí teve um convite pra ser enfermeira-chefe de um centro de saúde, teve convite pra ser diretora de uma divisão de doenças crônicas e degenerativas, mas eu não sei o que fazia que eu não estava a fim, achava que não era isso porque já tinha sido, tinha trabalhado muito tempo com essas coisas e ter feito uma capacitação técnica que eu acho que não ia aplicar esses conhecimentos lá, mas foi um dia que a consultora da Unicef me ligou, numa noite, aliás, convidando para dar uma palestra sobre planejamento familiar e eu comuniquei que eu não estava mais na divisão e que convocasse outras pessoas porque aí, até o material que eu usava estava lá: “Mas você está sem lugar nenhum? Não acredito! Você quer vir pra cá pro escritório da Unicef?” E era só a resposta pra pergunta que eu estava esperando, não é? Parece quando chama. Aí eu disse: “É agora”. Aí foi quando eu decidi entrar na Unicef. No mesmo dia, aliás, no outro dia ela fez um requerimento, a secretária, solicitando a minha disponibilidade pra ser representante da secretaria da saúde na Unicef e foi outra escola que eu tive, né? Aí foi que eu me envolvi muito mais com comunidades porque em 87, quando entrei pra o escritório da Unicef, a Unicef já desenvolvia um trabalho desde 84 com... Eram três municípios próximos a São Luís, eles trabalhavam com agentes comunitários voluntários, eu me engajei muito rapidamente. Nós tínhamos 31 projetos. Então os agentes voluntários eram mães, ou às vezes faziam parte de clubes de jovens, clubes de mães ou clubes de igrejas que moravam naquela própria comunidade e aí eu entrei como sendo instrutora de mais... Eram 31 áreas, nós éramos quatro e ficava dividida irmãmente. Nós trabalhávamos voluntariamente com elas. Nós que treinávamos, nós que acompanhávamos, nós que coletávamos as coisas, íamos na comunidade, reunia com a comunidade e trabalhando sempre com essa clientela, as mães e as crianças.

P/1 - Cristina, você sabe as origens desse projeto da Unicef, com os agentes voluntários? Você sabe como começou isso?

R - Sei, porque é o seguinte. A Unicef trabalha em estados que são bastante... Tem certa pobreza, né? A mortalidade é muito alta e esse escritório, ele foi implantado no Maranhão em 82 e na época tinha um consultor da Unicef, que era estrangeiro, o Roger, e então ele começou a fazer um trabalho com a secretaria de saúde do estado, né? E começou a trabalhar com as instituições tanto do estado, como as do município, as outras cidades. Na época a LBA, que é a Legião Brasileira de Assistência. Então eles criaram um grupo e chamou de Assistência Integrada a Saúde Materno Infantil que era justamente chamado o _________. Então, quando eles começaram a trabalhar com estas instituições que fizeram esse grupo, eles começaram a desenvolver vários trabalhos na área de educação, saúde, na área de... Não, foi mais educação e saúde. E na área da saúde, a fórmula que eles encontraram foi justamente criar pessoas, né? Tirar pessoas da comunidade que tivessem já com vontade de fazer um trabalho de saúde e foi começando a expandir de _____dessas instituições e na secretaria de saúde eram 31 bairros paupérrimos. Pessoas que moravam assim, em cima das pontes, em cima do mar, casas em cima de palafitas, né? Bolsões mesmo de pobreza e primeiramente essas pessoas começaram a ser trabalhadas a parte do incentivo ao aleitamento materno e prevenção das doenças diarréicas. E foram criados, começaram a criar... Em 84 que os agentes começaram a surgir voluntários em São Luís, São José do ________ e _______ que a gente chama grande ilha - municípios próximos entre si que não são divididos por nada, eles se ilham, né? E eles tinham um grande bolsão de pobreza, onde essas pessoas começaram a trabalhar. E nós chegamos a ter mais de 400 voluntários nesses três municípios.

P/1 - Como que esses voluntários eram recrutados? Eles eram recrutados e as pessoas... Que eram chamado grupo de trabalho, que era o G.T., elas tinham uma área, vamos supor que fosse a secretaria municipal da saúde, então tem uma área X chamada ______. Lá tem muita gente pobre, lá já tem uma associação assim de mulheres trabalhando, então se ia naquela associação, através de uma solicitação deles, ia lá e conversava com aquele grupo de mães, de jovens, associação mesmo, sindicatos, a gente fazia uma grande reunião e a gente já tinha um levantamento da situação sanitária, da situação _________ daquela área e daí a gente dizia que já que não tinha um posto de saúde, não tinha nada de saúde naquele local, apesar de ser na capital, então a gente fazia uma grande reunião, já pensando que ali a previsão era de ter dez pessoas, podiam ser homem, mulher, tinha um pouco de homens, mas tinha alguns homens, dez pessoas que dedicassem os finais de semana pra ensinar as pessoas próximas ali da casa deles. E daí, diziam. Aí as pessoas mesmo ficavam, né? A dona Maria, a dona Josefa, o seu Bernardo, que até hoje este seu Bernardo ainda é agente de saúde, hoje ele é da reunião do ________.E iam dizendo os nomes das pessoas. Então pegava aquelas dez pessoas e a gente começava a treinar em todas as lições, bem devagar pra aprender. A gente começava a treinar e dava o material, algumas apostilas, a gente fazia aula teórica, prática, acompanhava nas visitas, eles faziam cadastramento junto comigo, eles faziam... Eles tinham os boletins, pra preencher, tudo assim de uma forma bem simples. E daí a gente conseguiu ter 31 áreas que a gente chamava 31 projetos tanto em São Luís quanto eu São José do Passalacqua com quase quatrocentos agentes de saúde. Quando eu entrei já estava mais ou menos montado porque eu já entrei em 87. Daí eu peguei o caminho andando, então já fortaleci o grupo e fazia a minha parte de acompanhamento. Eu tinha algumas áreas que eu tinha prioridade e fazia as reuniões, ia pra lá com elas e fortalecia. Isso foi um bom tempo que a gente ficou assim.

P/1 - E aí o que aconteceu? Depois desse bom tempo?

R - Nesse bom tempo eu aprendi muita coisa realmente, aprendi até a mexer com computador. Eu fiz curso de computação, tive oportunidade de... aí que eu comecei a sair do estado, né? A participar de seminários, a participar de reuniões. Daí eu era indicada a fazer alguns cursos mais da minha área. Aí em 91 foi quando...

P/1 - Aí, em 91 surgiu uma oportunidade?

 

R - Aí, em 91 eu não sabia, foi quando o ministério da saúde quis lançar a ideia de um programa nacional de agente comunitários de saúde que era chamado de PNACS, né?

P/1 – PNACS.

R - PNACS. Era Programa Nacional de Agente Comunitário em Saúde. Então eles solicitaram que cada estado... Então eles acharam melhor iniciar pelo Nordeste porque é onde é a área de maior mortalidade infantil, maiores doenças, pobreza e tudo mais. Então eles quiseram iniciar pelo Nordeste e enviaram assim, uma correspondência assim, dois dias antes da reunião que ia acontecer na Bahia, eles solicitaram a indicação de três técnicos, sendo duas enfermeiras e uma assistente social, e que essas três pessoas tivessem características assim, já ter algum trabalho de comunidade, já trabalhar na área de recursos humanos, já ter uma história nessa área mulher criança. E eu não sabia de nada e alguém achou que eu tinha esse perfil e só foram me avisar assim: “você tem que estar em Brasília depois de amanhã. Arrume sua mala, está aqui a passagem e vá participar dessa reunião lá em Salvador”, que foi quando foi apresentado pra nós a proposta do programa de agente de saúde a nível nacional.

P/1 - Era proposta do ministério da saúde?

R - Do ministério da saúde. Isso foi em junho de 1991 e o secretário de saúde, aliás teve o dedo da consultora da Unicef, porque ela estava trabalhando muito próximo, né? A gente estava trabalhando juntas, então ela via, achou que tinha a potencialidade, e daí conversou com o secretário de saúde e disse que tinha uma candidata, e o secretário já tinha duas. E daí as três foram para Salvador e uma... Nesse período nós passamos uma semana lá discutindo sobre a proposta do programa emergente, os objetivos e já saímos com um cronograma pra desenvolver em nível do estado. Nós tínhamos praticamente dois meses pra já fazer os primeiros passos e já implantar o programa até novembro. Foi um desafio muito forte, né? Nós batalhamos muito, as três, na época não tinha uma coordenadora oficial. Eram as três coordenadoras. Tudo a gente fazia muito em conjunto, sofremos pra caramba porque foi uma coisa nova que a gente tentou conversar, assim, com a parte, desde a parte política, técnica, administrativa, enfrentar as regionais de ter contato com o prefeito, secretários municipais, vereadores, deputados. Foi um momento assim novo que a gente apanhou pra caramba, mas se consertava nas surras que a gente levava, e nós divulgamos muito programa nesses dois primeiros meses. Daí nós tivemos o... Depois de dois meses nós começamos a receber as adesões. E pelo nosso espanto na época foram 54 adesões e começando com 54 municípios. Aí foi se fazer um processo de seleção, recrutamento, tudo, treinando e colocando porque aí já se tinha a figura do enfermeiro em cada município, dependendo do número de agentes, aí já aliviou a questão de você treinar o enfermeiro e o enfermeiro treinar os agentes. Nós batalhamos naquela época, eram 1990 agentes nos 54 municípios aí depois tivemos outra expansão, passou para 2800, depois tivemos outra expansão, e hoje somos 3750 e para esse ano nós já temos 64 municípios que está com uma previsão 2174 agentes e se somar e der tudo certo vai pra quase 6000 agentes comunitários até o final do ano. A gente tem passado... São seis anos que se passaram né? Nós temos tido muita luta nessa questão de fazer o programa se solidificar cada vez mais, de ser acreditado e nós estamos numa fase muito boa de 94 pra cá, porque o próprio governo né, o próprio governo apoia. Ele fez isso como uma decisão política, de como reduzir a mortalidade infantil através dos agentes de saúde, então ele colocou isso como um carro chefe e delegou isso ao secretário de saúde, o Dr (Lourival?) e ele tem, ele não tem desprendido esforços de todo apoio da parte administrativa, política principalmente, porque há um rebate muito forte da gente hoje conseguir fazer com que os políticos entendam essa coisa de que é melhor, é bom, diminui, e tá diminuindo a mortalidade no nosso estado. Pra você ter uma ideia em 94, quando nós começamos a implantar o sistema de informação, registrando os dados, a mortalidade estava em torno de quase 70 por 1000, em 95 já baixou pra 54 por 1000. Nos municípios aonde tem o programa. E em 96 os dados até o ano passado, 96 já estavam em 51 por 1000. Então tem uma parte muito forte que a gente tá sempre treinando enfermeiro, e o enfermeiro que treina os agentes, eles agora que acompanham, é que veem como os agentes estão realizando essas visitas, como eles estão levantando esses dados, que tipo de assistência eles estão dando as famílias, os pesos que eles fazem uma vez por mês para as crianças com menos de dois anos, acompanha as crianças que tem diarreia e fazem terapia de ____________oral, as crianças que têm problemas de infecção respiratória aguda pra orientar, pra evitar que fique mais graves, se for o caso tem que encaminhar para o hospital. Eles já notificam todas as crianças que nascem, que morrem, as mulheres que morrem também, e visita, acompanha gestantes, principalmente pra ver se elas conseguem fazer um pré-natal, sejam vacinadas. As crianças também, é compromisso de que tenha carteira de vacinação em dia, né, pelo menos __________________, pra com essas ações, né, sendo desenvolvidas, essas ações educativas, esse conjunto nessa parte de assistência, na parte educativa, e na parte de controle de peso, se juntar tudo isso pra que a gente possa realmente reduzir a mortalidade infantil. Acredito que até com isso está diminuído por conta dessas, dessa parte forte de educação que eles procuram dar às famílias que eles acompanham no próprio lugar que eles moram.

P/1 - Certo. É (Pausa). Quanto do Estado tá coberto pelo programa?

R - Bom, até 96 nós estávamos... O Estado tem 136 municípios, então nós tínhamos 81 municípios com o programa, isso significava mais de 60 municípios com o programa, mas a partir de 97, o estado desmembrou os 136, foram criados 81 municípios. Então hoje nós estamos com 217 municípios. Então acho que ___________fechar o estado todo, agora nossa média com 217 municípios contra os 135, nós estamos somente com 48%, aí já baixamos, né? Mas muitos municípios que foram desmembrados, eles tem um agente de saúde, né? Então nós estamos redirecionando esses municípios que a gente chama de filhos que saíram agora, em contato junto com os prefeitos para que eles absorvam os agentes, que eles contratem as enfermeiras, contratem um médico, quer dizer a gente tá incentivando pra eles contratarem equipes de saúde, para atuarem juntos na unidade de saúde, implantando todos os programas básicos ambulatoriais para que essas famílias sejam encaminhadas pelos agentes, sejam atendidas, porque senão perde totalmente o sentido desse elo de ligação do agente da comunidade com a unidade de saúde. E nós já conseguimos, dos 81 municípios porque 54 foram desmembrados, nós já conseguimos negociar com 16 e todos pegaram até um quantitativo significativo de agente. Eu acho que a gente, continuando nesse corpo a corpo que a equipe tá fazendo, nós vamos conseguir chegar no 135, que é a nossa média que se acha________ no programa de agente de saúde com o desmembramento, né? Mas dos 54, só conseguimos até agora negociar com 19, e já estamos em negociação com outro, né? Mas que a gente não quer perder aquele agente de saúde que já foi selecionado porque ele já está trabalhando, ele já ficou naquela área, ele já está com o seu equipamento, já está com o seu manual, já está com o seu sistema de formação, então é um desperdício deixar ele para fora, né? Então a gente quer é que ele fique lá, e que venham outros pra aumentar o quadro lá do município.

P/1 - Certo. Você falou assim da adesão dos prefeitos, né? Que é esse corpo a corpo. Essa estrutura, como que ela se mantém financeiramente? É a prefeitura que dá estrutura?

R - No nível municipal?

P/1 - É?

R - Bom, os prefeitos quando eles querem o programa, ou se já tem o programa, eles contratam os profissionais, sejam médicos, enfermeiras, dentista, eles contratam e os agentes de saúde, eles, quando eles são selecionados, eles são cadastrado no (C.A. S.U.S?) através das _______. Então foi criado um código específico do agente e um código de produtividade do enfermeiro do programa de agentes e saúde. Então o município que hoje tem um programa de agente de saúde, ele tem, de acordo com o número de agentes, tem a quantidade de procedimentos e a parte financeira que dá para pagar a bolsa de um salário mínimo dos agentes e mais uma produtividade para um enfermeiro. Quer dizer, além do prefeito contrata a enfermeira ela ainda ganha uma produtividade nesses SUS e a secretaria como ela operacionaliza, ela é responsável na nossa coordenação, pela parte de treinamento, parte de recrutamento, seleção, treinamento, principalmente treinamentos iniciais sobre o programa, as normas, essa parte burocrática, a parte de sistemas informação, o andamento, qual é a rotina do programa, né? E que as partes mais específicas, assim nas áreas da mulher, da criança, de vigilância, se articula junto às divisões ou corporações, afins. Então se vai ter um PACS, a gente dá prioridade para que elas façam esse treinamento”. Vai ter uma de hanseníase.  Envia a nossa doação das enfermeiras e a própria divisão. Que inclusive há uma normatização em cada divisão mesmo, em cada coordenação do próprio ministério, que tem suas normas e diretrizes em cima dessas ações que são padronizadas. Então é importante que o nosso grupo participe porque fica fácil também para eles implantarem as ações no município. E nós na coordenação, além de recrutar, selecionar, dar os primeiros treinamentos introdutórios, fazer os cadastramentos, se fica na questão da parte da consolidação dos dados dos sistemas de informação da análise. E ver como fazer para viabilizar quando um município não está bem naquela ação e o material instrutivo que são os manuais, eles recebem também os materiais destrutivos, e agora o equipamento que foi doado através da Abifarma, já fortaleceu também eles porque era uma grande reivindicação por parte, não só dos agentes como do próprio instrutor, dos instrumentos de trabalho. Então como nunca tínhamos condições de comprar, à vezes o município comprava alguma coisa. Então quando eles receberam as balanças, já facilitou o trabalho deles na pesagem diária porque eles não tinham, era um instrumento que era necessário. Eles tiveram a identificação deles. Eles tinham uma fardinha, que às vezes o município também inventava uma farda, colocava lá o nome, mas não era padronizada, assim. Então eles tiveram a identificação deles, né? Única, todo mundo igual. As bicicletas também que eles receberam e que ajudou muito na locomoção. A fita métrica, o termômetro, quer dizer... E a mochila, então, instrumentos simples, padronizados, mas que no dia a dia fazia falta e que nós não tínhamos como dar pra eles. Então eles ficaram com treinamento, material instrutivo e equipamento. Coisas que ajudam muito no trabalho diário deles e que todos têm agora.

P/1 - E a parte pessoal dos agentes, você acha que tem uma valorização deles, tem alguma diferença com essa doação?

R - Isso era uma reivindicação antiga deles, esse material. Porque no começo da implantação do programa era proposta do ministério viabilizar esses equipamentos para todos os estados, mas aí teve aquele problema do escândalo das bicicletas, mochilas e guarda-chuvas e foi suspenso, mas eles ficaram nessa expectativa de cobrar e quando foi, a proposta foi feita mais ou menos, foi acho que em abril, um período desses, quando a coordenadora que veio desse projeto de doação, a Joice, teve uma reunião dos coordenadores estaduais falando dessa proposta. Aliás, antes nós tínhamos que responder uma planilha pra ver quais os municípios, a quantidade de material que ia ser necessária, uma coisa assim de dois dias que a gente teve que fazer esse levantamento, né? Inclusive tinha um prazo para entregar e aí foi assim, quando algumas pessoas souberam também não acreditaram, muitos ficaram mortos de felizes, outros diziam assim: “Só vendo”. E eu tinha, aliás, todos os coordenadores tiveram dois dias para entregar isso consolidado e eu aproveitei um final de semana. Eu recebi o fax numa sexta-feira, passei sábado quando vim trabalhar, não queria ficar pra trás porque era uma oportunidade. Se elaborou muito rapidamente, não sei nem se foi errado ou não o que eu mandei e quando nós íamos na reunião já foi pra assinar o convênio e já com os cronogramas de entrega, essa coisa toda. Quando receberam foi quase que uma alegria mesmo porque no dia da cerimônia de entrega nós convidamos o secretário de saúde, o prefeito, um instrutor e um agente que fosse escolhido por eles pra representar eles e escutar as conversas e aí foi uma verdadeira felicidade, né? Eles se sentiram muito valorizados e lembrados, porque achavam, passaram por maus momentos de certas transações ministeriais de querer acabar com o programa e depois... Em 91 foi a época de seleção, 92 foi a época que se começou a trabalhar muito com cólera e em 92, a metade de 92 a 93 seguraram porque acaba ou não acaba? Em 94 eu acho que tomou um impulso diferente porque inclusive definiu esta questão do pagamento deles e muitos perderam a esperança mesmo, deixaram de ser agentes de saúde. Em 94 quando começou a haver um movimento da questão do pagamento que começou a ficar mais estabilizado, eles começaram a tomar uma norma e começou a se expandir, já se tinha mais clareza das coisas, né? E foi com o equipamento, parece que eles assim, foi o comprometimento político, o pagamento atualizado e o equipamento que eram as promessas que eles reivindicavam há muitos anos. Eles ficaram muito felizes, se sentiram muito valorizados mesmo, de chorar, de ver gente chorar, porque, eu inclusive participei... Como a gente realizou a cerimônia estadual, eu pessoalmente fui convidada para as cerimônias municipais e daí era uma verdadeira festa daquela entrega, de receber, de beijar, de sair com ele mostrando e se sentiu que houve uma melhoria. A gente começou a distribuir... Em junho nós recebemos e foi aquela coisa, aí teríamos que fazer um tombamento, documentação, praticamente quase no final de junho que os... Municípios tinham um cronograma e eles vinham buscar com os carros e daí entre junho, julho e agosto todo mundo eu sei que estava recebendo. Grande quantidade de municípios recebeu e estava já fazendo a entrega. Ficaram pouquíssimos municípios, assim, que deixaram depois da eleição, por falta de tempo mesmo porque além da burocracia do próprio almoxarifado porque tinha que ser feito mesmo, porque tinha tombamento, tinha documentação de tudo e o volume era muito grande de material e eles tinham burocracia também no município porque eles tinham que montar as bicicletas, tinham que montar as coisas, organizar a festa, e se passaram uma semana, duas, e todos praticamente depois da eleição que foi em outubro, né? Eleição é em outubro?

 

P/1 - É, outubro.

R - Em novembro todos estavam com o material. Só teve um município que não entregou porque nós barramos o material e foi entregue esse ano porque é um município problemático e que estava querendo pegar material pra dar pra outras pessoas que não tinham nada a ver, então nós seguramos e fomos entregar agora. Agora não, em fevereiro que já se passou, né?

P/1 - Cristina, você falou que era muita coisa. Você tinha ideia do volume do material que foi doado?

R - Quatro mil bicicletas, foram 4 mil jalecos, 4 mil mochilas, 2 mil e poucas, não, tudo era 4 mil. O que que era dois mil, meu Deus? Dois mil e pouco? Ah! Era ________, que não chegou, eu acho que era 2.600, uma coisa assim. Porque nós já tínhamos conseguido anteriormente da Unicef... A balança também era dois mil e pouco. Porque nós tínhamos recebido uma doação da Unicef de mil balanças e dessas mil balanças recebidas, distribuiu em 61 municípios, 60% dos municípios que não tinham balança, também nós tínhamos 60% e 27 municípios já tinham comprado bicicleta, oh, balança. Então eu só fiz o levantamento do que faltava. Tanto no _______ quanto na balança. O resto foi tudo quatro mil que não tinha fita métrica, não tinha termômetro, jaleco não tinha, bicicleta. Somente um município tinha feito compra de bicicleta e ele inclusive ficou chateado porque a outra era mais bonita, todas igualzinhas, azuizinhas, tombadinha, cuidadinha e a dele era antiga. E aí, depois ele tentou conseguir, mas não tinha como porque os municípios já estavam muito ______ que iam receber, né? Mas eles ficaram até chateados porque compraram com antecedência porque aí como elas eram tudo azulzinho, aí acharam tudo bonita, queriam ficar igual aos outros. Todos os municípios são vizinhos, né? E teve até um agente de saúde que depois da cerimônia ficou tão empolgado e que na autoestrada ele foi atropelado e morreu, com tudo, né? Esfacelou tudo. Dentro de um município muito bom, não tinha problema, mas foi uma tristeza pra comunidade lá muito grande.

P/1 - Na hora que ele estava voltando da doação?

R - Com tudo. Lá no município dele quando fez a cerimônia, ele saiu na bicicleta com a mochila, tudo e o caminhão agarrou ele no meio do caminho e esfacelou tudo.

P/1 - Meu Deus!

R - Isso foi uma tragédia que a gente teve, o resto. Alguns não sabiam andar direito de bicicleta e tiveram que aprender.

P/1 - Sério? Isso uma vez me passou pela cabeça, se o pessoal sabia andar de bicicleta.

R - Porque tem agentes de saúde que são de idade, né? Aí eu dizia assim: “ Olha, se não ficar com ___________ vão andar de lado, botar o material e andar com ela de lado ou vão então entrar numa escola de bike. Aí, às vezes os filhos pedalam e elas vão atrás.

P/1 - É mesmo?

R - É, as mais idosas, porque tem umas idosas, mas é muito difícil. Se você deixasse de dar uma bicicleta pra um ou outro ele não ia gostar, ele queria, nem que botasse num quadro.

P/1 - Muito interessante. Cristina, acho que a gente vai acabando por aqui, você quer falar mais alguma coisa?

R - Não, eu acho que já falei demais (riso). Acho que já falei demais.

P/1 - Tá ok, então eu te agradeço a ajuda que você deu pra gente. A sua entrevista foi muito boa mesmo, viu? Obrigada.

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