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"Sempre fui liberal"

História de: Felicie Boubout
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/01/2021

Sinopse

Uma mulher adiantada para sua época por ter decidido ir morar sozinha, ainda solteira e trabalhar por conta própria como costureira, na década de 1950 no Brasil. Felicie Boubot, foi criada por uma mãe extremamente religiosa, de origem judaica. Cresceu em sua cidade natal, Casablanca, em Marrocos, onde o seu pai era prefeito e tinha grande influência na cidade. Nascida em 1925, Felicie era adolescente na época da segunda guerra mundial. Revelou casos em que sua família e o povo judeu sofreram ataques de árabes, por conta do antisemitismo. Quando tinha 22 anos decidiu pegar o navio Campana, em 3 de junho de 1947, junto de refugiados da guerra, para passar um ano no Brasil com sua tia. Felicie permaneceu no país, casou em 1957 e depois de algum tempo pediu o divócio. Teve um filho, fruto do segundo casamento em 1964, também com um não-judeu.

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História completa

 

H. - Bem sra. Felice, eu gostaria de iniciar a nossa entrevista perguntando para senhora seu nome completo, local de nascimento, cidade, país.

 

F. - Felicie Boubout, nasci em Casablanca, Marrocos, em 3 de abril de 1925. Muito tempo, né? (risos)

 

P. - Até parece. Bem, a senhora poderia dar o nome do seu pai, da sua mãe e me dizer se eles são originários do Marrocos ou de onde eles vieram?

 

F. - Meu pai é Nessim, Nessim.

 

P. - Nessim.

 

F. - Nessim Boubout nasceu na Argélia e minha mãe é Mezzal Dayan, nasceu em Marrocos, em Mogador. Meu pai nasceu 29 de março de 1899, minha mãe nasceu acho que em 1906, 1907, não sei bem, que naquela época no Marrocos não tinha ainda o protetorado francês, era inglês e um… Às vezes era inglês, às vezes eram alemães que governavam, mas que governavam pouco tempo, o que ficou é a França, o protetorado, e aí meu pai... Porque na França quando faz serviço militar eles mandam outra cidade, outro lugar, então meu pai da Argélia mandaram ele para Casablanca fazer o serviço militar e é aí que minha avó se encontrou de novo com a família, porque a minha avó, a mãe do meu pai, era marroquina, também de Mogador. Aí se encontrou, meu pai gostou da minha mãe e pronto, surgiu o casamento (risos).

 

P. - Aí vocês ficaram no Marrocos?

 

F. - Aí meu pai foi, depois do serviço militar, ele foi funcionário do governo francês, ficou no Marrocos e ficamos até…

 

P. - Os pais do seu pai eram do Marrocos?

 

F. - Os pais do meu pai eram do Marrocos, que minha avó…

 

P. - Qual o nome dessa sua avó?

 

F. - É Felicie também.

 

P. - Felicie…

 

F. - Simcha em hebraico. É Simcha.

 

P. - Simcha. E seu avô?

 

F. - Meu avô, o pai do meu pai?

 

P. - Esse que era casado com a Felicie. Pai do seu pai, né?

 

F. - Avraham Bohbot. É que Boubout… O verdadeiro nome é Bohbot, só que minha avó era casada não com meu avô… Era casada com outro.

 

P. - Outro casamento…

 

F. - Outro casamento. Eles iam para Jerusalém. Ele era rabino, o marido da minha avó, eles iam para Jerusalém, mas naquela época não tinha carro, tinha camelo, tinha burro, sabe, eles andavam a cavalo, a burro, então eles foram andando, quando chegou na Argélia minha avó ficou…

 

P. - Eles iam de onde para onde?

 

F. - Do Marrocos…

 

P. - Do Marrocos para Jerusalém?

 

F. - É, para a Palestina.

 

P. - A pé?

 

F. - A pé, assim como antigamente eles andavam aquelas andanças.

 

P. - Caravanas.

 

F. - Caravanas, é isso mesmo. Aí minha avó ficou na Argélia. Depois ela não tinha mais o marido e desse marido ela tinha duas filhas.

 

P. - Ela ficou viúva?

 

F. - E ela tinha duas filhas.

 

P. - Em Jerusalém?

 

F. - Não, em Argélia.

 

P. - Na Argélia mesmo?

 

F. - Na Argélia mesmo. Aí ela conheceu meu avô que era também do Marrocos, mas que estava na Argélia, aí casou com meu avô e nasceu meu pai. Dois anos depois meu avô morreu ainda na Argélia e justamente o funcionário da Prefeitura, em vez de botar Bohabot, aí botou Boubout. E meu avô disse assim: “Ih, dá muita dor de cabeça para mudar o nome! Fica Boubout mesmo.”

 

P. - Naquela época já dava dor de cabeça?

 

F. - Muito. O governo francês é terrível para nomes. Só se você bota, admitamos Felicie sem o “e”, então já dá problema. Dá processo, tem que ir na Justiça, dá muito trabalho, então meu avô deixou Boubout, mas o nome real é Bohabot.

 

P. - O nome da família é Bohabot, mas o seu pai então ficou Boubout. 

 

F. - Meu pai é Boubout, então aí você vê, Boubout é minha família, eu mesma não tem outra. E meu irmão, meus sobrinhos...

 

P. - Agora os pais de sua mãe, eles nasceram na Argélia?

 

F. - Em Mogador, não, da minha mãe no Marrocos.

 

P. - Os pais da sua mãe, qual o nome desses seus avós? Os pais da sua mãe, lembra?

 

F. - Dayan, Dayan, Dayan…

 

P. - E o marido, o avô?

 

F. - Então, meu avô que era Dayan e a família Ben Soussan.

 

P. - E a avó, então?

 

F. - Minha avó, a mãe da minha mãe?

 

P. - É. A senhora lembra o nome dela?

 

F. - É Eisha.

 

P. - E o sobrenome de solteira, lembra?

 

F. - Ah! Não.

 

P. - Não, né? Tá bom. Tá legal.

 

F. - Eu sei que é Dayan, mas o nome…

 

P. - Agora, a senhora teve um irmão. A senhora teve outros irmãos? A senhora pode dar o nome deles para a gente?

 

F. - Não, só esse irmão que perdi.

 

P. - E qual o nome dele?

 

F. - Prosper, porque temos sempre dois nomes, não é? Hebraico e francês.

 

P. - Prosper é o quê?

 

F. - Prosper era o nome, era Mesaud.

 

P. - Esse Prosper é em francês?

 

F. - Prosper é francês.

 

P. - O primeiro nome?

 

F. - Mesaud é batismo.

 

P. - Em hebraico?

 

F. - Como Felicie é francês, Simcha é Hebraico.

 

P. - Eu entendo. Eu não sabia qual que era um qual que era o outro. Bem, agora a gente vai começar a perguntar um pouco da sua vida no Marrocos.

 

F. - No Marrocos?

 

P. - Então, eu queria saber: os seus avós estavam morando nessa cidade que a senhora morava, em Casablanca?

 

F. - Não.

 

P. - Não? Eles estavam onde?

 

F. - Si… A mãe do… Si, quando era pequenininho a minha avó, a mãe da minha mãe, veio para Casablanca, então morava conosco.

 

P. - Morava na mesma casa?

 

F. - Na mesma casa. E a mãe do meu pai também veio em Casablanca e morava…

 

P. - Também na sua casa?

 

F - Conosco. É, porque lá no Marrocos as casas são grandes, sabe? Aquelas que tem pátio no meio.

 

P. - Então, é isso que queria que a senhora falasse. Eu queria que a senhora descrevesse um pouco, primeiro a sua casa em Casablanca, depois um pouco do seu bairro que a gente vai querer uma descrição, como era sua casa, os detalhes que a senhora puder dar, quem morava dentro dela…

 

F. - Bom, morei em várias casas, mas quem me marcou mais é da minha infância e isto até mocinha, né? Era uma… Eu morava perto do porto. A rua se chamava naquela época, porque agora mudou tudo, Boulevard Deuzieme, no Douzieme… Era… Começava na cidade europeia e acabava, pegava toda a cidade indígena, mas ela acabava no porto. Então tinha uma casa bem grande, são casas por fora, você pensa que não é nada, aí você entra pela porta, você entra um grande pátio e os quartos estão ao redor do pátio e tem o terraço. Aí tem o quarto para quem quiser né, para guardar as coisas.

 

P. - O pátio interno é coberto, e isso que é o terraço.

 

F. Não. Tem um só coberto, a minha não tava coberto, dava…

 

P. - Uma parte dava para o céu?

 

F. - Aberto ao céu. E lá em cima tinha um quarto grande, então no verão a gente subia lá para… Tinha também um quartinho onde a gente lavava roupa, essa coisa toda né. Então tinha o pátio e tinha os quartos, sala de jantar, quarto de dormir, quarto da minha avó, tinha cozinha, e cada casa lá tem poço. Na minha casa tinha dois poços, o poço da água de beber e outro poço da água de chuva, que era água de chuva para lavar roupa, fica limpa, branquinha, feito que se bota água sanitária. Era uma boa, uma boa lembrança essa casa.

 

P. - E aí morava seu pai, sua mãe, seu irmão, suas duas avós?

 

F. - Não, naquela já minha avó tinha falecido.

 

P. - Sei…

 

F. - Porque antes onde morava minha avó era pequenininho, mas era o mesmo estilo de casa, era um pátio, terraço aberto, quarto em redor, a mesma coisa…

 

P. - Então era uma casa grande, tinha vários quartos, bastante espaço para brincar…

 

F. - Ah! Sim, tinha.

 

P. - Agora, o que faziam o seu pai, a sua mãe, a profissão dos seus avós, do seu pai, começar pelo pai. Em que o seu pai trabalhava?

 

F. - Era trabalho no Serviço Municipal, trabalhava para a prefeitura. Então meu pai… A cidade de Casablanca era dividida em quatro setores e meu pai tinha um setor. Então ele se ocupava de tudo, ele mandava em tudo e… Nos garis.

 

P. - Sei, ele como era um prefeito de uma daquelas quatro partes.

 

F. - Exatamente. Uma das quatro partes, então ele mandava e naquela época a cidade estava bem limpa, muito limpa e naquela casa então onde eu me lembro bem, que era um pouquinho mais crescida, tinha o quarto dos meus pais, a sala de jantar, o quarto das empregadas e o quarto da minha avó, que eu dormia com a minha avó e tinha mais um quarto para receber toda a família, porque no Marrocos a gente não vai no hotel quando vem, não vai de um bairro para outro, mesmo a gente não vai lá, todo mundo dorme na mesma casa. E lá no Marrocos… Bom, eu era europeia e então já era um pouquinho mais diferente, mas no Marrocos o que tempos mais para ver naquela época que era pequena a riqueza do marroquino se via pelo seguinte: pelos colchões e pelos cobres.

 

P. - Pelos…?

 

F. - Cobres.

 

P. - Cobres?

 

F. - Candelabros, tachos…

 

P. - Ah! Tá, prataria.

 

F. - É… Digamos prataria.

 

P. - Similar a…

 

F. - Era tudo em cobre, então você via a riqueza pelos colchões porque as casas marroquinas eram como aqui, assim vazias. Então ao redor da parede tinha um divã, mas de colchão, então se você via muito colchão assim de lã, essas coisas… Então você era abastada. Se você via um colchãozinho ralo de crina, então era mais ou menos.

 

P. - Agora a sua casa, seu pai era como se fosse um prefeitozinho, a senhora tinha muitos empregados? Tinha um serviço todo sofisticado, como era isso?

 

F. - Não… Éramos bem estilo marroquino, mesmo.

 

P. - Era estilo marroquino?

 

F. - Só que claro, na minha casa tinha móveis, não é como as casas bem marroquinas. As casas marroquinas tem o baú, onde os árabes botam… Tem muitas bandejas. Ah! Bandeja que não falta, lá bandeja e bule que não falta. Porque aqui, por exemplo, quando o visitante vem a gente oferece cafézinho, nós não, e chá, chá verde. Tenho aqui para te mostrar se quiser, é chá verde com hortelã.

 

P. - Sei.

 

F. - Então o fogareiro, que se chama o fogareiro, trouxe o fogareiro de barro, toda louça aliás é de barro lá no Marrocos e a gente cozinha a carvão, naquela época não tinha gás a carvão. Então no pátio sempre tinha o fogareiro, não é, e como tinha sempre carvão ia se extinguindo, não é, lá sempre tinha o se chama “bulan”.

 

P. - Um bule, não é?

 

F. - Não, isso que é bule. A cafeteira… Como se chama? Onde a gente ferve a água, pera aí…

 

P. - Chaleira.

 

F. - Chaleira, isso mesmo. Tinha sempre uma chaleira com água aí quando vinha visita só botava um pouquinho mais de carvão e fazia chá. A gente oferece o chá. Então, mas… Isso é estilo marroquino, mas na minha casa não tinha armário, tinha cômoda.

 

P. - Era uma casa mais marroquina do que francesa, mas o serviço também era mais marroquino. Os empregados serviam vocês…

 

F. - É…

 

P. - Mais no estilo francês ou no estilo…

 

F. - Ih… (dúvida)

 

P. - Não era muito sofisticado, não era como os ricos, nada disso…

 

F. - Não, não. Éramos muito bem de vida, mas não éramos ricos, mas muito bem.

 

P. - Só para a gente imaginar, a gente sempre gosta de imaginar…

 

F. - Si, si… Tinha duas empregadas, as “Fatmas”, lá são todas Fatmas. Quando cheguei no Brasil, que escutei Fátima, __________, falando português, não é, falando português pra mim foi demais (risos). Quando cheguei no Rio que vi aquilo.

 

P. - Na sua casa vocês falavam francês, árabe e… Qual a língua?

 

F. - Francês e árabe. Com minha mãe árabe, com meu pai francês.

 

P. - Agora a senhora pode descrever um pouco mais o bairro onde estava a sua casa? Quem vivia nesse bairro ou por exemplo essa região que seu pai tomava conta?

 

F. - Isso é a cidade indígena…

 

P. - Só tinha árabe.

 

F. - Se chama Medina.

 

P . - Medina. Tinha alguma outra família de judeus?

 

F. - Há sim…

 

P. - Quem eram esses judeus que estavam lá, mais ou menos?

 

F. - Não, não, não…

 

P. - Já eram de uma comunidade antiga de lá?

 

F. - Já, já eram marroquinos, mesmo. Porque nós éramos franceses, porque meu pai era francês e em redor de mim lá tinha marroquinos.

 

P. - A senhora tem ideia de quantas famílias tinha no…

 

F. - Não, porque lá no Marrocos, numa cidade indígena assim é misturado. Tem árabe, tem judeu, tem também católico.

 

P. - Mas qual era a proporção mais ou menos? Tinha mais árabes, depois vinham os judeus, depois viviam os católicos.

 

F. - Onde eu morava tinha mais judeu espanhol do que… Ah, tem muito espanhol lá no Marrocos tem espanhol.

 

P. - Ah, é.

 

F. - Engraçado, todo árabe que vinha das montanhas que nós chamamos das montanhas, eles não falavam francês, automaticamente eles vinham e falavam… Porque eles falavam dialeto, não falavam o árabe correto como nós.

 

P. - Qual era o dialeto? Sabe o nome?

 

F. - Ah, tem vários. Cada região tem um dialeto. Meu pai sabia falar todos os dialetos. Ele se entendia com todos os empregados dele. Ele era muito querido, o meu pai, quando eles iam de férias lá na minha casa, porque lá no Marrocos os quartos são bem grandes, não são mixurucas como aqui, até a gente sufoca, né? Mas lá são grandes, por exemplo: a cozinha era como esse maior do que essa sala, então o… O que que eu estava falando?

 

P. - Dos dialetos do seu pai que falava com os empregados.

 

F. - Do dialeto… Sempre que eles iam nas férias eles vinham e traziam cada um presente pro meu pai! A gente afundava nos tapetes tantos da montanha, que chama shlor, os árabes do interior se chamava shlor, e cada um tem um dialeto. Ele trazia nozes, amêndoas então a cozinha estava sempre cheia de sacos.

 

P. - De sacos?

 

F. - Porque ele era muito querido meu pai. Meu pai era muito justo e ele castigava como dava apoio. Quando uma pessoa não trabalhava bem então ele castigava, quer dizer, castigar não é a maneira de castigar, bater, não… Por exemplo, furava o dia. Ele exigia retidão no trabalho, mesmo assim ele era querido, porque fora aquilo ele era correto no trabalho, ele dava apoio, todo apoio às famílias necessitadas.

 

P. - Qual era a população nesse local mais ou menos? A senhora se lembra?

 

F. - Ah, não me lembro.

 

P. - Mil, dois mil, cinco mil, uma ideia…

 

F. - Não, mas eu posso mais tarde dizer.

 

P. - Mais ou menos… Pra gente ter uma noção.

 

F. - Falando com meu primo. Meu primo deve ter uma ideia, porque tenho um primo irmão que…

 

P. - Tá, não importa também.

 

F. - Não, mas mais tarde eu posso lhe dizer. Então lá quando eles vinham da montanha em vez de falar francês, eles aprendiam o espanhol simplesmente eles aprendiam espanhol, então todo dono de armazém, que eram todos shlor, assim da montanha, eles falavam espanhol, então tinha que falar espanhol com eles. Eles falavam espanhol.

 

P. - A senhora tem fotos de Marrocos dessa época?

 

F. - Tenho.

 

P. - Depois a senhora vai mostrar para a gente, para a gente copiar.

 

F. - Depois…

 

P. - Da sua casa, do seu bairro.

 

F. - Do bairro, talvez. Eu vou ver.

 

P. - O que tiver, a gente vê.

 

F. - Tem também cartão postal de lá. Tenho muitos.

 

P. - E com a comunidade judaica que morava nesse bairro, a senhora tinha contato?

 

F. - Ah, sim! Aliás, toda a minha família morava lá. A gente ia de um bairro para outro. Nós morávamos pertinho. Como dizer… Porque os bairros lá não eram muito estendidos como aqui no Rio. Então digamos que um bairro aqui o posto 1, o outro o posto 2, o outro o posto 3, tanto de um bairro para outro, então toda a minha família era grupada, era bem um perto do outro.

 

P. - Distância curtinha, né. Podia ir todo dia e voltar.

 

F. - Curtinha, ah sim! Todo dia, não havia problema.

 

P. - Quem tava lá da sua família: irmãos da sua mãe, irmãos do seu pai ou primos, como era?

 

F. - Todo mundo. Irmãos, primos, tios, tias. Estão dois lá em Israel agora. Não sobrou nada.

 

P. - Agora, essa comunidade de judeus que tinha lá em Marrocos era uma comunidade que se organizava mais ou menos tem, como a senhora deve saber, sinagoga, partido político, Lar da Criança?

 

F. - Sinagogas, muitas.

 

P. - Muitas?

 

F. - Muitas. Sinagoga em tudo quanto é canto tinha.

 

P. - Quando a senhora fala, fala só dessa região que seu pai cuidava ou de todas as quatro?

 

F. – Não todas… Não as quatro. Porque as outras três eram…

 

P. - Todas as outras três tinham judeus…

 

F. - Tinham judeus, sim e para ir para a sinagoga eles vinham…

 

P. - Para a sua?

 

F. - E vinha pro meu bairro, porque era a cidade europeia, a cidade europeia não, tinha sinagogas e outro bairro era só indígenas, então não tinha judeus, só árabes.

 

P. - E os outros dois bairros?

 

F. - Não, são três. Eu já falei para você.

 

P. - Um europeu, o outro mais indígena.

 

F. - O outro era igual ao que meu pai chefiava. A mesma coisa. Porque a cidade indígena onde… Nós morávamos no Marabans era muito grande, então eram dois setores, então meu pai tinha um setor e era também um judeu da Oran, Argélia também, agora esqueci o nome, talvez mais tarde me lembre, então eram os dois chefiavam esses dois bairros e depois tinha também o Marif, esse bairro se chamava Marif e a Nova Medina. A Nova Medina que era a cidade nova dos árabes, onde tinha o palácio do sultão.

 

P. - Então os judeus vinham para sua região para irem à sinagoga?

 

F. - Para a sinagoga.

 

P. - Tinham várias sinagogas porquê? Cada grupo frequentava uma? Qual era a divisão que existia? Porque tinham várias? Não era um lugar pequeno?

 

F. Não é… Porque lá as sinagogas não eram como aqui, bem depois que eu saí mudou muito a coisa, eu não sei, eu estou falando do tempo da minha época.

 

P. - Eu sei, a gente quer saber da sua época mesmo, tudo relativo à senhora.

 

F. - Então, cada rua para se dizer, tinha uma sinagoga.

 

P. - Era um quarto na casa de alguém, era isso?

 

F. - Era um quarto, era um quarto. Não era na casa de alguém, era uma casinha.

 

P. - Uma lojinha?

 

F. - Não, uma casinha, uma casa que tinha sinagoga com as coisas de uma sinagoga, tinha até… Como se chama? Que toma conta? Eu vou me lembrar o nome.

 

P. - Sei, então, por exemplo, na sinagoga que a sua família ia, iam seus parentes todos e iam mais amigos ou era mais para os parentes?

 

F. - Não, não, não, era para todo o bairro, para toda a comunidade. A gente ia onde queria. Nós íamos onde estava mais perto para Kipur. Na minha época as mulheres não tinham direito, as mulheres ficavam… Só para Kipur que as mulheres ficavam fora para escutar o shofar. Então quando era pequenina nunca entrei numa sinagoga.

 

P. - Sei… (risos)

 

F. - Entrei aqui no Brasil.

 

P. - Lá não tinha dentro da sinagoga aquela divisão de homens e mulheres que as mulheres podiam entrar.

 

F. - Não, não, nem entrava. Todos os homens eram dentro da sinagoga.

 

P. - Mas as mulheres rezavam?

 

F. - Ah, as mulheres rezavam.

 

P. - Elas liam o livro no lado de fora da rua?

 

F. - Não, as mulheres não sabiam ler hebraico, só assim de memória, respondiam na reza Amém, aquela coisa toda. Baruch, Baruch Shemo.

 

P. - Sei, sei. Quer dizer que as mulheres lá em Marrocos não eram alfabetizadas, nem…

 

F. - No, eram alfabetizadas em francês.

 

P. - Ah, francês sim. Mas em hebraico?

 

F. - Em francês sim, que é a escola.

 

P. - Ah, bom. Tá.

 

F. - Mas não era agora, não. Nem bem isso.

 

P. - A sua mãe foi à escola?

 

F. - Dois dias.

 

P. - (risadas) Ela sabia…

 

F. - Na época dela, da minha mãe, eram os ingleses então ela foi aprender o inglês.

 

P. - Mas ela escreve, lê…

 

F. - Não, não.

 

P. - Não, não, porque ela foi dois dias. A professora puxou ela, pegou o tinteiro e jogou em cima dela? (risos)

 

F. - Não, é que naquele tempo, na época da minha mãe, elas eram criadas para ser donas de casa, mães de família, só isso. Para mais nada.

 

P. - Eu tô pegando isso sabe porque, né? Porque o pessoal alemão, polonês, sempre… Fala assim que os judeus… Tem aquela preocupação para ver a diferença entre a comunidade sefaradi, quer dizer que isso é uma coisa mais parecida com o próprio árabe, né?

 

F. - Exatamente.

 

P. - Eu queria saber também como se vestia a sua mãe.

 

F. - Bom, minha mãe se vestia à europeia.

 

P. - À europeia?

 

F. - É, todo judeu lá se vestia à europeia. Os árabes que não. Agora pro casamento não. Aquele cerimonial que é muito bonito.

 

P. - Seu pai era um prefeitozinho local, né?

 

F. - É, digamos que ele era prefeito.

 

P. - E ele era uma pessoa importante. E ele era casado com uma pessoa que tinha ido dois dias à escola. Isso era comum? As mulheres não iam mesmo à escola?

 

F. - Lá é comum. Do tempo da minha mãe as mulheres não iam à escola. Iam se… Na minha família mandavam as mulheres, mas as mulheres nunca… Agora os homens eram todo muito bem. Meu tio, por exemplo, mandou todos os filhos para a França para estudar, depois da alfabetização é que começaram como diremos “Certificat d’Etud”, eles mandavam para lá, os homens não, foram todos super…

 

P. - Tinha escola para estudar hebraico?

 

F. - Tinha. Não, então, os judeus lá no Marrocos tinham três escolas, tinha a Escola Francesa, europeia, que nós chamávamos Ecole Française, tinha a Escola Judaica e a Escola Muçulmana. Então os franceses, como eu, iam na escola francesa, então só francês é claro que podia o inglês, a língua que a gente queria, isso conforme os estudos. Agora a escola judaica ensinava francês que era normal e também tinha horário do judaísmo. Eles ensinavam o judaísmo. Tanto que quando eu fui posta pra fora da escola, por coisa que era judia que havia durante a guerra, perdi, era 

. Não era nem marroquina, nem francesa, por coisa da Lei de Vichy. Então fui na escola judaica.

 

P. - Lei de quê?

 

F. - La loi de Vichy, a Lei de Vichy.

 

P. - O que é isso?

 

F. - A Lei de Vichy, foi quando a França perdeu, os alemães entraram Pétain que ficou no governo, então Pétain, a capital não era mais Paris, eles se recolheram em Vichy, então todas as leis vinham de Vichy, então a Lei de Vichy proibia o judeu a ser francês, então eu não era nem francesa, nem marroquina, então foi uma coisa horrível.

 

P. - A gente vai, depois vai… A senhora vai falar sobre seus estudos. Primeiro vamos…

 

F. - Então, justamente, então comecei a aprender o hebraico aí que comecei a aprender o hebraico, mas aprendi muito pouco tempo porque não me dava, tudo ia muito mal, como agora aqui no Brasil, tá tudo mal.

 

P. - Não estou entendendo, a senhora começou a aprender o hebraico. A senhora estudou na Escola Francesa, lá não tinha…

 

F. - Não, não era “laique”.

 

P. - Queria perguntar à senhora o seguinte: o fato de sua mãe não ter estudado quer dizer era uma praxe, era uma coisa cultural tanto dos árabes, mas quanto dos judeus?

 

F. - Era a mesma coisa.

 

P. - Era a mesma coisa. Quer dizer então que não havia mulheres trabalhando fora da idade da sua mãe que trabalhavam…

 

F. - Tinha, mas fa…

 

P. - Que que as mulheres judias, por exemplo, faziam? Trabalhavam fora? As mulheres da idade da sua mãe, alguém trabalhava fora?

 

F. - Não, não. Judeus, não.

 

P. - E não judeus?

 

F. - E não judeus sim.

 

P. - Fazendo o que, mais ou menos? Lojas…

 

F. - Não, domésticas. Quem ia trabalhar…

 

P. - Serviçal?

 

F. - É, serviçal.

 

P. - Criada, essas coisas.

 

F. - Quem ia trabalhar do meu tempo já, então tinha muitas mocinhas que iam, mas normalmente lá até 14 anos não pode ir trabalhar tem que ir estudar. O estudo o grau de que é capacitada. Depois de catorze anos pode ir trabalhar.

 

P. - Vamos pegar essa parte então. Com que idade a senhora entrou na escola francesa?

 

F. - Cinco anos.

 

P. - Cinco anos. E como é que foram… A senhora estudou até que idade nessa escola francesa?

 

F. - É… Estudei até… Foi primeiro L’Ecole de Centre que era até o primário, depois tem o Liceu. O Liceu depois do Certificat d’Etude.

 

P. - Então até que idade a senhora tinha quando a senhora…

 

F. - Depois não pude mais. Veio a guerra.

 

P. - Sei, mas quando…

 

F. - Quinze anos.

 

P. - Então vamos falar um pouco dos seus cinco até os quinze anos. Vamos pegar essa parte. Como que era então na Escola Francesa?

 

F. - Em que sentido?

 

P. - Em todos. Tinham judias? Eram meninas e meninos juntos?

 

F. Não. Meninas separadas dos meninos. E nas meninas tinham francesas, tinham judias, tinham que…

 

F. - Bom, judeu francês.

 

P. - Judeu francês.

 

F. - Então vamos dizer tinha francês, espanhol, português e… Chinês.

 

P. - Tinha muitos estrangeiros na sua escola?

 

F. - Tinha. Era bem cosmopolita. Tinha também árabe que falava francês. Por exemplo, os árabes da Argélia são franceses e então também frequentavam.

 

P. - Isso é interessante! E a escola, era uma escola laica?

 

F. - Sim, laica.

 

P. - E quando essas pessoas de várias religiões tinham que fazer as aulas de religião cada uma ia para a escola da sua religião, da sua comunidade, ou só os judeus que tinham isso?

 

F. - Não, cada um…

 

P. - A senhora teve ensino religioso?

 

F. - Não, não. O ensino religioso na minha época era em casa. A gente fazia… Mamãe era muito… Era ortodoxa. Muito, muito religiosa.

 

P. - Nós vamos falar também sobre isso.

 

F. - Então, eu era religiosa… Não era religiosa, mas fazia a religião, porque em casa se fazia a religião. Então vinha o ensino religioso dentro de casa, não é fora de casa. Fora de casa para os meninos. 

 

P. - Sei… O seu irmão estudou nessa mesma escola que a senhora estudou. Qual é a idade dele em relação à sua? Ele é mais velho?

 

F. - Mais velho.

 

P. - Quanto tempo?

 

F. - Três anos. É que meu irmão não saía da escola ia para a sinagoga, aí ele aprendeu a ler para fazer a Bar Mitzvah para tudo, né?

 

P. - Como era estudar com tanta gente de fora com tantas nacionalidades e religiões diferentes?

 

F. - Nada, não tinha diferença nenhuma, porque dentro da escola não se tocava nas religiões.

 

P. - Não, mas na nacionalidade, pelos costumes diferentes, não pela religião, mas pelos costumes.

 

F. - Pelos costumes também, só que claro, a gente conhecia os costumes com as amigas.

 

P. - Sei…

 

F. - Então a gente se frequentava, ia na…

 

P. - Isso. Fala um pouco sobre isso. Das suas amigas, que eram as suas amigas.

 

F. - Amigas não judias, né?

 

P. - E das judias também, mas quem a senhora frequentava?

 

F. - Dentro da escola não tinha, tinham duas amigas judias, mas moravam longe, então não tinha aquele contato. Minhas amigas judias eram do meu bairro, minhas vizinhas, minha família, minhas vizinhas. Então dentro eram as católicas, então frequentava muito as católicas, então ia com elas… Porque quando saía da escola, por exemplo, ia com elas na igreja, na Catedral. Aí me diziam: “Boubout, pega essa aula para mim que tem uma aula de religião hoje, vai”. Então eu pegava, lia com ela, não e ela, aprendia, então… “Vamos, vamos correndo na igreja que o padre deve estar me esperando, não é?” Aí corria com ela não é, ia na igreja também. Porque lá no Marrocos tem três grandes religiões, e tem que ser muito forte, um sentir religioso muito grande, para não escapulir de uma para outra.

 

P. - Sei.

 

F. - Porque tem a judaica, a católica e a islâmica, e as três eram poderosas em Casablanca. Por exemplo, na entrada da cidade, na divisão da cidade europeia para a cidade indígena, então tinha “Rebiiliiahov” era uma sinagoga muito grande, bonita, aí há um sinagoga bonita como aqui (agora me lembrei viu), uma sinagoga bonita, grande, que todo mundo ia, que se chamava, se chama Rebiiliiahov. Então, quando você vai para entrar da cidade europeia para a cidade indígena, a Medina eu digo a cidade indígena para fazer diferença, mas se chamava Medina, na Medina. Então, você via aquela sinagoga, enorme, grande, que tanto que qualquer coisa que tinha os árabes iam e “pti” [som utilizado para indicar quebra-quebra], quebrava tudo.

 

P. - Sei.

 

F. - Isso depois eu falo.

 

P. - Então a coisa europeia era mais dos judeus, não era nem dos católicos.

 

F. - Não, tinha a catedral, também enorme, que todo mundo…

 

P. - Cada uma maior que a outra.

 

F. - E tinha no… Nessa divisão da cidade europeia para a indígena chama Boulevard du Quatrième Zouave, que também iam da Place de France até o porto e no final tinha o Sidi Behout dos árabes.

 

P. - O que quer dizer?

 

F. - Cidi-Behiut? Uma espécie de Meca. É uma casa, um lugar, uma mesquita, digamos…

 

P. - Um lugar religioso, um santuário.

 

F. - Um santuário, não é mesquita. Santuário, agora você falou santuário. Então tinha essas três religiões pesadas, então você balançava. Qual das três você tinha que ir (risos), entendeu? Era uma coisa… Uma mistura de religião forte me deu o gosto de estudar as religiões.

 

P. - Ah, sim.

 

F. - Eu gosto, adoro estudar religião. Quando vejo uma novidade, coisa que não conheço, vou estudar. Me aprofundo, sou muito curiosa para as religiões.

 

P. - A senhora, por exemplo, frequentou um Natal na casa de uma amiga sua, viu algum Natal ou viu uma outra festa árabe?

 

F. - Ah, sim! Festa árabe também, as festas árabes, o Ramadan era o jejum de um mês.

 

P. - Eu estou falando em festas judias também (risos).

 

F. - Ramadan é uma festa islâmica de um mês de jejum, então eles podiam a noite toda, só que de dia não podiam nem fumar, nem comer, nem beber. Então às 5h tinha o canhão.

 

P. - Quando o sol desce né que já pode comer.

 

F. - Então tinha uns vizinhos árabes. Eu adorava aquela sopa que se chama “Hera”, quer dizer seda. Essa sopa hera adorava, mas é uma gostosura, então eu ia na casa da Fátima para poder esperar o canhão tocar para poder tomar a sopa, que a sopa era uma gostosura.

 

P. - Seus pais não falavam nada disso, eles não se importavam que a senhora tivesse amigos de outra religião, que a senhora frequentasse…


F. - Não…

 

P. - Por mais que a senhora fosse uma pessoa ortodoxa, religiosa.

 

F. - Lá não temos nada disso não, no Marrocos a gente frequentava tanto os católicos como os muçulmanos.

 

P. - Isso que eu queria, quer dizer, eu estava deixando a senhora falar bastante para depois perguntar se a senhora sentia o antissemitismo, se existiam brigas de rua de meninos?

 

F. - Ah, sim. Antissemitismo desde que nasci no árabe.

 

P. - Não árabe?

 

F. - No árabe.

 

P. - Ah, no árabe. Então quer dizer, entre as suas amigas mais internas não havia problemas, a senhora frequentava a casa delas e elas frequentavam a casa de vocês.

 

F. - É, pois é, meus vizinhos, quando tinha os árabes, que depois… Você quer que eu fale agora? Mais tarde a entrevista eu vou lhe dar a parte se…

 

P. - Pode falar, se a senhora tiver com a cabeça, pode falar.

 

F. - Então (como é, como se chama) quando tinha os árabes que iam em cima dos judeus, ela vinha… A Fátima e a sogra, a mulher, me pegava, nos pegava para nos esconder lá na casa delas.

 

P. - Eles vinham como?

 

F. - Pelo seguinte. Os árabes… Vou lhe citar um fato dentre muitos. O dia que entraram os franceses e os americanos que entraram na cidade.

 

P. - Em que ano foi isso?

 

F. - 1942. Quando entraram na cidade era uma quarta-feira ao meio-dia; ao meio-dia e dez os árabes se levantaram. Em vez de brigar com os soldados que estavam entrando na cidade eles não fizeram nada, foram na cidade indígena, na Medina e começaram no “sidi”, Belyaro, eles começam a quebrar, a bater, a maltratar os judeus, por um sim, por um não os árabes maltrataram os judeus. Por isso eu não sou vingativa, eu não sou rancorosa, mas eu entendo os israelenses, o que estão fazendo com os árabes, eu faria mais ainda, porque eu nasci, cresci, eu entendo o espírito fanático do árabe.

 

P. - Sei, mas isso já foi em 1942, em plena guerra…

 

F. - Então, em 1942.

 

P. - Mas durante esse período que a gente está falando dos seus cinco aos quinze anos.

 

F. - A mesma coisa.

 

P. - Eles entravam como? Entravam em grupos? Quem eram esses árabes?

 

F. - Os árabes… Principalmente.

 

P. - Era um grupo político?

 

F. - Não tem nada de político.

 

P. - Era…

 

F. - O árabe contra judeu simplesmente. Porque era judeu e para árabe.

 

P. - Mas o que vinham árabes de fora da sua cidade fazer um massacre, ou era…

 

F. - Era, fazer um massacre, fazer um massacre. Simplesmente os árabes se juntavam e massacravam o judeu.

 

P. - A senhora sabe ilustrar outro fato que tenha acontecido, mas antes da guerra, por exemplo?

 

F. - Posso. Isso me marcou muito. Acho que isso decidiu um pouquinho sobre a minha vida, porque estava em Mogador em férias, em férias se ia a Mogador e fui com minha tia e meus primos, que um dos meus primos tá aqui no Rio, então a minha tia alugou uma casa, porque Mogador era pequenino aquela época, não sei se ainda e era… Você vinha do deserto, na estrada tinha uma porta muito grande, de um lado era o deserto, o mar, tinha a porta que entrava na cidade e deste lado tinha o mar, então você entrava na cidade tinha três ruas principais só, não tinha outras ruas, então tinha quando você entrava a esquerda era a rua árabe, a direita era a rua judia e no centro era como a avenida Copacabana, que ia até o porto, então a Mogador se limitava, a minha infância nesse… A porta que entra na cidade até o porto. Então, esse meu primo que está aqui no Rio, era grandinho.

 

P. - Como é o nome dele?

 

F. - Dimitri. E tinha o Marcos, tinha o Gregoir, e Marcos que era pequenino tinha um ano só, e de repente escuto um - vou falar em francês porque não sei - Bruit, sabe? Um barulho. E minha tia se botou na janela e eu também, a gente via como uma nuvem de gente que vinham, aí minha tia que sabia, que era de Mogador também sabia. “Meu Deus, os árabes! Os árabes! Os árabes. Meus filhos! Meus Filhos! Não tenho tempo de buscar meus filhos que estão na casa dos tios! Meu filho está morto! Meu filho vai morrer!” Eu disse: “Tia, ‘peraí’, que que é isso?” Eu não sabia. Os árabes que estão invadindo… que estão vindo da…

 

P. - Eles saíram do bairro deles?

 

F. - Não é do bairro deles. Estávamos no bairro deles.

 

P. - Da montanha.

 

F. - Da montanha. Porque era perto a montanha do Mogador. Sei lá! Se chamava montanha, sei lá, não sei se tinha montanha. Eles estão vindo para massacrar os judeus. Aí todo mundo fechou as portas, as janelas, aquela correria e eu vi pelas fendas das persianas, vi, o coitado de um rapazinho judeu.

 

P. - Era uma cidade de muitos judeus?

 

F. - Não, como te falei. Uma cidade. São três ruas principais. Na minha infância. A indígena, a judia e essa de centro eram lojas, eram coisas sabe? Então eu vi um rapazinho se esconder. Em frente da minha janela tinha… Vendia galinha, então ele se escondeu no galinheiro. Os árabes descobriram onde esse rapazinho estava e massacraram ele dentro, que não podia se movimentar. Massacraram ele dentro do galinheiro.

 

P. - Com armas, facas?

 

F. - Com pau. Eles andavam com paus e com pedras. Então aquela imagem até hoje, tantos anos, cinquenta anos.

 

P. - Que época foi isso, mais ou menos?

 

F. - Não era a guerra não.

 

P. - Que época foi isso mais ou menos?

 

F. - Não era a guerra não.

 

P. - Quanto anos a senhora tinha?

 

F. - Tinha treze para catorze.

 

P. - Foi quando a coisa já estava…

 

F. - Aí tiraram, tiraram o rapaz e continuaram, mas acontece que depois, parou logo depois, porque pediram as tropas que tinham que vir de Marrakech. Então chegaram as tropas e aí amainou tudo e meus primos ficaram, ninguém se machucou porque conseguiram fechar as portas. Massacraram. Quem não entrou foi massacrado.

 

P. - Agora, antes disso, antes desses treze, catorze anos, a senhora já tinha essa sensação, por exemplo, sentia um pânico que a qualquer hora poderia acontecer isso, acontecia frequentemente?

 

F. - Frequentemente pelo seguinte, porque o…


P. - E nesse bairro?

 

F. - Sabia pelos contos da minha avó, da minha mãe, entendeu, escutei muitas histórias assim, mas o que assisti foi aquela, entendeu? Pois é, tem outra ilustração que vou lhe dizer: meu pai (paradinha para fumar) era alto, forte, bonito, então ele era muito valente meu pai, e também tinha um cargo, né, que toda polícia conhecia ele, essas coisas todas.

 

P. - Ele mandava na polícia, também?

 

F. - Não, mas ele podia mandar o que ele queria, não é, que a polícia.

 

P. - Então só mais uma coisa. Os judeus então ocupavam cargos altos na cidade. A senhora falou que as moças eram domésticas, faziam serviços…

 

F. - Não, as moças judias… Eram, as muçulmanas que eram empregadas domésticas.

 

P. - Que trabalhavam fora como empregadas domésticas.

 

F. - E aí, por exemplo, tô falando da cidade indígena. Então por exemplo, um árabe brigava com um não árabe, com judeu, porque se vestia a europeia, então normalmente judeu, então ele, tô dando essa ilustração para lhe mostrar o que que é o árabe. Por exemplo, um árabe brigava com um não árabe, que se vestia a europeia.

 

P. - Pois é, com os estrangeiros, as pessoas que vinham de fora de Marrocos.

 

F. - Não, com o judeu marroquino. Duas ilustrações que vou lhe dizer. E aí quando via dois brigando assim, um árabe outro não árabe, os árabes vinham, não perguntavam quem tinha razão, quem não tinha razão, iam em cima do não árabe; ia em cima dele. Meu pai vinha, quando via aquilo, entrava na briga e lá mandava, botava o apito para chamar a política e brigava então. Meu pai estava sempre brigando, defendendo o não árabe. Porque ninguém... E o judeu marroquino era covarde, tinha medo.

 

P. - O seu irmão, por exemplo, ele como menino, ele ia muito no lado muçulmano? Ele passeava, ele ia para outra rua, para o outro bairro que não era o bairro europeu e tinha briga de rua?

 

F. - Não.

 

P. - Ele ia normalmente na outra rua?

 

F. - Não, no nosso bairro.

 

P. - Vocês ficavam mais dentro do próprio bairro.

 

F. - Sempre no nosso bairro, porque não ia, porque pegava o ônibus. A gente para ir no bairro europeu, por exemplo, meu pai tinha escritório no mercado, no bairro europeu. Não, a gente ia no bairro europeu, tínhamos que ir na escola, essas coisas. A gente não se confinava dentro do bairro. A gente ia na praia, na piscina, em tudo quanto é canto. Eu morava no bairro, os outros também moravam no bairro, mas a gente não estava confinada, isso não era gueto não, entendeu? Não era gueto, não. A gente ia para onde quiser. Passeava.

 

P. - Eu sei que não era gueto, mas vira e mexe aconteciam esses episódios. Qual outro que a senhora ia contar? Relativo ao seu pai, não era?

 

F. - Ah! Meu pai sempre, como disse, meu pai sempre…

 

P. - Desapartava…

 

F. - Ah, desapartava, apitava, vinha a polícia.

 

P. - Mas os judeus eram assimilados, no caso, quer dizer…


P. - Cadeia.

 

F. - Cadeia para o judeu, coitado! Ele nem abriu a boca. Cadeia para o judeu e ele era bastonado, era maltratado. O judeu era maltratado. Em Marraquexe, que era regido pelo Glaui, pelo paxá, ele sabia, ele era muito bom o Glaui, ele sabia dessa história.

 

P. - Glaui, era o paxá?

 

F. - Paxá, paxá.

 

P. - É.

 

F. - É. Paxá é uma autoridade muito grande, era igual ao sultão, então todo o sul era do paxá e toda a planície era do sultão.

 

P. - O paxá era mais líder religioso e o sultão era mais político. Não era também um líder religioso. Sultão é um líder religioso, também.

 

P. - Também, né!

 

F. - Ah, sim. Aí o paxá Glaui era um preto e aí ele dizia assim, ele assistia o julgamento, né, aí, dizia assim: “Como é que foi? - Ah, ele me disse ihrak? - Você tem certeza que ele te disse ihrak? - Tenho certeza absoluta - Seu cretino! Judeu nunca vai se atrever a dizer ihrak ao árabe. O psit, leva ele para a cadeia.” Levava o árabe para a cadeia. Isso é a diferença, então os judeus adoravam o paxá (risos), entendeu, porque na maioria das vezes ele que assistia o julgamento, mas normalmente se chama…

 

P. - O seu pai tinha ligação, ele frequentava o paxá, o sultão? O seu pai tinha…

 

F. - Não, não.

 

P. - Acima do seu pai, dentro desse protetorado, quem era? Quem estava acima do seu pai?

 

F. Acima do meu pai tinha M. Pinheiro, tinha o chefe de Service Municipaux e o governador.

 

P. - Então vamos falar um pouco. A senhora cresceu e tal e continuou as suas amizades misturadas, né?

 

F. - Ah, sim.

 

P. - Como é que a senhora foi crescendo? A senhora falou que frequentava a praia, piscina. Como era isso? Como era o seu lazer e do seu irmão?

 

F. - Bom, meu lazer era estudar durante a semana, às quintas-feiras era obrigada a fazer limpeza da casa e as empregadas, o…

 

P. - Folgavam…

 

F. - Folgavam. Folgavam porque minha mãe sempre dizia “minha filha” - eu não queria, claro que não queria, eu boa menina, rebeldia né, eu não queria - “você vai fazer, vai limpar, porque não sei se você vai casar com um homem rico ou homem pobre. Então se é rico, você vai saber mandar, se é pobre você vai entrar e fazer.” (risos)

 

P. - Essas empregadas eram muçulmanas?

 

F. - São muçulmanas.

 

P. - Agora…

 

F. - Tínhamos duas empregadas muçulmanas e um empregado muçulmano.

 

P. - Então a senhora podia falar um pouco sobre os costumes judaicos dentro da sua casa. Que festas a sua mãe fazia? Como eram os costumes?

 

F. - Todas.

 

P. - Como é que era? Vinham seus parentes para sua casa?

 

F. - Ah, sim.

 

P. - Como que era uma festa de Yom Kipur? Como que era um Bar Mitzvá? Como é que era um casamento?

 

F. - Ih! Casamento é o que eu tenho mais lembranças.

 

P. - Lembranças. Como eram esses costumes judaicos? Vamos falar um pouco dos costumes judaicos da sua família.

 

F. - Da minha família. Bom, o Kipur mamãe fazia o pão, sempre fazia o pão em casa, botava ovo em cima do pão, sabe?

 

P. - Era o chalá? Era esse pão?

 

F. - Não, é pão… Pão…

 

P. - Pão comum.

 

F. - É o chalá. Porque faz aquela prece e a mamãe até hoje faz aquela prece do pão. Aprendi…

 

P. - Sua mãe está aqui?

 

F. - Não, tá na França. Aprendi, mas esqueci. (risos)

 

P. - Sei.

 

F. - E a gente, claro, jantava bem cedo, mas bem cedo e… Não íamos à sinagoga. Fazíamos Kipur lá dentro de casa. Às quatro horas todo mundo se emperiquitava e ia para a sinagoga.

 

P. - Seu pai era muito religioso?

 

F. - Não.

 

P. - Como é que ele pensava a religião? Que que ele achava?

 

F. - Religião ele achava que era necessário, mas não era religioso, não.

 

P - Mas a sua mãe era.

 

F. - Muito.

 

P. - Sua mãe rezava muito?

 

F. - Mamãe faz todos os jejuns. Todos os jejuns da religião. Ela não falta um.

 

P. - Até hoje ela mantém?

 

F. - Até hoje! Mais ainda.

 

P. - Depois de mais velha, né!

 

F. - Mais ainda e… Para… Pela religião… Mamãe era tão religiosa que quando éramos crianças, a gente vinha da rua, ela dizia a meu irmão: “Tira a língua! Mostra a língua, né!” Aí eu dizia a meu irmão: “Não mostra a língua não, Prosper! Mostra a língua! Ah, tá bem.” Era para ver se meu irmão comeu, negócio de jejum. “Não, não. E você? - Ah! Eu não vou mostrar não, porque já comi!” (risos) Eu puxei um pouquinho a meu pai.

 

P. - Quer dizer, vocês quando crianças também faziam jejum?

 

F. - Ora, era obrigada! Obrigada. Ela pegava nós, debaixo da asinha dela para fazer.

 

P. - E uma outra comemoração? Alguma outra festa. O ano novo, por exemplo.

 

F. - Não. Pessach. Pessach que são elas! Pessach minha mãe começava um mês antes, como todas famílias judias lá e então ela tirava tudo de um quarto e aí pintava… o quarto. Tirava tudo, tudo. O quarto ficava purinho, quatro paredes. Pintava, arrumava, depois ela lavava peça por peça tudo e botava naquele quarto, naquele quarto. Então a gente ia se retraindo, se retraindo, se retraindo. O último dia, antes de começar o Pessach, a gente ficava num quadradinho, menor do que essa entrada. Então, o almoço todo mundo comia em pé e depois ela pegava para queimar o, sei lá como o que é! Sei que queimava acho que um pedacinho de pão, não sei o que é, sabe, da religião judaica, então todo mundo tava lá naquele cantinho, comendo em pé, se sacudia assim na porta, assim que era Pessach. Mas limpava tudo! Se faziam os colchões, como te falei. Muitos colchões.

 

P. - Renovava toda a casa.

 

F. - Renovava todos os colchões. Renovava tudo. Isso me marcou muito bem. Então…

 

P. - Era mais no Pessach do que no Ano Novo?

 

F. - Ah, sim, no Pessach. Rosh Hashaná e Ano Novo, mas não é tanto. Nunca me lembrei tanto Rosh Hashana como se lembra aqui entendeu. Porque aqui a mulher faz parte, lá não faz parte, era só pros homens. Então Pessach era aquele cerimonial todinho. Tinha o último.

 

P. - Tinha dia… Uma louça especial, pra tudo.

 

F. - Ah sim. Pra tudo, tudo.

 

P. - A senhora ainda tem uma parte dessa louça?

 

F. - Não, não. Era um louça comum como sempre.

 

P. - Senhora Felicie, então vamos lá: o que que aconteceu quando a senhora tinha quinze anos? Como é que as coisas… A senhora veio primeiro para o Brasil ou primeiro a guerra estourou?

 

F. - Não.

 

P. - Como as coisas começaram a se modificar?

 

F. - Na minha vida?

 

P. - É, lá…

 

F. - Não começou a se modificar com a guerra.

 

P. - Quando a senhora tinha vinte anos, quando acabou a segunda Guerra. O que que acontece para a senhora? Como é que a guerra entrou na vida da senhora lá no Marrocos?

 

F. - Bom, entrou… A modificação foi a seguinte: que meu pai foi posto para a rua da noite para o dia.

 

P. - É?

 

F. - Ah, sim. Porque era judeu e a Lei de Vichy não permitia que judeus trabalhassem no governo e meu irmão também, foi posto na rua.

 

P. - Seu irmão tava fazendo o que nessa época?

 

F. - Tava trabalhando na Prefeitura. Então foram os dois postos para fora. E aí, eu…

 

P. - Mas antes dele ser posto para a rua, vocês tinham notícias da guerra?

 

F. - Claro!

 

P. - Como é que chegaram essas notícias da guerra, sobre o que estava acontecendo com judeus no mundo?

 

F. - Notícias da guerra não! Tínhamos a guerra, porque todos os jovens foram para a guerra. Os franceses. Todos os jovens foram para a guerra.

 

[Segunda parte]

F. - Essa minha tia casou com um francês que morava no Brasil e veio, mas não veio para ficar, ela veio para… Porque ele morava aqui, mas veio para voltar. Acontece que estourou a guerra, aí ela ficou no Brasil. Ficou esse tempo todo sem notícia e nesse meio tempo a gente mudou de casa, então através da Cruz Vermelha que nos localizou. E meu pai quis vir aqui no Brasil para fazer uma visita e queria me trazer para…

 

P. - Como é que se… Que se falava sobre o Brasil lá? Como é que vocês sabiam?

 

F. - Nada!

 

P. - Não sabiam nada.

 

F. - Lá o Brasil era espanhol…

 

P. - Folclórica…

 

F. - Era Buenos Aires… Entendeu. É uma mistura, da América do Sul a gente não tinha uma ideia.

 

P. - E seu pai queria vir mesmo por estar a família aqui?

 

F. - Não, ele quis vir ao Brasil.

 

P. - Havia alguma coisa turística que interessasse, uma viagem lá do…

 

F. - Não, meu pai quis vir ao Brasil, ele pediu licença para poder vir passar seis meses.

 

P. - Vocês viajavam muito pra Europa? A família de vocês passavam férias na Europa antes da guerra.

 

F. - Não. Tava pintando as férias dele para quando eu crescesse me levar pra França para desfrutar, mas quando cresceu não pude desfrutar nada. Aí começou a papelada que ele queria vir comigo, ele queria me trazer no Brasil, vínhamos nós dois visitar minha tia, mas ele morreu.

 

P. - Ele morreu? Nessa época?

 

F. - Em 1947. 1947 não, 1946. Tinha 47 anos quando ele morreu.

 

P. - Que aconteceu com ele?

 

F. - Coração. Aí ele não veio.

 

P. - Morreu quando vocês estavam já com a viagem planejada.

 

F. - Estávamos já com a viagem planejada, ele… Mas aí passou o tempo e aí minha tia foi para a França me buscar. E vim para vir aqui um ano só.

 

P. - E a senhora desejava vir pro Brasil por quê?

 

F. - Sim, eu? Por causa da minha tia.

 

P. - Para vê-la?

 

F. - Para vê-la.

 

P. - Vocês tinham muita relação?

 

F. - Muito, ela me criou.

 

P. - Lá?

 

F. - Lá. Estava sempre na casa dela, nunca estava na minha casa.

 

H. - Qual era o sobrenome dela?

 

F. - De casada ou de…

 

P. - De casada e de solteira.

 

F. - De solteira é Ben Moise, de casada é Troula. Então…

 

P. - Troula. O marido dela era judeu?

 

F. - Não.

 

P. - Eu ia perguntar como é que ficou o emprego dele.

 

H. - Nome… Troula.

 

F. - Troula. E…

 

P. - Então que data a senhora saiu do Marrocos para encontrar com a sua…

 

F. - Minha tia, 23 anos. Cheguei no Brasil com 22 anos. Vim para um ano.

 

P. - E como é que foi? Quais foram as suas primeiras impressões quando a senhora chegou aqui no Brasil?

 

F. - Ma-ra-vi-lho-sa!

 

P. - Que que a senhora viu de interessante? Que a primeira achou diferente?

 

F. - Me apaixonei pela Lagoa Rodrigo de Freitas. É verdade (risos).

 

P. - Naquela época era muito mais bonita que hoje? Não tinha nada em volta!

 

F. - Quando vim, sabe onde tá o Caesar Park? O Cesar Park, é lá que eu morei.

 

P. - A senhora foi morar lá?

 

F. - É, era uma casa. Eram só casinhas. A Vieira Souto toda era casinhas. Um ou dois edifícios pequeninos.

 

P. - Cesar Park é ali perto da Henrique Dumont?

 

F. - Em?

 

P. - Aonde é o Cesar Park hoje?

 

F. - O Caesar Park?

 

P. - No final do Leblon.

 

F. - No Ipanema… Na…

 

P. - Perto da Henrique Dumont? Lá no final?

 

F. - Não, bem antes. Na Maria Quitéria.

 

P. - Ah! Eu sei. A senhora morou lá então.

 

F. - Lá. Cheguei lá. Então eram todas casinhas. A Praça da Paz era só casinhas. Um botequim assim… Era uma graça! Me lembrava Marraquexe, a cidade que mais adoro no Marrocos. Então…

 

P. - Parecia Marraquexe? Em quê?

 

F. - E parecia Le Gueliz, Marrakech. Em tudo, essas casinhas. Parecia essas cidades de Marrocos e…

 

P. - Qual foi a data que a senhora chegou? A senhora lembra exatamente?

 

F. - 3 de junho.

 

P. - De 1940 e…

 

F. - 1947.

 

P. - Na França a senhora foi só de passagem, mesmo.

 

F. - Na França só de passagem. Depois que eu deixei a França… Depois que a minha…

 

P. - Veio de navio?

 

F. - Naquela época, minha filha, só de navio.

 

P. - E qual foi o navio? A senhora lembra?

 

F. - Campana.

 

P. - Campana. Devia ter muitos refugiados, né, de guerra. Em 1947 de navio.

 

F. - Devia.

 

P. - Nessa época tinha muita gente chegando aqui, né?

 

F. - Em 1947, pelo navio Campana. 3 de junho.

 

P. - Então conte. Como é que foi o Brasil?

 

F. - Então cheguei uma quinta feira, um sol maravilhoso… Já viu Rio de Janeiro com sol? Maravilhoso! Então de Ipanema fui almoçar no Lido. Então passei, passei pela Lagoa, fiquei deslumbrada e entrei pelo Corte de Cantagalo, entrei em Copacabana. Aí detestei Copacabana, achei o fim da picada. Depois fomos no Lido, aí achei lindo! Lindo, aquela praia, aquela coisa, gostei. Finalmente lá.

 

P. - O que a senhora comeu?

 

F. - Não me lembro. O que me lembro, aquele dia, o tubarão comeu a perna de uma moça!

 

P. - Na praia, aqui de Copacabana?

 

F. - Na praia, é. Eu não sabia patavina de português, é claro. Só sabia dizer “obrigado”. Aí vi gente assim, muita gente correndo, aí falei: “Michel, que essa gente tá correndo?” Michel: “Eu não sei, tão dizendo que tubarão comeu a perna de uma moça!” Aí eu disse: “Que, tem tubarão aqui?” (risos) Mas isso não me apavorou porque gostei do RJ. Aí fiquei, fui ficando, fui ficando…

 

P. - Como foi? A senhora veio para ficar um ano. Nesse ano a senhora pretendia passear, trabalhar…

 

F. - Não…

 

P. - Estudou português. O que que a senhora fez durante esse tempo até resolver ficar mesmo?

 

F. - Não… Nada… Fui ficando.

 

P. - Ia à praia, o que que a senhora fazia durante esse primeiro ano?

 

F. - Primeiro ano?

 

P. - Passeava, que que a senhora fazia durante seu dia? Costurou?

 

F. - Eu nunca fui muito de… Hem?

 

P. - Costurou?

 

F. - Não, eu também não trabalhava.

 

H. - Qual era a profissão desses tios que a senhora estava na casa? O marido fazia o quê?

 

F. - Era representante de café, de calçado e café no Marrocos.

 

H. - Bom.

 

F. - Bom, já viu, né?

 

P. - Então a senhora teve uma vida boa aqui no Brasil?

 

F. - É, mais ou menos. Regular, e daí por diante fiquei no Brasil, lutando pela vida. Fui morar sozinha e fui trabalhar. Costura.

 

P. - Mas e a sua mãe e o seu irmão?

 

F. - Ah! Sempre chorando para eu voltar.

 

P. - Porque a senhora não queria voltar?

 

F. - Porque sei lá. Talvez tava cansada do árabe. De maltrato para judeu, também, esse era um fator que não gosto. Eu tenho más recordações dos árabes, talvez aquilo que me deixou ficar aqui.

 

P. - Mas a senhora, por exemplo, tentou chamar sua família para cá?

 

F. - Sim, quando começou a guerra no Marrocos, começou aquela Independência, eu quis que minha família viesse, mas aí meu irmão ia para o… Aí foi no Marrocos, foi em Casablanca e aí foi lá e os franceses já tinham perdido o protetorado do Marrocos.

 

P. - O que que a senhora não quer contar pra gente? Tem um segredo aí que a senhora não quer contar pra gente (risos).

 

H. - Lunete! Lunete!

 

F. - Fiquei noiva…

 

P. - Mas um daqueles só para sair ou a senhora…

 

F. – Não, não… Esse aí era para valer. (risos)

 

P. - Um dos motivos que a senhora ficou, foi que a senhora ficou noiva, ficou gostando de alguém.

 

F. - É um dos motivos, quer dizer, era… Talvez uma… Pode-se dizer, digamos, um dos motivos.

 

P. - A senhora que vai dizer.

 

F. - Não… É, um dos motivos, mas o motivo mesmo, como disse, era essa… Essa… Coisa contra o árabe, me marcou aquele episódio que contei para vocês em Mogador, acho que aquilo me marcou e também, não é só isso. É que meu pai, como disse, perdeu a vista e um dia ele vinha… Não me lembro, faz tantos anos… Ele andava com a bengala, né, se juntaram um grupo de árabes, tiraram os óculos do meu pai, deram uma surra no meu pai. Acharam meu pai jogado, eram árabes, a pessoa que foi socorrer meu pai viu que eram árabes, assim a troco de nada! Deram uma surra no meu pai, machucaram tanto ele que ele morreu em consequência disso. E levaram a bengala. Fiquei durante tanto tempo eu e meu irmão só procurando a bengala, porque achando a bengala, achava quem que bateu no meu pai. Acho que foi um dos motivos que não quis voltar mais para o Marrocos.

 

P. - É… Um motivo sério.

 

F. - Acho que principalmente esse, e além disso, eu gostava muito da minha tia, então… Foi tudo se juntando, as peças.

 

H. - O seu pai, quando pensou em fazer essa viagem para cá, ele podia estar pensando também em vir morar aqui se fosse bom e tal?

 

F. - É possível. Se fosse bom, sim.

 

P. - Porque ele também não queria sair de lá, depois daquilo.

 

F. - E porque faltava pouco para se aposentar. Então, pensava.

 

P. - Foi a troco de nada. As pessoas que bateram nele não falaram o porquê? Conheciam ele?

 

F. - Não, não sei quem é. Eu sei que foram árabes.

 

P. - Ele morreu imediatamente depois da surra?

 

F. - Não. Depois daquilo que ele ficou acamado e tempos depois morreu.

 

P. - Ah.

 

F. - Depois daquilo o meu pai…

 

H. - Quer dizer então, por exemplo, a sua decisão de ficar no Brasil quer dizer, pra época, era uma decisão considerada muito moderna, não era? Uma mulher com a educação da senhora resolver ficar, morar sozinha…

 

F. - Eu tive uma educação rígida, mas meu espírito sempre foi avançado. Sempre fui liberal, sempre fui muito adiantada para minha época, eu pensava muito adiantado.

 

P. - A senhora tava desejando a sua independência, a sua liberdade aqui. Essa coisa de vir morar aqui era porque a senhora queria.

 

F. - Não é tanto não, minha tia me prendia mais que a minha mãe.

 

P. - Aí a senhora foi morar sozinha.

 

F. - Não, foi umas consequências que foi que obrigaram a ir. Porque eu queria trabalhar, minha tia não queria que eu trabalhasse, pronto eu fui embora trabalhar.

 

P. - E o noivado? Foi com essa pessoa que você se casou?

 

F. - E fiquei noiva… Não, não me casei, não me casei. E fui… Só isso! E quando foi no Marrocos, como disse, os franceses perderam o protetorado, então o governo cherifiando, quer dizer o governo árabe-muçulmano, fizeram um contrato mirabolante para meu irmão para ele ficar, aí meu irmão disse: “que que eu faço?” Eu falei: “olha, Prosper, eu prefiro que você vá varrer as ruas na França do que ficar com esse contrato aqui no Marrocos. Porque amanhã pode acabar esse contrato, você ficar sem nada e depois? E também… Eu tô no Brasil, vocês aqui, fico com minha cabeça preocupada se vou te achar com a tua cabeça numa carrocinha. Não! Prefiro que você vá para a França. Aí, continuou no governo e fui. Porque meu irmão era ferido de guerra número um, reformado, porque foi muito ferido na guerra, então eles deram um emprego à altura do que ele podia fazer, que ele não podia se cansar muito, não podia… Cada dois anos tinha que ir no hospital repousar um, dois meses, porque ele ficava todo inchado, então lá na França deram um bom emprego para ele na polícia e aí que minha família foi para a França. Fiquei mais sossegada. E acho que tudo contribuiu para eu ficar no Brasil. Muita coisa, muitas.

 

P. - Bem, senhora tem mais uns vinte e tantos anos para contar para a gente do Brasil.

 

F. - Hi… Hi…

 

P. - Como é que a senhora foi trabalhar como costureira na sua própria casa?

 

F. - Ah, sim. Por conta própria.

 

H. - A senhora casou em que ano?

 

F. - Casei em 1957.

 

P. - A senhora não quer contar.

 

F. - Eu sempre frequentei o CIB, frequentei porque queria normalmente casar com um judeu, mas os judeus que não queriam nada comigo (risos).

 

P. - O que que acontecia?

 

F. - Muita coisa. Primeiro os judeus aí, eu achei que eram muito, eu não sei qual é o termo que vou empregar. Porque não tinha família, sabe?

 

P. - Eles não tinham família?

 

F. - Eu não tinha família, então, tava…

 

P. - Porque aqui tinham muitos judeus, sem família todo mundo veio da guerra.

 

F. - Sim, mas mesmo assim não… Mas sempre tinha alguém com família ou então os rapazes que não tinham família e quem tinha família queria um nome. Eu nunca fiz alarde do meu nome, porque no marrocos meu nome era um nome, mas nunca fiz alarde do meu nome. Pra quê? Sempre quis que gente se casasse comigo por mim e jamais pelo meu nome. Isso foi, porque disse, sempre fui adiantada, sempre fui liberal, tinha sempre meu espírito muito avançado. Uma vez não casei com um judeu porque eu era sefaradi e ele era ashkenazi e a família não queria. Nem sabia o que era sefaradi ou ashkenazi. Aí a mãe dele disse: “Você é sefaradi ou ashkenazi?” Disse: “Que quer dizer isso?” “Ué, não sabe?” “Não.” “Como se chama?” Eu disse: “Boubot ou bohbot, se você quiser.” “Ah, então é sefaradi!” “Ah, então sou sefaradi.” (risos) Então a mãe dele não quis, porque eu era sefaradi e ele era ashkenazi. Já aquilo me irritou. Outro: namorei um rapaz judeu não podia casar porque os pais cismaram que não tinha cara de judia e não podia provar que era judia, não é? Então cismaram que estava me fazendo passar de judia para casar com o filho dele. Então, muito obrigada, guarda seu filho. Eu fiz isso. Então, como isso, tinha um rapaz atrás de mim, casei com ele, com meu primeiro marido.

 

H. - Qual era o nome dele?

 

F. - Ari Bahia. Era católico, não era judeu não.

 

P. - Eu sei, a senhora já falou para a gente.

 

F. - É.

 

P. - O que ele fazia?

 

F. - Era fornecimento militar, nem sei, um troço assim. E depois me separei dele, morreu e casei com o pai do meu filho, também não judeu, mas acho que ele era de família judaica. É porque ele se chamava Abelha. Aí então, Marquinho, quando foi para Israel veio com a árvore genealógica dos Abelhas e então eram esses novos cristãos. A Espanha, depois da Espanha foi para Portugal, eu tenho ainda a história do nome.

 

P. - Como era o primeiro nome dele?

 

F. - Abelha, ah! Valter.

 

P. - Abelha.

 

F. - Mas ele respeitava minha religião. Todo Pessach ele ia me comprar o vinho, e… E Kipur ele ia me comprar as galinhas.

 

H. - Que ano a senhora se casou com ele?

 

F. - 1964.

 

P. - E com o primeiro marido?

 

F. - 1957.

 

P. - A senhora então, quando estava aí, chegou no Brasil, a senhora ia, frequentava um pouco sinagoga, essas coisas?

 

F. - Ficava. O primeiro, os dois primeiros anos não frequentava porque estava perdida, não sabia onde tinha sinagoga, então fiquei dois anos perdida.

 

P. - A sua tia não frequentava?

 

F. - Não, ela queria também, mas não sabia onde ir, naquela época era muito espalhado esse negócio de judeus sabe? E também durante a guerra. Ué, quando cheguei no Brasil não dizia que era judia, por coisa das represálias. Ainda estava com aquele espírito de… De represálias, antissemitismo, sabe? Mas mesmo assim, procurava sinagogas. Aí tinha uma sinagoga na Barata Ribeiro, onde tem uma Caixa Econômica, agora, era uma portinhola, então fui acendi o copo para meu pai e de repente sumiu, fechou e não sabia mais onde tinha mais uma sinagoga, então me perdi. Depois então é que vim a conhecer o CIB. Então tudo bem! Mas depois de ver tanto judeu me virando a cara, sozinha, não me convidando pra festa nenhuma, aí mandei passear os judeus. É ou não é?

 

P. - Esse segundo marido faz o quê?

 

F. - Advogado.

 

P. - E como é que vocês se conheceram?

 

F. - Porque ele tomou uma causa minha (risos).

 

P. - Ah, é!

 

H. - A separação sua?

 

P. - A senhora trabalhava sempre por conta própria. 

 

F. - Sempre trabalhei por conta própria. Depois que nasceu Marc ele levava Marquinho na sinagoga. Kipur ele levava, botava quipá e entrava na sinagoga. Todo mundo pensava que era judeu, porque todo Kipur ele tava lá. (risos geral) Com a quipá na cabeça. Ele fazia questão das festas judaicas. Fazia todo o cerimonial: a mesa, as velas… Tudo.

 

P. - E da religião dele ele não fazia?

 

F. - Nada! Só Natal. Não, Natal…

 

P. - Isso que é paixão, né?

 

F. - Natal todo mundo faz, não é. Todo judeu faz Natal.

 

P. - E a família dele que que achava?

 

F. - Nada. Quando me apresentei, essas coisas todas. E todo mundo… Aí os irmãos: “Todos nós somos judeus, todo mundo! Somos cristãos.” E eles conhecem a história né, dos novos cristãos.

 

H. - O seu filho se chama Marcos?

 

F. - Não. Não, é Marc. M - A - R - C.

 

H. - É Abelha ou Boubout?

 

F. - Marc Aurelio Boubout Abelha.

 

P. - Ele nasceu quando?

 

F. - 8 de abril de 1965. Já tem 23 anos.

 

P. - Ele estuda o quê?

 

F. - Biologia. E quando nasceu o Marc eu disse: “Bom, ele tem que crescer numa religião”, porque eu acho que toda criança tem que crescer numa religião, seja qual for, porque a religião sempre encaminha bem uma criança, forma uma criança. Qualquer religião é válida, mas a única religião que eu conhecia era a minha, não é, então botei Marc na minha religião.

 

P. - Ele estudou em escola judaica?

 

F. - Judaica.

 

P. - Qual escola?

 

F. - Scholem.

 

H. - Eu também estudei lá.

 

F. - Né, que idade você tem?

 

H. - 27.

 

F. - Por quatro anos vai ver que.

 

H. - E posso lembrar do rosto dele.

 

F. - Do rosto dele.

 

H. - Posso lembrar sim.

 

F. - Ele estudou o tempo todo no Sholem.

 

H. - Não, mas eu não devo conhecer ele, não. Porque certa altura eu saí de lá também e ele devia estar entrando.

 

F. - Ah, bom. É possível.

 

H. - Meu irmão que é capaz de conhecer, que meu irmão é mais novo do que eu.

 

F. - Que nome?

 

H. - Marcelo.

 

F. - Marcelo de que?

 

H. - Distenfeld.

 

F. - Distenfeld. Vou falar com ele se ele conhece, Marcelo Distenfeld, ele vai entender.

 

P. - Ele tá aí?

 

F. - Não! Esta hora, cinco horas, ele tá no Fundão.

 

H. - Mas aí a senhora ficou viúva de novo?

 

F. - Fiquei viúva de novo. Enterrei dois maridos.

 

H. - E a senhora, esse tempo de casada a senhora manteve a costura?

 

F. - Sempre.

 

P. - A senhora costurou sempre?

 

F. - Sempre. Nunca parei.

 

P. - E aí, a senhora voltou para visitar a sua mãe?

 

F. - Depende. Às vezes fico quatro horas, às vezes fico cinco, às vezes fico oito.

 

P. - E ele já veio ao Brasil?

 

F. - Não, nunca quis vir ao Brasil. Nunca.

 

P. - E a família dessa sua tia Felicie, a senhora manteve contato ainda e tudo com ela?

 

F. - Com quem? Com a…

 

P. - A tia.

 

F. - Com a minha tia? É com ela que estava falando.

 

P. - Ah, sei.

 

H. - E essa sua sobrinha, por parte de quem?

 

F. - Do meu marido.

 

H. - Ah, tá.

 

P. - Dona Felicie, eu queria perguntar mais alguma coisa sobre a educação que a senhora deu ao seu filho. A senhora comentou que ele foi para Israel.

 

F. - Foi.

 

P. - Ele se sente judeu, então.

 

F. - Ele se sente judeu. Ele não é nada religioso.

 

P. - Foi ele que quis ir?

 

F. - Foi, foi.

 

P. - Ele foi colher laranja?

 

F. - Não, não. Ele foi na classe brasileira, ficou dois anos. Ele foi para um ano, ficou dois anos.

 

H. - Ficou dois anos lá.

 

F. - Dois anos. Ele acabou o segundo grau lá em Israel. Ayanot. Ele foi para Ayanot, mas ele foi agora mesmo, faz pouco tempo, ele foi de novo para Israel. Ele foi no Instituto 

, ele foi fazer um estágio. Instituto 

, fez um estágio. Esse ano mesmo.

 

H. - Fala hebraico.

 

F. - Fala muito bem hebraico.

 

F. - Dá às vezes aula de hebraico também. Ele deu aula de hebraico aí na Unificada.

 

P. - Ele frequenta o ambiente?

 

F. - Completamente.

 

P. - Os amigos deles são jovens de grupos judeus?

 

F. - Completamente. Ele dança, ele frequenta o grupo de dança, ele frequenta muito. Ele não é nada religioso, mas a frequentação dele é só judaica.

 

H. - Ele mora com a senhora?

 

P. - Hum, hum. E ele pode morar noutro lugar, com a inflação diária que está hoje em dia?

 

P. - E a senhora, em casa, a senhora mantém alguma coisa, as festas a senhora comemora ainda?

 

F. - Eu comemoro sempre Pessach e Kipur. São as duas festas que sempre fiz questão, porque meu pai também não era religioso, mas ele dizia sempre que ele fazia Kipur por respeito a mãe, minha avó. Então eu continuei essa tradição, eu mantenho Kipur em respeito à meu pai.

 

P. - Dona Felice, quem mais na sua família está no Brasil?

 

F. - No Brasil tenho ainda mais, tinha dois primos. Um morreu agora, esse mês.

 

H. - Qual era o sobrenome dele?

 

F. - Ele era o Filho Bensoussan e tenho outro primo-irmão que é filho da irmã da minha mãe que mora aqui, só.

 

P. - Filhos dessa sua tia?

 

F. - Não.

 

P. - Essa sua tia não tem filhos?

 

F. - Não, não tem filho, só eu (risos).

 

H. - Como era o nome desse primo irmão da família da sua mãe? Esse último, que a senhora falou que é vivo, que mora aqui.

 

F. - Dimitri, o pai dele era grego. Então tem nome grego.

 

P. - E o sobrenome dele?

 

F. - Jeangandelice (risos). Bem grego.

 

P. - E o seu irmão teve filhos? Que que ele fez durante o tempo todo?

 

F. - Quem, meu irmão?

 

P. - Seu irmão.

 

F. - Bom…

 

H. - A sua mãe foi com seu irmão para Paris, para a França, aliás trabalhar, né?

 

F. - Meu irmão… Eu vim para cá e meu irmão ficou, casou logo. Casou e minha mãe ficou com meu irmão e minha cunhada. E sempre ficou, até hoje, ela tá lá na França com a minha cunhada.

 

P. - Como é o nome da sua cunhada?

 

F. - Nina.

 

H. - Sua mãe não se casou de novo?

 

F. - Não, nunca mais quis casar. Nunca mais quis casar e meu irmão casou e a minha cunhada é muito religiosa também e se dá muito bem com a minha mãe. Questão de religião, então!

 

P. - (risos) Sorte das duas, né.

 

F. - É. Elas brigam para ver quem é mais religiosa do que a outra.

 

H. - Tem sobrinhos lá na França, a senhora?

 

F. - Tenho sobrinhos e sobrinhos netos. Tenho… Meu irmão casou e teve quatro filhos.

 

H. - A senhora nunca pensou em voltar para a França, por exemplo, para se juntar a sua família?

 

F. - Não, mas agora tô pensando. Agora tô pensando.

 

H. - Tá mais sozinha, né.

 

F. - Na minha mãe. Eu tô pensando, mas eu não posso assim fechar tudo de uma vez e ir embora, não dá. Tem muitas coisas que tem que por em dia e principalmente meu filho, não é. Tem que se formar primeiro, vai se formar o ano que vem. Não posso. Daqui que meu filho se forme, eu vou ver o que acontece, mas minha ideia é de voltar.

 

P. - A senhora hoje tem uma vida estável no Brasil?

 

F. - É. Por isso justamente, porque tenho mais freguesia. Tenho tudo assim estabelecido, então é difícil deixar tudo, ir embora. Muito difícil. Não sei, talvez, não sei, não, minha mãe que… Situação da minha mãe que tá me empurrando para lá, também a situação lá é muito pacata.

 

H. - A senhora falou que ela está bem com a sua cunhada.

 

F. - Ela está bem com a minha cunhada.

 

H. - Então é mais uma vontade sua, talvez?

 

F. - Não é vontade minha, porque cunhada é cunhada, não é? Quer dizer, nora é nora, né. E filha é filha. Apesar de toda boa vontade, todo o amor que existe, mas… A gente não sabe o dia de amanhã. Minha cunhada é jovem, não é, a gente não sabe o dia de amanhã.

 

P. - Ah, é.

 

F. - Então, não quer que minha mãe seja um empecilho.

 

P. - Ah, claro.

 

F. - Para qualquer coisa, não é.

 

H. - A sua mãe não quer vir para cá.

 

F. - Não. E também, uma mulher de oitenta e tantos anos, trazê-la para cá, transportá-la, sem saber a língua, sem… Não dá. Ela vai se sentir isolada.

 

P. - É, completamente.

 

F. - Ela vai na sinagoga, vai falar com quem? Como? Não dá. Aqui é muito pequeno, mamãe requer três louças: louça do chamêts, louça do casher e louça de Pessach.

 

H. - O que é chamêts?

 

F. - Ué, porque aqui não tem o casher? Bom, eu não sei aqui os brasileiros, mas no Marrocos a gente se diz casher o casherut, casher, então, casher, então mamãe é muito casher.

 

H. - Casher a gente sabe o que que é. A gente não sabe o chamêts.

 

P. - A senhora falou que tem três louças: pro kasher, pra Pessach…

 

F. - Chamets é… Por exemplo, tem a louça pra carne, pra legumes, pra tudo, não é? E tem a louça para a manteiga…

 

P. - Ah, o leite!

 

F. - Pro leite, isso que é o chamêts. Pra leite, manteiga, essas coisas todas. Então tem que ser separado.

 

P. - E ela mantém até hoje isso?

 

F. - Ah, sim. Tem o chamêts, o casher e o do pessach.

 

P. - (risos) Aí ia ser difícil manter ela aqui, né?

 

H. - A sua mãe quando soube que a senhora tinha casado com um não judeu, houve algum problema familiar por causa disso?

 

F. - Não.

 

H. - Ela aceitou.

 

F. - Não. Porque minha família é toda misturada.

 

P. - Tem muito religioso com não religioso.

 

H. - É interessantíssima.

 

F. - Mamãe é muito religiosa.

 

H. - Legal, porque sei lá, convivem os muito religioso com os não religiosos.

 

F. - Pois é, então…

 

P. - Já o lado europeu não é tão religioso assim, mas não convive com…

 

F. - Um dia disse ao meu marido: “Escuta, vamos botar a tua mãe e a minha mãe numa só casa?” (risos) Ia sair uma guerra daquelas! Porque a avó do Marc, a mãe do pai, era católica mas daquelas religiosas. Entendeu? Imagina a minha mãe judia, religiosa assim também!

 

P. - Assim também, né!

 

F. - Um não ia enxergar o outro, né? Oh!

 

P. - Isso é muito interessante.

 

F. - Engraçado, na minha família, lá no Marrocos são todos religiosos, mas religiosos de observar tudo, Shabat, cada festa tudo isso e não digo a metade, porque é muito exagerado, mas todo mundo é casado uma mistura com católico, com ortodoxo, não é, e a gente se junta nas festas, todo mundo faz as coisas junto, não tem não a dizer: “Ah, ele é católico, não chama.” Não, todo mundo festeja, todo mundo está junto. A família está unida apesar da  mistura. É muito unida, apesar da mistura.

 

P. - Acho que isso é uma característica dos judeus sefaradi, negócio da família.

 

F. - Família é família, não importa o…

 

P. - Não, no ashkenazi não que, não é. Não é da família se… Se casar com um não judeu, não é da família. Perde a família, eles falam logo isso.

 

H. - Mas lá é ao contrário, quer dizer, a família quase que praticamente acima de muita coisa, né.

 

F. - Mas é observado, mas as filhas que casam com um não judeu, não importa porque os filhos são judeus, então pra que fazer guerra? Minha sobrinha é casada, em segundas núpcias, é casada com um católico. Os filhos são judeus! Com toda a religiosidade da minha mãe e da minha cunhada. Eles aceitam. Não digo que minha mãe e minha cunhada estão nas nuvens.

 

H. - Felicíssimas, não é?

 

F. - Nos primeiros dias, no primeiro tempo elas estavam toda triste, toda chorosa. “Escuta aqui minha filha, você não gosta do Marc?” “Adoro o Marc!” “Então ele é judeu! Ele não foi para Israel?E… Então a mesma coisa! Teus netos vão ser a mesma coisa!” Aí que ela aceitou. “Ah! Tem razão, os meus netos são judeus.” E pronto, acabou, e o marido dela faz igual ao meu marido. Toda sexta feira bota kipá e vai fazer o kidush lá em casa, com toda a família.

 

H. - Seu marido chegou a aprender hebraico, essas coisas?

 

F. - Não… Não… Ele queria virar judeu, mas…

 

H. - Acompanhava a senhora fazia o que podia para acompanhar.

 

P. - É, mas poxa! Acompanhou a senhora, levava seu filho na sinagoga… Participava.

 

F. - Sempre, sempre. Kipur às quatro horas pegava marquinhos e levava para sinagoga e eu ia do lado das mulheres e ele ia do lado dos homens, sempre. Então por isso, que acho de boa vontade tudo se ajeita e quando a gente quer seguir uma religião com jeito a gente segue. Só não querer obrigar, não querer fazer que tudo se ajeita.

 

H. - Qual era a instituição que a senhora foi nos últimos tempos? Era a ARI ou o CIB, que a senhora andou frequentando no Kipur?

 

F. - Não, depois me afastei completamente da sinagoga, da religião não quis mais saber de nada.

 

H. - Depois quando?

 

F. - Depois que Marc foi para Israel retornei às minhas origens. Aí estava sozinha, assim… Sabe? Aí comecei a ir na Shel, porque a Shel é marroquina, aí frequentei a Shel muito tempo. Depois uma vez fui na ARI e gostei mais da ARI, porque achei que a Shel é como… É marroquina e tudo. Faz a meu modo, não é? Mas me entroso mais espiritualmente com a ARI. Vou sempre às sextas-feiras na ARI.

 

H. - A senhora ia depois se afastou de novo também da ARI?

 

F. - Da ARI me afastei um pouco pelas circunstâncias. Morreu meu marido, essas coisas e tal, tinha muita coisa que fazer, ia muito para Pedra e então não dava. Ia muito para Pedra. E agora estou ajeitando minha vida e recomeçando a ir.

 

P. - A senhora ficou viúva quando?

 

F. - Faz um ano.

 

P. - A senhora quer acrescentar alguma coisa, dona FelicIe, lembrando de mais alguma coisa?

 

F. - Não.

 

H. - Alegre ou triste.

 

F. - Só se fazendo alguma pergunta é que posso…

 

P. - Acho que não, a gente já perguntou à bessa.

 

P. - Ah, sim! Tem uma pergunta. A senhora falou que foi uma parte da sua família para Israel. Quem é que está lá?

 

F. - Sim.

 

P. - Quem é que foi para lá? Irmão da sua mãe?

 

F. - Todos meus primos irmãos foram para lá.

 

H. - Da sua geração, né?

 

F. - Da minha geração. Tanto da minha como do meu pai e também os primos do segundo grau e terceiro grau.

 

P. - O pessoal saiu lá do Marrocos.

 

F. - Saíram todos do Marrocos foram para Israel. De toda família…

 

P. - A senhora chegou a visitar eles alguma vez?

 

F. - Não, nunca fui para Israel. Eu vi eles agora na França, foram para os pêsames do meu irmão, aí vi a maioria deles, mas da minha família que é grande, enorme, sobrou um, dois, três ou quatro primos que estão em Marrocos, todo o resto está lá em Israel.

 

P. - A senhora saberia dizer mais ou menos quantos judeus ainda estão em Marrocos?

 

F. - Não, não. Mas posso perguntar e te dizer isso futuramente.

 

P. - Tá legal! Obrigado, dona FelicIe.

 

F. - De nada!


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