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História

Sem o chão, se voa

História de: Juliana Caldas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/01/2021

Sinopse

Paulistana. Portadora de nanismo. Separação dos pais. Morte precoce da mãe e da avó. Apoio dos amigos. Superação das dificuldades e autonomia. Teatro e trabalhos como atriz. Teste e realização de novela pela Rede Globo de televisão. Espetáculos. Pandemia covid-19. Autoestima, autoconfiança e empoderamento.

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História completa

P/2 – Olá, Juliana!

P/1 – Oi, Juliana!

R – Oi!

P/1 – Prazer, eu sou a Rosana, do Museu da Pessoa. Tudo bom?

R – Prazer! Tudo.

P/2 – Oi, Juliana! Eu sou Régis, tudo bom?

R – Oi, tudo.

P/2 – Agora é com a Rosana. Ela vai fazer a entrevista contigo, eu vou ficar aqui só gravando, se eu sentir que tem algum problema técnico de áudio ou de vídeo, eu falo com vocês pra gente refazer alguma parte, pra gente não perder nada, tá bom?

R/1 – Ok.

P/1 – Então boa noite, Juliana. Super obrigada por ter aceitado o nosso convite. É uma honra esse projeto – que eu falei que é uma parceria do Museu da Pessoa com a Trip, pra Casa TPM, para o acervo do Museu da Pessoa –, e você foi uma unanimidade quando a gente estava levantando nome de mulheres bacanas, porretas. E é isso, é o que eu te contei, a entrevista vai ter essa dinâmica. A hora que você quiser dar um tempo, você dá um toque pra gente parar pra tomar uma água, ir ao banheiro, se quiser dar um tempinho... Vai ser um prazer. Vamos lá, querida? Ju, eu vou começar da maneira mais tradicional possível. Você pode falar seu nome, local e data de nascimento?

R – Posso. Olá! Eu me chamo Juliana Caldas, sou de São Paulo, capital, e nasci no dia dezesseis de março de 1987.

P/1 – Juliana, seus pais são de São Paulo? Seu pai e a sua mãe?

R – Minha mãe [é] de São Paulo. Meu pai, se eu não me engano, nasceu em Mato Grosso.

P/1 – E você conhece um pouco, assim, a história? Como é o nome do seu pai e da sua mãe?

R – O nome da minha mãe é Miriam, e o nome do meu pai é João.

P/1 – Você conhece a história da família da sua mãe? Seus avós?

R– Sinceramente, muito pouco. Como eu não esperava por isso... Talvez eu pudesse ter pesquisado mais.

P/1 – Não tem problema. É o que você sabe.

R– Eu não imaginava, mas tanto a minha avó, a mãe da minha mãe, como o pai da minha mãe, os dois são italianos. Eram italianos. Aí eu tive mais contato com a família do meu avô, a minha bisavó, a minha... Chama tia-avó, avó-tia... Como é que chama? Enfim, a irmã da minha bisavó. Eu ainda tenho contato com eles, da parte do meu avô. Meu avô já é falecido, e a minha vó e a minha bisavó também. Mas ainda existe, tem as pessoas da família do meu avô que estão vivos, enfim, e que eu ainda tenho contato.

P/1 – De que parte do Brasil eles são? São de São Paulo também, de alguma outra região, vieram de fora?

R – Não, todos de São Paulo.

P/1 – A família inteira, até os mais antigos?

R – Até onde eu conheço da árvore da família, a maioria – desde quando, acho, eu era criança, que eu tenho noção – estava em São Paulo. Mas, como eu disse, a minha bisavó veio da Itália e tudo.         

P/1 – A sua bisavó veio da Itália. Você sabe alguma história dela ter vindo, da imigração?

R – Não. Não sei porque, na época, quando eu ainda tinha um contato com a minha bisavó, eu era muito criança. Então eu nem faço ideia. E logo mesmo... Depois meu avô, por exemplo, morreu antes da minha bisavó, então nem fiquei sabendo. E depois, também, logo em seguida... Eu era criança, adolescente, e nunca também parei pra pesquisar ou perguntar. Enfim. E logo depois, também, com dezesseis, dezessete anos, eu perdi a minha avó e a minha mãe, sabe? Então foi muito rápido. E eu acho que quando a gente começa a ter uma noção, às vezes, de perguntar tudo... Enfim, não deu tempo pra mim. E qualquer outro trabalho que a gente fez, às vezes, de escola, também, eu confesso que eu nem lembro (risos).

P/1 – E por parte do seu pai, Juliana?

R – Então, a parte do meu pai, o que eu sei, assim, a maioria é de, se não me engano, Mato Grosso, acho que Mato Grosso do Sul. Eles eram, se eu não me engano, pela história toda que eu sei, em dezoito irmãos. Só que eu não conheci. Acho que eu não conheci nem a metade disso, porque, na época, também, quando eu tive noção, eram pouquíssimas pessoas já na família, de tios. Tive contato com a minha avó também, só que ela também morreu, e eu era muito criança ainda. 

P/1 – Juliana, você sabe como seu pai e sua mãe se conheceram?

R – ‘Cara’, eu sei que, assim, foi meio que do nada. Eu lembro que até um tempo... Na época eu perguntava pra minha mãe, e ela falava que foi meio que do nada, assim. Eles se conheceram e automaticamente meio que se apaixonaram. Foi muito rápido, pelo que eu sei da história. Eu lembro de perguntar pra ela: “Mas por quê?”, porque a gente tinha essa noção da questão do nanismo. Minha mãe não tinha nanismo, era de uma estrutura, altura normal. Normal, né? Mais mediana. E às vezes a gente perguntava: “Mas por quê? O que chamou atenção? Como foi?” E minha mãe dizia que era a pessoa, mesmo, que encantou, chamou a atenção dela, e o resto, pra ela, não importava. Não importou, né?

P/1 – E aí eles logo se casaram e foram morar onde? Você nasceu logo depois? Como é que foi a história dos filhos?

R – Então! Caraca, se eu soubesse, eu até ia dar uma perguntada...

P/1 – Não, querida, não faz mal. Vai contando o que você lembra.

R – O que eu lembro é assim: eles logo casaram, mas não chegaram a casar em igreja, nada disso. Eles casaram e eu não sei quanto tempo depois veio a gravidez do meu irmão. Eles tiveram o meu irmão e aí, dois anos depois, veio a minha gravidez... Veio eu (risos), eu vim à vida.

P/1 – Você lembra da casa onde vocês moravam?

R – Então, eu lembro de pouquíssimos flashes, mas a gente já morava em São Paulo. A gente morava... Eu lembro dessa cena porque acho que foi uma cena mais... na região da [rua] Sócrates. Como se chama? Perto da [avenida]       Washington Luís, por ali. Chácara Flora, por ali. E nessa época a gente morava em uma casa, minha avó morava, tipo, a uns quarteirões – a mãe da minha mãe –, mais vizinhos, em um condomínio. Nessa época eu acredito que eu tinha uns quatro, cinco anos, por aí. A gente morava numa casa e, nessa época, a gente tinha... A gente chamava de ‘cozinha’, que era um estabelecimento que eles faziam frios. Salgadinhos, na verdade. Coxinha, empada, pra vender pra festa, essas coisas. Então eu ficava muito nessa cozinha, nessa casa, fazendo, até ajudando a fazer, enrolar as coisas na farinha, tudo, e eu lembro disso. Lembro que logo depois a gente mudou para uma casa que é anterior a essa que eu moro hoje, que também é na região, aqui perto, de Interlagos – eu moro em Interlagos –, onde eu fiquei até os meus sete, oito anos. Aí foi quando eu vim pra cá. E aí, nessa casa, eu estou desde os meus sete, oito anos.

P/1 – Qual a diferença de idade para o seu irmão?    

R – Dois anos. Eu tenho 33 e ele está com 35.

P/1 – E como é que era na sua casa, as brincadeiras? Você e seu irmão brincavam? Você tinha brincadeiras com outras crianças da rua?

R – Então, eu acho que antes de a gente vir pra cá, quando a gente estava, nessa época ainda de sete, oito anos, eu lembro que eu e meu irmão sempre fomos unidos. Não tenho muita memória dessa época, de a gente brincar e tudo. Eu tenho mais [memórias] dessa casa que eu moro ainda, que a gente brincava muito, sim, juntos, só que ao mesmo tempo a gente brigava demais. Era surreal, assim. A gente brigava mesmo, de sair na porrada (risos). É surreal, se parar para pensar hoje. Mas a gente brincou sempre muito unidos e, na minha rua, aqui, naquela época, não tinha tantas meninas, eram mais meninos, e aí a gente brincava, assim. Eu mesma brincava com os meninos, jogava bola, jogava taco, andava de patins, carrinho de rolimã, com os meninos. Tudo, fazia tudo. Mas dentro de casa, muitas vezes, a gente saía na porrada.

P/1 – Seu irmão tem nanismo também?

R – Tem. Eu, meu irmão e meu pai temos.

P/1 – E como era na sua casa, a relação com o seu pai e sua mãe? Quem exercia mais o comando? A guarda era compartilhada? Como era essa dinâmica familiar?

R – Então, a minha mãe se separou do meu pai eu acredito que a gente deveria ter – eu – uns nove anos. E desde aí a gente morava com a minha mãe e com a minha avó, a mãe dela. Depois meu pai [se] mudou, só que a gente se via sempre, todo final de semana ele estava aqui. Não entrou na Justiça, a minha mãe não chegou a entrar na Justiça, nem mesmo para pedir pensão ou para fazer essa guarda compartilhada. Então era uma questão de conversa. Mas, antes deles se separarem, (risos) quem mandava era minha mãe (risos). Quem mandava em tudo era minha mãe.

P/1 – E você sabe por que eles se separaram?      

R – Eles começaram a brigar muito. Muito. Eram discussões... O que a gente via, assim, chegava só a discussões. Nunca vi nada de agressão, nada disso. Só que desse ponto mesmo só de discussão, eu lembro que quando minha mãe veio conversar com a gente, a gente também achava até melhor, falava: “Melhor do que a gente viver... Ficar vendo essas brigas”, porque pra gente não fazia bem também. Então pra gente também era melhor eles estarem separados e conviverem legal, do que ficarem juntos e brigando sempre. Eles terminaram por brigas, mesmo, porque já não batiam mais as ideias, enfim. Foi por isso.

P/1 – Juliana, o que seu pai fazia, de trabalho? E sua mãe?

R – Meu pai trabalhava com animação de festa, teatro... Ele era ator também, trabalhava nessa área, e trabalhou por muitos anos também no programa da Angélica, que tinha, na época, no SBT, A Casa da Angélica. Ele trabalhou lá por muito tempo. Minha mãe se formou como psicóloga, mas nunca exerceu a profissão, mas sempre, desde quando eu tenho noção da pessoa da minha mãe, ela trabalhava com clínica veterinária. Ela trabalhou em pet shop por muitos anos e aí, chegando até o último tempo dela de vida, ela era auxiliar de veterinária.     

P/1 – O que o seu pai fazia no programa da Angélica? Você o acompanhava, o via pela televisão?

R – Meu pai fazia... A gente chama como ‘boneco’. Se fantasiava de boneco, tudo, e ele era o boneco do programa na época que ela tinha um programa infantil, tudo. Eu, por muitas vezes, já fui ao programa. Como era infantil... Se eu não me engano – eu não lembro exatamente – eu lembro que era final de semana, ou sábado... Não lembro se era sábado e domingo ou se eram só sábado, as gravações, mas eu lembro de muitas gravações do programa. Aproveitava e ia. Na época também eu lembro que a Angélica começou... O programa começou a inventar brinquedos, e aí eu e meu irmão éramos meio que um test drive dos brinquedos. Eles davam os brinquedos pra gente – a produção –, e eu e meu irmão ficávamos brincando; depois, eles perguntavam: “E aí, é legal? O que vocês acharam? Funciona? É difícil?” Sei lá, eles perguntavam tudo, e a gente sempre: “É legal, pode mandar mais”. (risos) Tipo assim, sabe? Mas meu pai fazia isso: boneco, festa infantil fantasiado de boneco. Na época fazia evento também, não só de boneco, mas festa infantil, essas coisas.

P/1 – Juliana, e com quantos anos você entrou na escola?

R – Com sete. Então, pré [escola], aquelas coisas. Primeiro ano, sete anos.     

P/1 – E a escola era perto da sua casa? Como é que você ia pra escola?

R – Então, na época, a nossa outra casa, antes dessa, sim, era perto da escola, então por muitas vezes a gente ia andando. As mães... Eu lembro que eu tinha duas amigas que moravam super perto da minha casa, então as mães revezavam, né? Quem levava, a outra ia buscar, ou, às vezes, se podia, alguém... Por exemplo, a mãe não ia poder pegar: “Pega pra mim, depois eu passo...”. Ficavam revezando, as mães. Então a gente ia e voltava andando, sempre. E, nessa escola, eu fiquei até a oitava série. Porque hoje mudou tudo, mas na minha época ainda era até a oitava série, que era municipal, e aí, depois, automaticamente, a escola passava para uma outra estadual, que era também no mesmo bairro. Eu fiquei lá e mudei para a escola aqui, perto da minha casa, no segundo grau, porque daí, também, eu já estava trabalhando, aí eu estudava à noite e era mais fácil, porque eu conseguia passar em casa, me trocar ou comer alguma coisa e ir pra escola, andando. Mas depois chegou um tempo também, na escola municipal, que eu cheguei a ir de ônibus, sozinha, eu e meu irmão, sozinhos, com, sei lá, onze, doze anos. Nessa época eu já morava aqui onde eu moro, então a gente ia e voltava de ônibus, tranquilos. Eu comecei a andar de ônibus, eu acho, que com meus sete anos. E sozinha, a partir dos dez, onze anos. Tranquilo. Depois, quando meu irmão saiu da escola – ele é dois anos mais velho –, eu cheguei a entrar numa perua escolar. Até mesmo porque estava meio que na moda todo mundo entrar na perua escolar, e os amiguinhos estavam todos na perua escolar. Eu falei: “Eu quero também”, e acabei entrando, a minha mãe colocou na perua escolar. Enfim, aí eu fui até a oitava série na perua escolar.

P/1 – Juliana, na sua casa tinha algum tipo de adaptação para vocês, assim: tamanhos adaptados de cozinha e banheiro?

R – Nunca teve. Sei lá, acho que desde quando eu sei, que eu nasci, nunca teve adaptação. É óbvio que sim, bem pequena, minha mãe ou alguém sempre ajudava, fazia tudo, mas eu lembro que nessa casa que eu vivo hoje, quando a gente começa... Por mais que eu tivesse onze ou doze anos, a minha altura era totalmente diferente do normal, das crianças com onze, doze anos. Então, às vezes, mesmo assim eu não alcançava algumas coisas, e minha mãe falava: “Se vira”. Então, abrir o chuveiro hoje é tranquilo, normal, só nem levantar tanto o braço, mas eu levanto e abro. Mas antes, ‘meu’, era no chinelo. E vai até tentar virar, entendeu? Ou senão com a mangueirinha do chuveiro. Sabe, assim, você vai fazendo isso? Era nisso ou, realmente: “Não dá”, aí pedia ajuda. Mas fora isso, se vira. O meu guarda-roupa... Na época eu dividia o quarto com a minha avó, então o guarda-roupa todo, até mesmo por ela já ser mais velha, tudo, e por ter a coisa da roupa de cama, tal, o meu guarda-roupa era uma porta só, e tinha gaveta e só um espacinho de cabide. Então, o que eu fazia? As vezes que eu tinha que pegar uma roupa no cabide, fazia a gavetinha de escada, sabe? Aí subia, pegava, tudo. Fui parar, já, no hospital, por causa disso. Caí da escada, já, de tentar fazer as coisas e cair. E tudo bem. Mas nunca foi adaptado, porque a minha mãe falava assim: “Eu não vou facilitar a casa, tal, não sei o que, porque o mundo não é adaptado. Você vai ter que se virar”. Por muitas vezes, também, subir no ônibus é complicadíssimo. Até hoje. Uma porque às vezes o ‘cara’ para no meio do buraco, entendeu? O negócio, o primeiro piso da escadinha do ônibus já é muito distante do chão, normal, o ‘cara’ me para longe e, no meio, tem um buraco. Aí você fala: “Por favor, você pode vir um pouco mais pra frente? Ou um pouco mais perto da calçada? Eu não consigo subir”. Ou você vai na questão: “Você pode me ajudar?” Sempre foi assim. E aqui em casa minha mãe falava isso: “Não vou mudar, facilitar as coisas, porque no mundo não vai ser assim e você vai ter que se virar, então aprenda já, desde aqui, a se virar”. E, nossa, eu vejo que foi muito bom nessa questão: “Se vira”. Hoje em dia, morando só eu e meu irmão, eu troco chuveiro, a resistência. É que eu dei uma reformada na minha casa, mas antes... Eu não alcanço o teto e a luz, a luminária ficava bem rente ao teto. Então, se queimava a lâmpada, eu ia ter que pedir pra alguém. Hoje, como eu dei uma reformada, eu troquei uma ou outra coisa, eu pus aqueles spots que têm cabinho, que você consegue regular, beleza, sabe? E nisso a gente vai aprendendo. Eu já caí dentro da máquina de lavar roupa, sozinha. (risos)

P/1 – Como você caiu na máquina de lavar roupa?    

R – (risos) Lembra aquela máquina Brastemp azul? Antiga, tudo. Aquela máquina, eu não lembro quantos quilos que ela tinha, o tamanho, tudo, mas ela era grande e funda. Então, até hoje a minha máquina, por ser menor, tudo, mesmo assim eu preciso de um banquinho, de uma cadeira, pra alcançar lá dentro. Mas não chega a ser como naquela época. E eu já [tinha] dezenove anos, por aí. Aí eu, no banquinho, encostei aqui, sabe? Fui pela barriga, assim. E fui pegando, pegando, e beleza, pego e ponho num outro balde. ‘Meu’, tinha uma roupa que estava lá no fundo, e eu fui pelo equilíbrio, eu fui ficando assim. Só que eu fui perdendo o equilíbrio e fui para dentro. Eu fui de cara para dentro! Passou do meu abdômen, da minha cintura, e eu não tinha como voltar para trás, eu fiquei com as pernas para cima. (risos)  A minha sorte nesse dia foi que minha tia estava aqui, a cunhada da minha mãe, eu comecei a gritar e ela me ajudou a sair. Mas são esses tipos de coisas que acontecem, que, por um lado, sei lá, me fazem aprender uma coisa, como fazer ou como: “Gente, isso é um perigo de vida, melhor não tentar novamente”. E a gente vai também fazendo – sei lá, nesse tipo de coisas que aparece na vida – lá fora. E vai vivendo.   

P/1 – Juliana, fala uma coisa: quando que você se deu conta que a sua estatura era diferente dos amigos da sua classe, das crianças da rua? Quando você teve essa dimensão?

R/1 – Cara, eu acredito que entre a terceira e a quarta série, a partir daí eu já tinha essa noção, que eu era menor e até mesmo por ter o meu pai como referência, eu sabia que era diferente. Eu sabia que eu tinha o nanismo, tudo. Não tinha, óbvio, a noção do que era, perfeito, o que era realmente o nanismo, tal, não sei o que, ‘bababababa’, detalhes, mas sabia que já era diferente nesse sentido. Acredito que a partir dos meus dez, onze anos, que eu fui, realmente, não sei, me tocar o que realmente era o nanismo. Eu acredito que eu já deveria saber de tudo isso, mas essa noção... Até mesmo porque minha mãe sempre falou que todo mundo era diferente, então, pra mim, isso não era diferente, sabe? Como existem pessoas até de um metro e cinquenta a um e oitenta, a dois metros, isso é diferente também; um é diferente do outro, e eu era de um metro e vinte, um metro e vinte e dois, sei lá, um metro e dez naquela época, enfim. Então, para mim, estava tudo bem. Eu era diferente, isso eu sabia, como também os meus amigos eram diferentes uns dos outros. Agora, a questão do nanismo, eu acho que foi tão natural! Eu não sei te falar exatamente a idade, a época, mas eu acredito que o choque dessa questão do nanismo veio na adolescência, a partir dos meus treze, quinze anos, pra frente, sabe, que as coisas vão mudando, mesmo. As pessoas... A cabeça ia mudando, tinha muito essa questão. A gente também, na escola, não é que fomos protegidos, mas eu e meu irmão nunca tivemos problema com ninguém, também, desde a escola, do pré, até a oitava série, a gente conhecia todo mundo. Então pra gente era super natural, normal, tudo. Mas a gente sabia, já via essa questão do olhar, da pessoa apontar e rir. Mas a gente levava assim: “E aí que está rindo?”, sabe? Chegava meio que – óbvio – a machucar a gente quando, às vezes, ofendia de graça, vinha com uma ofensa, assim, do nada. E às vezes pra gente era tão: “Mas por que está me ofendendo? Eu não fiz nada”. Isso, pra gente, que às vezes machucava mais, sabe? A minha mãe falava: “Aprende a viver. Sei lá, se alguém te xingar e você quiser xingar, xinga”. Eu acho que não seria o modo de ensinamento hoje em dia, mas acho que o modo que ela ensinou naquela época foi pra gente realmente sobreviver a esse mundo de ataques, desde aquela época, de risadas, de ofensas, de preconceito. Ela falava pra reagir se eu tivesse a vontade de reagir: “Aprenda a se defender”. Ela meio que falava assim: “Olha, se você, um dia, arrumar uma briga e apanhar na escola, eu vou querer saber por que você apanhou; e se você apanhar por uma coisa ridícula, idiota, você vai apanhar duas vezes aqui em casa, porque você não soube se defender”. Tipo assim, sabe? Mas ela ensinava, antes de chegar nesse ponto, eu lembro que minha mãe me ensinava muito a brigar com palavras: “Saiba se defender com palavras, porque, se você usar a palavra certa, você derruba a pessoa, deixa a pessoa sem fala, sem reação. É melhor do que, óbvio, chegar a uma agressão, essas coisas”. Então ela ensinava a gente nesse ponto: “Saiba se defender usando palavras, questione, não aceite qualquer coisa. Então, tenha essas questões dentro de você, pra você rebater”. E pra gente, enfim, eu e meu irmão, a gente nunca brigou na escola, nunca tivemos nenhum problema nesse ponto. Às vezes... Teve uma ou outra coisinha comigo, que nem chegou para mim, os meus amigos me defenderam, que nem eu fiquei sabendo. Nem chegou a chegar em mim o que aconteceu, eu não estava nem sabendo: “Foi culpa da Juliana?” “O que aconteceu? Eu nem sei, não foi a minha culpa”. E assim: “Gente, o que está acontecendo?” Aí me explicaram: “Porque te ofenderam, falaram não sei o que e fulana” – que era minha amiga – “te defendeu e foi para a diretoria”. Eu falava:  “Gente, tá bom”. Não tinha o que fazer. Mas nesse caso a gente tinha muito na cabeça essa questão da diferença, que, pra mim, todos são diferentes. Então, não tem por que você julgar, questionar, apontar, sendo que todos são diferentes. Uma outra coisa que eu lembro que a minha mãe meio que me ensinou também, que eu usei por alguns anos – mas hoje em dia realmente eu não uso e nem ensinaria a usar –, é rebater ao contrário, sabe? Tipo: estão rindo de mim porque eu sou pequena. “Não, então faz o seguinte...”,  vou te usar como exemplo. Você que usa óculos, aí tinha aquela questão dos ‘quatro olhos’, não sei o que: “E você, que é quatro olhos?” Sabe quando você joga pro outro faz o outro se sentir envergonhado? Aí a pessoa para, não mexe mais com você. Hoje eu não acho que isso seja certo e não faria, não faço isso. Mas também foi uma forma de eu me defender, na época, meio que desses ataques, desse ‘bullying’, que a gente chama hoje em dia. Mas, pra mim, quando pegou mesmo foi a questão: se todos somos diferentes, por que, às vezes – isso já na adolescência –, o cara que eu gosto – que naquela época era gostar, não era nem ‘estou a fim’, era gostar mesmo – não quer ficar comigo? Porque a primeira coisa que vinha na minha cabeça: porque eu sou pequena. E a minha mãe ficava assim: “Você nunca parou pra pensar que às vezes não é isso? Às vezes é porque ele gosta de loira e você é morena. Às vezes porque, sei lá, gosta de negra e você é branca. Não porque você é pequena, não. E às vezes, realmente, ele te vê como amiga e não como pessoa que ele goste, mas ele gosta de você como amiga. Isso não significa que é porque é anã, sabe?” Então na minha adolescência isso deu uma pesada, sim. Tipo, pra mim, era muito difícil não conseguir entender como as pessoas não entendiam o diferente, sabe? Isso, para mim, era o que mais me pegava. Mas eu sempre tive uma boa relação com essa questão do nanismo na minha vida. Eu me lembro que, acho que meio... Da criança crescendo, da criança para o ‘aborrecente’, essas coisas, na época a gente escutou muito também... Porque começou a ter [a questão] dos hormônios, que começaram a aparecer, e a questão da cirurgia dos ossos, do crescimento dos ossos. E aí eu questionei. Questionei! Meio que rondei a minha mãe com essa questão, como seria isso. Queria saber como funcionava. E ela me perguntou: “Por quê? Você quer crescer?” Eu acredito que a gente tenha, sempre, quando criança, esses questionamentos, eles vêm. Não tem como falar que não tem. Eles vêm, sabe? Eu acho que tudo depende de como os pais vão educar ou ensinar a criança a aprender a se amar do jeito que ela é. Mas essa questão, acredito, de se perguntar por que eu vim assim, por que não sei o quê, o que eu fiz para vir assim, como se fosse um castigo, existe, não vou falar que não. Passou na minha cabeça? Passou. Mas a minha aceitação foi, também, tão de sempre. Porque eu tinha uma pessoa, uma mãe, um pai que falava assim: “Tu é isso e está tudo bem. Deus te fez assim por um motivo. Entenda qual é esse motivo. Não veja o contrário. Não é um castigo. Às vezes você veio assim para ensinar alguém, para passar um ensinamento, um pensamento diferente dos outros”. E eu lembro que nessa época a gente até chegou, quando eu questionei sobre, tanto do hormônio, quanto a cirurgia do crescimento dos ossos – tem um nome, eu não lembro –, e quando minha mãe me levou para conhecer tudo, o hormônio já não dava mais, porque tinha que ser desde muito criança, e o crescimento ósseo, quando eu vi como era o processo, eu falei: “Jamais”. Eu não sei se você já ouviu, mas tanto nos braços, quanto na perna, nos joelhos e nos cotovelos, nessa região, eles cortam, abrem o osso, colocam – ai! – um ferro, e vão afastando os ossos. E aí, automaticamente, pela natureza, vão nascendo os ossos. Então, nisso, nesse espaço, nasce o osso –depois de muito tempo, porque não é simples. Eles tiram esses ferros, essas placas todas, e você fica com um metro e cinquenta. Não passa disso. Eu falei: “Não”. Quando eu vi, eu falei: “Você está louca. Não”. Me arrepia só de pensar. Falei: “Não, obrigada, estou bem assim”. Era só uma questão, mesmo, de querer conhecer, saber, sei lá. Mas, mesmo assim, eu já me aceitava, sabe? Era só querer conhecer e saber como era. E logo depois... Para mim a questão maior era essa: de não entender por que as pessoas não entendiam o diferente, por que as pessoas tinham tanta negação com o diferente. Não só comigo, mas com qualquer outra pessoa. Porque a gente via as pessoas sendo preconceituosas, agressivas etc. com outras pessoas. Mas logo depois também minha mãe me ensinou que cada um... Aquela coisa: cada panela tem sua tampa, tudo tem seu tempo, sempre vai ter uma pessoa que não sei o que. E beleza, aí foi, né? Mas isso... Foi tão rápido tudo isso, porque logo depois de eu ter essas crises de existência adolescente, como eu acabei perdendo minha mãe e logo em seguida minha avó, qualquer pensamento nesse estilo era... Não vou colocar como fútil, mas era a última coisa que eu ia pensar na minha vida, entendeu? Eu comecei a pensar: “Putz, estou sozinha”. Eu já trabalhava, nessa época. “Putz, tenho que continuar trabalhando e tenho que estudar, fazer o que eu queria fazer, muita coisa para resolver, uma casa para cuidar agora. E agora?” Então, qualquer outra coisa, porque o menino não gostava de mim, não sei o que, era a última coisa que eu ia pensar na minha vida.

P/1 – Juliana, vamos voltar um pouco?

R – Vamos.

P/1 – Na escola, quando você entrou, o que você gostava? Tem alguma professora que te marcou?

R – Eu sofria, tipo... Eu tinha muito sono, então eu sofria nessa questão de prestar atenção e tudo. Nunca fui de bagunça, nada disso, mas como boa pisciana, eu vou lá pra _________ (44:49), eu ia pra outro mundo, entendeu? (risos) Então eu meio que tinha uma ‘sofrência’ nessa questão de prestar atenção. Mas eu tive professores marcantes. Lembro de uma de Português, Alice Cleide – acho que era Cleide, que todo mundo falava: “Ela é o demônio”. Mas, no final, todo mundo a amava, sabe? E foi meio que isso. Ela era tão... A gente falava... Não ‘chata’, a palavra, mas ela insistia tanto nas coisas e era tão rígida, que muitas coisas me ajudaram no português, hoje em dia. Mas lembro dela. Lembro de uma professora de História que eu acho que era Rosana o nome dela, que ela fazia de uma forma de dar aula ou de contar toda a História na aula de um jeito tão leve, tão legal, que eu lembro quando ela saiu – eu não lembro porque ela saiu – a escola inteira chorava, sabe? Ela era muito querida. Lembro de um professor que eu odiava. Acho que ele era de Matemática. Não, ou era de História, que veio logo depois dela. Era de História, que veio logo depois dessa Rosana. Porque o jeito que ele dava aula, ele implicava comigo, não sei por que, porque eu nem falava. E a partir do momento que você pega o medo do professor ou você não gosta, não tinha o que fazer para eu ir bem na aula, sabe? E eu chorava, falava: “Não quero, não sei o que”. Mas passou. E eu lembro de um professor – isso depois, passando para o primeiro colegial... Eu sempre fui péssima em Matemática – que eu não sei o que ele tinha, que ‘caraca’, fez entrar Matemática na minha vida como se sempre estivesse, sabe? Matemática sempre foi uma matéria que eu sempre fui nota vermelha, mas no primeiro colegial resolveu, não sei, e nota azul total. Mas eu sempre me dei muito bem com os professores, e eu sempre odiava ser a primeira da fila. Odiava por causa da questão dos tamanhos. E aí, o fato de ser meio que... Não por ser uma obrigação, mas, ai, que saco! Eu me sentia tão normal, que eu não queria ser a primeira. Era horrível. E, às vezes, sentar na primeira fila também, na carteira. Tudo bem, às vezes eu sentava, e às vezes não. E às vezes, quando eu comecei a sentar atrás, nunca me incomodou. Sempre enxergava bem, estava tudo bem, mas tinha uma professora que implicava comigo, porque era pra sentar na frente por causa do meu tamanho. E aí eu questionava: “Mas eu enxergo, pra que eu tenho que sentar na frente?” (risos) Nesse ponto, eu sempre fui assim. Se não me atrapalhava, não me incomodava, eu brigava. Eu falava: “Não, vou ficar aqui” “Eu estou mandando”. Eu falei: “Então mande. Eu continuarei aqui”. Raras vezes fui para a diretoria, mas por causa disso. Quando chegava notificação pra minha mãe: “Por que minha filha está...” “Porque ela não quis sentar na frente” “Ela não enxerga? Ela enxergou a lição, escreveu tudo direitinho?” “Sim” “Então tá, deixa minha filha lá atrás”. Porque não fazia sentido. Só por causa do meu tamanho? Então, nessas questões, eu meio que, às vezes, brigava, mas a maioria das vezes não era nem brigar, questionava. Mas a maioria das vezes sempre me dei muito bem, nunca tive reclamação, sabe, na escola.

P/1 – Juliana, vocês tinham hábito de ler na sua casa? Como era essa questão de leitura, música?

R – Eu me lembro que nessa época, até mesmo dessa professora de Português, da Alice, ela mandava... Eu não sei o que ela tinha com o autor, um japonês, eu não vou lembrar o nome dele, mas era um japonês que escrevia sobre adolescência feminina, e ela fazia a gente ler esses livros. Eram livros tipo assim... Mas eu nunca fui de ler tanto. Gostar de música sempre gostei, ouvia músicas desde sempre, mas ler, nessa época, pra mim era o carma.

P/1 – Que música você escutava aí nessa época, de adolescência, indo para o colegial?

R – ‘Xiiiii’, ai meu Deus! Eu era muito fã... Eu vou falar dos legais, não vou ‘me queimar’ (risos). Não, estou zoando. Eu era muito fã, nossa, com meus doze anos, de Backstreet Boys. Foi um negócio na minha vida! Aquela coisa de fã, de montar aquelas pastas e fazer cartas quilométricas e nunca saber quando e se um dia vai a um show, sabe? Mas fazia. Louca. Mas eu os amava. E daqui [do Brasil] gostava de Sandy e Júnior. Eu acho que brasileiro eu não tinha tanto um específico, assim, de música brasileira. Ouvia várias. Ouvia muito Adriana Calcanhoto com a minha tia. Legião Urbana, Capital Inicial. Ouvia muito MPB [Música Popular Brasileira], Djavan. Ouvia, mas não era o que eu mais curtia. O que eu curtia, mesmo, era Backstreet Boys, nessa época. E gosto até hoje. Eles vieram para o Brasil várias vezes, várias vezes! Duas, três vezes, quando eu era adolescente, e eu não pude ir, minha mãe não deixou. Aí eu lembro em 2009, que já trabalhava, já estava com meus vinte e poucos anos, aí eles vieram, eu fui. Comprei o ingresso. Sabe quando... Não sei, eu acho que eu precisava, falei: “Eu vou”. Nossa, voltei a ter doze anos! É muito louco essa questão da memória emotiva. Eu voltei a ter doze anos. Chorava. Eu falava: “Gente, pelo amor de Deus!” E chorava. Aí fui no hotel – fiz a louca –, fiquei lá na porta e consegui tirar foto com eles.

P/1 – Você tem essa foto?    

R – Tenho, revelada, porque a gente revelava foto.

P/1 – Ah, que legal! Depois eu vou te falar que a gente vai selecionar umas fotos, mas daí a gente fala. De história de vida. Mas eu te explico.

R – Claro!

P/1 – Juliana e qual foi o seu primeiro amor, que você falou: “Estou apaixonada!”? Como é que foi?

R – (risos) Eu acho que quando, realmente, você gosta de alguém, você ama alguém, aquelas outras coisas você vê que não era nem amor, não chegava a nada disso, era uma paixãozinha de criança, né? Nesse ponto eu tive vários. De criança eu tive vários. Mas gostar, mesmo, forte, foi com meus dezenove anos, já estava velha, mas que foi, realmente, eu amar uma pessoa, tipo respeitar a família, tudo assim, né? Se tivesse alguma condição: “Tudo bem, vamos aceitar esse aspecto”. Nesse ponto. Mas, sinceramente, só foi um. Até hoje em dia, assim, nesse sentido. Porque eu vejo que tem uma diferença de você amar uma pessoa e você se apaixonar por uma pessoa. Pra mim tem essa diferença. Acredito que você se apaixonar vire você amar uma pessoa. Da paixão, vire esse amor. Mas apaixonar, às vezes, só fica naquela paixãozinha e passou. E você acha, mas não é nada. Então realmente, amar, assim, foi uma só.

P/1 – Juliana, quantos anos você tinha quando sua mãe morreu?

R – Dezesseis anos. 

P/1 – Do que ela morreu?

R – Minha mãe teve um coágulo na artéria, da cintura pra perna, aí começou a entupir e começou a não deixar ir sangue pra perna. Então, até a gente perceber esse coágulo, quando a gente viu a perna dela já estava, tipo, do dedinho pro pé ficando preto. A gente não entendeu, não conseguia achar o que era. E, quando a gente conseguiu achar, foi muito rápido: ela já ficou internada, já fez uma cirurgia pra tirar esse coágulo, tirou, deu tudo bem. Foi uma questão, acredito, de um mês de internação. Aí, nesse meio tempo, ela teve que ficar em coma induzido, acho que pra não sentir dor, eu não sei qual foi o procedimento pra ela chegar nesse coma induzido. E resolveu, ela ficou bem. Aí, um dia antes da alta dela – que seria numa segunda-feira –, eu fui visitá-la, no domingo, no hospital. Ela estava de alta já, ia ter alta no dia seguinte. Na madrugada de domingo para segunda-feira ela teve um outro coágulo que escapou e estourou na cabeça, no cérebro. Aí parou o cérebro e parou tudo. Não sei o nome disso, nem lembro, também. É uma coisa que meio que apaguei da minha memória, sabe? Mas foi por causa disso.

P/1 – E como é que ficou a sua vida, depois disso? Quer dizer: como é que foi pra você, isso, naquele momento?

R – ‘Putz’, foi bem difícil. Mas eu não sei, eu fiquei num choque... Porque a gente tinha a minha avó, a mãe dela, e eu lembro que no dia, na segunda-feira, eu acordei pra ir trabalhar, tomei banho, tal, me arrumei, tomei café: “Beijo, vó, tô indo trabalhar”. Nisso, eu saindo, bati a porta da sala, fechei a porta da sala, o telefone tocou. Eu voltei e falei: “Pode deixar que eu atendo”, e atendi o telefone. Aí era do hospital, a mulher simplesmente falando: “Quem é o responsável, não sei o que”, e, na época, quem estava responsável no hospital era minha tia, aquela coisa de documentação, tudo. Aí eu falei: “Minha tia” “Então, a gente precisa que ela venha aqui com algumas roupas, para fazer a liberação do corpo” (risos) Eu falei assim: “Como assim?” Nisso, eu, no telefone, na sala, minha vó sai da cozinha e fica de frente pra mim: “É do hospital? É do hospital?” Eu falei: “Só um momento. Sim, é do hospital. Espera aí, calma aí, está falando da alta”. Eu falei qualquer coisa. Eu falei: “Está falando da alta aqui, espera aí”. “Pode falar. Como assim procedimento?” Aí ela falou: “Infelizmente a paciente Miriam veio a falecer”. Aí eu falei assim: “Ah, e você precisa da minha tia, então, para fazer essa autorização? É isso?” Aí a menina falou assim: “É”. Eu falei: “Ah, tá bom”. Eu não sei o que deu em mim, eu falei: “Ah, tá bom, claro, pode deixar, eu aviso minha tia, sim, tá bom, pra levar umas roupas, claro, tá bom”. Aí a mulher falou assim: “A senhora entendeu o que eu acabei de dizer?” Eu falei: “Entendi. Muito obrigada, você é muito gentil”, com a minha vó na minha frente: “Tá bom, então, obrigada. Beijo, beijo”. Minha vó: “É do hospital? O que foi? O que foi?” Minha vó já desesperada. Eu falei: “Não, como a minha mãe vai ter alta, eles precisam que a responsável, que é a tia, vá lá e leve uma roupa, porque ela está sem. Aí minha avó olhou assim e falou: “É verdade?” Tipo, meio que achou que eu estava mentindo. Eu falei: “Não, é verdade. Eu vou ligar pra minha tia agora e vou pedir, porque a mãe tem alta hoje”. E eu assim, né? “Então tá, o que eu faço?” Falei: bom, não vou trabalhar. Nessa época a minha mãe tinha aquele celular BCP [Telecomunicações]. Aquele tijolinho. Baby, né? Aquela coisa. (risos) E ficou comigo o celular, nessa época. Aí eu fiz assim: “Caraca”. E a gente tinha um telefone na sala e um no quarto da minha mãe. Eu dei um tempo e falei assim: “Bom, vou sair na rua como se eu fosse pegar o ônibus pra ir trabalhar, só que eu vou voltar, e nisso que eu vou voltar, eu vou falar que a Renata, que era minha chefe, falou: ‘Olha...’”. Aí eu fiz tudo isso. Mandei uma mensagem – a Renata era minha amiga, na época, minha chefe era minha amiga –, e falei assim... Desculpa falar, mas eu falei: “Fodeu”. Fiz assim. Aí ela: “Como assim?” Eu falei: “O pior aconteceu, não vou trabalhar. Liga em casa e me dispensa”. Ela falou: “Tá bom”. Ela me ligou, tudo, e minha vó falou assim: “Ela já saiu” “Então vou ligar no celular”. Aí eu voltei, minha vó falou: “O que aconteceu?” Eu falei: “A Renata falou que não precisa ir hoje, tal, que daí eu cubro amanhã” Ela falou: “Tá bom”. Eu fiquei em casa. Nisso, eu liguei pra minha tia, mandei uma mensagem, falei: “Tia, ligaram do hospital pra você ir lá, o pior aconteceu. Eu estou em casa com a vó, a vó não sabe”. Isso era nove da manhã, eu fiquei tipo meio que das nove até umas cinco da tarde sem falar pra minha vó, porque eu estava sozinha com ela, meu irmão estava trabalhando. Meu medo era, sei lá, que ela tivesse um piripaque e era bem nítido que ela poderia ter, né? E eu falei assim: “Não sei o que eu faço”. A minha reação foi... Aí, quando a minha tia falou assim: “Já fui no hospital, estou voltando, indo pra sua casa”, eu falei: “Então eu vou contar, eu vou ter que contar, não sei”. Só que minha vó começou a perceber, de um tempo pra frente, assim, porque as pessoas ligavam e eu ia atender em outro lugar da casa, tal, e teve uma hora que eu falei assim: “Eu vou na minha vizinha, minha amiga” – que a mãe dela conhecia minha vó, era amiga da minha vó e da minha mãe –, porque eu precisava dar um respiro, né? Fui na vizinha, conversei com ela, chorei. Falei: “‘Cara’, eu não sei o que eu vou fazer. Estou assim, nessa situação... Faz o seguinte, Conceição: vai em casa depois, dá um alô lá, passa por lá, toca a campainha, fala qualquer coisa e fica um pouco lá, porque não sei.” Aí passou um tempo, ela veio – a vizinha –, ficou aqui e a minha vó começou a perceber, chegou uma hora ela começou a perceber, começou a se desesperar. Aí eu contei para o meu irmão, porque meu irmão precisava ser liberado de onde ele trabalhava. Eu pedi para alguém meio que liberá-lo, falei: “Gente, libera aí porque o pior aconteceu”. Ele já estava bem doido, e ele chega e minha vó ficou assim... Se tocou. Só que nisso, também, logo em seguida a minha tia chegou, e foi meio onde... Mesmo assim eu ainda não me derrubei, porque nisso meio que ficou a minha tia pegando a liberação do hospital, do IML [Instituto Médico Legal], essas coisas, e eu fazendo o pedido do cemitério, sabe? Pra gente ter o cemitério, lá. A família do meu avô tem... Ai, como que é o nome? Uma casinha...

P/1 – Jazigo?

R – É, jazigo, exato. Aí eu fiquei ligando pra família, pra pedir autorização, pra eles liberarem um espaço no jazigo. Então ficou eu e a minha tia resolvendo essas coisas. E aí eu só me toquei, caiu a minha ficha quando a gente chegou no velório, que eu vi... Aí caiu a minha ficha. Aí eu entrei em transe, tipo no outro mundo. Foi difícil, assim, meio que pela minha vó, na verdade. Minha vó sofreu muito, muito, muito, e ela não comia mais, ficou deprimida. A minha vó já tinha problema de enfisema pulmonar, e isso piorou mais ainda. Minha vó já teve derrame, já fez vários procedimentos de coração, essas coisas, então, nesse ponto, ela sofreu muito. Ela não cozinhava mais e eu, nessa época, não cozinhava, porque minha vó não deixava a gente chegar perto da cozinha, sabe? E aí, nisso, a minha fuga, às vezes, por muitas vezes, foi a escola, porque nessa época eu ainda estudava. Então eu ia pra escola e, nossa, por muitas vezes... Eu lembro um momento que eu tive um ataque, uma crise de choro, e ninguém sabia, foi meio que... Eu não lembro se foi logo depois... Enfim, quase ninguém sabia o que tinha acontecido comigo, mas eu tive uma crise de choro e eu não era assim, eu sempre fui de brincar, de dar risada, de falar, e as pessoas viram que eu cheguei e não falei nada. Eu sentei na mesa, abaixei a cabeça, fiquei ali e comecei a chorar. Aí sabe quando vem alguém e fala assim: “Está tudo bem?”, aí você desmonta? Um amigo meu só pôs a mão no meu ombro, sentiu que eu estava chorando, falou: “Ju, o que foi?”, aí eu desabei, tive uma crise de tremer, de quase desmaiar. “Ah, leva pra casa” “Não, não quero ir pra minha casa”. Tipo: não vou chegar na minha casa assim, nessas condições, porque em casa eu estava forte. Aí fui pra casa da minha amiga, da Renata, que era minha chefe. Fui pra lá, fiquei lá, chorei, chorei, chorei, voltei pra casa e segui, continuei seguindo nesse: “Estou firme”, pra minha vó. Dez meses depois, praticamente, a minha vó ficou ruim, ficou internada um mês, e aí veio a falecer. Acredito que foi mais de tristeza, mas deu enfisema pulmonar nela. E com ela também foi meio que a mesma coisa, né? Aí eu que fiquei responsável por ela no hospital e, quando ela morreu, eu fui para o hospital pra resolver toda a papelada, tudo, e minha tia resolvendo um espaço no cemitério. Então, não deu tempo. Foi tudo muito próximo. Por mais que foram dez meses, pra mim foi questão de um mês, muito próximo. E eu não pensava muito nisso, eu não queria nem pensar muito nisso. E, pra ser pior, na verdade minha vó morreu no dia do meu aniversário. (risos) Pois é. Então, na minha vó eu estava mais forte, mas eu fiquei totalmente avoada. Eu não chorava, eu fiquei avoada. Não tinha reação, sabe? Não tive reação. E depois eu fui... ‘Cara’, ficamos eu e meu irmão em casa e vamos seguindo, né?

P/1 – E seu pai? Quando sua mãe morreu, ele se aproximou? Como é que estava a relação de vocês?

R – Entrando nesse assunto desde quando ele se separou, tudo, chegou um momento que a gente acabou não tendo muito contato. Não por nada, só por tempo, por morar longe, essas coisas. Nessa época que minha mãe faleceu, ele até quis vir morar aqui, mas a casa era da minha vó, né, e a gente conhecia: meu pai é muito difícil de lidar, assim. É uma pessoa meio que difícil, sabe? É cabeça dura. E a gente, minha mãe, minha vó, batiam muito de frente com isso, então minha vó falou assim: “Não, não quero. A casa é minha”. E era um direito dela. Quando a minha vó morreu, automaticamente, eu ainda era menor de idade, então ele era o responsável. Nessa época eu o chamei e falei com ele pra vir morar aqui, se ele queria. E nessa época ele tinha conseguido um trabalho como caseiro no interior de São Paulo. Aí ele falou: “Consegui um trabalho no interior, eu estou indo pra lá”. Eu falei: “Tá, vamos lá! Mas aconteceu tudo isso, tal, você não quer vir pra cá?” Ele: “Não. Consegui um trabalho, eu vou pra lá. Se vocês quiserem ir comigo, vocês podem ir”. Aí eu falei: “Não, não vou, porque eu tenho um trabalho, tenho uma vida, tenho uma casa, tenho meus amigos, e depois de tudo isso que aconteceu, eu não vou me afastar”. Eu sempre fui muito urbana, nesse ponto. Tinha os meus amigos aqui, sempre comigo. Eu falei: “Eu não vou largar tudo, até mesmo a minha escola, essas coisas, para ir morar no interior, sei lá, não sei onde. Não, não vou. Obrigada”. E fiquei aqui, a gente ficou aqui. Nesse tempo, tem meu tio – que é irmão da minha mãe – e a minha tia, que falaram: “Então vem morar com a gente”. Só que nessa época a gente estava em um círculo de amizade, eu e meu irmão, que a maioria, até hoje, nossos amigos são os mesmos, aqui do bairro. Amigos em comum, eu e meu irmão, que, por várias vezes, nessa época, o portão da minha casa ficava aberto, porque a galera vinha aqui, cada um chegava em um horário, pra não deixar a gente sozinho. Isso foi muito bom pra gente também. A gente não ficou sozinho nesse ponto, a gente tinha os amigos que ficavam aqui, sabe? Que ficavam até a hora de a gente dormir e iam embora. Às vezes trancavam o portão, jogavam a chave na laje e iam embora, e assim ficava. E se também eu morasse com a minha tia, eu ia perder isso, e isso, pra mim, foi o meu alicerce: essa questão dos meus amigos, dessa coisa de tê-los sempre por perto. Meu irmão também. E aqui em casa nunca foi uma família regrada com horários. Minha vó fazia comida, comia a hora que quisesse, até mesmo porque cada um tinha um horário diferente, então a gente ficava nisso, e minha tia era regradinha, sabe? Sete da manhã acorda, toma café; meio-dia almoça. E a gente não tinha essa vida, né? Eu trabalhava, nessa época, numa casa noturna, de manhã fazendo os eventos, marcando, e à noite na casa noturna, na bilheteria, fazendo essas coisas. Enfim, não ia dar certo. Nisso a gente ficou aqui, de boa. Acho que nesse ponto foi meio que a melhor coisa que a gente fez. Se parar pra pensar, “O que vocês fariam?”, eu faria a mesma coisa, novamente. Porque também deu uma responsabilidade maior, uma independência pra gente. É óbvio, eu falo que nessa época eu perdi a minha adolescência. Com dezesseis anos, aquela adolescência de você fazer muitas coisas, eu não fiz; de viver muitas coisas, eu não vivi; eu perdi isso, porque tinha muitas responsabilidades. Mas me ajudou muito a crescer, sabe, como pessoa, mesmo. Ajudou a amadurecer meus pensamentos, a entender e até mesmo a ver a vida de uma outra forma e dar valor a muitas coisas. Até mesmo com os meus 22 [anos], por aí, eu falei: “Quer saber? Eu vou voltar a ter os meus dezesseis anos. O que eu faria com dezesseis anos, eu vou fazer com meus vinte, porque eu perdi aquela época, mas eu preciso rever aquela coisa de dezesseis, dezessete anos”. E eu vivi, enfim, enlouquecidamente, e saí todos os dias, até mesmo porque eu tinha o meu dinheiro, já era maior de idade.

P/1 – Vocês que seguravam, de grana? Você e seu irmão que se sustentavam?

R – Sim. Desde os dezessete anos a gente já trabalhava. Nisso, eu ganhava muito pouco nessa casa noturna...

P/1 – Esse foi o seu primeiro emprego, na casa noturna?

R – Foi.               

P/1 – Onde era? Como é que foi?

R – Era aqui perto. Como eu conhecia, já, era a mãe da minha chefe, dessa Renata, já trabalhava nessa casa, era gerente, então foi meio que: “Ah, vocês começam a trabalhar atendendo telefone e aí fica de manhã”. Óbvio, até mesmo porque a gente era menor de idade. Mas depois, com o tempo: “Agora vende ingresso, faz contabilidade, faz não sei o que”, e a gente foi meio que crescendo. Até mesmo porque não tinha como crescer muito, porque a casa também não tinha como, logo em seguida faliu. Então não tinha nem como crescer muito. Mas foi o meu primeiro emprego. Aí, logo depois, eu já falei: “Eu vou ter que mudar de emprego”. Mudei de emprego. E, nisso, fui também me descobrindo, até porque, nessa época, antes disso, eu e minha mãe tínhamos planos. Minha mãe fazia Veterinária, mas ela não era formada. Então, com quinze anos, a gente começou, já, eu e minha mãe, a ver vestibular pra gente fazer uma faculdade, essas coisas. Minha mãe entraria como veterinária e, nessa época, eu falei: “Veterinária não é para mim. Eu não tenho coração pra isso. Então vamos fazer o seguinte? Eu faço Administração”. Nosso plano era pegar, montar uma clínica... Eu pegava Administração junto com ela –obviamente –, e ela fazia a parte da veterinária. E a gente ia abrir um pet shop, que esse era nosso sonho. Desde sempre foi. Com ela falecendo, eu fiquei sem chão: “O que eu vou fazer agora?” Eu não imaginava, não tinha noção do que eu ia fazer da minha vida, de trabalho, essas coisas. Até que, tipo, a minha carreira hoje eu nunca imaginei. Não foi uma coisa que eu sempre imaginei, sempre quis, não. Veio de, realmente, fazer um evento para pegar uma grana a mais, porque eu precisava de dinheiro para pagar as contas, e aí eu fui gostando, fui conhecendo as pessoas de teatro, fui conversando, fui não sei o que. Nessa época foi quando deu o start de eu me interessar por leitura, coisa que eu não tinha na época da escola, aí eu comecei a ler sobre artes e me apaixonei. Fui picada pelo bichinho da arte e falei: “É isso que eu quero fazer. Agora, como que eu vou fazer, não sei”. E fui.

P/1 – Foi nesse período... Porque você disse que aos dezesseis aconteceu isso tudo e que você já teve uma responsabilidade muito grande, mas aí, com vinte, você disse: “Eu fui viver, recuperar aquele tempo”. O que era ‘viver e recuperar aquele tempo’?     

R – Como?

P/1 – Você disse que com vinte anos foi recuperar o tempo dos dezesseis, que você não conseguiu sair, que aí você foi pra tudo quanto é lugar. O que foi, nessa época, ‘recuperar o tempo’?

R – ‘Cara’, sair com amigos, ir pra balada. Coisa que eu não ia com dezessete, não ia. Trabalhava tanto! Eu trabalhava em telemarketing, na época, de... Como é que eles falam? [Regime] seis por um, sabe? Acordava quatro da manhã para chegar às sete na Paulista. Naquela época a gente ainda não tinha muito o acesso que a gente tem hoje, aqui, de trem e de metrô bons, essas coisas. Era por ônibus, só ônibus, e aí duas horas para chegar às sete pra trabalhar, e às vezes trabalhava em um domingo, sabe, às nove da manhã. Então eu não saía. Aí, com os meus dezenove anos, eu comecei a trabalhar em Banco. Aí eu falei: “Tá”. Comecei a ganhar legal, um dinheiro legal. O Banco te dava, naquela época, uma estrutura muito bacana, até mesmo de estudo. Eles pagavam metade da faculdade, tudo, essas coisas – mas tinha que ser na área deles, né? Quando eu entrei no Banco, eu lembro que eu passei... Eu tive que fazer uma prova de Matemática, um questionário, eu errei tudo. E aí (risos) eu fui aceita por causa da lei das cotas, na época. E eu falei: “Gente, por mais que eu for por uma lei de cotas, eu sou péssima em Matemática, o que eu estou fazendo no Banco? Eu vou falir o Banco”, mas aí eu trabalhava dentro, eu fazia escriturária – chamava escriturária –, eu fazia parte de dentro, assim, algumas transações de dentro, não chegava a ser caixa, abrir conta, essas coisas, não fazia. E nessa época eu já trabalhava no Parque da Xuxa, com pocket show e sessão de foto. Foi aí que eu comecei a conhecer o teatro, uma galera do teatro e tudo, e aí eu falei: “É isso que eu quero fazer”.

P/1 – Pocket da Xuxa? Como é que era?     

R – O Parque da Xuxa...

P/1 – Ah, parque? Entendi ‘pocket’.

R – Parque da Xuxa, só que a gente fazia um pocket show dos personagens da Xuxa, tudo. Me fantasiava de boneco, fazia tudo isso. E eu falei: “É isso que eu quero fazer”. Fiquei sabendo de um teste de teatro. Nessa época, com dezenove anos, trabalhava no Banco, fui fazer o teste, passei, fiz assim pro Banco: “Tchau, gente, estou indo embora”. Ele falou: “Como assim, você está indo embora?” Eu falei: “É, estou indo embora. Não é para mim, Banco não é para mim. Eu tive problema de saúde por causa do Banco, fiquei muito estressada. Admiro muito quem trabalha em Banco, porque não dá”. E nessa idade, dos dezenove aos 22, foi onde eu vivi a questão de conhecer lugares, de sair, de estar com amigos. Coisa que eu não tive [antes], entendeu? De fazer, de sair de segunda-feira à quarta-feira, ficar muito ‘eeee’ louca, de beber todas.

P/1 – Que lugares eram esses que você ia nessa época?

R – Eu ia muito (risos)... Tinha um bar em Moema que eu conheci com o pessoal do teatro, que chamava ‘Xuxu Karaokê’. Era um bar karaokê minúsculo, GLS [Gays, Lésbicas e Simpatizantes], e o meu amigo que me levou nesse bar conhecia o dono, eu acabei fazendo amizade com os donos, então a gente ia todos os domingos pra lá. Na verdade, a gente acabou, depois de um tempo, indo de quarta-feira, de sexta-feira, de domingo, quase todos os dias a gente estava lá. E era um bar karaokê, enfim, que acabou se tornando um ponto de encontro com vários amigos. Lá mesmo eu fiz outras amizades, enfim. Então a gente ia muito lá. Tinha um bar na Augusta também, que eu fui muito lá também. E como a gente já era artista, a nossa folga era na segunda-feira. Então, por muitas vezes, a gente saía de domingo. E nisso eu fui conhecendo os lugares da vida. (risos)  Mas fui conhecendo baladas, bares e botecos, de sair com amigos pra conversar, assim. Coisa que eu não vivi naquela época. Então, nesse ponto... E foi onde eu comecei a trabalhar com teatro e não parei mais.

P/1 – Desse pocket [show] do Parque da Xuxa você foi pra onde?

R – Não, eu trabalhava lá de final de semana e feriado. Então, durante a semana, eu trabalhava no Banco. Só que chegou uma hora, logo depois que eu falei “o Banco não dá mais pra mim”, eu fiz um teste para fazer um musical infantil do Barney e seus Amigos, e era um espetáculo que viajava Brasil, tudo, e, com esse espetáculo, eu tive a oportunidade de ficar quatro meses na Argentina. Então, eu pude sair do país. E depois um mês no Equador, fazendo espetáculo. Aí, disso, acabou o espetáculo, já entrei numa companhia de teatro e fiquei trabalhando por um bom tempo lá, e fui mudando de um espetáculo pra outro.

P/1 – Que companhia que era essa que você entrou depois do espetáculo do Barney?      

R – Eu entrei na Companhia Black and Red, que hoje em dia trabalha muito no Teatro Bradesco, fazendo espetáculo infantil, também. E aí fui indo, assim, de um espetáculo para o outro.

P/1 – No espetáculo do Barney você fazia o quê?

R – Eu fazia Baby Bop, que também era boneco, que era um dinossauro verde. Depois, na Black and Red, eu cheguei a fazer papel, mesmo, com fala. A gente chama de ‘cara limpa’, que era nossa cara, mesmo. Aí fui, não parei mais com o teatro. Eu já tinha largado tudo, a família inteira já sabia e estava tudo bem.

P/1 – E continuava morando você e seu irmão? Sempre vocês dois?

R – Sim, sempre nós dois.

P/1 – E aí você seguiu essa carreira do teatro. E na televisão, como é que foi sua entrada na televisão?

R – Então, na TV eu já cheguei a fazer uma ou outra coisa, participações, brincadeiras, mas eu sempre tomei muto cuidado com isso, porque nessa época a gente tinha o Pânico na TV, que era um programa que dava muito espaço para as pessoas pequenas, mas também eles não davam nenhum respeito, nesse ponto. Então eu sempre tomei muito cuidado, independente do que eu fosse fazer na TV ou em qualquer outro lugar, que fosse um evento, tudo, porque, em primeiro lugar, o que eu pedia para mim era o respeito referente ao trabalho. Se houvesse respeito, eu faria o trabalho. Fora isso, não conte comigo, eu não faria. Então, toda vez que... Às vezes aparecia uma participação em um programa, alguma coisa assim: “O que é? O que vai ser?”, perguntava. “Mas é pra, sei lá, aparecer de criança, de fralda? Não, obrigada, não quero”. Muitas coisas eu rejeitei por causa disso, porque eu sabia que essa área de eventos, e tudo, pra gente sempre ia para o lado infantil, ridicularizando num ponto até chegar ao estilo Pânico, de ofensas e agressões. Vou pôr assim, porque era bem isso mesmo. Então eu sempre tomei muito cuidado com isso. Eu cheguei a fazer alguns comerciais e tudo, mas todos com respeito, tendo esse respeito no meu trabalho, sob a minha pessoa, e chegando na ponta da TV, da novela, foi através de teste. Eu fiquei sabendo do teste, mandei material, fui selecionada para fazer o teste, mandaram o texto para mim, enfim, trabalhei em cima do texto, fiz o teste e passei. Foi nesse ponto que eu cheguei à novela de televisão. Que foi, na verdade, realmente, meu primeiro trabalho na TV, grande. Eu coloco assim.

P/1 – Quando você fez esse teste era muita gente? Você tinha expectativa em relação ao papel, a entrar? Já tinha confiança: “Vou conseguir!”?

R – Nossa, não. Eu sou muito insegura. Eu sou ansiosa, insegura. Eu falo: “Ai, meu Deus, imagina! Não vou passar”, sabe? Eu soube, era aqui em São Paulo, fui eu e uma outra menina [daqui]. Do Rio de Janeiro – se eu não me engano – tiveram quatro meninas que fizeram o teste, e teve uma de Curitiba, então sete pessoas, se eu não me engano. E como eu não sabia quem eram as outras pessoas... Mentira, sabia de uma menina do Rio, eu falei: “Bom, claro, eu tenho uma confiança no meu trabalho e eu acredito em mim”, mas sempre é aquele bichinho que fala assim: “Às vezes, a menina do Rio... Porque é do Rio, o custo é bem menor para eles. Não vão, às vezes, pagar uma pessoa que é de São Paulo para ir até lá, sabe? Para mudar pra lá”. Isso, pra mim, por exemplo: “Então, não vai ser”. Mas não tinha esse pensamento, olhando assim: “Passei”. Não, pelo contrário, falava: “Ai meu Deus, não ligou, não passei”. Sabe, assim?

P/1 – Como é que foi o teste? Quem estava no teste?  

R – Não tinha ninguém. Foi aqui em São Paulo, na Globo aqui de São Paulo, aí fui fazer o teste. Como tinha a outra menina, que eu conhecia, sabia quem era, cada uma fez testes separados, ninguém viu o teste de ninguém. Mas quando a gente faz o teste, é uma pessoa que dirige, mais ou menos, e a que está gravando, que fica na câmera. Então você vai lá, senta, com a câmera: “Ju, está preparada? Podemos? Quer respirar? Quer uma água?” “Não, está tudo bem” “Você está preparada? Quando você quiser” “Não, pode ir” “Tá bom. Respira dois segundos e pode começar, tá bom?” “Tá bom” “Então tá, gravando”. E aí você faz. “Boa, Ju, está bom. Ju, pensa em fazer de uma outra forma agora”, porque ele sempre, pelo menos comigo foi assim: você lê o texto, faz daquela forma que você acha que tem que fazer o texto, tudo bem, é sua interpretação, beleza. Agora faz ao contrário. Você fez assim. Tá bom, agora faz com raiva todo esse texto. “Tá bom, vamos lá!” “Tá pronta?“ “Tô pronta” “Beleza”. Por exemplo... Comigo foi ótimo, mas, por exemplo: “Tenta não se mexer tanto. Faz um pouco mais parada” “Tá bom”. Aí eu fiz totalmente parada. “Não, mexe só mais um pouquinho. Vamos fazer outra e, enfim, vai intercalando” “Tá bom” “Isso. Obrigado! Foi. Beijo, tchau”. Assim. E aí, quando me ligaram, que falaram que eu tinha passado, eu não tive reação. Eu fiquei: “Ai, meu Deus, é sério?” “É”. Aí eu falei: “Tá bom”. E eu não tive reação. Assim, eu fiquei: “Caraca, tá bom”. Mas por quê? Porque eu sou assim: quando eu estou fazendo um trabalho, um teste, alguma coisa assim, eu não comemoro antes de realmente ter certeza, porque muitas vezes acontece de você fazer um teste, passar, mas o trabalho não dar certo. Não por você, mas porque não teve verba, porque não foi aceito, então não passou, não vai rolar o trabalho. E dá uma frustração muito grande. Então eu falei: “Bom, vou realmente comemorar quando eu assinar o contrato”, né? Aí foi quando eu assinei. Da ligação que eu tive até assinar com algum contrato foram quatro meses. Então, em quatro meses, eu fiquei segurando essa informação pra todo mundo, pra minha família. Foi não sei como. Tipo, eu falava: “Não vou sair com os amigos porque às vezes você vai beber, fica bêbada, toda contente porque você está feliz e você solta: ‘Gente, vocês não sabem’, sabe?” Então eu falava: “Nem vou sair”. Eu ficava em casa. “Eu não vou sair”. Se eu quisesse beber alguma coisa, bebia em casa. Ficava bêbada em casa, sozinha, no quarto, gritando, pulando, porque daí ninguém ia ouvir, entendeu? Mas depois, também, que eu assinei o contrato, aí, minha filha, fiquei acho que dois dias pra voltar ao normal. (risos) Ah, tinha que comemorar, né? Mas também comemorei, retomei a pessoa, aí começou o quê? Um piriri de nervoso do trabalho, do que ia vir, do que ia ser. Fiquei com piriri por muito tempo, de nervoso. Eu inflamei meu ciático, de nervoso. Foi, assim, tenso. Mas, enfim, foi um trabalho incrível, uma experiência incrível, nesse ponto.

P/1 – E aí você mudou pro Rio? Como é que ficou seu cotidiano?     

R – Mudei pro Rio, fiquei, no início, até mesmo...

P/1 – Você tinha familiaridade com o Rio? Como é que foi?

R – Já tinha ido várias vezes pro Rio de Janeiro, por causa de espetáculo, mas ia de final de semana. Não pude conhecer como eu conheci o Rio de Janeiro morando lá. Mas, por exemplo: quando você vai, assim, no final de semana, você vai querer conhecer os lugares, ponto turístico, tal, não sei o que, e por muitas vezes eu não cheguei a ir, porque a gente tinha teatro, tudo, então não dava tempo, porque chegava lá na sexta-feira, o teatro era no sábado de manhã – fazia sábado, domingo, voltava na segunda-feira de manhã ou no domingo, de madrugada. Então você não tinha muito tempo. Mas já tinha ido para o Rio, e foi tranquilo, porque, como eu também fiquei quatro meses meio que morando em outro país, essa questão de morar sozinha não tive problema. Fiquei supertranquila, nesse ponto. Mas foi uma experiência bem bacana também essa questão de morar sozinha, sem meu irmão, por exemplo, de morar realmente sozinha. Até mesmo pela responsabilidade de um trabalho, essa questão foi bacana. Por um lado foi bom também estar sozinha, porque dava esse foco no trabalho, não tinha uma pessoa que talvez tirasse minha concentração. Então, para mim, eu não tive problema nenhum em morar lá, me adaptei muito tranquilamente, conheci lugares incríveis, tipo, nem ponto turístico, sabe? Conheci restaurantes incríveis que sempre quando eu volto, eu vou. Conheci a Ilha da Gigoia, que eu acho incrível, é lindo! Então, para mim, esses pontos, nossa, cachoeiras, que eu conheci lá, que eu falei: “Gente, como assim tem cachoeira no meio de uma cidade urbana?” Conheci coisas lá, fui fazer uma foto, um trabalho pra um amigo meu, na Pedra Bonita, então, tive a oportunidade de fazer essa incrível aventura de... Não escalar, mas subir lá na Pedra Bonita. Então conheci lugares que eu, de verdade, acho incríveis no Rio de Janeiro! Fui na... Esqueci o nome lá da comunidade, da favela. Não é a Rocinha... Ai, meu Deus, qual é o outro nome?

P/1 – Maré? 

R – Não. Ai, Vidigal! Fui no Vidigal também. Foi bacana, foi bem bacana.

P/1 – E [como foi] essa entrada na Globo, o convívio com atores já tão maduros, o trabalho em si?

R – Foi bem tenso pra mim. Tenso no sentido que o meu piriri (risos) durou até, acho, que a estreia da novela, entendeu? Desde quando eu recebi a ligação até a estreia durou esse piriri. Por isso, porque cada vez era uma coisa nova. Do nada eu estava vendo a Fernanda Montenegro na minha frente, assim. Você fica assim... Você trava. Eu lembro, eu passei por um momento –por causa do nervoso, de ansiedade, essas coisas – que, fazendo a leitura, parecia que eu não sabia ler. Eu gaguejava. Eu falava: “Gente, desculpa, mas eu só quero deixar bem claro que eu sei ler”, sabe, assim? Mas era nervoso, eu não conseguia falar. Mas até aí, também, é normal, né? Mas foi incrível, assim. Aprendi muito com eles na questão de trabalhar com câmera, porque isso é totalmente diferente, o audiovisual de teatro, sabe? A gente teve uma preparação que ajudou muito, pra gente ter esse vínculo de família, de amizade. Essa questão toda a gente fez uma preparação que era como se fossem ensaios, e eu, vindo do teatro, por muitas vezes – eu falo alto já, normal – eu falava mais alto ainda. Aí as pessoas falavam: “Por que você está gritando?” Eu falava assim: “Sei lá, pra pessoa que está sentada ali no fundo ouvir” “Não, quem vai ouvir é a TV, é o público, telespectador, não é ele. Pode falar, eu estou te ouvindo. Você tem que falar para mim”. Eu falava: “Desculpa”. Eu estava aprendendo também, porque também, era natural, eu estava vindo do teatro. Eu falo que eu dei uma sofrida nesse ponto, por isso, porque eu tive que, totalmente, me zerar, começar do zero tudo o que eu imaginava também poder saber. Eu zerei, falei: “Nem vou pegar nada do que eu já sei. Deixa eu zerar e começar daqui, aprender daqui, até mesmo pra não criar tique, vícios, essas coisas, porque daí fica mais... Pelo menos não sofro tanto”. Mas nossa, sofri nesse ponto, de desconstrução, de você pegar e desconstruir tudo o que você já aprendeu, não sei o que. Eu falava: “Gente, eu não vou conseguir. Eu vou pedir pra cair fora”, eu falei pros amigos mais próximos. Porque eu, quando não consigo alguma coisa, ou eu peço ajuda – eu tenho essa humildade de pedir ajuda –, ou também tenho a humildade de falar: “Gente, obrigada, desculpa, mas não dá pra mim”. E o povo falava assim: “Ju, calma, é assim mesmo, está tudo bem”. E eu estava tão nesse ponto do nervoso, dessa desconstrução, tudo, que às vezes a pessoa falava ‘bom dia’, eu já chorava. Eu estava muito à flor da pele em todos esses sentimentos, tal, e viver um personagem que sofria tanto... Então segurar a lágrima era muito difícil, porque qualquer frase que eu escutava daquele texto eu tinha vontade de chorar, mas por imaginar que as pessoas vivem isso mesmo. E existe, ainda, isso nesse mundo. Existem mães, pessoas que falam absurdos que o personagem da Marieta falava, que a Sofia falava. Então, tirar, também, separar essas coisas, foi um processo também para mim, aprendi muito com isso, e realmente, a experiência de trabalhar com a Marieta [Severo], de conviver com Fernanda Montenegro, Laura Cardoso, Seu Lima [Duarte], é surreal. O aprendizado que eles passavam, sabe? Um dia eu, desesperada, nessa preparação, a Dona Fernanda falou assim pra mim: “Filha, calma, está tudo bem. Eu sou assim também. Não demonstro tanto quanto você, mas eu estou nervosa também. Eu não faço ideia do que eu vou fazer. Não tenho nada. Não faço ideia. Está tudo bem, fica calma”. Eu falei: “Caraca, uma pessoa dessa, o ser que é a Fernanda Montenegro, virar pra mim e falar isso! Opa, eu vou ter calma”, sabe? Marieta também falou: “Ju, calma, fica tranquila, eu também estou nervosa”. A gente trocou muita experiência de vida, eu e Marieta, pra gente chegar nesse personagem, nos personagens de cada uma, assim. A gente trocou muito essa experiência de vida, de conversar como a gente está fazendo aqui: “Conta sua história. Vem cá, vamos sentar e me conta tudo”, e ela contar a dela, a gente fazer troca: “O que você acha se a gente fizer isso?” Então eu tive esse privilégio de trabalhar com pessoas muito humildes. [Sergio] Guizé, Grazi [Massafera] também muito humildes. Falavam assim: “Vem cá, vamos conversar sobre a cena. O que você acha?” E Guizé eu tenho amizade até hoje. Converso com ele, conheci a família dele, sou amiga da família dele, sou amiga dos amigos dele. Então a gente criou essa irmandade até agora. E como a gente teve esse tempo, também, de ficar muito, no início, em hotel, então a gente almoçava junto, tomava café... Porque a gente ia praticamente... Quase sempre juntos, nos mesmos horários, então criamos essa irmandade desde aí. Então eu aprendi muito com eles, muito. Eu sou muito grata. Não só com eles, mas com o elenco inteiro. O elenco inteiro muito bacana, muito humilde. Até em ouvir uma pessoa nova, como eu era ali, no meio de tantos e falar: “O que você acha? Ju, estou fazendo legal?” Eu falava assim: “Quem sou eu pra falar que não?”, sabe? (risos) “Como assim está pedindo a minha opinião?” E de você ver essa humildade, de falar: “Não, por favor, sua opinião importa”. Então foi uma puta experiência, aprendi muito. Até de levar pra vida os ensinamentos dos diretores, de cada conversa, de cada troca, com todo mundo.

P/1 – Juliana, você começou a receber cartas ou pessoas com nanismo te procurando ou nessa situação, se identificando com o personagem?

R – Sim.

P/1 – Você ganhou esse protagonismo na cena fora da televisão?

R – Sim. Até mesmo antes da novela às vezes eu recebia mensagens de outros pequenos, de pequenas, de meninas, falando: “Mas você sai, você vai pra balada, está sempre cheia de gente, de amigos, tal, não sei o que. Como?” Era como se fosse um absurdo. “Mas como você sai, como você consegue?” Eu falava: “Gente!” Ficava pensando: “Que louco, porque pra mim é tão normal, tão simples! Eu saio”. E explicar isso, pra mim, antigamente, era assim: “Gente, qual o problema? Vamos sair, tá tudo bem, sai”. Eu não entendia. Não é que eu não entendia, não tinha tanto... O personagem me deu essa imensidão de perceber essas pessoas que passam por preconceitos, por rejeições, e que realmente é real isso que as pessoas passam e elas não saem, não têm amigos, não se relacionam. E pra mim, antes, eu falava: “Gente, mas é tão normal! Sai, está tudo bem, você tem que ter coragem”. Eu falava nesse estilo. Depois da novela eu comecei a tomar mais cuidado, porque não é falar assim: “Vai lá e sai”. Não. É você perceber que você tem que conversar no sentido... Em primeiro, você tem que se amar, tem que se aceitar. Quando você tem isso, essa propriedade dentro de você, que você... Esqueci o nome, mas que você domina isso dentro de você...

P/1 – Apropria.

R – Apropria, isso, obrigada! Você apropria isso dentro de você, você nem precisa do outro para sair, você vai sair sozinho e está tudo bem, entendeu? Eu saía assim. O Rio de Janeiro também me deu esse aprendizado de sair sozinha e está ótimo, sabe? De não precisar de uma outra pessoa para ir na praia, para ir num shopping, para ir no cinema, entendeu? Antes eu era assim, hoje eu não sou mais. Hoje eu vou em teatro sozinha se eu quiser, e está tudo bem. Quando você domina esse sentimento de ‘eu me aceito, eu me amo’... E é isso: “Eu vou viver para o mundo, porque eu tenho...” – como é que é? –“direito a viver isso”, fica mais fácil. Então assim: é você ensinar ou passar isso para as pessoas. É falar assim: “Gente, se a pessoa, às vezes, não quer se relacionar contigo, quem perde é a pessoa, não é você”. Sabe, você tem que ter esse pensamento, essa coisa dentro de você, que não é, vamos dizer assim, vamos pôr: não é sua culpa a pessoa não querer ser seu amigo. A culpa é dele. Ele é que está perdendo.

P/1 – Como é que você se correspondia com as pessoas?

R – Por Instagram, Facebook, por aí. Mais por aplicativos, nesse sentido. Não cheguei a receber nenhuma carta (risos), mas era nesse ponto, assim. A importância que esse personagem teve foi muito surreal também, eu não imaginava o quão grande seria esse personagem para as pessoas. Tanto pra quem tem nanismo, quanto pra quem não tem. Até de falar assim, eu recebi várias mensagens: “Nossa, eu ria de vocês, mas agora, ‘putz’, eu entendo, eu respeito”. Pô, que legal! É isso aí! Não vou julgar porque ele ria. Se ele já se tocou que não é legal, obrigada. E, por favor, se puder passar pra frente isso, é incrível. Então, por muitas vezes recebi tantas mensagens de pessoas com, como também de pessoas sem, que não têm nanismo, sem qualquer outro tipo de deficiência. Mas eu acho que tem que tomar muito cuidado pra você responder uma pessoa, porque você mexe, você está falando da vida da pessoa. Então eu tomava muito cuidado pra tentar responder esse tipo de pergunta, porque não é eu falar assim: “Vai lá e faz”. Não é tão simples assim. Tem que: “Pensa em um dia sair, não liga para o que os outros falam, por mais difícil que seja, porque a gente vive num momento que todo mundo julga, num mundo que todo mundo julga, que todo mundo aponta, ri, mas seja segura de si, de você mesma. Seja segura de quem você é”. Quando você entende isso, fica tudo mais fácil. Hoje em dia eu me vejo muito bem relacionada com a minha autoestima, mas eu tive momentos que eu não era relacionada, não tinha um bom relacionamento com a minha autoestima, pelo contrário! Eu não me cuidava, não usava calça jeans, usava calça larga, porque na época – meio que voltando um pouco, né? – da minha adolescência, assim, primeira menstruação, veio estria, então ‘porra’: já era pequena, e ter estria? Acabou meu mundo. Aí eu falava: “Porra”. Pra mim, isso era o fim do mundo: “Não me gosto”. Mas depois que você começa a trabalhar isso dentro de você, se aceitar... E mesmo que tipo, se eu estou achando que eu estou linda e eu não estou: está tudo bem. Quer dizer, todo mundo vê que eu não estou linda, mas se eu estou me achando linda, o que importa é o que eu acho, sabe? E está tudo bem. Antigamente, às vezes, as pessoas saíam – talvez hoje ainda seja assim –, as amiguinhas todas iguais: calça jeans, salto e blusinha. Eu não saía assim. Eu saía, sei lá, talvez uma calça jeans. Uma calça jeans, mas eu usava tênis. “Você vai de tênis?” “Vou, vou de tênis. Estou confortável, estou bem, tá tudo bem pra mim. Por que eu tenho que usar salto? Só porque vocês usam? Não. Eu me sinto confortável, estou bem e vou curtir muito”. Passava uma hora, elas estavam com dor no pé e eu estava bem. É óbvio, eu estou falando assim como se fosse a coisa mais fácil, mas não é, é com o tempo. E acredito que tanto a família é importante para criar essa autoestima, pra ajudar essa pessoa, pra incentivar essa pessoa a sair, porque minha mãe falava: “Pode sair, sai”. Às vezes não: “Você não vai sair, vai ficar em casa”, mas tem que sair, tudo bem, pode sair. Ou hoje em dia eu sou uma pessoa que falo: “Preciso fazer terapia”. Sou adepta do ‘vamos, todo mundo, fazer terapia’. Nunca fiz. Eu vejo a terapia... (risos) o teatro me ajudou muito nessa questão, meio [como uma] terapia na minha vida, e meus amigos me ajudam muito. A questão de conversar com os amigos, de se abrir, de falar o que está sentindo, essas coisas e escutar a opinião de um amigo, já me ajuda muito. Mas, se for o caso, faça uma terapia, uma conversa com alguém, essas coisas. Então eu sempre tomei esse cuidado em falar com as pessoas: “Faz isso”. Não. “Pensa nisso, conversa com alguém”. (risos) Eu morro de medo de falar uma coisa, até mesmo porque a gente erra, né? Às vezes você fala: “Faz isso”, e não é legal para a outra pessoa. Eu acho que tem que ter muito cuidado. Mas é isso. (risos)

P/1 – Juliana, e quando acabou a novela?    

R – Eu voltei pra casa, porque meu contrato lá era por obra, então eu voltei. ‘Cara’, desde até o final da novela foi meio assustador a questão de que, do nada, acabou que eu virei uma pessoa pública. É muito louco, assim. Realmente eu entendo os artistas em falar que às vezes incomoda, porque você perde, realmente, uma liberdade. Está todo mundo te observando e tal, não sei o que. E aí eu ia no shopping e não conseguia andar, sabe? Eu ia no mercado e não conseguia andar. E é uma coisa que eu fazia tão normalmente na minha vida que, do nada, você não consegue... Era assustador, nesse ponto. Mas então eu voltei pra casa, ainda tive alguns outros trabalhos recorrentes por causa da novela. Outros trabalhos assim, de entrevistas, programas, essas coisas. Ainda tinha algumas outras atividades nesse tempo, e depois acabou a novela, eu voltei pra casa, resolvi algumas documentações que eu tinha pra resolver da casa, dei um tapa no ‘visu’ da minha casa também – nada demais, mas só porque, desde quando a minha vó faleceu, a gente não tinha mudado nada. A casa também não era nossa. Por muitas vezes o meu irmão, desde a época que a minha mãe e vó faleceram, dormia na sala, porque ele não conseguia dormir no quarto, porque lembrava muito, a gente tinha muita coisa ainda. Eu, a partir do momento que minha vó faleceu, assim que eu fui tendo uma oportunidade, tirei o guarda-roupa, um negócio, outro negócio, que a lembrava, fui mudando um pouco. Depois, com a novela, eu consegui realmente mudar e deixar a casa mais com a nossa cara, né, eu e meu irmão. E, por incrível que pareça, (risos) eu não consegui nenhum outro trabalho. Passou um tempo, assim, um ano desde quando acabou a novela, acho que quase dois, eu não consegui trabalho. E depois de quase dois anos eu consegui um trabalho, que praticamente foi agora, que era um espetáculo infantil que eu estava ensaiando, tudo, mas aí, como veio a pandemia, acabou. Parece perto, mas não é, mas não parece tão distante, né? Porque praticamente já passamos metade de um ano aí por causa da pandemia, então se perdeu metade de um ano, já. Eu estava para fazer esse espetáculo, mas aí foi cancelado por causa da pandemia. Aí a gente também resolveu não fazer espetáculo esse ano, porque era infantil, físico, então, automaticamente... Por ele ser mudo, a gente trabalha com pouco público, né, bem menor, tal, mais intimista, porque é físico, é mudo e é ilusionista, o espetáculo. Então não adianta você fazer em um lugar grande, porque senão você perde as coisas. É pra um lugar pequeno e tudo. E, com tudo isso, a gente resolveu nem voltar esse ano, porque pra gente não ia funcionar. A gente ia fazer – dependendo, se a gente fosse trabalhar –, pra menos de cem pessoas. Pra gente também não ia compensar voltar esse ano, então deixamos para o ano que vem, voltar a atividade com espetáculo.

P/1 – Juliana, e o movimento ‘Somos Todos Gigantes’?   

R – Eu acho bacana. Eu conheci o pessoal, né, o Gabriel, tudo, e a mãe dele, se não me engano é Juliana também, não lembro. É Juliana. Eu sou péssima com nome. Conheci. Eu acho bacana. É um movimento que se iniciou assim e teve muito respeito, sem ser o pessoal do movimento, o pessoal de fora teve muito respeito por isso, e eu acho bacana. Eu não tenho muito contato com eles. Hoje em dia a gente, no Rio de Janeiro, tem o (Ana Régis?) (1:59:00) também, que é uma associação de pequenos do Rio. Aqui em São Paulo a gente tem... Gente! o Nanismo BR, que é um pessoal bacana também, que eu conheço, são meus amigos, tudo, e que, por ser aqui em São Paulo, eu consigo ter mais acesso a eles. Então a gente está crescendo, eu vejo um belo crescimento aí, vamos pôr, nesse meio: o pessoal que tem nanismo, a galera. E eu acho que é isso: a gente tem que, mesmo, se juntar, se mexer. A internet te dá possibilidade, hoje em dia, de ter voz, coisa que a TV não te dá muito, comparando a internet com a televisão, a internet te dá mais voz, você consegue ter mais voz hoje em dia, e acredito que até um pouco mais pra frente, o que vai dominar vai ser a internet – mais do que a TV, essas coisas. Então eu acho bacana, e eu super apoio todos, estou em todos.   

P/1 – Juliana, o que o passar dos anos te trouxe? O que você falaria, hoje, com a sua experiência, pra você há 20 anos?

R – Ai, que difícil! Sinceramente, eu acho que eu passaria... Eu não mudaria nada. Até mesmo porque tudo que eu passei me ajudou muito a evoluir como ser humano, como mulher, como adulta, vamos pôr assim. Como profissional. Eu não mudaria nada. Talvez, eu acho que o que eu falaria para aquela pessoa, para aquela criança – que ainda era uma criança –, seria: curtir, realmente, a criança. Eu curti muito. Brinquei de boneca até os meus doze anos. Brincava de Ana Maria Braga, fazia a Ana Maria Braga, sozinha, no meu quarto, fazendo com arroz cru, achando que estava cozinhando. Brincava assim. E não mudaria. Acho que, se eu soubesse que realmente ia acontecer tudo que aconteceu comigo... E falar para aquela criança pra realmente aproveitar muito. Eu aproveitei muito, assim, mas eu acho... Parece que foi pouco. Eu acho que por tudo que foi, [foi] tão rápido... Eu não sei se chegou o momento, por tudo que aconteceu, eu acabei realmente deletando muita coisa da minha cabeça, sei lá, pra não sofrer. Mas eu sei que eu aproveitei muito a minha infância. Quebrei dedo, rasguei queixo, enfim; caí do armário, fui várias vezes parar no hospital, caí da escada, desmaiei. Essas coisas foram a minha infância. E talvez acho que eu falaria assim: “Aprenda a andar de bicicleta”, porque até hoje eu não sei. Eu acho tão libertador uma bicicleta! Mas eu falaria isso: “Curte a criança, a infância”, porque quando você é criança, você quer crescer. Você: “Não quero ser mais criança. Quero ter dezoito anos, quero ser adulta, quero trabalhar”. Mas quando você chega nesse ponto, você fala: “Ai, meu Deus! Como eu não curti! Por que eu quis avançar tanto a minha idade?” Então eu acho que eu falaria: “Curte a criança que tu é, a infância que tu tem, a família que você tem, mais” – porque eu sei que eu curti muito – “mas curte mais”. Eu acho que é isso, porque de resto eu não mudaria nada. Eu, sinceramente, penso que, talvez, se minha mãe ou minha vó não falecessem, eu acho que eu não seria o que eu sou hoje, sabe? Realmente, isso eu tenho certeza: eu não estaria fazendo o meu trabalho, que eu faço hoje. Só que eu acho que talvez eu não seria tão o ser humano que eu sou. Eu não sei se eu seria tão... Eu me sinto muito humana. Mesmo errando, sabe? Às vezes você erra, tudo, mas eu aprendo com isso. Mas eu me sinto muito humana, e eu não sei se eu seria assim, eu acho que não. Não sei, eu acho que não, sinto que não. Não sei como eu seria. Não sei te explicar se seria metida, seria isso, não sei. Mas eu acho que eu não seria tão simples, tão humana, que eu sei que eu sou hoje. Realmente, eu não seria o que eu sou hoje, seria uma outra pessoa. Isso eu tenho certeza. E eu admiro muito quem eu sou hoje. Acho que ter passado por tudo que eu passei, realmente, é uma coisa que eu sinto muito orgulho. Não é... Não estou jogando na cara, nada disso, mas que eu sinto muito orgulho de ter trabalhado, mesmo ganhando pouco, como eu já ganhei muito pouco, mas ter trabalhado todas as vezes que eu trabalhei, em todos os lugares que eu trabalhei e nunca ter pedido dinheiro pra ninguém. Não estou jogando na cara, não é isso. Mas eu sinto orgulho disso, porque nunca faltou nada pra mim, sabe? E foi pelo meu esforço. Então disso eu tenho orgulho, da pessoa que eu sou hoje, por isso: pelo meu esforço, por ter chegado aonde eu cheguei. Eu acho que foi pela minha luta, pela minha garra, pela minha força, e isso eu admiro muito em mim. Não quero aparecer (risos), mas eu acho que eu pediria pra passar de novo por isso, porque é um ponto, a meu ver, de orgulho, mesmo tendo passado por tanta tristeza.

P/1 – Tem alguma coisa que você fala assim: “Não tenho mais tempo pra isso”? A vida te ensinou e você fala: “Pra isso eu não tenho mais tempo”?

R – Ah, sim. (risos) Eu não tenho mais tempo, mais paciência. Por mais que eu fale que eu não tenho mais paciência, mas infelizmente a gente ainda passa por isso, a gente tem que conviver com isso, que é a questão do preconceito, da falta de empatia. Se eu pudesse, era uma coisa que, realmente, eu não queria ter paciência, porque não precisaria passar por isso. Mas a gente passa, infelizmente. Mas hoje eu vejo que antigamente as pessoas... Eu fui muito dependente das pessoas por um bom tempo. Dependente de amizade, de alguém... Eu precisava ter alguém, assim. Hoje eu não tenho mais isso. Acho que isso seria: “Não preciso mais disso, não tenho mais paciência pra isso”. Antes eu me preocupava muito com o que as pessoas falavam. Por mais que eu fizesse tudo certinho, eu me preocupava. É claro, eu me preocupo numa questão de não fazer algo errado, nesse sentido, e dane-se os outros. Não, “Vou fazer mal para os outros e dane-se os outros”? Não. Mas, por exemplo, independente... Se você tem uma opinião diferente da minha, eu respeito, mas se não serve pra mim, não serve e ponto. Pra mim também, antigamente, isso me importava muito, e às vezes eu deixava de pensar, de ter a minha opinião própria porque, como dentro de mim, eu era dependente de você, mesmo você nem sabendo, pra mim você tinha que estar na minha vida, então eu não queria te perder, e eu aceitava a sua opinião, o seu modo, as suas regras, vamos pôr assim. Hoje em dia não, eu não aceito. Não faz parte de mim. Eu tenho a minha opinião, respeito a sua, óbvio, mas se não faz... Está tudo bem, cada um vive do seu modo e está tudo certo. Eu era muito assim. Hoje eu já não sou mais. Acho que aprendi e falo: “Não preciso tanto dos outros”. Antes eu precisava muito dos outros. Não estou minimizando alguém, nada disso, mas eu acho que quando você aprende a ser independente, é muito melhor, do que ser dependente de alguém. Foi bem libertador pra mim, quando eu me toquei disso, que eu sou independente, eu consigo ser independente. Não preciso ser dependente de ninguém, independente de quem for. (risos)

P/1 – Ju, quais são seus planos de futuro, ou, onde você se imagina daqui a dez anos? Onde você gostaria de estar?

R – Isso, sinceramente, foi meio que um antes e depois... Até antes mesmo da minha mãe morrer, eu tinha meus planos, meus sonhos, tudo. Depois que minha mãe morreu, isso acabou comigo, meus sonhos foram tudo por água abaixo. Mesmo depois, eu pensava em várias coisas, queria planejar isso, aquilo, e tudo dava errado. Isso me frustrava muito. Então, eu meio que aprendi, e tomei como vida não planejar essa questão: “Daqui a dez anos, onde eu vou estar?”, sabe? Não planejo isso. O que eu desejo, obviamente, é ainda estar fazendo meu trabalho, ser respeitada pelo meu trabalho e ver esse espaço da arte, do audiovisual, do teatro se abrir para essas pessoas com algum tipo de deficiência, para elas que querem ser artistas, que elas tenham esse espaço, sabe? Que isso cresça nesse sentido, eu espero isso com meu trabalho. Eu espero... Ai, sei lá, acredito que... Eu não sei se com uma família ou não. ‘Cara’, é muito difícil. Realmente eu não consigo planejar essas coisas. Eu vou vivendo um dia após o outro. É óbvio que eu tenho um planejamento, talvez, de ter tudo organizado na minha vida. Eu quero tentar, com meu trabalho, poder fazer algum investimento pra minha vida. Não sei o que, mas se fosse pra abrir uma loja, algo voltado, talvez, pra alguém... Para pessoas com nanismo, tanto loja de roupa ou calçados, algo nesse estilo. Já pensei, como um outro investimento para minha vida, que acrescente na minha vida. Eu não sei. Eu acredito que trabalhando, estando feliz, bem resolvida com essas coisas, pra mim já é o suficiente. Pretendo, sim, montar uma família. Agora, também, se não montar, se não acontecer, está tudo bem, sabe? Eu fico pensando: se não der certo daqui pra frente minha carreira, o que eu vou fazer? Não sei. Não consigo pensar em outra coisa para fazer na minha vida, de carreira, que não seja essa. Mas também, se acontecer, lá eu vou pensar. Sinceramente, eu não consigo pensar futuramente. Eu quero estar fazendo o meu trabalho, quero estar sendo respeitada por ele, estar conseguindo cada vez mais respeito não só no meu trabalho, mas no mundo inteiro, que tenha mais respeito. É isso que eu desejo, espero ter, sabe? Os meus planos eu vou dizer que são bem simples, humildes. Eu não sei, de verdade. Acho que eu tenho medo de fazer esses planejamentos do futuro, grandes, o que for, e não conseguir, aí eu me frustro, aí eu fico mal. Eu não quero isso. Então, se acontecer, ótimo, se não acontecer, está tudo bem também. Daí eu já tenho isso na minha cabeça, que está tudo bem. Mas eu vou planejando aos poucos.

P/1 – Ju, o que você achou de contar a sua história de vida hoje?

R – É difícil, né? (risos) É difícil. Eu acho legal porque, muitas vezes, ainda, muitas pessoas não me conhecem, não sabem. Eu acho que, às vezes, mostrar um pouco essa questão que eu falo, por ser uma pessoa com uma deficiência e ter acontecido tudo isso, sabe, na minha vida, mostra que todo mundo é capaz, que você é capaz de seguir, de conseguir, de realizar seus sonhos que você quiser, que você deseja. Nada é impossível, sabe? Realmente, eu nunca imaginei fazer uma novela e estar na Globo. Então, quando isso aconteceu, ‘caraca’, que bom, sabe? E é possível. Então nada é impossível. Você é capaz. Então eu consegui mostrar que, independente de tudo o que aconteceu na minha vida, eu tive força pra continuar, ainda mais, de lutar nesse mundo de preconceitos, de desrespeito, de falta de empatia e de amor, e ainda [assim] seguir em frente, que, se as pessoas escutarem isso e falarem: “Caramba, é possível”, nossa, eu fico muito feliz. É óbvio, eu não quero... Quem sou eu pra, sei lá, ser um exemplo. Mas, se servir de exemplo pra alguém, eu fico muito grata, muito contente. É meio que também uma evolução poder contar um pouco da minha vida, e pra mim está tudo bem também não sofrer, não chorar. Isso, pra mim, também é legal, porque, por muitas vezes, pra mim foi muito difícil falar da minha vida. E eu nunca falei, mesmo depois, começando na TV, demorou muito pra eu falar da minha vida. Demorou muito pra eu falar que eu perdi minha mãe com dezesseis anos, em TV aberta. Demorou muito para as pessoas saberem tudo o que aconteceu na minha vida e falarem: “Caramba”. E mesmo fora, quando eu começava um trabalho novo, tudo, eu não contava: “Perdi minha mãe”. Eu estava indo, ‘vou vivendo e nisso fluindo’. Não contava também, porque não queria contar, porque eu sofria com isso. Hoje eu já não sofro mais, e está tudo bem. Isso, pra mim, também já é uma evolução, até pessoal, minha, e que é incrível. É difícil, não vou falar que é fácil, porque não é fácil, não, até mesmo pra lembrar, né? Porque eu não esperava por essa. Mas foi o que eu falei: eu acho que nesse ponto é onde faz eu ter, realmente, orgulho do que eu sou, de quem eu sou, da pessoa, do ser humano. Ainda mais sendo uma pessoa com deficiência. E você fala: “Caramba, olha tudo isso que eu já passei e estou aí”. Mas é muito bom. (risos) Eu acho que, se eu conseguir ou se servir para alguém, que for um por cento, eu fico bem feliz.

P/1 – Ju, e contar sua história e deixar registrado no Museu da Pessoa?

R – Eu jurava que eu não esperava por essa. (risos) É uma grande responsabilidade, é muito gratificante. É real, é muito gratificante ter esse espaço, nesse lugar, e aí, estando nesse local, tendo esse espaço de fala, automaticamente eu acabo falando não só por mim, mas por milhares de pessoas que têm algum tipo de deficiência. Eu não gosto, sempre quando vou falar do nanismo, tudo, eu sempre pensei em falar do nanismo e automaticamente incluir todas as pessoas que têm deficiência, porque eu acho que é isso: a gente precisa se unir. Tanto a gente, com uma deficiência diferente do outro... A gente tem que saber respeitar, e vamos pôr assim: abraçar a gente, porque a gente já não é nem abraçado pelos outros. Então, além de tudo, não ser abraçado por uma outra pessoa que tem uma deficiência, eu acho muito triste. Então, eu sempre falei, não só do nanismo, mas querendo falar... Não no lugar do outro, né, porque eu não posso falar de uma outra deficiência, porque eu não tenho, não sei, mas pelo menos no sentido de incluir outros deficientes na palavra de respeito, de empatia e de amor, isso eu vou fazer com qualquer pessoa. Então, ter esse espaço pra poder representar muita gente que às vezes não tem coragem de fazer algo, de realizar um sonho, nem de sair pra comprar um pão, às vezes, porque as pessoas vão dar risada, e você poder incentivar uma pessoa: “Não, saia, você merece, tem direito, você tem que viver, tem que ser feliz” é muito, muito, muito gratificante. E poder imaginar que muita gente, com ou sem deficiência, vão estar vendo esse registro aí, é muito gratificante. Fico muito feliz, mesmo, de poder estar participando disso.

P/1 – Ju, queria te agradecer em nome da Trip, do Museu da Pessoa, por você tão generosamente compartilhar sua linda trajetória de vida.

R - Obrigada! (risos) Obrigada mesmo, obrigada pelo convite! Eu não esperava por essa. Pensei que seria só uma entrevista básica.

P/1 – No Museu a gente também pega algumas fotos, a gente vai pedir pra você selecionar. Aí a Ane, do Museu, vai entrar em contato com você, pra selecionar umas dez imagens que você ache... Dez, quinze que você achar bacana, que resumam sua trajetória de vida, que daí a gente faz uma historinha da foto também.

R – Uma coisa que eu poderia incluir, pra falar pra menina lá de trás, pra Juliana novinha: “Tire mais fotos”, porque, nesse aspecto de registro, naquela época a gente não tinha tanta foto. Eu tenho pouquíssimas fotos da minha mãe, da minha vó. É muito raro. Até junto com elas, é muito raro, tenho poucas. Então, acho que eu falaria isso: “Tire mais fotos”, para poder, depois, ter guardado. Eu amo foto, eu tenho muitas fotos reveladas, e é um jeito de você voltar no tempo, de lembrar, porque são histórias que, às vezes, você olha, você lembra do que foi aquela foto, naquele dia, tudo.

P/1 – Por isso que a gente faz até uma ficha da foto. Quando você vai ver a foto, vai contar uma história dela.       

R – Sim. Então eu vou tentar achar o que eu tenho de fotos. Eu não sei como é pra vocês, mas talvez fique foto da foto, sabe? Não sei se tem algum problema pra vocês, mas tudo que eu tiver, eu mando. O que eu achar, eu vou mandar. 

P/1 – Porque geralmente a gente faz essa entrevista e, quando separa as fotos, a gente já digitaliza. Mas acho que ela vai te dar todas as explicações.

R – Claro, claro. Mas aí eu mando tudo que eu tiver aqui pra vocês.

P/1 – Tá bom. Querida, beijão!

R – Prazer! Obrigada, mesmo!

P/1 – Meu nome é Rosana, eu posso te passar o e-mail, eu peço pra deixar meus contatos com você, se você quiser anotar.

R – Eu posso anotar, como também se, depois, vocês quiserem passar, também.

P/1 – Se quiser eu ponho aqui no chat. Quer? Fica mais fácil pra você anotar?

R – Tanto faz. Pra mim, pode ser. Porque é bem importante. Como vai ser meio que no início de agosto, eu quero deixar aqui. Se vocês quiserem colocar também, fiquem por vocês, e está tudo bem. Eu e um amigo meu estamos montando um congresso online, e vai ser dia 29 e 30 de agosto, chamado Genética não é Destino, que a gente vai fazer dois dias de congresso com vários mentores. A gente está chamando como ‘mentores’, mas a gente vai ter várias pessoas especialistas pra esses assuntos que você acabou até me perguntando, sobre genética, empoderamento, mulher e homem também, nessa questão com deficiência – empoderamento pra pessoa com deficiência. A gente também vai falar para as pessoas sem deficiência, até mesmo uma questão de como tratar. Pros pais, como ensinar, educar, porque às vezes os pais também protegem tanto que acaba prejudicando no crescimento da pessoa, nessa questão, até mesmo, de às vezes a pessoa não sair porque tem medo, porque o pai criou isso nela. Então,  gente vai ‘estar falando’ para todos os tipos de pessoas, para todos os tipos de deficiência. É um congresso totalmente gratuito, só precisa entrar no site e se inscrever pra poder receber o link e participar. A gente criou um clip também, com uma música inédita para falar sobre isso. Então, nesse momento também que a gente viu, da pandemia, essa questão de a gente ficar tão trancado em casa e como a gente pode trabalhar a mente – ainda mais para uma pessoa que tem algum tipo de deficiência – [para] não ficar depressiva, sabe? A gente vai falar tudo, com várias pessoas especialistas em cada caso. A gente tem o Doutor Fernando Gomes, um neurocirurgião que fazia o programa da Fátima, falando da parte do cérebro, dessas coisas, de como que a cabeça – pelo menos a minha –, tanto me sobe, quanto me desce. Os meus pensamentos me fazem estar lá em cima ou estar lá embaixo. Pra cair numa depressão nesse momento, é facinho. Então, tudo é uma questão, também, de como você trabalha isso dentro de você, então a gente está montando esse congresso. Está bem bacana. Eu posso, até, também, te passar o site pra você dar uma olhada.

P/1 – Eu vou dar um toque pro pessoal da Trip, como é possível essa divulgação, se é possível.

R – A gente está pensando também nessas pessoas porque hoje em dia a internet ajudou muito, né? Essas lives, essas conversas, tudo. Mas se você parar pra pensar, não teve esse olhar pra pessoa com deficiência. Então a gente está levando esse olhar com muito carinho para as pessoas, como empoderar as pessoas.

P/1 – Passa os dados todos sistematizados nesse e-mail, tá bom?

R – Passo, sim. E aí, se puder falar, está ótimo. Se não, tudo bem, não tem problema.

P/1 – Tá. Mas me passa.

R – Porque é um jeito, também, de a gente ensinar isso.

P/1 – É que no Museu a gente não tem esse espaço, mas eu vou falar com a galera da Trip e vou ver outros espaços também e eu te falo.

R – Legal. Mas obrigada! Mas fica à vontade, está tudo certo.

P/1 – Super obrigada você, querida!   

R – Imagina!

P/1 – Régis, tudo bem, querido?

P/2 – Obrigado, Juliana! Obrigado, Rosana!       

R – Imagina! Obrigada!

P/1 – Obrigada, Régis!       

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