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História

"Se te derem um limão, faça uma limonada"

História de: Nancy Fiorini Marçal
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/10/2014

Sinopse

Nanci é uma jovem que nasceu com paralisia cerebral e escoliose, mas que tem no otimismo a sua força de vida. Em seu depoimento ao Museu da Pessoa recorda fatos de sua infância: as brincadeiras com as irmãs e a morte dos pais quando ela era ainda criança. Morou um tempo com os irmãos, mas um incêndio que sofreu em casa levou-a ir morar com uma tia aos 11 anos de idade. Ela relata os tratamentos que fez na AACD, o trabalho que exercia na Associação Sementinha e como aprendeu a ler numa padaria. Finaliza falando sobre os estudos que faz no Cieja da Vila Sabrina, em São Paulo e o desejo de criar um blog para ajudar os deficientes. 

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História completa

O meu nome é Nanci Fiorini Marçal, eu tenho 31 anos. Nasci em 14 de março de 1983. No Hospital Modelo, em São Paulo. Meus pais já são falecidos, os dois. Meu pai era do Rio de Janeiro, de Nova Friburgo, a minha mãe era daqui de São Paulo mesmo. Os meus avós, eu os conheci, assim, aposentados já em casa. Mas o meu avô, eu sei que ele já tinha sido lixeiro, mas eu não sei dizer assim, te explicar o que ele fazia. Uma vez comentou comigo que ele já havia sido lixeiro, que eu vi uma matéria na TV falando sobre lixeiro porque na reportagem eles falavam que eles eram mal tratados e, eu acordei de manhã um dia e comentei com a minha tia. Ela falou uma vez: “Seu avô foi lixeiro”, mas foi só isso, foi um comentário.

A minha mãe faleceu quando eu tinha oito anos e o meu pai, foi mais ou menos com a mesma idade, oito para nove anos. O meu pai trabalhava numa fábrica de copo e a minha mãe era copeira na Phillips. Meu pai se separou da minha mãe logo que eu nasci. Tive contato com ele, mas era semanal não, era quinzenal. Nós somos quatro filhos. Eu tenho uma irmã mais nova.  E dois mais velhos já casados, já sou tia. Ela só mudou de casa, porque ela morava no Itaim e veio morar para aqui, na zona leste, na Ponte Rasa.

 

Na casa era um quarto e a gente dormia todo mundo junto. Era um quarto com três camas. A minha mãe, nessa época, ela já não trabalhava mais, ela ficou doente. Quando eu nasci, ela já não podia ter filhos, ela já tinha tido um infarto. Então, ela já não podia ter mais filhos e ela já estava doente, já dependia muito da gente pra fazer as coisas. Mas enquanto não era doente, ela sempre lutou muito, batalhou muito, porque ela criou a gente sozinha, longe do meu pai. Ela tinha uma aposentadoria. Porque a firma era boa, na época, então não deixou desamparada, deixou com aposentadoria, todo final de ano a gente ganhava brinquedo dessa firma, várias bonecas legais.

Eu conheci o meu pai, mas depois que eu nasci, nunca mais ficaram juntos. Meu pai, ele não nos levava para casa dele, mas ele ia visitar sempre que podia. E comprava muito doce, cada vez que ele ia lá, tinha um bar na rua que ele sempre ia comigo no bar e a gente comprava um monte de doce. O meu pai, ele era moreno, alto, grandão assim, só que ele bebia muito, ele sempre bebeu. A bebida foi acabando com ele, mas ele sempre trabalhou, sempre lutou. Ele morava em Pirituba e eu morava na Zona Leste, então a gente acabava não tendo um contato, mas eu sei que ele bebia bastante. Ele morreu provavelmente, de cirrose. Eu fiquei sabendo por acaso por uma vizinha que chegou pra mim e perguntou: ‘Por que você não foi no enterro do seu pai?”, eu falei: “Porque ele não morreu”.  O meu irmão, que depois tomava conta de mim, eu perguntei e ele me falou: “Não, o pai morreu. Só que eu não ia te contar agora”. A minha mãe faleceu em 26 de novembro de 1992.

 

Eu nasci com paralisia cerebral, com anoxia de parto, quando falta ar ou quando o cordão nasce enrolado no pescoço e faltou oxigênio no cérebro, então eu tenho essa paralisia por conta disso. Tenho escoliose também, eu digo que eu tenho um pouquinho de tudo, que eu passei ali na prateleira: “Quero um pouquinho disso, daquilo, isso aqui também, isso aqui para não fazer falta”, eu tenho um pouquinho de tudo, mas nem por isso eu desisto. Eu não coloco na minha cabeça: eu sou deficiente e simplesmente paro. Claro, tem dia que eu estou reclamona, tem dia que eu levanto de mau humor, mas eu nunca desisto do que eu quero.

Quando eu tinha sete anos, eu perguntei para o meu irmão porque Deus tinha feito todas as crianças normais e eu não. Primeiro ele chorou bastante e ele me explicou que foi porque Deus não quis. Mas eu acredito que eu vim com esse problema, até por ser umbandista, eu vim com esse problema ou para corrigir alguma coisa lá de trás, ou porque alguém lá em cima confia muito em mim, sabe que eu posso carregar. E enfim, eu tenho um lema, se te derem um limão, faça uma limonada e vai em frente, não desiste.

 

Eu brincava na rua, no colo de uma prima minha, ela pulava corda comigo no colo, tinha até uma musiquinha que a gente cantava que era: “O homem bateu em minha porta e eu abri…” e por aí vai, e ela pulava comigo no colo, no meio da rua. A gente brincava, eu ficava vendo minha irmã brincar de mãe da mula. Eu ficava sentada no portão de casa muitas vezes. Às vezes, eu ia para casa de uma amiga. Vinham me buscar, não dava pra ir sozinha. Mas a minha irmã, às vezes, me batia, eu tacava a muleta na cabeça dela, eu sempre fui muito levada.

Eu fiz tratamento na AACD, minha mãe me levou para fazer esse tratamento na AACD. Só não tinha alfabetização, agora, a parte de fisioterapia tinha tudo. Eu fazia turbilhão que era uma banheira grandona que ficava com água movimentando quente para mexer com a musculatura, tinha um exercício que eu adorava fazer que era o da bola, que é para treinar equilíbrio, é uma bola grandona, você senta em cima e a fisioterapeuta empurra, adorava fazer isso. E só tinha uma fisioterapeuta que eu gostava, o nome dela era Carla, quando ela não ia, tinha uma japonesinha que era chatinha, não gostava dela, não fazia nenhum exercício com ela.

 

Depois que minha mãe morreu eu morava com meu irmão Edmilson, antes de vir morar com a minha tia. Só que um dia aconteceu um acidente, ele trabalhava de noite e vinha para casa só de manhã, ele era segurança. E eu levantei de manhã, falei que estava com fome, ele pôs a forma em cima da mesa, foi para cama, acendeu um cigarro e dormiu e eu fui para a cozinha para fazer café, eu coloquei a água do café numa boca e o leite na de trás para ferver, quando eu fiquei na ponta do pé para olhar o leite se estava fervendo, a minha blusa foi parar na boca do fogão e nisso eu já devia ter uns 11 anos e, o fogo subiu na roupa e eu gritei muito até que a minha irmã acordou, chamou o meu irmão, depois eu acabei indo parar no hospital, depois que eu sai, eu já fui para a casa da minha tia Neusa.

E assim, eu agradeço muito porque se eu consegui chegar até onde eu estou hoje foi por eles, assim, de falar: “Vai lá, você vai conseguir”, eles nunca me deixam desistir. Meus irmãos moram lá, só eu vim para casa da minha tia. É aqui na zona Norte, no Tucuruvi. E lá que eu moro até hoje. Morava eu, minhas primas que eram pequenas e o meu primo e a minha tia e o meu tio. Hoje, eles casaram, cada um tem a sua família, então estamos só eu, a minha tia e o meu primo com a esposa, Joana e o meu sobrinho, Joaquim. Mudou muita coisa, porque eu quase não tinha como ir para médico, essas coisas. De lá, não tinha como, então desde essa época pra cá já ficou mais fácil, ela me leva, a gente vai para festa de família, a gente vai junto, vai para o centro, eu procuro fazer tudo que eu posso, mesmo dentro das minhas limitações. E ela participa de tudo comigo.

 

Minha tia já frequentou centro espírita, sempre foi católica, não praticante, assim, mas hoje, nós somos umbandistas. Na verdade, o meu pai era, meus pais já eram, só que por ser muito pequena, sempre mantive uma distância. Agora, depois de adulta é que eu resolvi mesmo há dois anos atrás entrar para Umbanda e trabalhar. Eu frequentava o centro, mas assim, sempre tive vontade, mas na época dos meus pais eu ainda era pequena e tinha medo. Então, eu comecei a ir nesse que eu vou hoje e gostei, me senti bem, porque religião é uma coisa que você para fazer parte dela, você tem que se sentir bem, você tem que se sentir acolhida e lá, somos uma família, no centro. Eu falo que lá é a minha segunda família, eu adoro todos e todos me adoram.

 

Na escola que eu trabalhava, que eu fazia fisioterapia, na Associação Sementinha era uma escola para criança pequena com Síndrome de Down. A dona da escola montou a escola porque nenhuma escola aceitou a filha dela que tinha Síndrome de Down, então ela resolveu abrir essa escola e eu estava procurando, eu precisava fazer fisioterapia. Eu não tinha a parte de alfabetização, mas eu tinha umas aulas particulares, eu tinha aula de inglês, eu tinha aula de computação e tinha a parte terapêutica que era a que eu precisava. Eu ia de perua, com a perua escolar. Fiquei uns três anos. Era bom porque era só eu, então era tudo pra mim, mas era ruim porque eu sentia falta de pessoas da mesma idade para conversar, mas eu cuidava das crianças meio período, à tarde e de manhã, eu ficava no telefone, no almoxarifado. Ficava no lugar da professora quando ela precisava sair um minuto para ir ao banheiro.

Porque eu também não tenho muita coordenação, então, se acontece alguma coisa, eu não consigo correr e pegar, mas assim, eles ficavam todos sentadinhos. Eu fazia mais bagunça do que eles, no fim. Eles pintavam o rosto com tinta, eu pegava e pintava o pé deles e colocava no papel pardo assim, depois pendurava pela escola. Era bem legal. E de manhã, eu ficava no telefone agendando alguma festa, ou ligando para algum lugar para conseguir alguma doação, porque às vezes, fazia festa junina, fazia feijoada e essas coisas tinham que ser na escola. 

 

Meus irmãos, a gente nunca se afastou, eu saí porque eu tive necessidade, não tinha como eu ficar lá do jeito que eu estava, mas não que a vida fosse ruim com eles, mas é que eu precisava de um pouco mais. A gente se encontra de fim de semana ou quando tem alguma festa de família que eu tenho que ir para lá. Não que a gente tenha perdido, isso eu nunca quis. A gente tem sempre o contato, hoje existe o santo Facebook, graças a Deus! A gente vai se falando, tem telefone. A gente se encontra quando dá, tudo bem que às vezes, eles pisam na bola comigo, que eles falam que vão me buscar e não vão, eu fico meio com cara de idiota, mas tudo bem.

 

Depois eu fui para padaria, para a Maria Helena pra aprender a ler e a escrever direitinho. É na rua da minha casa. Ela é dona da padaria. Ela se ofereceu para me ensinar a ler e a escrever e eu topei. Eu nunca gostei muito de fazer conta, Matemática não é comigo, a Gisele vai me matar, porque ela é minha professora de Matemática, eu sei, eu já estou sentindo, mas tudo bem, também, não tem problema. Mas eu sempre gostei de História, de Português e ela me dava muito texto pra ler, meu tio também me dava muita cópia pra fazer, meu tio achava chato, mas sabe por quê? É que na época, na padaria, eu comia pão fresquinho, pegava o pão quentinho, passava manteiga e comia. E quando ela tinha que me dar Matemática, ela falava: “Eu te dou uma carolina se você acertar” e eu tomava sempre. Mas eu aprendi a ler com ela e agradeço muito também. Já estava com 16 para 17 anos. Nessa época, eu não usava andador. Como eu cresci, a escoliose cresceu junto. Hoje, está um pouquinho mais complicado, mas eu não deixo de fazer.

 

Agora eu estou com um projeto de fazer um blog para pessoas com deficiência mesmo, pra gente poder trocar experiências, porque você, às vezes, fala assim, o deficiente fala assim; “Eu tenho um problema”, você fala: “Eu sei”, mas não adianta você falar: “Eu sei”, sabe por quê? Porque você não é deficiente, e tem muita coisa, muitos galhos, muitas minhocas na cabeça que vocês que não têm assim, deficiência nenhuma, não vão entender. Então, eu estou pensando em criar esse blog para isso, para a gente trocar experiências, sei lá, falar de alguma forma. Mas eu vou falar de outras coisas também, eu vou falar sobre acessibilidade, vou falar sobre direitos dos deficientes, existem meios de você fazer as coisas sem precisar se matar para fazer, mas não é todo mundo que sabe. Então, vou falar sobre esporte para deficiente. Esse blog vai chamar “A Eficiência da Deficiência”.

 

Depois da padaria, eu logo conheci o Cieja, foi no ano de 2005, assim. Eu fiquei um tempo fazendo a Promove, até descobrir que tinha um supletivo para mim, no ano de 2004, 2003, eu entrei e em 2005, eu tive que sair, porque eu tive um problema de saúde e precisava tratar. Eu tive hepatite C, eu precisava tratar, então eu tive que me afastar. Eu não sei como que eu fiquei com essa hepatite, porque a minha mãe já é falecida, eu não sei se foi com transfusão, não sei. Depois ela virou uma hepatite autoimune, meu próprio organismo desenvolveu essa hepatite. Mas hoje ela está controlada, eu não faço mais o tratamento. No final do tratamento foi que piorou um pouco, porque eu tive um problema de garganta e tomei um remédio chamado nimesulida e quem tem hepatite não pode tomar esse remédio, não pode tomar remédio de jeito nenhum, então só alguns, mas aspirina C, essas coisas, não pode tomar, porque isso mata o fígado, o meu fígado ficou cheio de ferida por dentro, eu tive que ficar comendo coisas. Na minha boca estourou umas feridinhas, eu tive que ficar para comer coisa pastosa, para poder limpar. Hoje, isso tudo já passou. Durou uns dois anos.

Eu fiz no Hospital do Ipiranga o tratamento, porque é um tratamento que tem que ser feito pelo governo, é o governo que banca, porque é muito caro, os medicamentos são caros, ou você come ou você compra esses remédios. Depois eu fui estudar teatro. Era numa ruazinha que tinha perto da minha casa, chamava Rua Capricho, lá eles têm um projeto que chama CJ, é o Centro Jovem com atividades para os adolescentes. Eu lembro que na época, eles até que ficaram meio com medo, porque não tinha acesso para mim, mas eu fui, fiz teatro, tenho certificado. O curso durava dois anos. Eu recebi todos os diplomas. No Cieja eu estou no 3C, porque é por módulo, então eu estou no 3C, que corresponde a quinta e sexta série. É uma escola da prefeitura. E lá, eu aprendo agora coisas de quinta e sexta série, acho que o ano que vem, eu não faço. Na minha sala, tem o Leonardo, Raul, eu não vou lembrar o nome de todo mundo, eles vão me bater depois, mas tem o Leonardo, Raul, a dona Tereza, a Iris, o Carlos, a dona Neusa, a dona Valdenira, tem uma turma boa.

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