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História

Sem arrependimentos

História de: Norá Barcelos Leite
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/11/2021

Sinopse

Norá relembra momentos de sua infância no centro de São Paulo, sua época de colégio no internato Santa Marcelina, os tempos em que praticava o “footing” na Praça Siqueira Campos, sua carreira como professora de Educação Física e posteriormente diretora de escola. Termina o relato contando que “não mudaria nada” em sua vida.

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História completa

P/1 – Dona Norá, bom dia!

 

R – Bom dia!

 

P/1 – Eu gostaria de perguntar novamente pra senhora o seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R – Meu nome é Norá Barcelos Leite. Eu nasci em Pelotas, Rio Grande do Sul, no dia 13 de fevereiro de 1931.

 

P/1 – Qual o nome de seu pai?

 

R- Lino Olivé Leite

 

P/1 – Da sua mãe?

 

R – Maria José Barcelos Leite

 

P/1 – Eles eram de Pelotas?

 

R – É, os dois nasceram lá.

 

P/1 – Hoje eles são falecidos os dois?

 

R – Já. São falecidos.

 

P/1 – E qual era a atividade dos seus avós paternos?

 

R – Meu avô paterno, como bom português, ele tinha fábrica de biscoito, de fósforo... Uma porção de indústrias lá em Pelotas.

 

P/1 – Qual era o nome dele?

 

R – Era Manoel Valente da Costa Leite.

 

P/1 – Ele era português?

 

R – Era português, nasceu em (Estarrejos ?), e minha avó era...estava em casa, Maria Cecília Olivé Leite, ela era Mirabel, era filha de espanhóis... Aliás o pai era espanhol.

 

P/1 – O seu avô, a senhora sabe se o seu avô quando veio para o Brasil ele foi direto para Pelotas ou ele foi para um...

 

R – Não, ele veio direto pra Pelotas. Eu não sei se ele tinha alguém conhecido lá... Parece que tinha um que já tinha vindo, ele veio direto. Ele era músico no começo. Ele era músico, tocava violino e ocarina, e... Tocava às vezes na orquestra lá de Pelotas, mas ele não vivia disso, ele pegava os ingressos pros filhos e a família, porque eram muitos, eram 10 filhos (risos) então ele tinha direito a levar a família toda pros concertos lá em Pelotas.

 

P/1 – Seu pai era o mais novo, o mais velho, o do meio?

 

R – Meu pai era o penúltimo, eram dez, o último, papai era de 97, o último foi do século 2000, do 1900, os outros todos abaixo.

 

P/1 – Todos mais velhos?

 

R – Todos mais velhos.

 

P/1 – E seus avós maternos, quais eram o nome deles?

 

R – O meu avô materno era... Tinha fábrica lá em Pelotas, de sabão e vela, e minha avó não trabalhava, era a família da minha mãe eram cinco mulheres, todas nasceram em Pelotas, o meu avô é que era, a mãe era aquela que a Clarissa falou que chamava-se Abrilina Decimanona Caçapavana de Almeida.

 

P/1 – Por que ela tinha esse nome?

 

R – Porque ela nasceu em abril, Caçapava, no dia 19 de Almeida. Então, como o pai dela viajava muito, que era o Domingos José de Almeida, que por sinal era considerado um grande riograndense, mas ele era de Mi... Diamantina, era mineiro de Diamantina. Ele foi o mentor da Revolução Farroupilha e fundou depois a cidade de Uruguaiana também. Tanto que lá tem avenida, tem o busto dele, toda, porque ele delineou a cidade de Pelotas também.

 

P/1 – Então vamos recompor porque agora a gente foi longe, então, seu tataravô, pai da Abrilina, como ele se chamava?

 

R – Domingos José de Almeida.

 

P/1 – Seu tataravô pelo lado materno?

 

R – Pelo lado materno.

 

P/1 – E aí ele foi o pai da Abrilina, essa Abrilina aí...

 

R – Abrilina teve um filho chamado Pedro Leão, que casou com a minha avó.

 

P/1 – Certo, então, o nome do seu avô era Pedro Leão.

 

R – Pedro “Brião” de Almeida Barcelos.

 

P/ 1 – Era Leão ou Brião?

R – Não era sobrenome... Era mesmo nome: Pedro Leão, o Leão era anexo do Pedro... de Almeida Barcelos.

 

P/1 – Ele casou com a sua avó, qual era o nome?

 

R – Casou com minha avó que Simões Lopes e ficou Simões Lopes Barcelos.

 

P/1 – Qual era o nome dela?

 

R – Da minha avó? Maria Isabel Simões Lopes Barcelos.

 

P/1 – Então seus dois avós eram industriais?

 

R – É era o...

 

P/1 – Tinham fábricas em Pelotas?

 

R – Sim.

 

P/ 1 – E a senhora sabe como seu pai conheceu sua mãe, como se deu o...

 

R – Ah! Eles se conheceram lá em Pelotas mesmo. Eram cinco mulheres, elas se reuniam muito em casa, elas eram muito atuais naquela época. Elas eram assim bem, não eram ‘tacanhas’ como a gente diz, né? Elas tocavam muito e reuniam muita gente lá. Ele sempre dizia, as vezes a mamãe brigava com ele e ele então namorava a irmã da mamãe, então, passava anelzinho pra outra. Mas, ele dizia “É a Zezé que eu quero casa”, depois logicamente acabou casando com a mamãe.

 

P/1 – E as famílias eram amigas? Ou não?

 

R – É eles eram, a cidade de Pelotas era pequena naquela época e se conheciam.

 

P/1 – E a sua família eram em quantos irmãos?

 

R – Meus... Eram dois irmãos.

 

P/1 – A senhora é a mais nova, a mais velha?

 

R – A caçula.

 

P/1 – E como era a sua casa na sua infância?

 

R – Olha, era uma delícia! Eu não posso... Meus pais eram... A gente não, meu pai veio trabalhar aqui uma coletoria federal que abriu em 1931... Abriu uma coletoria... O Getúlio quis abrir aqui e trouxe o pessoal do Sul, lá da cidade de Rio Grande.

 

P/1 – Aqui a senhora diz em São Paulo?

 

R – Aqui em São Paulo. Aí esse pessoal do Sul, convidaram, eram da cidade do Rio Grande, convidaram várias pessoas para virem. O papai veio pra São Paulo junto com o pessoal da cidade do Rio Grande para formarem, fundarem a coletoria federal, que era ali em cima do Buraco do Ademar, o atual, hoje, Buraco do Jânio que eles diziam, né? Ali tinha a recebedoria, que era a coletoria daqui e ele veio então para trabalhar aqui.

 

P/1 – A senhora já era nascida?

 

R – Não, eu vim pra cá em 32, quando o papai veio eu era nenezinha ainda. Aí ele veio para cá e em 32 nós viemos. A minha mãe, meus dois irmãos e uma irmã de criação, veio conosco.

 

P/1 – Então na verdade a senhora foi criada em São Paulo?

 

R – Ah fui! Tenho sangue paulista (risos).

 

P/1 – A senhora veio para cá quase um bebê?

 

R – Vim, eu vim de colo. Vim com um ano e pouquinho.

 

P/1 – Na Revolução de 32 logicamente a senhora não lembra...

 

R – Ah não!

 

P/1 – Mas seu pai contava alguma coisa?

 

R – Pouca coisa, porque quando nós chegamos aqui já tava tudo mais sossegado e o pessoal dizia: “Ah, vocês gaúchos vieram para cá pra primeira? Vai tá cheio assim para segunda revolução”, brincava com o pessoal. Porque não eram muito bem quistos naquela época, pelo menos papai dizia isso.

 

P/1 – E a senhora morava onde na sua infância?

 

R – Olha, quando nós viemos, nós ficamos - eu não me lembro lógico, eu era pequena – nós ficamos ali no “Picles”, sabe onde é o “Picles” ? Ali na... Onde tem o metrô...

 

P/1 – Anhangabaú.

 

R – Anhangabaú. Ali tinha um hotel que os gaúchos vinham, chamava-se Hotel Liberdade. E pra vir com a família, não tinha casa ainda. Aí então nós fomos... Ficamos uma temporada nesse hotel.

 

P/1 – Era um hotel onde os gaúchos costumavam se hospedar?

 

R – Os gaúchos vinham, as famílias vinham e ficavam lá. Nós ficamos uma época, acho que um ano, um ano e pouco; até o papai arrumar casa. Aí na primeira que nós ficamos era no Maestro Cardim, perto do hospital ali, só que naquele tempo não tinha nada. E mesmo o fundo da nossa casa a gente olhava e a mamãe dizia: “aqui vai ser a futura Avenida Itororó”, é 23 de maio de era, antigamente ia ser Itororó. Então a gente ficou ali muito tempo, não tanto tempo, mas moramos uma temporada por ali, depois nós mudamos para a Rua Augusta. Ali... Atualmente ainda tem a casa no 1310 e eu fui pra escolinha, no outro quarteirão onde tem o Ceasar Park hoje, o hotel,  tinha ali um coleginho da Caetano de Campos, acho que era um anexo da Caetano. E me lembro bem que o diretor era o Antônio Firmino Proença, que vinha ser o bisavô da Maitê Proença. E nós então estudávamos ali, depois nós fomos pro Paes Leme que é atualmente hoje onde está o Safra. Então, a gente subia a pé aquele pedacinho da Rua Augusta e íamos ao Paes Leme e a gente gostava de atravessar a rua porque em frente ao Paes Leme tinha o Conjunto Nacional que era uma casa, de quarteirão inteiro, então, diziam para gente que ali tinha um menino que andava de cadeira de roda. Então nós íamos pra lá para olhar, nunca vimos, então, mas era uma casa o quarteirão inteiro ali. Pegamos todo aquele quarteirão é atualmente o... Aí depois da Rua Augusta a gente cresceu, aí nós fomos, o meu pai comprou uma granja em Itaquaquecetuba, isso eram os idos de 40 e poucos. Aí nesse tempo, eu digo granja de galinha porque lá no Sul granjeiro planta arroz, né? Se a gente disser que você tem uma granja lá é arroz, aqui é granja tem que dizer de galinha, até parece... Aí nós fomos, mas nesse período que eles tiveram lá na granja eu fui interna no Santa Marcelina, por sinal eu adorava o colégio...

 

P/1 – Nas Perdizes...

 

R – Aqui em São Paulo em 1943 a 48... Era nas Perdizes, hein?

 

P/2 – (trecho inaudível)... interna?

 

R – Interna. Porque nós estávamos na granja. E o meu irmão do meio ficou no São Bento, porque o mais velho já estava começando, já estava fazendo faculdade e trabalhava já, o mais velho.

 

P/1 – Mas, Dona Nora deixa eu voltar um pouquinho...

 

R – Ta!

 

P/1 – Vamos retroceder um pouquinho no tempo, eu quero voltar. Nós vamos chegar de novo no Santa Marcelina, mas na Maestro Cardim a senhora ficou até que idade?

 

R – Ah, eu acho que nós ficamos ali na Maestro Cardim uns três anos mais ou menos.

 

P/1 – A senhora ainda era muito criança então a senhora não tem muita lembrança...

 

R – Não, seis, sete anos eu ainda estava lá, nós estávamos lá na Maestro Cardim.

 

P/1 – Como é que era essa casa? Era uma casa? A casa tinha quintal?

 

R – Ah, era uma casa muito boa! Eram geminadas. Eu me lembro que ao lado, da nossa casa pra cá, tinha uma casa muito bonita que era de um... Ele era médico veterinário do Exército, Dr. Raymond tinha casa. E do nosso lado aqui tinha umas senhoras, que eram chatas, a gente fazia barulho, elas reclamavam, porque tinham criança, né? Sabe como é? E nós nos divertíamos muito porque o Dr. Raymond ia cuidar dos cachorros, ele tinha canil, ele punha short. Naquele tempo sabe como é que é, né? Pode fazer idéia, né? Short sem camisa! Cuidando dos cachorros e as vizinhas começaram a reclamar para ele que ficava em trajes... Imagina aquele tempo de 1900 e que? 35, 37. Em trajes sumários! Imaginou? (RISOS). Então eu me lembro bem que ele mandou um recado para elas dizendo que elas observassem que ia ser durante a semana, quando era sábado e domingo ele cuidava dos cachorros nu! Nunca mais elas olharam, nunca mais elas foram passar, nem se meteram mais com ele (risos).  Ele tinha um filho que era um amor, eles eram amigos. Porém, me lembro uma Páscoa, ele: “Não, a Páscoa vai ser na minha”. Aí nós saímos, fomos, a casa dele era linda, belíssima casa, e ele escondeu cestinhos todos. Primeira vez que eu, nós fomos procurá-los foi nesse Dr. Raymond. Depois não soube mais dele. O tempo vai afastando e a essa altura acredito que ele, só se estiver Matusalém, porque a essa altura acredito que ele já tenha falecido.

 

P/1 – Quais eram as brincadeiras nessa época? A senhora, próximo tinha o Córrego do Itororó, não é?

 

R – Não, mas, a gente não ia ali...

 

P/1 – Mas, porque sua mãe não deixava...

 

R -... A casa tinha muro embaixo, aquilo não tinha ninguém, nem marginal, nada, naquele...

 

P/1 – Nada, não é?

 

R – Não (risos)

 

P/1 – Nem lavadeira?

 

R - Não (risos). Nem sem-terra, não tinha nada naquele tempo.

 

P/1 – Dava para ver o Córrego ou não?

 

R – Olha eu não me lembro se tinha o Córrego, se tivesse era muito...

 

P/1 – Pequeno...

 

R – É... Nunca.

 

P/1 – E a senhora brincava como nessa época? Que brinquedos a senhora tinha?

 

R – Ah, eu brincava com meus amigos. Tinha outra casa, que tinha vizinha, ia lá brincar de boneca. A gente brincava de amarelinha na calçada... Os meus irmãos jogavam bola. A gente...

 

P/1 – Podia brincar na rua?

 

R – Ah, tranquilamente... E como! A gente jogava aquelas pedrinhas de... Fazia saquinho de feijãozinho. Aquelas coisas de infância que hoje quem faz isso é careta, né? Então, a gente tinha os brinquedos... Tinha esses, por exemplo, Banco Imobiliário, esses jogos já tinha no nosso tempo de infância: ludo, dama, tudo isso a gente brincava muito.

 

P/1 – E na Rua Augusta? Podia brincar na rua também?

 

R – Ah, dava pra brincar na rua. Se bem que a nossa casa tinha um corredor grande e o nosso cachorro, papai punha arame daqui lá na porta, pro cachorro correr preso. E ali a gente brincava também na calçada, podia brincar na Rua Augusta. Não tinha problema. E virando na Augusta pela Matias Aires, tinha um terreno baldio onde a meninada toda jogava bola. Nós íamos pra lá, brincávamos todos neste terreno baldio. Ali era muito bom. Foi um período muito bom, não tinha... A gente nem ouvia falar em agressão. Nós íamos aos sábados à noite fazer footing na Paulista, ali no Parque Siqueira Campos. A gente às vezes, durante a semana, ia a pé para ver a escavação do Pacaembu. Nós adorávamos! Assim, nós sentávamos lá e víamos as – naquele tempo Camargo Correia já tinha as carrocinhas puxadas por burro, pra terra – e nós adorávamos porque um ia atrás do outro, ninguém dirigia os burrinhos. Eles iam um atrás do outro escavando, pra fazerem o Pacaembu. A gente ia lá assistir isso. Adorávamos ver os burrinhos.

 

P/1 – Como é que era esse footing no Parque Siqueira Campos?

 

R – Ah, era uma delícia! A gente passeava, entrava no Parque Siqueira Campos, ia passear lá dentro... Ficava de um lado para o outro. Depois a gente descia e atravessava o túnel, ia e voltava pelo túnel, depois a gente subia de novo...

 

P/1 – O túnel da Nove de Julho?

 

R – Da Nove de Julho, ia e voltava...

 

P/1 – Que idade a senhora tinha nessa época?

 

R – Ah, eu devia ter... Acho que uns dez, 12 anos, 13 anos...

 

P/1 – Tinha roupa especial que sua mãe punha pra sair, pra ir ao Parque ou não? Vestido diferente...

 

R – Não, a gente... Não me lembro se tinha. A gente punha uma roupa, naquele tempo não tinha muito assim “Eu não quero essa, eu quero essa” não! A mãe comprava roupinha, tudo bem e...

 

P/2 – (trecho inaudível)

 

R – Hein?

 

P/2 – (trecho inaudível)

 

R – Ah, íamos, a gente morava quase na esquina com a Matias Aires e dali era perto, bem pertinho.

 

P/1 – E como foi essa ida sua pro internato? Pro Santa Marcelina?

 

R – Porque meus pais, nós fomos pra Itaquaquecetuba, meu pai comprou a granja e não tinha como ficar em São Paulo. E aí eu fui interna. Por sinal foi uma época maravilhosa. As freiras eram rigorosas, como naquele tempo, porque a gente pra tomar banho botava um camisão, era uma... E precisava tomar banho de camisão. A gente entrava lá e tirava o camisão, é obvio, mas tinha que pôr e o colégio ali na Cardoso de Almeida. As irmãs eram ótimas. Eu tenho recordações maravilhosas lá do Santa Marcelina.

 

P/1 – Tem alguma professora ou irmã... A maioria das professoras eram religiosas ou não?

 

R – Ah, eram todas religiosas...

 

P/1 -... Eram todas.

 

R – Só depois quando eu fui fazer o científico, que naquele tempo tinha o clássico científico, hoje não tem, eram algumas professoras de fora, mas o resto todas eram as irmãs do colégio.

 

P/1 – Uma pergunta: a senhora enfatizou, muito a sua família é riograndense e depois da vinda para cá, para um hotel onde os riograndenses costumavam ficar, os gaúchos. O seu pai vivia numa comunidade gaúcha em São Paulo? De fazer churrascos para comemorar ou não?

 

R – Olha, eu não me lembro. Naquele tempo a gente ia, alguns colegas do papai iam lá em casa. Eu me lembro que eles iam. Tinha um até que nós adorávamos, que todo sábado ele vinha almoçar. Ele gostava de picadinho com abóbora, então, a mamãe fazia para ele. Nós chamávamos até de Primo Zeca. Não era nosso parente. Então, nós adorávamos que ele levava guaraná! Nós esperávamos ansiosamente o Primo Zeca com o guaraná, então ele almoçava lá em casa. Aos domingos vinha um monte de colega, mas todos da recebedoria, que eram também da cidade do Rio Grande. Mas não me lembro assim de grandes churrascos. Era assim. Não como hoje que reúnem...

 

P/1 – Seu pai tomava chimarrão na cuia?

 

R – Tomava. Eu não gostava. A mamãe também não gostava muito. Eu me lembro bem porque eu queimei quando era pequena, devia ter uns quatro, cinco anos; eu queimei a boca na bomba, aí fiquei com trauma. Nunca mais tomei chá na vida. Hoje se o médico disser: “Cê vai morrer se não tomar chá”, eu tomo. Do contrário eu prefiro não tomar chá.

 

P/1 – Qualquer tipo de chá?

 

R – Qualquer tipo. Parece mentira, né? E só bebo refrigerante. Fui criada com vinho na mesa. Eu só tomo refrigerante, não gosto, não é que eu não possa. Infelizmente. Gostaria de no inverno tomar um licorzinho. Não gosto!

 

P/1 – Pro Santa Marcelina a senhora foi em que idade?

 

R – Eu tinha exatamente 13 anos.

 

P/1 – E a senhora saiu de lá com que idade?

 

R – Com 17.

 

P/1 – A senhora tinha liberdade para sair dos colégios aos finais de semana?

 

R – Não, só tinha visita aos domingos e saia uma vez por mês. Mas, normalmente eu perdia a visita, a sala, porque eu era muito levada, então, eu perdia. Mas tinha uma das irmãs de lá que fazia matemática e física com meu irmão lá na PUC. Então quando eu perdia a sala ela já mandava o recado: “Avisa pra tua mãe não vir esse fim de semana, que a Nora perdeu a sala”. Porque a gente tinha as visitas aos domingos. As pessoas, parece que da uma às três ou das duas às quatro, era a sala como a gente chamava.

 

P/1 – É a pessoa vinha e reunia numa sala os pais...

 

R – E reunia, cada família; cada um de nós com nossa família e eu era muito terrível e... Por incrível que pareça, uma que foi minha colega o tempo inteiro de carteira, de lado, era a Margot Proença, que era a mãe da Maetê Proença. Foi minha colega todos esses anos.

 

P/1 – Que era sua colega de rua também, né? De vizinhança...

 

R – Não, não. No Santa Marcelina.

 

P/1 – Ah, no Santa Marcelina.

 

R – Lá, eu conheci no Santa Marcelina. Era de carteira. Tinha um lado, era ela, do outro lado era uma Abdala, que hoje em dia é casada com um dos Alckimin. Eram as duas que nós saíamos, nas férias a gente ia pra Birigui, que a família da Helenir tinha fazenda e a gente ia. Então as três sempre juntas. Só que depois, logicamente, cada uma se formou, foi pra um lado. Eu ainda fui ao casamento da mãe da Maitê. Tenho fotografia do casamento, com ela, e depois a gente foi... A vida foi separando um pouquinho. Mas mantinha sempre, principalmente com a Helenir, eu mantenho sempre contato com ela.

 

P/1 – Nessa época dos 13 aos 17 anos a gente ta nos anos 40, né?

 

R – Foi, quando eu tava com 13 anos. Eu fiquei interna em 42, né? 43.

 

P/1 – E era uma época áurea do cinema em São Paulo. A senhora podia ir ao cinema? Frequentava? Iam sempre ou não?

 

R – Não, elas passavam cinema. Uma vez por mês tinha cinema no colégio. Mas, nós riamos porque a gente ficava lá para assistir, depois na hora que ia beijar, a Madre Superiora botava a mão assim (RISOS). A gente não podia ver o beijo. Elas punham a mão assim.

 

P/1 – Eram todas as faixas etárias no colégio?

 

R – Ah, era desde de piquititinha até...

 

P/1 – Já tinha faculdade ou não?

 

R – Hein?

 

P/1 – Já tinha faculdade?

 

R – Não, não tinha. Tinha só até o terceiro científico ou clássico, naquele tempo.

 

P/1 – E a senhora estudou até o final do científico lá?

 

R – Não, aí eu fiz; quando eu fiz o primeiro clássico eu resolvi mudar e passei pro segundo normal, pra ser professora.

 

P/1 – Lá mesmo, no Santa Marcelina?

 

R – Lá mesmo. Aí quando foi em 49. Em 48 papai vendeu, nós viemos pra São Paulo. Aí eu saí e fiz o último ano normal no Colégio São José, na Rua da Glória. Que era das irmãs da Santa Casa, naquele tempo, que ainda estão na Santa Casa. Eram as irmãs de São José.

 

P/1 – A senhora já não era interna?

 

R – Aí já não estava interna. Aí eu fiquei externa. Eu ia todo dia...

 

P/1 – Seu pai morava onde quando ele voltou de Itaquaquecetuba?

 

R – Aí nós fomos morar na Rua Lisboa, próximo ao que eu disse pra você que eu fui. Aí me formei e fui... Me formei em 49, em 50, no comecinho de 50 eu fui trabalhar nesse, fui nomeada para esse Parque Infantil Benedito Calixto, aqui na igreja.

 

P/1 – Como era ser normalista nessa época? A classe era toda feminina? Tinham homens que se formavam no normal ou não?

 

R – Lá no São José não tinha homem. Naquele tempo achavam que não. Depois disso começou a aparecer um ou outro. Mas só tinha mulher.

 

P/1 – Como era, havia um bom mercado de trabalho? Quando as normalistas se formavam, elas se encaminhavam mesmo pro magistério?

 

R – A gente só fazia concurso. Eu tive sorte que tinha um parente meu que trabalhava na prefeitura e arrumou para mim. Eu logo entrei na prefeitura em 1950.

 

P/1 – Era um gaúcho também?

 

R – Não, não, não.

 

P/1 – A senhora tinha parentes em São Paulo?

 

R – É, era contra-parente. Mas, ele era amigo nosso: “É eu vou te arrumar e...” Também lá do Sul. A gente chamava tudo de tio, mas na verdade eles não eram, né? Então ele arrumou, eu fui trabalhar. Foi o primeiro emprego que eu tive. Eu ganhava 1400, nem dava em dinheiro para dizer. Era 1400 e pouquinho, mas foi a glória, viu?

 

P/1 – A senhora já disse fora da entrevista, mas explica onde era esse grupo escolar que a senhora foi trabalhar.

 

R – Esse primeiro que eu trabalhei?

 

P/1 – Sim.

 

R – Não, não era grupo, era um parque infantil; chamava-se Parque Infantil Benedito Calixto. Pertencia a prefeitura. E ali eu trabalhei alguns anos. Depois fechou ali, os padres não quiseram o parque ali e depois com o tempo saiu. Tanto que não tem mais nada lá há muitos anos. Ali eu fiquei acho que uns dois anos. Depois...

 

P/1 – O que a senhora fazia nesse Parque?

 

R – Eu era professora porque tinha, no parque infantil tinha a professora recreacionista e tinha a jardineira, que chamavam. A jardineira cuidava de até cinco anos, seis anos e a recreacionista pra cima, até 11 anos. E lá tinham atividades, as crianças faziam desenho, brincavam, tinham esporte, tinham tudo. Era um acompanhamento pra criança. Não era uma escola como hoje. Porque depois eles passaram, uns anos depois os parques infantis passaram para EMEIS, que são atualmente os EMEIS que têm na prefeitura, né? São escolas hoje. Naquele tempo era para recrear a criança.

 

P/1– Ela estudava num outro período numa escola e ...

 

R – É, depois iam outro período. Agora os pequeninhos não. Naquele tempo iam com sete anos pra escola. Eu fui com sete anos. Não tinha àquele tempo pré-escola e a gente curtia bem a casa, porque a minha mãe não trabalhava, então para nós foi ótimo. Porque hoje a criança ta nascendo já ta na creche, então, é diferente, não sei. Às vezes os meus sobrinhos dizem: “Ah, você é saudosista”. Eu falei: “Não sou, eu tenho pena de vocês não terem tido a infância e a mocidade que nós tivemos”. Sempre tinha festinha. Você podia vir de 10 horas da noite pra casa. Ah, era boco-moco. Os meninos eram com gravatinhas, tudo boco-moco. Hoje tem esses gatões aí, concordo. Mas, a gente curtiu muito mais. Eu fico com pena deles não terem isso.

 

P/1 – Seus pais eram liberais, eles não prendiam a senhora em casa?

 

R – Não, eles eram muito – nós tivemos uma sorte – eles eram de um humor tremendo. Tanto o papai como a mamãe. Então nós enfrentamos tudo na vida, tudo na mais perfeita paz. Eles eram excelentes. Então não tinha aquele negócio de pai tirano. Nós sentávamos a mesa. Na hora que sentávamos o primeiro quem falava era o papai. Então ele contava tudo que ele fez durante o dia. Aí: “Pedro me conta”, “Ah papai eu fiz isso”, “Manoel, Nora”. Aí liberava, né? Podia falar a vontade. Mas tinha, cada um contava seus problemas. Até me lembro quando uma ocasião o meu irmão mais velho, ele não veio dormir. Foi um pânico em casa, olha, naquele tempo! Aí eu me lembro que o papai na mesa, com todos nós, não era nada: “Sabe Pedro, você eu não proíbo, mas, da próxima vez você telefona, avisa, para nós não ficarmos preocupados”. Você vê a mentalidade dele naquele tempo!

 

P/1 – Isso era no jantar? Essa refeição...

 

R – Era no jantar. Porque no almoço papai ia cedo pra repartição. Ele almoçava praticamente 10 e 30, 11 horas. Nós, picados, dois e um à tarde, outro de manhã. Nossa chacrinha era no jantar. Aí quando chegava oito horas tocava o Hino Nacional no rádio, aí na Hora do Brasil nós já... Ficava fazendo frio lá em cima, mas a gente tinha o horário.

 

P/1 – Quando a senhora saiu do internato, como foi essa saída? A senhora notou muita diferença? Quer dizer, a senhora poder namorar, poder ir andar pela cidade. O que é que a senhora passou a fazer?

 

R – Olha, pra falar a verdade eu quando saí do internato, a gente não tinha naquele tempo, tinham os namoradinhos, lógico, mandavam cartinhas lá pro internato. Tinha umas que levavam cartinha. Mas, não era assim de você precisar abusar dessa liberdade. Nós tínhamos liberdade, mas, nós mesmas nos policiávamos, nossa liberdade. Isso é que tem que haver. Cada um se policia. A minha vai até a tua. Então aí você vive bem, né?

 

P/1 – Mas, a partir dos seus 17 anos a senhora podia ver o cinema sem taparem o beijo, né?

 

R – Ah, sim! Mas, aí não dava tempo. Que a gente ia, eu ia pra escola, depois à noite a gente ia. Papai pegava o carro, a gente ia ao cinema da Teodoro Sampaio. Tinha o Cine Brasil se não me engano, perto do Mercado e nós íamos ao cinema. Mas aquele tempo não tinha assim. A gente tava louca pra fazer 14 anos ou 18 pra ir em filme proibido. Coisa boba, porque a gente queria (risos), não tem dúvida. No tempo que nós morávamos ali, que eu disse a você que nós morávamos ali na Rua Augusta; a gente ia ao Cine Odeon que era ali na Consolação, lá embaixo, quase na São Luiz. Ali tinha a sala azul e a sala vermelha. A sala vermelha era proibida, 14 anos. Então eu dizia: “Ah, não vejo a hora da gente fazer”. Então, a gente ia aos domingos e tinha o seriado Flash Gordon e depois vem o filme. Depois a gente ia embora para casa, lógico, mas não tinha assim nada que pudesse... Sei lá, tinha beijo, tinha aquelas coisas bobinhas, mas nada que estremecesse ninguém.

 

P/1 – E a senhora em algum momento, depois que a senhora saiu do Santa Marcelina, a senhora frequentou o centro da cidade que ainda era uma época...

 

R – Eu passava pelo Centro. Porque eu descia. O Colégio São José era na Rua da Glória e eu vinha de ônibus e descia no Anhangabaú. Onde tinha hoje a câmara ali, lembra, no Anhangabaú? Eu descia ali e subia a pé e ia a pé. Atravessava a Rua Direita, atravessava a Loja Americana e ia pro São José a pé.

 

P/1 – Como era o centro nessa época?

 

R – Era ótimo. A gente fugia do Colégio pra ir comer cachorro-quente lá na Americana, que era a loja de dois mil réis. Era uma delícia! Então a gente fugia do Colégio para comer. Mas você andava perfeitamente. Isso a gente tinha 18, 17 anos, andava pelo centro de São Paulo.

 

P/1 E a senhora passou a frequentar os grandes cinemas que tinha no Centro? Aquela vida cultural?

 

R – Olha... Aí só posteriormente que a gente... Ia ao cinema lá perto de casa. Agora depois que fomos morar, nós morávamos na cidade, aí sim, a gente frequentava aqueles cinemas que eram ótimos, hoje lixo, né? Uma pena...

 

P/1 – Bom a gente tava: a senhora se formou no normal, arranjou um emprego na...

 

R – Benedito Calixto.

 

P/1 – Benedito Calixto. Agora a senhora disse que seus pais mudaram de Pinheiros pro Centro. Quando foi isso?

 

R – Aí nós mudamos mais ou menos – aí eu já tava formada – nós mudamos pra Rua Borba Gato, na travessa da Rua Pinheiros, mas aí eu continuava trabalhando. Eu já estava trabalhando no Benedito Calixto. Aliás, não era ainda Borba Gato. Primeiro foi na Rua Lisboa. Nós viemos de lá foi na Rua Lisboa, quando eu comecei a trabalhar no Parquinho ali. Aí depois nós mudamos pra Rua Borba Gato e aí ficamos na Borba Gato muitos anos, e aí eu já estava trabalhando. Depois, quando foi 1950 e poucos, papai teve um enfarte, em 54 parece, mais ou menos. Aí nós mudamos pra um apartamento por causa de problema de escada, que naquela época tinha muita escada. Aí nós mudamos pra Praça da República, na Rua do Arouche. Tinha um prédio grande, que saia uma parte pra Rua do Arouche, uma parte pra Praça da República. Posteriormente demoliram metade e fizeram um prédio grande que tem até hoje ali, em frente a Caetano de Campos. Ali nós moramos muitos anos. Ali a gente ia aos cinemas no Centro, mas aí quando eu fui pra lá, eu fui de diretora daquele Parque Infantil da Praça da República, que tem até hoje, que é uma EMEI Armando de Arruda Pereira. Ali eu fui diretora muitos anos, depois eu acumulei com o Estado. Eu fiz concurso e entrei no Estado como professora. Eu não pude acumular a diretoria, porque a diretoria era em tempo integral. Então eu larguei a diretoria e fiquei como professora, lá no parquinho, ali na Praça da República e lecionando lá no Morro Grande, para lá do Distrito da Freguesia do Ó; perto de uma pedreira que tinha lá. Bom, mas, ali eu fiquei pouco tempo que aí eu já tinha feito Educação Física, então, eu fui comissionada de lá, desse grupo que eu estava no Estado, fui comissionada para Água Branca. Que era do Estado. Ali eu fiquei muito tempo. Dava natação, e depois fiz concurso na prefeitura. Eu já tinha me formado. Na prefeitura eu também passei pra trabalhar no Centro Educacional, lá ao lado do Hospital do Servidor.

 

P/1 – A senhora falou agora que fez Educação Física. A gente não tinha passado por isso ainda. A senhora resolveu fazer um curso superior?

 

R – Resolvi fazer um curso superior. Queria fazer, eu disse: “Bom, eu vou fazer”. E como eu era professora normalista, eu fui. A USP ainda tinha o curso de normalista especializada em Educação Física Infantil. Era feito pela USP. Aí eu fiz um ano. Neste ano que eu fiz, era o último ano que se você fizesse vestibular, você podia entrar no 2º ano do superior. Eu fiz, passei e aí nos três anos eu fiz os dois cursos pela USP. Que naquele tempo ainda era na “Panela de Pressão”. Manoel da Nóbrega que chama. Aquele, o redondo, que chamam “Panela de Pressão”, na Manoel da Nóbrega. Onde tem carnaval no gelo, aquelas apresentações todas.

 

P/2 – (trecho inaudível)

 

R – Hein?

 

P/2 – (trecho inaudível)

 

R – É, naquele. É que tem piscina e tem o...

 

P/1 – Ah, certo. É o Vaz Guimarães?

 

R – Que nós chamávamos “Panela de Pressão”...

 

P/1 – Conjunto Esportivo...

 

R – A Escola de Educação Física era ali. Nós fazíamos uma parte ali, a parte prática...

 

P/1 – ...Constâncio Vaz Guimarães.

 

R – Nós fazíamos na Água Branca, porque lá não tinha... É, Constâncio Vaz Guimarães... Não tinha, lá não tinha aquela parte de esporte. Não tinha instalação nenhuma. Então, a parte de vôlei, basquete, natação, era na Água Branca. Tinha dias que a gente ia em um e dias que a gente ia no outro. Aí quando eu me formei no ano seguinte, tive sorte que a prefeitura fez concurso para professor de Educação Física. Eu fiz concurso na diretoria, mudei, entrei na Secretária que era, naquele tempo, de Educação que eu trabalhava; eu passei pra Municipal de Esportes. Aí já fiquei nas duas, tanto numa, como a outra, eu já fiquei. As duas eram ligadas ao esporte.

 

P/ 1 – A Secretaria Municipal de Esportes, ela era a responsável pelos cursos de Educação Física nas escolas, ou não, era só nas piscinas?

 

R – Não, não, não. Tinham os Centros Educacionais...

 

P/1 – Só esporte...

 

R – Só esporte. Posteriormente que fizeram, depois daquele, o Centro Olímpico. Foi tudo depois. Isso foi mais nos idos de 70 e pouco.

 

P/1 – E a senhora contou que já, quando a senhora tava mudando pro Centro, a senhora já era diretora. Como foi isso? De professora recreacionista chegar a diretora?

 

R – Não, eu fiquei porque deu vaga na Praça da República, e naquele tempo convidaram porque eu já era antiga na prefeitura e me convidaram para ser diretora. Eu fui lá e fiquei um tempo. Depois passei até para uma amiga minha que é aposentada hoje. Ela pegou o meu lugar porque era obrigado a fazer tempo integral. Eu não podia, tava acumulando com o Estado, mas, foi um período muito gostoso também, esse que eu fui diretora lá na Praça. Porque era no Centro, né? E a meninada jogava bola. Então tinha horas que eu, “Professora vai lá apitar para nós”, então eu ia lá. Mas, o melhor é que a gente apitava errado e a turma da rua juntava sempre: “Vai lavar roupa!”. Não xingavam, mas ficavam bravos: “Vai lavar a louça!”, “Ah, tá apitando errado!”. A gente não entendia muito de futebol (risos), então, ninguém se animava para não ouvir, mas... O pessoal da rua era ótimo, não havia aquilo de palavrões, essas coisas, de jeito nenhum.

 

P/1 – O campo tinha um alambrado que dava para ver a rua?

 

R – Tinha, o parque era cercado todo com um alambrado. Como é hoje. Se você passar lá é todo cercado e ...

 

P/1 – E como era exatamente isso. Quer dizer, uma mulher, já havia muitas mulheres fazendo Educação Física nessa época? Faculdade?

 

R – Ah, tinha. Eram todas atletas: uma era campeã de natação não sei de onde; a outra era campeã de basquete não sei de onde. Eram todas já expoentes. Eu não era de nada (risos), então,  quando chegava aquela parte, na época da parte prática, até quando foi no handball, elas me punham no gol, porque eu não jogava nada. Eu tinha medo, eu me escondia. Mesmo no vôlei, no basquete, na hora que vinha a bola todo mundo empurrava, pegava. Na natação precisava salvar, então, eu pegava sempre Mariângela Latércia, que era campeã de natação no interior, casada com Manoel Lemun, que foi Campeão Olímpico em natação. Manoel dos Santos, ela era casada com ele. E ela dizia: “Nora eu vou me atirar e você vai me salvar, pode ficar sossegada que eu te ajudo”. E ela se atirava e eu tinha que tirar, e ela que me puxava (risos). Então, foi um período maravilhoso, viu?

 

P/1 – E a prática do ensino?

 

(PAUSA)

 

(INÍCIO DA 2ª PARTE)

 

P/1 – Dona Nora, a prática como professora de Educação Física, quando a senhora começou a trabalhar nessa área, havia aquela divisão: homens davam aula para meninos e as mulheres davam aula para meninas ou a senhora também tinha alunos homens?

 

R – Não, normalmente, por exemplo, quando eu dava natação era mista. Agora na parte de ginástica geralmente tinha uma professora que dava pra senhoras, outra dava pros homens. Mas, não impedia de que... Mas normalmente era dividido.

 

P/1 – Eram homens que davam aulas para homens...

 

R – Agora a natação, era mista. Por exemplo, criança era mista. Se eu dava também para senhoras, eram só mulheres. Os homens davam.

 

P/1 – Eu penso que a senhora tá colocando essa questão de apitar e que os alunos reclamavam, de como seria a postura dos alunos, com relação a professora mulher, dos alunos homens, mandando fazer ginástica, enfim comandando a aula. Então, normalmente a senhora dava aulas pras mulheres?

 

R – Normalmente sim. Agora as professoras que davam aulas nas escolas é que parece que eram mistas, mas isso eu não sei que eu nunca lecionei Educação Física em escola.

 

P/1 – A senhora estava na Secretaria de Esportes e não na Secretaria...

 

R – Não sei, aí seria da Educação. Os professores de Educação Física da Educação que dão nas escolas. Então eu não sei as turmas como eram, se eram mistas, se eram... Isso eu não posso...

 

P/1 – Durante esse período que a senhora se formou e foi trabalhar na Secretaria Municipal de Esportes, a senhora continuou dando aula no Estado?

 

R – Não, aí eu passei para Água Branca, foi o que eu disso a você. Eu fui comissionada na Secretaria lá. Fui comissionada pra Secretaria de Estado, de Esportes do Estado. E fui diretamente trabalhar na Água Branca, que era a parte de natação.

 

P/1 – Nesse período a senhora continuou morando na Praça da República com seus pais?

 

R – Continuei.

 

P/1 – Durante todo esse período?

 

R – Todo esse período.

 

P/1 – Quando a senhora saiu de lá?

 

R – Hã?

 

P/1 – Quando a senhora saiu da Praça da República?

 

R – Ah, eu fiquei na Praça da República uns quatro, cinco anos só. Ah, você diz a moradia?

 

P/1 – Moradia.

 

R – Ah, quando começou o metrô na Praça da República, aí a mamãe faleceu e eu não quis mudar porque o papai já tinha a turminha da Praça da República, ali. O pessoal que ele conhecia de selos, de moeda. Aquele pessoal, eles se reuniam ali. Ainda dava para reunir, né? E aí depois meu pai faleceu, em 77. Aí então eu resolvi sair do Centro. Começaram o metrô, a estação do metrô da República. Aí eu vendi e comprei onde eu moro na Aureliano Coutinho. Que eu estou lá, fez agora em agosto 24 anos.

 

P/1 – Como é que era o trânsito nessa época na Praça da República?

 

R – Era ótimo, viu? Ainda peguei uma época que você podia andar...

 

P/1 – Como a senhora fazia compra de supermercado por ali?

 

R – A gente comprava ali perto, tinha supermercado. A gente ia às vezes pra Rua Direita, atravessava a Barão. Ainda tinha aquelas casas de chá na Vieira de Carvalho, que a gente podia tomar chá com torrada. A própria Barão ainda tinha. Então, a gente atravessava, ia pro lado de lá.

 

P/1 – Qual era o seu local preferido? Doceiras? Restaurante? Qual era o lugar que a senhora...

 

R – Ah, eu gostava ali da... Eu esqueci o nome. Ali tinha a “Duca”, era muito boa! Logo que nós fomos para lá inaugurou, quando nós estávamos lá inaugurou o “Pão de Queijo”. Foi a primeira casa de pão de queijo, foi ali perto de casa. Fazia fila lá no quarteirão! Para comprar pão de queijo. Era novidade, né? Então, nós gostávamos. Tinha a “Duca”, que também já estava lá. Quando eu fui para lá tinha a “Duca” ali na Vieira de Carvalho. Tinha as outras doceiras, agora não me lembro o nome, na Barão. Tinha o chá do “Mappin”. Você subia, era no 12º andar. Você pagava, era preço fixo, vinha: o chá com aqueles docinhos...

 

P/1 – A senhora ia como quem?

 

R – Ah, ia com as amigas, ia com a minha mãe, ia com as parentas. Porque vinha muita gente do Sul, né? A minha casa era o consulado gaúcho. Sempre vinha gente. Chegava lá “Eu não quero nem saber, bota o pelego no chão e vamos dormir aqui”. Então, era o consulado gaúcho!

 

P/1 – Seu apartamento era grande?

 

R – Ah, era bom o apartamento. Era excelente. Ainda tem uma parte dele. A outra metade foi demolida. Aí eu mudei para esse meu que eu moro até hoje, que é ótimo.

 

P/1 – Durante os anos 70 e os anos 80 a senhora permaneceu nas mesmas atividades?

 

R – Bom, aí eu aposentei na prefeitura em 83. Continuei no Estado, que o Estado eu ainda não tinha... Em 83 sai da prefeitura. Aposentei. Peguei uma chefia técnica, aposentei. E no Estado ainda fiquei mais, acho que, uns cinco anos para completar uma chefia; pra depois me aposentar. O estado deve ter uns dez, 12 anos que eu me aposentei. Dez anos mais ou menos.

 

P/1 – Dona Nora, não quero ser indelicado, mas, vou lhe fazer essa pergunta: a senhora permaneceu solteira esse tempo todo, foi opção? Não apareceu a pessoa certa?

 

R – Ah, eu acho que não apareceu a pessoa certa. Aquela que deu o click, acredito eu. A gente tem aqueles namoros, negócio assim mais sério. Mas, quando chega na hora assim, sei lá eu não...

 

P/1 – A senhora sofreu alguma pressão dos seus pais, da sua família, para casar?

 

R – Não!

 

P/1 – Não?

 

R – De jeito nenhum. Nunca. O pessoal brincava: “Pô, ninguém te quis”. Os meus irmãos brincavam comigo, mas nunca houve assim...

 

P/1 – Seus irmãos tinham filhos?

 

R – Tinham. Um teve três, o que morava no Rio. E o outro, que é o avô da Clarissa, tinha quatro, aliás, três. O outro é do segundo matrimônio, quando meu irmão faleceu, minha cunhada casou de novo e teve mais um filho que é meio-irmão da Dulce, tio da Clarissa, né?

 

P/1 – A senhora foi uma tia mesmo ou não? Gostava dos sobrinhos, cuidou deles...

 

R – Ah, muito! Mas não fui assim também de ficar. Eu acho que cada um no seu pedaço, né? Tem uma amiga agora que ta numa fase horrível porque cuidou da neta e a neta foi com a mãe, não sei o que. Ela ta despedaçada. Eu dizia pra ela: “Você tem que fazer, mas não se apegue muito”. Cada um tem a sua vida. Cada caso é um mundo. Adoro os meus sobrinhos, mas cada um nas suas casas; precisam, de mim eu corro. Mas, nunca fui de fazer isso, fazer aquilo. No que precisar eu estou aí. Mas, nunca fui assim, de ficar acocorando muito.

 

P/2 – (trecho inaudível)

 

R – Meu pai! Meu pai era o dez! Três só: os dois que faleceram e eu.

 

P/2 – (trecho inaudível)

 

R – Eu era a caçula. Mas, eu era a mais, eles diziam. Um era Pedro Leão, o outro era Manoel Valente. Então, diziam que o homem da casa era eu, porque eu que mandava neles (risos). Fala com a Norá e eu ia lá: “Como é? Você tá fazendo isso aí!” Eles não agrediam, a gente brincava, mas, nunca, nenhum deles ficava nervoso. A mamãe ouvia de vez em quando, quando um deles dizia assim: “Mas, minha irmã!”. Mamãe já via que ele tava em ponto de bala, aí a mamãe: “O que é que aconteceu?”. Mas nunca houve assim de bater um no outro, nada. Eles eram ótimos meus irmãozinhos.

 

P/1 – Seu pai incentivou a senhora a fazer faculdade?

 

R – Não.

 

P/1 – Não?

 

R – Não, nunca. Era normal assim dizer: “Faz isso, faz aquilo”...

 

P/1 – Mas, também não proibiu nem fez nenhuma objeção?

 

R – Não. Meu irmão mais velho é que dizia: “Faz isso, faz aquilo”. Ele ficava mais sobre pressão. Depois foi fazer Medicina. O primeiro cadáver que abriu lá, desmaiou, aí desistiu também da Medicina. E foi, ele em casa se fosse consertar um ferro elétrico, ele queimava a instalação da casa inteira. E, no entanto, foi ser Físico Nuclear. Trabalhava na USP, depois foi para Europa trabalhar, foi fazer uma bolsa lá. Só que ele faleceu, né? Tinha 39 anos...

 

P/1 – Nossa...

 

R – O avô da Dulce (ela aqui trocou os nomes o certo seria Clarissa). Depois minha cunhada casou de novo.

 

P/1 – E a sua relação com o Sul? O Sul de seus pais. A senhora nasceu e veio muito pequena. A senhora vai pra lá? Costuma ir?

 

R – Ah, a gente ia muito quando eu era pequena. A gente ia de navio. Ou navio ou trem. Navio a gente enjoava um pouco tinha aquele cheiro de _______. Não era navio como hoje. Eu chegava a Santa Catarina, até o Cabo de Santa Marta era uma desgraça, porque todo mundo enjoava no navio. Então nós íamos, mas eram todos navios alemães. Só navio alemão que fazia esse trajeto. Tanto que muitos deles que nós andamos foram para afundar na época da guerra. Nós acompanhamos e afundaram na época da guerra. E a gente ia de navio, ou então ia de trem. Descia, era uma viagem de dois dias. Baldeava em Santa Maria para depois para Pelotas. A gente ia muito, a família toda lá, né?

 

P/1 – Muito, quanto assim, duas vezes por ano?

 

R – Ah, não! A gente ia nas férias grandes.

 

P/1 – No verão?

 

R – É, a gente ia no verão. Passava o Natal, o Ano Novo. A gente ia pra lá, só vinha em fevereiro. Quando chegava a época, começava as folhinhas a ficar assim: “Ih, ta na época de ir embora”, a gente vinha embora.

 

P/1 – Como é que era lá no ________?

 

R – Ah, era uma delícia. Porque muitos primos, nós éramos 37 primos, se reuniam quase todos. Meu avô tinha uma fazenda perto de Pelotas e nós passávamos as férias. Ele tinha uma fonte de água mineral, então, a gente adorava beber água, pegava um gás, né? Sentava lá pra beber água. Então, nós passávamos lá com meu avô. Eu me lembro, tinha uma mesa enorme, que tem até hoje, o meu primo conservou, com bancos, não tinha cadeira. A gente sentava – era um saco de batata por dia que as empregadas descascavam, que era a família inteira – então sentava, aquilo acabava. Você olhava: gafanhotos. Você olhava aquela mesa cheia, o pessoal chegava (psi), acabou! Acabava tudo. Era muita gente e meu avô ficava bravo, que elas tiravam muita casca da batata. E era um saco por dia para família...

 

P/1 – E ele plantava as batatas ou mandava comprar?

 

R – Ah, ele comprava.

 

P/1 – E a senhora ficou nesse esquema de ir todas as férias para Pelotas, Rio Grande do Sul, até que idade?

 

R – Ah, eu acredito que até 20 e poucos anos. Depois a gente vai crescendo e já vai se radicando aqui, já fica outra motivação, aí a gente ia de vez em quando. A gente já tava grande, né? É como hoje eu digo aos meus amigos, aproveitem os filhos de vocês, ponham no carro e saiam, porque quando chega numa certa idade é: bailinho aqui, festinha ali, e acaba isso. Então, você tem que curtir bem as crianças, porque depois acaba isso. Você quer ir pra cá, mas um quer ir para lá; outro tem os amiguinhos ali e dispersa um pouco, né?

 

P/1 – A senhora ia muito a bailinhos?

 

R – Aonde?

 

P/1 – A bailes?

 

R – Ah, ia! Eu gostava.

 

P/1 – Era onde, era na casa das pessoas ou era...

 

R – A gente ia na Sociedade Sul Grandense. Naquele tempo. Foi muito tempo ali onde era... Ao lado do antigo hotel, onde hoje é o cimento... Como é?

 

P/1 – Hotel Esplanada.

 

R – Esplanada. Ali ao lado do Esplanada tinha a Sociedade Sul Grandense. E a gente ia aos bailinhos ali. Depois ali não sei o que é que ficou. Dali eles mudaram, parece pra outro local, mas a gente não ia mais.

 

P/1 – Eram bailes de gaúcho, então?

 

R – É, era, mas tinha muito paulista. A gente ia no Clube Holmes, quando tinha bailinho. Baile de formatura tinha muito, né? A gente escolhia os bailes que queria ir.

 

P/1 – E dançava que tipo de música?

 

R – Ah, a música do nosso tempo... Os boleros...

 

P/1 – A senhora comentou do cachorro-quente da Loja Americana. A senhora lembra quando chegou o hambúrguer em São Paulo? Essa coisa americana?

 

R – Me lembro. Não me lembro onde. Mas, já foi novidade, né? Apareceu o “bauru” também, o sanduíche. Então, era tudo novidade para gente. O hambúrguer eu acho que foi na própria Loja Americana. E onde gostava muito de comer, que era o mais famoso de São Paulo, salsicha, eram os Três Porquinhos. Era ali perto do Correio, tem a Líbero Badaró e tem a São João. Naquele trecho onde eu disse a você que tinha a recebedoria que meu pai trabalhou, que é o Buraco. Nós gostávamos de ver porque o anúncio eram os porquinhos e eles vinham pra cá e puxavam a salsicha, a tripinha. Lá era o melhor cachorro-quente de São Paulo. Os Três Porquinhos. Muita gente deve lembrar disso.

 

P/1 – Dona Nora, se a senhora pudesse mudar alguma coisa na sua vida, a senhora gostaria de mudar?

 

R – Olha, falar a verdade vou ser sincera pra vocês. Eu posso dizer não, eu teria feito tudo que eu fiz. Não mudaria nada na minha vida.

 

P/1 – E os seus planos pro futuro, quais são?

 

R – Ah, curtir ainda um pouquinho, né? Passear, eu gosto de sair. Ainda não tenho internet, eu tenho para joguinho; mas, as minhas parentas ficam danadas comigo que eu digo: “Olha gente acontece o seguinte”, elas ficam o dia inteiro – eu não entendo – elas ficam o dia inteiro na internet. Eu falei gente, enquanto eu tiver saúde e disposição eu quero sair. Não vou ficar na internet pendurada. Eu acho que aquilo tem que ter um limite. Mas, o pessoal fica muito tempo, eu vejo. Minhas amigas ficam tudo na internet, eu falei aqui gente: vamos pro cinema, vamos pra shopping. Só saem de carro. Eu ando a pé, vocês não podem calcular. Eu gasto o pneu do meu sapato. Olha, casualmente, eu vou dizer uma coisa para você, anteontem o meu fusca fez 19 anos, só na minha mão! Eu fechei esses 19 anos com 65 mil e poucos quilômetros, você pode fazer a conta, vai dar uns 3 mil e poucos quilômetros, porque eu ando. Eu ando a pé. Eu saio, eu ando, eu pego o metrô, eu pego condução. Você vê pessoas. Que acaba, você anda só de carro, você não vê nada. Você só vê sua frente e aqueles caras que mal você ta pensando em mudar o sinal, os caras já tão bam, bam, bam. Então, enquanto tiver disposição eu pretendo andar, sair, ir a cinema, ver exposição. Por sinal essa semana eu quero ver a exposição do Napoleão, diz que está pertinho lá de casa, eu vou a pé. Quero ir às nove horas, ficar até o meio-dia, saio dali vou almoçar no shopping. Eu tenho que aproveitar. Se você disser: “Ah, você ficou alguma coisa da 3ª idade”, eu acho ótimo coisa de terceira idade, mas acontece que eu andando com uma turma que era assim: só tricô, bordado, receita de doce. Eu acho ótimo isso, mas, eu ainda... Talvez eu cai nisso mais tarde, mas no momento eu quero curtir um pouco, certo? Faço um pequeno exercício quando levanto, pras pernas, ta, ta, ta, ta, ta, depois vou andar! Vou ao cinema, vou aqui. Por isso que eu digo, eu tenho a impressão que eu não mudaria nada na minha vida. Que todos os lugares que eu trabalhei tudo que eu fiz, eu gostei. Me adaptei a todos. Deixei amigas em todos os lugares que eu trabalhei. Então eu gostei. Tudo que eu fiz, eu gostei.

 

P/1 – Mais alguma coisa para perguntar? Eu ia perguntar o que é que a senhora achou de ter dado essa entrevista para gente?

 

R – Achei ótimo! Vocês são ótimos. Tranquilidade. Talvez porque, como eu sou assim, mais extrovertida. Seja às vezes mais fácil conversar com vocês. __________mais fechadas, são mais.... Eu não, eu sou meia_________ (risos). Então, a vida é uma delícia.

 

P/1 – Bom, eu gostaria de agradecer, que essa entrevista foi ótima. Muito obrigado.

 

R – Eu que agradeço, viu? Outra ocasião, estamos aí...

 

P/1 – Com certeza.

 

R –... A inteira disposição.

 

P/1 – Muito obrigado.

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