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História

Segunda-feira: um grande dia

História de: Luiz Augusto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Saber olhar para a vida e abraçar as oportunidades: foi o que Luiz sempre fez. Desde a juventude, com um belo início de uma história de amor junto a esposa - então namorada; a vibração e o desejo de festejar o carnaval que o levou a não responder uma questão no vestibular, mas que mesmo assim o deixou entre os primeiros colocados; a oportunidade de vivenciar a rotina médica ainda na graduação e os encontros com pacientes que o fizeram refletir sobre os mistérios da neurologia - embora fosse uma área que não queria. Mas tudo isso não seria sua sina se Luiz não fosse um cara sensível, com olhar curioso. Nessa bela narrativa, o doutor Luiz se revela um contador de história com grande conhecimento sobre a origem de luta da família. Sem contar as coincidências, pontos-chave na sua trajetória que fizeram dele um médico referência na área.

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História completa

Não existe morte alegre, mas a minha visão sobre ela nunca foi de horror, de medo, de angústia. Eu me lembro de uma das primeiras vezes que eu passei uma noite inteira com uma pessoa que já estava praticamente morta. Uma moça que se acidentou junto com um indivíduo conhecido na cidade: eles bateram com o carro numa árvore. Ele teve morte instantânea e ela veio toda quebrada. Como não tinha parente dela acompanhando, eu fiquei dois, três dias, dia e noite cuidando dela - e ela sobreviveu. Parecia que eu tinha tido participação no caso, mas na verdade não tinha porque os médicos é que estavam cuidando, eu estava mais acompanhando, porque eu achei que ela tava muito solitária, embora em coma. Foi um episódio que me moveu para essa área de Neurologia.


A gente muda muito à medida em que vai aprendendo. Eu estudei muito. E as férias eu passava em Londrina trabalhando com um neurocirurgião e um neurologista, únicos que existiam no interior do Paraná inteiro. Só havia neurologista e neurocirurgião em Curitiba e esses dois em Londrina. Nenhum município com isso, então imagine o quanto eu trabalhava! Porque vinha gente do Paraná inteiro, acidentado, gente com tumor cerebral, acidente vascular cerebral, derrames, tudo! O consultório deles tinha pipoqueiro, tinha vendedor de sorvete, tinha algodão doce, quebra queixo, tudo lá na porta de entrada, devido a quantidade de gente que ia se consultar.

 

Cheguei a fazer coisas inimagináveis para um estudante de Medicina, porque o médico sozinho não dava conta! Então eu fazia punção de líquor, fazia um exame chamado Pneumoencefalografia, só não fazia Angiografia e Arteriografia que isso era só ele. E eu auxiliava as cirurgias, entrei em muitas cirurgias, atendia o paciente, depois o clínico atendia e eu passava o histórico. Quando eu cheguei à formatura e fui para São Paulo, na Escola Paulista de Medicina, eu já conhecia tantas coisas que nenhum residente naquela época tinha chance de fazer. Pra mim foi uma facilidade enorme, tanto que seis meses depois, nas horas vagas eu já atendia Neurologia no Pronto-Socorro Santa Paula. Era muito precoce, mas eu tinha cinco anos de prática do dia a dia, né? Hoje em dia não existe mais isso, mas aconteceu por causa da falta de condições que o país tinha no interior. Os alunos iam para as suas casas e se eles tivessem amigos, eles iam frequentar os hospitais. Passei minhas férias vestido de branco! Todos os anos. Perdi muito baile por causa disso também, né?

 

A minha decisão para ir para a Neurologia foi totalmente inesperada, eu queria ser outra coisa. Quando comecei a trabalhar nas férias, pensei em ser neurocirurgião, mas depois achei meio cruento, embora eu sempre gostasse do cérebro em si. E outra coisa curiosa é que as pessoas, às vezes, pensam que a maior parte daqueles que entram na faculdade já sabe o que vai ser. Não sabe, eles têm certas fantasias! E eu tinha a fantasia de ser endocrinologista, embora eu não sabia muito bem o que era - e pra mim depois foi uma chatice! No segundo ano, eu estava com amigos fazendo uma lista das especialidades. A primeira que eu risquei: Neurologia! E foi a que eu acabei fazendo. Você vê que coisa, né?

 

Gosto dos mistérios da área. Muito pouca gente fazia neurologia porque ela era uma área muito ampla, com muitas doenças. Ela é a parte da Medicina que tem o maior número de doenças raras, doenças de todos os tipos. E o conhecimento do funcionamento cerebral era bastante, na época, precário. Hoje, é uma felicidade grande poder vir trabalhar e se sentir bem. Parece que é brincadeira, mas segunda-feira é um grande dia! É dia de voltar para o consultório, de conversar, às vezes eu me divirto aqui, a gente dá risada. As pessoas falam: “Poxa vida, gastamos tempo aqui” “Não gastamos tempo, isso faz parte de eu lhe conhecer melhor e o senhor me conhecer melhor!” Eu descubro logo do que as pessoas gostam, tudo tem uma técnica pra isso, né? A gente não vai ficar aqui falando coisa que o sujeito não se interesse, né? A medicina é encantadora. E quando dá certo e você atinge os seus objetivos com o tratamento, isto é o suficiente. Não tem nada melhor!


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