Busca avançada



Criar

História

Semeando o futuro

História de: Edílson Gomes Maceió
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/05/2020

Sinopse

Edílson relata o início de seu envolvimento com as questões sociais dentro da favela Nova Holanda no complexo da Maré, Rio de Janeiro. Conta de sua luta, primeiro, em levar o básico à comunidade, tais como água, posto de saúde, esgoto, depois ações artísticas e culturais, tais como oficinas de brinquedos, salas de leitura e a informática logo no início dos anos 2000, promovendo a democratização da Internet junto aos jovens de Nova Iguaçu, além da cidadania e visibilidade dessa população.

Tags

História completa

P/1 - Edílson, boa tarde. Você poderia começar falando o seu nome completo, local e data de nascimento, por favor?

 

R - Edílson Gomes Maceió. 30 de março de 1963, 40 anos. Moro hoje em Jardim Nova Era, Nova Iguaçu e trabalho no Cisane [Centro de Integração Social Amigos de Nova Era], onde tem lá uma escola de informática em parceria aqui com o CDI [Comitê de Democratização da Informática].

 

P/1 -  Edílson, você poderia contar para a gente, brevemente, a sua trajetória e como foi, sua trajetória profissional e tal até entrar no CDI? E como foi o contato com o CDI?

 

R - Assim, a gente está sempre…

 

P/1 - A sua trajetória no movimento?

 

R - … a gente está sempre envolvido nessa questão de encontrar onde tenha alguma coisa de informação para ajudar as comunidades que nós estamos trabalhando. Quer dizer, na verdade a minha história começa na Nova Holanda, onde desde 14, 15 anos já estava lá tentando, dentro das trincheiras, tentando levar água até onde não tinha. Naquela época, o Governo do Estado quase não chegava a fazer instalações dentro das favelas mesmo, como Nova Holanda mesmo não tinha esse processo do próprio governo em querer levar serviço público, quer dizer, se hoje é difícil, dentro de algumas favelas, imagina na década de 1970? Era pior. Então a gente, eu já comecei por ali a semear um pouco essa coisa de descobrir, né? Dentro de mim que eu tinha essa vocação, assim, eu vim para esse mundo para tentar contribuir e tentar fazer uma revolução do lado positivo para mostrar às pessoas que estavam em minha volta, que juntos eles poderiam fazer muito mais do que já fizeram. E, se a gente não juntar forças e somar, a gente não vai conseguir ter água, não vai conseguir ter esgoto, não vão ter o posto de saúde que vai trazer nossa vacina. Na hora que o pessoal do Governo do Estado trazer aquele sopão, a gente não tem que ir lá pegar sopão nenhum. Que a gente não está aqui todo mundo morrendo de fome, a gente tem, queremos sim, é que eles tragam para cá outras condições de vida melhores, porque a gente não tem que depender de comida nenhuma de Governo de Estado. Então, era mais ou menos, era esse movimento que rolava lá. E, naquela época, eu tive uma coisa interessante, que eu lá na Maré, eu aprendi que assim, que jogava-se muita coisa no lixo. E no lixo eu aprendi que tinha muita coisa interessante. Antes de ter hoje essa, esse pensamento de “É, vamos reciclar, vamos separar, vamos juntar”, naquela época já existia isso. Um movimento comigo na Maré, na Nova Holanda, que a gente pegava papel, garrafa, a gente separava e a gente conseguia juntar o dinheiro. E eu me lembro que, com 14 anos de idade, eu comprava lápis, caderno e dava para as crianças da minha rua. Isso era criança muito pobre mesmo que não tinha material escolar e ali surgiu o primeiro trabalho na minha casa, que a minha _______ falou que ali, acho que começou a história. Que eu, no quintal de casa onde pegamos um, fizemos um quadro de uma escola que doou para a gente, uma escola pública lá, a escola Nova Holanda. Nós montamos a primeira escolinha que a minha irmã, que hoje está com quase 40 anos, mais de 40 anos, ela foi a primeira professora comunitária e dali, as pessoas da associação de moradores daquela comunidade, começou a dar um apoio para a gente, da Fundação Leão XIII, no caso, dar um apoio. E nós começamos ir, né? E chega a década de 1980, chega a década de 1990 e aí eu estava já na Maré, fazendo todo um trabalho e aí houve o processo de várias comunidades: Catiri, Morro do Cruzeiro, Morro do Cantagalo... Cheguei a ir para uma comunidade em Vassouras fazer um trabalho lá que estava começando, a um grupo de pessoas mesmo, de fazendeiros, mas tinha um pessoal que ia trabalhar nas fazendas, mas era o pessoal analfabeto. Chegamos a ir para Mendes, em Vassouras para alfabetizar um grupo lá em 1991, 1992. Nessa época, eu já larguei meu trabalho que eu fui contratado pela Prefeitura do Município do Rio em 1987 como animador cultural. Então, fiquei de 1987 até 1992 como animador cultural, a carteira assinada. Só que em 1992, eu pensei: "Eu não aguento mais ficar com esse vínculo empregatício sem ter tempo de contribuir com as minhas comunidades." Aí eu larguei o trabalho formal e fui viver mesmo de catar lixo, catar papelão, catar ferro-velho para ter um dinheiro dentro de casa e desenvolver um projeto que eu queria e o primeiro projeto que eu comecei a fazer, além de ser a escolinha lá em Nova Holanda, foi ir para o Catiri, lá em Bangu, nós fizemos uma oficina de brinquedos de madeira.

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - Aí, nós catava madeira, as madeiras na feira: caixote de maçã, de laranja e nós fazia brinquedos de madeira, né? Porque quando eu era pequeno, eu ia nas lixeira, catava lata de óleo, pegava sandália Havaianas fazia as rodas de borracha e a gente fizemos muito brinquedo lá em Bangu para as crianças de uma comunidade chamada Catiri. Aí, isso... Rola a história da chacina de Vigário Geral, infelizmente em 1993. Aí, eu, em 1994, fui lá. Em 1995, eu acabei indo de vez. Fiquei em Vigário Geral na Casa da Paz e aí a desenvolver um projeto com a Sala de Leitura de lá, porque eu adoro essa coisa de contar história! Assim, eu acho que tenho milhões de livros na minha cabeça que eu já li. E, assim, eu quero chegar em um lugar, aonde eu ver criança, se me convidarem, eu vou lá e vou contar uma história do livro, mas uma história diferente de como está escrito no livro, mas a história real, mas de uma forma diferente. Contar mesmo! Brincando, pulando, gritando, saindo correndo... e fazer que a criança desperte a vontade da leitura, porque eu acho que tem uma coisa legal nessa coisa da era da informática que eu percebo muito, é muito interessante que tenha a informática, a Internet, mas a gente tem que estar preocupado também com a questão da leitura. A questão da literatura é visual, entendeu? Através da Internet é muito bacana, mas a literatura da escrita, da palavra, de ter o hábito de ler eu acho que eu luto muito por isso. Eu luto que as pessoas tenham acesso à inclusão digital, mas que as pessoas também usem o computador e leiam os livros junto, porque senão não vai chegar a lugar nenhum, porque são palavras que estão no livro que você vai absorver, você vai colocar no seu vocabulário. Eu era completamente gago. Eu, com 12, 13, 14 anos, era gago.

 

P/2 - Era mesmo?

 

R - E então, hoje que eu falo muito…

 

P/2 - Tem sinal nenhum. [riso] 

 

R - … Hoje eu falo mais do que eu podia. Aí, as pessoas falam assim: "E olha que esse cara era gago", né? então, na verdade eu acho que…

 

P/2 - Superação.

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - … Eu aprendi muita coisa, consegui superar alguns limites meus, mesmo com todas as dificuldades. Ainda existem algumas questões de dicção. Eu tento consertar elas sempre em algumas questões onde eu vou… palavras que eu me coloco pronunciando errado, mas eu tenho que articular de uma forma, lentamente, para conseguir falar ela correta. E, quando eu vou em algumas escolas fazer palestra, eu acabo falando isso, eu falo as palavras que eu falo errado para a pessoa perceber que eu falo normalmente errado, mas eu consigo falar ela correta. E isso é um erro que o meu  professor na sala de aula com 10, 12, 13 anos, eles não viram. Porque e hoje, tem muita criança na sala de aula que tem erros de dicção, de língua presa ou a dicção que não pronuncia as palavras corretas e o professor não consegue visualizar isso e ver isso. Então, eu coloco isso como um alerta para os professores ver isso em uma avaliação, individualmente, em cada aluno seu. E eu acho que é importante que a gente tenha essa visão, de querer contribuir com a ação social dentro das comunidades para que a gente não fique só atrelado a um assunto, mas que tenta buscar todos os assuntos pertinentes: que o cara tenha uma aula de cidadania, mas que seja uma aula completa. Que ele tenha hoje uma formação de informática, de leitura, sobre saúde, sobre gestão básica, sobre questão de comportamento, disciplina. E aí nós vamos formar o verdadeiro cidadão. E aí em 1992, eu estava lá em Bangu, aí acabei indo para o Maranhão também onde eu fui conhecer a mãe do meu filho. Ela veio para o Rio, fazia um grupo de teatro, fazia parte de um grupo de teatro. Viajava por aí como doido e adoro teatro! Sou um grande ator, frustrado porque, na verdade, eu larguei os curso que eu fazia, porque eu falei assim: "Ou eu vou ser um ator ou eu vou trabalhar com as minhas comunidades." Então, eu escolhi - ou eu ser ator ou eu fazer o que eu quero também que é ajudar as pessoas -, daí em 1995, 1993, 1994 eu já estava voltando para o Rio. Aí, em 1995, eu fui para Vigário Geral. Acabei ficando de vez na Casa da Paz, mas aí teve todo um processo de uma questão de coordenação mesmo dessa casa e, infelizmente, o projeto acabou. Aí, em 1996, fui convidado pelo coordenador do Afroreggae, que é o Júnior, mais uns menino de ficar com as crianças da comunidade... Que tinha muita criança em Vigário Geral como ainda tem hoje. E, o Afroreggae tinha um trabalho  muito interessante que é a questão da musicalização, né?

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - Questão do instrumento, a capoeira, mas não tinha um trabalho com as crianças.

 

P/1 - Certo.

 

R - E aí, eu peguei as crianças e levei para dentro do Afroreggae para fazer um projeto de recreação, recreação infantil. E aí, usando todo tipo de ferramenta, usando papel, usando lixo, usando… Descobri que as crianças… A importância da saúde. Conversar com os pais e trabalhar também a questão de instrumentos musicais mesmo. Que as crianças pudessem estar confeccionando os seus instrumentos, feitos de PVC, de latinha... E aí, era um trabalho recreativo que acabou se transformando hoje em um projeto, que é o Projeto Criança Legal, que hoje é uma referência bacana no Afroreggae, que essas crianças de hoje, daqui a 20 anos, elas são os futuros coordenadores ou futuros músicos desse trabalho social que o Afroreggae desenvolve em Vigário Geral. E aí, em 1996, em 1997, eu comecei já um grupo de jovens, uma comunidade em Nova Iguaçu em 1997. Fomos levando o Afroreggae para lá, para fazer uma palestra e se apresentar, né? Que eles não era a banda oficial que hoje o Afroreggae tem e, descobrimos que na Baixada Fluminense é diferente do Município do Rio… é, são comunidades da Baixada Fluminense muito politizadas. Eles não têm, os jovens ou a comunidade é unida e ser organizada para lutar sobre a questão do que não têm. O diferencial é, digamos assim,  ah, que não tem esgoto, não tem água, não tem água encanada, não tem asfalto, não tem saúde, não tem transporte urbano direito... Não tem, não tem nossos direitos sendo discutidos por uma associação de moradores. O movimento lá é muito politizado, o cara que é da associação, quando existe esse movimento, é um movimento muito na questão política. Aí, descobrimos essa situação, ficamos em Nova Era. Alugamos uma casa lá, implantamos um projeto que era a Sala de Leitura, com doações de livros que foram doados pela Nestlé em 1997. Montamos a primeira salinha de leitura. Aí, em 1998, convidamos o Zuenir Ventura para ir lá e inauguramos a nossa Sala de Leitura com o nome do Zuenir Ventura. Que é, ele tem orgulho de se chamar hoje a nossa “Biblioteca Comunitária Zuenir Ventura”. E aí, em 1999, começamos a fazer o trabalho dentro do Cisane…

 

P/2 - E o CDI, que ano que entra?

 

R - É, o CDI entra em 2002.

 

P/2 - Ah, tá. Está certo.

 

R - Aí, em 1999, a gente começa a fazer um trabalho. Em 2000, a gente consegue uma doação de computadores... Três computadores. Aí, em 2001, eu começo a participar de algumas reuniões. Começo a participar mais de movimentos, de reuniões dentro dos encontros de fórum. E, em 2001, eu conheci a... uma das coordenadoras do CDI, né? Que é a Raquel, eu conheci a Raquel em uma reunião na  Firjan [Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro], né? Em uma capacitação de um projeto da Comunidade Solidária que ela estava participando e aí foi esse processo de namorar o CDI durante quase dois anos. Em 2001,  mandei a minuta do projeto, aí passou o ano todo de 2001. 2002 eu fui convidado para vim aqui em uma reunião que era na Rua Alice, que é ainda no escritório central lá. 

 

P/2 - Ainda é? Qual é a ideia quando vocês pensaram em criar o CDI lá? Que é que vocês queriam?

 

R - Qual é a ideia? Que a gente já tinha lá três computadores doados por uma senhora. E a gente, lá na Baixada Fluminense, em Nova Era, nós temos um público muito grande. Que para fazer um curso de informática teria que chegar a andar 12 quilômetros ou um ônibus que tem oito quilômetros de distância até o centro de Nova Iguaçu, onde nós estamos.  Então, quer dizer, uma região com mais de 30 mil moradores que ninguém nunca fez um curso de informática. Uma pesquisa naquela região lá que nós fizemos, mais de três mil pessoas que gostariam de fazer um curso de informática e não tinha condições de fazer o curso pagando 30, 40 reais, aí nós descobrimos que o CDI existia. O projeto que a gente podia estar implantando na EIC [Escola de Informática e Cidadania], com uma metodologia que ia ensinar informática e também iria ensinar a esses jovens, essas crianças, o sentimento de ser solidário, o sentimento de ser cidadão e o sentimento de, junto com essa instituição, contribuir com o crescimento dessa região na questão de melhoramentos de saneamento básico, de saúde, educação, cultura, lazer. Através de uma discussão em uma sala de aula que seria a EIC que, se tivesse lá, que essa EIC, chamado EIC, teria uma discussão dentro de sala de aula de informática sobre direitos e deveres. 

 

P/2 - Mas, vocês sabiam que o CDI tinha essa proposta?

 

R - Tinha essa proposta. 

 

P/2 - Vocês sabiam?

 

R - Que eu descobri através da Raquel, que falou qual era a proposta do CDI. Que não é simplesmente implantar um projeto de informática, mas tinha essa coisa. Então foi onde eu fiquei mais empolgado. 

 

P/2 - Com a proposta pedagógica, né?

 

R - É. Quando eu falei para os coordenadores, as meninas que trabalham comigo lá... Que tinha essa ONG e que eu não conhecia… E onde eu estava que eu não tinha conhecido o CDI ainda? Onde eu fui parar em algum caminho que eu não descobri o CDI há dez anos atrás? Quer dizer, se em 2000, 2001 eu descobri o CDI, o CDI já estava lá atrás, né?

 

P/2 - Hum, hum.

 

R - Mas, porque tem tanta informação que às vezes você vai em alguns lugares e as pessoas, dentro desse setor da área social tem isso, têm alguns coordenadores de ONGs ou de associação de moradores, ou de Oscip [Organização da Sociedade Civil de Interesse Público], seja qual for o nome, eles não gostam de passar as informação. Porque têm medo de perder o projeto ou perder o financiamento: "Ah, porque eu vou falar para ele que existe o CDI? Aí ele vai mandar o projeto para lá… A minha associação… Eu vou mandar também um projeto. De repente, a dele é chamada primeiro, a minha não é." 

 

P/2 - Ah, certo!

 

R - Então, a informação não passa. Então, eu acho que, em algum lugar que eu fui, alguém sabia a informação, mas não quis passar, por isso que onde eu vou se eu tenho a informação…

 

P/2 - Você passa.

 

R - … E onde tem financiamento, tem projeto: "Ó, manda para tal lugar que lá está tendo financiamento." Eu divulgo para todo mundo. Eu boto a boca no mundo!

 

P/2 - Para quem era o público?

 

R - O público eram os jovens. Que a gente estava nessa comunidade tinha o foco muito da questão da violência. 

 

P/2 - Qual a situação também econômica, socioeconômica, deles?

 

R - O foco lá, dos jovens dessa região de Nova Era é, são jovens assim: se não estão estudando, estão na rua e, como na rua não tem praça, não tem o que fazer e não tinha nenhum movimento social lá construído, estava começando pelo Cisane, então tinha que fazer alguma coisa antes que esses jovens entrassem para o narcotráfico. E, por construir eles como os verdadeiros membros de uma família, ou membros de um trabalho comunitário e junto com a gente crescer e contar uma história daqui a dez anos. E onde nós mandamos a minuta do projeto só em 2002 que nós conseguimos ser chamados para aprovar uma EIC. Aí, levaram para lá cinco computadores que foi um sonho de todo mundo. Quando chegou, foi um alvoroço total.

 

P/2 - Qual era a expectativa dos alunos com relação?

 

R - Dos alunos que eles teria hoje, naquele momento quando os computadores chegasse, chegaram, eles tinha a certeza que "Agora eu estou sendo visto." Alguns falaram isso: "Poxa, agora eu estou sendo visto." E esse é um sentimento meu que alguns jovens falou assim: "Poxa, agora a gente acredita em você."  [chora]. Até aquele momento, a gente não tinha, as pessoas não acreditava no que estava acontecendo, porque as pessoas, teve muitas pessoas naquela região, que usaram as pessoas, como têm pessoas que usa. E as pessoas, eu fui em um momento que era ano de eleição, 1998. Chegamos naquela comunidade e eles disseram: "Ó, é mais um político." Eu não faço campanha, não me envolvo. Não acho, não tenho nada contra, eu acho que todos eles têm que fazer campanha mesmo. Têm que ser vereadores, têm que ser políticos, mas esse não é o meu perfil. Não vou ser nunca atrelado a um partido político ou a uma candidatura de alguém. Porque eu acho que a referência tem que ser outra e,  naquele momento, os jovens não acreditavam no que a gente estava fazendo porque: "Ah, isso aí vai acabar daqui a pouco." E quando chegou os computadores [chora], foi uma coisa bacana que as pessoas acreditaram. Acreditaram que ali iria começar um trabalho bacana. É que, desculpa, é uma coisa que vive a minha vida. Eu me dediquei a tudo isso sem querer nada em troca. É uma coisa minha, eu acho que Deus me colocou em todos os processos da minha vida sempre pensando: "Você é um ariano, você é o cara que vai ter que juntar todo mundo. Vai construir, vai reforçar. Você tem defeitos, mas consegue consertar seus defeitos. Vai à frente, consiga mais várias pessoas porque junto com você, você vai trazer benefício para as pessoas e vai conseguir fazer o seu trabalho." Então, o ariano é um pouco isso, emotivo, ele é sentimental, ele também briga.

 

P/2 - Você é ariano?

 

R - O ariano mesmo, do primeiro decanato. É aquele cara que nasceu para poder botar fogo em todos os sentidos positivo e mostrar para as pessoas que não vai desistir nunca. E vai estar sempre junto das pessoas, mesmo que não tenha nenhum recurso. Então quando chegou os computadores, foi uma alegria! As pessoas agora acreditando e aí, nós acreditamos tanto que hoje todo mundo que está até hoje comigo são pessoas que não acreditava, que achava que, "Ah, isso aí tudo é história. Daqui a pouco vai embora." E aí passou o ano de 2002, passou 2003 e aí, nós fizemos, as pessoas que _________

 

P/2 - Quantos alunos? A EIC começou com quantos alunos?

 

R - Hoje, acho que nós já conseguimos assim, capacitar mais de 300 alunos.

 

P/2 - Ao todo?

 

R - Ao todo, mas assim…

 

P/2 - Em três anos?

 

R - Três anos. Capacitou mais de 300, mas isso formal, escrito, né?

 

P/2 - Certo.

 

R - Porque têm duas coisas que acontece dentro do Cisane: têm os alunos que passam pra Escola de Informática de Cidadania e tem as crianças de 7, 8, 9 e 10 que não pega essa metodologia do CDI e a gente acredita que essas crianças têm que pegar também o gostinho pela informática. Têm que ter acesso à essa informática. E nós temos, dentro do Cisane hoje, 150 crianças que são bolsista. Que não paga a taxa simbólica lá de 15 reais e faz curso, porque a gente acreditamos: se nós temos os alunos que mantêm a Escola de Informática funcionando, consegue pagar a luz, consegue pagar o professor, porque eu vou ver a sala vazia com dez computadores e com horário livre? Enche de criança aí dentro. Então, dois dias eu consigo atender 150 crianças. Uma hora de curso para cada dez crianças. E aí você consegue atender 150. Poderia atender 160 botando de 8 às 9; de 9 às 10 e vai por aí.

 

P/2 - Você atende 150 entre __________

 

R - Crianças e bolsistas.

 

P/2 - … crianças e bolsistas?

 

R - É. A gente manda a carta de três em três meses. De três em três meses, essas 150 crianças fica lá, aí depois de três meses, vem mais 150. A gente, para cada escola municipal, a gente manda o ofício para aquela escola encaminhar através de uma declaração escolar 50 crianças de cada escola. Crianças que não têm condições de pagar um curso, criança que dentro de casa vive com total dificuldade. Que o pai não trabalha, faz biscate, que a mãe não trabalha, que vive com uma horta comunitária, ou vende ou lava roupa, ou passa roupa, ou que cata ferro-velho. Isso tem muito lá... Ou que é a birosqueira, que vende bala, doce, ou que vende sacolé, ou que costura. E aí, a gente tem esse perfil e essa referência. Mesmo que eu morra, eu quero que isso continue, porque eu acho que isso é a diferença da nossa instituição: a gente não pensa só nos valores financeiro. Se a gente tem os recursos humano que a gente necessita naquele momento que dá para fazer esse trabalho, vamos fazer. Se aparecer alguém que queira adotar isso, bacana. Vamos atender muito mais. A gente tem hoje é _____________

 

P/2 - Mas, como você mantém a EIC?

 

R - Como a gente mantém… tipo assim, hoje como é que a gente mantém a EIC? Como a gente mantém a instituição toda, né? Quer dizer, no começo era cinco computadores, aí em 2003, nós fizemos por conta própria o Dia da Inclusão Digital. Botamos 10 computadores no centro de Nova Iguaçu. Foi onde o pessoal do CDI começou a olhar mais para a gente, falou assim: "Não, esse cara lá é maluco. Aquele cara é louco. Porque ele é louco, esse cara conseguiu fazer isso. Como ele conseguiu fazer sem recurso nenhum?" E enche, para fazer um evento aqui que a gente faz o Dia da Inclusão Digital, a gente tem que estruturar um monte de coisa. E, sem recurso de nenhum centavo, nós conseguimos botar, levar os computadores para o centro de Nova Iguaçu, levar os  computadores, levar mesa. Articular com a prefeitura. E aí foi onde o Ricardo e o Rodrigo, as meninas viram isso em 2003 onde nós recebemos, ao invés de cinco, mais cinco computadores! Aí botamos, tem dez computadores hoje e a antena parabólica que tem o sinal de satélite que foi para lá em 2003. A partir desse momento que nós fizemos por conta própria o dia D lá no centro de Nova Iguaçu, que eles viram que __________

 

P/2 - Vocês fazem sozinhos ou com parceria?

 

R - Nós tinha feito sozinho, assim ___________

 

P/2 - Mas hoje?

 

R - … e convidamos as outras EIC da Baixada para participar desse evento que nós fizemos lá.

 

P/2 - Certo.

 

R - E aí, eles não acreditaram, eles acharam assim: "Não tem condições, falta dois dias para o dia D." Assim: "Não, têm condições sim. Dá para fazer, porque eu acredito que a gente vai articular. Hoje mesmo eu já saio daqui, já reúno tudo o que eu preciso. Amanhã, eu já boto os computador na rua." E foi o que aconteceu, o limite em cima do limite e a questão dos impossível que pode se tornar possível a partir do momento que você acredita, né?

 

P/1 - Vocês conseguiram doações?

 

R - Não, aí nós conseguimos a doação da Kombi, das mesas e cadeiras para levar para o centro de Nova Iguaçu. O secretário de Cultura que liberou a rua, a Light que foi lá ligar ponto de luz e tudo aconteceu de um dia para o outro. E botamos os computadores na rua, mobilizamos todas as EICs para ir, para ajudar a gente e aí aconteceu. Esse ano de 2004 já foi diferente, foi mais calmo, foi mais tranquilo. Botamos dentro de um shopping 20 computadores, né? De uma EIC, de outra... E aí nós, hoje tem esse perfil.

 

P/2 - A minha pergunta assim, dá licença, a minha pergunta é que como, quer dizer, a proposta da EIC ________

 

R - Como é que a gente consegue…

 

P/1 - Sustentabilidade.

 

R - … Nossa sustentabilidade.

 

P/1 - Exatamente.

 

R - Como é que a gente consegue segurar essa onda toda, né? O quê é que acontece? Temos lá hoje, 32 alunos que paga uma taxa  simbólica de 15 reais. Já pagou o professor, já pagou a sala na questão da energia, para a gente está bom. Se tiver 50 alunos pagando 15 reais, vai _____________

 

P/2 - Mas, têm estudando quantos?

 

R - 32 alunos paga 15 reais.

 

P/2 - Ah, os 32 que estudam, pagam?

 

R - Pagam os 15 reais. Aí, o que falta, licença e quando, o que tem que complementar, aí eu assino no projeto lá 800 reais, um projeto de DST [Doença Sexualmente Transmissível], eu abro mão de valores para pagar aluguel, pagar luz, pagar alguma coisa. Ah, o educador: "Ó, o aluno não pagou esse mês. Falta oito alunos para completar 200 reais de alguns alunos." Então aqui, paga ele. A gente vai vivendo assim,,então na verdade, nós temos o sinal de satélite que ajuda também. Que aí o cara vai lá, acessa no computador, paga uma taxa…

 

P/2 - Dá acesso à Internet?

 

R - É. Nós temos a parabólica, o sistema de satélite direto. Aí, ele paga uma hora, um realzinho.

 

P/1 - Certo.

 

R - Quer dizer e, se por dia, vai lá 30, é 30 reais que entrou. No outro dia, se vai 15, é mais 15. No final do mês deu quanto? Deu 150, já ajuda a pagar a luz. E a gente vai vivendo assim. Então, o que entusiasma muito a gente é assim, se independente de parte financeira se tem o entusiasmo de todo mundo, a gente vai vivendo. Eu vou fazendo as campanhas, eu entro na internet 24 horas, aí eu vou na sala de bate-papo de 30 a 50 anos, mando uma minuta do que é que é o Cisane. 

 

P/1, P/2 - [risos]

 

R - É assim: "Se quiser ajudar, se quiser contribuir, venha visitar." E nessa história toda, eu já tenho hoje 30 e poucas pessoas que todo mês deposita na nossa conta cinco reais, dez, um real. E aí ajuda. Quando não é um valor, é as pessoas: "Ó, vem buscar aqui uma máquina de costura, vem buscar uma roupa." E aí a gente vai vivendo assim.

 

P/1 - E o modelo pedagógico? Quais os projetos que vocês desenvolvem lá?

 

R - É, a gente desenvolvemos no primeiro ano, o projeto “A História Viva de Nova Era”, né?

 

P/1 - Certo.

 

R - A Memória de Nova Era que a própria comunidade não sabe por que Nova Era, o que é que era Nova Era antes, há 40 anos atrás, que era um grande laranjal, que Nova Iguaçu é a cidade da laranja e que lá passava D. Pedro II que ia lá na fazendo do Dom não sei o que, então tudo isso foi levantado pelos alunos. E em 2002 para 2003,  eles ficaram um ano fazendo um projeto de memória e Nova Era e resgataram fotos antigas do bairro. E fizeram todo um apanhado de informações, depoimentos de pessoas da comunidade, fizeram um pequeno jornal e, tem hoje, o conteúdo dentro do computador da história do que foi Nova Era. O porquê do nome, quem doou aquelas terras na região. E esse ano, a proposta com as turmas que estão entrando novas agora, que entra agora de novembro vai até janeiro - mesmo chegando as férias de Natal -, a gente dá uma paradinha. É contar a história diferente, é contar a história do Cisane.

 

P/1 - Do Cisane?

 

R - Como o Cisane veio para cá, o quê é Cisane? A história do movimento social, né?

 

P/1 - Certo.

 

R - E descobrir o movimento social da própria comunidade de Nova Era, dando continuidade no projeto de Memória de Nova Era.

 

P/1 - Já que você tocou no tema, o quê é o Cisane? Explica rapidinho para a gente o quê é?

 

R - Cisane... É o Cisane, na verdade é um girassol. O símbolo do Cisane é um girassol, a semente do girassol é ______________________

 

P/1 - O quê é que significa a sigla, desculpa, antes?

 

R - É Cisane, Centro de Integração Social Amigos de Nova Era, o Cisane, no caso, né? Centro de Integração Social Amigos de Nova Era. São os amigos, como o Zuenir Ventura, o MV Bill, o Júnior do Afroreggae e outras pessoas mais que contribuíram para constituir essa instituição como forma de assinar o documento, que são os diretores dessa instituição, né?

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - Que são pessoas de nome, pessoas conhecidas na mídia, pessoas conhecidas na área dos projetos sociais que você tem que mandar.

 

P/1 - Tá.

 

R - E aí, para que essa instituição tivesse uma referência, então essa diretoria é uma diretoria representativa e lá existe um colegiado. Então, os coordenadores da própria comunidade, aí, quer dizer, o Cisane é, eles são os amigos de Nova Era. 

 

P/1 - Perfeito.

 

R - E a logomarca do Cisane tem um girassol. Tem um “O” e o “I”, tem uma flor que é um girassol. A semente do girassol onde você joga ela nasce, não é? E tem uma história, mais ou menos, que o Cisane mesmo, onde não tinha lá a terra lá adubada, a coisa toda, a gente cresceu debaixo de espinho, de sol, de tempestade, de chuvas, mas o Cisane está lá e vivo!

 

P/1 - Ele atua em que área? ________ projetos _________________

 

R - A missão do Cisane, nós temos na missão trabalhar a questão dos direitos humanos em todos os sentidos. Aí, direitos humanos, educação, saúde, cultura e lazer. 

 

P/1 - E como está isso na comunidade?

 

R - A gente _______

 

P/1 - Em Nova Era? 

 

R - Hoje a referência já ______________

 

P/1 - Explica um pouco a situação de Nova Era?

 

R - Nova Era hoje, ela está localizada em uma acesso à Estrada de Madureira, que a antiga Estrada de Madeira que hoje é a Avenida Augusto Távora, onde tem a Serra de Madureira, tem a Faculdade da UNIG [Universidade Iguaçu], essa é a referência. E Nova Era está, tem circunvizinhas, outras oito comunidades: Jardim Palmares, Jardim Pernambuco, Ouro Preto, Ouro Fino, Mangueira, Palhada e Nova Era está no meio, então Nova Era, eu acho que é um pouco como sou eu, o ariano que é o início, que junta todos os signos e junta eles para poder carregar eles para poder transformar e tomar conta daqueles todos. Então, o Cisane, Nova Era está no meio de todas essas oito comunidade. Todas as outras comunidades hoje são o público alvo dessa instituição, porque, nessas oito comunidades, não tem trabalho nenhum comunitário. Não tem.

 

P/1 - Comunitário?

 

R - Não tem. Por incrível que pareça e eu fico triste com isso. Se tem uma associação que funcionou há 10 anos atrás, que tem um cara que é o presidente e guarda um documento. Quando aparece a política, como apareceu agora, ele é o presidente e faz a campanha para o cara e bota dinheiro no bolso, infelizmente.



P/1 - E em termos de serviço público? Como está ____________

 

R - Serviço Público. Nova Era ____________

 

P/1 - ...Tem hospital e tal?

 

R - … Tem um Posto de Saúde que funciona uma vez por semana ou duas vezes, isso quando o médico aparece por lá. O médico aparece à noite para atender.

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - Que é aquele médico, do projeto “Médico de Família”, então, não é um Posto de Saúde avançado, aquele posto de saúde com prevenção. É só o Posto de Saúde, não tem mais nada.

 

P/1 - Hospital, nada? Escola pública?

 

R - Nada. Aí para chegar ao hospital é o Hospital da Posse, Hospital de Nova Iguaçu, que é a oito quilômetros de distância pegando ônibus. Então, hoje a Cisane tem, além do projeto de informática através do CDI, tem a biblioteca comunitária, tem atendimento social com assistente social, psicóloga, tem o trabalho com a criança que é o projeto “Semente do Amanhã” e tem também o projeto de formação que é o projeto de DST sobre aids, que é o único que tem financiamento do pessoal do Ministério da Saúde e da Unesco [Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura], mas a referência todinha hoje na Cisane é a informática. As pessoas vão para lá por causa do curso de informática, por causa da internet que faz a pesquisa. Vai lá e pega seu extrato do trabalho, a conta de luz que perdeu, fazer, mandar currículo… E, na região, o foco nessa região lá, é interessante que a gente fez das comunidades do Rio, nas favelas. Os alunos, os órgãos de lá, como não têm referência nenhuma na área de lazer, eles se pegam muito e participam muito de estudo, se envolvem muito no estudo, então, a nossa sala de leitura nunca está parada e os computadores, estão sempre alguém pesquisando na área de fazer pesquisa escolar. O que não encontra no livro, encontra na internet, porque as pessoas de lá se envolvem muito nos estudos e eu acho isso um fato muito positivo, porque a gente tem um grupo de jovem muito grande que estão fazendo faculdade, estão fazendo Normal, estão fazendo a Faetec [Fundação de Apoio à Escola Técnica ] que é uma próxima lá. O pessoal das escolas técnicas. então, o foco  daquela região é só falta de informação, a dificuldade de informação e de serviço público que não tem e saneamento básico nenhum. É a única comunidade naquela região de oito que estão circunvizinhas à gente, em volta, todas elas foram asfaltadas. Nova Era até hoje não foi asfaltada, todas as ruas são de barro e quando chove, você não consegue nem passar. 

 

P/1 - E  questão de violência que você falou no início? Como que é?

 

R - Violência, então. É engraçado, porque as pessoas falam assim: "O Cisane veio para cá que veio uma semente do Afroreggae de Vigário Geral" e o narcotráfico na região lá em 1992, 1993 e 1994 quem tomava conta lá, era o pessoal que era da Favela de Vigário Geral e aí, quando teve aquela tomada da polícia de Vigário Geral, automaticamente o poder que eles tinham lá em Vigário Geral, acabou, sumiu. E lá em Nova Era, aqueles cara que estava lá, tomando conta também, era de Vigário Geral. Eles tinham implantado lá, sumiram. Aí entrou o Cisane em 1998, 1997 para 1998. Isso é engraçado, saiu o narcotráfico que era de Vigário Geral e entrou o Vigário Geral trazendo um trabalho comunitário bacana. As pessoas, algumas pessoas falam isso para mim, né? Então existe o Comando Vermelho, o Comando Preto, o Comando Azul, o Comando Todos, como tem em todo canto, né? Os comandos que eles falam, mas lá não tem o narcotráfico assim de venda da droga, tem um cara que fala que é o cara e tem que tomar conta, tem que ficar quietinho, não pode fazer bagunça, mas eles são mais de furto do que de venda de tóxico... Eu acho menos pior.

 

P/2 - É, fica uma característica diferente.

 

R - Porque você não vê nego fumando ou cheirando, mas sabe que há, têm pessoas que a gente tenta resgatar, já resgatamos dois.

 

P/1 - É, isso…

 

R - Graças a Deus já resgatamos dois. Eu acho que três, mas dois positivamente. Um que hoje está até estudando na primeira série. Ele fez o curso com a gente. Ele trabalhava em uma padaria ajudando o padeiro, mas de dia, ele ficava, ia fazer seus crimezinhos e ficava fumando nos cantinhos, escondido, nos terrenos abandonados, né? Que tem muito isso, terreno abandonado que o pessoal mura, mas o terreno fica abandonado, então o cara vai para lá para usar o tóxico dele. E a gente conseguimos recuperar esse garoto. Hoje ele está estudando na primeira série e trabalhando. 

 

P/1 - Certo.

 

R - Ele fez o curso com a gente. O outro, ele realmente fazia parte mesmo do tráfico. Saiu, fez o curso com a gente e foi trabalhar, mas infelizmente as marcas ficam. E, pouco tempo agora, até saiu no jornal uma chacina que teve lá em Nova Era, foram três mortos. E até uma criança, o pai, a mãe que morreu porque eles invadiram a casa, dizem que não foi a própria, dizem que foi a polícia, a gente não sabe qual essa história, mas infelizmente essa pessoa que já estava trabalhando, ele foi nesse meio, mas a gente consegue tirar um pouco da cabeça desses jovens essa coisa através das salas de informática, através da internet que eles têm acesso lá. Eles utiliza muito a Cisane hoje como foco e temos hoje uma parceria com a Cufa [Central Única das Favelas].

 

P/1 - Hum, hum.

 

P/2 - O que é que a internet oferece para um jovem assim, para tirá-lo desse _______?

 

R - O quê tira? É tipo assim, que como na região não tem opção nenhuma, a opção que eles têm é assim: "Pô, tá de bobeira? Vai lá para o Cisane." Eles ficam na internet, então quer dizer, é um atrativo que é uma coisa que eles não sabiam, não conheciam e é como fosse eles jogando bola. Quer dizer, mas jogando bola diferente. Eles vão à sala de bate-papo ou fica vendo os sites de jogos. Alguns vão lá ver site de jogador, as meninas vão ver sites dos cantores de pagode e alguns evangélicos vão lá pegar hinos de igreja. Então, cada um tem o seu foco, mas como na região não tem opção de lazer, o final de semana eles ficam assim: são 14, 10 jovens na porta de casa conversando, quer dizer, porque não têm nada para fazer. então o quê eles vão fazer? Eles vão lá para o Cisane. Se deixar o Cisane ficar 24 horas aberta, vai ter gente lá usando a internet. Só que a gente não dá para ficar 24 horas. [RISO], ontem mesmo, eu estava saindo do Cisane era sete horas da noite, aí as meninas foram lá, oito garotas e um rapaz, deviam ser as oito e uns três rapazes: "Podemos ficar na internet?" Eu falei assim: "Eu estou saindo, mas não têm condições, mas amanhã é o seguinte: chega aqui 6 horas eu vou deixar vocês de 6 às 10, direto." Que são, isso é interessante também, quem não tem dinheiro para pagar um real, fica. E aí são os voluntários do Cisane. Onde a gente fazemos mutirão uma vez ou outra, a gente convidamos todos os que são voluntários que fazem um mutirão com a gente de limpeza, fazem campanha nas porta, sobre prevenção, sobre DST, campanha sobre tabagismo. Eu estou com uns cartazes que eu peguei agora sobre tabagismo. Que dizer, que tem muitos que só ficam fumando. Fumam. Então é onde a gente diz assim: "Para de fumar, cara! Fumar fede." Entende? Tem até o cartaz que eu estou levando aí que eu falo isso com eles lá, que eu vi isso uma vez na Secretaria e peguei esse cartaz, né? Estão vários cartazes ali. Então, fora da lei é a mocinha e o bandido. O bandido é o cigarro. Quer dizer, então as meninas lá ficam: “Fumar para quê? então pára de fumar que você vai optar ________

 

P/1 - E como é o acesso à internet, por exemplo? Como você escolhe quem entra? Como faz a seleção?

 

R - A gente tem hoje um padrão de que assim, de fazer uma inscrição. Fazer uma inscrição de um cadastro. Um cadastro, você vai lá, faz um cadastro e uma ficha e aí você tem hoje os computadores, são 10. Que tem dez na sala de informática, interessante que tem dez computadores na sala de cima que é onde acontece o curso da EIC e agora nós conseguimos ganhar mais dez computadores doação do Banco do Brasil. E aí, nós separamos a internet de sala de informática para ficar os dez computadores só para o acesso à internet.

 

P/1 - Certo.

 

R - São, agora melhorou. Melhorou mais do que três meses atrás. E aí nós temos também algumas relações que você pode estar procurando: bibliotecas públicas, sites educativo. Também damos algumas dicas para poder também usar a internet de uma forma educativa e produtiva. Porque sala de bate-papo também existe uma sujeira total, entendeu? Então a gente tem que também, a gente está sempre, têm duas meninas e um rapaz que atua na EIC na sala de informática para ficar olhando. Paparazzo não, pornografia não, entendeu? Existe algumas regras, porque diz assim: você tem que saber estabelecer elas. Se não vai para lá, assim, sala de bate-papo até entre,mas tenham muito cuidado. Não troquem telefone, não dê telefone. Porque acontecia muito isso, a gente sem experiência e eles também sem experiência, até a gente compreender e ter essa maldade, hoje nós temos essa maldade. A menina que está lá, o outro que está lá dava o telefone, o orelhão, que o nosso telefone para economizar conta é o orelhão e o outro lá tem, porque a gente paga a tarifa da conta, a assinatura só para o fax. Ninguém toca nele, só recebe fax ou recebe a ligação, então, o orelhão tocava direto quando a gente estava no bate-papo. "Não, sou eu, não sei o que." Aí nós cortamos isso.

 

P/1 - [risos] 

 

R - Porque aí não dá. Nós estamos trabalhando: "Ô, eu queria falar com o Célio, queria falar com a Natália, queria falar com a Pâmela, queria falar com..." Espera aí gente, não tem... Aí eu descobri o negócio, né? "Não, porque eu conversei com ela aí." Aí eu, todos eles receberam uma cartinha dizendo que o próximo que, quem ficasse na internet use o seu celular, mas aí nós colocamos também um alerta, colocamos alguns exemplos e até fizemos uma representação lá, um dia de uma situação de abre carro, entra. Ô, vamos embora. Me conheceu. Entraram no apartamento, tem os quartos te esperando... Então, tome cuidado! A internet, ela é bacana, é legal para conhecer as pessoas, mas tome cuidado com  quem você está dando telefone, quem está conversando com você. Que o outro lado a pessoa conhece um santo, mas às vezes não é um santo. Porque esse é o cuidado que nós temos que ter com a internet, porque ela veio para ajudar; ela veio para destruir também, é uma questão de uma profecia, mas nada religioso. É uma profecia de que você tem que ter cuidado do que está acontecendo não é só na internet não, na porta de escola. Tem o cara que vai na porta da escola que é o cara bacana, que bate-papo com as menininhas e tem outro que vai para lá vender a droga, então, a internet é a mesma coisa…

 

P/2 - Que dificuldade você encontra nos alunos para aprender, no aprendizado da informática?

 

R - Muitas dificuldades. Assim, a dificuldade que mais dificulta, eu acho que é a questão, da questão mesmo do teclado, as letras. O pessoal é muito rápido, alguns são muito rápido para aprender e, outros,são muito lentos nesse aqui.

 

P/2 - No teclado?

 

R - A leitura, né, do que é que é abrir, salvar, imprimir documentos. O que é que é a configuração, é legal, mas a dificuldade de muitos deles é digitar. Aí, eu acho que a dificuldade maior deles, a maioria são assim. Eu mesmo, eu digito muito rápido, mas usando sempre dois dedos. Às vezes eu nem olho mais, já é uma prática. Então, o quê nós fizemos? Descolamos muitos teclados de doação, aí eu doei muitos para cada um deles: "Tome, leve para casa! Fique em casa, vai, vai, vai. Finge que está digitando até você configurar na sua memória, no seu dedinho onde estão as letras." 

 

P/2 - É, a posição.

 

R - Uma técnica, né? Mas eu acho que o trabalho está legal, está bacana. Nós temos algumas deficiências, nada é perfeito. Que é a questão mesmo com o educador, a gente capacita o educador. Durante, a gente está lá há um tempo, durante três anos capacita educador. Quem faz a metodologia faz a capacitação, mas esse educador não é interno. Não vai ser sempre presente. Ele vai aprender, ele vai ter vontades, os sonhos e ali também, dentro da instituição, infelizmente, isso é uma verdade em todas as instituições, a gente não tem vínculos empregatícios. A gente não tem como pagar os encargos sociais. E aí esse jovem que tem 16 anos, ele entra com 16 anos, fica 16, 17 e 18. Ou ele entra com 17. 17, 18, 19 ou ele vai para o quartel ou ele entra com 20, 21, 22, 23 daqui a pouco ele está aprendendo, aprendendo, aprendendo... ele vai procurar o melhor. Não que não seja melhor ele como educador nosso, mas ele vai querer a carteira dele assinada. Eu acho que é justo, ele vai procurar outro emprego e esse outro emprego já não vai dar aquele tempo mais dele estar aqui com a gente, então,  às vezes a gente fica triste quando passa um e tem que ir embora, né? Porque, infelizmente, eu acho que nós estamos fazendo a formação mesmo, estamos capacitando eles para que eles vão para o mercado do trabalho. O que está acontecendo com o nosso educador agora como aconteceu com uma outra menina e já aconteceu com uma outra, mas capacitado pelo CDI. Esse agora, em novembro agora, eu acho que ele está indo embora. Está com a gente já há quatro anos, então, quer dizer, dois anos, três anos já com o CDI e o outro ano com a gente. Independente, antes da escola de informática ir para lá e isso é uma coisa assim, que eu acho que nós temos que falar para o CDI. Realmente, a metodologia do CDI é bacana, é legal, é superbacana, mas eu acho que nós tinha que ter essa metodologia também, ela sendo aplicada dentro de uma forma lá na região, né? Assim, eu para mandar uma pessoa fazer o curso aqui, por exemplo, eu gasto 20 reais. São dois dias por semana. Quer dizer, e a pessoa vem como voluntária para fazer a primeira formação, ou a segunda, fazer o curso. Você já tem que gastar dinheiro, né? Então assim, eu acho que quem mora aqui no Rio de Janeiro, maravilhoso! Mas quem mora na Baixada como a gente está lá, são 12 EIC lá, até a gente tem que achar uma forma de que a capacitação dos futuros educadores tem que ser na região porque a passagem vai ser R$1,50 e que a gente… e o número de vagas são mínimas, quer dizer, você não pode capacitar um. Você tem que capacitar, no mínimo lá da sua instituição, quatro. Porque aí você vai ter os quatro que foram, fizeram a formação de educador, mas fora isso, eu acho que são, têm falhas em sentido que a configuração, às vezes, são lentas, outras são fortes, outras são mais rápidas. Aí para, demora para demandar, mas chega depois. Isso são processo que a gente vai aprendendo, vai conseguindo outros parceiros para tentar doar uma memória, porque isso a gente não pode contar só com o CDI e muita gente inclusive, acha que tudo é o CDI. Não, não é só o CDI, o CDI é a ponta, é a contrapartida. Você tem que ser a contrapartida maior que o CDI, que o dobro, que você queira mudar e melhorar as máquinas, porque senão você vai depender sempre do CDI, vai ficar para trás, porque o CDI tem todas as outras escolas também para estar contribuindo. Não é só você, né?

 

P/1 - E, Edílson, o quê é que você achou da iniciativa do CDI de pegar a memória da instituição? 

 

R - Olha, é, eu acho que tudo que vai contar uma história, que vai incentivar daqui a 50 anos ou daqui a 30 anos alguém que não vai deixar que essa memória se apague. E isso seja uma referência de estudo para alunos de faculdade, né? Que eles fazem aí, suas... é, tem um nome…

 

P/2 - Tese.

 

R - As teses, né? Que essa metodologia seja teses de alunos na área de informática, de faculdade, de Direito, de Letras e de que forma você está colocando a letra dentro da cabeça do jovem através da informática, como é que essa metodologia, a pedagogia, né? Alunos de Pedagogia entender um pouco esse processo. E isso vai para as salas de aula, não usando só o computador, mas a escrita. Que possa dar continuidade na informática, eu acho que essa memória tinha que ter sido escrita já há muito tempo. Já se passou dez anos para contar a história, né? Quer dizer, eu acho que está, já é o momento.

 

P/1 - Perfeito. 

 

R - Um filho esperou dez anos para o filho ser registrado. Um filho tem que ser registrado.  Você vai pagar multa, né? então você tem que estar ___________

 

P/2 - [risos]

 

R - … O primeiro ano você já tem que começar a contar a história. Como eu comecei a minha há 25 anos atrás, 26 anos atrás eu comecei a escrever alguma coisa. Eu tenho uma história de, eu acho gostoso isso, essa coisa de escrever.

 

P/1 - Escrever?

 

R - As pessoas que trabalham comigo às vezes fica louco comigo: "Edílson, para de falar, senão a gente não consegue trabalhar." Quer dizer: "Calma, já entendi o que você quer." Quando vai fazer um projeto, eu começo falar, falar, falar e o que é que a gente podia fazer e elas vão anotando tudinho. Aí, surge um projeto, né?

 

P/1 - Certo.

 

R - Que isso é legal. Eu acho que tudo na nossa vida tem que escrever. Desde o nascimento do seu primeiro filho até o segundo, terceiro… para que, quando ele estiver com 30 anos, sendo filho da minha mãe, eu saber qual foi o meu percurso de vida. Acho que isso tinha que ser uma lei de natureza. Acho que foi, é bacana. Eu acho que o CDI tem mais é que fazer mesmo. E eu quero futuramente ver esse livro aí.

 

P/1 - Perfeito. Claro!

 

P/2 - Tá certo. Obrigada, viu?

 

R - Independente que eu tenha algum depoimento ou não, mas que é uma história de uma instituição que eu admiro e gosto e porque, através dessa instituição, fiz essas pessoas acreditar em uma coisa que as pessoas tinha dúvida: o meu trabalho. Que não é usar as pessoas e usar a pobreza, a miséria, a inclusão social, seja qual for para se favorecer, entendeu? Se eu não tenho um copo de leite e uma fruta para dar para as crianças, para fazer a escolinha de futebol, eu não faço. Até hoje não fiz escolinha de futebol lá. As pessoas: "Ah, vamos fazer escolinha de futebol." Quem dá financiamento para esse projeto? A gente sempre manda projeto para pedir financiamento na área esportiva, mas não aparece financiamento. Então, se eu não tenho um copo de leite e uma fruta para dar para uma criança eu não vou botar a criança para correr no campo porque eu acho injusto isso.

 

P/1 - Certo.

 

R - Eu vou o nome, as crianças está lá fazendo escolinha de futebol. E essas crianças está desnutrida, sem uma alimentação? Então isso não é correto. Eu acho que a informática __________________

 

P/1 - Perfeito.

 

P/2 - Foi muito bom o seu depoimento.

 

R - … É a mesma coisa. Eu acho que se o CDI te dá a oportunidade, te dá os computadores.Você tem que estar junto com eles, mostrando que você tem que complementar o que eles te deram e melhorar a máquina, né? Para que ela seja cada vez melhor. É isso. Tá bom?

 

P/1 - Obrigado Edílson, a gente agradece em nome...

 

P/2 - Muito obrigada, viu.

 

P/1 - … do Museu da Pessoa e do CDI, muito obrigado!

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+