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História

Sem medo de arriscar

Sinopse

Infância de brincadeiras em Santos. Sonho de ser motorista inspirada pelo pai. Trabalho em uma profissão anteriormente dominada por homens. Abertura da sua própria empresa de doces gourmet.

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História completa

Eu lembro que meu pai trazia bala para mim, [ele era motorista]. Toda vez quando ele chegava em casa ele trazia um doce para mim, ou era uma balinha de canela, ou um doce. E eu sempre achei legal assim, dirigir, sempre fui apaixonada pelo que ele fazia, tanto é que foi onde eu me identifiquei, minha primeira profissão, assim, de dirigir, foi ônibus, igual a ele. Sempre quis ser igual o meu pai.

Eu estava no ponto de ônibus, aí eu via passar, logo quando eu comecei, uma motorista, bem novinha. A Fran, que hoje é até minha amiga, ela fazia a linha da Ana Costa. Aí eu olhava assim e pensava: "Nossa, a menina é novinha e dirigindo". Eu tinha... 19 anos. Aí eu tive que esperar, no caso os 21 anos, para mudar a minha categoria, que a minha eu já tinha, a carta. A e B. E daí eu fiz o teste, passei no da empresa, no psicotécnico que precisava lá, no psicólogo, passei e comecei a treinar no ônibus, e aí foi onde eu virei motorista. Na época eu era a motorista mais nova da empresa, eu comecei com 21 anos.

Na empresa não [sofri nenhum preconceito]. Na empresa, assim, os funcionários não, mas pelos colegas assim... Porque já teve colegas meus, homens, que faziam o mesmo que eu, que fizeram teste não passaram. E eles ficavam tipo, meio que desdenhando, falando que era só porque eu era mulher que eu tinha passado, e eu simplesmente fiz a mesma coisa que eles, o psicológico lá, e passei.

Nossa, eu amava. Quando eu estava no ônibus, eu achava que eu era poderosa. É muito gostoso, é uma sensação muito... E eu personalizava tudo, era tudo rosa. Capa do banco era rosa, cinto rosa, aquele... Aquela toalha que põe atrás, para os passageiros não ficarem... Tudo rosa. A capinha do câmbio era rosa, então eu gostava muito. Gostava muito, era muito legal. No começo dava muita insegurança, né? A gente começa com micro, micro-ônibus, e aí depois vai subindo, vai... Você começa com o salário de micro e depois faz um teste, vai para o ônibus convencional. E tenho muita saudade.

Quando eu comecei, não tinha muita mulher dirigindo. Agora não, agora tem bastante, mas quando eu comecei, há uns 15 anos, não tinha tanta mulher como tem hoje. Então quando eu subia no ônibus eu ficava assim... Sabe, aquela emoção, eu me sentia. Era muito prazeroso. Era a minha profissão, mas era mais do que a minha profissão, eu gostava porque eu me sentia, sei lá, uma rainha ali. Porque, né? Um ônibus tão grande. Eu não tive preconceito assim de ninguém, porque graças a Deus eu sempre dirigi muito bem.

Sempre fui muito elogiada, porque eu nunca tive medo. Eu manobrava mesmo, com container, e tinha motorista que tinha medo, às vezes, tinha que fazer uma manobra mais rápida porque o trabalho estava pedindo aquele determinado container, eu fazia uma manobra rápida, e tinha um homem que dava a volta para ir de frente, para não fazer a manobra, entendeu? Então assim, eu graças a Deus sempre dirigi bem, nunca tive nenhum acidente.

Aí de lá eu fui mandada embora, porque teve um corte, fiquei acho que um mês também recebendo. Sempre quis ter uma coisa pra mim. Quando eu casei, eu casei com meu marido lá na BTP, né? Eu tenho a minha casa, eu comprei a minha casa com 25 anos, e eu sempre morei sozinha. Tive os meus filhos, mas eu morei sozinha. E quando eu me vi dona de casa, aquilo... Eu fui entrando numa depressão de ficar acordada, fazer comida, lavar roupa... Eu não tinha isso, eu nunca tive isso. E eu já estava naquela rotina de dona de casa e eu nunca me vi nisso, e aí eu comecei a procurar na internet o que fazer.

Como eu sempre vendi as coisas, né? Aí eu fui querer fazer alguma coisa, primeiramente eu vi o suco detox. Falei: "Ah, vou fazer o suco detox, vou entrar na academia, ofereço suco detox". Aí logo embaixo tinha um vídeo de brigadeiro gourmet. Aí eu falei: "Vou fazer". Aí fiz, vi o vídeo, assisti, comecei a me interessar. E lá em São Vicente tem uma loja que dá cursos, vende os doces e da curso. Aí procurei me informar, fui fazer um curso. Fiz o primeiro curso e daí me apaixonei pela área do doce. Foi até antes do meu filho fazer aniversário, foi no finalzinho de abril, começo de maio. Aí eu fiz o curso e comprei os ingredientes para o doce. Aí eu fiz um brigadeiro de café e ofereci na festa. Todo mundo amou. Todo mundo amou. Aí eu levei no trabalho, dei pra umas pessoas que também gostaram. E aí quiseram mais, e daí que eu vi, que eu comecei, com brigadeiro.

Aí até que eu quis sair da BTP para ficar com um negócio meu. Muita gente criticou, né? "Ah, não vai dar certo, tudo isso e aquilo", mas eu sou uma pessoa que eu tenho que tentar pra falar, não, se não der certo, eu tenho profissão, motorista tá precisando em qualquer lugar. Então eu fui, tentei e graças a Deus tá aí. Tenho a minha bicicleta e abri uma loja em junho.

O medo deixa a pessoa muito reprimida, entendeu? E eu nunca fui assim de ter medo, eu sempre fui assim de botar as caras, se não der certo pelo menos eu ia saber que eu tentei fazer o que eu quis e não deu certo. Seria pior se eu ficasse "Ah, mas se eu tivesse? Se eu não tivesse... Se eu tivesse saído, como é que ia ser?". Meu pensamento é esse.

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