Busca avançada



Criar

História

Sem enxergar, vê tudo.

História de: Naira Rodrigues Gaspar
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/02/2021

Sinopse

Diagnóstico de retinose pigmentar na infância; Estudou em diversas escolas de Santos; Na adolescência era Transgressora; Teve hipotiroidismo juvenil, uma doença crônica; Ficou cega aos 19 anos; Cursou Fonoaudiologia; descobriu o preconceito com o deficiente; Teve dois filhos; Cesárea; Morou e trabalhou em São Paulo; Passou em concurso público para trabalhar no hospital; É gestora do município; Trabalha com saúde mental em Santos;

Tags

História completa

NAIRA HISTÓRIA/TEXTO Eu nasci no dia 30 de dezembro de 1969, em Santos, São Paulo. Eu gostava muito de brincar de ‘polícia e ladrão’ – geralmente eu queria ser sempre a chefe dos ladrões –, de ‘seu reizinho mandou’ e eu gostava de ser sempre o reizinho. Eu lembro d’eu aprendendo a andar de bicicleta, bem pequena, eu aprendendo a andar de bicicleta, e era um amiguinho meu da rua que tava me ensinando, só que eu não sabia fazer curva ainda, aí eu fui fazer a curva e caí numa poça d’agua, fiquei muito brava, chorei muito, fiquei com muita raiva. Era uma infância, infância mesmo, né. Nessa época na década de 70, foi quando foi diagnosticado que eu tinha retinose pigmentar, eu tinha seis anos de idade, eu estudava numa escola de educação infantil perto de casa, uma escola pública. E aí foi feito um exame, dessas campanhas de prevenção, né, de saúde ocular na escola, e viram que eu tinha alguma dificuldade, foi aí que os meus pais me levaram no oftalmologista e ele falou que eu tinha uma doença muito rara na época, que se chamava retinose pigmentar, e que eu ia ficar cega um dia, e que era melhor eles me colocarem no internato pra pessoas cegas, aqui em Santos tinha um internato na época, pra moças cegas, inclusive o nome é Lar das Moças Cegas até hoje, e que me levassem pra lá, que eu ia ficar cega um dia, então que era melhor eu já ir me acostumando com essa vida. Meu pai brigou com o médico, minha mãe ficou arrasada, foi sempre uma tortura pra eles, né, e a partir daí eu passei um pouco a ser uma menina muito blindada de tudo, cuidada, eu era a única neta mulher também, então sempre bem mimada. Eu pensava em querer alguma coisa, queria comer alguma coisa e aí a minha vó já fazia, já trazia, era sempre assim. E eu lembro da minha infância que era só o aqui e agora, né. Talvez essa tenha sido a única fase da minha vida que eu vivi o presente intensamente. Foi na infância. Aprendi a ‘bulá’ aula, no primeiro ano do ensino médio, comecei a ir para bailinho, então o primeiro ano do ensino médio foi uma delícia, assim, que era... foi quando eu descobri a adolescência, né. E depois eu mudei de escola novamente porque aí eu fui fazer magistério, eu queria ser professora, aí eu fui para o Coração de Maria, que era uma outra escola, que também era de freira, mas ela tinha curso de magistério, que era o curso de formação de professores na época. Mas aí eu já comecei a ter uma perda visual, já estava com baixa visão, mas mesmo assim eu andava de bicicleta pra cima e para baixo. Aí reprovei nesse ano e aí eu fui pruma outra escola depois pra fazer o segundo ano do ensino médio de novo, que aí eu desisti de fazer magistério, Só que aí eu tive que começar a assumir e a entender a perda visual nessa época, porque eu fiquei cega com 19 anos, nessa época eu tinha 17. Eu queria fazer faculdade de direito na verdade, fui parar na Fonoaudiologia, né, mas... quase ali. Na verdade em 89 eu cheguei a fazer, prestar o vestibular para Direito, mas assim, eu não sabia braile e eu não enxergava pra ler, então eu fiz com ‘ledor’, e o cara que leu a prova pra mim não sabia nem ler direito, e principalmente em inglês e eu acabei zerando na prova de inglês e não passei, porque não podia zerar em prova nenhuma. E aí que eu fui fazer reabilitação. Num primeiro momento, eu fui pra essa instituição que chama Lar das Moças Cegas, que era um internato, nessa época eles já tavam se abrindo e passando pra atendimentos meio ambulatoriais externos e eu fui fazer a reabilitação lá, mas eu achava aquilo tudo muito estranho, porque tinha meninas da minha idade ou até mais velhas que eu que viviam confinadas lá, né, era muito estranho aquilo pra mim. E fui para lá, só que eu não aceitava muito as regras e limites, eu não podia aprender braile porque eu tinha um resíduo visual, então eles não queriam me ensinar o braile, e aí eu tive que aprender braile escondido, umas meninas lá começaram a me ensinar. Aí a professora de braile descobriu e falou “não, então você vai pra sala de braile”. Foi aí que eu comecei a usar a bengala, guia, né. E nessa época foi o ano da primeira eleição direta, né, do pós-ditadura militar, já havia tido uma eleição indireta, né, que foi quando o Tancredo eleito, e agora em 89 era a primeira eleição direta para presidente da república, e eu fazia campanha pro Lula, enlouquecidamente, e como eu incomodava muito dentro da instituição, eles me convidaram pra participar de algumas reuniões que estavam acontecendo. Santos já era uma administração do partido dos trabalhadores e eles me convidaram pra fazer parte de umas reuniões que estavam tendo, eles nem sabiam direito do que era e eu comecei a ir, que era um pouco para me tirar, né, de dentro da instituição. E aí foi a minha grande sorte porque era uma reunião de movimento sociais, pessoas da militância, de uma militância principalmente de esquerda, né, que estava discutindo a criação do Conselho de Direitos da Pessoa com Deficiência aqui em Santos. E foi aí que eu fui me reabilitando de fato, eu falo que eu me constituí como pessoa com deficiência, na mão do movimento social, né, neste momento. E aí foi isso, aí é vida que segue, né, depois eu desisti da faculdade de direito e fui fazer fonoaudiologia. Num primeiro momento, né, quando eu entrei como fono, eu acho que o grande desafio foi suportar a dor do outro. A gente lida com situações muito limite, é limite da dor humana, do sofrimento humano, é com violência, com pobreza extrema, com exclusão, com racismo, com machismo, é, capacitismo, com várias... todos os tipos de preconceitos, eu acho que na saúde mental eu coloco muito em prática tudo que eu fui construindo em termos de conceito de vida, de humanidade, sabe, dentro duma perspectiva do direito humano, então eu acho que isso é que me encanta. Mas acho que num primeiro momento foi suportar a dor, né, conseguir lidar com a dor do outro, e como a dor sendo do outro, mas estar junto. Sem trazer a dor pra mim, o que é muito difícil, né. Nessa fase da gestão, eu falo que eu atendo dez psicóticos, mas eu não faço uma reunião de equipe, né, como... assim, de maneira confortável, sabe. São as pessoas, as pessoas, a relação com as pessoas, o preconceito, as pessoas não acreditarem no que tão fazendo, acharem que de fato o trabalho com a saúde mental é um trabalho de padronização de comportamentos... Eu tive uma psicóloga que trabalhava comigo, logo no segundo mês que eu tava lá, ela falava pra mim assim: “vou te dar um recado, meu bem, autoridade não se cria por aqui, viu, fica esperta”, então era esse o nível, né. Tinha um psicólogo que antes d’ele sair da unidade, ele falou pra mim que eu não tinha nenhuma qualificação para ser chefe dele, quem era eu, mas o que nós temos hoje é que eu sou sua chefe e você é funcionário dessa unidade, e a porta ali, ó, tá aberta, você pode retirar, porque aqui você não trabalha mais”, né, e aí transferi ele de unidade. Eu tive essa possibilidade de trocar a equipe, né, mas eu trabalhei com pessoas muito perversas nesse começo, e se elas eram assim comigo, imagina o que elas pensavam dos meninos e meninas e daquelas famílias. A minha equipe é muito jovem de maneira geral, então é uma delícia trabalhar com essa molecada, com essa moçada. E eu acho que meu desafio, meu maior desafio é a relação com as pessoas, é viver nessa berlinda das crises de confiança que alguns trabalhadores têm em relação à minha gestão, e aí é isso, por eu ser uma pessoa cega, por eu ser uma pessoa que não venho da saúde mental, né, por eu ser quem eu sou, sei lá o que. As pessoas de fato desqualificam muito o que eu faço, muitas vezes, e aí eu às vezes tenho que dar uma de doida. Eu tenho adoecido bastante, né, mas quando eu chego lá, piso na unidade, e vejo aquela molecada, e vejo o que tá rolando, e vejo as pessoas, e posso atuar, isso muda tudo.

Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+