Busca avançada



Criar

História

Sempre gostei da roça

História de: Ginivaldo Canal
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/11/2014

Sinopse

Ginivaldo Canal nasceu e cresceu na roça, filho de pequeno proprietário e produtor rural, soube desde adolescente que sua vocação estava ligada ao campo. Frequentou a escola agrícola, onde aperfeiçou seus conhecimentos e se afeiçoou ainda mais ao trabalho na terra. Atualmente, administra junto com o pai o Sítio Canal, e sonha em tornar-se uma referência na produção de café.

Tags

História completa

Ginivaldo Canal. Onze de fevereiro de 1978. São Gabriel da Palha. Meu pai é Antoninho Canal. Eu sei que a data de nascimento é 27 de outubro. A mãe é Élida Ronchetti Canal, a data é três de março, de nascimento. Nascidos no Espírito Santo,  os dois. Sempre, que eu me lembre, sempre mexeram com café. A fonte de renda principal sempre foi café. O papai é mais tranquilo, a mamãe é um pouquinho mais ativa. Tenho três irmãos: Givanildo, Gilberti e Girlane. O Givanildo trabalha na área de direito, o Gilberti é administrador de uma empresa, uma construtora que mexe com loteamento. E a Girlane atualmente ela trabalhava em banco, hoje ela tá em casa. Hoje ela tá dona do lar.

Passei a infância na Fazenda Catelan, nós jogávamos bola, peteca, boleba, que é bolinha de gude.Tem vários nomes, birosca, mas pra nós era boleba. Gostava de seta, atacar pedra em passarinho. Coisa de menino mesmo. Pescar. Brinquedo tinha brinquedo também, de Natal, né? A gente ficava doido quando chegava o Natal. Contentava-se com qualquer coisa. Era carrinho, carrinho de madeira. Acho que na época era mais carrinho de madeira mesmo. A gente começou já a trabalhar muito cedo, então as coisas que eu me lembro de infância assim de brincadeira, quando eu brincava era bem criança mesmo. Sete anos. Oito no máximo. Depois já ia pra escola, da escola já começava a trabalhar. Uma coisa que eu não me arrependo nem um pouquinho, assim, claro que a gente tem que ter infância, mas me ajudou muito como pessoa. Com certeza. Aprendi muita coisa. Aprendi muito cedo.

A primeira escola que frequentei era aqui mesmo, pertinho aqui. Isso era uma maravilha. Tinha um pasto lá na frente da escola lá, nós todos os dias jogávamos bola naquele pasto. Tinha morro no meio, nós driblávamos o morro, passávamos pelo morro, cortávamos a volta, chutava a bola. Aquilo lá é uma maravilha. Hoje em dia você não vê as crianças mais fazerem isso. Acho que o ensino embora que fosse bem assim dificultoso pra professor, professor tinha que cozinhar, dar aula pra quatro turmas, mas o ensino era melhor. Menos bagunça. A escola era pequena. Eu acho que tinha uns 30 alunos, 40 quando tinha muito. Tudo numa sala só e a professora conseguia dar aula assim mesmo. Da primeira a quarta série, todo mundo na mesma sala. Hoje tem os meus irmãos que são formados, passaram por ela. Era bom.

Ia pra escola, da escola nós vínhamos trabalhar aqui, que é pertinho, né? Já trazia uma mochilinha de roupa. Com sete anos de idade, eu com sete, o meu irmão com oito. Nós trabalhávamos mesmo. Tinha que ser... Quem trabalhava na época junto da turma, se não fosse bom de enxada, que na época era enxada, nós capinávamos muito. Hoje em dia que mudou um pouco o sistema de trabalhar, mas nós capinávamos, não tinha esse negócio, não. Se o cara fosse meio ruim de serviço ficava pra trás. Estudava, né, aí a parte da tarde vinha pra cá. Aí capinava, roçava, fazia de tudo. Aprendi de tudo. Meus irmãos hoje todos eles, assim, têm faculdade, tirando a minha irmã que a minha irmã sempre ficou com a minha mãe em casa. Tirando ela os meus irmãos você pode colocar pra fazer qualquer coisa na roça que eles sabem fazer. Qualquer coisa.

Depois do primário eu fui pra escola agrícola. Na minha época tinha escola agrícola, né? Hoje tem uma escola agrícola, mas o governo não dá apoio nenhum a escola agrícola. Por ele acabava, porque dá custo, gera custo pro governo. Mas deveria ter... É o CEIER. Lá eu aprendi muita coisa também. Lá a gente mexia com porco, galinha, coelho, lavoura de café, fazia muda, horta. Tinha de tudo. Porco. Aquilo foi muito bom. Nossa Senhora. Uma maravilha. Ensinava muita coisa pros alunos e tinha muita coisa que prendia o aluno lá na escola. Tinha interesse. Gente, como é que é bom mexer com porco, você mexer com uma porca cheia de leitão que qualquer um se encanta. Um porquinho pequenininho é muito bonito, né? Aí lá tinha coelho, galinha, horta. O que você pensasse na horta nós tínhamos lá. E era a gente que cultivava, você tá entendendo? Tinha de tudo. De tudo, de tudo mesmo. A parte da manhã a gente estudava até meio dia. E a parte da tarde a gente ia pro campo. Cada turma tinha a sua área. Vamos supor, a quinta série ficava por conta dos porcos. A sexta série por conta dos coelhos. A sétima série por conta das galinhas. Aí, era dividido por turma. Cada fase ia mudando, conforme você ia passando você ia passando todos os setores. E a horta era todo mundo. Se eu não me engano acho que era duas vezes por semana que a gente ia pra campo. Não era todo dia também, não.

Na adolescência a gente ia pro campo, que sempre joguei bola, né? Já desde a escolinha nós começamos e a gente sempre gostou, isso já vem de geração, desde o meu avô. Sempre gostou de jogar bola, então era campo, alguma festinha, forró que tinha. A gente quando não ia a pé era de bicicleta. A gente não tinha muito dinheiro, não. Eu lembro que tinha vez que a gente ia, se tivesse que pagar ingresso a gente não bebia e se fosse livre bebia uma cervejinha e pronto. Que era o que a gente tinha. Eu mesmo nunca fui de pegar dinheiro na mão. Meu filho hoje com 12 anos, dez, 12 anos se der dinheiro na mão dele gasta igual água. Nós nem víamos. Eu fui ver dinheiro com 18 anos. Pra mim foi bom demais, viu? Hoje eu dou valor pras minhas coisas e tento passar isso pros meus filhos, não sei se eu vou conseguir, mas pelo menos a minha parte eu to fazendo.

Depois fui pro segundo grau em Águia Branca. Aí, era a noite. O papai gostava dessa parte, nós trabalhávamos o dia inteirinho e íamos estudar a noite. Com muita dificuldade. Era muito dificultoso também. Época de chuva, o ônibus costumava não romper, a gente tinha que vir embora a pé, chegar duas horas da manhã em casa. Sete horas da manhã a gente estava acordado. São 18 quilômetros. Era cansativo. E não tinha esse negócio de tempo pra estudar. Não é igual hoje que meu filho fala assim: “Ah, hoje eu vou estudar.” E vai estudar. Não tinha esse negócio. Se quisesse estudar tinha que estudar a hora que chegava ou a hora que ia pro ponto enquanto estava esperando o ônibus estar estudando. É por isso que eu falo que o serviço da roça é bem cansativo dependendo da época e do serviço que fazia. Mas a gente não enjeitava, não. Tinha que trabalhar. Mesmo que não quisesse tinha que ir pro serviço. Inclusive dia de sábado. De domingo, não. Domingo a gente como graças a Deus somos católicos ativos, de domingo só se fosse pra salvar alguma coisa, um serviço que fosse rápido na parte da manhã, ou mexer com um animal, que sempre teve um gadozinho assim pro consumo, né? Aí, talvez a parte da manhã ia fazer isso. Depois ia jogar bola que isso aí nós não... Aí era briga mesmo. Podia falar o que quisesse, nós falávamos que íamos jogar bola, íamos jogar bola. Gostava mesmo. Nós tínhamos um time. Num lugar só eu joguei dez anos. Era Zé Bossoni o time. Mas eu joguei na comunidade aqui muito tempo, depois o time acabou aí fui pra lá. Eu joguei dos 11, fui dos 11 aos 17, acho que foi no Trinta. Depois eu fui pro Bossoni até estourar o joelho, senão jogava bola até hoje, que eu gosto demais. Eu nem campo eu não vou, senão passo vontade.

Eu não queria estudar. Eu terminei o segundo grau por conta do papai, senão não tinha terminado, não. Eu já sabia desde lá da oitava série, desde quando estava na escola agrícola. Sempre gostei da roça. Sou teimoso, né? Eu sou teimoso. Meu sonho? Eu sou bem ambicioso, viu? Eu sou. É por isso que eu to batalhando. A pessoa tem que ter algum estímulo pra poder conseguir as coisas. A partir do momento que você não quiser, não tiver um estímulo pra crescer, você vai ficar parado. E não é o que eu penso. Eu quero crescer muito ainda, se Deus quiser. Eu, o meu pai, não que eu queria crescer sozinho, não.

Eu quero produzir café. Eu quero despolpar café. Eu quero ser referência em café. Eu gosto do que faço. Eu quero ser referência, se Deus quiser. O problema é que a gente é pequeno proprietário, então é muito difícil. A terra é cara, tudo é caro. Mas eu chego lá. Com certeza.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+