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História

Seguir seus sonhos, uma lição de persistência

História de: Elisabete Ramos Orifice
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2021

Sinopse

As lembranças da família. Cheiros e sabores da infância. Vizinhança de onde vivia. A infância repleta de atividades esportivas e artísticas. As visitações aos navios atracados no porto. As primeiras lembranças da escola. A gravidez durante a adolescência e o adiamento de seus planos. A escolha de cursar Biologia e  sua persistência nos estudos. A segunda faculdade. Os concursos e trabalhos que fez no Hospital Guilherme Álvaro e na Secretaria de Assistência Social. A ida para Secretaria de Meio Ambiente e a contratação para o projeto de implantação da BTP. O levantamento do histórico do local e a resolução dos licenciamentos ambientais. As promoções na área ambiental da empresa e a construção do terminal. As demandas da vida pessoal e seu casamento.

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História completa

P/1 – Elisabete, pra começar, eu queria que você se apresentasse, dizendo o seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.


R – Então, vamos lá: eu sou Elisabete Ramos Orifice, eu nasci dia 24 de março de 1970, em Santos, na Santa Casa.


P/1 – E quais os nomes dos seus pais?


R – Teresinha Enézia Ramos e João Marcelino Ramos.


P/1 – E o que eles faziam?


R – A minha mãe era auxiliar de enfermagem, ela se aposentou com 70 anos, ela trabalhou na Santa Casa de Santos, no Hospital Guilherme Álvaro e também no Centro de Referência em Aids, ela foi uma das primeiras que trabalhou com Aids aqui em Santos, quando a doença surgiu. Meu pai trabalhava no porto, ele era aposentado, ele já é falecido.


P/1 – E você sabe como eles se conheceram?


R – Olha, eles se conheceram no Mato Grosso e a minha mãe não deu muitos detalhes (risos) mas eles se conheceram lá e vieram morar aqui em Santos. Eles são de Alagoas, os dois, mas se conheceram no Mato Grosso, quando a minha mãe morou lá também, eles eram novos. Se conheceram lá, casaram e vieram morar aqui em Santos.


P/1 – Você sabe por que eles vieram para Santos?


R – Ah, em busca de oportunidade, trabalho. E eu sou a caçula de quatro irmãs e todas nasceram aqui em Santos.


P/1 – Eu ia te perguntar isso: como são os nomes das suas irmãs?


R – Lenir, Leonor, Eliana e Elisabete.


P/1 – E como era a sua relação com os seus pais, como era na infância e como é agora e também com as suas irmãs?


R – Bom, a minha mãe trabalhava bastante e o meu pai também, mas ele se aposentou. A minha irmã mais velha, que se chama Leonor, era quem tomava conta de mim, com a ajuda das minhas outras irmãs enquanto os meus pais trabalhavam. E aí o meu pai se aposentou e começou a tomar conta de mim, me levava pra escola, cuidava da minha alimentação, as minhas irmãs também me ajudavam, me penteavam, me arrumavam pra ir pra escola. Então, era uma relação muito boa. E as minhas irmãs estudavam, trabalhavam e eu estava sempre ali, em busca de atenção delas, então elas estavam sempre bastante ocupadas, mas era uma relação boa.


P/1 – Você chegou a conhecer ou você conhece a história dos seus avós?


R – Não, os meus avós paternos continuaram a morar no nordeste e eu não os conheci. Meu avó materno eu também não conheci, ele faleceu quando eu era pequena, eu só conheci a minha avó. A minha avó morava em Santos também, junto com a minha tia, ela morava naquelas casinhas de fundo, tem aquelas casas e aí tem aquela casinha meia-água, que o pessoal chama, junto com a minha tia. E aí, o que eu lembro mais da minha avó é que eu ia visitá-la com a minha mãe nos domingos e eu não queria, porque a minha tia via Silvio Santos, eu odiava Silvio Santos (risos) e eu queria ver televisão e no domingo passava algum filme. Hoje em dia, a gente tem Netflix, a gente tem vários filmes, mas antigamente não, então domingo era o dia de passar filme e aí eu não gostava, ficava lá com a minha avó. E eu lembro que a minha avó fazia um café e sempre era um café preto e umas bolachinhas, que era o lanche que ela fazia pra mim. Até hoje eu não tomo café preto, eu não gosto, (risos) acho que é um pacote de não gostar de Silvio Santos e café preto. (risos) Fiquei traumatizada. (risos) 


P/1 – Eu ia te perguntar se a sua família tinha algum costume, alguma comida, alguma bebida, algum cheiro que lembre, assim, a sua infância ou alguma data comemorativa também. 


R – Bom, cheiro eu lembro que eu, um dia, estava no trabalho, numa reunião e aí eu senti um cheiro muito familiar que, na verdade, eu nem lembrava que era familiar. E aí eu procurei saber o que é que era aquele cheiro e aí eu fui perguntar pra uma moça: “Estava sentindo um cheiro”. Era esquisito, né, chegar pra moça e perguntar, (risos) mas aí ela falou que era um perfume que tinha uma raiz chamada priprioca. E aí eu fui procurar saber e eu vi que era de uma boneca que o meu pai tinha trazido do nordeste, era uma boneca de raízes, eu lembro do rosto da boneca, lembro que o cabelo da boneca era de raízes e o rosto da boneca era aquelas metades de coco, pintada e a boneca era com o vestidinho de tecido. E aí me veio aquela boneca na cabeça e eu vi que aquelas raízes eram dessa priprioca, que era um perfume que tem da Natura, pimenta rosa priprioca, uma coisa assim. E aí eu lembrei disso, engraçado, né? É a memória olfativa. Eu nem lembrava dessa boneca, eu era pequena, eu lembro que o meu pai ia visitar a mãe dele, no nordeste e, quando ele voltava, ele sempre trazia alguma coisa pra mim e aí ele trazia boneca e eu lembro dessa boneca de raízes, eu lembro que eu a coloquei até no armário, porque ela ficava um cheiro gostoso e aí veio isso. Engraçado. Agora de comida, não tinha nada muito especial. Eu lembro que, quando eu era adolescente, depois que meu pai faleceu, a minha mãe tinha que trabalhar bastante e, assim, eu lembro que a gente tinha dificuldades em casa. E eu lembro que tinha uma lata, que é de fiambre, que tinha uma chavinha para abrir a lata e eu lembro que eu sempre cortava o dedo naquilo. E a gente almoçava aquilo, dividia em quatro ou cinco, se tivesse a minha mãe e aí a gente passava na frigideira com arroz, era o nosso almoço. Então, eu não sei nem se existe mais isso, mas a gente comeu, passou uns perrengues, umas dificuldades, quando o meu pai faleceu. É um negócio que até hoje, também, eu acho que eu não como, não, mas isso também ficou marcado.


P/1 – Você sabe a história de como foi escolhido o seu nome, você tem alguma ideia ou se você sabe da história do seu nascimento, também?

R – Foi assim: o meu pai sempre quis ter um filho homem. Então, a primeira filha foi mulher, aí ele falou: “Vamos tentar, né?” Aí a segunda filha foi mulher: “Aí, vamos lá, duas filhas, vamos tentar lá”. Aí a terceira foi mulher, então o quarto filho com certeza absoluta era homem, então o meu nome era Marcelo, ia ser Marcelo Ramos e já estava tudo certo, não tinha como não ser, três filhas, meu pai querendo tanto um homem lá, devem ter feito promessa e tudo, imagino a cara de tristeza do meu pai olhando pra minha cara. Mas o meu nome era Marcelo, então não foi ‘ahhhhhh’, um Elisabete escolhido com todo o carinho. Então, o meu nome seria Marcelo, poderiam colocar Marcela, mas aí como tinha Eliana, colocaram Elisabete, pra acompanhar.


P/1 – Você lembra da casa e do bairro que você passou a sua infância, como é que era?


R – Sim porque até um ano, dois anos... acho que o ano passado que minha mãe saiu de lá. Então, desde que eu nasci eu morava no bairro da Aparecida, lá no bairro da Aparecida tem três conjuntos habitacionais, se eu não me engano é o bairro mais populoso de Santos. E aí tem esses conjuntos habitacionais, tem o BNH, tem o Jaú e tem o Iapi, que a gente chama, eu nasci e fui criada ali no Iapi. A minha mãe morava lá, tem uma particularidade que nós morávamos no quarto andar e lá não tem elevador.Hoje em dia, já não se faz mais construções de quatro andares sem elevador, mas então eu lembro que a gente subia e descia aquela escada, brincava na escada também, jogava. Então, assim, eu tive uma infância muito feliz ali, porque é um lugar que tem uma coisa muito preciosa pras crianças e que hoje não tem muito, que é espaço. Então, tinha árvores frutíferas, tinha campo de futebol, ou seja, tinha bastante espaço pra correr, pra andar de bicicleta, então passei uma infância bem bacana ali.



P/1 – E você lembra como era a vizinhança, como era também a cidade nessa época, você tem uma lembrança disso?


R – Ali o bairro, o que mudava eram os comércios. A gente tinha alguns comércios que hoje são ampliados, como a Casa de Massa que tem ali, que era uma portinha e hoje é um prédio. E tinha alguns comércios que não existem mais, mas as habitações continuam. Claro que, com a verticalização da cidade, muitos chalés que tinham acabaram virando área para edifícios. O que eu noto é a questão da verticalização e da mudança do comércio, as coisas mudam bastante nessas questões. Agora, os conjuntos habitacionais continuam os mesmos, tem lá: o BNH, o Jaú, o Iapi, continuam ali no bairro. As escolas também continuam, tem a Escolástica Rosa, tem o Andradas, tem o Lourdes Ortiz, eu acho que a Escolástica Rosa já é na ponta da praia, tem o Olga Cury. Então, assim, as escolas se mantêm, algumas habitações deram lugar aos edifícios e a mudança dos comércios: supermercados, barzinhos que abriram, que naquela época não tinha barzinho. Eu lembro, quando eu era pequena, tinha um cinema no bairro, que era o Cine Brasília e eu cheguei a ir lá e eu lembro de dois filmes que eu fui lá: um era A Branca de Neve e os Sete Anões e o outro era Marcelino, Pão e Vinho, no Cine Brasília, que era ali na Pedro Lessa, que não existe mais. Então, essas são as minhas lembranças.


P/1 – E quais eram as suas brincadeiras favoritas, quando você era pequena?


R – Ah, tinha bastante. A gente pulava corda. É como eu falei: como eu cresci no prédio que tinha bastante espaço, então, a gente pulava corda, brincava de esconde-esconde, polícia e ladrão, teve uma época que a gente jogava, não sei como que era o nome, mas era uma faca que fazia uns cortes, não sei se alguém lembra, mas era ou faca ou chave de fenda, que jogava assim e aí tinha que fazer uns cortes, eu lembro daquilo. Segurança nada, né? Anos 1980 aí, quem conseguiu superar, são todos guerreiros. Mas, assim, esse tipo de brincadeira. Eu gostava de produzir teatro, né? Então, assim, eu juntava - eu sempre tive espírito de liderança - as meninas e os meninos e fazia, montava teatro. Às vezes, eu pegava uma história, às vezes, eu comprava gibi, porque eu gostava bastante de ler gibi e aí eu lembro de a gente fazer Romeu e Julieta. E aí a gente tinha que pegar a roupa dos pais e aí pegava os menores e sentava como se fosse um teatro. (risos) Eu lembro que como a gente não tinha acesso à aparelhagem de som, nem rádio, hoje em dia está mais fácil, eu colocava uma amiga minha pra cantar todas as árias das peças e ela ficava ali: aaaaaaaaaaaaahhhhhhaaaa. (risos) Coitada da Elaine, é minha amiga até hoje e ela deve lembrar. Mas, assim, ela que cantava. E aí o zelador arrumava uma corda pra gente montar uma cortina e a gente brincava de peça. Eu também tinha um clube, aí eu falava pra todo mundo: “Quer ser sócio do clube?”, pros menores, né? Aí eu falava: “Você quer ser sócio do clube? Olha, é o seguinte: vai ganhar uma carteirinha” - aí eu fazia a carteirinha assim, de papelão – “Fica sentadinho aí”. Eu desenhava a cara da pessoa, (risos) colocava o nome e falava: “Ó, você vai ganhar uma carteirinha”, como se fosse assim ó, um prêmio e aí, pro pessoal participar: “O que a gente vai fazer no clube”? Aí, arrumava uma bola: “Vai ter jogos no clube, vai ter a sede do clube, aí vou levar vocês em excursões”. Aí, as excursões, fazia um trenzinho, um colocava a mão no ombro do outro e aí, todo o dia eu inventava alguma coisa aí, porque era atividade do clube, pra pessoa se motivar a querer participar do clube e eu sempre que mandava, eu sempre era a diretora das brincadeiras que eu inventava. Então, eram isso aí as brincadeiras. Ia lá no canal também pegar peixinho, pegava uns vidros de maionese, que iam ser o aquário e colocava os peixinhos no aquário. Até um dia que alguém caiu lá, saiu rolando para dentro do canal, mas também tudo bem, não fui eu, vamos lá, vamos pra frente. (risos) Assim, sempre tive bastante criatividade e na escola também, que eu estudava ali no Andradas, que era uma escola estadual, na época, hoje é municipal e eu acho que... não sei se é municipal ou estadual, mas antigamente era só estadual e também era uma escola... acho legal escolas públicas, porque elas têm bastante espaço, ao contrário, às vezes, das escolas particulares, que são bem reduzidas. Então, cada ano era uma atividade esportiva, era o ano do basquete, o outro ano do vôlei, o outro ano do handebol. A gente estava sempre envolvida ali, com esporte. Aí tinha o torneio entre as escolas, aí a gente inventava aquelas musiquinhas. E escolhia umas musiquinhas bem bobinhas, assim, mas a gente ficava inventando as músicas, pra desafiar lá as outras escolas. Então, a gente estava sempre envolvida com esporte e os meninos também, do nosso grupo, que a gente tinha um grupo bem grande, já na adolescência, de futebol. A gente tinha só um jogo de camisa e aí dava pros meninos, os meninos jogavam, aí depois tiravam a camisa, davam pra gente aquele nojo, todo suado, (risos) com todo o respeito, mas vinha fedido, a gente levava, lavava, pra depois poder jogar. E eu lembro que eu falava: “Eu vou entregar bem cheirosinha as minhas camisas e tal”. Aí colocava, abria os sabonetes da minha mãe, colocava num saco, fechava e entregava aquela camisa com aquele cheiro de sabonete. Enfim, a gente dividia os uniformes, mas estava sempre envolvido em esporte e outra coisa: em dança também. Então, também estava sempre envolvida com dança, pedi pra minha mãe me matricular no Teatro Municipal, aí fiz balé clássico, a partir dos onze anos e a minha mãe me levava, até o dia que ela falou: “Ó, você vai ter que aprender a pegar ônibus”. Aí eu lembro que tinha um seletivo e eu pegava o seletivo e ia lá pro Teatro Municipal. Depois comecei a andar de ônibus sozinha e aí ia pra lá, fiquei até os dezessete anos no Teatro e também tive contato com a arte, porque já que eu estava lá mesmo. Comecei a aprender todos os cantinhos que tinham lá no Teatro Municipal, às vezes, tinha um coral, às vezes, uma peça de teatro, a gente tinha acesso ali, porque já estava fazendo balé mesmo, saía do balé, ia, via as exposições, as peças, sabia onde que era pra entrar, pra ficar lá em cima do palco, não sei o nome, onde ficam os refletores, aí você olha lá pra baixo e está acontecendo as peças. Aí eu lembro que eu ia lá e me sentia privilegiada, de conhecer cada cantinho lá e de ter acesso porque eu acho que, às vezes, isso falta, falta espaço, falta acesso às coisas, o pessoal hoje fica muito em casa, não tem muito acesso. Então, assim, eu tive bastante acesso à cultura, por conta do Teatro Municipal, conheci os cantinhos lá, a gente pulava, tinha uns lugares que pulava de um setor do prédio pro outro. Aí eu lembro que, uma vez, a gente pulava de um lado pro outro e tinha um vão, a gente olhava lá embaixo, mas tinha... ou seja, segurança nada. E aí, eu lembro que tinha um desses lugares, em vez de ser um vão lá pra baixo, tinha um lugar que dava pra pular e ficar, como se fosse um degrau, assim. E aí eu sabia daquilo, eu levava o pessoal lá e falava: “Olha, toma cuidado porque, se cair lá embaixo, um abraço, né, vai morrer mesmo, porque é bem alto e não sei o quê” e aí andava. E aí eu lembro que, como eu conhecia esse lugar, eu fingia que eu ia pular e tinha me desequilibrado e caía, mas eu caía entre os vãos e estava um degrau abaixo. (risos) Aí, quando eu voltava, estava todo mundo assim: “Aaaaaaaaaahhhh”. (risos) E, assim, era brincadeira saudável, né, saudável, saudável. Mas, essa foi a minha infância, bastante feliz.


P/1 – Elisabete, eu queria saber se, nessa época, quando você era pequena, você tinha alguma ideia que existia o porto, até pelo seu pai ter trabalhado lá, ou era assim, uma coisa distante? Você sabia que tinha um porto na cidade, você via esse porto?


R – Eu sabia. A orientação que a gente tinha do prédio era: desce e a gente não queria subir porque, se subisse, ficava. Então, assim: a gente ficava apertada pra ir pro banheiro e pra não subir pra ir pro banheiro, a gente não queria comer, porque a gente sabia que ia subir. E a orientação é: quando começar a escurecer, sobe e não sai do prédio. Só que o que acontece, alguém sempre tinha alguma ideia maravilhosa, né? E a gente tinha a ideia, vendo o jornal, porque, às vezes, a gente tinha acesso, que tinha visitação de navios. Então, eu comecei, escondido, a visitar os navios, (risos) com as minhas amigas. Então, assim, a gente era pequena, eu lembro que eu ia na bicicleta de uma amiga minha, assim, em pé, hoje em dia ninguém mais anda em pé. E aí, ia uma porção de meninas lá, os meninos também e a gente ia pro porto. Você vê, né: criança, sei lá, tinha os meus doze anos, andando no porto, pra visitar navio. E aí, a gente começou a ficar de olho e tudo que era visitação, a gente estava no porto. Então, eu lembro que a gente visitou o submarino. E a gente ficava: “Caramba, submarino”. Aquelas camas, como é que eles dormiam, onde eles comiam, visitava submarino. Eu lembro de um navio que, se eu não me engano, chamava Doulos, que era um navio-biblioteca. Eu lembro, ah, navio de guerra, então uma série de navios, a gente estava sempre no porto, a gente estava sempre no porto, é claro, sem a minha mãe saber, né? Meu pai já tinha falecido, meu pai já era linha dura, eu morria de medo do meu pai. Ele nunca me bateu, mas meu, ele tinha uma voz que parecia um trovão e aí eu respeitava pra caramba, morria de medo. (risos) Só que aí, quando o meu pai faleceu, a minha mãe, coitada, tinha que trabalhar, ela trabalhava 12 por 36, um dia sim, um dia não, na Santa Casa. Só que aí, ela trabalhava no Guilherme Álvaro também, 12 por 36. Então, ela trabalhava um dia sim, um dia também, um dia sim, um dia também. E ela trabalhava à noite e de manhã ela já emendava com outro trabalho, porque ela entrava às oito e saía às duas. Ou seja, pra minha mãe criar a gente lá, mas ela não estava olhando e a gente ia pro porto. Então, assim, desde pequena eu tinha essa relação com o porto, eu sabia que o meu pai trabalhava no porto, já tinha trabalhado no porto. Até que ele se aposentou e depois faleceu. Então, eu sempre tive esse carinho com o porto e aí eu falava, né: “Um dia eu ainda vou trabalhar no porto”. E aí foi isso, deu certo, né? (risos) 


P/1 – Eu ia te perguntar: quando você era pequena, você sonhava em ter alguma profissão específica ou nem era uma coisa que passava pela sua cabeça?


R – Eu tenho muito claro na minha cabeça, desde que eu era pequena, a área que eu ia atuar, que é o meio ambiente. Tem muita gente que não sabe o que vai fazer, mas desde pequena eu já sabia que era isso o que eu ia fazer, era vocação. Quando eu era pequena, tinha lá os meus seis anos, eu queria ler, eu queria ler gibi e eu gostava muito de pintar e aí eu aprendi a ler, eu fui aprendendo a ler, pra poder ler os gibis e qualquer coisa que tivesse lá, que eu queria ler, porque as minhas irmãs liam gibi, porque, às vezes, a alegria do negócio lá em casa era ficar lendo, então eu queria ler também. Todo mundo: “Ah, não posso brincar contigo, porque eu tô lendo, tô lendo”. E aí, eu lembro que o primeiro livro que eu ganhei foi um livro de zoologia e botânica. Não que eu ganhasse o livro, era da minha irmã, era da escola, só que ela tinha mudado. Era um livro que a minha irmã não ia usar mais, os livros lá em casa iam passando de umas pras outras. E aí eu ganhei esse livro e podia pintar as figuras que estavam lá. Então, eu comecei a ler, aprendi a ler com seis anos, porque eu queria ler os gibis, queria ler os livros também, queria participar. A motivação era que eu queria ler. Aí eu comecei a gostar, eu lembro que tinha parte lá da parte de saúde também. Então, eu lembro também que tinha o Mundo Animal, um programa chamado Mundo Animal, eu lembro... enfim, todo o programa que estava relacionado... que não tinha muita coisa. Começaram a falar mais de meio ambiente de uns tempos pra cá, mas, assim, sempre me interessei pelo tema. E na escola, depois, a partir do quinto ano, a matéria que eu mais gostava era Ciências e aí foi indo, foi indo, mas eu sabia que eu queria trabalhar nessa área, até quando eu pude entrar na faculdade. E aí, minha mãe falava assim, pra não fazer isso. Eu falava que eu queria Biologia. Na verdade, quando eu entrei pra faculdade, era pra trabalhar na área da saúde, que como a família da minha mãe é toda da área da saúde, auxiliar de enfermagem, minha mãe, minha tia, enfim. E aí, tipo: lá que você ganha dinheiro, lá que você vai conseguir sustentar uma casa, só que aí eu não queria, queria trabalhar, eu queria fazer Biologia, mas a minha mãe falou: “Não, você vai fazer Enfermagem” e eu falava: “Queria fazer Biologia”. A minha mãe falou: “Vai ser o que, professora, né? Os meninos, hoje, as meninas estão muito, respondem, não têm mais aquele respeito que se tinha antigamente pelos educadores. E aí não vão te respeitar”, enfim. Era pra ser enfermeira lá e na última hora, na última hora mesmo, quando eu fui colocar lá, eu coloquei Biologia, dane-se, vou fazer o que eu quero. (risos) E assim: a questão da faculdade em si, já foi um prêmio, já foi um sonho entrar pra faculdade, porque eu fui mãe adolescente. Então, quando a gente é adolescente, tudo é demais, né? Quando a gente é adolescente, eu lembro que tudo era demais, tudo era muito intenso. Então, se a gente quer uma coisa, a gente não quer, a gente quer muito e se não tiver vai morrer. (risos) Mas a sensação que a gente... pelo menos eu já senti, minhas amigas já sentiram, quando você não pode alguma coisa, vai todo mundo pra uma festa e você não vai, você vai morrer ali. Então, na adolescência tudo é demais. Então, tive um namorado e aí eu fiquei grávida na adolescência. E aí é como se a minha vida tivesse parado. Primeiro, porque quando eu fiquei grávida na adolescência, a gente não tinha isso que tem hoje, que você vê uma adolescente grávida, eu acho que naquela época não tinha adolescente grávida. Quando você é adolescente, você acha que se você pensar bem forte, aquilo acontece ou não acontece. Então, assim: na minha cabeça eu não estava grávida. Tanto que, quando fui ao médico, eu já estava com quase sete meses de gravidez. Eu não estava -pensando bem forte assim - grávida, nem sabia o que era, não tinha amigas que estivessem grávidas, não tinha internet, não tinha nada. Então, eu me senti assim, depois que eu fui ao médico, assim: “Olha, está grávida”. Eu fiquei meio em choque e a minha vida ali parou. Então, tudo isso que eu tô te falando, naquele momento parou. Então, eu falei: “Olha, a minha vida acabou. Tô grávida, vou ter um filho, quem é que tem filho com dezesseis anos?” Não tinha isso. E assim, não tinha apoio, sei lá, tinha vergonha, estava no balé e a professora falava: “Nossa, mas a sua barriga está tão dura”, aí você fala: “Como é que pode, né?” Aí eu, quando tinha dezesseis anos, pesava quarenta e cinco quilos, eu era muito magra. Então, a gravidez inteira eu engordei dez quilos, então cinquenta e cinco quilos, ou seja: você fala com uma pessoa de cinquenta e cinco quilos. Então, eu falei: “Poxa, todos os meus sonhos acabaram, agora eu vou cuidar do meu filho, da minha filha” - porque ali eu não sabia, hoje em dia já tá mais fácil - “E, assim, eu não vou conseguir fazer mais nada da minha vida. Então é isso, acabou, acabou, agora acabou tudo, não vou mais nada”. E aí eu fiquei, nesse tempo, congelada, sim, com vergonha, porque eu sentia que eu estava envergonhando a minha mãe. Eu lembro que a minha mãe falou assim pra mim... acho que eu não vou conseguir falar, mas enfim. Dá pra parar um pouquinho? (choro) Não, vamos lá, vamos lá: foi uma época difícil da minha vida, mas deu tudo certo. Então, assim, hoje, quando eu procuro falar com adolescentes, assim, que eu gosto bastante, não tenho a oportunidade de trabalhar com adolescente nem nada, mas, eu sempre procuro dizer, contar a história porque eu me sinto uma vencedora e eu quero que todas as meninas que, por acaso, passem por isso, vejam que é possível superar tudo isso. Eu cuidei do meu filho, eu casei, fui morar na Praia Grande, era o único lugar onde a gente tinha dinheiro pra comprar uma casinha, então a gente casou, duas pessoas novas que decidiram enfrentar a vida. E aí eu tive, depois, meu segundo filho, com dezoito anos e morei na Praia Grande por nove anos. E eu tive que parar de estudar, eu parei no ensino médio. Então, eu falei assim: “Bom, acabou a minha vida”. Eu lembro que eu fui morar numa casinha, que eu encostei no muro e o muro inclinou, fez: vaaaaaa. (risos) E, assim, era lá depois da Curva do S, uma casinha bem simples. E a gente tem muito sonho, né, de estudar, de ser alguém na vida e aí isso ficou congelado, ficou congelado, mas eu tinha esperança de um dia, um dia eu ainda ia terminar os meus estudos, fazer faculdade. Então, pra mim, fazer faculdade foi uma coisa... eu não desisti, mas eu falei: “Agora eu não consigo”. Então, eu fui cuidar dos meus filhos, sempre fui eu que cuidei deles. Eu tenho três filhos, tenho dois do meu primeiro casamento, eu era adolescente. E a minha filha eu já tive mais tarde, do meu segundo casamento. Mas aí eu fui fazer Biologia, falei: “Depois de tudo isso, eu ainda vou fazer Enfermagem”, porque minha mãe queria que eu trabalhasse no hospital. A minha família prestava concurso, então a minha mãe, as minhas irmãs trabalhavam, eram concursadas, falei: “Ah, vou estudar também pra concurso”. E aí eu passei no meu primeiro concurso, fui trabalhar no estado, na área da saúde e trabalhei lá no Hospital Guilherme Álvaro, por uns quatro anos. Aí, eu prestei outro concurso pro município e passei e aí fui trabalhar no município. Falando assim até que é fácil, mas não, eu estudei muito. Eu sempre fui muito disciplinada, então eu tinha uma rotina de estudo e eu fazia as minhas planilhas, anotava tudo pra estudar, porque não dava pra fazer cursinho. Então, eu tinha que estudar, pegava lá e estudava, bom, enfim. Aí eu fui, trabalhei no Guilherme Álvaro quatro anos e depois eu fui trabalhar no município. Eu lembro que eu trabalhei na Secretaria de Assistência Social e depois eu pedi pra passar, já estava fazendo, eu já tinha feito licenciatura em Biologia, depois eu fiz um bacharelado em Biologia Marinha. Aí, eu estava fazendo a pós em Gestão Ambiental Portuária, porque eu falei: “Um dia eu vou trabalhar no porto”, aí eu fui trabalhar na Secretaria de Meio Ambiente de Santos. Aí eu falei: “Ah, agora eu tô na área que quero”. Então, assim, pra mim, meu, muita vitória, assim, conseguir isso. E, assim, é tão legal quando você consegue alguma coisa que você quer, você até esquece tudo que você já passou pra estar ali, pra ter conseguido aquilo lá. Então, nossa, eu fiquei muito feliz. E aí eu passei pra Secretaria de Meio Ambiente e fui fazer uma pós em Gestão Ambiental Portuária e aí, depois da secretaria, surgiu a oportunidade de trabalhar no porto. Eu saí falando. (risos)


P/1 – Não, tudo a ver, está tudo ótimo. Antes de você começar, a contar da sua trajetória no porto, vamos puxar um pouquinho pra trás e daí a gente vai indo pra frente depois, sem problema. É ótimo quando você conta assim, dá até uma dimensão da sua história, importante pra gente, o processo. Mas eu queria que você fosse um pouco pra trás ainda, lá na sua infância e me contasse qual é a primeira lembrança que você tem, da escola. 


R – Da escola eu lembro, eu lembro antes de chegar na escola, eu lembro do meu pai me levando pra escola e me mostrando: “Ó, é esse caminho que você tem que fazer”, me levou a primeira semana. E na escola, assim, eu sempre gostei muito de estudar e sempre foi um ambiente muito agradável, como eu falei. Eu comecei a estudar numa escola estadual bem grande, que fica ali no BNH, o Andradas. E, assim, indo mais pra trás, até, antes de entrar no primeiro ano, no Andradas, eu lembro que eu estudei no Parquinho Olívia Fernandes, ali que fica entre o Canal 5, Canal 4, ali na Affonso Penna. E aí eu estudava lá, eu lembro que eu gostava de desenhar. A primeira lembrança que eu tenho, eu tenho algumas lembranças do parquinho, de eu ter feito as caravelas, desenhado as caravelas, que era a comemoração do Descobrimento do Brasil. E aí ninguém acreditava que eu tivesse feito, eu tinha uns seis anos e aí eu lembro de ter que provar. Eu acho que essa sensação de ter que provar, acho que me acompanha até hoje, engraçado até isso. Porque eu tive que pegar um papel e desenhar ali pra todo mundo que eu que tinha feito a caravela, não tinha ninguém feito pra mim. E aí a professora saiu comigo no braço, mostrando: “Gente, olha o que essa menina fez”. Eu sempre gostei bastante de desenhar. E esse negócio de desenhar também é engraçado, porque eu desenhei acho que até o ensino médio, depois eu fui parando, porque a gente fica sem tempo e nunca mais eu desenhei nada, eu acho, mas enfim, as primeiras lembranças são essas, das caravelas que eu desenhei, que ninguém acreditava, que eu tive que fazer de novo. Eu lembro do parquinho, que tinha um menino que aterrorizava lá naquela caixa de areia, eu morria de medo dele e ele aterrorizava todas as crianças. E ele batia, ele puxava o cabelo, a gente tinha que tirar... eu lembro da conga, da conga azul, com a meinha branca e a gente tinha que tirar, pra entrar na caixinha de areia lá. E ele pegava as nossas meias, jogava. Nossa, o menino aterrorizava. Pais, mães, olhem seus filhos, (risos) porque eu morria de medo daquele menino, essa lembrança ficou. E uma vez também, que teve uma festinha do Dia das Mães e que eu fiz uma apresentação e no final tinha um pentinho, que era o cabo do pente o caule da flor e aquelas coisas, presentinhos. E aí eu fui levar pra minha mãe, lá no fundo, teve teatro e tal e aí eu cheguei lá e minha mãe estava assim, (risos) dormindo, porque ela tinha trabalhado a noite toda, coitada, ela estava (risos) com a boca aberta e dormindo. E aí, eu lá, assim: “Mãe”. (risos) Coitada, ela tinha trabalhado a noite toda e ainda se forçou ir lá, pra ver. Então, essas foram as minhas lembranças do parquinho, daquele parquinho lá, Olívia Fernandes, depois na escola e eu estudei no Andradas até a oitava série, na época. E aí foi muito bom, fiz muitas amizades, tenho algumas amizades até hoje, proporcionou só coisas boas.

P/1 – E tem algum professor, alguma professora que foi muito marcante, em toda a sua trajetória, assim, como aluna, né? Teve algum professor?


R – Teve, tiveram vários, né? Tinha o professor Euni, que trabalhava no Andradas, era professor de Educação Física. Eu lembro do shortinho vermelho e a camiseta branca e a sainha plissada, que a gente tinha que ir tudo arrumadinho pra aula de Educação Física, estudava de manhã e fazia Educação Física à tarde. Eu lembro das professoras, da professora Sandra, professora de Ciências, que também foi muito importante porque, como eu já gostava da parte de Ciências, então, assim, foi muito importante. Eu lembro da minha primeira professora de balé, que se chamava Gleici, lá no Teatro Municipal. Minha professora de balé, Rosângela, também lembrava e elas eram bem rígidas, eu lembro que ela ficava com um cabo de vassoura batendo, pra contar, então: “Um, dois, repete, barriga pra dentro, popô pra dentro”, elas faziam e apontavam, assim, com o cabo de vassoura. Imagina hoje isso! Pegar o cabo de vassoura e bater assim na... (risos), dá polícia. E eu lembro de uma professora na escola, no primeiro ano, que pediu pro menino sentar várias vezes e o menino não sentou. Ela bateu com a régua, quebrou a régua (risos) na cabeça do menino, eu falei: “Meu Senhor, olha coisas como eram antigamente!”. Então, antigamente não tinha moleza, não. Então, hoje as coisas são mais, assim, politicamente corretas.


P/1 – Como que foi, assim, como que seguiu a sua formação, nessa época ainda, de juventude mesmo? Em que época que você parou de estudar, como foi a sua juventude, até o momento que você engravidou?


R – A minha juventude tem essas duas fases, né? Antes de ter o meu primeiro filho e depois. Antes era dedicado a esporte, à dança, eu dançava no Sesi... Sesi não, Sesc, que era ali na Conselheiro Nébias, depois que abriu lá no Canal 5. Mas eu lembro também quando teve o Sesc lá no Canal 5, foi muito bom. Mas eu ia, treinava vôlei, tinha um professor, o Marcão, que dava aula de vôlei, dança, a gente ensaiava dança, lembro da época dos Menudos, que a gente dançava. E aí a gente participava de concurso de dança, as meninas fazendo os Menudos e ia pra São Paulo ver o show, quer dizer, era maravilhoso. Ia no programa do Bolinha, ia no programa do Silvio Santos, apesar de eu não gostar muito, mas eu ia lá. Eu não gostava porque eu lembro do programa do Silvio Santos que chegava e eles pegavam as mais bonitinhas e colocavam ali na frente e, assim, eu não achava politicamente correto, mas enfim, não falamos sobre isso. A minha adolescência foi de muito contato com esporte, com arte e uma vida normal. Depois, quando eu fiquei grávida, que eu me dei conta, porque até então, até quase sete meses de gravidez, acho que era negacionismo. E aí deu uma congelada, porque aí eu fui ter o meu filho e aí eu falei: “Bom, essa vida agora é responsabilidade minha”. E, como eu sempre fui muito responsável, mesmo desde pequena, desde adolescente, eu sempre fui muito responsável, então eu falava: “Agora meu filho é a minha responsabilidade”. Então, eu tinha medo porque, é uma responsabilidade muito grande pra uma adolescente e, enfim. E aí, eu passei o resto da minha adolescência, até eu poder voltar a estudar, meu filho já estava maiorzinho, aí eu lembro que a minha sogra ficava com ele ou o meu marido e aí eu voltei, pra terminar a escola. E a faculdade eu só pude fazer depois, aí eu já tinha trinta e poucos anos. Até falavam, tinha gente que falava: “Não, vai fazer faculdade pra que?” Eu tenho os meus amigos que têm duas, três faculdades aí, nem trabalham na área. Então, eu sempre fui guiada pela persistência, porque eu escutei muito isso: que já era tarde pra fazer faculdade. Eu não sou muito boa de datas, então assim: mas eu tinha trinta, não sei, eu preciso até olhar. Mas sempre ouvi que já era tarde pra fazer a faculdade, que não adiantava fazer, porque tinha muita gente que fazia faculdade e não adiantava nada, que o negócio era eu trabalhar. Aí eu tinha filho. E aí, eu entrei na faculdade mesmo assim, mesmo com tudo contra, né? E depois, também, que eu fui fazer Engenharia. E eu fiquei grávida da minha filha no segundo ano da faculdade, falaram assim: “Ah não, vai, para, porque você não vai aguentar, você não vai conseguir”. Nossa, eu escutei tanto isso na minha vida: “Você não vai aguentar, você não vai conseguir, que já é tarde, que faculdade pra que, porque depois o pessoal fica desempregado, mesmo com faculdade”. Assim, eu queria estudar, porque eu sempre gostei de estudar e aí eu fui indo, né, fui indo. Eu não lembro mais da pergunta.


P/1 – (risos) Tudo bem. Quantos anos você tinha, quando você engravidou pela primeira vez?


R – Eu tinha de dezesseis para dezessete anos. Meu filho nasceu em setembro de 1986, eu tinha dezesseis anos.


P/1 – E como foi se tornar mãe e o que a maternidade mudou na sua vida?


R – Ah, mudou tudo, né? Mudou tudo, porque eu não estava preparada e eu tive que aprender, tive que aprender. Então, assim, o primeiro passo foi entender que eu precisava estar naquele papel, que não adiantava pensar no que eu deixei, do que eu ia parar de fazer, do que eu não ia conseguir mais, eu ainda era adolescente, eu lembro que era na época das festas de quinze anos, inclusive. Porque eu tinha dezesseis, estava ali. Então, sim, deixar de ir pras festas, deixar de sair com as minhas amigas, deixei de fazer tudo. Então, assim, mudou tudo, mudou tudo. Eu fui pro hospital, tive meu filho, saí com medo. Nossa, eu estava com medo, porque falava assim: “Cara, agora é comigo, né, agora é comigo, como é que vai ser? Não sei de nada”. Não teve planejamento, não teve enxoval, não teve... era tudo: “Corre”. Não tinha, assim, uma preparação, né, mal fiz o pré-natal. E aí eu penso que isso também pode ser a realidade de muita gente, pode ser não, é, acontece. E eu me senti muito desamparada, eu me senti muito desamparada, a minha mãe me ajudou. Primeira coisa é que ela: “Poxa vida, né?” A pessoa fica meio decepcionada com você e também é muito ruim você decepcionar as pessoas que você gosta. As pessoas não vão chegar pra você e falar assim: “Ah, tô decepcionada com você”, mas você vê na cara delas que elas estão decepcionadas, que elas desejam outras coisas pros seus filhos. Então, assim, ela me apoiou. No começo, ficou muito triste e tal, mas assim, não me deu as costas. E aí tudo mudou, eu tive que aprender tudo, aprender, o meu filho chorava à noite, aí eu não dormia, parecia um zumbi. Eu lembro uma vez que eu peguei o carrinho e coloquei do lado da minha cama, aí eu fui colocá-lo no carrinho e eu o coloquei entre o carrinho e a cama. Ele começou a chorar, eu podia ter derrubado a criança, de tanto sono que eu estava, eu fiquei sem dormir, parecia um zumbi. Assim: uma adolescente, que não sabe nada, que está envolvida com esporte, com música, com dança, com a escola, que está ali, com as suas amigas. Eu lembro que as minhas amigas fizeram um chá de bebê e eu lembro que, na época: “Você está grávida?”, eu falava assim: “Não, não”, sabe? Você pensava bem forte, negava, não estava, não aconteceu, aquilo não ia acontecer com você. Adolescente é complicado, né? (risos) E é isso, aí isso tudo mudou a minha vida, porque eu tive que aprender, aprender a cuidar de uma criança. Ainda falavam assim: “É uma criança cuidando de outra criança”. E, às vezes, escutava as piadinhas maldosas também, tinha bastante isso porque, assim, não tinha muita adolescente que ficava grávida. Então, assim, eu tinha vergonha, então, sabe, era meio discriminação, sofria discriminação e é isso, mas aí tudo foi superado.


P/1 – Quais os nomes dos seus filhos?


R – Então, o nome dos meus filhos, o primeiro filho chamava... chamava não, chama, né? (risos) O nome do meu primeiro filho é Andrew, aí fala: “Por que Andrew?” Você vê como adolescente é. Porque eu lembro que Andrew era o filho da Rainha Elizabeth. (risos) E aí eu lembro que ele ia casar, eu achava: “Olha o príncipe. Meu filho vai se chamar Andrew”. E o meu segundo filho se chama Lucas e a minha filha se chama Fernanda. Então, estão aí, eles têm, 1986, né: trinta e quatro, trinta e dois, eu não sou muito boa de conta, mas é um ano e meio de diferença de um para outro. Trinta e quatro, aí trinta e dois, trinta e três e a minha filha tem dezenove. Então, eu tenho bastante orgulho deles, porque os três já estão encaminhados, estudaram, só a minha filha que ainda está na faculdade, está fazendo Odontologia, mas porque ela quis, eu não obriguei ninguém e ninguém, também, seguiu a minha área. (risos)


P/1 – Elisabete, e como foi o momento de voltar para estudar, de entrar na faculdade, o que é que significou isso, para você?


R – Eu acho que significou, primeiro: era uma coisa que eu queria muito. Então, assim, independente do que eu acho sobre o estudo, porque eu acho que a educação liberta, eu acho que você estudar, eu sei que é meio clichê, mas amplia mesmo os horizontes, você começa a pensar em coisas que você não pensava antes, começa a ver coisas novas, você começa a se interessar por algumas coisas. Pra você se interessar, às vezes, você precisa conhecer, por isso que é tão importante dar oportunidade pras pessoas, né? Porque as pessoas, às vezes, conhecem uma coisa e falam assim: “Ah, é isso que eu quero”. Então, é uma oportunidade. Independente de tudo, era o que queria, pra mim eu queria fazer a faculdade e você conseguir alguma coisa que você quer é muito prazeroso. E realmente eu acho que liberta, né? Eu acho que são coisas que ninguém tira de você. Eu já tive marido, eu já me separei, eu já tive casa e não tenho mais, eu já perdi muitas coisas, mas assim, o que eu estudei está sempre ali. E também não desisti, é uma lição de persistência, porque eu começava a estudar, mesmo depois que eu voltei pro ensino médio, para terminar e depois que eu fui pra faculdade, tem muita dificuldade. Você tem filho e aí você tem muita dificuldade, porque você tem casa pra cuidar, tem filho pra cuidar, seu filho fica doente, você gasta com transporte, tem que estudar pras provas, tem que fazer os trabalhos, é muita dificuldade. Então, muitas vezes eu ia desistir, muitas vezes eu queria desistir e falar: “Não, não dá mais, não dá, eu tentei, foi bom”. Eu me justificava pra mim mesma, falava assim: “Tentei, fiz a minha parte, fiz o melhor possível, mas eu não vou conseguir”. E aí que tá, né? A minha mãe, mesmo não me apoiando pra eu fazer Biologia, para área de meio ambiente, que ela queria que eu fosse da área da saúde, mesmo assim, também a minha mãe foi importante nesse processo, que ela falava assim: “Não, você vai fazer, você vai fazer, você não vai desistir” e aí eu: “Não” “Então, vai essa semana”, então eu ia. E aí, eu já me motivava. Então, assim, é importante também a rede de apoio. A motivação maior está dentro de você, você tem que saber porque é que você quer fazer aquilo, a importância que aquilo tem na sua vida e você tem que voltar e viver relembrando essas coisas, mas a rede de apoio, assim, é bem importante também, porque uma hora você vai fraquejar, é bom você ter alguém que fale assim: “Não, você vai fazer, você não vai desistir, vamos lá, o que está faltando aí?” E aí, então foi isso: uma série de pessoas que me ajudaram a não desistir, a ter força e superar as dificuldades, porque qualquer coisa que você vai fazer, vai ter dificuldade.


P/1 – E me conta do seu primeiro trabalho, qual foi, como que era?


R – Primeiro trabalho na vida? Primeiro trabalho na vida, primeiro foi, eu estudava inglês e aí eu conheci a dona da escola de inglês, a gente ficou amiga, ela precisou de uma secretária e aí me convidou pra estudar... pra estudar não, pra trabalhar e estudar lá também. Ela falou assim: “Olha, vai poder estudar sem pagar e aí você vai trabalhar aqui e tal”. Chama Tereza Maria e ela foi bem importante, porque, às vezes, eu também estava meio desmotivada e ela escrevia uns bilhetinhos pra mim e sempre foi muito bacana. E aí eu fui trabalhar na escola de inglês da Tereza, na Praia Grande. Depois eu também trabalhei numa rádio comunitária, que também foi bem legal a experiência, a gente sempre aprende. Dei aula em academia, em escola infantil, que eu dava aula de balé, com aqueles meus sete anos do Teatro Municipal, falei: “Olha lá, está vendo”? Eu queria ter me formado, mas aí eu fiquei grávida e aí não consegui me formar e tive que mudar pra Praia Grande, ficava muito longe. Mas eu dava aula de balé e assim foi, aí eu falei: “Ah, vou prestar o concurso”, aí comecei a estudar para concurso.


P/1 – E como foram esses outros trabalhos, prestar concurso? Você já falou um pouco, mas pode continuar, até a hora que você decidiu entrar no porto.


R – Tá. Bom, eu trabalhei na escola de inglês, na rádio comunitária, quando eu morei na Praia Grande e era meio período, ou seja: eu podia trabalhar enquanto os meus filhos estavam na escola e na escola infantil e na academia também. Então, assim, era a oportunidade de ter um horário mais flexível. E o deslocamento, eu também podia ir de bicicleta, que era próximo, pegar um ônibus, enfim. Bom, aí depois fiz, prestei o concurso, passei e falei: “Bom, está na hora de voltar pra Santos” e aí eu saí da Praia Grande e voltei pra Santos, aluguei a minha casa que tinha lá na Praia Grande, aluguei aqui em Santos, voltei pra cá, fui trabalhar no Hospital Guilherme Álvaro. Aí, lá eu trabalhava no SN... Serviços de Nutrição e Dieta e era cozinha e cuidava das copas. Bom, fui trabalhar no Guilherme Álvaro, fiquei quatro anos trabalhando lá, ajudando na cozinha e atendendo as copas. Fiquei quatro anos e eu estava fazendo faculdade, estudava no Santa Cecília, que era perto do hospital e fui morar próximo do hospital também. Então, assim, foi muito importante e, assim, a minha mãe já trabalhava no hospital, a minha irmã também trabalhava no hospital, o hospital tinha uma creche, então minha filha era pequena e ela podia ficar na creche enquanto eu trabalhava, que é importante também, é difícil, não é todo lugar que tem creche. Às vezes, a mulher acaba deixando de trabalhar por conta de como eu vou fazer com o meu filho, né? Então, deu tudo certo, trabalhei lá até que eu saí de lá, prestei um outro concurso pro município, passei, fui trabalhar na Secretaria de Meio Ambiente. Na verdade, quando eu entrei na prefeitura, eu fui trabalhar na Secretaria de Assistência Social.  No Guilherme Álvaro eu cuidava - voltando um pouco - na cozinha, tinham as cozinheiras, tinham as moças que ajudavam e eu era uma dessas moças que ajudavam, então, a picar os legumes, chegavam as caixas de legumes, a gente picava, depois a gente servia lá na frente e servia nas copas também. Então, assim, lá eu tive muito contato com as pessoas que estavam doentes, porque a gente trabalhava em diversas alas. Então, trabalhava na pediatria, na maternidade, trabalhei na clínica cirúrgica, onde ficam também os doentes com tuberculose, com Aids, enfim, eu trabalhei lá e a gente revezava, entregava alimentos, olhava os cardápios que as nutricionistas colocavam ali. E aí também procurava sempre alegrar o pessoal, entrava nos quartos, tinham três camas, né? Então, entrava lá e falava assim: “Tem algum corinthiano aqui?”, aí o senhorzinho lá: “Eu”, aí eu falei: “Hoje vai ficar sem comer”, fechava a porta. (risos) Aí eu voltava: “Ah, é brincadeira”, (risos) enfim. Tentava brincar, alegrar lá o pessoal, às vezes, sobrava alguma refeição que vinha no marmitex, a gente montava lá na cozinha. E aí, às vezes, tinha algum acompanhante que também estava com fome e tal ou alguém que trabalhava lá, tanto na enfermagem, quanto na segurança, aí acabava disponibilizando. Tinha o pessoal que vinha lá no Guilherme Álvaro, que morava muito longe, que estava, às vezes, com pessoas internadas, as pessoas ficavam lá, às vezes, nem almoçavam. Então, aquele alimento que às vezes a gente chamava geral, que não tinha nenhuma restrição, aí a gente acabava cedendo, mas enfim. Uma vez a minha chefe me pegou, (risos) não podia, eu tomei uma bronca.. Aí foram, até que eu mudei pra Secretaria de Assistência Social, porque eu era de um cargo mais administrativo. E aí eu fiquei tentando, eu trabalhei na Casa dos Conselhos Municipais e lá trabalhava com o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, Cmdca, Conselho Municipal de Assistência Social, Conselho Municipal do Idoso, Conselho... enfim, vários Conselhos Municipais, chamava Casa dos Conselhos. E eu trabalhava com esses Conselhos Municipais e conheci vários projetos assistenciais, várias casas assistenciais, projetos, aí tinham as reuniões, a gente acabava aprendendo. Teve uma época também que lá a gente recebia denúncias, então hoje eu não sei mais como é, mas na época eu lembro que era de idoso. Então, eu tinha contato com a realidade. Então, assim, de ter pessoas idosas e, às vezes, as pessoas não queriam ficar com as pessoas em casa, então às vezes ligava e falava: “Olha, tem um lugar, que eu tô com a minha mãe, mas eu preciso trabalhar e eu não tenho quem fique com ela, eu queria que você me indicasse um lugar, mas olha, eu não posso pagar muito”. Então, a gente falava assim: “Olha, a gente não pode indicar, a gente tem uma relação de casas que acolhem os idosos e você pode fazer uma pesquisa, ver qual o melhor lugar que se adequa”. Mas tinha muito isso, tinha muito isso de ter pessoas que não sabiam o que fazer com os seus idosos e ninguém podia ficar com o idoso, cuidar do idoso. Então, assim, era muito triste, me sentia muito triste. Tem até uma passagem dessa questão, uma vez. Eu ia pra faculdade à noite e trabalhava o dia inteiro. E a minha filha ficava na casa da minha mãe e eu passava lá pra pegá-la, fazia academia com ela à noite, pra ter o contato com a minha filha, assim, senão eu só trabalhava e estudava. Então, um dia estava eu e minha filha saindo da academia e aí tinha uma senhora e ela falou assim, uma senhorinha: “Minha filha, pra onde que fica a praia?” Aí eu falei assim: “Olha, a praia fica nessa direção, mas onde a senhora está indo?” “Ai, eu tô indo no endereço X”. Eu falei: “Esse endereço é lá na ponta da praia”. Ela passou o nome da rua, né? Mas ela: “Ah, como é que eu chego”? Eu falei: “Por que é que a senhora não pega um ônibus? Pega um ônibus, porque a senhora não paga ônibus”. E aí, tá, eu falei: “Eu vou acompanhar a senhora até o ponto do ônibus”. Aí eu acompanhei a senhorinha lá, até o ponto do ônibus e ela ia falando, contando umas histórias e ela estava lá, cheguei lá e perguntei que ônibus que passava ali na ponta da praia, em tal lugar, aí fiquei esperando com ela. Daí, chegou o ônibus, fiz sinal, falei: “Olha, a senhora pega esse ônibus”, aí eu: “Motorista, essa senhora quer descer na rua tal”, aí ele: “Mas pra onde a senhora vai?” Aí começou a fazer umas perguntas pra ela, ele falou assim: “Olha, ela está meio confusa, eu não vou levar, não”, aí eu falei: “Como que você não vai levar?” Aí discuti com ele, tal e aí eu falei: “Mas como é que pode?” Ele foi embora. Aí, eu fui perguntando pra ela, deu o nome de uma rua e a moça falou assim, que estava no ponto de ônibus: “Olha, essa rua fica aqui no Canal 5”, porque eu estava ali no Canal 5: “Fica ali no Canal 5 e tal”. Aí eu falei assim: “Então tá”. Aí ela começou a falar umas coisas do marido dela, que estava embarcado e não sei o que lá, fiquei pensando: “Meu, mas um senhorzinho está embarcado?” Aí falei pra minha filha assim: “Fica um pouquinho com ela, que eu vou buscar o carro e aí a gente vai levá-la em casa”. O carro ficava na casa da minha mãe enquanto eu ia pra academia, fui lá, peguei o carro, minha filha: “Mãe, ela está falando umas coisas aqui, eu não sei”, aí eu perguntei pra ela: “Qual é esse endereço que a senhora me falou”? Ela repetiu o endereço. Eu peguei o carro, a coloquei no carro, coloquei a minha filha, fui levar lá no endereço, mas eu já estava tão brava, assim, que eu falei: “Como que a família deixa uma senhora?” À noite , ela estava de bermuda e camiseta, eu já comecei a nutrir uma raiva, assim, que eu falei: “Meu, família irresponsável, como é que pode?”. E aí ela, no carro, começou a falar umas coisas assim, nada com nada, até que ela chegou e falou: “Cadê a minha bolsa?” (risos) Aí a minha filha falou assim: “Mãe” (risos) “A senhora estava sem bolsa”, aí ela falou assim: “Não, eu estava com a minha bolsa até agora”, aí eu: “Meu Deus do céu, vou ser acusada de roubar, ainda”. E aí eu fui até o endereço, eu falei: “É esse o endereço que a senhora me deu, a senhora está reconhecendo algum lugar?” e eu, assim, nutrindo aquele sentimento de raiva, assim: “Meu, como é que pode? Olha, tarde da noite”. E isso eu tô contando resumidamente. E aí eu vejo uma moça, eu fui com ela até a porta do prédio e eu vejo uma moça lá meio desesperada. Quando ela viu a senhora, ela falou assim: “Mãe! Onde a senhora estava, pelo amor de Deus?” Já começou a chorar e eu fiquei surpresa, falei assim: “Olha, eu a achei, ela estava em tal lugar, ela sabia o endereço, decidi trazer”. Aí a mulher me abraçou: “Ai, você é um anjo”. Ou seja: ela tem Alzheimer, a filha dela falou e que ela pegou a chave e saiu do jeito que estava, de bermuda e camiseta, sem documento e ela saiu por aí. E aí a filha dela olhou pra mim e falou assim: “Cadê a bolsa dela”? (risos) E aí eu falei: “Ela estava sem bolsa, estava sem nada e ela estava com a chave no bolso da bermuda”. Ou seja: olha o que pode acontecer, ela podia se perder, podia acontecer tanta coisa, ficar desaparecida, porque eu acho que ela já não lembrava, ela falava do marido como se tivesse embarcado, mas o marido já tinha falecido, então ela estava contando um monte de história. Então, assim, quando eu trabalhei na Secretaria de Assistência Social, eu pude ter contato com essas histórias de conhecer um pouco mais da região aqui, dos projetos de criança também, do Conselho Tutelar, dos problemas, então os problemas sociais aqui da nossa região. Bom, mas até que eu consegui ser transferida para Secretaria de Meio Ambiente, lá eu trabalhei alguns anos também e aí eu comecei a trabalhar com a minha área, a área que eu estudei, que eu queria atuar e aí eu já fazia Gestão Ambiental Portuária e trabalhei na Secretaria de Meio Ambiente, até que a chefe de uma das minhas chefes falou assim: “Olha, tem um projeto que vai...”, isso lá em 2007. “Vai ter um projeto” e mostrou uma reportagem no jornal, ela falou: “Ah, tem um projeto aqui, me perguntaram se eu conhecia alguém”. Eu trabalhava já com várias... tinha os programas da praia, que eram sobre a questão do resíduo e trabalhava com os adolescentes também, assim, eu sempre gostei bastante dos adolescentes, porque sempre que eu podia dar uma palavra, conversar, incentivar, eu acho que é uma época delicada e com a experiência que eu tinha, eu sempre queria ajudar, mas enfim. Aí falaram de um projeto novo, de uma empresa nova e eu falei: “Ah, vou lá fazer”. Já que ela tinha me indicado, é até feio se eu não for e tal. Aí eu fui lá, eu era concursada, trabalhava na prefeitura. E aí que eu conheci a BTP, que é onde eu trabalho. Na época, era só um projeto, era um projeto que a gente não sabia se ia dar certo, eu nem saí da prefeitura, eu pedi licença, que a gente tinha direito de pedir uma licença por dois anos e aí pude me dedicar ao projeto. Ninguém conhecia, falava: “Eu trabalho na Brasil Terminal Portuário”, o pessoal falava o nome até de outra empresa do porto, pensando que era aquela. E era uma empresa nova, era um projeto, na verdade, porque não tinha terminal ainda, ela era um lixão da Alemoa, do porto e aí a primeira visita que eu fui, fui parar num outro lixão, porque aí eu descobri que tinha outro lixão lá na Alemoa. Aí eu falei: “Ah, acho que não é aqui”. Foi a primeira vez que eu fui e, quando eu fui, era um lixão desativado. Então, tinha verde, porque a vegetação nasceu em cima do verde. Bom, quando eu fui conhecer a empresa, depois que eu já tinha feito, tinha sido aprovada na entrevista e tal, tinha pedido a licença na prefeitura, aí comecei a me dedicar. Era uma área de transbordo da prefeitura. E aí depois que eu fui conhecer, era uma área que era verde, porque o lixão tinha sido desativado em 2002 e a gente estava em 2007, foi em junho de 2007. Então, eu fui lá conhecer, tinha o verde, porque era a vegetação que tinha nascido em cima dos escombros e tinham áreas lá de aproximadamente dez metros de altura. E uma das primeiras coisas que eu fiz foi fazer o levantamento do histórico, para conhecer o que tinha sido, como virou lixão e como deixou de ser lixão, quando foi paralisado o aporte dos resíduos lá, do que era esse lixão, aí descobri que era de atividades do porto, enfim, fui fazer esse levantamento, porque eu mesma não conhecia, apesar de ter morado a vida toda em Santos. Eu já conheci alguns terminais em Santos, mas eu não conhecia aquela área. Então, um dos primeiros trabalhos que foi, foi fazer esse levantamento do histórico, verificar tudo o que foi feito, pra gente poder dar andamento no projeto que se tinha. O meu número de matrícula é três, fui uma das primeiras funcionárias contratadas, por conta de ter esse passivo, de ter essas questões ambientais ainda para serem resolvidas. Então, aí foi iniciar o trabalho de fazer o levantamento, olhar os estudos, então foi em 2007.


P/1 – E como foi o seu primeiro dia lá, o que você estava sentindo, como foi pra você entrar na área que você queria?


R – Quando eu fui fazer a entrevista a primeira vez, eu lembro de ter sido a última, tinha uma pilha, eu lembro que tinha uma pilha de currículos mesmo, uma pilha mesmo e que o meu currículo tinha sido o último e eu acho que era a última entrevista. E aí eu lembro da pessoa que me entrevistou falar assim: “Enfim, eu acho que não é o perfil que a gente está procurando e tudo”, mas eu estava tão tranquila, assim, porque eu já estava trabalhando, trabalhava lá na secretaria, eu gostava de trabalhar lá, gostava das pessoas, gostava do trabalho, já estava na minha área, então estava tão tranquila. E eu lembro que eu falei: “Ah, está bom, tudo bem. Olha, boa sorte com o projeto, vai dar tudo certo”. E aí eu lembro que eu voltei, falei: “Posso só falar uma coisa que eu esqueci, né, só pra...”, porque, às vezes, a gente vai pra fazer uma entrevista ou vai em algum lugar e tudo e aí, quando você chega em casa, você fala: “Caramba, podia ter falado isso, esqueci, né”? E aí, voltei, eu lembro que eu falei alguma coisa: “Olha, o projeto, antes de iniciar, é bom fazer isso e isso e isso e tal”, aí comecei: “Falar com algumas pessoas e tal, tal, tal”. E eu lembro que o presidente da empresa, naquele dia estava lá, porque já era o segundo dia que tinha e aí eu lembro que ele saiu assim e perguntou umas coisas pra mim, eu falei, expliquei e tal, tal, tal, mas já estava indo embora, já estava, assim, tranquila. Acho que a tranquilidade quando você fala assim: “Tô indo embora”, eu acho que te dá uma... então, eu já estava tão tranquila que eu não ia ser contratada mesmo, aí já dei umas dicas lá, (risos) já dei umas dicas, já falei umas coisas e aí o presidente da empresa, até então eu não conhecia, só de nome e já tinha visto também, porque ele era presidente de um outro terminal, antes dali. E aí ele saiu da sala, me fez umas perguntas e aí eu respondi e tal: “Ah, não e tal”, perguntou algumas coisas, se eu conhecia, eu conheci sobre uns projetos, tal, tal, tal, conversei com ele, falei: “Bom, gente, tchau, boa sorte”. E aí, no final me chamaram, que eu tinha sido escolhida. (risos) Eu já não estava nem, sabe, pensando nisso, já estava tão tranquila. Eu acho que é essa tranquilidade, porque, às vezes, você fica muito nervosa e aí esquece, eu não sei, eu não sei, eu sei que chegou: “Olha, você vai ser contratada e tal”. E aí eu até fui conversar com o secretário, porque pra você ter a licença, o secretário precisa te liberar. Aí eu fui conversar com o secretário lá de meio ambiente, pra ver se eu poderia tirar a licença, sem vencimentos, você fica afastada, sem vencimentos, por um período, depois você tem que ou retornar ou pedir exoneração. E aí eu lembro que teve uma festa na secretaria, que eu trabalhei assim, até o último dia, até o último minuto do... porque eu queria entregar as coisas lá, antes de sair da secretaria e deixar tudo certinho. E aí teve uma festa de despedida. E aí foi isso: eu saí da secretaria, no primeiro dia que eu cheguei na BTP, é o que eu falei: a BTP, quando eu conheci, não era um terminal, era uma salinha, eu lembro que era na João Pessoa, 60. E aí eles mudaram para o Braz Cubas, ali no prédio Martinelli e aí tinha uma sala lá. Então, assim, o primeiro contato que eu tive foi com a sala de escritório e aí eles tinham comprado uns móveis, então os móveis estavam chegando, então tinha uma mesa que eu podia usar e era meia dúzia de pessoas. E a gente se debruçava em cima de um projeto, que a gente não sabia se ia dar certo ou não, todo mundo que estava ali tinha muita vontade que desse certo, mas a gente já tinha um histórico que várias empresas já tinham tentado e não tinham conseguido. Mas não tinham conseguido também porque cada uma queria fazer a sua parte onde estava instalado e como a BTP veio para arrendar a área como um todo, os órgãos ambientais precisavam que o processo de remediação fosse efetivo, então ele teria que ser na área toda. Então, eu acreditava que seria, que daria certo e tomando todas as medidas e tudo. Mas eu lembro que o primeiro dia foi como as pessoas... pelo menos eu me senti com medo. (risos) Você fica com medo, o novo te dá medo. Aí, ou ele vai te paralisar ou você vai com medo mesmo e aí eu fui com medo mesmo, porque falei: “Ah, será que eu vou, um projeto do zero, dar conta? Tem tanta coisa pra fazer, tem tanta coisa pra ver”. Eu lembro que no primeiro dia, o meu chefe me chamou na sala dele e falou: “Olha, precisamos ver isso, fazer aquilo”. Eu lembro que eu cheguei com a minha agenda, comecei a anotar e: “Olha, precisamos ver isso, precisamos fazer aquilo, precisamos tal”, falou um monte de coisa, aí eu: “Ok, ok, claro, vamos, vamos, ok, vou providenciar”. Eu virei as costas e falei: “Meu, o que é que ele está falando, o que é que ele está falando?” Tinha coisa que eu nem sabia o que era. (risos) Então, foi lá no carão, entendeu? E porque era muita novidade, eu nunca tinha trabalhado no porto e não era um porto, não era um terminal. Não é que não era um porto, era um porto, era o Porto de Santos, mas não era um terminal portuário, era uma área, era a recuperação de uma área que era um antigo lixão. Então, assim, tinha medo, mas foi com medo mesmo, o que eu não sabia eu procurei saber, eu falei: “Bom, o que eu tenho que fazer?” Aí eu comecei a ligar para algumas pessoas, aí que é bom você ter a sua rede de contatos. Às vezes, a pessoa também não sabe, mas ela sabe quem sabe. E aí eu comecei assim: a fazer os contatos, a ligar pras pessoas, a perguntar, né? E aí, tentar alinhar as expectativas daquilo que estavam esperando de mim, pra que eu não entregasse nada a mais, nem a menos. E aí foi indo a minha caminhada, até terminar a minha licença da prefeitura. E aí eu falei: “Bom, já consegui”, isso aí já era 2009, aí eu falei assim: “Bom, já tô pronta, ou pra voltar ou pra ficar. Bom, o que eu vou fazer?” Aí, eu falei com o presidente da empresa: “Vai acabar agora a minha licença e eu preciso dar um retorno lá pra secretaria, ou eu volto ou eu continuo aqui. E, se vocês precisarem, eu também posso atuar como uma consultora, sei lá, com aquilo que eu já tô fazendo”. Mas aí ia ter o trabalho da prefeitura e aí aquilo consome bastante, então eu pensei: “Nos finais de semana, se alguém precisar de alguma coisa, eu dou um apoio, mas durante a semana já fica complicado”, enfim. Aí voltei pra prefeitura e falei: “Tô pronta também pra voltar”, eu olhei e falei com os dois e aí lá na empresa falou: “A gente quer que você fique, continue o trabalho que você está fazendo”. Aí eu voltei, pedi a exoneração, saí, aí todo mundo: “Sua louca! (risos) Você é concursada, não faça isso!” Ou seja: é difícil, né, porque é difícil ter apoio pras coisas. Eu acho que tem dez não apoiando e uma pessoa apoiando pra tudo. Enfim. E aí é isso, fiquei na empresa, trabalhamos bastante, conheci muitas pessoas, conseguimos um passo, cada hora um passo, um passo de cada vez, a gente fazendo a coisa certa e é bom, porque eu lembro de chegar lá, olhar e falar: “Será que isso aqui um dia vai ser um terminal?” Tinha lá áreas que tinham dez metros de resíduo, lixo, terra, lixo, terra, falei: “Será que isso um dia vai, né, ser um terminal?” E eu lembro que uma das primeiras coisas que a gente tinha que fazer era cercar e promover a segurança, porque a molecada cortava as telas, porque tinham umas telas lá e entravam, porque eles queriam tomar banho lá no píer, só que naquele píer, ele tinha tanto ferro embaixo, que quando a gente fez a parte de arqueologia na linha, os mergulhadores chegavam a ficar em pé, você olhava, eles ficavam em pé na água, assim, apoiado no ferro. Ou seja: um perigo, né? E aí a gente tinha que promover a segurança do local, pra que não acontecesse algum problema, fora isso que tinha lá o solo contaminado, né, a gente começou fazer estudos e viu que tinha benzeno, chumbo, cloreto de vinila, mercúrio, enfim. E aí, não podia deixar o pessoal brincar ali naquele lugar. Então, foi isso o início, foi o início como acho que qualquer um que vá trabalhar em algum lugar: ansiedade, medo e vontade de fazer um bom trabalho.


P/1 – Queria saber como é que foi acompanhar essa construção desde o começo, literalmente uma construção, desde o começo até hoje, foi um processo de construção do terminal, da própria empresa, né? 


R – Tá, então vamos lá. Eu sempre trabalhei na área de meio ambiente, logo que eu entrei, eu entrei como analista ambiental. Então, acompanhava os processos, a gente precisava pedir as autorizações para fazer os estudos, a primeira coisa foi o diagnóstico da área, o diagnóstico para ver o que tinha, a quantidade que tinha, a profundidade que tinha, o que era necessário fazer e iniciar o processo do licenciamento. Acompanhar as vistorias, os órgãos ambientais iam lá fazer vistoria, tinham que estar assinado, no início do processo, termo de ajustamento de conduta com o Ministério Público Estadual, a gente precisava manter tudo organizado, cumprir todas as tarefas. Então, essa era a minha função. Eu iniciei como analista ambiental, depois de uns três anos eu fui promovida a coordenadora, aí fui coordenadora de meio ambiente. Aí depois de uns três anos e pouco, eu virei gerente de meio ambiente e hoje, acho que há um ano e pouco, dois anos, eu sou especialista em meio ambiente. Então, sempre trabalhei nessa área de meio ambiente, então eu escutava assim: “Ah, a Bete, olha, a mulher das plantinhas”, aí eu falei: “Olha, legal, né? Meio ambiente não é só planta.” “Ah, a mulher das plantinhas, a mulher dos bichinhos”. Por quê? Porque tinha todo um trabalho para ser feito quando a área era vegetada, então a gente precisava das autorizações pro corte da vegetação, a gente precisava fazer o manejo, tanto das plantas, quanto dos animais. Então, eu ficava lá acompanhando a obra, assim: não foi uma obra convencional de chegar e construir um terminal. Não, tinha fases, o licenciamento ambiental tem fases, tinha o ______- para ser cumprido, os órgãos era Cetesb, Ibama, Ministério Público, a própria hoje SPA, mas era Codesp, estavam acompanhando. Então, a primeira coisa a ser feita foi o diagnóstico: o que tinha, a quantidade que tinha, quais os locais que tinha, né? Então, a gente ia vendo lá onde tinham as manchas de chumbo, de cloreto de vinila, de benzeno, de mercúrio. Imagina que ali foi um lixão por mais de cinquenta anos, um lixão de atividades do porto. Então, de resíduos de construção civil a produtos, tinha soja, tinha, sei lá, carga de frango estragada, tudo que era resíduo de atividades do porto, ia pra lá. Então, a primeira etapa era fazer o diagnóstico, a segunda etapa era aprovar o projeto de remediação, o que ia ser feito naquele local, para descontaminar a área. Então, o projeto de remediação, aprovar o projeto, depois executar o projeto, teve um acompanhamento, foram os estudos, depois foram trinta meses só de recuperação. Então, mesmo a recuperação, foram feitas em etapas, aí você tem que ver pra onde que vão os resíduos, pra onde que vai todo o tipo de resíduo, perigoso, não-perigoso, proveniente da própria área, proveniente da obra. Fazer o manejo da vegetação, fazer o manejo dos animais e aí fazer os controles também de efluentes, enfim, de emissões atmosféricas. Fazer os controles, ver se está tudo certinho, ver se as empresas estão fazendo tudo certinho. Pra fazer o corte, não é só chegar e cortar tudo, a gente tem que dividir a área, tinha que cercar pra que, se tivesse algum animal, não fosse pra avenida, a gente estava próximo de uma avenida. Então, tudo foi feito com muito cuidado e dava muito trabalho. Trabalho não faltava, a gente trabalhava e, assim, bem feliz, na verdade. Porque é bom você construir alguma coisa, é bom você construir alguma coisa que vai ficar, é bom você ter colaborado para a construção. Então, a primeira coisa foi a descontaminação da área e aí, concomitante, junto, estava lá a construção do terminal. Então, a gente teve a remediação, que foi de 2009 até 2012, depois a gente teve aí ainda dois anos de monitoramento, então foram sessenta poços instalados pra gente ver - pra que monitorar - se aquilo que foi feito, foi efetivo, se estava certo. A gente usou duas técnicas na remediação, foi de lavagem de solo, que é bem bacana, falando de uma forma bem simples: você tira o que está ali, você passa pra um processo físico-químico de lavagem de solo e aí você consegue voltar parte do material pro local, né? Todos os locais tinham identificação, eram esquadrinhados, enfim. Teve um processo bem longo e depois mais dois anos de monitoramento e depois até o documento, que chama termo de área reabilitada, onde você atesta que a área está recuperada. A construção do terminal, o terminal iniciou em 2013 a operação e, assim, foi muito emocionante ver o primeiro navio chegando, foi muito emocionante, porque tudo aquilo que você fez, todas as dificuldades, tudo que você passou, o tanto de gente que trabalhou e aí você vê o primeiro navio chegando, assim, foi bem gratificante. E aí, você está trabalhando num lugar que você vê tanta gente trabalhando, tantas famílias, né, estão trabalhando ali, ou de forma direta, como funcionário da BTP ou de forma indireta mesmo e só de você não estar disponibilizando contaminante pro solo e pra água, porque aquilo lá também estava indo pro estuário, estava indo pro mar. Então, assim, só de você ter colaborado uma parcela, um pouco, pra aquilo acontecer, é muito gratificante, é muito gratificante mesmo você construir. E aí, se esse lugar virar referência, porque eu lembro quando eu comecei a trabalhar lá, eu falava: “Eu trabalho na Brasil Terminal Portuário”, todo mundo: “Não sei, eu conheço X, Y, Z de terminal”, aí eu falei: “Não, mas ainda não é um terminal”, explicava, aí todo mundo: “Ah, tá bom”. E aí, hoje você vê, você fala, todo mundo conhece, é um terminal de referência. Então, assim, o primeiro sentimento que eu tenho é orgulho, orgulho de ter participado. Então, é isso.


P/1 – Eu ia te perguntar como você enxerga o futuro do porto, principalmente o futuro da BTP, levando em conta principalmente a sustentabilidade do meio ambiente. 


R – Desenvolvimento, eu acho que ele não pára e eu acho que uma das coisas que eu aprecio na BTP é que eles estão sempre estudando, estudando novas formas de fazer. Eu acho que a tecnologia chegou e ela vem mudando, ela já mudou tanto a nossa vida, né? A gente tem hoje aí, todo mundo tem um celular. A gente não vive mais sem tecnologia e o futuro da BTP e das empresas passa por aí. Questão de desenvolvimento, ela também passa por tecnologia, novas formas de fazer e a BTP tem lá o tema: “Acreditar e inovar”. E realmente eles fazem, eles praticam. Então, assim, eles estão sempre pensando em novas formas de como fazer. Então, assim: o futuro passa por aí, ele passa em expandir, talvez, em melhorar os processos. Porque desenvolver não é só sempre aumentar a sua área, mas é enxergar dentro daquilo que você tem e ver novas formas de você fazer de forma mais eficiente, de forma melhor. Então, é por aí que eu enxergo.


P/1 – E eu ia te perguntar como foi conciliar o seu trabalho na BTP com as demandas de ser a Elisabete, de ser uma mãe?


R – (risos) Bom, hoje a questão de ser mãe já está mais tranquila, porque os meus filhos, meus dois filhos já estão casados, eu já tenho até uma neta e a minha filha está estudando e eles já são muito independentes, então hoje já está mais tranquilo a questão da mãe. Agora, tem a questão da esposa, né? Eu casei de novo em 2020, um pouquinho antes de estourar a pandemia. (risos) Então, eu acho que a gente está sempre em busca do amor. Eu acho que a gente está sempre em busca de encontrar alguém que faça parte da sua vida e daquele apoio que muitas vezes eu não tive. E aí, eu trabalho na BTP e a gente trabalha de forma constante, de forma hard lá, de forma intensa, digamos assim. As demandas são sempre muitas, a gente tem um volume de trabalho bastante alto e, às vezes, exige que a gente trabalhe em final de semana, às vezes, a gente tem que trabalhar um pouco mais e hoje, depois que eu me formei em Engenharia de Meio Ambiente, eu continuo estudando, tô fazendo uma pós em Engenharia de Segurança do Trabalho. Então, você tem o trabalho, você tem o estudo e agora a gente precisa encontrar tempo... eu preciso encontrar tempo pra ficar com o meu marido. Então, assim, meus filhos, hoje, já estão encaminhados, mas a demanda de esposa está lá (risos) e a gente precisa dar atenção a isso também, então é isso.


P/1 – Qual é o nome do seu atual companheiro?


R – É Gilberto.


P/1 – E como vocês se conheceram?


R – Eu conheci o Gilberto como hoje muitas pessoas se conhecem, através das redes sociais. (risos) A gente tem em comum trabalhar no porto, ele também trabalha no porto. E aí a gente tinha isso em comum, aquilo que começou como uma amizade despretensiosa e com o passar do tempo foi se tornando um namoro e depois de alguns anos juntos, a gente decidiu casar. A gente casou bonitinho lá, foi em fevereiro de 2020, foi um pouquinho antes da pandemia.


P/1 – Elisabete, eu ficaria horas te ouvindo, eu adorei você e suas histórias, fiquei muito feliz que a sua entrevista flui e foi muito boa.


R – Falei pra caramba! Eu ouvi que você ficou muito feliz, eu também fiquei. Eu fiquei, sabe por quê? É muito legal falar aqui, porque se fosse pra falar ali, eu já tinha dado umas travadas. Aí a travada ia ser outra. 


P/1 – A última pergunta é: o que você achou de ter contado um recorte, né, da sua história? Eu sei que é rápido, mas assim, é sua história de vida, então o que você achou de ter passado essa tarde com a gente, o que é que você sentiu?

R – Bom, primeiro eu não senti culpa, porque mulher, o sobrenome é culpa. Então, assim, eu tô aqui conversando um pouquinho, eu já estaria me sentindo culpada, porque eu não estou entregando alguma coisa (risos) do trabalho. Mas brincadeiras aí à parte, eu fiquei feliz, é legal quando você faz uma retrospectiva assim, da sua vida. E aí vem lá do início, lá da infância. E aí eu consegui ir falando e ir enxergando. Quando a gente fala sobre o assunto, a gente parece que revive também. Então, assim, foi muito bom reviver a minha vida, né e compartilhar com vocês.


P/1 – Elisabete, muito obrigada, eu agradeço muito, vai ter um mini doc depois, de produto, vai ter uma exposição, a sua história vai ficar pra posteridade no museu e todo mundo vai poder acessar. (risos) 

Entrevista de Elisabete Ramos Entrevistada por Bruna Oliveira São Paulo, 25/10/2021 Projeto: Porto & Cidade - BTP/Ultracargo  Realizado por Museu da Pessoa Entrevista n.º: PCSH_HV1092 Transcrita por Selma Paiva Revisado por Bruna Ghirardello P/1 – Elisabete, pra começar, eu queria que você se apresentasse, dizendo o seu nome completo, a data e o local do seu nascimento. R – Então, vamos lá: eu sou Elisabete Ramos Orifice, eu nasci dia 24 de março de 1970, em Santos, na Santa Casa. P/1 – E quais os nomes dos seus pais? R – Teresinha Enesia Ramos e João Marcelino Ramos. P/1 – E o que eles faziam? R – A minha mãe era auxiliar de enfermagem, ela se aposentou com 70 anos, ela trabalhou na Santa Casa de Santos, no Hospital Guilherme Álvaro e também no Centro de Referência em Aids, ela foi uma das primeiras que trabalhou com Aids aqui em Santos, quando a doença surgiu. Meu pai trabalhava no porto, ele era aposentado, ele já é falecido. P/1 – E você sabe como eles se conheceram? R – Olha, eles se conheceram no Mato Grosso e a minha mãe não deu muitos detalhes (risos) mas eles se conheceram lá e vieram morar aqui em Santos. Eles são de Alagoas, os dois, mas se conheceram no Mato Grosso, quando a minha mãe morou lá também, eles eram novos. Se conheceram lá, casaram e vieram morar aqui em Santos. P/1 – Você sabe por que eles vieram para Santos? R – Ah, em busca de oportunidade, trabalho. E eu sou a caçula de quatro irmãs e todas nasceram aqui em Santos. P/1 – Eu ia te perguntar isso: como são os nomes das suas irmãs? R – Lenir, Leonor, Eliana e Elisabete. P/1 – E como era a sua relação com os seus pais, como era na infância e como é agora e também com as suas irmãs? R – Bom, a minha mãe trabalhava bastante e o meu pai também, mas ele se aposentou. A minha irmã mais velha, que se chama Leonor, era quem tomava conta de mim, com a ajuda das minhas outras irmãs enquanto os meus pais trabalhavam. E aí o meu pai se aposentou e começou a tomar conta de mim, me levava pra escola, cuidava da minha alimentação, as minhas irmãs também me ajudavam, me penteavam, me arrumavam pra ir pra escola. Então, era uma relação muito boa. E as minhas irmãs estudavam, trabalhavam e eu estava sempre ali, em busca de atenção delas, então elas estavam sempre bastante ocupadas, mas era uma relação boa. P/1 – Você chegou a conhecer ou você conhece a história dos seus avós? R – Não, os meus avós paternos continuaram a morar no nordeste e eu não os conheci. Meu avó materno eu também não conheci, ele faleceu quando eu era pequena, eu só conheci a minha avó. A minha avó morava em Santos também, junto com a minha tia, ela morava naquelas casinhas de fundo, tem aquelas casas e aí tem aquela casinha meia-água, que o pessoal chama, junto com a minha tia. E aí, o que eu lembro mais da minha avó é que eu ia visitá-la com a minha mãe nos domingos e eu não queria, porque a minha tia via Silvio Santos, eu odiava Silvio Santos (risos) e eu queria ver televisão e no domingo passava algum filme. Hoje em dia, a gente tem Netflix, a gente tem vários filmes, mas antigamente não, então domingo era o dia de passar filme e aí eu não gostava, ficava lá com a minha avó. E eu lembro que a minha avó fazia um café e sempre era um café preto e umas bolachinhas, que era o lanche que ela fazia pra mim. Até hoje eu não tomo café preto, eu não gosto, (risos) acho que é um pacote de não gostar de Silvio Santos e café preto. (risos) Fiquei traumatizada. (risos)  P/1 – Eu ia te perguntar se a sua família tinha algum costume, alguma comida, alguma bebida, algum cheiro que lembre, assim, a sua infância ou alguma data comemorativa também.  R – Bom, cheiro eu lembro que eu, um dia, estava no trabalho, numa reunião e aí eu senti um cheiro muito familiar que, na verdade, eu nem lembrava que era familiar. E aí eu procurei saber o que é que era aquele cheiro e aí eu fui perguntar pra uma moça: “Estava sentindo um cheiro”. Era esquisito, né, chegar pra moça e perguntar, (risos) mas aí ela falou que era um perfume que tinha uma raiz chamada priprioca. E aí eu fui procurar saber e eu vi que era de uma boneca que o meu pai tinha trazido do nordeste, era uma boneca de raízes, eu lembro do rosto da boneca, lembro que o cabelo da boneca era de raízes e o rosto da boneca era aquelas metades de coco, pintada e a boneca era com o vestidinho de tecido. E aí me veio aquela boneca na cabeça e eu vi que aquelas raízes eram dessa priprioca, que era um perfume que tem da Natura, pimenta rosa priprioca, uma coisa assim. E aí eu lembrei disso, engraçado, né? É a memória olfativa. Eu nem lembrava dessa boneca, eu era pequena, eu lembro que o meu pai ia visitar a mãe dele, no nordeste e, quando ele voltava, ele sempre trazia alguma coisa pra mim e aí ele trazia boneca e eu lembro dessa boneca de raízes, eu lembro que eu a coloquei até no armário, porque ela ficava um cheiro gostoso e aí veio isso. Engraçado. Agora de comida, não tinha nada muito especial. Eu lembro que, quando eu era adolescente, depois que meu pai faleceu, a minha mãe tinha que trabalhar bastante e, assim, eu lembro que a gente tinha dificuldades em casa. E eu lembro que tinha uma lata, que é de fiambre, que tinha uma chavinha para abrir a lata e eu lembro que eu sempre cortava o dedo naquilo. E a gente almoçava aquilo, dividia em quatro ou cinco, se tivesse a minha mãe e aí a gente passava na frigideira com arroz, era o nosso almoço. Então, eu não sei nem se existe mais isso, mas a gente comeu, passou uns perrengues, umas dificuldades, quando o meu pai faleceu. É um negócio que até hoje, também, eu acho que eu não como, não, mas isso também ficou marcado. P/1 – Você sabe a história de como foi escolhido o seu nome, você tem alguma ideia ou se você sabe da história do seu nascimento, também? R – Foi assim: o meu pai sempre quis ter um filho homem. Então, a primeira filha foi mulher, aí ele falou: “Vamos tentar, né?” Aí a segunda filha foi mulher: “Aí, vamos lá, duas filhas, vamos tentar lá”. Aí a terceira foi mulher, então o quarto filho com certeza absoluta era homem, então o meu nome era Marcelo, ia ser Marcelo Ramos e já estava tudo certo, não tinha como não ser, três filhas, meu pai querendo tanto um homem lá, devem ter feito promessa e tudo, imagino a cara de tristeza do meu pai olhando pra minha cara. Mas o meu nome era Marcelo, então não foi ‘ahhhhhh’, um Elisabete escolhido com todo o carinho. Então, o meu nome seria Marcelo, poderiam colocar Marcela, mas aí como tinha Eliana, colocaram Elisabete, pra acompanhar. P/1 – Você lembra da casa e do bairro que você passou a sua infância, como é que era? R – Sim porque até um ano, dois anos... acho que o ano passado que minha mãe saiu de lá. Então, desde que eu nasci eu morava no bairro da Aparecida, lá no bairro da Aparecida tem três conjuntos habitacionais, se eu não me engano é o bairro mais populoso de Santos. E aí tem esses conjuntos habitacionais, tem o BNH, tem o Jaú e tem o Iapi, que a gente chama, eu nasci e fui criada ali no Iapi. A minha mãe morava lá, tem uma particularidade que nós morávamos no quarto andar e lá não tem elevador.Hoje em dia, já não se faz mais construções de quatro andares sem elevador, mas então eu lembro que a gente subia e descia aquela escada, brincava na escada também, jogava. Então, assim, eu tive uma infância muito feliz ali, porque é um lugar que tem uma coisa muito preciosa pras crianças e que hoje não tem muito, que é espaço. Então, tinha árvores frutíferas, tinha campo de futebol, ou seja, tinha bastante espaço pra correr, pra andar de bicicleta, então passei uma infância bem bacana ali. P/1 – E você lembra como era a vizinhança, como era também a cidade nessa época, você tem uma lembrança disso? R – Ali o bairro, o que mudava eram os comércios. A gente tinha alguns comércios que hoje são ampliados, como a Casa de Massa que tem ali, que era uma portinha e hoje é um prédio. E tinha alguns comércios que não existem mais, mas as habitações continuam. Claro que, com a verticalização da cidade, muitos chalés que tinham acabaram virando área para edifícios. O que eu noto é a questão da verticalização e da mudança do comércio, as coisas mudam bastante nessas questões. Agora, os conjuntos habitacionais continuam os mesmos, tem lá: o BNH, o Jaú, o Iapi, continuam ali no bairro. As escolas também continuam, tem a Escolástica Rosa, tem o Andradas, tem o Lourdes Ortiz, eu acho que a Escolástica Rosa já é na ponta da praia, tem o Olga Cury. Então, assim, as escolas se mantêm, algumas habitações deram lugar aos edifícios e a mudança dos comércios: supermercados, barzinhos que abriram, que naquela época não tinha barzinho. Eu lembro, quando eu era pequena, tinha um cinema no bairro, que era o Cine Brasília e eu cheguei a ir lá e eu lembro de dois filmes que eu fui lá: um era A Branca de Neve e os Sete Anões e o outro era Marcelino, Pão e Vinho, no Cine Brasília, que era ali na Pedro Lessa, que não existe mais. Então, essas são as minhas lembranças. P/1 – E quais eram as suas brincadeiras favoritas, quando você era pequena? R – Ah, tinha bastante. A gente pulava corda. É como eu falei: como eu cresci no prédio que tinha bastante espaço, então, a gente pulava corda, brincava de esconde-esconde, polícia e ladrão, teve uma época que a gente jogava, não sei como que era o nome, mas era uma faca que fazia uns cortes, não sei se alguém lembra, mas era ou faca ou chave de fenda, que jogava assim e aí tinha que fazer uns cortes, eu lembro daquilo. Segurança nada, né? Anos 1980 aí, quem conseguiu superar, são todos guerreiros. Mas, assim, esse tipo de brincadeira. Eu gostava de produzir teatro, né? Então, assim, eu juntava - eu sempre tive espírito de liderança - as meninas e os meninos e fazia, montava teatro. Às vezes, eu pegava uma história, às vezes, eu comprava gibi, porque eu gostava bastante de ler gibi e aí eu lembro de a gente fazer Romeu e Julieta. E aí a gente tinha que pegar a roupa dos pais e aí pegava os menores e sentava como se fosse um teatro. (risos) Eu lembro que como a gente não tinha acesso à aparelhagem de som, nem rádio, hoje em dia está mais fácil, eu colocava uma amiga minha pra cantar todas as árias das peças e ela ficava ali: aaaaaaaaaaaaahhhhhhaaaa. (risos) Coitada da Elaine, é minha amiga até hoje e ela deve lembrar. Mas, assim, ela que cantava. E aí o zelador arrumava uma corda pra gente montar uma cortina e a gente brincava de peça. Eu também tinha um clube, aí eu falava pra todo mundo: “Quer ser sócio do clube?”, pros menores, né? Aí eu falava: “Você quer ser sócio do clube? Olha, é o seguinte: vai ganhar uma carteirinha” - aí eu fazia a carteirinha assim, de papelão – “Fica sentadinho aí”. Eu desenhava a cara da pessoa, (risos) colocava o nome e falava: “Ó, você vai ganhar uma carteirinha”, como se fosse assim ó, um prêmio e aí, pro pessoal participar: “O que a gente vai fazer no clube”? Aí, arrumava uma bola: “Vai ter jogos no clube, vai ter a sede do clube, aí vou levar vocês em excursões”. Aí, as excursões, fazia um trenzinho, um colocava a mão no ombro do outro e aí, todo o dia eu inventava alguma coisa aí, porque era atividade do clube, pra pessoa se motivar a querer participar do clube e eu sempre que mandava, eu sempre era a diretora das brincadeiras que eu inventava. Então, eram isso aí as brincadeiras. Ia lá no canal também pegar peixinho, pegava uns vidros de maionese, que iam ser o aquário e colocava os peixinhos no aquário. Até um dia que alguém caiu lá, saiu rolando para dentro do canal, mas também tudo bem, não fui eu, vamos lá, vamos pra frente. (risos) Assim, sempre tive bastante criatividade e na escola também, que eu estudava ali no Andradas, que era uma escola estadual, na época, hoje é municipal e eu acho que... não sei se é municipal ou estadual, mas antigamente era só estadual e também era uma escola... acho legal escolas públicas, porque elas têm bastante espaço, ao contrário, às vezes, das escolas particulares, que são bem reduzidas. Então, cada ano era uma atividade esportiva, era o ano do basquete, o outro ano do vôlei, o outro ano do handebol. A gente estava sempre envolvida ali, com esporte. Aí tinha o torneio entre as escolas, aí a gente inventava aquelas musiquinhas. E escolhia umas musiquinhas bem bobinhas, assim, mas a gente ficava inventando as músicas, pra desafiar lá as outras escolas. Então, a gente estava sempre envolvida com esporte e os meninos também, do nosso grupo, que a gente tinha um grupo bem grande, já na adolescência, de futebol. A gente tinha só um jogo de camisa e aí dava pros meninos, os meninos jogavam, aí depois tiravam a camisa, davam pra gente aquele nojo, todo suado, (risos) com todo o respeito, mas vinha fedido, a gente levava, lavava, pra depois poder jogar. E eu lembro que eu falava: “Eu vou entregar bem cheirosinha as minhas camisas e tal”. Aí colocava, abria os sabonetes da minha mãe, colocava num saco, fechava e entregava aquela camisa com aquele cheiro de sabonete. Enfim, a gente dividia os uniformes, mas estava sempre envolvido em esporte e outra coisa: em dança também. Então, também estava sempre envolvida com dança, pedi pra minha mãe me matricular no Teatro Municipal, aí fiz balé clássico, a partir dos onze anos e a minha mãe me levava, até o dia que ela falou: “Ó, você vai ter que aprender a pegar ônibus”. Aí eu lembro que tinha um seletivo e eu pegava o seletivo e ia lá pro Teatro Municipal. Depois comecei a andar de ônibus sozinha e aí ia pra lá, fiquei até os dezessete anos no Teatro e também tive contato com a arte, porque já que eu estava lá mesmo. Comecei a aprender todos os cantinhos que tinham lá no Teatro Municipal, às vezes, tinha um coral, às vezes, uma peça de teatro, a gente tinha acesso ali, porque já estava fazendo balé mesmo, saía do balé, ia, via as exposições, as peças, sabia onde que era pra entrar, pra ficar lá em cima do palco, não sei o nome, onde ficam os refletores, aí você olha lá pra baixo e está acontecendo as peças. Aí eu lembro que eu ia lá e me sentia privilegiada, de conhecer cada cantinho lá e de ter acesso porque eu acho que, às vezes, isso falta, falta espaço, falta acesso às coisas, o pessoal hoje fica muito em casa, não tem muito acesso. Então, assim, eu tive bastante acesso à cultura, por conta do Teatro Municipal, conheci os cantinhos lá, a gente pulava, tinha uns lugares que pulava de um setor do prédio pro outro. Aí eu lembro que, uma vez, a gente pulava de um lado pro outro e tinha um vão, a gente olhava lá embaixo, mas tinha... ou seja, segurança nada. E aí, eu lembro que tinha um desses lugares, em vez de ser um vão lá pra baixo, tinha um lugar que dava pra pular e ficar, como se fosse um degrau, assim. E aí eu sabia daquilo, eu levava o pessoal lá e falava: “Olha, toma cuidado porque, se cair lá embaixo, um abraço, né, vai morrer mesmo, porque é bem alto e não sei o quê” e aí andava. E aí eu lembro que, como eu conhecia esse lugar, eu fingia que eu ia pular e tinha me desequilibrado e caía, mas eu caía entre os vãos e estava um degrau abaixo. (risos) Aí, quando eu voltava, estava todo mundo assim: “Aaaaaaaaaahhhh”. (risos) E, assim, era brincadeira saudável, né, saudável, saudável. Mas, essa foi a minha infância, bastante feliz. P/1 – Elisabete, eu queria saber se, nessa época, quando você era pequena, você tinha alguma ideia que existia o porto, até pelo seu pai ter trabalhado lá, ou era assim, uma coisa distante? Você sabia que tinha um porto na cidade, você via esse porto? R – Eu sabia. A orientação que a gente tinha do prédio era: desce e a gente não queria subir porque, se subisse, ficava. Então, assim: a gente ficava apertada pra ir pro banheiro e pra não subir pra ir pro banheiro, a gente não queria comer, porque a gente sabia que ia subir. E a orientação é: quando começar a escurecer, sobe e não sai do prédio. Só que o que acontece, alguém sempre tinha alguma ideia maravilhosa, né? E a gente tinha a ideia, vendo o jornal, porque, às vezes, a gente tinha acesso, que tinha visitação de navios. Então, eu comecei, escondido, a visitar os navios, (risos) com as minhas amigas. Então, assim, a gente era pequena, eu lembro que eu ia na bicicleta de uma amiga minha, assim, em pé, hoje em dia ninguém mais anda em pé. E aí, ia uma porção de meninas lá, os meninos também e a gente ia pro porto. Você vê, né: criança, sei lá, tinha os meus doze anos, andando no porto, pra visitar navio. E aí, a gente começou a ficar de olho e tudo que era visitação, a gente estava no porto. Então, eu lembro que a gente visitou o submarino. E a gente ficava: “Caramba, submarino”. Aquelas camas, como é que eles dormiam, onde eles comiam, visitava submarino. Eu lembro de um navio que, se eu não me engano, chamava Doulos, que era um navio-biblioteca. Eu lembro, ah, navio de guerra, então uma série de navios, a gente estava sempre no porto, a gente estava sempre no porto, é claro, sem a minha mãe saber, né? Meu pai já tinha falecido, meu pai já era linha dura, eu morria de medo do meu pai. Ele nunca me bateu, mas meu, ele tinha uma voz que parecia um trovão e aí eu respeitava pra caramba, morria de medo. (risos) Só que aí, quando o meu pai faleceu, a minha mãe, coitada, tinha que trabalhar, ela trabalhava 12 por 36, um dia sim, um dia não, na Santa Casa. Só que aí, ela trabalhava no Guilherme Álvaro também, 12 por 36. Então, ela trabalhava um dia sim, um dia também, um dia sim, um dia também. E ela trabalhava à noite e de manhã ela já emendava com outro trabalho, porque ela entrava às oito e saía às duas. Ou seja, pra minha mãe criar a gente lá, mas ela não estava olhando e a gente ia pro porto. Então, assim, desde pequena eu tinha essa relação com o porto, eu sabia que o meu pai trabalhava no porto, já tinha trabalhado no porto. Até que ele se aposentou e depois faleceu. Então, eu sempre tive esse carinho com o porto e aí eu falava, né: “Um dia eu ainda vou trabalhar no porto”. E aí foi isso, deu certo, né? (risos)  P/1 – Eu ia te perguntar: quando você era pequena, você sonhava em ter alguma profissão específica ou nem era uma coisa que passava pela sua cabeça? R – Eu tenho muito claro na minha cabeça, desde que eu era pequena, a área que eu ia atuar, que é o meio ambiente. Tem muita gente que não sabe o que vai fazer, mas desde pequena eu já sabia que era isso o que eu ia fazer, era vocação. Quando eu era pequena, tinha lá os meus seis anos, eu queria ler, eu queria ler gibi e eu gostava muito de pintar e aí eu aprendi a ler, eu fui aprendendo a ler, pra poder ler os gibis e qualquer coisa que tivesse lá, que eu queria ler, porque as minhas irmãs liam gibi, porque, às vezes, a alegria do negócio lá em casa era ficar lendo, então eu queria ler também. Todo mundo: “Ah, não posso brincar contigo, porque eu tô lendo, tô lendo”. E aí, eu lembro que o primeiro livro que eu ganhei foi um livro de zoologia e botânica. Não que eu ganhasse o livro, era da minha irmã, era da escola, só que ela tinha mudado. Era um livro que a minha irmã não ia usar mais, os livros lá em casa iam passando de umas pras outras. E aí eu ganhei esse livro e podia pintar as figuras que estavam lá. Então, eu comecei a ler, aprendi a ler com seis anos, porque eu queria ler os gibis, queria ler os livros também, queria participar. A motivação era que eu queria ler. Aí eu comecei a gostar, eu lembro que tinha parte lá da parte de saúde também. Então, eu lembro também que tinha o Mundo Animal, um programa chamado Mundo Animal, eu lembro... enfim, todo o programa que estava relacionado... que não tinha muita coisa. Começaram a falar mais de meio ambiente de uns tempos pra cá, mas, assim, sempre me interessei pelo tema. E na escola, depois, a partir do quinto ano, a matéria que eu mais gostava era Ciências e aí foi indo, foi indo, mas eu sabia que eu queria trabalhar nessa área, até quando eu pude entrar na faculdade. E aí, minha mãe falava assim, pra não fazer isso. Eu falava que eu queria Biologia. Na verdade, quando eu entrei pra faculdade, era pra trabalhar na área da saúde, que como a família da minha mãe é toda da área da saúde, auxiliar de enfermagem, minha mãe, minha tia, enfim. E aí, tipo: lá que você ganha dinheiro, lá que você vai conseguir sustentar uma casa, só que aí eu não queria, queria trabalhar, eu queria fazer Biologia, mas a minha mãe falou: “Não, você vai fazer Enfermagem” e eu falava: “Queria fazer Biologia”. A minha mãe falou: “Vai ser o que, professora, né? Os meninos, hoje, as meninas estão muito, respondem, não têm mais aquele respeito que se tinha antigamente pelos educadores. E aí não vão te respeitar”, enfim. Era pra ser enfermeira lá e na última hora, na última hora mesmo, quando eu fui colocar lá, eu coloquei Biologia, dane-se, vou fazer o que eu quero. (risos) E assim: a questão da faculdade em si, já foi um prêmio, já foi um sonho entrar pra faculdade, porque eu fui mãe adolescente. Então, quando a gente é adolescente, tudo é demais, né? Quando a gente é adolescente, eu lembro que tudo era demais, tudo era muito intenso. Então, se a gente quer uma coisa, a gente não quer, a gente quer muito e se não tiver vai morrer. (risos) Mas a sensação que a gente... pelo menos eu já senti, minhas amigas já sentiram, quando você não pode alguma coisa, vai todo mundo pra uma festa e você não vai, você vai morrer ali. Então, na adolescência tudo é demais. Então, tive um namorado e aí eu fiquei grávida na adolescência. E aí é como se a minha vida tivesse parado. Primeiro, porque quando eu fiquei grávida na adolescência, a gente não tinha isso que tem hoje, que você vê uma adolescente grávida, eu acho que naquela época não tinha adolescente grávida. Quando você é adolescente, você acha que se você pensar bem forte, aquilo acontece ou não acontece. Então, assim: na minha cabeça eu não estava grávida. Tanto que, quando fui ao médico, eu já estava com quase sete meses de gravidez. Eu não estava -pensando bem forte assim - grávida, nem sabia o que era, não tinha amigas que estivessem grávidas, não tinha internet, não tinha nada. Então, eu me senti assim, depois que eu fui ao médico, assim: “Olha, está grávida”. Eu fiquei meio em choque e a minha vida ali parou. Então, tudo isso que eu tô te falando, naquele momento parou. Então, eu falei: “Olha, a minha vida acabou. Tô grávida, vou ter um filho, quem é que tem filho com dezesseis anos?” Não tinha isso. E assim, não tinha apoio, sei lá, tinha vergonha, estava no balé e a professora falava: “Nossa, mas a sua barriga está tão dura”, aí você fala: “Como é que pode, né?” Aí eu, quando tinha dezesseis anos, pesava quarenta e cinco quilos, eu era muito magra. Então, a gravidez inteira eu engordei dez quilos, então cinquenta e cinco quilos, ou seja: você fala com uma pessoa de cinquenta e cinco quilos. Então, eu falei: “Poxa, todos os meus sonhos acabaram, agora eu vou cuidar do meu filho, da minha filha” - porque ali eu não sabia, hoje em dia já tá mais fácil - “E, assim, eu não vou conseguir fazer mais nada da minha vida. Então é isso, acabou, acabou, agora acabou tudo, não vou mais nada”. E aí eu fiquei, nesse tempo, congelada, sim, com vergonha, porque eu sentia que eu estava envergonhando a minha mãe. Eu lembro que a minha mãe falou assim pra mim... acho que eu não vou conseguir falar, mas enfim. Dá pra parar um pouquinho? (choro) Não, vamos lá, vamos lá: foi uma época difícil da minha vida, mas deu tudo certo. Então, assim, hoje, quando eu procuro falar com adolescentes, assim, que eu gosto bastante, não tenho a oportunidade de trabalhar com adolescente nem nada, mas, eu sempre procuro dizer, contar a história porque eu me sinto uma vencedora e eu quero que todas as meninas que, por acaso, passem por isso, vejam que é possível superar tudo isso. Eu cuidei do meu filho, eu casei, fui morar na Praia Grande, era o único lugar onde a gente tinha dinheiro pra comprar uma casinha, então a gente casou, duas pessoas novas que decidiram enfrentar a vida. E aí eu tive, depois, meu segundo filho, com dezoito anos e morei na Praia Grande por nove anos. E eu tive que parar de estudar, eu parei no ensino médio. Então, eu falei assim: “Bom, acabou a minha vida”. Eu lembro que eu fui morar numa casinha, que eu encostei no muro e o muro inclinou, fez: vaaaaaa. (risos) E, assim, era lá depois da Curva do S, uma casinha bem simples. E a gente tem muito sonho, né, de estudar, de ser alguém na vida e aí isso ficou congelado, ficou congelado, mas eu tinha esperança de um dia, um dia eu ainda ia terminar os meus estudos, fazer faculdade. Então, pra mim, fazer faculdade foi uma coisa... eu não desisti, mas eu falei: “Agora eu não consigo”. Então, eu fui cuidar dos meus filhos, sempre fui eu que cuidei deles. Eu tenho três filhos, tenho dois do meu primeiro casamento, eu era adolescente. E a minha filha eu já tive mais tarde, do meu segundo casamento. Mas aí eu fui fazer Biologia, falei: “Depois de tudo isso, eu ainda vou fazer Enfermagem”, porque minha mãe queria que eu trabalhasse no hospital. A minha família prestava concurso, então a minha mãe, as minhas irmãs trabalhavam, eram concursadas, falei: “Ah, vou estudar também pra concurso”. E aí eu passei no meu primeiro concurso, fui trabalhar no estado, na área da saúde e trabalhei lá no Hospital Guilherme Álvaro, por uns quatro anos. Aí, eu prestei outro concurso pro município e passei e aí fui trabalhar no município. Falando assim até que é fácil, mas não, eu estudei muito. Eu sempre fui muito disciplinada, então eu tinha uma rotina de estudo e eu fazia as minhas planilhas, anotava tudo pra estudar, porque não dava pra fazer cursinho. Então, eu tinha que estudar, pegava lá e estudava, bom, enfim. Aí eu fui, trabalhei no Guilherme Álvaro quatro anos e depois eu fui trabalhar no município. Eu lembro que eu trabalhei na Secretaria de Assistência Social e depois eu pedi pra passar, já estava fazendo, eu já tinha feito licenciatura em Biologia, depois eu fiz um bacharelado em Biologia Marinha. Aí, eu estava fazendo a pós em Gestão Ambiental Portuária, porque eu falei: “Um dia eu vou trabalhar no porto”, aí eu fui trabalhar na Secretaria de Meio Ambiente de Santos. Aí eu falei: “Ah, agora eu tô na área que quero”. Então, assim, pra mim, meu, muita vitória, assim, conseguir isso. E, assim, é tão legal quando você consegue alguma coisa que você quer, você até esquece tudo que você já passou pra estar ali, pra ter conseguido aquilo lá. Então, nossa, eu fiquei muito feliz. E aí eu passei pra Secretaria de Meio Ambiente e fui fazer uma pós em Gestão Ambiental Portuária e aí, depois da secretaria, surgiu a oportunidade de trabalhar no porto. Eu saí falando. (risos) P/1 – Não, tudo a ver, está tudo ótimo. Antes de você começar, a contar da sua trajetória no porto, vamos puxar um pouquinho pra trás e daí a gente vai indo pra frente depois, sem problema. É ótimo quando você conta assim, dá até uma dimensão da sua história, importante pra gente, o processo. Mas eu queria que você fosse um pouco pra trás ainda, lá na sua infância e me contasse qual é a primeira lembrança que você tem, da escola.  R – Da escola eu lembro, eu lembro antes de chegar na escola, eu lembro do meu pai me levando pra escola e me mostrando: “Ó, é esse caminho que você tem que fazer”, me levou a primeira semana. E na escola, assim, eu sempre gostei muito de estudar e sempre foi um ambiente muito agradável, como eu falei. Eu comecei a estudar numa escola estadual bem grande, que fica ali no BNH, o Andradas. E, assim, indo mais pra trás, até, antes de entrar no primeiro ano, no Andradas, eu lembro que eu estudei no Parquinho Olívia Fernandes, ali que fica entre o Canal 5, Canal 4, ali na Affonso Penna. E aí eu estudava lá, eu lembro que eu gostava de desenhar. A primeira lembrança que eu tenho, eu tenho algumas lembranças do parquinho, de eu ter feito as caravelas, desenhado as caravelas, que era a comemoração do Descobrimento do Brasil. E aí ninguém acreditava que eu tivesse feito, eu tinha uns seis anos e aí eu lembro de ter que provar. Eu acho que essa sensação de ter que provar, acho que me acompanha até hoje, engraçado até isso. Porque eu tive que pegar um papel e desenhar ali pra todo mundo que eu que tinha feito a caravela, não tinha ninguém feito pra mim. E aí a professora saiu comigo no braço, mostrando: “Gente, olha o que essa menina fez”. Eu sempre gostei bastante de desenhar. E esse negócio de desenhar também é engraçado, porque eu desenhei acho que até o ensino médio, depois eu fui parando, porque a gente fica sem tempo e nunca mais eu desenhei nada, eu acho, mas enfim, as primeiras lembranças são essas, das caravelas que eu desenhei, que ninguém acreditava, que eu tive que fazer de novo. Eu lembro do parquinho, que tinha um menino que aterrorizava lá naquela caixa de areia, eu morria de medo dele e ele aterrorizava todas as crianças. E ele batia, ele puxava o cabelo, a gente tinha que tirar... eu lembro da conga, da conga azul, com a meinha branca e a gente tinha que tirar, pra entrar na caixinha de areia lá. E ele pegava as nossas meias, jogava. Nossa, o menino aterrorizava. Pais, mães, olhem seus filhos, (risos) porque eu morria de medo daquele menino, essa lembrança ficou. E uma vez também, que teve uma festinha do Dia das Mães e que eu fiz uma apresentação e no final tinha um pentinho, que era o cabo do pente o caule da flor e aquelas coisas, presentinhos. E aí eu fui levar pra minha mãe, lá no fundo, teve teatro e tal e aí eu cheguei lá e minha mãe estava assim, (risos) dormindo, porque ela tinha trabalhado a noite toda, coitada, ela estava (risos) com a boca aberta e dormindo. E aí, eu lá, assim: “Mãe”. (risos) Coitada, ela tinha trabalhado a noite toda e ainda se forçou ir lá, pra ver. Então, essas foram as minhas lembranças do parquinho, daquele parquinho lá, Olívia Fernandes, depois na escola e eu estudei no Andradas até a oitava série, na época. E aí foi muito bom, fiz muitas amizades, tenho algumas amizades até hoje, proporcionou só coisas boas. P/1 – E tem algum professor, alguma professora que foi muito marcante, em toda a sua trajetória, assim, como aluna, né? Teve algum professor? R – Teve, tiveram vários, né? Tinha o professor Euni, que trabalhava no Andradas, era professor de Educação Física. Eu lembro do shortinho vermelho e a camiseta branca e a sainha plissada, que a gente tinha que ir tudo arrumadinho pra aula de Educação Física, estudava de manhã e fazia Educação Física à tarde. Eu lembro das professoras, da professora Sandra, professora de Ciências, que também foi muito importante porque, como eu já gostava da parte de Ciências, então, assim, foi muito importante. Eu lembro da minha primeira professora de balé, que se chamava Gleici, lá no Teatro Municipal. Minha professora de balé, Rosângela, também lembrava e elas eram bem rígidas, eu lembro que ela ficava com um cabo de vassoura batendo, pra contar, então: “Um, dois, repete, barriga pra dentro, popô pra dentro”, elas faziam e apontavam, assim, com o cabo de vassoura. Imagina hoje isso! Pegar o cabo de vassoura e bater assim na... (risos), dá polícia. E eu lembro de uma professora na escola, no primeiro ano, que pediu pro menino sentar várias vezes e o menino não sentou. Ela bateu com a régua, quebrou a régua (risos) na cabeça do menino, eu falei: “Meu Senhor, olha coisas como eram antigamente!”. Então, antigamente não tinha moleza, não. Então, hoje as coisas são mais, assim, politicamente corretas. P/1 – Como que foi, assim, como que seguiu a sua formação, nessa época ainda, de juventude mesmo? Em que época que você parou de estudar, como foi a sua juventude, até o momento que você engravidou? R – A minha juventude tem essas duas fases, né? Antes de ter o meu primeiro filho e depois. Antes era dedicado a esporte, à dança, eu dançava no Sesi... Sesi não, Sesc, que era ali na Conselheiro Nébias, depois que abriu lá no Canal 5. Mas eu lembro também quando teve o Sesc lá no Canal 5, foi muito bom. Mas eu ia, treinava vôlei, tinha um professor, o Marcão, que dava aula de vôlei, dança, a gente ensaiava dança, lembro da época dos Menudos, que a gente dançava. E aí a gente participava de concurso de dança, as meninas fazendo os Menudos e ia pra São Paulo ver o show, quer dizer, era maravilhoso. Ia no programa do Bolinha, ia no programa do Silvio Santos, apesar de eu não gostar muito, mas eu ia lá. Eu não gostava porque eu lembro do programa do Silvio Santos que chegava e eles pegavam as mais bonitinhas e colocavam ali na frente e, assim, eu não achava politicamente correto, mas enfim, não falamos sobre isso. A minha adolescência foi de muito contato com esporte, com arte e uma vida normal. Depois, quando eu fiquei grávida, que eu me dei conta, porque até então, até quase sete meses de gravidez, acho que era negacionismo. E aí deu uma congelada, porque aí eu fui ter o meu filho e aí eu falei: “Bom, essa vida agora é responsabilidade minha”. E, como eu sempre fui muito responsável, mesmo desde pequena, desde adolescente, eu sempre fui muito responsável, então eu falava: “Agora meu filho é a minha responsabilidade”. Então, eu tinha medo porque, é uma responsabilidade muito grande pra uma adolescente e, enfim. E aí, eu passei o resto da minha adolescência, até eu poder voltar a estudar, meu filho já estava maiorzinho, aí eu lembro que a minha sogra ficava com ele ou o meu marido e aí eu voltei, pra terminar a escola. E a faculdade eu só pude fazer depois, aí eu já tinha trinta e poucos anos. Até falavam, tinha gente que falava: “Não, vai fazer faculdade pra que?” Eu tenho os meus amigos que têm duas, três faculdades aí, nem trabalham na área. Então, eu sempre fui guiada pela persistência, porque eu escutei muito isso: que já era tarde pra fazer faculdade. Eu não sou muito boa de datas, então assim: mas eu tinha trinta, não sei, eu preciso até olhar. Mas sempre ouvi que já era tarde pra fazer a faculdade, que não adiantava fazer, porque tinha muita gente que fazia faculdade e não adiantava nada, que o negócio era eu trabalhar. Aí eu tinha filho. E aí, eu entrei na faculdade mesmo assim, mesmo com tudo contra, né? E depois, também, que eu fui fazer Engenharia. E eu fiquei grávida da minha filha no segundo ano da faculdade, falaram assim: “Ah não, vai, para, porque você não vai aguentar, você não vai conseguir”. Nossa, eu escutei tanto isso na minha vida: “Você não vai aguentar, você não vai conseguir, que já é tarde, que faculdade pra que, porque depois o pessoal fica desempregado, mesmo com faculdade”. Assim, eu queria estudar, porque eu sempre gostei de estudar e aí eu fui indo, né, fui indo. Eu não lembro mais da pergunta. P/1 – (risos) Tudo bem. Quantos anos você tinha, quando você engravidou pela primeira vez? R – Eu tinha de dezesseis para dezessete anos. Meu filho nasceu em setembro de 1986, eu tinha dezesseis anos. P/1 – E como foi se tornar mãe e o que a maternidade mudou na sua vida? R – Ah, mudou tudo, né? Mudou tudo, porque eu não estava preparada e eu tive que aprender, tive que aprender. Então, assim, o primeiro passo foi entender que eu precisava estar naquele papel, que não adiantava pensar no que eu deixei, do que eu ia parar de fazer, do que eu não ia conseguir mais, eu ainda era adolescente, eu lembro que era na época das festas de quinze anos, inclusive. Porque eu tinha dezesseis, estava ali. Então, sim, deixar de ir pras festas, deixar de sair com as minhas amigas, deixei de fazer tudo. Então, assim, mudou tudo, mudou tudo. Eu fui pro hospital, tive meu filho, saí com medo. Nossa, eu estava com medo, porque falava assim: “Cara, agora é comigo, né, agora é comigo, como é que vai ser? Não sei de nada”. Não teve planejamento, não teve enxoval, não teve... era tudo: “Corre”. Não tinha, assim, uma preparação, né, mal fiz o pré-natal. E aí eu penso que isso também pode ser a realidade de muita gente, pode ser não, é, acontece. E eu me senti muito desamparada, eu me senti muito desamparada, a minha mãe me ajudou. Primeira coisa é que ela: “Poxa vida, né?” A pessoa fica meio decepcionada com você e também é muito ruim você decepcionar as pessoas que você gosta. As pessoas não vão chegar pra você e falar assim: “Ah, tô decepcionada com você”, mas você vê na cara delas que elas estão decepcionadas, que elas desejam outras coisas pros seus filhos. Então, assim, ela me apoiou. No começo, ficou muito triste e tal, mas assim, não me deu as costas. E aí tudo mudou, eu tive que aprender tudo, aprender, o meu filho chorava à noite, aí eu não dormia, parecia um zumbi. Eu lembro uma vez que eu peguei o carrinho e coloquei do lado da minha cama, aí eu fui colocá-lo no carrinho e eu o coloquei entre o carrinho e a cama. Ele começou a chorar, eu podia ter derrubado a criança, de tanto sono que eu estava, eu fiquei sem dormir, parecia um zumbi. Assim: uma adolescente, que não sabe nada, que está envolvida com esporte, com música, com dança, com a escola, que está ali, com as suas amigas. Eu lembro que as minhas amigas fizeram um chá de bebê e eu lembro que, na época: “Você está grávida?”, eu falava assim: “Não, não”, sabe? Você pensava bem forte, negava, não estava, não aconteceu, aquilo não ia acontecer com você. Adolescente é complicado, né? (risos) E é isso, aí isso tudo mudou a minha vida, porque eu tive que aprender, aprender a cuidar de uma criança. Ainda falavam assim: “É uma criança cuidando de outra criança”. E, às vezes, escutava as piadinhas maldosas também, tinha bastante isso porque, assim, não tinha muita adolescente que ficava grávida. Então, assim, eu tinha vergonha, então, sabe, era meio discriminação, sofria discriminação e é isso, mas aí tudo foi superado. P/1 – Quais os nomes dos seus filhos? R – Então, o nome dos meus filhos, o primeiro filho chamava... chamava não, chama, né? (risos) O nome do meu primeiro filho é Andrew, aí fala: “Por que Andrew?” Você vê como adolescente é. Porque eu lembro que Andrew era o filho da Rainha Elizabeth. (risos) E aí eu lembro que ele ia casar, eu achava: “Olha o príncipe. Meu filho vai se chamar Andrew”. E o meu segundo filho se chama Lucas e a minha filha se chama Fernanda. Então, estão aí, eles têm, 1986, né: trinta e quatro, trinta e dois, eu não sou muito boa de conta, mas é um ano e meio de diferença de um para outro. Trinta e quatro, aí trinta e dois, trinta e três e a minha filha tem dezenove. Então, eu tenho bastante orgulho deles, porque os três já estão encaminhados, estudaram, só a minha filha que ainda está na faculdade, está fazendo Odontologia, mas porque ela quis, eu não obriguei ninguém e ninguém, também, seguiu a minha área. (risos) P/1 – Elisabete, e como foi o momento de voltar para estudar, de entrar na faculdade, o que é que significou isso, para você? R – Eu acho que significou, primeiro: era uma coisa que eu queria muito. Então, assim, independente do que eu acho sobre o estudo, porque eu acho que a educação liberta, eu acho que você estudar, eu sei que é meio clichê, mas amplia mesmo os horizontes, você começa a pensar em coisas que você não pensava antes, começa a ver coisas novas, você começa a se interessar por algumas coisas. Pra você se interessar, às vezes, você precisa conhecer, por isso que é tão importante dar oportunidade pras pessoas, né? Porque as pessoas, às vezes, conhecem uma coisa e falam assim: “Ah, é isso que eu quero”. Então, é uma oportunidade. Independente de tudo, era o que queria, pra mim eu queria fazer a faculdade e você conseguir alguma coisa que você quer é muito prazeroso. E realmente eu acho que liberta, né? Eu acho que são coisas que ninguém tira de você. Eu já tive marido, eu já me separei, eu já tive casa e não tenho mais, eu já perdi muitas coisas, mas assim, o que eu estudei está sempre ali. E também não desisti, é uma lição de persistência, porque eu começava a estudar, mesmo depois que eu voltei pro ensino médio, para terminar e depois que eu fui pra faculdade, tem muita dificuldade. Você tem filho e aí você tem muita dificuldade, porque você tem casa pra cuidar, tem filho pra cuidar, seu filho fica doente, você gasta com transporte, tem que estudar pras provas, tem que fazer os trabalhos, é muita dificuldade. Então, muitas vezes eu ia desistir, muitas vezes eu queria desistir e falar: “Não, não dá mais, não dá, eu tentei, foi bom”. Eu me justificava pra mim mesma, falava assim: “Tentei, fiz a minha parte, fiz o melhor possível, mas eu não vou conseguir”. E aí que tá, né? A minha mãe, mesmo não me apoiando pra eu fazer Biologia, para área de meio ambiente, que ela queria que eu fosse da área da saúde, mesmo assim, também a minha mãe foi importante nesse processo, que ela falava assim: “Não, você vai fazer, você vai fazer, você não vai desistir” e aí eu: “Não” “Então, vai essa semana”, então eu ia. E aí, eu já me motivava. Então, assim, é importante também a rede de apoio. A motivação maior está dentro de você, você tem que saber porque é que você quer fazer aquilo, a importância que aquilo tem na sua vida e você tem que voltar e viver relembrando essas coisas, mas a rede de apoio, assim, é bem importante também, porque uma hora você vai fraquejar, é bom você ter alguém que fale assim: “Não, você vai fazer, você não vai desistir, vamos lá, o que está faltando aí?” E aí, então foi isso: uma série de pessoas que me ajudaram a não desistir, a ter força e superar as dificuldades, porque qualquer coisa que você vai fazer, vai ter dificuldade. P/1 – E me conta do seu primeiro trabalho, qual foi, como que era? R – Primeiro trabalho na vida? Primeiro trabalho na vida, primeiro foi, eu estudava inglês e aí eu conheci a dona da escola de inglês, a gente ficou amiga, ela precisou de uma secretária e aí me convidou pra estudar... pra estudar não, pra trabalhar e estudar lá também. Ela falou assim: “Olha, vai poder estudar sem pagar e aí você vai trabalhar aqui e tal”. Chama Tereza Maria e ela foi bem importante, porque, às vezes, eu também estava meio desmotivada e ela escrevia uns bilhetinhos pra mim e sempre foi muito bacana. E aí eu fui trabalhar na escola de inglês da Tereza, na Praia Grande. Depois eu também trabalhei numa rádio comunitária, que também foi bem legal a experiência, a gente sempre aprende. Dei aula em academia, em escola infantil, que eu dava aula de balé, com aqueles meus sete anos do Teatro Municipal, falei: “Olha lá, está vendo”? Eu queria ter me formado, mas aí eu fiquei grávida e aí não consegui me formar e tive que mudar pra Praia Grande, ficava muito longe. Mas eu dava aula de balé e assim foi, aí eu falei: “Ah, vou prestar o concurso”, aí comecei a estudar para concurso. P/1 – E como foram esses outros trabalhos, prestar concurso? Você já falou um pouco, mas pode continuar, até a hora que você decidiu entrar no porto. R – Tá. Bom, eu trabalhei na escola de inglês, na rádio comunitária, quando eu morei na Praia Grande e era meio período, ou seja: eu podia trabalhar enquanto os meus filhos estavam na escola e na escola infantil e na academia também. Então, assim, era a oportunidade de ter um horário mais flexível. E o deslocamento, eu também podia ir de bicicleta, que era próximo, pegar um ônibus, enfim. Bom, aí depois fiz, prestei o concurso, passei e falei: “Bom, está na hora de voltar pra Santos” e aí eu saí da Praia Grande e voltei pra Santos, aluguei a minha casa que tinha lá na Praia Grande, aluguei aqui em Santos, voltei pra cá, fui trabalhar no Hospital Guilherme Álvaro. Aí, lá eu trabalhava no SN... Serviços de Nutrição e Dieta e era cozinha e cuidava das copas. Bom, fui trabalhar no Guilherme Álvaro, fiquei quatro anos trabalhando lá, ajudando na cozinha e atendendo as copas. Fiquei quatro anos e eu estava fazendo faculdade, estudava no Santa Cecília, que era perto do hospital e fui morar próximo do hospital também. Então, assim, foi muito importante e, assim, a minha mãe já trabalhava no hospital, a minha irmã também trabalhava no hospital, o hospital tinha uma creche, então minha filha era pequena e ela podia ficar na creche enquanto eu trabalhava, que é importante também, é difícil, não é todo lugar que tem creche. Às vezes, a mulher acaba deixando de trabalhar por conta de como eu vou fazer com o meu filho, né? Então, deu tudo certo, trabalhei lá até que eu saí de lá, prestei um outro concurso pro município, passei, fui trabalhar na Secretaria de Meio Ambiente. Na verdade, quando eu entrei na prefeitura, eu fui trabalhar na Secretaria de Assistência Social.  No Guilherme Álvaro eu cuidava - voltando um pouco - na cozinha, tinham as cozinheiras, tinham as moças que ajudavam e eu era uma dessas moças que ajudavam, então, a picar os legumes, chegavam as caixas de legumes, a gente picava, depois a gente servia lá na frente e servia nas copas também. Então, assim, lá eu tive muito contato com as pessoas que estavam doentes, porque a gente trabalhava em diversas alas. Então, trabalhava na pediatria, na maternidade, trabalhei na clínica cirúrgica, onde ficam também os doentes com tuberculose, com Aids, enfim, eu trabalhei lá e a gente revezava, entregava alimentos, olhava os cardápios que as nutricionistas colocavam ali. E aí também procurava sempre alegrar o pessoal, entrava nos quartos, tinham três camas, né? Então, entrava lá e falava assim: “Tem algum corinthiano aqui?”, aí o senhorzinho lá: “Eu”, aí eu falei: “Hoje vai ficar sem comer”, fechava a porta. (risos) Aí eu voltava: “Ah, é brincadeira”, (risos) enfim. Tentava brincar, alegrar lá o pessoal, às vezes, sobrava alguma refeição que vinha no marmitex, a gente montava lá na cozinha. E aí, às vezes, tinha algum acompanhante que também estava com fome e tal ou alguém que trabalhava lá, tanto na enfermagem, quanto na segurança, aí acabava disponibilizando. Tinha o pessoal que vinha lá no Guilherme Álvaro, que morava muito longe, que estava, às vezes, com pessoas internadas, as pessoas ficavam lá, às vezes, nem almoçavam. Então, aquele alimento que às vezes a gente chamava geral, que não tinha nenhuma restrição, aí a gente acabava cedendo, mas enfim. Uma vez a minha chefe me pegou, (risos) não podia, eu tomei uma bronca.. Aí foram, até que eu mudei pra Secretaria de Assistência Social, porque eu era de um cargo mais administrativo. E aí eu fiquei tentando, eu trabalhei na Casa dos Conselhos Municipais e lá trabalhava com o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, Cmdca, Conselho Municipal de Assistência Social, Conselho Municipal do Idoso, Conselho... enfim, vários Conselhos Municipais, chamava Casa dos Conselhos. E eu trabalhava com esses Conselhos Municipais e conheci vários projetos assistenciais, várias casas assistenciais, projetos, aí tinham as reuniões, a gente acabava aprendendo. Teve uma época também que lá a gente recebia denúncias, então hoje eu não sei mais como é, mas na época eu lembro que era de idoso. Então, eu tinha contato com a realidade. Então, assim, de ter pessoas idosas e, às vezes, as pessoas não queriam ficar com as pessoas em casa, então às vezes ligava e falava: “Olha, tem um lugar, que eu tô com a minha mãe, mas eu preciso trabalhar e eu não tenho quem fique com ela, eu queria que você me indicasse um lugar, mas olha, eu não posso pagar muito”. Então, a gente falava assim: “Olha, a gente não pode indicar, a gente tem uma relação de casas que acolhem os idosos e você pode fazer uma pesquisa, ver qual o melhor lugar que se adequa”. Mas tinha muito isso, tinha muito isso de ter pessoas que não sabiam o que fazer com os seus idosos e ninguém podia ficar com o idoso, cuidar do idoso. Então, assim, era muito triste, me sentia muito triste. Tem até uma passagem dessa questão, uma vez. Eu ia pra faculdade à noite e trabalhava o dia inteiro. E a minha filha ficava na casa da minha mãe e eu passava lá pra pegá-la, fazia academia com ela à noite, pra ter o contato com a minha filha, assim, senão eu só trabalhava e estudava. Então, um dia estava eu e minha filha saindo da academia e aí tinha uma senhora e ela falou assim, uma senhorinha: “Minha filha, pra onde que fica a praia?” Aí eu falei assim: “Olha, a praia fica nessa direção, mas onde a senhora está indo?” “Ai, eu tô indo no endereço X”. Eu falei: “Esse endereço é lá na ponta da praia”. Ela passou o nome da rua, né? Mas ela: “Ah, como é que eu chego”? Eu falei: “Por que é que a senhora não pega um ônibus? Pega um ônibus, porque a senhora não paga ônibus”. E aí, tá, eu falei: “Eu vou acompanhar a senhora até o ponto do ônibus”. Aí eu acompanhei a senhorinha lá, até o ponto do ônibus e ela ia falando, contando umas histórias e ela estava lá, cheguei lá e perguntei que ônibus que passava ali na ponta da praia, em tal lugar, aí fiquei esperando com ela. Daí, chegou o ônibus, fiz sinal, falei: “Olha, a senhora pega esse ônibus”, aí eu: “Motorista, essa senhora quer descer na rua tal”, aí ele: “Mas pra onde a senhora vai?” Aí começou a fazer umas perguntas pra ela, ele falou assim: “Olha, ela está meio confusa, eu não vou levar, não”, aí eu falei: “Como que você não vai levar?” Aí discuti com ele, tal e aí eu falei: “Mas como é que pode?” Ele foi embora. Aí, eu fui perguntando pra ela, deu o nome de uma rua e a moça falou assim, que estava no ponto de ônibus: “Olha, essa rua fica aqui no Canal 5”, porque eu estava ali no Canal 5: “Fica ali no Canal 5 e tal”. Aí eu falei assim: “Então tá”. Aí ela começou a falar umas coisas do marido dela, que estava embarcado e não sei o que lá, fiquei pensando: “Meu, mas um senhorzinho está embarcado?” Aí falei pra minha filha assim: “Fica um pouquinho com ela, que eu vou buscar o carro e aí a gente vai levá-la em casa”. O carro ficava na casa da minha mãe enquanto eu ia pra academia, fui lá, peguei o carro, minha filha: “Mãe, ela está falando umas coisas aqui, eu não sei”, aí eu perguntei pra ela: “Qual é esse endereço que a senhora me falou”? Ela repetiu o endereço. Eu peguei o carro, a coloquei no carro, coloquei a minha filha, fui levar lá no endereço, mas eu já estava tão brava, assim, que eu falei: “Como que a família deixa uma senhora?” À noite , ela estava de bermuda e camiseta, eu já comecei a nutrir uma raiva, assim, que eu falei: “Meu, família irresponsável, como é que pode?”. E aí ela, no carro, começou a falar umas coisas assim, nada com nada, até que ela chegou e falou: “Cadê a minha bolsa?” (risos) Aí a minha filha falou assim: “Mãe” (risos) “A senhora estava sem bolsa”, aí ela falou assim: “Não, eu estava com a minha bolsa até agora”, aí eu: “Meu Deus do céu, vou ser acusada de roubar, ainda”. E aí eu fui até o endereço, eu falei: “É esse o endereço que a senhora me deu, a senhora está reconhecendo algum lugar?” e eu, assim, nutrindo aquele sentimento de raiva, assim: “Meu, como é que pode? Olha, tarde da noite”. E isso eu tô contando resumidamente. E aí eu vejo uma moça, eu fui com ela até a porta do prédio e eu vejo uma moça lá meio desesperada. Quando ela viu a senhora, ela falou assim: “Mãe! Onde a senhora estava, pelo amor de Deus?” Já começou a chorar e eu fiquei surpresa, falei assim: “Olha, eu a achei, ela estava em tal lugar, ela sabia o endereço, decidi trazer”. Aí a mulher me abraçou: “Ai, você é um anjo”. Ou seja: ela tem Alzheimer, a filha dela falou e que ela pegou a chave e saiu do jeito que estava, de bermuda e camiseta, sem documento e ela saiu por aí. E aí a filha dela olhou pra mim e falou assim: “Cadê a bolsa dela”? (risos) E aí eu falei: “Ela estava sem bolsa, estava sem nada e ela estava com a chave no bolso da bermuda”. Ou seja: olha o que pode acontecer, ela podia se perder, podia acontecer tanta coisa, ficar desaparecida, porque eu acho que ela já não lembrava, ela falava do marido como se tivesse embarcado, mas o marido já tinha falecido, então ela estava contando um monte de história. Então, assim, quando eu trabalhei na Secretaria de Assistência Social, eu pude ter contato com essas histórias de conhecer um pouco mais da região aqui, dos projetos de criança também, do Conselho Tutelar, dos problemas, então os problemas sociais aqui da nossa região. Bom, mas até que eu consegui ser transferida para Secretaria de Meio Ambiente, lá eu trabalhei alguns anos também e aí eu comecei a trabalhar com a minha área, a área que eu estudei, que eu queria atuar e aí eu já fazia Gestão Ambiental Portuária e trabalhei na Secretaria de Meio Ambiente, até que a chefe de uma das minhas chefes falou assim: “Olha, tem um projeto que vai...”, isso lá em 2007. “Vai ter um projeto” e mostrou uma reportagem no jornal, ela falou: “Ah, tem um projeto aqui, me perguntaram se eu conhecia alguém”. Eu trabalhava já com várias... tinha os programas da praia, que eram sobre a questão do resíduo e trabalhava com os adolescentes também, assim, eu sempre gostei bastante dos adolescentes, porque sempre que eu podia dar uma palavra, conversar, incentivar, eu acho que é uma época delicada e com a experiência que eu tinha, eu sempre queria ajudar, mas enfim. Aí falaram de um projeto novo, de uma empresa nova e eu falei: “Ah, vou lá fazer”. Já que ela tinha me indicado, é até feio se eu não for e tal. Aí eu fui lá, eu era concursada, trabalhava na prefeitura. E aí que eu conheci a BTP, que é onde eu trabalho. Na época, era só um projeto, era um projeto que a gente não sabia se ia dar certo, eu nem saí da prefeitura, eu pedi licença, que a gente tinha direito de pedir uma licença por dois anos e aí pude me dedicar ao projeto. Ninguém conhecia, falava: “Eu trabalho na Brasil Terminal Portuário”, o pessoal falava o nome até de outra empresa do porto, pensando que era aquela. E era uma empresa nova, era um projeto, na verdade, porque não tinha terminal ainda, ela era um lixão da Alemoa, do porto e aí a primeira visita que eu fui, fui parar num outro lixão, porque aí eu descobri que tinha outro lixão lá na Alemoa. Aí eu falei: “Ah, acho que não é aqui”. Foi a primeira vez que eu fui e, quando eu fui, era um lixão desativado. Então, tinha verde, porque a vegetação nasceu em cima do verde. Bom, quando eu fui conhecer a empresa, depois que eu já tinha feito, tinha sido aprovada na entrevista e tal, tinha pedido a licença na prefeitura, aí comecei a me dedicar. Era uma área de transbordo da prefeitura. E aí depois que eu fui conhecer, era uma área que era verde, porque o lixão tinha sido desativado em 2002 e a gente estava em 2007, foi em junho de 2007. Então, eu fui lá conhecer, tinha o verde, porque era a vegetação que tinha nascido em cima dos escombros e tinham áreas lá de aproximadamente dez metros de altura. E uma das primeiras coisas que eu fiz foi fazer o levantamento do histórico, para conhecer o que tinha sido, como virou lixão e como deixou de ser lixão, quando foi paralisado o aporte dos resíduos lá, do que era esse lixão, aí descobri que era de atividades do porto, enfim, fui fazer esse levantamento, porque eu mesma não conhecia, apesar de ter morado a vida toda em Santos. Eu já conheci alguns terminais em Santos, mas eu não conhecia aquela área. Então, um dos primeiros trabalhos que foi, foi fazer esse levantamento do histórico, verificar tudo o que foi feito, pra gente poder dar andamento no projeto que se tinha. O meu número de matrícula é três, fui uma das primeiras funcionárias contratadas, por conta de ter esse passivo, de ter essas questões ambientais ainda para serem resolvidas. Então, aí foi iniciar o trabalho de fazer o levantamento, olhar os estudos, então foi em 2007. P/1 – E como foi o seu primeiro dia lá, o que você estava sentindo, como foi pra você entrar na área que você queria? R – Quando eu fui fazer a entrevista a primeira vez, eu lembro de ter sido a última, tinha uma pilha, eu lembro que tinha uma pilha de currículos mesmo, uma pilha mesmo e que o meu currículo tinha sido o último e eu acho que era a última entrevista. E aí eu lembro da pessoa que me entrevistou falar assim: “Enfim, eu acho que não é o perfil que a gente está procurando e tudo”, mas eu estava tão tranquila, assim, porque eu já estava trabalhando, trabalhava lá na secretaria, eu gostava de trabalhar lá, gostava das pessoas, gostava do trabalho, já estava na minha área, então estava tão tranquila. E eu lembro que eu falei: “Ah, está bom, tudo bem. Olha, boa sorte com o projeto, vai dar tudo certo”. E aí eu lembro que eu voltei, falei: “Posso só falar uma coisa que eu esqueci, né, só pra...”, porque, às vezes, a gente vai pra fazer uma entrevista ou vai em algum lugar e tudo e aí, quando você chega em casa, você fala: “Caramba, podia ter falado isso, esqueci, né”? E aí, voltei, eu lembro que eu falei alguma coisa: “Olha, o projeto, antes de iniciar, é bom fazer isso e isso e isso e tal”, aí comecei: “Falar com algumas pessoas e tal, tal, tal”. E eu lembro que o presidente da empresa, naquele dia estava lá, porque já era o segundo dia que tinha e aí eu lembro que ele saiu assim e perguntou umas coisas pra mim, eu falei, expliquei e tal, tal, tal, mas já estava indo embora, já estava, assim, tranquila. Acho que a tranquilidade quando você fala assim: “Tô indo embora”, eu acho que te dá uma... então, eu já estava tão tranquila que eu não ia ser contratada mesmo, aí já dei umas dicas lá, (risos) já dei umas dicas, já falei umas coisas e aí o presidente da empresa, até então eu não conhecia, só de nome e já tinha visto também, porque ele era presidente de um outro terminal, antes dali. E aí ele saiu da sala, me fez umas perguntas e aí eu respondi e tal: “Ah, não e tal”, perguntou algumas coisas, se eu conhecia, eu conheci sobre uns projetos, tal, tal, tal, conversei com ele, falei: “Bom, gente, tchau, boa sorte”. E aí, no final me chamaram, que eu tinha sido escolhida. (risos) Eu já não estava nem, sabe, pensando nisso, já estava tão tranquila. Eu acho que é essa tranquilidade, porque, às vezes, você fica muito nervosa e aí esquece, eu não sei, eu não sei, eu sei que chegou: “Olha, você vai ser contratada e tal”. E aí eu até fui conversar com o secretário, porque pra você ter a licença, o secretário precisa te liberar. Aí eu fui conversar com o secretário lá de meio ambiente, pra ver se eu poderia tirar a licença, sem vencimentos, você fica afastada, sem vencimentos, por um período, depois você tem que ou retornar ou pedir exoneração. E aí eu lembro que teve uma festa na secretaria, que eu trabalhei assim, até o último dia, até o último minuto do... porque eu queria entregar as coisas lá, antes de sair da secretaria e deixar tudo certinho. E aí teve uma festa de despedida. E aí foi isso: eu saí da secretaria, no primeiro dia que eu cheguei na BTP, é o que eu falei: a BTP, quando eu conheci, não era um terminal, era uma salinha, eu lembro que era na João Pessoa, 60. E aí eles mudaram para o Braz Cubas, ali no prédio Martinelli e aí tinha uma sala lá. Então, assim, o primeiro contato que eu tive foi com a sala de escritório e aí eles tinham comprado uns móveis, então os móveis estavam chegando, então tinha uma mesa que eu podia usar e era meia dúzia de pessoas. E a gente se debruçava em cima de um projeto, que a gente não sabia se ia dar certo ou não, todo mundo que estava ali tinha muita vontade que desse certo, mas a gente já tinha um histórico que várias empresas já tinham tentado e não tinham conseguido. Mas não tinham conseguido também porque cada uma queria fazer a sua parte onde estava instalado e como a BTP veio para arrendar a área como um todo, os órgãos ambientais precisavam que o processo de remediação fosse efetivo, então ele teria que ser na área toda. Então, eu acreditava que seria, que daria certo e tomando todas as medidas e tudo. Mas eu lembro que o primeiro dia foi como as pessoas... pelo menos eu me senti com medo. (risos) Você fica com medo, o novo te dá medo. Aí, ou ele vai te paralisar ou você vai com medo mesmo e aí eu fui com medo mesmo, porque falei: “Ah, será que eu vou, um projeto do zero, dar conta? Tem tanta coisa pra fazer, tem tanta coisa pra ver”. Eu lembro que no primeiro dia, o meu chefe me chamou na sala dele e falou: “Olha, precisamos ver isso, fazer aquilo”. Eu lembro que eu cheguei com a minha agenda, comecei a anotar e: “Olha, precisamos ver isso, precisamos fazer aquilo, precisamos tal”, falou um monte de coisa, aí eu: “Ok, ok, claro, vamos, vamos, ok, vou providenciar”. Eu virei as costas e falei: “Meu, o que é que ele está falando, o que é que ele está falando?” Tinha coisa que eu nem sabia o que era. (risos) Então, foi lá no carão, entendeu? E porque era muita novidade, eu nunca tinha trabalhado no porto e não era um porto, não era um terminal. Não é que não era um porto, era um porto, era o Porto de Santos, mas não era um terminal portuário, era uma área, era a recuperação de uma área que era um antigo lixão. Então, assim, tinha medo, mas foi com medo mesmo, o que eu não sabia eu procurei saber, eu falei: “Bom, o que eu tenho que fazer?” Aí eu comecei a ligar para algumas pessoas, aí que é bom você ter a sua rede de contatos. Às vezes, a pessoa também não sabe, mas ela sabe quem sabe. E aí eu comecei assim: a fazer os contatos, a ligar pras pessoas, a perguntar, né? E aí, tentar alinhar as expectativas daquilo que estavam esperando de mim, pra que eu não entregasse nada a mais, nem a menos. E aí foi indo a minha caminhada, até terminar a minha licença da prefeitura. E aí eu falei: “Bom, já consegui”, isso aí já era 2009, aí eu falei assim: “Bom, já tô pronta, ou pra voltar ou pra ficar. Bom, o que eu vou fazer?” Aí, eu falei com o presidente da empresa: “Vai acabar agora a minha licença e eu preciso dar um retorno lá pra secretaria, ou eu volto ou eu continuo aqui. E, se vocês precisarem, eu também posso atuar como uma consultora, sei lá, com aquilo que eu já tô fazendo”. Mas aí ia ter o trabalho da prefeitura e aí aquilo consome bastante, então eu pensei: “Nos finais de semana, se alguém precisar de alguma coisa, eu dou um apoio, mas durante a semana já fica complicado”, enfim. Aí voltei pra prefeitura e falei: “Tô pronta também pra voltar”, eu olhei e falei com os dois e aí lá na empresa falou: “A gente quer que você fique, continue o trabalho que você está fazendo”. Aí eu voltei, pedi a exoneração, saí, aí todo mundo: “Sua louca! (risos) Você é concursada, não faça isso!” Ou seja: é difícil, né, porque é difícil ter apoio pras coisas. Eu acho que tem dez não apoiando e uma pessoa apoiando pra tudo. Enfim. E aí é isso, fiquei na empresa, trabalhamos bastante, conheci muitas pessoas, conseguimos um passo, cada hora um passo, um passo de cada vez, a gente fazendo a coisa certa e é bom, porque eu lembro de chegar lá, olhar e falar: “Será que isso aqui um dia vai ser um terminal?” Tinha lá áreas que tinham dez metros de resíduo, lixo, terra, lixo, terra, falei: “Será que isso um dia vai, né, ser um terminal?” E eu lembro que uma das primeiras coisas que a gente tinha que fazer era cercar e promover a segurança, porque a molecada cortava as telas, porque tinham umas telas lá e entravam, porque eles queriam tomar banho lá no píer, só que naquele píer, ele tinha tanto ferro embaixo, que quando a gente fez a parte de arqueologia na linha, os mergulhadores chegavam a ficar em pé, você olhava, eles ficavam em pé na água, assim, apoiado no ferro. Ou seja: um perigo, né? E aí a gente tinha que promover a segurança do local, pra que não acontecesse algum problema, fora isso que tinha lá o solo contaminado, né, a gente começou fazer estudos e viu que tinha benzeno, chumbo, cloreto de vinila, mercúrio, enfim. E aí, não podia deixar o pessoal brincar ali naquele lugar. Então, foi isso o início, foi o início como acho que qualquer um que vá trabalhar em algum lugar: ansiedade, medo e vontade de fazer um bom trabalho. P/1 – Queria saber como é que foi acompanhar essa construção desde o começo, literalmente uma construção, desde o começo até hoje, foi um processo de construção do terminal, da própria empresa, né?  R – Tá, então vamos lá. Eu sempre trabalhei na área de meio ambiente, logo que eu entrei, eu entrei como analista ambiental. Então, acompanhava os processos, a gente precisava pedir as autorizações para fazer os estudos, a primeira coisa foi o diagnóstico da área, o diagnóstico para ver o que tinha, a quantidade que tinha, a profundidade que tinha, o que era necessário fazer e iniciar o processo do licenciamento. Acompanhar as vistorias, os órgãos ambientais iam lá fazer vistoria, tinham que estar assinado, no início do processo, termo de ajustamento de conduta com o Ministério Público Estadual, a gente precisava manter tudo organizado, cumprir todas as tarefas. Então, essa era a minha função. Eu iniciei como analista ambiental, depois de uns três anos eu fui promovida a coordenadora, aí fui coordenadora de meio ambiente. Aí depois de uns três anos e pouco, eu virei gerente de meio ambiente e hoje, acho que há um ano e pouco, dois anos, eu sou especialista em meio ambiente. Então, sempre trabalhei nessa área de meio ambiente, então eu escutava assim: “Ah, a Bete, olha, a mulher das plantinhas”, aí eu falei: “Olha, legal, né? Meio ambiente não é só planta.” “Ah, a mulher das plantinhas, a mulher dos bichinhos”. Por quê? Porque tinha todo um trabalho para ser feito quando a área era vegetada, então a gente precisava das autorizações pro corte da vegetação, a gente precisava fazer o manejo, tanto das plantas, quanto dos animais. Então, eu ficava lá acompanhando a obra, assim: não foi uma obra convencional de chegar e construir um terminal. Não, tinha fases, o licenciamento ambiental tem fases, tinha o ______- para ser cumprido, os órgãos era Cetesb, Ibama, Ministério Público, a própria hoje SPA, mas era Codesp, estavam acompanhando. Então, a primeira coisa a ser feita foi o diagnóstico: o que tinha, a quantidade que tinha, quais os locais que tinha, né? Então, a gente ia vendo lá onde tinham as manchas de chumbo, de cloreto de vinila, de benzeno, de mercúrio. Imagina que ali foi um lixão por mais de cinquenta anos, um lixão de atividades do porto. Então, de resíduos de construção civil a produtos, tinha soja, tinha, sei lá, carga de frango estragada, tudo que era resíduo de atividades do porto, ia pra lá. Então, a primeira etapa era fazer o diagnóstico, a segunda etapa era aprovar o projeto de remediação, o que ia ser feito naquele local, para descontaminar a área. Então, o projeto de remediação, aprovar o projeto, depois executar o projeto, teve um acompanhamento, foram os estudos, depois foram trinta meses só de recuperação. Então, mesmo a recuperação, foram feitas em etapas, aí você tem que ver pra onde que vão os resíduos, pra onde que vai todo o tipo de resíduo, perigoso, não-perigoso, proveniente da própria área, proveniente da obra. Fazer o manejo da vegetação, fazer o manejo dos animais e aí fazer os controles também de efluentes, enfim, de emissões atmosféricas. Fazer os controles, ver se está tudo certinho, ver se as empresas estão fazendo tudo certinho. Pra fazer o corte, não é só chegar e cortar tudo, a gente tem que dividir a área, tinha que cercar pra que, se tivesse algum animal, não fosse pra avenida, a gente estava próximo de uma avenida. Então, tudo foi feito com muito cuidado e dava muito trabalho. Trabalho não faltava, a gente trabalhava e, assim, bem feliz, na verdade. Porque é bom você construir alguma coisa, é bom você construir alguma coisa que vai ficar, é bom você ter colaborado para a construção. Então, a primeira coisa foi a descontaminação da área e aí, concomitante, junto, estava lá a construção do terminal. Então, a gente teve a remediação, que foi de 2009 até 2012, depois a gente teve aí ainda dois anos de monitoramento, então foram sessenta poços instalados pra gente ver - pra que monitorar - se aquilo que foi feito, foi efetivo, se estava certo. A gente usou duas técnicas na remediação, foi de lavagem de solo, que é bem bacana, falando de uma forma bem simples: você tira o que está ali, você passa pra um processo físico-químico de lavagem de solo e aí você consegue voltar parte do material pro local, né? Todos os locais tinham identificação, eram esquadrinhados, enfim. Teve um processo bem longo e depois mais dois anos de monitoramento e depois até o documento, que chama termo de área reabilitada, onde você atesta que a área está recuperada. A construção do terminal, o terminal iniciou em 2013 a operação e, assim, foi muito emocionante ver o primeiro navio chegando, foi muito emocionante, porque tudo aquilo que você fez, todas as dificuldades, tudo que você passou, o tanto de gente que trabalhou e aí você vê o primeiro navio chegando, assim, foi bem gratificante. E aí, você está trabalhando num lugar que você vê tanta gente trabalhando, tantas famílias, né, estão trabalhando ali, ou de forma direta, como funcionário da BTP ou de forma indireta mesmo e só de você não estar disponibilizando contaminante pro solo e pra água, porque aquilo lá também estava indo pro estuário, estava indo pro mar. Então, assim, só de você ter colaborado uma parcela, um pouco, pra aquilo acontecer, é muito gratificante, é muito gratificante mesmo você construir. E aí, se esse lugar virar referência, porque eu lembro quando eu comecei a trabalhar lá, eu falava: “Eu trabalho na Brasil Terminal Portuário”, todo mundo: “Não sei, eu conheço X, Y, Z de terminal”, aí eu falei: “Não, mas ainda não é um terminal”, explicava, aí todo mundo: “Ah, tá bom”. E aí, hoje você vê, você fala, todo mundo conhece, é um terminal de referência. Então, assim, o primeiro sentimento que eu tenho é orgulho, orgulho de ter participado. Então, é isso. P/1 – Eu ia te perguntar como você enxerga o futuro do porto, principalmente o futuro da BTP, levando em conta principalmente a sustentabilidade do meio ambiente.  R – Desenvolvimento, eu acho que ele não pára e eu acho que uma das coisas que eu aprecio na BTP é que eles estão sempre estudando, estudando novas formas de fazer. Eu acho que a tecnologia chegou e ela vem mudando, ela já mudou tanto a nossa vida, né? A gente tem hoje aí, todo mundo tem um celular. A gente não vive mais sem tecnologia e o futuro da BTP e das empresas passa por aí. Questão de desenvolvimento, ela também passa por tecnologia, novas formas de fazer e a BTP tem lá o tema: “Acreditar e inovar”. E realmente eles fazem, eles praticam. Então, assim, eles estão sempre pensando em novas formas de como fazer. Então, assim: o futuro passa por aí, ele passa em expandir, talvez, em melhorar os processos. Porque desenvolver não é só sempre aumentar a sua área, mas é enxergar dentro daquilo que você tem e ver novas formas de você fazer de forma mais eficiente, de forma melhor. Então, é por aí que eu enxergo. P/1 – E eu ia te perguntar como foi conciliar o seu trabalho na BTP com as demandas de ser a Elisabete, de ser uma mãe? R – (risos) Bom, hoje a questão de ser mãe já está mais tranquila, porque os meus filhos, meus dois filhos já estão casados, eu já tenho até uma neta e a minha filha está estudando e eles já são muito independentes, então hoje já está mais tranquilo a questão da mãe. Agora, tem a questão da esposa, né? Eu casei de novo em 2020, um pouquinho antes de estourar a pandemia. (risos) Então, eu acho que a gente está sempre em busca do amor. Eu acho que a gente está sempre em busca de encontrar alguém que faça parte da sua vida e daquele apoio que muitas vezes eu não tive. E aí, eu trabalho na BTP e a gente trabalha de forma constante, de forma hard lá, de forma intensa, digamos assim. As demandas são sempre muitas, a gente tem um volume de trabalho bastante alto e, às vezes, exige que a gente trabalhe em final de semana, às vezes, a gente tem que trabalhar um pouco mais e hoje, depois que eu me formei em Engenharia de Meio Ambiente, eu continuo estudando, tô fazendo uma pós em Engenharia de Segurança do Trabalho. Então, você tem o trabalho, você tem o estudo e agora a gente precisa encontrar tempo... eu preciso encontrar tempo pra ficar com o meu marido. Então, assim, meus filhos, hoje, já estão encaminhados, mas a demanda de esposa está lá (risos) e a gente precisa dar atenção a isso também, então é isso. P/1 – Qual é o nome do seu atual companheiro? R – É Gilberto. P/1 – E como vocês se conheceram? R – Eu conheci o Gilberto como hoje muitas pessoas se conhecem, através das redes sociais. (risos) A gente tem em comum trabalhar no porto, ele também trabalha no porto. E aí a gente tinha isso em comum, aquilo que começou como uma amizade despretensiosa e com o passar do tempo foi se tornando um namoro e depois de alguns anos juntos, a gente decidiu casar. A gente casou bonitinho lá, foi em fevereiro de 2020, foi um pouquinho antes da pandemia. P/1 – Elisabete, eu ficaria horas te ouvindo, eu adorei você e suas histórias, fiquei muito feliz que a sua entrevista flui e foi muito boa. R – Falei pra caramba! Eu ouvi que você ficou muito feliz, eu também fiquei. Eu fiquei, sabe por quê? É muito legal falar aqui, porque se fosse pra falar ali, eu já tinha dado umas travadas. Aí a travada ia ser outra.  P/1 – A última pergunta é: o que você achou de ter contado um recorte, né, da sua história? Eu sei que é rápido, mas assim, é sua história de vida, então o que você achou de ter passado essa tarde com a gente, o que é que você sentiu? R – Bom, primeiro eu não senti culpa, porque mulher, o sobrenome é culpa. Então, assim, eu tô aqui conversando um pouquinho, eu já estaria me sentindo culpada, porque eu não estou entregando alguma coisa (risos) do trabalho. Mas brincadeiras aí à parte, eu fiquei feliz, é legal quando você faz uma retrospectiva assim, da sua vida. E aí vem lá do início, lá da infância. E aí eu consegui ir falando e ir enxergando. Quando a gente fala sobre o assunto, a gente parece que revive também. Então, assim, foi muito bom reviver a minha vida, né e compartilhar com vocês. P/1 – Elisabete, muito obrigada, eu agradeço muito, vai ter um mini doc depois, de produto, vai ter uma exposição, a sua história vai ficar pra posteridade no museu e todo mundo vai poder acessar. (risos)  [Fim da Entrevista] 
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