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Secretário faz tudo

História de: Fernando José Gonçalves
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Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Em seu depoimento, Fernando conta sobre a carreira de seu pai como caixeiro viajante, como começou a trabalhar com 13 anos de idade para ajudar a família e passou por diversas fases da Vale. Histórias engraçadas envolvendo o sindicato, colegas e amigos. As experiências que adquiriu com as viagens através da empresa, o envolvimento com o Valeriodoce Futebol Clube como vice-presidente e o pior ano da Vale para exportação, em 1946, após a Segunda Guerra Mundial. A chegada dos americanos na empresa, o movimento de minério, as festas familiares da empresa que organizou e a alegria de ver o sorriso no rosto das crianças. Fala também sobre as gratificações generosas, a privatização e sua aposentadoria da empresa.

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História completa

P/1 - Claudia Resende

P/2 - Marina D’Andrea

R - Fernando José Gonçalves

 

P/1 - Por favor, me diga seu nome para começar a entrevista, local e data de nascimento.

 

R - Meu nome é Fernando José Gonçalves, ele é originado do meu avô que [se] chamava Fernando e o [do] outro [avô que se] chama José. Então é Fernando José homenageando meus avôs. Eu nasci no dia 27 de agosto de 1926, na Rua Erê, 123, em Belo Horizonte, Minas Gerais.

 

P/1 - E o senhor se lembra de seus avós?

 

R - Meu avô, do lado paterno, chamava Fernando Terceiro de Lima; eu lembro bem dele, a gente corria em Itabira. Do lado da minha mãe, eu não conheci.

 

P/1 - E o que os seus pais faziam?

 

R - O meu pai teve uma carreira de viajante, mas ele terminou foi com salão de cabeleireiro. Tinha umas quatro ou cinco cadeiras comprada na Ferrante - [loja de móveis para salões de beleza] - lá em São Paulo, parece que fornece até hoje cadeira [para salão]. Morreu em 1942, no dia 2 de agosto com 42 anos. Foi num dia feito assim... Deixou a minha mãe com 8 filhos menores, e eu era o número dois, o número segundo pela escala.

 

P/1 - E o senhor tinha quantos anos nesse dia que ele morreu?

 

R - Quando ele morreu, eu tinha 13 anos.

 

P/1 - E como é que foi a vida de vocês a partir daí, qual era a diferença?

 

R - A partir daí foi o seguinte: a primeira coisa que foi providenciada, o governo tinha estabelecido um abono de família porque não tinha outra receita, todo mundo era pequenininho dentro de casa. Nós, então, na coletoria, fomos providenciar esse abono de família. Ele morreu em agosto, e a Vale do Rio Doce tinha chegado em junho em Itabira. Eu trabalhava numa casa comercial como caixeiro viajante, caixeiro que nós chamávamos lá é o seguinte: de manhã eu corria a freguesia, ia na sua casa e gritava: “Caixeiro.” A senhora gritava, eu falava assim: “A lista do que a senhora queria.”, com a caderneta dum lado. Eu ia no armazém, fazia o despacho, punha nuns caixotes que ficavam em cima dos burros, saía tocando o burro e entregando aquilo. Então eu era isso de caixeiro. Mas a Vale foi criada [e] eu ganhava, naquela época, 30 mil réis por mês e era um salário excepcional, porque os outros caixeiros ganhavam 15, mas foi porque eu [era] muito desembaraçado com o negócio de escola normal, que eu tinha estudado, coisa e tal. Eu fazia escrituração da firma, e aí então eu nem almoçava em casa, almoçava na venda, pegava a conserva que quisesse; eu tinha plena liberdade lá no pessoal da chefia. Então a Vale entrou em junho, meu pai morreu em agosto. Pintou em Itabira um advogado para fazer as desapropriações da Vale, que muito amigo do meu avô. Então meu avô falou assim: “Seu Randolfo - chamava Randolfo Castilho - você precisa arranjar um lugar nessa companhia para o filho do Leleco - que era o apelido do meu pai.” Aí, um belo dia, quando foi no dia 21 de setembro, me chamaram no escritório, que eu ia ser o mensageiro da Vale.

 

P/1 - Mas só um momentinho para a gente entender melhor: o senhor tinha 13 anos, era caixeiro e já tinha feito escola normal?

 

R - Escola normal - lá fazia esse negócio de escola. Eu fiz o primeiro e segundo ano no grupo, o terceiro e o quarto [na] escola normal.

 

P/1 - Ah, tá.

 

R - Depois, o resto, foi a vida.

 

P/1 - O senhor, então, só fez o curso primário?

 

R - O curso primário. Depois para conseguir essa classificação de profissional de relações públicas, eu submeti aos seis meses de teste de coisa, uma lei nova que tinha saído, saiu, aí.

 

P/1 - Mas bem depois disso?

 

R - Bem depois.

 

P/1 - Mas voltando um pouquinho então, antes, o senhor se lembra como é que era a diferença quando o seu pai estava vivo e quando ele morreu? Quais foram as mudanças?

 

R - Mas não houve muita mudança não, porque a nossa vida era vida de gente muito pobre. Eu me lembro que eu trabalhava na casa comercial e despachava o pessoal, e a minha mãe mandava um outro irmão meu ir lá ao salão pedir [pro] meu pai o dinheiro para comprar banha, arroz. Comprava todo o dia - lá em casa, comprava todo o dia. E ele comprava, religiosamente, meio quilo de banha. Aquilo me tocava lá no armazém, [de] eu [ficar] vendo os outros clientes todo comprando pacotes e mais pacotes. A prova aí é que quando ele morreu, o primeiro salário... Aliás, antes de ele morrer, o primeiro salário meu, na vida, eu comprei quilos de banha. E até hoje, eu sou um camarada tendencioso a comprar. Entro em choque com a minha mulher e ela fala que não precisa comprar, mas eu tenho a mania de comprar, porque lembro daquele meu tempo que a coisa era racionada em casa, então a diferença foi muito pouca. O meu irmão mais velho, que já trabalhava no Espírito Santo, lá em (Tapocu?), naquele lado da estrada de ferro, conseguiu uma transferência para a Acesita [Aços Especiais Itabira], que é bem perto lá de casa. É claro que com dois, três anos depois ele veio a falecer com tuberculose e eu assumi a família. Aí eu fui para a Vale do Rio Doce já ganhando 150, né, de 30 para 150. Quase já deu uma garibada [melhorada]. Nesse ínterim, morava numa casa alugada na cidade, e a Vale estava completando as casas do bairro do Campestre. Também consegui uma casa lá para cima, que não paguei mais nada.

 

P/1 - E o senhor foi com a família inteira?

 

R - Com a família inteira.

 

P/1 - Isso foi em que ano, que o senhor foi para...?

 

R - Eu entrei em 42. Deve ter sido em 43, mais ou menos, que fui para o Campestre.

 

P/1 - Então o senhor se mudou para Itabira?

 

R - Não, eu já morava em Itabira.

 

P/2 - Quer dizer, o senhor nasce em Belo Horizonte [e] como que a família vai para Itabira?

 

R - Ah, mas isso foi antes de 42.

 

P/2 - Então conta.

 

R - Eu nasci em 26. O meu pai deve ter [se] deslocado para Itabira em 32, 34 no máximo. No máximo.

 

P/2 - Entendo. A família toda era de lá, [então] ele voltou para junto.

 

R - É, ele tinha dado uma saída para Belo Horizonte. Ele era - eu não sei bem o termo - um caixeiro viajante. (Ela falou mais ou menos assim.?) Nós aqui, nós falávamos [que] não éramos muladeiro não, porque eles andavam com tropa, né, a mercadoria que ia vender era na tropa.

 

P/2 - Tropeiro.

 

R - Tropeiro andava mais com alimento, eles andavam é com mostruário. Agora, o muladeiro andava com as mula para vender: ele levava uma tropa, vendia e voltava só numa, montado só numa. Meu pai não, meu pai tinha de seis burros que ele ia com mostruário - era o transporte dele - mas aquilo foi fracassando e ele acabou ficando como sapateiro.

 

P/1 - Mascate.

 

R - É, uma espécie disso. Só o mascate carregava malas próprias, né, e ele tinha esse... Era uma vida difícil, difícil. Então veio essa melhoria da casa, a economia com o aluguel da casa.

 

P/1 - Isso na passagem para Itabira?

 

R - Dentro de Itabira, na passagem do meu pai vivo para ele morto, quer dizer, com o meu pai vivo nós tínhamos que pagar o aluguel da casa. Existem coisas fáceis, assim, engraçadas, não sei se valeria a pena citar, mas um fato interessante é que o meu pai tinha um problema, uma ferida na perna, e trabalhava em pé. Ele sofria muito e a gente tinha muita dó, né? Então ele chegou sábado, trabalhou até tarde, e ficou. No dia seguinte, ele ficou de cama, de pijama - ele estava dentro de casa - e nós estávamos sempre deitados. Quando foi, assim, às 5 e meia da tarde do domingo, a minha mãe falou assim: “Ô Fernando, pega a sua irmã Norma e faz ela dormir.” Eu peguei a minha irmã, comecei com ela nos braços assim, e meu pai estava numa sala - nós morávamos numa casa relativamente grande - aí meu pai ressonou, [e] quando ressonou [pela] segunda vez, eu falei: “Ô mãe, o pai está assim...” Mamãe chegou, sacudiu ele [e] falou assim: “Chama o Dr. (Zulico?) que seu pai está morrendo.” Isso também marca a gente, porque a pessoa que ressoa perto de mim, eu acordo, na mesma hora, [e] me lembro daquela passagem, né? Então morreu, de repente, assim, sem nada. Mas o curioso, é que aquele pessoal do bairro, imediatamente, no vestir o defunto, vestia com pijama e com a (féria?) que ele tinha feito no sábado. (risos) E no dia era pouco, aí foi o resto. Foi o que ele tinha feito no sábado, o dinheiro que ele tinha no bolso foi naquela afobação. E nós da família, todo mundo se reuniu lá no quarto, chorando, e ninguém participou. Você entrega a sua casa para os outros, no interior é usado isso, né, mas foi assim. Então na Vale, eu fiquei mais de um ano com esse salário...

 

P/1 - Que função que o senhor tinha?

 

R - Eu tinha, “boy”, mensageiro - o nosso escritório era num bairro que chama Campestre, que é morro, no alto do morro lá em Itabira - e a minha função era de manhã. A gente ia para o serviço em cima de caminhão, né, aí eu coletava correspondência, correio, banco, esse troço todo, saía de lá e ia na cocheira, que a companhia tinha uma cocheira com os animais. Aí eles me davam um animal [e] eu vinha para a cidade fazendo aquela catação, correio e tal, e voltava. Estava num saco [a correspondência]. Depois do almoço, a mesma coisa. Aí, (tosse) com um ano que eu saí daquilo e fui ser datilógrafo. Entrei na escola de datilografia e assisti uma aula, porque eu achei. Eu não aceitei a professora nos largar lá e ir namorar, né? “Não, não fico aqui mais não. Esse babador aqui na minha frente, que negócio é esse aí?” Então entrei no escritório, que eu aprendi a escrever, e passei a ser datilógrafo. Aí acabou [de] eu montar naquelas bestas [animais] viciadas de mais de um ano de serviço, que não podia maltratar. O cara da cocheira, ele tinha sido expedicionário, ele era meio, daquele povo que veio da guerra; se maltratasse o animal, ele partia para cima da gente, então não podia nem bater, nem nada, tinha que deixar. Aí eu fiquei como escriturário. Houve uma passagem muito curiosa, em que o nosso homem na Vale, naquela época, era um diretor americano - que a Vale quando foi fundada, ela tinha quatro diretores e um presidente. Então, foi um esforço de guerra na Vale do Rio Doce. Precisava de material bélico para os Aliados, que a guerra já tinha, o governo alemão estava arrasando com a gente. O inglês entrou com a mina, que ele tinha a mina, a mineração era dele, e a estrada de ferro. E o americano entrou com os empréstimos, mas para o americano entrar com os empréstimos, ele condicionou que dois diretores eram americanos. Então o primeiro foi para Itabira, chamava Mister Lawrence, e o outro ia então ficar no Rio, era o diretor do banco também, que ele sabia como é que andava o dinheiro que eles estavam emprestando. O Presidente era Israel Pinheiro e os outros diretores brasileiros. Muito bem. Com um ano e meio, mais ou menos, como datilógrafo, eu vi que o salário estava ficando apertado já [com a] família crescendo, minhas irmãs querendo estudar nos colégio etc. Eu falei com um chefe meu lá: “Escuta, está difícil. Eu estou quase indo para a Acesita.” Acesita era aços especiais de Itabira, né, meu irmão ainda trabalhava lá, foi, me levou no Mr. Lawrence, que falava espanhol, virou e falou assim: “Quanto é que ele ganha?” “Ele ganha 150.” Ele falou assim: “Peça 350 para ele.” “E se não acatar, o Israel Pinheiro - que era o presidente - assina um ato provando que liquidou o assunto.” Então esses mais de quase 200% de aumento, eu tinha como uma conquista rara na empresa que ninguém me superava. Vieram me superar muitos anos depois, assim mesmo em condições excepcionais, que era o indivíduo que era escriturário e tinha feito a faculdade em Belo Horizonte. De Belo Horizonte ele transferiu para Itabira já como engenheiro, diga-se, de gerência. Então aí ele, realmente, teve uma vantagem equivalente, mais ou menos, a minha. Daí eu fui de escriturário para oficial administrativo. Mas oficial administrativo, falando para vocês - vocês acham que é um cargo... Não, oficial administrativo de 19 pulou para 20, [depois] para 21. Cada promoção... 22 até o 25, que é a última quadra na carreira de oficial administrativo, 25. Bem, isso é a lei, não sei. Aí a companhia... Nesse ínterim, eu fui nomeado chefe da seção de arquivos, do arquivo geral - fui nomeado secretário do departamento. Depois, eu fui para chefe do serviço especial de secretaria, que só tinham três pessoas com esse cargo lá, e fui depois para assistente regional de comunicação social, que aí era a área melindrosa [árdua] da empresa, porque a empresa é considerada, lá em Itabira, como a empresa que só faz buraco, né? “Que a mineração só dão a (sata?), o que não dá duas, a (sata?).” Aquilo lá vai embora depois e deixa um buraco, então o povo sempre queria tirar alguma coisa. A minha função era o público interno e externo da empresa - viver bem, harmonizar essa turma. Isso, eu já fui no governo, na presidência do Fernando Roquete Reis, com o Alberico Souza Cruz, essa turma da pesada, fui até lá, mas antes fui secretário. Na secretaria, eu tive muito relacionamento com o pessoal, porque eu era do povão: esporte, sócio do Valeriodoce, diretor do Valeriodoce [Esporte Clube], vice-presidente do Valeriodoce por uma eternidade, mais de 14 anos - que [a função] no Valeriodoce era indicado pelo superintendente. Então ele me indicava, que eu era o secretário, ele me indicava diretor do Valeriodoce. E eu vivia com o povão. No outro clube da cidade, eu fiz uma campanha para construir uma sede, prestigiei lá com 10 ou 20 sacos de cimento, então fui sócio benemérito, eu sou fundador do Lions Clube, fui secretário e presidente de divisão, duas ou três gestões, eu sou, fui presidente e fundador do grupo escoteiro Fábio Olímpio, sou da catedral... A catedral ruiu, de Itabira, então precisava de uma comissão para fazer uma catedral.

 

P/1 - Como assim ruiu?

 

R - A catedral ruiu de um dia para o outro.

 

P/1 - Por quê?

 

R - Sei lá, aquele prédio velhíssimo, né, aquelas precariedades de parede dessa largura que quebrava dentro das parede. Ela ruiu, a frente dela.

 

P/1 - Foi consequência de...

 

R - Eles falaram que aquilo era de dinamitar a mina. Não sei, a construção tinha uma falha qualquer no meu modo de ver, que não é só aquilo não, mas falha foi. Então precisava de soergui [erguer] uma catedral, e puseram o cônego da cidade, que é o senhor mais velho como presidente, mas o vice-presidente era eu, porque sabiam que o testa-de-ferro era eu, ia ser, o cara que ia trabalhar era eu. O cônego não tinha condição.

 

P/2 - Que ano isso?

 

R - Acho que foi quando eu saí de Itabira, foi 76 pra 78. A catedral, muito interessante, foi um projeto em cilindro.

 

P/1 - 70 e poucos é que caiu a catedral?

 

R - Ela deve ter caído um pouco antes, viu... É 70 e pouco, como a senhora falou. Não tenho bem a data, mas quando eu saí de Itabira, em 78, a catedral estava terminando, a nova, já, e nós gastamos muito tempo para fazer. Itabira tem um bispo cearense que ele foi criado com os alemães, tanto que tem uma afinidade muito grande com a Alemanha, de onde ele busca muito recurso, mas ele, sistematicamente, não buscava recurso para a catedral, argumentava que a catedral tinha que ser construída com o trabalho e o esforço do pessoal do lugar.

 

P/1 - Mas quem que bancou essa construção? A Vale bancou a construção?

 

R - Não, essa, ela só deu um arquiteto, Fernando do departamento de obras, para fazer o projeto.

 

P/1 - Não foi feita o projeto...

 

R - A Vale deu máquina foi no dia que ela ruiu e ficou a parede, assim, cai [e] não cai. Se quisesse, as torres já teriam caído. Aí a Vale mandou as máquinas e os guindastes [para] acabar de jogar no chão. Com isso, o engenheiro que estava comandando o negócio lá ficou mal quisto. Ele não tinha culpa nenhuma, ele foi fazer um serviço que tinha que ser feito; mais da metade já estava no chão, não tinha jeito de soergue. Mas é o tal negócio, no interior você já viu, né?

 

P/1 - Mas não fizeram uma cópia da antiga, não?

 

R - Não, toda moderna. Toda cilíndrica, tudo maior, tudo menor, tudo assim. Uma belíssima catedral, para nós lá foi moderna. Ela tinha um negócio, choradouro. Choradouro é um balcão com vidro aonde as mulheres que têm criança pequena vão para lá; se a criança chorar, não ouve lá embaixo. Choradouro, para não incomodar a missa, que é muito comum. Tem um choradouro. (risos)

 

P/1 - A cidade aceitou essa nova catedral bem? Queria...

 

R - Eu já tinha saído de lá, mas o meu filho casou lá e tem um movimento muito grande na catedral. Eu fui lá, tenho ido lá, um movimento muito grande. A Vale agora que está dando uma mexida na casa paroquial lá, deu uma verba para reformar etc. A Vale, no meu tempo - que eu entendia - era o seguinte: ela fazia... Eu não, na comunicação social. A Vale conduzia o negócio dentro do seguinte: primeiro vê a habilidade da coisa, a possibilidade, a viabilidade de fazer aquilo, porque a mentalidade era essa, assim: “Vamos fazer um grande hotel em Itabira.” “Vamos”, “Então vamos lá na Vale buscar o dinheiro”. Itabira foi criada, praticamente, usurpando da Vale tudo que achava que precisava. Agora que a Vale foi privatizada, eles estão sentindo num mato sem cachorro. Está todo o mundo apavorado, porque acabou, vamos dizer assim, a teta. Era uma teta que não é muito fácil, mas que ela existia só no imposto de minério. A senhora já viu a quantidade que arrecadava? A chegou a ser o prefeito lá, um deles, publicava balancetes com milhões de saldo de um mês para outro, né, aquilo, aplicava o dinheiro, naquele tempo que aplicava dinheiro. Falei: “Gente, escuta. A prefeitura não vai ter dinheiro, é para ter obra.” Mas ele fazia assim, quer dizer, por quê? Agora, uma época - vamos desvirtuar esse negócio de idade senão me perco - uma época muito feliz da Vale, que eu considero, foi... A Vale começou com o Israel Pinheiro. O pior ano da Vale para mim foi 1946, porque a guerra acabou e nós só exportamos 46 mil toneladas de minério. Nós estávamos devendo o cabelo da cabeça, não tinha crédito para nada, depois veio o Eberval Pimenta, Eberval José Pimenta, que foi enfrentando aqueles negócios e o banco cobrando e tal, e o Eberval foi levando, levando. Quando chegou em 1949 para 50, a Vale conseguiu por em dia os “papagaio americano”, os títulos, e ficou com o teto. Aliás, no dia que pôs em dia a dívida, dispensou os gringos, mandou eles embora. Só que a instalação não tinha terminado ainda, mas mandou eles embora, porque ela não devia mais obrigação nenhuma.

 

P/1 - Menos americanos?

 

R - É, os americanos tinham [sentido de estar] também, um punhado. Tinha o superintendente que era o (White Red?), tinha o Vale, o (Beiçuza?), tinha o (Dod?), William (Dod?), tinha gringo pra, Frank, esse negócio, esse povo todo. Aí o cara foi embora e se falou: “Quem é que vai ser o superintendente?” Aí lembraram que em Governador Valadares, no departamento de obras de Valadares, nós tínhamos o João Paulo Pinheiro, que era sobrinho de Israel - um homem dinâmico - e levaram o João Paulo Pinheiro para Itabira. João Paulo chegou lá, se afeiçoou a mim muito rapidamente, porque com a saída dos gringos, eu na secretaria... O contador, que era uma pessoa de destaque na empresa, começou levar para a contabilidade todo o serviço como se ali fosse a chefia geral do escritório, e eu fiquei sozinho na secretaria, sozinho. Eu recebia a correspondência, assinava o protocolo, abria ali, dava o despacho da resposta, redigia a resposta, datilografava a resposta, assinava a resposta, metia cola, e protocolava e entregava. Eu fazia tudo. E nós tínhamos, naquela época, o “filé mignon” do serviço era o movimento de minério, quer dizer, informar o Rio de Janeiro quanto produziu, quanto ficou estoque, quantos vagões foram carregado, qual é a tonelada, esse trem todo. O Rio recebia de Itabira isso, recebia de Vitória os navios [e] fazia um mapa geral. O contador levou o movimento de minério também para lá e levou meus funcionários. Muito bem. O João Paulo Pinheiro tomou posse numa tarde e eu preparei a sala lá, o gabinete dele, coisa e tal, mas não fiquei lá dentro, peguei o ônibus que nos __________, já tinha o ônibus, peguei o ônibus para a cidade. No dia seguinte, o horário começava 7 horas, desci do ônibus, todo mundo desceu, nós fomos no corredor assim para assinar o ponto e ele estava na varanda de pé, assim, um morenão, grandão, estava na varanda, assinei o ponto, cheguei: “Bom dia, doutor.” “Bom dia. Como é que você chama?” “Eu chamo Fernando.” “O que é que você faz aqui?” “Eu, aqui na secretaria, atualmente, faço tudo.” Contei essa história, do movimento de minério, de ______. “Então você faz o seguinte: vai lá na contabilidade, pega as funcionárias que você precisa, traz esse movimento de minério para cá, que é de interesse meu, e traz mais gente para a equipe, sua secretaria, que eu dou muito trabalho.” “Perfeitamente, doutor.” Aí quando eu fui saindo assim, ele pegou o papel na mão: “Espera aí! E outra coisa, você abre os olhos comigo, senão eu te fodo, viu?” Aí eu olhei para ele assim: “Quem está no chão não cai, doutor.” Bem, ocorre - do almoço, entrei no ônibus para almoçar. Depois do almoço, no bairro do Paracá, na cidade, onde ele morava, nós tomamos o morro lá de casa, - morro da minha casa era um morro da esquina, assim, um morrinho baixinho - esperando a condução, que ele encostou o carro do outro lado [e] falou: “Fernando, vem cá.” “Pois não, doutor.” “O meu secretário anda comigo.” Nunca mais eu voltei no ônibus. Pena que ele ficou em Itabira de novembro a maio - morreu em maio lá, ele já foi [para lá] doente.

 

P/1 - E morreu lá?

 

R - É, morreu de enfarto, já foi doente. Mas ele tinha levado para lá o gringos da Morisson para terminar a instalação, então nós ficamos muito familiarizado com os gringos da Morrison. E eu, “boy”, o solteiro da turma, então os casados todo, e eu era um “boy”, mas (só seriedade de um homem?). Então, onde eu aprendi a comer bacon com ovos, conheci equipamentos eletrodomésticos, que até hoje ainda não vi no Brasil, que os gringos traziam tudo.

 

P/2 - O que, seu Fernando, quais?

 

R - Aquelas torradeiras de jogar o pão para cima assim, eu conheci naquela época. Eles tinham uma fruteira, uma espécie duma fruteira assim, tinha um prato, e esse prato tinha uma pequena agulha. Tinha seis lugares de pôr ovos: você pegava o ovo, dava um furinho nele, assim, e punha ali. E a fruteira tinha, 

a tampa tinha duas marcas [de marcação]. Você punha água até a marca de cima, assim, virava e colocava na tomada, com um minuto tinha ovo quente. Na marca de baixo, com um minuto tinha ovo cozido. Nunca mais eu vi isso. As máquinas de lavar roupa, lavavam roupa, depois encaixava naquele formato dela assim, se encaixava a armação de arame e punha os pratos, talheres, xícaras, e lavava a louça.

 

P/2 - Olha que legal.

 

R - O Mister Vale tinha uma lâmpada no quarto dele, uma lâmpada esverdeada, assim, que ele ligava, dava aquela luz verde [e] o pernilongo que passasse naquela luz caía morto. As cafeteiras elétricas fazendo cada café naqueles pote de vidro assim que passa... Hoje nós conhecemos, naquela época não conhecia nada. Aquilo para mim, eu como arrio de família acostumada com o fubá suado lá de casa... (risos) E as festas terminavam cedo, né, que eram festas das 10 às 2. [Se] o baile ficasse duas horas, o povo fazia assim: “Mas, mas.” Aí fazia uma vaquinha para a orquestra, para tocar mais uma hora. Hoje nunca mais acostumei, chegava baile, um baile de 15 anos da filha minha, 11 horas ela estava no cabeleireiro [e] eu falei: “O que é que há? Que horas vai ser esse baile?” (risos) Não é? Baile é 1 hora da manhã e termina 7. Falei: “Isso não é mais baile.” Mas então era assim, né, então, a gente familiarizou muito com os gringos. João Paulo fez coisas comigo fora do limite. Terminou o ano, eu comecei a fazer, preparar os gráficos do relatório anual - sempre foi um trabalho meu. A parte de discriminação de traçagem das minas, o engenheiro fazia, mas a parte de gráfico e estatística, era tudo comigo. E eu ficava no escritório até 10, 11 horas da noite, preparando aquilo. Quando desci uma noite, eu vi o carro dele parado num vizinho meu lá no bairro, e ele com o vizinho, __________ no jardim do vizinho, tomando ali um uisquezinho. Parei, falei: “Ô chefe, o que é que há? O senhor por aqui?” “É, eu fui levar sua mãe num velório.” “Num velório?” “É, morreu um parente seus, um conhecido seus. Eu estou fazendo hora aqui, vou buscar ela lá.” Aí nós ficamos conversando. Quando foi às 2 horas da manhã, ele falou assim: “Eu acho que a sua mãe já fez velório muito tempo, vamos lá buscar ela.” (risos) Era um amigo da família nossa, que tinha morrido e coisa e tal, quer dizer, esse é o superintendente da empresa, coisa...

 

P/2 - A relação era muito próxima, né, entre os funcionários?

 

R - No dia que ele morreu, a mulher dele, dona Margarida - nós conseguimos um avião lá para o Campo Nosso, apesar de ser de terra e coisa, para levar o corpo para o Rio. Na hora que ela estava embarcando, assim, ela pegou a chave da casa, aquela casa isolada do bairro - chama casa 32: “Seu Fernando, o senhor manda para nós o que o senhor achar que deve.” E me deu a chave assim. João Paulo tinha 16 ternos de linho. Morava em Valadares, calorão danado e uns ternos de... Ela falou assim: “E outra coisa. Aquele blusão de couro, eu faço questão que você vista aquilo, porque você tem a altura de João Paulo. Não sei o que, é.” É aqueles blusões de aviador cheio de lã por dentro, - você usa uma vez na vida, outra na morte (risos) - não faço ___________ isso aqui no Brasil. Ela me deu aquilo e uma gravata que era dessa largura, assim, uma tulipa - aquilo era uma gravata raríssima. Tinha uma que o americano deu para ele. Eu lembro que tinha uma caixinha assim com (ramal?) de FM e as malinhas. Tudo, mandei tudo para o Rio. E outra coisa: não mandei não, fui levar com o caminhão. O caminhão deu um bode danado na saída de Belo Horizonte, quebrou, nós ficamos esperando outro caminhão, mas o outro caminhão não pôde passar, tinha que fazer uma viagem em Itabira ainda por [causa de] uma emergência. Fiquei morando na pensão lá na Santos Dumont, porque minha mala estava debaixo da lona, lá na Nova Lima, e eu de macacão. (Coisa que lá fosse pena?), que era um cacete, um caralho, dô de cara com uma namorada minha de Itabira. Ela me olhou assim de macacão... (risos) Aquele dia foi de lascar, tive que explicar as coisas. Tive que implorar, que o negócio é esse?! E chegou aqui no Rio, entregamos o negócio todo aí na Ribeiro de Castro, que ela mora. Mas é, o Paulo foi muito bom. E outra, é que [era] o superintendente. Que uma vez me perguntaram: “Qual é o superintendente de mais destaque, que você destaca de Itabira?” “Eu não vou destacar pelo trabalho não, que eles todos são muito técnicos. Eu vou dedicar, considerar, o Doutor Vieira e o Doutor Schettino” Porque tinha a família lá e os filhos estudaram nas escolas de Itabira - os outros  filhos estudaram em Belo Horizonte. É só esse detalhe. Tinha esse tipo de diferença, mas o mais... Eu fui secretário de mais de 20 superintendentes. Sempre que tomava a posse, eu entregava o cargo e reconduziam. Quando o Fernando Henrique chegou, o Alberico Souza Cruz, - vocês devem ter ouvido falar, ele foi redator da Globo aí [por] muitos anos, agora está com o Canal 23 em Belo Horizonte, né, - o Alberico foi em Itabira e falou comigo: “Olha, com referência a seu respeito, queria te convidar para nossa assistência de comunicação.” Aí eu fui, aí é que quando eu tive tempo para me aposentar, eu fiquei muito satisfeito, porque o Alberico falou assim: “Ó, nós vamos te oferecer um jantar aqui no Rio em homenagem.” E, realmente, me levaram para o Copacabana Palace, e [tinha] aquela turma da mídia dele, que é turma da pesada, mas tudo referenciando minha pessoa, fazendo elogio. Falei assim: “Uai, que é que tá havendo com esse povo?” Só cobra [pessoas falsas], Márcia Pontes, um gringo lá, não sei quem que é, era um punhado de gente que entendia bem desse troço, né, e eu não tinha prática disso. Tinha feito os cursos lá, mas curso não te põe na realidade da fábrica, né, te dá orientação, mesmo porque, é um negócio baseado num decreto, onde um indivíduo que provasse que tivesse tantos anos disso, tantos trabalho disso. Agora, na Vale, como destaque de trabalho, eu consegui colocar como segundo no Brasil, dois certames - operário padrão. Coloquei o Milton, o primeiro, e alguns anos depois coloquei o Alvarenga.

 

P/2 - Milton o quê? Qual que é o nome dele?

 

R - Milton Santos, o outro era o Joaquim Alvarenga. É, fazendo a disputa em Itabira, depois a disputa em Minas Gerais. Até que saiu o resultado e veio para a Globo aqui no Rio. Aqui, eles tiraram o segundo lugar, né, mas porque o concurso aqui era meio, a gente chegou bem desconfiado que tinha alguma influência, porque o Alvarenga perdeu para um cara da fábrica de revólver Rossi, no Rio Grande do Sul, ué. Nós com a empresa de mineração, a maior do mundo, a maior receita em dólar do país, perder para um fabricante de revólver?! Mas é que o cara, na entrevista lá, começou a dar revólver para todo o mundo, sei lá, teve... Perder para a Petrobrás ou outro [faz mais sentido]. O Seu Milton perdeu para a Petrobrás. Também o Gouveia... Um cartucho [de arma], sei lá. E eu ia sozinho. Mas operário padrão, eu fiz, o natal do filho do empregado, eu fiz vários anos. Esse era trabalho de tirar o chapéu.

 

P/2 - Como é que era esse trabalho?

 

R - O natal do filho do empregado no mês de outubro, você pegava a estatística de crianças até 12 anos, pelo sexo, masculino, feminino, e pelas idades. Daí em cima daquela estatística, você já tinha experiência anterior. O que você vai dar?! Os últimos anos eu já conclui que a melhor coisa de dar era o seguinte: a criança de seis anos para cima nós dávamos material escolar, que é para ele evitar que o gastasse com aquilo, e o pai então compraria um presente. Para vocês terem uma ideia, a gente comprava esse material todo, tinha um, que nós chamávamos de diário, na época, que é um caderno de capa da Melhoramentos, que lá em Itabira era vendido por 11 mil réis, vamos dizer assim - moeda da época - e eu comprava na Salesiano lá em São Paulo por 5,50. T tinha 10% de desconto, porque estava pagando a vista e ainda não pagava embalagem, quer dizer, eu evitava que o pai da criança desse 11 reais para o cara da livraria e dava para ele. Mas dava esse diário, dois cadernos de 100 folhas, dois cadernos de 40, um cadernos de desenho, o plástico para embalar aquilo, dois lápis, uma borracha, um sabonete e uma escova de dente. Era o pacote. Mas aquilo dava um trabalho para valer, porque primeiro eu saía, - eu não era da área de compras, mas trazia um cara... Aí pedia [para] o Rio de Janeiro a verba, aí atualizava a verba, me davam um cheque, pagava em São Paulo, - geralmente comprava em São Paulo. Mas tinha dificuldade, que o cara falava assim: “Ô moço, essas coisa a gente compra em junho. Você está comprando em novembro e os nossos estoques estão todos virados, nós estamos fazendo um balanço.” Mas conseguia. E o resto, de seis anos para baixo, a gente dava utilidades; teve um ano que a gente deu pano, pano mesmo, dois metros de pano. E a criança de meses, a gente dava fralda, dava toalha, não tem ____ para menino, fazia aquele esquema. Vinha uma verba, a gente vinha para São Paulo, trazia um profissional do serviço de compra e a parte da movimentação de dinheiro eu deixava por conta dele, que não era minha função. Minha função era o que eu precisava comprar, e dentro da cotação. Aí nós fazíamos aquelas compras, coisa e tal. Então era muito comum você chegar e fazer uma compra e o cara falar assim: “Qual é o desconto que o senhor me dá?” “Ah, eu dou para o senhor 10%.” Eu falei: “Mas pagando à vista, quanto é que o senhor dá?” “Ah, eu dou para o senhor mais 2%.” Falei assim: “E pagando para o senhor antecipado, quanto é que o senhor me dá?” “Como [assim] antecipado?” “É que eu vou te pagar hoje e você vai despachar a mercadoria daqui a dez dias, vai lucrar com meu dinheiro. Mas o que eu vou ganhar com isso?” “Ah, o senhor tem mais 1%.” Esse era o jogo que a gente fazia. Então chegava, acertava a conta. Aí tenho até uma fotografia de um setor de embalagem desse, nosso, né, no terceiro andar do prédio. A gente colocava muitas pessoas que faziam parte da comissão, e tinham muitos entusiastas, tinha gente... Operário braçal, _____. Mas ele se entusiasmava com aquilo. Você precisava ver a delicadeza com que ele fazia um pacote. Você ficava assim: “Que coisa, né?” (impressionado) Depois, punha em cima do caminhão de Papai Noel e saía durante dois dias de porta em porta entregando. E a sobra, eu fazia sobrar dinheiro para fazer um programa de auditório. Fazia dois programas de auditório em dois bairros da companhia, dois setores, Campestre e Conceição, e fazia um sorteio, o pessoal entrava e você dava de graça o bilhete, né? E acontece, costumava-se dar bilhete e quando você sorteava o nome lá, a mãe ou a criança já tinha ido embora. Você não queria neutralizar aquilo, ficava, chegava a ficar rouco. Por fim, alguém falava assim: “Não adianta, nesse daí não tá aí mais.”

 

P/1 - E o que era esse programa?

 

R - Esse programa é de auditório. Alguém cantando, ________ do mesmo lugar, assim, sem ensaio, sem nada. Agora, para a atração do pessoal, se deixava uma bicicleta para o fim, uma boneca grande para o fim e o resto ia entregando quando era o prêmio menor, para segurar o povo e o povo não ir embora. Aí fazia uma grande festa. Porque a Vale do Rio Doce, a gente dizia que foi uma época muito boa, essa do João Paulo, porque coincidiu com a indicação do Juracy Magalhães para a Presidência da Vale. Juracy Magalhães, segundo falavam na época, era da UDN, contra o Getúlio, e o Getúlio convocou ele para presidente da Vale. O Juracy Magalhães, uma das coisas que ele fez de cara foi abrir o mercado, a Cortina de Ferro, que nós não tínhamos penetração na Polônia, nem nada. Tivemos, através dele, outra boa tirada dele é aquele fio de minério, nós só tínhamos estocado montanhas. Ele começou a vender e colocar o fio.

 

P/1 - Como é que ele conseguiu?

 

R - Ele foi para a Cortina de Ferro e até pelo jeito talvez tenha mudado. Então, com isso, ele estabeleceu a gratificação anual do pessoal: no mês de julho você recebia um salário, no mês de dezembro você recebia mais dois, então você tinha 12 do mês com o 13º; 13, com o de julho 14, com 15 salário no ano. Então, minha filha, nós andava uma grana. Tinha gente que acendia o cigarro assim com nota de 10 reais, assim. Foi a promessa. Acendia charuto, comemorando. O comércio de Itabira, acredito que 60, 70% gerava em torno da gratificação. Compra isso para pagar na gratificação, tudo era na base da gratificação, que o povo sabia que saía. Depois disso foi diminuindo, cortaram um mês...

 

P/1 - Aí depois, por quê? com quem?

 

R - Mais para frente que teve o (Salessa?), o Mascarenhas na presidência. Não sei quem é mais. Teve o Mascarenhas, [que] morreu acidentado, também teve o Oscar de Oliveira - antes teve o Oscar de Oliveira, na presidência, depois o Eliezer e depois o Schettino. O Schettino esteve aqui?

 

P/2 - Esteve.

 

R - Eu falando dele aqui. Schetino, eu conheci o Schetino... Foi uma época que precisava de eleger o General Lott, então eles mandaram os militares para Itabira para fazer a política do Lott, mas aqui o Coronel Schiller... Eles mandaram o Major Galvão, Major Godofredo e o Major Lopes, dos três, o Lopes saiu o Major que se fez Major por ter ido a guerra, por ter feito cursos - os outros eram acadêmicos. Então o Major Lopes era o nosso bebedor de pinga nos boteco, pescaria, aqueles “trem” todo. Tem uma passagem muito interessante dele, que é o seguinte: ele e a família moravam em Belo Horizonte, ele trouxe a família para Itabira, mas ele queria televisão em Itabira, a televisão não tinha, não tinha o repetidor em lugar nenhum. E nós ficávamos naquela antena, chegava no cemitério, subia numa igreja, numa cruz enorme para ver se pegava alguma coisa - nisso dava aquela chuva, né, - e tinha um rapaz da eletricidade de veículos, um magro, baiano, que mexia com rádio e começou a ver televisão, porque o rádio, que o vídeo... Ele falava uns termos que a gente ficava: “Do que diabos esse baiano está sacando?” E esse Major Lopes, para familiarizar bem com a companhia, ele estabeleceu dias tais [em que] ele dava adiantamento, né? Qualquer dia, o pessoal ali... Eu conheci o Schettino nessa sala junto com a peãozada, esperando o adiantamento para ser estagiário da Vale. O Schetino, nós vamos deixar de lado para eu contar a história do Major. E o Major recebia as licenças médica do hospital, e a licença médica dá a doença no original. Aí um dia ele conversando com seu Mário, falei assim: “Seu Mário, eu vou levar essa televisão para Belo Horizonte para dar uma reforma, que eu acho que é ela [que tá com problema].” Seu Mário falou assim: “Ah, você pode levar mesmo, que eu acho que ela está com uns problemas aí.” Aí o ________ foi do interior para Belo Horizonte, voltou depois, e eu, aí seu Mário falou assim: “Ué?” “Meu, o cara lá em Belo Horizonte deu um olhada na televisão e descobriu a peça que estava com defeito.” “Qual é a peça?” “A peça é assim, meu (comissal?).” O baiano falou assim: “Eu desconfiava dessa peça.” Falei: “Ô baiano, você vai sacar para as suas negas. Isso é epilepsia, cara.” (risos) Mas estava o Schetino lá nessa sala, então ficava peãozada que descia, e o Major só assinava os papagaio lá, né? Quando eu cheguei, bati os olhos nele, porque eu tinha conhecido o tio dele, o Homero Schettino, que tinha sido o engenheiro nosso, e o Francisquinho, apelido do Fonseca, que foi superintendente muitos anos em Itabira. [Fui] falar: “Vem para cá, sai daí vem para cá.” Daí ele foi ser engenheiro da mina, depois assumiu a assistência de mineração, que é o ponto alto de Itabira, a assistência de mineração, depois puseram ele como superintendente auxiliar, até aí e depois foi superintendente dentro do departamento. Foi o último superintendente que eu atendi na Vale, foi o último. Aí depois, ele foi para o Rio como direção de operação. [De] direção de operação foi à presidência [e] depois aposentou. Chamaram ele outra vez, agora que, e eu soube que depois chamaram ele outra vez ainda, terceira ele já não aceitou.

 

P/2 - Seu Fernando, o senhor fez algum tipo de curso ou de treinamento ao longo da sua carreira ?

 

R - Todos que você pensar que a Vale concedeu eu fiz. Primeiro: TWI é aquele manjado, né?

 

P/2 - O quê?

 

R - Você não conhece TWI?

 

P/2 - Não.

 

R - Tem três cartãozinhos assim, é fazer isso, fazer aquilo, conforme fazer. A Vale descobriu que a verba, o incentivo ao treinamento deduzia do imposto de renda, então nós começamos a fazer curso toda a vida. Inclusive, pedimos ao Eliezer, na Europa, que mandasse um estudo, e o Eliezer mandou um estudo das universidades do mundo. Então aquilo que diz respeito a Vale do Rio Doce, que era mineração e mecânica, e dizia, eletricidade, ele fazia uma análise na frente: “Oxford, não sei o que. Cambridge, não sei o que.” Agora, aquilo que era de administração, ele punha, assim, na análise dele: “Blablabla”. (risos) E nisso, o nosso setor de treinamento também desenvolveu. Eu visitei a (Manoel Gercento?), fiz curso no (Manoel Gercento?) em Porto Alegre. Fiz viagem a Icomi [Indústria e Comércio de Minérios S.A.], no Amapá. Tudo dentro das verba de treinamento. Manaus, (essas coisas?). Eu conheci do Oiapoque ao Chuí no Brasil por causa da Vale, né?

 

P/2 - Fazendo cursos ou?

 

R - Viagem, de preferência, fazendo curso. No Rio, fizemos alguns, mas a maior parte em São Paulo. No (Endorte?) e o _________, fazia várias. Depois, eles resolveram levar lá para Itabira, os caras. Então lá, é muito curioso, que teve curso até de coquetel (risos) e a turma ficava naquela boca de espera, né, porque o coquetel é na parte da tarde. Aqueles caras faziam, tem um coquetel que eles estavam fazendo, que a gente vai virando um leitoso, assim, e vai fazendo cores no copo, assim, não deixa misturar. Fica um negócio bacana para danar. Eu sabia fazer aquilo, sabia passar as coisas no açúcar cristal para colar aquele calho de ovo. É, sabia. Mas, a turma ficava na boca  da espera. Terminava o curso e pega na hora, né, a boca livre. Então eu fiz esse. Depois, o José Roberto, receptor aqui do Rio... Eu fiz vários, vários. Esse curso durava semanas, 15 dias no hotel em Belo Horizonte. O José Roberto tinha uma qualidade excepcional comigo. Ele colocou a turma... Primeiro dia de aula, ele colocou a turma, assim, ia ao quadro negro lá e ele chegou - cada um com sua placa de identificação - bateu os olhos, assim, [e] disse: “Bom dia.” Primeiro dia de aula: “Bom dia.” Quadro negro aqui atrás [e] nós olhando, assim, o que ele disse. [Ele] falou assim: “O meu nome é José Roberto e por ele gosto de ser chamado.” Escreveu José Roberto sem olhar. Eu disse: “Esse caboclo é bruto. (risos) Esse cara vai nos dar um “show” aqui.” Você acredita que era no Hotel Excelsior, ali perto da rodoviária, em Belo Horizonte, num terraço, pois de noite ele arrumava uma forma de a gente não sair para ficar doutrinando a gente, conversando sobre coisas e tal, aquela história. E eu tinha uma coleção de opiniões daquela Revista Exame, de exemplos, que eu passei para ele [e] ficou muito satisfeito, escrevia para mim agradecendo. Mandou [até] uma vez, um livro que publicou; depois eu nunca mais tive contato com ele. Mas, esse curso foi muito interessante, só que eu nunca mais tive contato com ele. Mas, esse curso foi muito interessante. Depois, em Itabira, nós fizemos toda aquela dinâmica de grupo, eu embarquei naquela sem saber de nada, né, sentamos. Daqui a pouco, falei assim: “Escuta, ninguém vai falar nada?” (risos) Aí começou a dinâmica, nós estávamos esperando e ninguém falava nada. (risos) E eu não estou sabendo de nada, entrei de gaiato. Então eu fiz esses cursos todos.

 

P/2 - Mas foram importantes esses para o seu desenvolvimento dentro da empresa?

 

R - Muito importante. Por exemplo, cursos... Paralelo ao curso, eu visitava as feiras, as feiras de utensílios de escritório. A USE, de São Paulo, eu visitei mais de oito [vezes], e ela realiza de dois em dois anos [a feira]. Depois que nacionalizou, que não tinha mais importado, eu não fui mais, porque era coisa muito comum. Mas eu via na feira coisas incríveis que eu levava para Itabira. Então eu coletava aquilo tudo, tinha isso, tinha aquilo, pegava uns prospectos. Chegava em Itabira, fazia um resumo daquilo, juntava os prospectos e mandava correr no escritório para as áreas. Então, quando chegava alguém, algum vendedor, algum viajante querendo te empurrar alguma coisa... Eu lembro que a (Cato?) lançou o quadro negro branco, né? De um lado ele é verde, de outro ele é branco. O cara queria me vender aquilo. Outro ia me vender um bebedouro [e] eu falei assim: “Isso é bobagem. Eu conheço o bebedouro. Dum lado é água filtrada, é água natural, gelada já, sem filtro.” Eles quiseram tentar: “Mas como é que o senhor sabe?” “Eu sei por causa disso aqui.” E eu na Vale, meu projeto foi, os dois projetos que eu tive na Vale foi de uma gráfica, montar uma gráfica, e a microfilmagem, que eu tinha um arquivo morto e tinha um arquivo geral, né? Então aquilo foi os dois projetos que eu fiz, fiz viagem para isso e tal, proposta e tudo. Infelizmente, naquela época, nós não andávamos bem de grana, mas eles ficaram lá.

 

P/1 - Que época foi essa que não estava bom?

 

R - Depois da Guerra da Coreia. Em 50 e pouco, sei lá.

 

P/1 - Quais foram as consequências?

 

R - Não, é que teve um mercado, né? A Vale chegou a transportar o minério para Inglaterra e depositar o minério lá para vender depois, para não parar, porque nós não podíamos parar, o esquema lá não pode parar. São três engrenagens: mina, porto e navio; mina, estrada de ferro e porto. São três engrenagens. Quando pararam... Itabira foi assim: “Falta vagão.” O vagão não descarregou, porque não chegou navio para carregar, então prejudicaram a carga. Depois a Vale chegou nesse ponto. Agora, o que desenvolveu na Vale do Rio Doce, o que deu o “bum”, foi o porto de Tubarão, né, que aí nós tiramos o chapéu para o Eliezer, que é o homem que enxergou: “Ó, se nós não progredirmos dessa forma, vamos ficar para trás.” É uma obra... Vocês conhecem ou não? Vocês conhecem algum quebra-mar? Vocês já viu o oceano, como é que se diz, aterrar o mar?

 

P/2 - Eu não.

 

R - O porto de Tubarão é isso. Eles pegaram uma pedreira, começaram a quebrar pedra dele e trazer o caminhão acima. Fizeram um troço [quebra-mar] de quase 200 quilômetros. Assim que foi feito para quebrar o mar, para o navio ficar calmo [e] não balançar.

 

P/1 - E depois aparece uma...

 

R - Aí a senhora entende que se em cima está dessa largura, lá embaixo é igual a “iceberg”, né? Desce lá, não interessa qual é a profundidade, vai aterrando o mar. Lá em Vitória, tem em Marataízes, um troço assim, para evitar que a água do rio desça para aqueles balneários deles lá; o Rio Guarapari entra aqui, assim... Guarapari não, a cachoeira de Itapemirim. E aí eles fizeram um troço aqui, assim, dentro da água, que é para a água ir misturando devagar. Porque quando chove, ele vem muito sujo e se o ar corre, é para lá, ó. Então, Guarapari recebe barro, (anchieta?), (emburipiuna?), que esse troço todo ia ser condenado, então eles fizeram isso. E isso, eles fizeram lá no Tubarão, que é para, chamam de píer, o píer é o único do (nosso navio?), mas tem aquele que quebra-mar.

 

P/1 - Mas aí foi longe para que profundidade?

 

R - Ah, já não sei, aquilo é dado técnico, estrada... Só sei que assorearam o mar, essa que é a verdade.

 

P/2 - Que bacana! Seu Fernando, o senhor acompanhou muito [esses] vários superintendentes em Itabira, quer dizer, [teve] uma relação muito próxima com eles, né? O que é que o senhor acompanhou, assim, da política da empresa? Alguma coisa em especial te chamou a atenção ou que o senhor tenha lembranças, de decisões que foram tomadas?

 

R - Da política da empresa com relação a Itabira? O superintendente de Itabira com relação a Itabira que você está falando?

 

P/2 - Pode ser também.

 

R - Bem, eu já tinha dito que Itabira sempre esperou da Vale o que o filho, vamos dizer assim, que não é muito esforçado espera do pai, que o pai colabore com tudo, né? E também reclamavam da siderurgia: “Ai que, quem quer a siderurgia?” Então a Vale disse que ficava, que siderurgia é o seguinte: que o minério para entrar no alto forno, ele não pode ter fino, e uma siderurgia em Itabira... Ia desse pellet [feed], que nós tivemos em Vitória. Ele pronto, na usina, que saísse da usina [e] caísse no vagão, dava 1% de fino. Quando chegasse em Vitória, que descarregasse no pátio, mais 8%. Quando jogasse ele no navio para exportar mais 1%. Quando descarregasse na usina lá, mais 1%. Chegava a uns 6% na boca do forno lá. Então, por isso que as usinas francesas não são no cais, que é para evitar esses tombos para cá. E, então, eu nunca entendi bem porque não saiu, porque saiu; uma das razões que eu sei é essa. Segundo, porque há o chamado, nesse campo aí, há o chamado, a chamada vontade política, né, que eu lembro que a Aços Especiais, a própria Usiminas, na hora da colocação, discutíamos, queria levar a bola para Barbacena. É conforme o peso político, né, não  interessa. Aços Especiais tem em Lafaiete. A coisa, a Usiminas, é uma grande empresa, não resta dúvida, mas para receber o minério, depende de quem?! Da Vale do Rio Doce, que tem a jazida. Da estrada da Vale, para levar o minério para eles. Para vender o produto, eles dependem de quem?! Da Vale do Rio Doce, para levar para o cais, para trazer do cais o que chega de importado para eles. Quer dizer, eles estão sempre na dependência da Vale do Rio Doce. Aliás, quando ela formou, parece que a Vale tinha entrado com 9% de capital, tinha uma ação do governo. “Põe um dinheiro aí”, e pôs. Mas é uma coisa assim. Agora, é claro que a estrada de rodagem ajudou em descarregar, mas era um movimento de caminhão [que era] uma loucura. Um caminhão carrega dez toneladas, um vagão carrega 40, 50. Para Vitória mesmo, foi duas (máquinas?) com 160 vagões. Você já viu, né, não há comparação. Então tem essa reclamação de Itabira, que a Vale parece que, uns chamam de madrasta, outros... Mas houve, por outro lado, pessoas que enriqueceram com a desapropriação do fio do minério, porque o fio começou a descer - a cidade é alta - e a Vale foi indenizando aquelas margens de rio. Mas acontece que [se] o fio passa assim, indeniza aqui. No ano seguinte, ele já solapou o rio para cá, aí indeniza. Então alguém tem um objetivo. E outra coisa também: conforme a necessidade, a Vale, não é bem jurisprudência, mas é, o valor usado anteriormente passaria ser o valor referência. Por exemplo, nós pagávamos o fio de minério, pedras, na parte debaixo da cidade, a 20 mil réis, sei lá, qual era o dinheiro que era, o metro quadrado. Só desapropriação. O cara continuava com a terra, só o estrago. Aí, esse tal de Dr. Fonseca, ele viu que os engenheiros das assistentes estavam ganhando pouco. Precisava fazer uma média com ele, um agrado, então ofereceu casa para os cara. Casa, melhorar as casas. Dr. Laércio teve a casa aumentada, o Fritz teve a casa aumentada. O (Renó?) Pereira, que já morava numa casa, ele, a mulher e uma filha, pediu para aumentar a casa de lado, mas aumentando a casa de lado entrou no terreno dum senhor que chama Sebastião Magalhães. O Sebastião Magalhães só vendeu a 100 pratas o metro [e] a partir desse dia todo o fino era 100 pratas o metro. As reclamações sobre o fino do minério eram tantas, que o padre da igreja da Saúde, lá, que o Padre Joaquim, um dia, falou que: “O fino aqui em Itabira é o grosso. Até no sacrário da Igreja tem fino.” (risos)

 

P/2 - Seu Fernando, e a política municipal, política na cidade de Itabira... A Vale tinha alguma relação com os políticos, ela se envolvia?

 

R - Nunca se envolveu. Aliás, não é só em Itabira, não. Pelo meu modo de ver, a Vale veio admitir a _________ funcionar no esquema político foi muito mais recentemente, porque a Vale nunca teve político em direção nenhuma. Recentemente que eu falo, é coisa de 10 anos para cá. É que no conselho regional da Vale, conselho de administração, teve o Eliseu Resende, teve o Emílio Gallo - são caras que são políticos. Teve aquele que foi presidente da Cenibra [Celulose Nipo-Brasileira S.A.], agora.

 

P/2 - Não lembro, não.

 

R - É da família famosa em Belo Horizonte. O bigodudo. Ah, esqueci o nome. Mas foi agora recentemente. E na Cenibra, tem um vizinho meu de apartamento que é um coronel do exército. Mas a Vale, nunca teve político. Aliás, lá em Itabira, nós recebíamos dum deputado, Percival (Barbirra?), não sei, do PT, na época, sei lá. Ele... Eu na secretaria, não usava; lia as cartas que ele do correio mandava, né, parecia urgente. “Esse deputado escreve mais que nós. Essa carta dele aqui é [de] número 680, nós escrevemos no ano passado 480.” Sempre pedindo emprego. Então, eu já tinha um modelo de emprego, de responder. Nós reuníamos todas dizendo que a empresa seguia as normas do governo através de concurso, que os editais eram publicados em jornais tais, (se eu posso e tal?), que o candidato seria muito bem recebido para inscrição e tal e seguisse os trâmites legais. O único cara que pesou assim, quer dizer, que a gente viu que ele trouxe gente, foi exatamente o Juracy que era um político. Ele trouxe uns três baianos, mas era gente muito simples, que do jeito que entrou, saiu também - não deram problema. Não deram cargo com peso nenhum, não tinha jeito de cargo de peso. Era gente simples, “zé povão”. 

 

P/2 - Vamos dar uma pausinha, já temos uma hora.

 

[Troca de fita]

 

P/2 - Seu Fernando, queria que o senhor nos falasse como é que era o seu trabalho na área de comunicação social?

 

R - O lema, vamos dizer assim, a bandeira, a tônica da gerência, do setor, que era a regional de Itabira, a outra regional era em Belo Horizonte, aliás, subordinada a Vitória. Então Itabira e Vitória, duas regionais com comunicação social. Então, a tônica era o seguinte: manter a imagem da empresa, defender o seu público para o público interno, que era o funcionário da casa, e para o externo. Então dentro disso e em cima disso, a gente procurava desenvolver da melhor forma possível. Por exemplo, o Alberico podia me passar um telex dizendo que a visita ia chegar, visitas tais, aí dava a programação da visita na companhia toda. Então, a primeira coisa... Nós tínhamos as casas de hóspedes, hospedagem, [com] garçom, mordomo, governanta, aquele _______, fazenda, cascata de água, né, um negócio sensacional. Então, equipar as casas de hospedagem. Bandeira, nós tínhamos de todos os países que nos visitavam. Colocava a bandeira em três pontos: no escritório central, numa casa de hospedagem e na mina. Principalmente, o japonês gosta muito de olhar e ver a bandeira dele; aquilo é uma referência que se faz, então tinha disso. Escolhia alguém da área para fazer uma palestra na chegada. Através dum vídeo cassete na época, aquele projetor, nós tínhamos um filme gravado pelo Chapelin sobre o departamento. No futuro, eu fiz um próprio para nós, dentro do que eu queria transmitir, porque o Chapelin fazia de um modo geral. E fiz mais ainda: eu dei uma história da Vale desde a admissão de um empregado e limitei a levar o filme, o audiovisual, até o embarque do minério. O outro era geral, não tinha nada com a estrada [história], para nós morria ali, né, fiz uma coisa. Então fazia ali... Se o cara falava francês, tinha que ter alguém que falasse francês [no video]; inglês, nós tínhamos várias pessoas, alemão, tinha um. E aí, fazia aquele troço. Depois, se o cara ia pernoitar, era meia hora, né, eu mais um funcionário meu, alguma coisa, liga para a fazenda, para a casa de hóspedes, ficava batendo um papo ali, fazendo a sala. Então vou contar uma passagem curiosa de visita. A Vale firmou um contrato uma vez de 60 milhões de toneladas com o Japão, e esse contrato foi distribuído em vários contratos, que nós não produzíamos 62 milhões naquela época. E o japonês, muito sábio, ele ajuntou as empresas que compraram 60 milhões e fizeram um “tour” nas empresas e nomearam uma missão, um representante de cada empresa e um chefe da missão. Acontece que, a casa de hóspedes nossa cabia 14 pessoas, e a missão eram mais de 14. Então nós precisamos de um hotel, um dia e tal no hotel, um dia está no escritório, nos projetos e coisa, outro dia estava na mina. O japonês é muito detalhista, coisa de falar assim: “Vocês vão trabalhar esse minério daqui a dois anos, vai sair de quando?” “Vai sair da cota tal.” “O senhor tem...” Aí mostrava um desenho aqui. “O senhor tem a amostra de lá?” O testemunho da sondagem. “Tem.” “O senhor tem análise disso?” Tinha que mostrar para ele. É o aval, né? Então, quando chegou no sábado - estava chovendo - o (Sanshiro?), que era o intérprete, me chamou [e] falou assim: “Ô Fernando, o chefe da missão gostaria de visitar a casa de hóspede.” “Perfeitamente, _______________ daqui a pouco, tudo bem.” Montei a casa de hóspedes rapidamente lá, eu mais um funcionário meu fomos fazer a sala para ele, que aquele dia ele, não estava funcionando a sala. Apareceu na casa de hóspede e tal, ofereci esse cafezinho, uísque e tal: “O chefe da missão gostaria de tomar um banho.” “Perfeitamente.” Daí passou, depois que eles chegaram ao Japão, mandaram uma carta ao Ministro de Minas e Energia, fazendo o maior agradecimento ao Brasil e destacando a Vale do Rio Doce e o departamento das minas. O Schettino me chama lá e fala assim: “Escuta, o que você deduz disso aqui?” “Eu deduzo seguinte, Schetino, primeiro que você levou a missão para dentro da sua casa e japonês não leva você para a casa dele de jeito nenhum. Ele vai com você o tempo todo. Depois ele te deixa no hotel e “até logo e benção”. Então na porta, mas entrar na casa dele você não entra fácil não. “E segundo, é que eles estão acostumado com banho de imersão, e o hotel é aquecedor a gás, e a fazenda, aquela, é banheira.” O chefe da missão: “Só pode ser isso.”

 

P/2 - Ficou impressionado.

 

R - Só pode ser isso. Agora, fiz muito agrado para eles. Um me pediu coleção de moedas. Lá em Itabira, por sinal, tinha um cara que tinha, então nós pegamos bicarbonato e lavamos aquelas moedas todas, aqueles produtos e tal. O outro pediu coleção de selo, eu tinha também, demais, e forneci. E um pediu uma rosa verde, eu mandei um (portador?) em Barbacena, mas não consegui. A rosa verde, eu não consegui. Consegui rosa de toda a cor, mas verde não deu para atender. Aí eles me deram um coraçãozinho e falaram que era teste da verdade, uma espécie de teste da verdade, que aquilo era usado com os namorados do Japão. Você punha na mão da moça e falava assim: “Você me ama?” Ela tinha que responder apertando a caixa. Se ela mentisse, a luz não acendia. Mas depois a bateria acabou e eu não tinha bateria. (risos) Deixaram isso comigo, lá. Então, uma das funções eram essa [e] depois, a [parte da] imprensa.

 

P/2 - A imprensa na cidade.

 

R - Local e coisa.

 

P/2 - E nacional?

 

R - Nacional, a gente se submetia ao Rio de Janeiro. Notícias recorde, coisa e tal. Nós só “saia a légua”.

 

P/1 - Local e estadual?

 

R - Sou muito assustado com Itabira, que Itabira sempre aparece na hora da desgraça, né? Itabira bate recorde, é a cidade que mais divisa produziu para o Brasil, e não aparece nada. Aí, um sujeito lá veio preso de outra cidade para passar a noite na cadeia lá, esfaqueou um guarda e virou manchete desse tamanho (indica grande): “Lá em Itabira...” O bom eles não enxergam, enxergam Itabira... Então a gente tinha muito cuidado com notícia extra da cidade. Agora, a cidade tinha os jornais todos, o Alberico autorizou, e nós tínhamos, nós pagávamos meia folha de jornal para eles sobreviverem. Nós pagávamos meia folha de cada jornal da cidade. Aí gerou um punhado de jornaleco lá, mas a gente pagava, assim, e saía... E até hoje ainda sai nos de Itabira, nos jornais de Itabira, ainda sai propaganda da Vale, sai estampa e coisa. E com a imprensa. Com o público, para você ter uma ideia, eu é que fornecia passe livre na Vitória-Minas quando o cara estava em férias. Passe com abatimento quando você quisesse no ano, passe para ele levar a empregada dele para a praia, - Vitória-Minas, de Itabira para Vitória - requisição de férias para ele por o carro em cima de uma (pedância?) e levar para a praia e providenciava gente em Vitória para descarregar o carro dele. Se o cara ia construir, a gente dava requisição de frete e vagão para comprar em Tumeritinga, tijolo, telha, esses trem, [e] saía tudo a preço de banana para ele. Isso era uma função que eu tinha. Passagem aérea, toda que assinava, era eu. Nós tínhamos que pagar uma passagem aérea, toda que assinava era eu. Então, com isso, a nossa sessão era procurada, né? É o que eu falei com a senhora, era do povão, porque além de eu saber as coisas da administração, eu sabia as coisas do povão, onde eu estava. Então eu ligava uma coisa com a outra.

 

P/1 - Mas isso tudo que o senhor disse aí são benefícios aos funcionários?

 

R - Benefícios aos funcionários.

 

P/2 - Como é que o empregado via a Vale do Rio Doce, como era a relação dos empregados com a empresa?

 

R - Todo o mundo doido para entrar, uai.

 

P/2 - Mas os que estavam lá.

 

R - Uma ou outra presença eu via uma manifestação qualquer, é, o sindicato... Ô gente, nós não tivemos greve, nunca tivemos greve. Tivemos uma ameaça um dia lá. Ocorreu que tem um fato muito interessante, que eu como chefe do grupo escoteiro, eu tinha um chefe de grupo que era um sujeito espetacular, conhecia o escotismo a fundo, e pintou lá, - eu morava no acampamento. E pintou lá um rapazinho que dizia que era filho dum chefe de grupo escoteiro que estava vindo de Porto Alegre para o Jamboree [Acampamento mundial de escoteiros], que ia ter em Belo Horizonte e tal, mas que era grosseiro, então, começou a dar instruções lá e coisa, e o Expedito começou a viajar com ele, mas começou a notar alguma coisa diferente nele. Aí ele veio falar comigo, falou: “Seu Fernando, eu já telefonei para a União Brasileira dos Escoteiros [e] lá não consta o nome desse cara e do pai dele.” “Não consta não?” Nós estávamos, não sei se nós estávamos em guerra, não sei bem de que, período do regime militar, aquele negócio militar. “Não consta?” “Não, consta não.” “Então espera aí.” Telefonei para Belo Horizonte e pedi: “Ô Ari, você vai aí nesse DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e diz que tem esse caso aqui, tem um cara que é assim, assim, assim.” Daí uma meia hora, mais ou menos, ele telefonou e falou assim: “Oh, você aguenta a mão que está uma equipe aqui de militares para conferir esse cara. Eles vão direto para a sua casa.” Aí eu cheguei em casa - saia do escritório às 4 da tarde - [e] falei com a mulher: “Some com esses meninos aí, porque vão chegar os militares aqui.” (risos) Daqui a pouco, chegou dois jipão, tenente, aquele povo: “Que é que há?” “É isso, isso, isso. O cara chegou aqui, tá assim, assim...” O cara machucou a mão e o Expedito quis levar ele no posto de saúde, [mas] ele não quis, disse que perdeu os documentos. O Expedito quis levar ele na delegacia, ele não quis. E tem muita gente infiltrando, né? E eles falaram assim: “É isso aí, então vamos lá no acampamento.” E eu fui com o meu carro e levei um maioral deles no meu carro e puz o carro deles na frente. E e o acampamento lá é assim: rua assim. (indica 3 ruas paralelas entre si) Eu entrei por baixo, que já era noite, e falei assim: “Eu quero proteção sua, que é muita criança ali.” Gente pobre, mas tem menino para danar, né? Serviu o exército, ______ sete filhos. Então, quando nós entramos, assim, que eu parei, [e] eles mandaram eu parar em cima assim. O cara lá passou para o outro carro, que a casa do Expedito foi lá na ponta da rua, então [tinha] aquele monte de menino na porta. Eles foram com o jipe e disseram assim: “Quando eu piscar a luz de freio, o senhor pode ir.” E eu fiquei de carro, _________ no momento, mas longe. Agora, quando a luz de freio piscou, estavam indo embora, e eu fui, cheguei, aliás, para ele [Expedito], [que] falou assim: “Eles levaram o rapaz.” Nunca mais ouvi falar o nome daquele cara. Soube depois que estava [se] infiltrando nesses grupos escoteiro, de escola. Era comunismo, eu acho, um negócio assim, e os militares estavam rebatendo isso. Então teve essa passagem também. Mas voltando a assessoria de comunicação, tinha os aniversários da Vale, uai, o primeiro aniversário, o primeiro, como é que chama isso? Maratona? Não, isso é...

 

P/2 - Gincana.

 

R - Gincana não. É, comemora, nós comemoramos, agrupa a Vale de todos os setores em um determinado lugar.

 

P/2 - Confraternização.

 

R - É uma espécie assim.

 

P/1 - Olimpíada.

 

R - É olimpíada... Olimpivale! Vale... Olimpivale que chama. Daí, a primeira que teve, foi eu que realizei em Itabira, a primeira; depois realizaram em Vitória. Essa de Itabira, eu tive que vir aqui no Rio para ensinar o pessoal a jogar truco, porque truco era o forte nosso - os nego comia na marmita depressa para jogar truco - e o truco tinha que entrar na olimpíada. Nós precisávamos de medalha. Então eu tive que vir aqui, escrevia para os cara com medo de jogar truco: Ó, você faz assim _________, detalhei. (risos) E não deu para ninguém, claro que deu para nós, né? O futebol, nós perdíamos, porque pegavam os caras que não era da Vale aqui, levava e dizia que era da Vale. Era nego craque de bola, só vestia o uniforme, né? (risos) Depois fizeram em Itabira, depois, muitos anos depois. Essa olimpíada tem até uma passagem interessante, que nessa olimpíada, assim, na primeira, teve uma visita do Governador Aureliano Chaves. E o Fernando Roquete, muito democraticamente, disse: “Não...” Falei: “Doutor, tem um almoço.” “Vai ser onde, no restaurante da companhia?” “Eu ando como peão, com governador, com presidente. Não manda me dar o cardápio, não.” “Então o senhor é que manda.” E eu sou, como muito pouco, sempre pouquinho, pouquinho. O Aureliano foi na frente, né, tem aquele bandeijão, tal (risos) e eu fui lá, acho que deve ter sido véspera, quando nós damos festa igual ________. Só não pode parar. “Esse negócio não dá para mim não, põe só um tiquinho aqui” e saí. Você acredita que o Aureliano repetiu? Eu nunca vi ninguém repetir bandeijão.

 

P/1 - Mas ele era gordo mesmo, né?

 

R - Aí depois nós tivemos entrevista com  ele no hotel, lá na suíte do hotel. Tinha um vazinho de fruta assim e tal, e ele se acabou. Mas ele é forte, né?

 

P/2 - Ele é.

 

R - Então tem essa passagem. Então, a imprensa a gente também controlava, [na] parte esportiva ajudava de vez em quando. “Valério”, Valeriodoce [Futebol Clube], né? O Valeriodoce, é preciso que a gente se entenda: Valeriodoce é Vale do Rio Doce ligado, e é o endereço telegráfico da companhia. No nosso tempo, do princípio, a comunicação era feita através de radiograma, então o radiograma, assim: “Valeriodoce para”, aí dava o nome da pessoa. Depois, voltando ainda [para] essa realização nossa, eu fiz parte do, com o Doutor João Linhares de Vitória, a Vale resolveu codificar siglas e arquivos, mas ela toda [com] a mesma coisa. Você recebia uma correspondência que dava 780 de não sei, barra tal e tal. Por “submineração”, você já sabia o assunto que era e respondia em cima daquilo, e a seca também. Isso trouxe um certo problema para nós, que nós estávamos acostumados pela ordem alfabética, né? Por exemplo, “superintendência do departamento das minas”, mas está limitada a três letras só, então ficava SDM. Não dava a codificação. Ficou chamando: Sumin. E o Sumin, na superintendência, então, ficava sendo Su, né, Sudef, Sunap, Su, cada Su que não soava bem aqui ó. (risos) O almoxarifado pra nós sempre foi ALX, aí [virou] um outro nome, (Dequeque?), não sei o que. Não tinha ligação, não dá mais... Para esse trabalho, nós fizemos umas duas reuniões em Vitória, e eu levei uma funcionária minha. A Margarida foi uma vez. “Você vai ter a santa paciência, enquadra nisso aí”. Porque o meu arquivo tinha 122 pastas e eu sabia de cor, sabia os anos dele, então era muito comum o advogado chegar e falar: “Ô Fernando, nós estamos com um problema lá na hidrelétrica. Tem lá um cara reclamando desapropriação.” Eu chamava o funcionário e falava: “Fulano, vai no arquivo geral, pega o ano tal, a pasta 86A. Mas pega de um ano para cá, de um ano para lá, porque não tô muito certo com o ano.” Trazia e fazia assim: “Olha, está aqui. Isso aqui.” Eu ainda brincava com ele: “Ô Francisco, isso aqui no cartório chama busca. Custa dinheiro, viu?” (risos) Mas era assim. Então, mudou. Eu não ia saber nada de cor, né, então eu transferi para ela. Inclusive, também estava aproximando a minha saída já da companhia, porque a Vale, essa, que tava com esse negócio aí, os primeiros passos da Vale eram o seguinte: você adquiriu o direito a aposentar, [então] tinha uma complementação, mas cada mês que passasse que você não [se] aposentasse, ia perdendo - não sei se agora é assim. Ia perdendo. O certo é [que] com dois anos você perdia o 100%, se aposentava só com o INPS. Mas começaram as exceções, né, uma das exceções era o (Beleza?) lá em Vitória; era o superintendente eterno, né?

 

P/1 - Não perdia.

 

R - Eles começaram a fazer propostas: “Não, você fica aí e nós não descontamos.” Falei: “Mas para eu ficar aqui... Eu ganho [de salário] o que eu vou ganhar [de aposentadoria]. Eu ganho sem ficar.”

 

P/1 - Exatamente.

 

R - Para que eu vou ficar, se eu ganho sem ficar? Eu quero saber algo a mais, [e] a mais não tinha. Então tinha... Depois mudou um pouco, foi mudando [e] mudando. Teve agora a coisa de não sei quantos anos atrás, a dispensa motivada, recurso que a companhia nunca teve. Teve as DDS famosas, né? Muita gente teve tudo. Chegava perto dum cara: “Quantos anos você tem de companhia?” “Eu tenho 20 anos.” “Então, vou te dar 20 meses de salário para você aposentar.” Ora, isso eu não tive. Tive uma aposentadoria assim: “Ó, você completou seu tempo [e] a partir de amanhã você se apresenta na Vale.” A única coisa que eles fizeram comigo foi incorporar o 13º aos 12 meses do ano e acharam um média maior do que o meu salário. Parece que eu ganhava 23 mil [e] aposentei com 28 mil, mil da época, né?

 

P/1 - Mas vocês se aposentam com o integral, o salário integral?

 

R - Nada disso.

 

P/1 - Não?

 

R - O salário era a média que o ano que você...

 

P/1 - Ah, fazia a média.

 

R - Média. Punha o 13º como, somando 12, então dava um pouquinho mais.

 

P/1 - Mais do que o salário?

 

R- É. Agora, o salário que você ganhava, aquela média... Então tinha naquela média de que ia me pagar, a parte do INSS.

 

P/1 - Então ______...

 

R - A Vale estava praticamente com muito pouco, porque a metade, quem pagava...

 

P/1 - Mas você como funcionário, recebia integral?

 

R - É. Recebia integral.

 

P/1 - Não tem aquele negócio de que aposenta para receber lá embaixo?

 

R - Não, não. Agora, se a Vale desaparecer, eu vou para lá embaixo.

 

P/1 - É difícil, né?

 

R - Não é difícil, porque agora com essa lei da aposentadoria que está aí, a opinião minha é que a Vale vai se ficando uma potência, porque, antigamente, se aposentava: “Ah, vamos aposentar com 30... Pé na cova.” Hoje, nada disso, né, você tem que ter 35 anos de trabalho e 65 de idade. Pode ter 35, mas 60 de idade. Tem que pegar 5 anos. Você pode ter 65, mas só tem 30 de contribuição. Então apertou agora, não vai ser fácil se aposentar e a contribuição não para, quer dizer, o caixa...

 

P/1 - Deveria, né?

 

R - Só vai crescendo. Ela sofreu muito com essas dispensas motivadas. Porque o nego nunca tinha contribuído para a Vale, né, e no dia seguinte passou a mamar da Vale, a receber essa suplementação.

 

P/1 - Mas não contribuía para _____?

 

R - Porque não fazia parte, não pagava. Não era filiado.

 

P/2 - Não, é a Valia [Fundação Vale do Rio Doce Seguridade Social].

 

R - A Valia.

 

P/2 - É uma...

 

R - A Valia. É um plano de seguridade.

 

P/2 - Plano de seguridade.

 

R - É isso que está financiando esse projeto aí.

 

P/2 - Não, é a Fundação Vale do Rio Doce.

 

R - Mas a Fundação Vale do Rio Doce não faz casa?

 

P/2 - Hoje em dia, não mais. Ela tem uma outra atuação, mais social.

 

R - A Valia é uma fundação também.

 

P/2 - É, mas é de seguridade, né?

 

R - É de seguridade.

 

P/2 - Ô seu Fernando, eu queria que o senhor nos contasse um caso nos primeiros tempos do senhor na companhia, que foi um cheque de pagamento...

 

R - Isso foi o seguinte: o secretário na época chamava William, um rapaz jovem, filho de mecânico, e o Mr. Lawrence era o diretor - ele morava num hotel da cidade [e] o assistente dele [se] chamava Mr. Thomas. E eu era o cara do correio, buscava correspondência. O pagamento nosso começou a atrasar lá, o cheque não chegava. Aí eu, uma tarde, passei no correio, depois que saí do expediente, e tá com o envelope: “Companhia...” E eu, com uma sigla em cima: “CG”. CG era contador geral, então eu sabia que era o cheque. Passei o nome por cima, dei o recibo, passei no hotel e entreguei para o William que estava com uma erisipela na perna. Esse William pegou e foi embora para São Paulo, depois não sei para quem ele passou, sem documento. E nós estávamos assim: “Cadê o cheque?” (tosse) Aí faz contato com o Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro, falou assim: “Seguiu em carta tal, registrado em número tal”. Quem que recebeu? Quem recebeu foi o Fernando. Com isso, chamaram eu lá no hotel, o Mr. Lawrence estava tomando um chá das 5, né? “Como é que você está?” Contou uma história. Falou assim, alguém falou lá, ele virou para mim - ele falava espanhol: “Fernando, dónde está lo cheque?” (risos) Eu olhei para ele, assim: “Ué, Mr. Lawrence, eu posso receber esse cheque?” “Ele está em seu nome.” Aí foram verificar que tinham fechado o envelope e não puseram o cheque não, o cheque tinha ficado, inclusive, no Rio. Mas ele ele escutou e sem querer... “O cheque veio no seu nome, né?” “Quem pode endossar ele é o senhor.” Mas isso foi uma passagem dessa. Essa passagem do João Paulo também, foi muito interessante. O João Paulo também teve várias passagens.

 

P/2 - E o Israel Pinheiro?

 

R - O Dr. Israel... Tinha lá na Vale um álbum que a Vale tinha feito para o Getúlio Vargas...

 

[Pausa]

 

P/2 - Você conta então para gente o caso do Israel Pinheiro?

 

R - O Valeriodoce foi fundado no dia 22 de novembro de 1942. O Estádio tem o nome Dr. Israel Pinheiro. No princípio, era muito, coisa muito humilde, tinha as quatro linhas e umas choupanas de sapé, que eram chamadas de turrinha, né, é o lugar da diversão onde ficava. O Dr. Israel estava estava em Itabira e foi assistir o jogo. E tinha um jogador nosso lá, o Chiquinho, eletricista, falou assim: “Escuta, o Dr. Israel está aí. Precisamos fazer uma saudação para ele.” “Então tá falado.” Reuniu os jogadores, caminhou lá para o lado da turrinha lá, abraçaram os outros, assim: “Valeriodoce Rei! Valeriodoce Rei! Quem é? Dr. Israel!” (risos) E isso ficou na história lá do Valeriodoce. Mas tem história interessante demais. Teve um cara na companhia, tem uma passagem muito interessante no escritório do Campestre, escritório de madeira. Nós tínhamos, o seu Chiquinho fazia o café para a gente. O escritório era comprido assim e tinha uma escada que entrava aqui, e aqui tá a cozinha. Seu Chiquinho fazia um café para a gente, um homem muito de religião, Congregado Mariano, rezava muito, muito educado, educadíssimo, e ele casou pela terceira vez, e a mulher dele pegou esse reumatismo que vai encaquilhando, ela foi encurvando assim. Ela atravessou o pátio um dia e subiu essas escadas para falar com ele na cozinha. Tinham dois peões na varanda, um peão virou para o outro e falou assim: “Que mulher é essa?” “Essa é a mulher do seu Chiquinho.” Eu falei assim: “Seu Chiquinho não é fácil não, já matou duas e envergou a terceira.” (risos) Sabe, falava assim natural.

 

P/1 - Era simplicidade.

 

P/2 - Seu Fernando, esse escritório foi que pegou fogo?

 

R - Não, pegou fogo foi na cidade, um prédio velho. Nós ficamos muito muito tempo [nele].

 

P/2 - Como foi o caso?

 

R - Foi à noite. Eu morava no bairro do Pará. Mamãe me acordou e falou: “Meu filho, tem um troço pegando fogo, tem um clarão imenso lá embaixo.” Cheguei lá, era o nosso escritório. Eu só vi aquela escada, aqueles arquivos caindo assim. Embaixo do prédio tinha uma loja de tecido, o povo, uns dez caras querendo tirar o cofre e eu gritando: “Isso aí é a única coisa que não pega fogo gente.” Mas, queimou tudo.

 

P/2 - E de lá vocês foram, o escritório foi para onde?

 

R - Aí nós fomos para o (Carpesque?) para o escritório de madeira lá provisório e nós ficamos muitos anos lá até que fizeram em (Carma Leão?), um outro bairro, fizeram um prédio muito bonito. Um prédio de quatro andares, muito bonito, com elevador, armário para todo o lado. Você tem dentro uma plataforma dessa largura de mármore todo, assim, uma beleza o prédio, beleza, aqueles vidros com aquela película [de] você enxerga lá fora, não enxerga cá dentro. Isso, só que eu saí de lá tem 20 anos, né, agora é todo mundo... Ué, só na Copag, eu fiquei 17 depois que saí de lá.

 

P/2 - O senhor saiu em 1978?

 

R - 78.

 

P/1 - Mas saiu aposentado?

 

R - Saí aposentado. Eu fiz 37 anos lá, então aposentei.

 

P/1 - Aí trabalhou no?

 

R - Aí eu cheguei em Belo Horizonte, meu cunhado falou assim - meu cunhado é o diretor do DAR (Departamento de Água e Energia) e ele tinha muito costume, é muito da linha de gratificar muito a cidade, no Vale de Jequitiquiba, principalmente, e tinha dado muito voto para políticos. Então ele falou assim: “Eu vou me candidatar. Quero que você assuma meu escritório.” Aí, em proporções pequenas, eu assumi o escritório. Mas mesmo assim, ele teve 90 mil votos, né? Em Belo Horizonte, tinha tido 2800 só. Nesse ínterim, eu já tinha sido, depois de novembro, em fevereiro, fui admitido na Copasa - fiz um concurso, passei etc. Quando foi em março, ele teve que assumir a prefeitura e me requisitou na Copasa. Mas lá na... É, foi mais ou menos uma coisa assim. Eu tenho impressão que a data, não sei, como eu já te falei, eu não sei detalhar bem a data. Aí eu fui para a prefeitura, assumi a coisa da prefeitura e nós ficamos lá três anos e meio, porque com três anos e meio ele demitiu todo o mundo e nós tivemos que sair para limpar a barra para o outro que ia chegar, né?

 

P/2 - Prefeitura de Belo Horizonte?

 

R - De Belo Horizonte.

 

P/2 - Então o senhor foi com a família?

 

R - Aí eu tinha lugar para me arranjar, já tinha um apartamento que eu comprei para meus filhos estudarem em Belo Horizonte. Eles estudaram no [Instituto] Padre Machado (IPEM), que é uma grande instituição. E quando eu mudei para lá, tinha saído duma casa aqui em Itabira que tinha 500 metros. Fui morar num apartamento de 92 [metros]; as camas eram beliche e eu vivi isso aqui [joelho] roxo, batendo. (risos) Até que eu descobri uma tia da minha mulher e falei para a minha mulher: “Pega os dois meninos nosso aí e manda morar com sua tia que mora sozinha, porque está difícil aqui demais. Mas nessa várzea o apartamento, ____ era esse, essa várzea, né? A Paulo Simão deveria ter saído no _____, tava nessa várzea. Ele era valorizado por isso. Mas eu fiquei trabalhando uns dias em Itabira, dois meses, enfim, todo o fim de semana, e enfrentando as homenagens, quer dizer, as homenagens é bruto, né? Vem o Lions, vem o Valeriodoce, vem a Vale do Rio Doce, vem o grupo escoteiro, tudo é jantar, jantar e tome Brahma, né, tome Brahma, faz um discurso e tal e agradece, abraço. E a minha mulher também começou a ter uma dor, não sei o que e tal.

 

P/2 - Após a sua saída da Vale?

 

R - Enquanto eu estou saindo.

 

P/2 - Ah, tá.

 

R - Até que um dia, eu saí definitivo. Aí eu chego em Belo Horizonte, não estou sabendo de nada [e] o Carlos Magno falou assim: “Ó, eu quero fazer uma reportagem com você para o jornal do minério, o jornal da Vale.” Falei: “Perfeitamente.” Peguei meu carro, enfiei no estacionamento da rodoviária e vim cá, para a Rua São Paulo, onde era a Vale. Cheguei lá, bati o papo e tal. Quando eu cheguei no estacionamento, tinha cinco horas e meia para eu pagar. E lá é acumulativo: uma hora custa um real, duas já custa três reais, com a segunda custa dois. Quase que eu deixei o salário por causa da reportagem. (risos) Foi onde [reportagem] ele fala da pescaria que eu gosto, eu tenho aí, a reportagem, e fala do convívio com os americanos, que eu tinha que “aportuguesar” o inglês, né? Com aquilo, eu consegui escrever, que é aquilo que eu mostrei, o meu “book of songs” - livro de canções. Eu gostava muito de música americana, então copiava as canções.. Cheguei a fazer versões...

 

P/2 - Ah, é?

 

R - Tem um, [o álbum compilado] “No Tempo do Fox”, [a música] “Queres Mentir”, por exemplo, nós passamos, eu e um amigo, passamos ele do português para o inglês, né, sob o título “You Should Not Lie”. É, chegava... O livro tá aí. Mas é de 47 e tem músicas espetaculares, músicas que tocam até hoje, né? Por exemplo, um “Night and day”, (daqueles “begin”?). “White Christmas” não morre nunca, né?

 

P/1 - Não.

 

R - Não. Tem “Have to be you”, tem... Outro dia mesmo eu vi uma gravação tocando numa casa de música lá, do Glenn Miller com aquele “fox” [foxtrot] de “The White Cliffs of Dover”. “Ah, essa eu conheço.” Eu assisti na televisão a semana passada o filme “O Bom Pastor”: (“Crying in my way”?). Está lá no meu livro. “Essa música eu conheço”.

 

P/1 - _________ está voltando, né?

 

R - Ah, vai e volta, né? Dá recurso, né, melodia não morre nunca. Mas tem muitas histórias...

 

P/2 - E a Aposvale [associação de empregados e ex-empregados da Vale], quando que o senhor começa a...

 

R - Aposvale... Eu cheguei em Belo Horizonte, aí estreei na Aposvale. Fui do conselho deliberativo durante dois mandatos, fazia muitas reuniões aqui no Rio. Mas agora... Ontem teve a posse da nova diretoria, que é um engenheiro que foi lá de Itabira, o Luís, Luís Gonzaga. Eu, o Pimentel, o Pimentel já foi presidente e o Campos foi presidente, nós três bolamos a chapa para o Luís, nós realizamos a campanha dele toda. Ele foi eleito, foi eleito porque também foi chapa única. Na Aposvale toda foi chapa única. Mas a Aposvale com o Schettino conseguiu um milagre, né, conseguiu comprar um andar do (Dantês?) com 22 salas à preço que a Aposvale pôde pagar, né, [com] o patrimônio da Aposvale, é... Se bem que se vender, ela cai tudo aqui, que a central é aqui. Nós chamamos aqui de corte [realeza]. A corte. A corte é que...

 

P/2 - Mas qual foi a atuação do senhor na Aposvale, como é que foi?

 

R - A Aposvale é o seguinte: a Aposvale é regida pelo conselho deliberativo, cada regional apresenta um número de conselheiro correspondente a um número de sócio. Por exemplo, nós temos em Belo Horizonte 900 sócios [e] cada 300 sócios tem um conselheiro: no meu tempo tinham apenas 400 e poucos sócios, então nós éramos dois conselheiros, eu e o (Paiva?). E você chega aqui no Rio, com o conselho reunido são 20 conselheiros. Então dois de Belo Horizonte vinham aqui, entram mudos e saem calados, né, porque é a maioria que manda. Então nossa coisa era, como diz o político, né, coligar. Vitória tem seis, Itabira tem seis. “Escuta, o que vocês estão pretendendo aí?” (risos) “Ah, estão pretendendo...” “Interessa a nós?” “Interessa.” “Então somos nós seis e dois, oito.” Aí vai Valadares. “Valadares, quanto tem?” “Tem três caras.” “Ah, quero onze.” “Pode deixar vir a eleição que é nossa, nós temos onze.” É o que o governo faz hoje, a maioria, então as coisas são conseguidas. Agora passamos para três. Belo Horizonte leva uma desvantagem muito grande porque consideram apenas 900 sócios, mas esquecem que de todo o Brasil vai “nego” tratar em Belo Horizonte, aposentado da Vale.

 

P/2 - Por quê?

 

R - Porque tem os recursos. O (Ito?) Rocha é um instituto de óculos, de vista aí, que você só vê carro do Brasil inteiro no estacionamento dele. De fama mundial. (Esposcarellis?) são famosíssimos.

 

P/2 - Então é porque a cidade oferece.

 

R - Então, Socor é hospital que tem medicina nuclear, medicina não sei o que, os troços mais modernos se for pensar, então a turma vai. Vem “nego” da Vale do Belém do Pará, o Carajás, vem tratar em Belo Horizonte. Então Aposvale não tem, mas tem uma cidade grande para ser atingida. E quando estiver na hora desse plano de saúde nosso aí, quem quer fazer economia, começa a cortar pelo fato de nós sermos sócios. Vai cortando credencial, mas não pode. Então em cima da Aposvale, a promessas do Luís agora é pegar (tosse) esses três que coordenaram a campanha dele e nomear como seus assessores. A mim ele quer dar a atribuição de ser o representante da Aposvale junto ao Pasa, - o Pasa é o Plano de Saúde da Vale do Rio Doce. Então para discutir, reivindicar e batalhar sou eu [o responsável]. Mas aí eu já estou no conselho do Pasa, que eu sou o representante do aposentado de Belo Horizonte; tem o aposentado de Itabira, o aposentado de Vitória, faz um grupo de representantes para decidir as coisas. O Pasa é um plano realmente muito bom, muito bom [o] plano de saúde. Tem lá umas pequenas falhas que a gente não sabe explicar, mas vamos ter várias reuniões e nelas... Coisas que a prática, assim, por exemplo, o plano de saúde nosso permite a inscrição de filhas como agregadas. Muito bem, você inscreve, mas no plano de saúde nosso não paga parto. E se sua filha tiver um parto? O plano de saúde permite agregados idosos, mas não faz tratamento direto, eles não pagam. Então, eu sou aposentado. “O que vocês estão achando, que eu ainda sou ‘boyzinho’?” (risos) Tem essas coisas para discutir, uai. Primeiro que o plano começa errado, que eu sei, que eu entendo que a saúde começa pela boca, [mas] não paga dentista. Então já começou furado, né? E tem essas coisas que a gente tem que discutir.

 

P/2 - Então a ideia é rever tudo isso?

 

R - Então nós vamos discutir. Entra lá mais e mais é colaboração de todo o tipo de convênios, eu vejo muito convênio. Fui convidado para falar na Beprem, é o instituto da prefeitura, que tem uma instalação social enorme. Eles têm uma espécie duma fazenda, né, que eles têm 12 quadras, um estacionamento para quatro mil carros. Eles estão querendo entrelaçar e nós estamos querendo fazer um intercâmbio, porque nós temos área do centro da cidade [que] tem auditório, essas coisas todas. Nós podemos ceder em troca de que, em troca do uso de uma piscina que nós não temos. Esse também é um trabalho meu lá dentro da Aposvale.

 

P/2 - E a Aposvale é a principal atividade do senhor hoje ou o senhor tem outras?

 

R - Eu gosto de escrever sob pseudônimo para jornal, gosto de escrever, e gosto, e tenho, gosto mesmo, e tenho facilidade para escrever e homenagear quem já morreu: eu comecei com meu sogro, depois minha sogra, depois meu cunhado, depois um colega na Copasa, depois a minha mãe. A minha mãe, eu escrevia quando ela morreu, escrevi quando fez um ano que ela morreu. Assim, eu sei que na Copasa a minha sala era perto dos consultórios médicos, a minha divisão era saúde, benefício e segurança, então a área é de consultório médico; tinha duas salas, assim, uma do diretor e outra minha. A Josefina era auxiliar e numa manhã lá perdeu o ar, correu para o hospital pertinho e já chegou morta. Embolia pulmonar, não sei o que, tampou o ar. Então eu escrevia um negócio. “Não precisa escrever.” Eu sentei na mesa e escrevi o negócio e tal. O apelido dela era Jô, tratei-a carinhosamente de Jô e tal. E as meninas se entusiasmaram com aquilo, as secretarias: “Mas o senhor fez uma coisa bonita, não sei o que. Deixa que nós vamos lendo na missa, no enterro. Teve uma pessoa que disse que agora não é difícil não, né, depois eu lembrei de Machado de Assis que tem uma máxima assim: “Está morto:  podemos elogiá-lo à vontade.” (risos) Então quem tem a resposta é muito fácil, mas o mais, tenho aí... Gosto muito de escrever.

 

P/2 - E pescaria também?

 

R - Pescaria, pescaria eu gosto demais. Atualmente estou muito exigente, porque a primeira vez que eu fui à pescaria, essas pescarias grandes, eu fui de remo, né, a segunda eu já fui num barco à motor [e] as outras foram de um barco maior, até que eu fui no Araguaia numa mordomia. É, para voltar agora está difícil. Já começou em Belo Horizonte com avião particular, né, chegamos lá na Santa Terezinha de Araguaia, tinha um barco desses novos, parecia aqueles barcos de São Francisco, né, do Mississipi, um pouco menor, que chamava “Tranqüilão” e ele estava em reforma, aqueles tubulões debaixo dele, que fazem flutuar, estavam sendo trocados por aço inoxidável. E nós, então, pescávamos naquelas voadeiras, que são uns barcos menores. Mas era garçom dormindo nas tendas de Belo Horizonte, cozinheiro no iate. De manhã cedo você tomava leite em pó da Holanda, maçã do Chile, manteiga da Argentina... (risos) Aquela mordomia desgraçada. E a gente saia para pescar, estava eu, estávamos na prefeitura, ofereceram isso [pescaria] pro prefeito e ele me levou porque sabia que eu gostava. Então fizemos assim, até que um dia falou assim: “Amanhã vai chegar o dono da empresa que está patrocinando isso aí.” Mas eles falaram lá: “Vai chegar o (Joli?)” “É, vai chegar.” Fomos receber no aeroporto e tal, ele veio para o barco e a noite lá nós “ferramos” no truco, truco, jogar truco, ele, meu cunhado, eu e um mestre de obra, e a gente era escandaloso para jogar truco, a graça do jogo é o escândalo. O certo é que uma jogada lá que ele me deu um truco com um sete de copa e eu tinha o “zap”, eu passei o seis nele e fiz assim com a carta: “PAF” na testa dele. (risos) “Escuta, ele que está financiando essa viagem.” (risos)

 

P/2 - Seu Fernando, como é que é...

 

R - Eu posso contar uma cabeluda aqui de pescaria?

 

P/2 - Pode.

 

R - Esse meu cunhado, ele morava em Belo Horizonte e ia para Itabira fim de semana para noivar com minha irmã, engenheiro etc., e nós pescávamos sábado em Itabira, tinha uma turma já [que] combinava de pescar. Nós estávamos pescando lá [e] alguém falou assim: “Olha, nós podíamos “ferrar” um truco amanhã, né?” “Na casa de quem?” Falou assim: “Lá em casa.” “Então está combinado. Duas horas da tarde na sua casa, está combinado?” “Está combinado.” Domingo nós fomos para lá. Aí o Edmundo pegou e virou a Conceição, mulher dele, e falou assim: “Ô Conceição, a turma vem jogar truco aqui, você não repara não, porque o truco tem muito palavrão.” “Não, pode deixar.” Aí nós estamos lá na sala: “Truco, pinga seu truco, tal, tal, tal.” Aí o Edmundo foi tomar uma água na cozinha, foi quando a Conceição falou assim: “Edmundo, você falou comigo que o truco tinha palavrão, não escutei nenhum até agora.” Aí o Edmundo voltou na qualidade de chefe da casa, para justificar: o primeiro três que veio na mão dele, ele olhou o três, assim, olhou o Maurício e falou: “Truco, engenheiro filho da puta.” O Maurício falou assim: “É seis, comedor de cu de menino.” (risos) Oh, a Conceição juntou os meninos dela...

 

P/2 - Levou embora.

 

R - Eu disse para você. (risos) Eu peguei uma fotografia da pescaria e ela tem um por um... Do Edmundo, eu conto essa passagem, quanto de os outros companheiros, porque a gente se afeiçoou muito a ele, né? Na pescaria, nós tínhamos um código na hora de ir embora... Pescaria que eu falo é aquela pescaria de varinha, de você caminhar o dia inteiro pescando lambari e mandi, peixe pequeno. Então no escuro da noite, você gritava assim: “Tô ‘enfarado’.” É o código para sair. Então o outro respondia: “Tô ‘enfarado’.” Reunia para ir embora, 9, 10 horas. Aí na estrada a gente parava, assava linguiça, bebia cachaça com linguiça e depois ia embora para casa. Então, tem duas passagens que eu tenho que falar: uma que o Jair fez uma música com o “Tô ‘enfarado’”, vamos desculpar ele, e outro foi com o (Marco Terere?), um companheiro nosso, (risos) [que] tava lá [e] um lobo deu para o lado dele. Ele subiu na árvore e ficou assim: “Tô ‘enfarado’! Tô ‘enfarado’!” (risos) Faz tempo isso aí.

 

P/2 - Seu Fernando, como é o dia a dia do senhor hoje?

 

R - Eu estou igual o Chico Buarque de Hollanda: adoro a vida.

 

P/2 - Escrevendo, né?

 

R - Eu gosto muito de ler, [me] preocupo muito com palavras, por exemplo, escrevo para esses caras que apresentam noções de gramática na televisão e no rádio. Pois é, outro dia escrevi para o professor do Hoje em Dia, um jornal lá, que eu não vi em dicionário nenhum, só vi no dicionário inglês [algo] parecido, a palavra privacidade. Tem privaticidade, mas privacidade você não acha em dicionário nenhum. Você acredita que ele me telefonou, achou meu endereço e me telefonou, porque eu mandei meu nome, né? O jornal, pelo nome, foi no católogo telefônico, explicando, quer dizer, que em inglês tem “privaty”, “private”, mas não chega a ser privacidade. Então é nessas coisas assim que eu reparo muito, né? Outro dia mesmo, tem o Rubinho...

 

P/2 - Barrichello.

 

R - Barrichello, né? Tem uma propaganda dele, não sei se vocês já assistiram, que fala assim: “Tinha que ser vermelha, tinha que [ser o que] todo o mundo quer, tinha que não sei o que” e coisa. Ele vai dando a entender que é a Ferrari, né, mas depois ele mostra aquele celularzinho, Nokia, e ele fala assim: “Pensou que era o quê?”. “Pera aí, ‘Pensou que fosse o que’”. Não tem “pensou que era o que”. Eu, porque não tinha o endereço... “Escuta, esse cara está errado aí.” Aquela “cerveja que desce redondo”, peraí...

 

P/2 - Redondamente.

 

R - Acho que deve ser redonda, por aí vai esses detalhes. E aí, eu gosto muito disso.

 

P/2 - E com quem que o senhor mora hoje em dia?

 

R - Eu moro com minha família, minha mulher, meus filhos.

 

P/2 - Mas todos os filhos ainda estão em casa?

 

R - Não, o Sérgio, casado, mora lá na Pampulha, até ele mora num lugar que no ano passado caiu um avião Endor, né, o Paulo mora nos Buritis, eu moro com a minha mulher, o Toninho, que tem um comércio de “mountain bike” na avenida...  Dia de segunda, assim, lá em casa. A Teté, que é a Maria de Lourdes, que é excepcional, a Norminha e o filho da Norminha, que ela é separada do marido, (que foi a Nandin?). Nós moramos em casa, o resto mora em Goiás, [e] o outro mora em Itabira.

 

P/2 - Muitos netos?

 

R - Vou ter que contar. (risos) Fernando tem dois, Naninha tem três, Paulo tem quatro, Zé tem cinco. Cinco, cinco netos. Eu tenho um carinho todo especial é com essa minha filha excepcional, né, que ela tem por mim. Eu não sei se vocês já ouviram falar que a adrenalina do excepcional é diferente da nossa. Nunca ouviu isso? Excepcional chega num cão, assim, o cara nem chegou e passa a mão, não tem medo, pois não fala nada. Impressionante. E ela tem isso comigo, então é um xodó danado. Agora ela estuda numa escola de adultos excepcionais, e aqui é o xodó dela, é aqui o relacionamento, aqui ela é relações públicas por natureza. Ela tem os telefones das colegas e coisa, então telefona por conta dela. Dás 8 da noite em diante é por conta dela, contando história, conta isso, conta aquilo, só se vê... Então escola para ela é sagrado. E ela é toda metódica. Às 11 horas, ela fala assim: “Está na hora de eu tomar meu banho”. Mas ela não toma o banho 15 para às 11 de jeito nenhum, nem 11 e 15. É 11 horas! É sagrado! Depois, todo o dia ela vai para a escola levando esse disquinho pequeno coletivo.

 

P/2 - Discman.

 

R - Não, aquele disquinho...

 

P/2 - CD.

 

R - É CD? Ela leva cinco, seis assim. Eu vou: “Tetê, não vai dar para ouvir isso tudo, né?” Grava, grava e deixa para os colegas, ela faz um intercâmbio danado, sabe, e da escola ela faz um movimento muito grande, muito grande. Está até passando um programa mais difícil, que disseram que tiraram a filantropia da ajuda, parece que tiraram. Você não pode ter, dedicar mais para descontar no imposto de renda, nem nada. Nem verba federal, nem nada. Que país é esse, hein?

 

P/2 - Dificulta, né? Seu Fernando, o senhor tem sonhos, quais são os sonhos do senhor?

 

R - Meu sonho não é sonho, meu sonho não é bem sonho já, é obsessão: acertar a Mega-Sena e arrumar minha família. Eu sonho, faço caminhada na Barragem de Santa Luz só vendo os prédios, assim, falo: “O Paulo morando ali ia ser uma joia. Aqui, bem, mas aqui eu não sei, ia ter essa favela e tal.” (risos) A minha nora lá em Goiânia falou assim de, a minha intenção de acertar na Sena: “Para o Fernandinho eu posso comprar um carro, mas para você eu compro um Palio cor de abacate. Eu escolho a cor do Palio.” Ela falou assim: “Eu quero um Palio Weekend.” “Então um Weekend também, cor de abacate.” Então esse é meu sonho, toda a semana, também é,não carrego a mão não. Agora sou profundo analista de loteria, tenho vários esquemas, só que eles não dão certo. (risos) Vários esquemas, a Mega, só jogo a mega também, (tosse) a Mega Sena tem 60 números, então você faz um quadro assim com seis casas e dez casas, então ali você põe 60 números, o sorteio não acumula e vai preenchendo. Então se você jogar 10 reais, que são as 10 colunas de seis cada uma, um número você garante, um número está garantido. Pode sair o que sair lá, não tem jeito.

 

P/1 - Mas não sai?

 

R - Sai, se você acertar o número sai. Você está jogando 60.

 

P/2 - Agora a combinação?

 

R - Agora para você acertar dois números, você já tem que jogar 2400 “pau”, que é esse primeiro aqui, você conta desse assim, é ele até seis. Depois você conta ele depois do seis, então é ele 60 vezes.

 

P/1 - Mas sempre jogando, ganhando um nessa primeira maneira?

 

R - Você faz o quadro, presta atenção, com seis número aqui e dez aqui, então seis vezes dez [é igual] 60, são 60. Pega na cumbuca, enfia 60 números e vai sorteando para você preencher, para não dizer que você está preenchendo aleatoriamente, você preenche por sorteio já. Então você pôs os cinco números que vão dar lá, um está garantido.

 

P/1 - E ganha o que com esse um?

 

R - Não ganha nada.

 

P/1 - Nem o custo do bilhete?

 

R - Você ganha mais do que o que não ganhou nada. (risos)

 

P/1 - Não ganha nem o custo do que gastou.

 

R - Para você ganhar aquilo inteiro, você tem que ganhar de 11 milhões. A composição na Mega é 11 milhões.

 

P/2 - Quem sabe, hein?

 

R - Vocês conhece a... Eu costumo fazer comparação, um camarada que tem sorte. Eu estava lá em Goiânia da outra vez e lá você faz uma compra, eles te dão uma raspadinha, você joga lá, põe lá no cubo. O sorteio foi numa quinta-feira, numa área como essa lotada de cupom assim, e o quinto prêmio eram cinco computadores com gravador, copiador, aquele negócio. Aí sortearam, um cara ganhou, o primeiro prêmio era um carro. Quando sortearam [de novo], o mesmo cara ganhou, quer dizer, em 11 milhões o cara ganhou duas vezes. Bem, esse é o cara que tem sorte. Agora, tem o cara que não tem sorte. O cara que não tem sorte foi aquele que, aquele passageiro da Tam que estava na Poltrona 11 e foi para a 18, e ela foi arrancada. (risos) Ele devia ter ficado no 11. São essas coisas, né, mas vamos em frente.

 

P/2 - Seu Fernando, eu queria saber agora o que o senhor achou de ter participado desse projeto, de ter dado esse depoimento para nós?

 

R - Eu achei, a primeira coisa que eu notei é que a filosofia da empresa mudou para melhor. Por exemplo, no meu tempo em Itabira, a Vale construiu a Vila dos Engenheiros, depois a Vila Técnica, depois a Vila dos Operários, então havia uma distinção. Quando eu cheguei na prefeitura, no dia seguinte da minha posse, tinha seis assessores a minha disposição, era só, tudo advogado. Falei: “Poxa vida. Se aquele povo de Itabira vier aqui, eu estou perdido.” (risos) Tinham dois deles que lidavam com leis, né, de inventário, inventais, aqueles (propone?). Mas de resto, a comunicação era despachar para eles: “Faça isso, faça aquilo.” Então não havia. A Vale agora está com uma mentalidade diferente, estão lembrando que nós existimos. Isso é um passo.  É claro que não sei se ela demonstrou um avanço muito grande, que pode chegar aqui alguém que foi pisado por uma razão qualquer, como existe em toda a área, e invés de falar bem, só fala mal. Então isso que a gente tem que relevar, porque nos pós e contras eu acho que a Vale foi sempre muito melhor do que pior, não tenha dúvida. E agora está melhor ainda, porque está prestigiando, quer dizer, coisa que eles fazia por, com o de fora, eles estão fazendo com o de dentro agora, com o pessoal da casa. Eu achei isso muito bacana.

 

P/2 - Que bom.

 

R - Agora, a privatização, que é o que todo o mundo conhece, objetiva lucro. A Vale tem uma equipe médica, técnica que veste a camisa, sabe vender. Agora, a privatização trouxe mais banqueiros, né, investidores, industriais, então eles querem saber o que está dando lucro; para dar lucro tem que cortar, então corta. Já a Vale não, a Vale tinha um laço sentimental. “Ó, vamos fazer isso e tal.” “Vamos contemporizar, transfere para tal lugar.” A última medida seria a dispensa. Nós nunca tivemos greve por causa das coisa assim, o sindicato nosso foi harmonizado. Nós tivemos um aumento uma vez que chamava Tabela Cadillac, foi 90% de aumento. 90% de aumento! Se chama Tabela Cadillac.  Aumenta, o pessoal do sindicato ia vir aqui para o Rio para fazer reuniões, né, e nós tínhamos informações, a informação nossa corria numa coisa chamada Rádio Piano. “O que é que a Rádio Piano está falando aí?” “Está falando que a Vale já ofereceu 45, mas o sindicato quer 60.” (risos) A turma da estrada de ferro escreveu no vagão assim: “45 não!” O vagão viajava com isso. (risos)

 

P/2 - Olha que interessante.

 

R - O de cá dizia assim: “Estamos, vamos aceitar 60.” Então havia aquele intercâmbio de notícia. (risos) Gozação, né?

 

P/2 - Bacana.

 

R - O transporte, da seção de transporte, eu chamava de “agência noticiosa”, porque o motorista é que sabe tudo da empresa, ele viaja com a chefia. Ele sabe tudo. Então eu telefonava para o transporte e falava assim: “‘Deusdiese’, que a (Transpress?) está falando?” É, ué. Tem uma passagem com oo doutor Eliezer que eu vou contar aqui, que ainda era da época do João Paulo: logo que João Paulo chegou em Itabira, que seu (Requiem?) tinha ido embora, o João Paulo convidou o Eliezer para ir lá, e nós fomos para Governador Valadares para receber o Eliezer. Na época, ele trabalhava na estrada e tinha apelido de barão, ficou conhecido como barão.

 

P/2 - Por quê? O senhor sabe?

 

R - Não sei, ele viajou para a Europa, morou no exterior por muito tempo e era todo psicodélico, vamos dizer assim, para não dizer esse negócio desses cara que andava sujo aí.

 

P/2 - “Hippie”.

 

R - “Hippie”, para não dizer... Mas eu vou chegar lá. Aí chegou em Valadares, ele chegou junto com os foguistas da (Mac?), que é para a máquina andar mais depressa, ele veio por lenha e tinha um cara cabeludo lá. Aí nós veio para Itabira, viemos para Itabira, ele olhou as mina e coisa e tal, e nós tínhamos construído uma instalação que ia ser o isolamento do hospital, [que] ia ser construído de lado, então construíram primeiro esse alojamento que era para usar, e puseram o Eliezer lá sozinho, não tinha mais ninguém. E o João Paulo falou: “Você pega o Eliezer lá às 9 da noite e leva ele para a sede do Valeriodoce.” Eu cheguei lá, o Dr. Eliezer meteu uma meia marrom, outra preta. O paletó com umas fivelinhas aqui assim (cinto), meteu um lenço (bolso do paletó), passou (algum mex?) [gel] no cabelo e fez assim (colocou para trás) com ele, depois fez um... E fomos para o Valeriodoce. Eu era o único solteiro, o resto era só gringo, e o público brasileiro que falava vários idiomas. Tinha o Garganel da __________, tinha o (Nixan?), que era um norueguês, __________ dinamarquês, tinha o (Pinaget?) que era alemão e falava russo, tinha o Rodrigo que falava inglês, tinha o (Segat?) que falava inglês, falava espanhol, também o Rodrigo [falava espanhol], as mulheres dos caras. Nós fomos para lá e o Eliezer começou a conversar, porque o Eliezer falava uma infinidade de idiomas, de dialetos, “o diabo”. Até que no fim nós fomos para o palco [e] não tinha ninguém, exceto (depois a conta?), ele começou a cantar (as áreas?) e eu... Você sabe o que é pé esquerdo na orquestra? Aquele prato de titi com aquela vassourinha, sorrindo eu ficava assim: titi, titi, titi, titiritititi. Eu acompanhei ali, quer dizer, um rapazinho. Eles me aceitavam, engraçado isso, né? Eles me aceitavam, que coisa engraçada. Ninguém para falar como nos dias de hoje: “Pô, cara, cai fora! Aqui não é seu ambiente.” Não. Varamos a noite e no fim, no dia seguinte, João Paulo falou assim: “O que você do Eliezer?” “Ô seu, ô João Paulo, eu não vou aceitar o seu convite não, que isso aqui é uma pedreira grande.” (risos)

 

P/2 - Seu Fernando, eu queria agradecer então a participação do senhor. Muito obrigado.

 

R - Quem agradece sou eu.

 

[Fim da entrevista]

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