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História

Se tem uma Unimed, tenho um companheiro!

História de: Mohamad Akl
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

Nascimento no Líbano. Imigração para o Brasil na década de 1950. Infância no interior de Minas Gerais. Adolescência em Barretos, no Estado de São Paulo. Formação em Medicina pela Universidade Federal de Uberlândia. Dedicação à carreira na Unimed. Casamento. Filhos. Família. Reflexão sobre o trabalho e sobre a vida.

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História completa

Projeto: Unimed Brasil 40 Anos

Entrevistado por: Lenir e Maurício

Depoimento de: Mohamad Akl

Local: São Paulo

Data: 01 de Fevereiro de 2007 

Realização: Instituto Museu da Pessoa

Código: UMBR_HV001

Transcrito por: Maria da Conceição Amaral da Silva

Revisado por: Isabela Rangel Fraga Burgo

 

P/1 – Bom dia, doutor Mohamad. Vamos começar a nossa entrevista com o senhor nos falando seu nome, local e a data de nascimento.

 

R – Bom dia! É uma satisfação estar aqui com vocês fazendo esse trabalho. Meu nome é  Mohamad Akl. Nasci em 20 de setembro de 1952, em uma aldeia no sul do Líbano, numa cidade muito pequena que se chama Ribari. 

 

P/1 – E qual é a sua atividade atual na Unimed [Confederação Nacional das Cooperativas Médicas]?

 

R – Atualmente, ocupo o cargo de presidente da Central Nacional Unimed. Além disso, ocupo um cargo no Conselho de Administração da Unimed Seguradora. E como presidente da Central, também tenho assento no Conselho Confederativo da Unimed do Brasil.

 

P/1 – Qual o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai é de origem libanesa, obviamente, se chama Sami Akl. E minha mãe se chama Randa Sami Akl. No Líbano, os casais têm o costume de colocar na esposa o sobrenome do marido, por isso minha mãe se chama Randa Sami Akl. Ela pegou o sobrenome do meu pai, igual ao meu. 

 

P/1 – E qual era a atividade dos seus pais? O que eles faziam?

 

R – Meu pai, como todo imigrante, veio para o Brasil em 1954. Nasci em 1952. Ele veio para o Brasil e nós ficamos lá, minha mãe, eu e mais dois irmãos. Ele veio para o Brasil em 1954 para tentar uma vida melhor. Porque o país naquela ocasião estava dando muita oportunidade para os estrangeiros. Principalmente para os  libaneses, árabes e italianos. Veio ao Brasil e começou a atuar na área do comércio e me parece que a atividade comercial,está na genética do árabe. Ele veio com essa prerrogativa, com a intenção de trabalhar como comerciante. Lá no Líbano, meu pai fazia alguns comércios, uma atividade, vamos dizer, que na época se chamava mascate. Ele juntava coisas e vendia lá no Líbano. No Brasil, veio com a mesma atividade. Em 1954, chegou no Porto de Santos, depois de 30 dias de viagem. É interessante que não havia ninguém para esperá-lo. Não não sabia a língua. Não conhecia nada. Mas sabia da cidade onde ele tinha os amigos, que era no interior de São Paulo, Barretos. E foi para Barretos, onde começou a atividade com os 100 dólares que tinha no bolso. A partir daí, com a credibilidade e os amigos que já tinham vindo para o país, começou com a atividade comercial de compra e venda na região de Barretos e em Minas Gerais, em Planura, que é do outro lado do rio. Daí, montou um comércio pequeno e continuou nessa atividade. E nós, eu, meus dois irmãos e minha mãe viemos em 1957 para o país. Viemos, depois de três anos, meu pai falou para trazer a família ao Brasil. Ficamos morando no interior, inicialmente, em Minas Gerais, em Planura, depois nos mudamos para Barretos, no estado de São Paulo. 

 

P/1 – E a origem da sua família é toda do Líbano mesmo?

 

R – Todos libaneses.

 

P/1 – Avós?

 

R – Meus avós paternos eram sírios. Minha avó paterna morava em Damasco, na Síria. E, meus avós maternos moravam no Líbano. Como eu disse, ali é tudo muito perto. O Líbano de norte a sul tem 112 quilômetros de extensão. Então, você está no sul do Líbano e duas horas depois está no norte do país, na Síria. É tudo muito próximo. A origem é sírio-libanesa, vamos dizer assim.

 

P/1 – E qual era o ramo dE comércio do seu pai?

 

R – Era compra e venda, mascate, comprava roupas… Sempre se manteve nessa atividade. No Brasil, montou uma loja, também chamada de bazar. Hoje é boutique,  tem vários nomes. Mas, naquela época, era bazar porque vendia de tudo. Roupas femininas, masculinas, sapato... Ele montou uma loja na cidade de Barretos, esse comércio era uma atividade boa. Hoje não, porque a concorrência está brutal, no mundo inteiro. Hoje, você traz uma camisa da China, coloca por dois reais aqui no Brasil. Na época, realmente, dava para sobreviver com essa atividade.

 

P/1 – Então, o senhor falou que foi para a cidade de Planura.

 

R – Isso.

 

P/1 – O senhor lembra dessa época em que foi para lá? Como era a cidade e a sua primeira casa?

 

R – Olha, você imagina que eu tinha cinco anos na época em que cheguei no país. Lembro que viajamos 30 dias de navio. E uma curiosidade, uma passagem que me lembro e acho interessante: estava no navio, fui ao banheiro. De repente, achei um relógio em cima da pia, não conheço, mas devia ser de ouro. Era um relógio bonito. Entreguei para o meu irmão e falei: "Achei no banheiro, fui lavar a mão." "Ah, eu vi um homem saindo daqui. Vamos procurar o homem." E o navio era um monstro. Saímos à caça do dono do relógio e o devolvemos. Ele, em retribuição, nos deu uma nota. Não me lembro o que era, se era cinco, dez dólares. Alguma coisa assim. Nós já estávamos chegando no Brasil, na Bahia, em Salvador, onde o navio ancorou. Podia descer porque tinha ocorrido um problema qualquer no navio, aí descemos, também sem saber nada, criança. Meu irmão tinha doze anos e eu cinco. 

 

P/1 – O seu irmão era o mais velho?

 

R – Era o mais velho.

 

P/1 – O senhor era o mais novo da família?

 

R – Não, tem dois mais novos nascidos no Brasil . Mas entre os que vieram de lá eu era o mais novo. Então, usamos aquele dinheiro e vimos bananas. Coisa interessante, né, banana. Não conhecia. Perguntei: "O que é isso? É para comer?" Nós demos aquele dinheiro, não sabia quanto era e nos deram um cacho de banana. Devia ser muito dinheiro na época. Voltamos para o navio. Carregamos essa banana de Salvador até chegar aqui. Viemos comendo nesses dias todos. A gente não conhecia, porque no Líbano não existe esse tipo de fruta. Chegamos em Santos e meu pai já estava nos esperando. Fomos para Planura. Quando a gente é criança, quando é pequeno, parece que é tudo muito grande, né? Eu morava em uma casa que realmente era grande. Tinha um quarteirão, meia quadra, 21 pés de manga, que eu não conhecia. Tinha também goiaba, pé de tamarindo. Frutas. Era uma festa. Eu achava uma delícia. A casa era grande e o meu pai começou também uma atividade de pensão. Ele alugava quartos para pouso. Foi quando estavam construindo a rodovia que vai até Brasília. Moramos de 1957 a 1962, 1963 naquela casa. Tem uma passagem que me lembro. No Líbano, era comum ter geada, neve, essas coisas todas. Mas no Brasil, na época choveu muito e numa noite choveu granizo. As portas das casas não abriam porque tinha uma camada de gelo. Eu achei: "Puxa vida, né? Aqui deve ser igual ao Líbano, mais ou menos." Mas foi só uma vez que eu vi aquilo. Realmente, a minha casa era grande. Meu pai também tinha uma sorveteria, ele fazia picolé, sorvete. Ali passei a minha infância, até 10, 12 anos de idade, nesse local. Quando cheguei no país, em 1957, meu pai disse: "Vai estudar." Chegamos em novembro, ele falou: "Vai estudar." "Mas como eu vou estudar se não sei falar a língua direito?" "Você vai para a escola." "Então, tá bom, vou para a escola." O primeiro ano, obviamente, tive que repetir. Porque não sabia falar nada, não entendia o que a professora estava querendo, foi um ano difícil. Mas minha infância foi uma fase muito boa.

 

P/1 – Sobre as brincadeiras, o senhor lembra quais eram as suas preferidas?

 

R – Olha, naquela época tinha bolinha de gude, que hoje é uma raridade. Você ficava ali brincando de bolinha de gude ou de pião. Esse pião de madeira que jogava no chão. E caçar passarinho, né? Na época podia caçar passarinho, porque havia muitos. A brincadeira, naquela época, era mais esse tipo, dentro de casa, jogando futebol. Eram essas as brincadeiras, porque a cidade também tinha o mínimo, era pequena, tinha uma rua só, sem asfalto. Você chegava em casa e tinha que ficar duas horas no banho para tirar toda aquela terra.

 

P/1 – O senhor falou que nasceram mais dois irmãos no Brasil. Ao todo, em quantos irmãos vocês são?

 

R – Somos cinco filhos na família.

 

P/1 – Cinco filhos, certo.

 

P/1 – E o senhor tem mais alguma lembrança marcante dessa época de infância? Acredito até que já contou algumas...

 

R – Não. Quer dizer, para mim, essas passagens, como eu disse, a construção da rodovia que vai à Brasília. Que passava na frente da cidade. Lembro que eu acordava cedinho para ir com os caminhoneiros carregar as britas deles, jogá-las, ajudar. Ia acompanhar, não fazia nada. Mas, são coisas que marcaram muito. Tenho aquelas imagens ainda na memória. Uma passagem que achei interessante e,  como disse, a minha casa era grande e tinha uma área que em se depositava as coisas. Era bar, sorveteria e pensão. Então, meu pai guardava um monte de bebidas. Me lembro que em uma dessas noites escutei um barulho, tipo cinco horas da manhã. Acordei o meu irmão e falei: "Está tendo um barulho do lado de fora." Entre os nossos quartos tinha um corredor e essa outra área externa. Fomos lá ver, era um daqueles bebum que entrou, catou uma garrafa de pinga e  estava tomando-a no bico. Já estava ali há algum tempo, porque tinha derrubado as coisas. De repente: "Põe esse cara para correr!" No outro dia, ele fez uma confusão danada, ainda estava bêbado, queria brigar. Mas, juntamos umas pessoas, chamamos a polícia, que naquela época era brava. Não tinha medo de bandido e de pinguço. 

 

P/1 – Então, o senhor falou que começou a estudar e que repetiu o primeiro ano. O que o senhor lembra? Como era a escola em que o senhor estudou?

 

R – Era uma escola bem simples, depois a gente acaba se enturmando, lembro que algumas atividades eu não sabia fazer. E não era muito afeito, mas a gente era obrigado a fazer. Tinham as peças teatrais e as musiquinhas, Maria Chiquinha: “O que é que você foi fazer no mato...? Fui caçar não sei o que!”. Era obrigado a fazer aquilo contracenando com a Maria Chiquinha. Eu ficava num mau-humor desgramado. Mas a gente aceitava, porque fazia parte do ensino, da própria educação da criança. 

 

P/1 – Qual matéria o senhor mais gostava na escola?

 

R – Na época do primário, não gostava muito de Português. Matemática eu até achava bom, fazer conta, multiplicar e tal. Mas não gostava muito não. Depois, no ginásio, já gostava muito de Matemática e de Física. Me deixava intrigado. Aqueles teoremas, aquela coisa toda. Tentava aprender o Francês, mas o meu professor era complicado, não incentivava, não deixava a gente muito à vontade. Eu gostava de Francês, mas realmente não aprendi muito. Não falo muito essa língua, entendo algumas coisas. O que eu mais gostava era Matemática. Depois, comecei a entender um pouco melhor Ciências, naquela época e acabei criando uma tendência para a área médica, da Biomedicina e Medicina.

 

P/1 – Algum professor ficou na sua lembrança? Alguma professora dessa época?

 

R – Houve esse professor de Francês, que era o Batistini e uma outra professora, dona Célia, de Matemática. Ela gostava de mim, porque passava os exercícios e eu conseguia fazer certo e rapidamente. E o professor de Física, realmente me falha a memória, não lembro o nome, mas eu também gostava, porque quando a gente acertava, existia um incentivo por parte deles de estar parabenizando, aquela coisa toda. 

 

P/1 – Depois que o senhor aprendeu a língua, o senhor deslanchou?

 

R – Aí fui bem. 

 

P/1 – Naquele tempo existiam as comemorações, o senhor se lembra? Por exemplo o dia 7 de Setembro.

 

R – Sim. Já estava em Barretos, em São Paulo e no colégio, na adolescência, fazia parte do grupo do clube ou de ginastas. Na época, tinha que fazer ginástica com apresentações em público. No aniversário da cidade, desfile. A gente selecionava, me selecionavam. Eu era quem separava as turmas no desfile. Depois a gente servia, chamavam de guia ou baliza, algo assim. Era em uma praça, todos os alunos ficavam em baixo, tinha quatro patamares, vamos dizer, plataformas, em que cada um ficava. Eu ficava em cima, orientando a turma. Essas coisas realmente marcaram muito. Gostava muito de fazer ginástica na época. E a gente servia como modelo, como guia para essas atividades. Lembro que tinha um companheiro, que fazia parte daquele Periquitos em Revista, um grupo daqui de São Paulo, do Palmeiras. Eles faziam exibições, saltos mortais. Era quatro, cinco piruetas. E eu falava: "Gente, quero ser esse negócio aí." Mas acabei desistindo. Fui para a área médica nessa época do ginásio.

 

P/2 – O senhor se enturmou facilmente com os brasileiros, com os coleguinhas?

 

R – Olha, no início, como não sabia falar, acabava servindo de chacota. E tinha um carimbo, de turco. "Ah, ó os turquinho, ó os turquinho." Eles falavam e eu não sabia o que estavam falando. Eu ficava rindo, dando tchauzinho, mas estavam satirizando, gozando a gente. Aí vinha o meu irmão: "Ficou bobo, rapaz? Estão te xingando, não pode." "Bom, tá tudo bem." Então a gente se recolhia. Mas depois que aprendi o idioma, aí sim, me enturmei bem. Acho que a receptividade do povo brasileiro é um negócio ímpar. Você não acha em lugar nenhum. Existem alguns países, alguns povos que recebem bem. Mas não com o calor e com a amizade que o brasileiro tem. Então foi muito fácil à adaptação no país. Nos enturmamos bem. E Barretos, como era uma cidade pequena, na época, 70, 80 mil habitantes, era fácil. Conhecia todo mundo. Você ia sentar na praça e ficava conversando com a molecada.

 

P/1 – Já era na época da adolescência?

 

R – Já era na adolescência.

 

P/1 – Como foi essa fase em que o senhor estava em Barretos? Conta um pouquinho para nós.

 

R – Esta fase, quer dizer, os conflitos da própria idade, a rebeldia e tal. A gente fazia as atividades ali também. Era o que? Jogar um racha, um futebol, fazer serenata. Eu tinha um amigo que tocava violão e também era uma outra coisa que eu queria ter aprendido e não consegui. A gente fazia serenata quase toda noite para as namoradinhas. Era muito interessante, um futebolzinho que a gente começa, já não era mais na rua, era na quadra de terra, tinham as quadras de futebol de salão nas escolas. Havia essas turmas no colégio, na adolescência. Era passear e estudar.

 

P/1 – Bailinho não tinha ainda?

R – Tinha os bailes de 15 anos, que eram uma maravilha. E tinha uma cidade perto de Barretos que é Guaíra, a gente ia nas festas, mesmo de bicão, era uma dificuldade, porque o ingresso era todo reservado. Um dia, peguei o carro do meu pai, eu tinha 16, 17 anos e fui para essa Guaíra em um baile de 15 anos. Cheguei no clube, pronto: “Cadê o ingresso?” “Não tem ingresso.” Eu tinha um amigo que tinha uma tia vizinha do clube. Bom: "Vamos lá para a sua tia." Você entra, o cachorro começa a latir. Vai pular o muro, de terno. Tinha que estar de terno. Moleque de terno, de 16 anos. Acabamos entrando no clube. Aí sapato todo sujo, aquela coisa. Mas depois que entra, já fica tudo bem. E dei o azar de na saída, um cara me passar  e baterem no meu carro. Amassaram o carro: "Tá bom, como eu chego em casa nesse carro amassado, agora?" Cheguei, guardei a chave, fiquei quietinho. Meu irmão era o mais velho, só ele saía com o carro. Meu pai acordou: "O que é isso?" Foi lá, pegou meu irmão: "você amassou o carro?" "Eu não saí com o carro!" "Saiu sim! Está amassado aqui!" E eu quietinho dormindo. Aí descobriram que estava sujo de terra. São passagens assim que a gente guarda na lembrança com boas recordações. 

 

P/1 – O que influenciou o senhor a fazer medicina?

 

R – O meu irmão mais velho fez Direito, é advogado. Então, um dia, conversando com a minha mãe, eu tinha 13, 14 anos, não lembro exatamente. Ela disse: "Ah, seu irmão foi fazer Direito." Tinha que sair da cidade porque lá não tinha faculdade. “Ele veio para São Paulo para fazer Direito. E você? Em que você está pensando?" Eu quebrei o braço, mas não estava fraturado. A gente chama de.... hoje, eu já sei como é chama. Mas, na época, não sabia. Então ele quebrou, lascou, ficou só uma pontinha pendurada. Daí o médico teve que, de alguma forma, acabar de quebrar para puxar e juntar no lugar. Ele fez isso: "Ah, não vai doer nada não." E “pic”, na hora que eu vi já tinha feito. Aquilo me deu vontade de bater no cara, mas tudo bem. Falei: "Puxa vida, achei interessante o médico conseguir colocar no lugar." Aquilo me chamou muita atenção, falei para a minha mãe: "Vou fazer Medicina." "Então você vai fazer Medicina? Nós não temos condições econômicas, aqui não tem." "Eu vou fazer Medicina. Se eu não fizer Medicina eu não faço nada, pronto. Vou mexer com loja." Acabei me dedicando. Na época, eram poucas as faculdades. Hoje, infelizmente, tem muita faculdade, formam profissionais e a gente os critica, mas é pelo excesso do número de faculdades que existem. Na época: "Eu vou fazer Medicina." Terminei o colegial num colégio muito bom, científico, em Barretos. Acabei vindo para São Paulo, onde fiquei um ano e fiz cursinho. Acabei passando em Uberlândia, que é a 200 quilômetros de Barretos. Passei  em Mogi das Cruzes, em Santo André e também em Vassouras, no Rio de Janeiro. Depois eu falei: "Para ficar perto dos meus pais, vou ficar em Barretos." Na época, eram todas faculdades particulares. Em Uberlândia, depois que fui para lá, começou um processo de federalização. Acabou virando universidade federal e me formei lá. Acho que o início de tudo isso foi com aquele braço fraturado, aos 14 anos de idade.

 

P/1 – O senhor tem alguma lembrança marcante dessa época da Faculdade de Medicina?

 

R – Olha, eu te diria que, falo até para os meus filhos, hoje tenho dois, cursando faculdade, fazendo Medicina também. Falo para eles o seguinte: "Olha, vocês aproveitem, que a melhor fase da vida é a universitária, então vocês têm que aproveitar.” Procuro passar isso à eles: "Vocês têm que procurar fazer tudo no seu tempo, não queiram pular etapa. A vida é um ciclo, então não adianta querer pular etapa. A faculdade é a melhor época da sua vida, é a época de você divertir, de estudar, fazer seus compromissos. Tem que ter responsabilidade. Mas é a melhor fase de diversão. A melhor fase para fazer amizades." As amizades da época de faculdade se eternizam. Você tem elas a vida inteira. E vou dizer que as passagens, como estou dizendo, tudo que aconteceu na universidade foi muito bom, muito bom para mim. Do ponto de vista profissional, do ponto de vista de aprendizado como cidadão, como pessoa, houve realmente um crescimento nessa época.

 

P/1 – Houve alguma passagem mais marcante, assim, algum fato?

 

R – A passagem marcante foi quando fui chamado para estudar lá na Faculdade. Então, como calouro, imagina, a gente não sabia como é ia ser essa receptividade do pessoal. Naquela época, os trotes eram realmente trotes, não digo pesados, mas eram coisas que hoje não se faz mais. O dia em que cheguei na escola, ninguém sabia, ainda não tinha me anunciado. Cheguei de cabelo comprido. Fiquei lá e os calouros sentados em uma poça d´água, cheia de terra, aquela coisa toda. Na hora, me descobriram: "Como você chama?" Eu respondi. "Ah, vem cá." Pronto, aí começou a festa. Tinha uma carreata. Então, em um prédio básico, fizeram um cordão, um corredor polonês, e você ia passando, tinha que tomar um golinho de pinga de cada um daqueles que estavam ali, no final do corredor você já não sabia mais onde estava. Só sei que me puseram uma roupa feminina, um vestido de odalisca, pela origem. Tive que descer desse caminhão vestido de odalisca e a música tocando. Era um acontecimento, a passeata dos calouros de Medicina em Uberlândia. Eu já estava mais ou menos alegre. Meu veterano passou em um açougue, falou para o cara: "Vai lá e pega uma linguiça." "Não vou pegar linguiça." "Vai lá. Está pendurada lá. Pode ir lá e pegar." "Não vou pegar não." "Rapaz, estou mandando." Fui lá. Falei para o açougueiro: "Ó, ele mandou pegar uma linguiça." Puxei aquela linguiça, ele pendurou aquilo no meu pescoço e fomos embora. Chegamos em casa e comemos a linguiça frita. São coisas assim que a gente não esquece. Essa passagem, acho que diria, que chamou atenção, foi a calourada. Esse primeiro contato com o pessoal. Mas, não era só os homens, as mulheres também sofriam, porque o pessoal selecionou uma turma de mulheres, colocaram em uma sala que tinha comunicação com a sala vizinha. Aí eles iam e falavam: "Vem cá você." Puxava uma das meninas, levavam para a outra sala. Diziam: "Agora você só grita, não fala nada, só grita." E ela gritava, jogavam uma blusa dela. Ela gritava e as peças íntimas. E as outras ficavam todas doidas: "O que esses caras estão fazendo?" Não era nada, era um tipo de brincadeira que se fazia naquela época. E depois, com as atividades do segundo, terceiro ano, no quarto ano você começa a ter um pouco mais de responsabilidade. No quinto, você já dá plantão. Aí tem que estar mais voltado para a profissão. 

 

P/1 – E a formatura, o senhor lembra?

 

R – No quinto ano, acabei sendo coordenador da Comissão de Formatura. Então tinha que arrecadar dinheiro, fazia os sorteios do prêmio que nunca chegava, mas tinha sempre. Vendia bilhetes, rifas. Nessa época, a gente fez esse caixa para preparar a formatura. No quinto, sexto ano eu tinha a opção de sair de Uberlândia para fazer estágio fora. Eu era um aluno que gostava de estudar, fazer minhas obrigações. E prestar, praticamente, um novo vestibular para o sexto ano, para poder fazer o estágio aqui em São Paulo, que era o mais concorrido. Acabei vindo para São Paulo e fiz o sexto ano lá. Foi na época em que os políticos hoje, que estão no Congresso, inclusive um deles está pleiteando para Presidência da Câmara, hoje. Ele era meu R3 [residente do terceiro ano] na época. E teve uma greve aqui em São Paulo: "Olha, você vai fazer o seguinte: nós vamos lá para o ABC, porque está tendo a greve dos Metalúrgicos." E eu não entendia bem o que eu tinha a ver com essa questão do metalúrgico. "Não, porque trabalhador é tudo igual. Nós somos trabalhadores." Bom, a gente foi para lá e ficamos em greve 60 dias, praticamente. Nesses 60 dias, falei: "Bom, tenho um objetivo, que é estudar, aprender." Então, me dediquei aos plantões ali em Mauá, na Grande São Paulo. Nesses 60 dias, eu dei 49 plantões. Com os recursos que eu ganhei dos plantões, guardei para a minha formatura:  “Agora, vou fazer uma festa boa para os meus amigos e para a minha família." Realmente, foi um ano muito marcante também. Embora com a preocupação da Residência Médica, a gente acabou fazendo uma formatura muito boa. Festa quase todo dia. Na formatura, conseguimos levar as autoridades. Foi um baile de gala, muito bom. Realmente, marcou muito a questão da formatura. Também me escolheram para ser o orador da turma. E a gente, naquela época, tinha que estar muito entre o que você pensa e o que você vai falar. Eu não podia ofender, mas era regime militar, aquela coisa pesada. A gente tinha vontade de falar uma série de coisas. Você ficava meio que se segurando. mas, dentro das possibilidade da época, daquela ocasião, a gente fez uma festa muito boa e me marcou essa questão da formatura.

 

P/1 – E o senhor já tinha começado a trabalhar, não é? O seu primeiro emprego foram então os plantões? Poderíamos considerar assim?

 

R – Poderia considerar os plantões aqui na cidade de Mauá, porque realmente não era carteira assinada, mas recebia os honorários do plantão. Meu primeiro emprego como médico foi esse.

 

P/1 – E aí, depois que o senhor se formou?

 

R – É, depois fiz os dois anos de Residência em Ginecologia e Obstetrícia na Universidade Federal. Em 1981 e 1982. Nesses dois anos de especialização, recebia como residente. Em 1982, comecei a trabalhar em um hospital em Uberlândia, o Hospital Santa Marta, de pequeno porte, já na atividade de ginecologista. Então, vamos dizer, comecei a trabalhar como autônomo e além disso arrumei um emprego numa medicina de grupo pequena, que tinha lá. Depois de três, quatro meses dentro do hospital, me solicitaram para ser o diretor clínico. Eu falei: "Gente, eu não entendo nada de nada." "Não, você conhece." "Tá bom, então, vou ser Diretor Clínico do hospital." Naquela ocasião, assumi a Direção Clínica do hospital. No ano seguinte, a Direção Administrativa. Bom, minha formação é médica. Então, com os princípios que eu consegui adquirir na minha vida, procurei colocar dentro da atividade de administração, que são: honestidade; ética e tratar todo mundo bem. Acho que são obrigações de todo cidadão. Mas implementei aquilo de uma forma mais direcionada, vamos dizer assim. E o pessoal: "Você vai ser Diretor Geral do hospital." Naquela ocasião, éramos um grupo de 45, 50 médicos, dali nós tiramos 12 que se interessaram pelo projeto. Começamos com um projeto de construção de outro hospital, que terminou 22 anos depois, no ano passado. Um hospital grande. Mas começou com esse entrosamento de 20 e poucos anos atrás. Depois disso, já em 1983, 1984, como Diretor do hospital, em 1985,  me chamaram para começar a participar da Unimed.

 

P/1 – Então, como foi seu ingresso na Unimed? O senhor entrou primeiro como médico cooperado?

 

R – É. Em 1982 comecei a atividade, já entrei como médico cooperado, porque em Uberlândia, como a maioria das cidades também onde tem Unimed, representa muito dentro da vida do médico. Economicamente, representa muito. E também existem várias oportunidades. As Unimeds colocam à disposição do médico o trabalho e o conhecimento científico, muitas vezes, fazem cursos. Dentro da atividade que nos chamaram para ser, o segundo tesoureiro, na época, em 1982, entrei como cooperado. Em 1985, fui chamado para ser Diretor da Unimed como Vice-Tesoureiro. Nesse convite e nesse intervalo, tive algumas outras atividades dentro da classe médica. Fundei o Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Sociedade Médica. Depois, também, fiz parte, como vice-presidente, da Sociedade Médica de Uberlândia. Você acaba ficando conhecido. E o pessoal: "Ah, espera aí vamos levar o Mohamad lá para a Unimed." Foi aí que entrei como Vice-Tesoureiro da Unimed. Isso em 1985 e 1986. Em 1987, eu saí. Mas, teve um companheiro que indiquei para fazer parte e por uma fatalidade ele veio a falecer. Em 1988: "Não, Mohamad, você volta." "Então eu volto." Daí para a frente também não saí mais. Em 1988, assumi o cargo de Tesoureiro novamente. Fiquei nos anos de 1989, 1990 como Tesoureiro. Em 1991 assumi a Presidência da Unimed. E, por uma série de contingências, vamos dizer assim, de circunstâncias da ocasião, a Unimed deu um salto de 110 mil usuários para 197 mil usuários em 6 anos. Quase dobrou. Então, todo mundo fica satisfeito com os benefícios indiretos. Pagando o médico bem. A Unimed cresceu muito na cidade, o nome cresceu muito. Naquela época de 1991 a 1994, administrar uma empresa do tipo cooperativa da Unimed não era tão complicado. A inflação era muito rápida e você conseguia trabalhar só com os rendimentos dos recursos que pegava. Em 1994, com o Plano Real, a coisa ficou um pouquinho mais complexa. Mas, nessa ocasião, dentro do Sistema Unimed, além da Presidência da Unimed Uberlândia, nós criamos a Federação das Unimeds do Estado, desculpa, do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. E também uma cooperativa de consumo para os médicos da cidade. Achei importante, nós criarmos uma fundação, a Funameco [Fundação dos médicos cooperados da Unimed Uberlândia]. Com as características que tem uma fundação e com as regalias. Isso tudo de alguma forma fideliza o médico, que atende melhor o cliente. E a Unimed acaba prestando um serviço tanto para o seu cooperado como para a população da cidade. Essa atividade em Uberlândia, na área médica, foi mais ou menos por aí.

 

P/1 – O senhor quer continuar contando mais um pouquinho da sua história na Unimed?

 

R – Continuando, vamos dizer assim, a trajetória, ou a minha experiência dentro do Sistema Unimed, eu vejo no cooperativismo uma alternativa. Não só para a população, mas para o usuário e para o médico, bem como o próprio apoio que essa forma de atuação dá também para o governo. Acho que ela fica em uma situação que favorece ao médico, porque gera trabalho, favorece o usuário, porque dá um tratamento adequado à um preço justo e ajuda o governo, porque ele não consegue fazer todo o trabalho que existe na assistência à saúde. Nessa atividade de cooperativismo, que eu abracei, no início, meio assim sem muita convicção. Mas depois de um certo tempo, você acaba entendendo como funciona. Em 1996, por opção pessoal, resolvi me afastar da Unimed Uberlândia. Mas, me afastei em fevereiro, dois meses depois fui convidado para vir para a Unimed do Brasil. Falei: "Olha, mas o que eu vou fazer aí?" “Você escolhe o cargo." Menos de presidente, na ocasião. Eu disse: "Não é questão de escolher o cargo, tenho uma atividade médica. Estou na minha cidade, tenho minha família." "Não, você precisa vir, porque fez um trabalho muito bom aí. Venha pra agregar alguma coisa." "Então tá bom." "Que cargo você quer? Tem Diretoria Administrativa e Diretoria de Informática. Falei: "Eu não sei nem ligar um computador, então vou para o Administrativo." E vim para a área Administrativa. Em 1997, o Sistema Unimed entendeu que a Unimed do Brasil não deveria ter a área operacional junto com a política, em função da nova legislação que entrava em vigor em 1998. Que era a Lei n° 9.656. O Sistema Unimed decidiu: "Vamos separar o que é político do que é operacional." Porque quando a instituição vai defender os interesses perante o governo e os órgãos reguladores, pode defender com uma veemência maior. Sendo operadora fica complicado, porque pode haver uma forma de pressão ou de inibição de uma ação mais enérgica, de uma ação mais forte frente aos órgãos governamentais. "Então, vamos constituir uma operadora de plano de saúde nacional para o Sistema Unimed." A pessoa jurídica que a gente chama está no segundo grau, que é o caso da Central Nacional Unimed. E quem são os sócios? São as Unimeds do país inteiro. A constituição da Central Nacional em 1998 já veio de acordo com a legislação. Foi aprovada nas instâncias do Sistema Unimed, essa separação entre política e institucional. A Unimed do Brasil fica com a representação institucional, política e a defesa da marca e a Central Nacional Unimed fica com a parte operacional dos planos de saúde de abrangência nacional. A partir daí houve uma subrogação dos contratos que existiam dentro da Unimed do Brasil, porque dentro dela havia um departamento que comercializava os planos de saúde. A migração desses contratos passou por uma subrogação para a Central Nacional. Isso já em 1999. Durante este ano a subrogaçao se completou. E nós começamos em 1999 a comercializar contratos. Nosso primeiro contrato foi com uma concorrência que não tinha rede no interior do país, uma seguradora. Ela falou: "Olha, quero fechar um contrato para assistir os meus funcionários no país." Isso em dezembro de 1998. Esse crescimento da Central Nacional em 1999 foi percebido pelo Sistema, em 2000, já tínhamos 190 mil usuários, a Central Nacional, com os planos corporativos comercializados. A partir disso, eu ainda exercia a função de diretor administrativo na Unimed do Brasil, de presidente na Central Nacional e de diretor na Unimed Administração e Serviços. Como era tudo aqui dentro acabava dando para tocar as coisas. A partir de 2001, a atividade na Central Nacional cresceu muito. Nós já estávamos perto de 300 mil usuários. Falei: "Olha, eu saio do institucional, vou tocar só a questão operacional na Central Nacional Unimed." A partir daí, fiquei só como presidente na Central Nacional. E o crescimento da Central nesses cinco, seis anos foi fantástico, do ponto de vista empresarial, de mercado e de visibilidade. Hoje, é uma empresa  que já se consolidou. E o crescimento dela, a forma com que agimos, fez com que hoje... já temos 300 Unimeds associadas, das 360. Algumas ainda não se associaram, porque ou não tem a operação ou não são operadoras ou são só institucionais de representação. Mas, ainda vão se filiar no decorrer desse ano.

 

P/1 – Então, não é uma coisa automática para as Unimeds. Como elas são independentes, elas tem que se filiar? Se elas quiserem, podem continuar vendendo o plano delas independente?

 

R – Podem continuar. Quer dizer, na forma que está estruturado o Sistema Unimed, eu diria que quem comercializa os planos individuais e locais é a Unimed singular,  a Unimed lá da cidade. Quem comercializa os planos regionais é a federação, se ela for operadora. Se ela não for operadora, quem comercializa seria a Central Nacional. Então, os planos de abrangência nacional, as grandes corporações, dentro dos nossos acordos, quem deve comercializar? A Central Nacional. Mas, não existe uma imposição ou uma regra: "Olha, você não pode vender contrato nacional." Pode. A função da Central Nacional é de complementaridade às associadas. Fizemos três, quatro pesquisas durante esse período, no sentido de saber: "Olha, a Central Nacional faz isso. O que você acha? Está bom desse jeito?" "Tá ótimo." Na última pesquisa, fizemos uma em 2004, em que o índice de satisfeito e muito satisfeito, entre os dirigentes do Sistema Unimed com a Central Nacional era de 76%. Agora, fizemos, em 2006, terminou em dezembro, foi entregue no começo do mês, o índice foi para 94%. Então, acho que nem uma Diretoria, nem uma instituição vai querer mais do que isso.

 

P/1 – Está ótimo. 

 

R – Porque 100% já sabemos que é impossível. Mas acho que o índice de satisfação está muito grande. Então, a filiação e o trabalho que as Unimeds podem fazer, todas as Unimeds podem vender o plano que acharem mais conveniente. Só que o nosso formato é para concorrer com as grandes medicinas de grupo. E já temos condições para isso. Porque hoje, de 2004 para 2005, crescemos 33% em número de usuários. De 2005 para 2006, crescemos 29,6% em faturamento e em número de usuários  15%. Saímos de 500 mil usuários em janeiro de 2006 para 570 mil usuários em dezembro do mesmo ano. Não há no mercado nenhuma empresa de plano de saúde que tenha crescido tanto. Tenho a impressão que nós, dentro daquelas... além dos prêmios todos que o Sistema Unimed ganha. Particularmente, a Central Nacional recebeu o Top de RH [Recursos Humanos]. Toda essa visibilidade, esse crescimento que está acontecendo, acho que a Central Nacional está fazendo o papel que foi determinada a fazer. Que está na missão dela, na visão e no trabalho que ela propõe. Acho que esse crescimento todo fez com que também de 2005 para 2006, nós ganhássemos 104 posições nas mil maiores empresas, editado pela revista Exame. Então, crescemos 104 posições. Tenho a impressão que esse ano devemos crescer mais algumas posições. E a gente espera, trabalha para que chegue lá no topo. Dentro das nossas características.

 

P/1 – Eu queria voltar um pouquinho. O senhor falou que tinha um cargo na Administradora de Serviços também?

 

R – UAS [Unimed Administração e Serviços].

 

P/1 – O senhor pode explicar um pouquinho para a gente?

 

R – O Sistema Unimed, vamos dizer, aqui na Alameda Santos, nós temos a estrutura de terceiro grau, o que é que existe? Tem a Unimed do Brasil, a Unimed Seguradora, a Unimed Participações, a Unimed Administração e Serviços e a Central Nacional Unimed, nesse prédio. A Unimed do Brasil, como eu disse, é institucional, política, defesa de marca, etc. A Central Nacional é operadora de plano de saúde nacionais. A Unimed Participações é a holding que controla a Unimed Seguradora, a Unimed Administração e Serviços e a Corretora. A UAS presta serviço às demais empresas. Em qual área? Nas áreas de RH, Contabilidade, Financeiro, Controladorias, Compra, Contratos, etc. Então, presta serviço para as demais empresas. Com isso, nós, no início, conseguíamos ter um ganho de escala, porque era uma empresa só prestando serviço para cinco. Para que cada um não tivesse dentro da sua estrutura essas áreas todas que eu citei. Agora, com o crescimento que a Central Nacional teve de 100 mil usuários em 2001, ou em 1999, para 570 mil usuários, houve a necessidade de internalizar essas áreas também. A Unimed Administração e Serviços continua prestando serviços nessas áreas todas. Mas a gente vai internalizar algumas ações no decorrer desse ano de 2007. Então, essa é a atividade da UAS, a qual fiz parte na Diretoria por um período. 

 

P/1 – Voltando um pouquinho para o seu tempo lá de Uberlândia, como era a implantação das cooperativas?  Era fácil implantar?

 

R – É, acho que no país, na década de 1960, na década de 1970 existiam os Iapis [Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários] e outros institutos, em que os médicos trabalhavam. E existia o Inss [Instituto Nacional do Seguro Social], o Inps [Instituto Nacional de Previdência Social] na época. Em 1967, quando foi criada a primeira cooperativa em Santos, pelo nosso querido Edmundo Castilho, ele falou: "Puxa vida, chega de ser subjugado à medicina de grupo, ser explorado pela atividade que a gente demora tanto para fazer e estudar." E dentro do próprio Código de Ética Médica, ele diz que o trabalho médico não pode ser explorado por terceiros. Isso está no Código. Então, já se percebia, naquela época,  uma tendência das empresas mercantis estarem atuando no país. Com essas dificuldades, que começaram a aparecer na década de 1970, com as cooperativas mostrando uma nova filosofia, um novo meio de trabalhar, isso rapidamente se espalhou pelo país. Quer dizer, a primeira cooperativa médica foi em Santos. Na sequência, no estado de São Paulo, Campinas e Rio Grande do Sul. Então, em Uberlândia foi a décima quarta cooperativa. criada em 1971. Já fez 35 anos. Com a dificuldade que tinha da medicina de grupo entrando no país, mas atuando mais fortemente. O Inss e o Inps praticamente quebrando. Apareceu uma oportunidade e o médico começou a ver isso: "Em vez de trabalhar para terceiros, trabalho para uma cooperativa, que os benefícios no final do ano vão ser revertidos para mim. E também, se der prejuízo, vão ser revertidos para mim." E começou-se então a passar ao médico que aquela instituição, aquela empresa era dele, que ele tinha que cuidar bem dela. Cuidar bem de que forma? Atender ao usuário, porque o que a cooperativa faz? Contrata as pessoas ou as empresas contratam a cooperativa em nome dos médicos, dos seus associados, cooperados. Essa visão que passada aos médicos e às sociedades de medicina das localidade tiveram um papel importante. Porque elas também passavam isso para os médicos associados: "Olha, é melhor trabalhar para a Unimed do que para a concorrência." Então, você tem os benefícios indiretos que cada cooperativa no país dava aos seus cooperados. Seja em forma de férias remuneradas, seja em pagamento à vista ou em disponibilidade de locais para eventos gratuitos, tinha uma série de benefícios. Para formar uma cooperativa, naquela época, não era tão difícil, porque houve um entendimento de que era a melhor alternativa. E ainda hoje eu acho que não existe alternativa melhor. A medicina se socializou muito no país. Aquele médico que a gente via há 50, 80 anos atrás, não existe mais. Antes, o médico era tratado como um semideus, vamos dizer assim. Ganhava dinheiro, porque todo mundo pagava. Atualmente, ninguém quer pagar. Ninguém não, uma boa parte não quer. Mas você tem a atividade profissional, por meio da cooperativa você consegue uma sobrevivência do ponto de vista econômico e financeiro e os benefícios indiretos que elas dão. Para montar uma cooperativa você chamava 20 médicos, tinha uma Diretoria, um Conselho Fiscal com seis membros, conselho Ético Técnico e mais três ou quatro pessoas. Era a forma mais simples. Mas agora, o que acontece? O governo entendeu que o cooperativismo é uma boa alternativa para o país, fez um discurso. Em 2000, quando o Lula assumiu pela primeira vez: "Olha, o país vai ser uma grande cooperativa." Mas, todas as ações que foram feitas foram em sentido contrário, para prejudicar as cooperativas. Porque, hoje,  se você comparar uma cooperativa de uma empresa mercantil ou de uma empresa no sentido amplo da palavra, é melhor deixar de ser cooperativa e ser uma empresa comum. Comum entre aspas, vamos dizer. Por quê? Porque os tributos são muito menores do que o que querem impor às cooperativas. Logicamente, estamos brigando e vamos continuar brigando por um bom tempo. Algumas delas já começam a ter um entendimento. Além disso, existem as dificuldades dos órgãos reguladores, a própria ANS [Agência Nacional de Saúde]  não deixa você aumentar o preço que deveria. O custo da inflação médica, vamos dizer. Ela congela os reajustes. Cada vez mais, amplia o atendimento à cobertura dos planos. E você tem uma concorrência brava, que querem de qualquer forma também tomar os clientes da Unimed. O inverso também é verdadeiro. Como eu disse, acho que hoje a própria Central Nacional já tem condições de bater de frente com as maiores operadoras concorrentes nacionais. Acho que com tudo isso e com essas dificuldades todas o Sistema vem crescendo. Nós, o Sistema Unimed em nível nacional, estamos perto de 13 milhões de usuários. E algumas alternativas o Sistema começa a ter que obrigatoriamente pensar. É o caso da verticalização, não posso mais só vender o plano de saúde. E quem vai atender o atendimento médico, obviamente, é o médico. Mas quem, onde vou internar? Na rede particular? Esse também é um peso. Então, quem sabe se nós fizermos com nossos recursos próprios, vamos criar mecanismos de competitividade com a rede contratada? Porque eu já conheço preço. Vamos constituir, formar farmácias que hoje o Sistema Unimed deve ter perto de 100, 115 farmácias, 60 hospitais próprios. O Sistema Unimed gera 20 mil empregos. Então, acho que nós temos que começar a pensar em alternativas para que a gente não fique na mão só da rede credenciada, tendo que acatar a imposição de preço, etc. E tendo o seu recurso próprio, você conhece o preço. Não adianta o cara vir falar para mim que esse material custa 26 mil reais, se eu sei que custa oito. Tem os impostos, sua margem de lucro, está tudo muito bem. Se custa oito, eu vou te pagar doze, que é 50% a mais. Nenhuma atividade no país está dando cinco, oito, dez por cento ao ano. Então você está ganhando 50%, está bom demais. Quer dizer, você conhece, então você pode negociar. E isso, com certeza, com a implantação das farmácias, nós conseguimos balizar o preço dos medicamentos nas várias localidades que possuem farmácia. Onde tem recursos próprios, hospitais próprios, laboratórios próprios nós conseguimos colocar um preço justo. Ninguém quer também matar o nosso parceiro. Nosso parceiro, que eu digo, da rede que nos atende. Mas, também não podemos ser explorados. Com todo esse conjunto de ações a gente consegue sobreviver. Acho que a maioria das Unimeds, vamos dizer, está no ponto de equilíbrio. Tem um número - com dificuldades - mas acho que todas estão caminhando para resolver os seus problemas.

 

P/1 – E como o senhor vê, ao longo desses anos, os momentos históricos mais marcantes na Unimed?

 

R – Olha, eu separaria em momentos políticos e em momentos extra políticos, dentro do Sistema Unimed. Um fato marcante foi a própria legislação, a criação da ANS. Para o Sistema Unimed, em particular, e para as operadoras de plano de saúde, para o mercado da saúde suplementar, em uma segunda visão. E a questão interna nossa, política. Tivemos uma desavença política em 1998, em que houve uma separação do Sistema Unimed. E essa separação foi muito prejudicial, porque ficamos oito anos com brigas internas e você não conseguia crescer. Por quê você não cresce? Porque a concorrência aproveitava disso e dizia: "A Unimed vai fechar. A Unimed local vai quebrar. Tem uma Unimed lá em São Paulo que já fechou, que está quebrando." Do ponto de vista político interno, esse foi um fato marcante para o Sistema Unimed. E do ponto de vista empresarial, administrativo, acho que a vinda da ANS foi marcante. Era necessário? Era. Acho que a regulamentação era necessária. Porque tinha um monte de picareta atuando no mercado. Existiam três mil operadores de plano de saúde no país. Hoje são 1400, 1500. Ficou quem? Quem realmente atua, quem trabalha direito, quem tem competência. Acho que esses fatos, no Sistema Unimed, foram, na minha visão, os mais marcantes. Dentro do Sistema, vamos dizer assim, a quebra e a liquidação da Unimed São Paulo também trouxe de forma direta para a Central Nacional um peso, uma sobrecarga que tínhamos que assumir, não tinha outra forma de fazer. O que a ANS disse: "Olha, tem 52 mil vidas, 52 mil pessoas em São Paulo e alguém tem que dar atendimento." Na ocasião, estávamos divididos politicamente. A Central Nacional, sendo em São Paulo: "Central Nacional, você vai ter que assumir." O nosso foco não é a pessoa física, é a pessoa jurídica. E para atuar com pessoa física, tive que montar uma estrutura na cidade de São Paulo. Uma rede de atendimento, 1400 médicos para atender. Nós mudamos o foco, estávamos em um ritmo de crescimento do ponto de vista do nosso foco, que era empresarial. Paramos em 2001 para tentar reverter a situação. Hoje, está tudo resolvido, o atendimento está aí. Não são mais 50 mil vidas, mas são 30 e poucas mil que tiveram atendimento e resolvemos um problema. Agora continuamos crescendo. E a preocupação na ocasião, foi em 2001 a criação da Central em 1998. Em 1999, ela começa a atuar, ainda engatinhando. No ano de 2000, começando a ter um fôlego. Em 2001, tivemos que parar, gastar um pouco de energia, ou muita energia nesse fato. E conseguimos. Hoje, a coisa já está entrosada, está integrada dentro da Central Nacional. Os funcionários que vieram, as pessoas, a rede sempre recebendo em dia. Já acertamos com o liquidante. Então, todo esse processo terminou. Acho que esses fatos eu julgaria de maior importância.

 

P/1 – Era a Unimed Paulistana essa que o senhor está falando?

 

R – Não, a Unimed São Paulo. A cidade de São Paulo é a única do país que tinha duas Unimeds atuando. Era a Unimed Paulistana e a Unimed São Paulo. A Unimed Paulistana veio em 1971 e a Unimed São Paulo logo depois. Então, em um determinado momento, as duas tinham a mesma área de ação. Como uma estava integrada ao Sistema Unimed, que era a Unimed São Paulo, a genre reconhecidamente lidava com ela. Posteriormente, a Unimed Paulistana também começou a fazer parte do Sistema Unimed. Com a liquidação da Unimed São Paulo, hoje, restou a Unimed Paulistana atuando na cidade de São Paulo, vendendo planos locais, planos de pessoa física, etc.

 

P/1 – Quero saber se entendi certo: a Unimed São Paulo atendia mais pessoa física, é isso?

 

R – Não, as duas atendem o mesmo foco: pequenas empresas, pessoas físicas, ambas. Atuam onde? Na cidade de São Paulo. Então, são Unimeds locais. Esse era o foco da Unimed São Paulo e também da Paulistana. Mas isso não é, volto a repetir, não é uma obrigação: "Você não pode vender contratos nacionais." Ela pode vender contratos nacionais, mas não é seu foco. Deveria ser da Central Nacional. Agora, todo esse acordo, já começa a se entender e captarem que essa é a realidade: "Olha, vamos, a Unimed Paulistana vai vender contrato e atendimento na cidade de São Paulo, pessoa física e pessoa jurídica. A Central Nacional vende os contratos nacionais." E tem a questão do intercâmbio que você tem. A cidade de São Paulo recebe o fluxo de muita gente do estado e do país inteiro. A Unimed do nordeste, do Rio Grande do Sul manda através do intercâmbio pela Unimed Paulistana. E mandava pela Unimed São Paulo. Então isso gerou, dentro da Unimed São Paulo - não só isso - a aquisição de prédio para se construir um hospital, investimentos em transporte aeromédico, compra de áreas. Houve um desvio, vamos dizer assim, do foco, que era assistência médica, para outra atividade. E isso acabou gerando prejuízos. Chegou à um prejuízo de 200 e poucos milhões de reais. E tivemos que fechar. A ANS veio, fez a intervenção e a liquidação da Unimed São Paulo. 

 

P/2 – Como é compatibilizar trabalho de médico com a gerência da Unimed?

 

R – No início era aquela coisa, eu tinha uma atividade médica 100% do meu tempo. Depois, voltando em 1982, tinha uma atividade voltada 100% para a área médica. Depois, na Direção Clínica, ao invés de 100% já é 90%. Aí pega outra, já é 80%. Então, é possível conciliar? É, desde que você esteja na localidade. Você vai ter um desgaste, vai trabalhar muito mais, mas é possível conciliar as duas coisas. Agora, uma atividade fora do seu local de atividade médica, como é o meu caso, há uma dificuldade muito grande. Então, a atividade médica praticamente está abandonada. Hoje, inverti. Faço 90% executivo e 10% médico. Uma época me trouxe muito mais angústia. Hoje, acabei abraçando essa questão de gestão, de executivo, de administração e estamos tocando. Agora, quando você eventualmente tiver que voltar a trabalhar como médico? Vou ter que fazer, talvez, toda uma reciclagem para atualização, na área médica, para voltar a atuar. Mas, consulta e atendimento clínico ainda faço. Procedimentos cirúrgicos, tenho companheiros que posso estar repassando o paciente para ser operado. A conciliação vai nessa linha.

 

P/2 – Lá em Uberlândia, o senhor ainda mantém contato com os fundadores da Unimed? Com os que começaram a trabalhar com você?

 

R – Ah, todos estão em atividade e são companheiros. E vez ou outra, uma participação dentro da própria administração ou da própria atividade da Unimed, a gente vai até como presidente da Central Nacional, tenho a oportunidade de estar passando o conhecimento sobre algumas coisas que a gente está vendo aqui em São Paulo. Participo das reuniões com o pessoal, eventualmente,  das direções da Unimed local e da federação regional. Como disse, criei e fiquei como primeiro presidente na ocasião. Até nas cooperativas de crédito. Em 1994, constituí uma cooperativa de crédito em Uberlândia para os médicos da cidade, que é a Unicred [Instituição Financeira Cooperativa]. Foi a nona Unicred a ser criada no país. E hoje, também está com a atividade prestando serviços, concorrendo com os bancos. A atividade médica ficou muito prejudicada nessa questão. 

 

P/1 – Um dos princípios básicos do cooperativismo é a educação. Como o senhor vê essa questão dentro da Unimed?

 

R – Olha, eu acho que o Sistema Unimed  foi muito feliz quando criou algumas estruturas conhecendo os princípios do cooperativismo. Dentro daqueles princípios,  criou algumas instituições para prestarem serviço. Então, acho que você falou em educação, educação cooperativista, médica. Na época, foi criado o que a gente chamava de Centro de Estudos Unimed [CEU]. Foi criado em Minas Gerais e começou prestando serviço para as Unimeds da região, depois para o estado, depois se espalhou pelo país. No sentido de educação cooperativista, treinamento, até em áreas administrativas. Então, é Centro de Estudos Unimed, depois virou a Fundação Universidade Unimed, que foi tentando ser uma universidade corporativa, com todos os passos necessários. Depois mudou o nome, agora é Fundação Unimed. A Fundação é a responsável dentro do Sistema Unimed por essa parte de educação cooperativista. Existem também os comitês educativos, que são núcleos, ou comitês locais e regionais. Anualmente, eles fazem um grande encontro e ali colocam as ideias, as evoluções: "O que nós vamos fazer?" O presidente da Fundação está aqui conosco na Unimed do Brasil. Acho que a atividade educativa, dentro da filosofia cooperativista, se faz mediante a Fundação Unimed. 

 

P/1 – E quais foram os principais desafios que o senhor acha que enfrentou pessoalmente na Unimed?

 

R – Para mim, o maior desafio que enfrentei dentro do Sistema Unimed foi a criação da Central Nacional Unimed. Olhando para trás, vejo que foi um desafio que felizmente conseguimos vencer. Acho que foi um desafio, porque era uma estrutura, uma coisa nova, ninguém sabia como ia ser a legislação, como seriam as regras. Uma legislação que veio através de 48 ou 59 medidas provisórias, ou, mensalmente editava-se uma nova medida provisória alterando a lei. Realmente, aquilo criou uma ansiedade. Foi um desafio. Sabia das dificuldades. Logicamente, temos pessoas muito capacitadas no Sistema Unimed. Ninguém faz nada sozinho. E eu soube escolher as pessoas para estarem comigo nesse projeto. Desde o início, trocamos e  já estamos na terceira gestão da Central Nacional. Já trocou os vice-presidentes. Trocaram uns quatro, cinco vice-presidentes: "Ah, não quero esse negócio não." Sai. Entra outro: "Não quero isso mais não." Sai. E o presidente continuou nesse período todo. Esse foi um grande desafio para mim, tentar criar essa instituição. Volto a repetir: hoje, vejo com grande satisfação a Central Nacional dentro do contexto do Sistema Unimed.

 

P/1 – E a principal realização seria essa ou tem outra que o senhor considera?

R – Acho que sim, essa é a principal realização, porque eu, como disse no decorrer da entrevista, nas várias atividades, acho que essa é a que mais traz gratificação, no sentido de satisfação pessoal. Porque você começa uma coisa do zero e está onde está hoje. Um faturamento de 600 milhões por ano. É um negócio que realmente chama a atenção. Falo isso com toda a humildade, que não é nada, mas eu tive a oportunidade e a sorte de ter também companheiros trabalhando comigo, funcionários altamente capacitados e que vestiram a camisa: "Ó, doutor, nós vamos com o senhor até o fim." Começamos em 1999 com 48 funcionários. Hoje, temos 480. Não tinha nada. A empresa não existia. Não tinha uma área física. Hoje, temos sete conjuntos nesse prédio. Todos de propriedade da instituição. Então, acho que fui conduzido, fui eleito para fazer uma função, realmente fiz e me trouxe muita satisfação. Essa formação da instituição. 

 

P/1 – O senhor falou nos funcionários. O que o senhor considera que a Unimed representa para o funcionário? Tanto no passado como atualmente?

 

R – Olha, eu diria e vou responder pela Central Nacional. Acho que os funcionários da Central Nacional não podem se queixar. Quer dizer, sob minha visão, porque eu disse, 48 funcionários, que estavam nas várias áreas dentro da Unimed do Brasil, dentro da UAS. Centralizamos todos em uma atividade, em uma instituição só:  "Olha, nós vamos crescer juntos. Se a instituição crescer vocês vão crescer." Houve um engajamento deles. Hoje, daqueles 48, eu diria que deve ter uns 20. Outros foram vindo na sequência. Daqueles primeiros 48, uns 20 ou 22 desses, todos têm hoje cargos de destaque dentro da instituição. No corpo gerencial, no corpo de coordenadorias. Houve um crescimento para eles. E os outros funcionários que vieram na sequência, nós também fazemos pesquisa de satisfação interna. Logicamente, o funcionário sempre quer a melhor remuneração, vai ser eterno. Não poderia ser diferente. Mas acho que o índice de satisfação do funcionário, dentro das empresas do complexo é bom e  dentro da Central Nacional acho que é ótimo. Estou puxando um pouco a sardinha para a instituição. A gente percebe essas coisas. É no corredor, no dia a dia. A gente procura fazer o que pode dentro da instituição. Não é só o salário, não é só a remuneração. É o salário, os benefícios indiretos, que a lei nos obriga. Além desses, são vários outros que a lei não nos obriga que existem dentro do Sistema Unimed. E procuramos também fazer mais ou menos os mesmos, a política salarial, a política de benefícios para todas as cinco empresas que citei. Dentro do complexo, a gente procura fazer mais ou menos a mesma coisa. Uma diferencinha aqui, outra acolá. Acho que o índice de satisfação deles é muito bom.

 

P/1 – E para os médicos cooperados, como o senhor vê o que representa a Unimed?

 

R – Olha, para o médico cooperado, você pode dizer que em algumas situações, 70% do rendimento do médico sai da Unimed. Então, se o cara perder a Unimed, está enrolado. Vamos supor que Unimed feche naquela localidade. Ele vai ter que ir buscar esse rendimento de outra forma, no particular. Se ele recebia x, vai cair para x dividido por três. Acho que a Unimed hoje é a instituição mais importante para o médico cooperado. Na cidade de São Paulo, é a Central Nacional Unimed, sendo uma cooperativa de segundo grau, não pode ter médicos cooperados, porque o médico se coopera na cooperativa de primeiro grau.

P/1 – Na singular. 

 

R – Na singular. Na de segundo grau ele pode ser credenciado, como é o nosso caso. Em função de que? Da extinção da Unimed São Paulo, eu tive que ter médico para atender aquele público. Então, os médicos que estavam na Unimed São Paulo foram credenciados para o atendimento aos usuários nesta cidade. Com esses médicos, fizemos uma pesquisa recente. Também o índice de satisfação está bom, mas pode melhorar. E eu fiz a pesquisa para que? Justamente para isso, para saber qual a percepção deles com a Central Nacional, o que estão achando, o que querem. E o que é que ele quer? Melhor remuneração. Vamos tentar fazer o máximo para que ele seja melhor remunerado. Benefícios indiretos. São ações que estão no planejamento de 2007 para esses 1400 médicos na cidade de São Paulo.

 

P/1 – Que é um caso único?

 

R – Um caso único, porque não é o comum. Eles deveriam estar cooperados ou da Unimed São Paulo ou da Unimed Paulistana. Mas por outros problemas não estão. A Central assumiu, então a outra ainda está aguardando para ver o que faz.

 

P/1 – Ao longo desse tempo, em relação ao seu relacionamento com os colegas, tem alguém especial que o senhor gostaria de citar?

 

R – O Sistema Unimed tem uma coisa assim, meio que mística. Parece que você entra nesse negócio, vai crescendo dentro do Sistema e aquilo te dá satisfação. E o convívio hoje, tenho uma grande felicidade, uma satisfação enorme, de onde eu estiver no país, hoje, conheço alguém. Qualquer localidade que eu for, tenho um companheiro. Se tem Unimed, eu tenho um companheiro. Se tem um médico e ele atende Unimed, então tenho um companheiro. Do ponto de vista de amizade, fiz amigos pelo país inteiro. Eu citaria até como uma homenagem, vamos dizer assim, o presidente Edmundo Castilho, que eu acho que é uma pessoa que fez um trabalho fantástico. Teve a ideia de criar uma estrutura que hoje está aí invejada, até mundialmente, porque a maior cooperativa médica do mundo é o Sistema Unimed. Então, acho que eu citaria ele, outros companheiros que eu convivo  há seis, sete, dez anos dentro do Sistema Unimed também são pessoas especiais. Mas, dentro da instituição, o convívio maior e a homenagem que eu faço nessa minha fala é ao Edmundo Castilho, com quem eu trabalhei durante quatro anos. Sempre muito respeitoso com a gente.

 

P/1 – E existe algum caso pitoresco ao longo desses anos que o senhor gostaria de contar? Que ocorreu.

 

R – Acho que de algumas coisas que aconteceram durante os cinco anos, lá na Unimed do Brasil, como responsável pela coordenação das Convenções Nacionais, me lembro que levamos uma pessoa para fazer uma palestra na Convenção de Porto Alegre. Ele tinha uma coisa de hipnotizar as pessoas. Aquilo eu achei assim...levamos o cara e ele fez : "Todo mundo de braço levantado, todo mundo com a mão para cima e entrecruzado, entrelaçado. Agora, aqueles que não acreditam muito larguem as mãos." Um bom número de pessoas tirou as mãos. Sobraram uns 20 que não conseguiam de jeito nenhum. Ele foi lá, mandou buscar os 20, pôs na frente dele e um dos colegas, que era presidente aqui da Unimed de Americana, ou é presidente ainda, colocou essas 20 pessoas e fez esse companheiro como maestro, todos de olhos fechados, regendo uma orquestra. E todo mundo tocava: "Ó, você vai tocar violino, você vai tocar bateria, você o saxofone." E todo mundo, cada um com seu instrumento, não saía som nenhum, obviamente. Mas aquilo... O cara conseguiu hipnotizar esse povo todo. Depois, eu falei: "O que esse cara fez?" E o maestro, os músicos, ninguém se lembrava de nada. O povo ficou rindo dele: "O que foi?" "Ah você..." "O que é isso? É mesmo?"

 

P/1 – Não sabia o que tinha acontecido.

 

R – Pediu para ver a gravação. Eu achei que dentro dessas convenções, esse fato, essa palestra, foi diferente das outras. E vários outros, que ele levou, mas esse me chamou mais a atenção.

 

P/1 – E na sua carreira de Medicina, tem algum fato marcante?

 

R – Eu tenho um fato marcante. Depois de 36 horas de plantão, eu já não estava entendendo mais nada, fui fazer um parto e, de repente, a senhora já estava na posição, a criança nascendo, aquela coisa toda. E o meu desespero para tirar aquele feto, porque era um feto enorme. Ela nascendo, a mãe e tal e a enfermeira do lado me ajudando. Eu estava tão cansado e aquela criança nascendo. De repente, nasceu a criança, roxa, danada: "Puxa vida, ô, Benedita, a criança está, a criança parece que está mal." "Não, doutor, essa criança está morta há tanto tempo." "Benedita, mas você me deixa estressado esse tempo todo, eu achando que..." Quer dizer, aquele fato me marcou tanto que nunca mais esqueci. Mas uma criança de cinco quilos e seiscentas gramas. Já tinha óbito fetal há dois dias, sei lá. Mas até então eu não sabia, a mulher já chegou. E o pessoal trabalhava muito bem, só chamava o médico na hora, realmente. Depois, fui dormir, mas não conseguia. Parecia que eu tinha visões, alucinações. Realmente, esses plantões da época aqui de São Paulo, a gente não esquece não. Plantões de 36 horas não se esquece. Se agora voltar a dar plantão, vai ser de 12 horas só. Nada mais de 24 horas.

 

P/1 – Doutor, qual o seu estado civil?

 

R – Sou casado, muito bem casado. Com dona Heloisa Zacarias Atiê. Vamos fazer 24 anos de casamento esse ano. Tenho três filhos, dois fazem o curso de Medicina. A menina está no quarto ano e o outro rapaz está no terceiro. O mais novo está prestando vestibular para Agronomia. Esse é o meu estado civil e a minha família.

 

P/1 – Quer contar um pouquinho sobre como o senhor conheceu a sua esposa?

 

R – Olha, a conheci quando fui fazer a inscrição para a faculdade em Uberlândia. Eu tinha alguns companheiros que moravam por ali na região. De repente, eu a vi do outro lado da rua, achei ela muito bonita. Dali começou um caso, vamos dizer, de paixão, para as câmeras,  e depois de quatro, cinco anos, realmente,  eu comecei a namorar. Foi para casar. Mas, foi nessa época, uma das primeiras moças que eu conheci em Uberlândia.

 

P/1 – E o que mais o senhor gosta de fazer na sua hora de lazer?

R – Olha, meu lazer, eu não dispenso um futebol, um racha, ainda consigo correr um pouco. Não com a mesma agilidade de algum tempo atrás, mas ainda faço um futebol de vez em quando. Procuro, para manter um estado saudável, fazer uma esteira durante 40 minutos iou uma hora por dia e gosto de sauna, na qual vou toda semana. Também ando de bicicleta, sempre que possível ainda faço um exercício. Quando não caminho, ando de bicicleta para passear, para andar na cidade. Uma vez por ano, a gente tira umas férias, vai para uma praia .

 

P/1 – E o senhor ainda mora em Uberlândia?

 

R – A família mora em Uberlândia, eu venho a São Paulo toda semana. Passo três, quatro dias aqui em São Paulo.

 

P/1 – Nós vamos passar para uma parte final de avaliação. Acho que algumas coisas o senhor já respondeu. Mas, como o senhor vê a atuação da Unimed do Brasil hoje?

 

R – Olha, acho que a Unimed do Brasil está fazendo um papel importante, que está na sua definição, na sua missão e, às vezes, a ansiedade dos companheiros, do dirigente sempre querendo mais. Mas entendo que está fazendo o que é possível. E está desempenhando um papel institucional, defesa do Sistema Unimed tanto no Judiciário, quanto no Executivo e Legislativo, com as armas que tem. Então, acho que está desempenhando um papel muito bom.

 

P/1 – E como o senhor acha que a sociedade vê a Unimed?

 

R – A sociedade vê a Unimed de uma forma muito boa, como uma empresa que tem responsabilidade social, uma empresa humana. Uma empresa que de alguma forma presta serviço à sociedade. Seja através da assistência médica ou de ações de responsabilidade social. Cada Unimed fazendo a sua parte. E a Unimed do Brasil consegue, vamos dizer, juntar todas as ações e divulgar isso melhor. Então, acho que a sociedade nos vê como parceiros. Por quê essa percepção? É uma constatação. Se você faz uma pesquisa entre satisfeito e muito satisfeito com o Sistema Unimed - e foi feito isso em nível nacional - você tem 91% de aprovação. Acho que é um índice muito bom para o Sistema Unimed, nós estamos no caminho certo. Acho que devemos continuar nesse caminho e também, a sociedade como um todo nos vê assim. Em especial, o médico  vê o Sistema Unimed assim. O índice de satisfação com o Sistema também constatado por pesquisas através do Datafolha, mostra o índice de satisfação do médico com o Sistema, que é muito positivo.

 

P/2 – No tocante à responsabilidade social, de que forma a Central Nacional atua?

 

R – Olha, nós temos alguns programas dentro da Central Nacional, temos uma área específica para isso, que faz uma série de ações sociais. Em parceria com hospital, com o GRAAC [Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer], tem um coral infantil que a gente patrocina e várias ações dentro da atividade da assistência médica. Muitas vezes, colocando à disposição de alguma entidade consultas médicas, exames, etc. Atuamos nesses cinco, seis programas que temos dentro da instituição. Parceria com a escolinha para voluntários. São várias atividades que desenvolvemos na Central Nacional dentro da área de responsabilidade social. Porque hoje acho que é uma obrigação das empresas, tanto no nosso caso como das empresas contratantes. E algumas empresas contratantes, para contratar um plano de saúde, já começam a analisar e querem saber o que você faz: “O que a sua empresa faz dentro da área de responsabilidade social?” "Nós fazemos isso, isso e isso." "Então, tá bom." Chega a ser um diferencial em uma definição de empate, por exemplo, tecnicamente as pontuações entre uma empresa e outra, se empatarem, vai ser escolhida a que faz mais responsabilidade social. Então, volto a insistir, eu acho que é uma obrigação das empresas, porque o governo sozinho não dá conta. Já se mostrou incapaz. Acho que o empresariado tem que colaborar, sim. Tem que contribuir. E acho que nós estamos fazendo o nosso papel, cada vez mais. Ainda, autorizei no final do ano: "Olha, para 2007, se nós temos cinco programas, vamos dobrar." Para eu tentar contribuir com a sociedade. A gente sabe das dificuldades que o país passa, da população, do sofrimento. Qualquer chuva, qualquer inundação derruba estradas, aterra casas, acho que a gente tem que procurar colaborar. 

 

P/1 – E qual a sua visão de futuro em relação à Unimed do Brasil?

 

R – Como eu disse, a nossa fatia de mercado, o nosso trabalho em nível nacional, está muito bem. Então, acho que nós vamos crescer. A Unimed do Brasil, nessa coordenação que está fazendo, com a pacificação, com a reintegração do Sistema Unimed, politicamente, só temos a ganhar. Então, para mim, o futuro é muito bom. Tenho uma visão de futuro muito boa, no sentido de que com tudo isso que eu disse, com a reunificação do sistema, com a questão de nós cada vez mais prestarmos um serviço melhor e de qualidade. Um retorno do crescimento das instituições. Estamos mostrando ao governo que nós somos parceiros, não  inimigos das instituições. Queremos trabalhar, mas temos que ter condições para isso. Então, estamos procurando sensibilizar de uma forma prática, com números, com resultados, que os equívocos que existem, estamos corrigindo-os. Essa série de ações que o Sistema Unimed faz, coordenadas pela Unimed Brasil, parcerias no esporte. Quer dizer,  o Sistema Unimed tem várias parcerias que mostram que somos uma empresa séria, queremos ajudar o governo, queremos ajudar o país. Acho que o crescimento da Unimed vai acompanhar o do país.

 

P/1 – Na sua opinião, qual é a importância da Unimed para o cooperativismo no Brasil?

 

R – Eu diria que o cooperativismo brasileiro ainda tem uma visão, infelizmente, espero que mude, de que a Unimed  fica meio que do lado do cooperativismo. E dentro das cooperativas de trabalho do país, a maior é a Unimed, porque tem 100 mil médicos cooperados, associados, prestando assistência a 13 milhões de pessoas. Então, o cooperativismo brasileiro tem que parar de olhar só... porque quando se falava em cooperativismo, se pensava só no cooperativismo rural, só cooperativismo aos plantadores de abacaxi, aos plantadores de café. E o trabalho? Cooperativismo de trabalho se restringia aos colhedores de café, ao não sei o que. Então, acho que hoje não. Hoje é preciso entender que o Sistema Unimed é o cooperativismo de trabalho mais forte que existe no país. Não tem outro. Você vai comparar com qual? Acho que a organização, a OCB [Organização das Cooperativas do Brasil], as OCE [Organização das Cooperativas dos Estados], elas tem que ver as Unimeds também, da mesma forma que eu disse que o governo tem que nos ver. Como cooperativas que estão contribuindo com o crescimento do país e do cooperativismo. Então você imagina, a Unimed do Brasil, hoje, tem assento na ACI [Aliança Cooperativa Internacional]. Dentro da ACI, tem um ramo que é o Cooperativismo de Saúde. No Cooperativismo de Saúde,  tivemos a oportunidade, em 2005, de estarmos na Argentina participando de um evento do IHCO, que é o Institute Health Cooperative Organization, da ACI. Então fomos mostrar o que é o Sistema Unimed. Havia 22 países representados, você não imagina a surpresa desse pessoal com os números do Sistema Unimed. Em particular, mostrei o que é a Central Nacional, qual é o nosso papel e quais são as ações de responsabilidade social que fazemos. Então, mostrei uma instituição, a Central Nacional. E o resto? Que fazem a mesma coisa ou fazem até algumas ações a mais. Esse cooperativismo, que agora já estamos sendo vistos no exterior, que ainda falta talvez aqui, os órgãos do cooperativismo brasileiro têm que nos ver assim e nos defender dessa forma. Já estamos tendo um ganho, melhorou muito de uns tempos para cá. Mas ainda acho que tem muito espaço para melhorar.

 

P/1 – O senhor conhece alguma história da Unimed que acha que não pode deixar de ser contada? E por quem deveria ser contada essa história?

 

R – Olha, acho que dentro do Sistema Unimed, cada Unimed é uma história. E cada um vai contar a sua história e de uma forma peculiar. Cada uma tem os jeitos da constituição, as dificuldades que existem. Os prazeres, a satisfação depois da constituição, depois do evento realizado, depois da estrutura pronta. Todas têm as suas histórias, independente do seu tamanho. As dificuldades, as satisfações, a realização do projeto. Acho que todas as histórias que a Unimed tem merecem ser contadas. Não me lembro assim de nenhuma especificamente.

 

P/1 – Quais foram os maiores aprendizados que o senhor teve trabalhando na Unimed?

 

R – Eu diria que o aprendizado do relacionamento interpessoal. Como a gente acaba conhecendo e lidando com um grande número de pessoas, você tem que ter muita, não digo habilidade, mas você tem que ouvir. Tem que analisar, responder na hora certa, fazer a ação na hora certa. Agora, o fundamental é que você seja correto e honesto na sua fala com o companheiro. O aprendizado, eu diria, aprendi muito como lidar com as pessoas e com comportamentos totalmente diferentes. Pessoas dóceis, pessoas mais agressivas, você começa a conhecer o ser humano. Então, do ponto de vista de relacionamento pessoal, acho que foi um aprendizado para mim. Do ponto de vista empresarial, como eu disse, a minha formação é médica. Quer dizer, acabei, nesses 10 anos de atividade dentro do Sistema Unimed, aqui em São Paulo, e com mais oito anos lá em Uberlândia, quer dizer, do ponto de vista empresarial foi um aprendizado saber como lidar com as instituições. Como lidar com a operação, com uma empresa. Eu não tinha a experiência até então, não conhecia esse caminho. Mas também conhecendo, fazendo com  bom senso, com  trabalho. O trabalho é que resolve, que dá o resultado. Você não vai ver ninguém que não pegue firme na coisa ter sucesso. A sua instituição, a sua empresa, o seu convívio com  família, a sua estrutura familiar, nada vai para a frente se você não tiver o trabalho. O resultado do trabalho é a compensação que a gente consegue ver em várias ações ou atividades que a gente exerce. 

P/1 – Tem alguma pergunta que a gente não fez ou alguma coisa que o senhor gostaria de falar?

 

R – Não, acho que abordamos bem o assunto.

 

P/2 – O senhor poderia nos contar um pouco do seu primeiro dia de trabalho, do primeiro caso, do primeiro paciente que apareceu?

 

R – Olha, eu diria que o primeiro paciente foi um caso tão complexo, já peguei o caso complicado no início. Não foi o primeiro dia de trabalho, mas me lembro desse paciente especificamente. Era uma moça de 12 anos de idade, dentro da área de ginecologia. Existe uma síndrome que é uma genesia de útero, ovário e malformação renal, além de um problema na mama, nódulos mamários. Peguei aquilo falei: "Isso aqui é uma enciclopédia." E foi uma experiência. É praticamente  um casamento que você pega. O que você faz com essa paciente, porque ela nunca mais te larga. Na primeira consulta ela foi com 10, 12 anos de idade. Hoje ela deve ter uns 30 e poucos anos. Eu ainda a vejo, uma vez por ano ela aparece para pelo menos conversar comigo. Ela teve que se submeter a uma série de intervenções cirúrgicas para ter uma vida, não diria normal, mas próxima do normal como mulher, etc. Esse caso, realmente, chama Síndrome Rokitansky. Esse nome me acompanha desde esse período todo. É, desde sempre. Então acho que essa foi a primeiro paciente. E no primeiro dia de trabalho aqui também eu falei: "E agora, o que eu vou fazer na Unimed do Brasil?" Você não tem muita ideia do que é que você... "Quer saber de uma coisa? A primeira coisa que eu tenho que fazer é conhecer as pessoas." Chamei o gerente: "Vem cá, vamos andar aqui. Vou me apresentar e quero conhecer as pessoas." Fui de área em área: "Qual é aquele núcleo ali?" "Aquele núcleo é de credenciamento. Aquele é de auditoria. Aquele núcleo é de..." Aí, eu sentava, ficava ali e falava: "Quero conhecer todo mundo." Então você já começa a fazer um relacionamento que no futuro é o reflexo daquilo: "Poxa, o doutor chegou e sentou aqui, falou comigo." Porque as pessoas parecem que nos vêem assim como dirigente, uma distância muito grande. E eu sou um cara, diria eu sou uma pessoa simples. Não tenho essa, talvez pela formação médica, lido com pessoas de todo nível. Não acho que estou fazendo nenhuma, para mim, sou assim e vou continuar sendo assim. Acho que isso me trouxe até uma recompensa de relacionamentos. Você vai, conversa com as pessoas, elas acham: "Nossa, o presidente falou comigo! Ele me cumprimentou hoje!" Não vejo nada de exagerado nisso. Tem que ser assim e vou continuar. E, às vezes, quando você não percebe, ou não cumprimenta porque não viu mesmo: "O presidente nem olhou para a gente, você viu?" Também tem a crítica, tem o outro lado. Mas, tá bom.

 

P/1 – O que o senhor acha da Unimed comemorar os 40 anos de vida por meio desse projeto de memória?

 

R – Eu sempre defendi que tudo na vida tem que ter história. Que aquilo que você não registra passa e vai embora. Então, acho que tem que ter história. Você tem que saber de onde apareceram as coisas. Nada apareceu espontaneamente. Tudo tem uma história e eu valorizo muito. Acho que comemorar, fazer um projeto de memória de 40 anos, é de suma importância tanto para aqueles que não conheceram a história passada quanto para os que virão no futuro e terão a oportunidade de saber como as coisas aconteceram. Acho que é um projeto muito importante, parabenizo pela iniciativa a Unimed do Brasil. E não é qualquer empresa que faz 40 anos. Você sabe que estatisticamente, as empresas que têm 40 anos não somam nem 5%. Sei lá, 10% por cento das empresas têm mais de 40 anos. Então, acho que essas histórias têm que ser contadas, sim. De uma forma ou de outra merecem e precisam ser contadas. Acho que o projeto, voltando a repetir, é de uma grande importância e iniciativa, parabenizar a iniciativa do nosso pessoal.

 

P/1 – E o que o senhor achou de ter participado da entrevista?

 

R – Achei muito bom, foi um momento até de relaxamento. A gente vem com uma expectativa, mas realmente, é o trabalho de vocês, vocês deixam fluir a coisa muito facilmente. Acho que foi bom, gostei muito. E agradecer a oportunidade de poder participar desse projeto e fazer esse depoimento aqui, bem como me colocar à disposição. Qualquer outra coisa no decorrer do desenvolvimento do projeto, se precisar estou à disposição. 

 

P/1 – Em nome da Unimed e do Museu da Pessoa nós agradecemos a sua entrevista. Obrigada.

 

R – Muito obrigado. Sucesso no projeto.

 

P/1 – Obrigada.

 

- - - FIM DA ENTREVISTA - - - 

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