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História

Se eu tiver medo eu não vivo

História de: Dagmar Rivieri Garroux
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/10/2014

Sinopse

Dagmar Rivieri Garroux nasceu e cresceu em São Paulo, filha de pais generosos e empreendedores que ensinaram desde cedo o valor da educação e da preocupação com o outro. Mulher de temperamento destemido, desafiou os padrões de educação do seu tempo, adentrou as favelas da Zona Sul, e construiu uma ponte entre a educação formal, o conhecimento universitário e a realidade que a cercava. Com o apoio do marido Saulo Garroux, das colegas de faculdade e da comunidade do Parque Santo Antonio, fundou a Casa do Zezinho, instituição que oferece atividades educativas em diferentes áreas, para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social.

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História completa

Meu nome é Dagmar Rivieri Garroux, eu nasci em 16 de abril de 1954, nasci em Santo Amaro, São Paulo. Meu pai é Valdemar Rivieri, minha mãe era Isaura Muniz Rivieri. Meus pais eram 50 anos-luz à frente do tempo deles, sempre foram, né?  Então, meu pai era engenheiro mecânico de precisão, se formou na França e minha mãe era empresária. Mas, antes disso, eles contavam a história, que quando eles casaram o meu pai precisou fugir pra casar com a minha mãe, porque ele era um engenheiro e ela era operária, era tecelã. Então, era o burguês com a proletária, sabe? Mas se apaixonaram, em porta de fábrica, tal, e no fim meu avô acabou deserdando o meu pai e o meu pai foi viver com a minha mãe e ficaram casados 50 anos. E, assim, um casal extremamente forte, sempre ocupado com o outro. Quer dizer, quando ninguém registrava empregada doméstica eles já registravam, a empregada não passava mais que dois anos na nossa casa porque a primeira coisa que eles faziam era mandar alfabetizar, depois fazer curso de enfermeira, de cabelereira, seja lá o que for e depois... Então, em casa sempre teve esse olhar de educação pro outro. E eles sempre tiveram, assim, mulher, filha, a minha vai estudar, que não pode depender de homem, não estavam preocupados se vai casar, se não vai, o negócio era estudar, né? E, assim, dois camaradas apaixonados até o fim da vida, impressionante, nunca vi coisa assim. Mas sempre, assim, pessoas que se importavam com pessoas, isso era lei em casa. Então, o que eu acho que eu faço aqui nada mais é do que repetir o processo dos dois.

Eu fui expulsa da primeira escola eu tinha oito anos de idade, imagina isso? Eu sei que eu não gostava do uniforme, isso meu pai sempre contava e, um dia, eu fui pra escola de pijama. E, aí, chamaram o meu pai “ah, vamos chamar o pai da menina”, aquela coisa, o pai vai bater, qualquer coisa, vai surrar. E ele chegou, olhou e falou “por que que você tá assim, de pijama?” “Ué, te avisei, esse uniforme, blusa preta, saia marrom, é um horror e que eu não ia pôr. Não gostava, te avisei”. Aí, meu pai virou pro diretor e falou “quer saber, ela tem razão. Vamo embora, filha” (risos). É, ele sempre me apoiou, os dois. Sempre me apoiaram. Que eles achavam, assim, que se eles viessem com a prisão, que se eles viessem com uma coisa, assim, de surra, eles nunca bateram em filho, olha que loucura. Mas eles tinham muito essa coisa de conversar, vai pro castigo, mas sacaram que se me prendessem eu voava.

Eu comecei a frequentar favelas com quatorze, treze anos. Porque eu via como é que meus pais faziam com as pessoas que trabalhavam em casa e todos moravam em favelas, a maioria. E aí, eu ia lá ver como é que era, perguntar pros meus pais, o quê que eu podia fazer, como é que era. Meu primeiro trabalho voluntário – eu acho que isso eu lembro, claro que eu fui expulsa – era um hospital que tinha de sábado e domingo dentista. E o meu trabalho era dar anestesia pra ir arrancando os dentes – 14 anos – e cada dente era dois conmel, um comprimido da época. Eu morria de dó, eu falava baixinho: “Esse conmel não vai dar nada”, né? Eu fui expulsa porque eu tava dando conmel a mais.

Eu fiz Magistério. Eu sempre gostei de ensinar, sempre. Mas não assim, não era “ai, a professora chata”, tal, eu sempre fui muito doida pra ensinar, né? Como me ensinaram os meus pais e, aí, eu falei: “Ah, vou entrar pra Pedagogia”. Eu fui pra USP, eu tinha 17 anos quando entrei na USP, pra você ver. Eu entrei com seis anos na escola, quer dizer, toda hora expulsa, mas eu tinha notas altíssimas em prova, aí eu passava a cola pra todo mundo na sala, terrível.

A minha especialização, se você quiser saber, é pra excepcionais. A minha filha nasceu [excepcional] assim, quer dizer, eu era a pessoa pra criar, não pra ela morrer. Aí, “como morre?” Você se acha onipotente. Então, é meio difícil. Foi difícil, quer dizer, eu faço essa leitura hoje, pra abaixar a minha onipotência, a minha arrogância, eu tive que levar baques fortes mesmo, pra ver que eu não domino, né? [A segunda gravidez foi] terrível, terrível, terrível. Não fiz enxoval, na primeira eu só engordei uns nove quilos... Eu não queria nem saber da gravidez, eu ia tirar. Mas a minha mãe: “Não, não tira”. Aí, eu não queria saber nada, nada de nada. Tive, ele tá aí até hoje, é o meu guardião. Eu não lembro [do parto], não, mas eu lembro que da minha primeira filha eu não chorei quando morreu, nada, porque vinham as tias: “Ai, deixa batizar”. “Ah, vai batizar? Tá morto mesmo”, entendeu? E eu não chorei, eu sou muito dura pra chorar e quando ele nasceu, que eu trouxe ele pra casa, chorei muito. Ele não tinha roupa, eu não deixei ninguém comprar nada, doida, né? A onipotência de novo, entendeu? Era muito arrogante nisso.

Mas aí vem outro marco, quando ele tinha três anos. A gente tava voltando de algum lugar, deu uma trombada, um bêbado pegou a gente de frente, aí meu filho cortou a língua, ficou pendurada – eu não lembro do acidente, não adianta que eu não lembro – teve um hematoma no cérebro e ele ia morrer. Eu também machuquei bastante, quebrei maxilar, eu abri o braço. E, aí, eu lembro que eu não saquei o que tinha acontecido. Eu acordei, sei lá, acho que numa sala cirúrgica, tavam costurando aqui o rosto, aqui: “O quê que é isso aqui? Eu morri?” “Não”. Eu falei – olha aí a minha presunção, ó a arrogância – tudo de branco, luz, eu já comecei a ler as coisas, até então eu não acreditava, tava me fortalecendo com os livros e eu falei: “Não, pode falar, eu tô lendo isso”, eu achei que tava no Céu. Ó: eu pro Céu (com ironia), né? “Não, você teve um acidente de carro” “Quê? Cadê meu filho?” “Ah, seu filho tá no Centro Cirúrgico, ele teve um he...” Ele não acabou de falar hematoma, eu pulei, entrei no Centro Cirúrgico e eu tirei ele do Centro Cirúrgico: “Não, ninguém vai operar o meu filho”. Já tinham costurado o rosto, a língua não podia fazer nada, tava pendurada. Eu falei: “Não, mas não vão fazer nada”. Ficamos Fredão, meu filho e eu no quarto e, aí, eu fugi do hospital. Fui com ele pra uma acupuntura lá, acho que Taboão da Serra, era um chinês, que eu já conhecia, que fazia acupuntura com agulha de ouro. Falei: “Ninguém vai operar o meu filho”, porque era uma medicina assustadora, imagina, furar o crânio, tirar... Argh. Aí, a polícia veio atrás, eu falei: “Eu sou a responsável – ainda tava na ditadura – o filho é meu, não vai tirar”, assinei que se ele morresse eu ia presa. Fui pra acupuntura, esse cara fez um puta trabalho. Aquele cara, ele era o cara, a agulha era a extensão da mão dele. Aí, ele falou: “Olha, nós vamos trazer o hematoma pro rosto, ele vai ficar seis meses roxo” – e foi o que aconteceu. A língua, ele falou: “Ele vai voltar – porque a língua regenera, eu não sabia – só que você vai ter que ficar em casa pra ensinar ele a falar de novo”.

Aí, eu fiquei em casa, com o Téio. E eu tinha que ficar em casa pra ensinar ele a falar, por causa da língua cortada, a soprar e voltar a fala, né? Então, a escola começou a mandar pra mim “ah, tem uma casa, tem uma pedagoga” que, realmente, eu dava soluções rápidas pra esses problemas, né? [Começou a mandar crianças] pra minha casa, pra eu trabalhar essas crianças. Como sempre, eu não conseguia trabalhar com uma criança, né, porque na Psicopedagogia você trabalhar com uma criança por vez e eu trabalhava 60, porque eu sou muito pra uma criança e os resultados eram rápidos, né? O método de trabalhar que eu tinha criado é o método disso aqui [Casa do Zezinho], entendeu? Primeiro que é uma diversidade enorme pra se trabalhar e também de currículos, de histórias, começaram a chegar filhos de exilados políticos, chilenos, argentinos, sabe? Começou todo mundo a se falar “dessa mulher”, o que fazia. Porque você muda o discurso, você faz a criança descobrir o conhecimento, não vem você com a tabuada, isso é bobagem. Então, como chegar na multiplicação, como chegar na divisão, como chegar no Português, na História, na Geografia. Eu fazia teatro, eu subia em cima da mesa, eu vestia os caras, um era Dom João, o outro "ta rã rã", loucura mesmo. Loucura, pra todo mundo naquela época.

Eu gosto muito de lembrar o tempo que eu comecei na Casa, lá em casa, sabe? Isso eu lembro, desse momento que hoje eu encaro como uma preparação pra Casa do Zezinho. Foi grande a preparação, com essa vivência, com essa Pedagogia, que tinha que ser diferente pra cada um, como é aqui, e não ser uma massa, boiada, entendeu? E o cuidado pra cada um, o jeito de cada, que você tem que parar, tem que ouvir, conhecer quem é aquela pessoa. Então, ali começa muito a história da Casa de Zezinho, isso hoje eu tô vendo, né, os processos todos que eu trabalho. Por exemplo, o quê que eu fazia com esses que vinham exilados, chileno, argentino? A América inteira tava derrubada com ditadura, Muro de Berlim, aí tinha mulçumano, tinha libanês, era uma doidera, tinha judeu. Mas era tudo junto. E eu comecei a buscar qual era a melhor maneira de trabalhar esses traumas porque isso é trauma já, né? O cara é arrancado. Mas comecei a perceber, como eu pesquisava com eles a vida, como é que era no Chile, quando chegou como é que tá, eu podia ver que o Chile veio, a comida era chilena, a língua que tavam falando, a religião. Então, eu comecei a trabalhar assim – aí começa uma outra louca história, não lembro a data, tá? – eu comecei a levar na favela – porque eu já atuava de sábado e domingo na favela, tá? – eu levava comida, ou alfabetizava e também trazia meninos da favela pra ter aula comigo, junto com essa tropa, precisava alfabetizar e tal, ou punha na escola e precisava quebrar o pau pra ter aula. E, aí, eu comecei a trazer, tal, eu comecei a levar esses meninos pra favela. Eu falei: “Olha, vocês têm traumas, vou entender, tal, mas eu vou levar vocês pra conhecer gente que tá no trauma há 500 anos, os filhos dos negros, os filhos dos índios”, e mostrava. Eles tomavam um choque, nunca podiam imaginar aqueles tipos de casas, aquela miséria em São Paulo. Eles moravam em outro local, comigo. Mas você tem que entender que em toda classe média o entorno é favela, que é o que presta serviço, é a lavadeira, é o porteiro, pra quem tá ali. Só que – detalhe, isso eu sempre coloquei – era uma favela pobre mas era o pai, a mãe e o filho, aquele retirante que construiu São Paulo, certo? Um migrante, né? Então, o pai ainda preservava algumas coisas, o pai era o cara que sabia construir em 24 horas. Eu não sei fazer um barraco em 24 e nem você. Então, é um saber que interessa. Sabia que se a formiguinha mudou de lugar ia ter chuva, ele tinha o conhecimento da natureza, trazia as músicas e tal. Eu ia na cara e coragem, como eu já ia com os meus pais naquela época e sempre achei que a favela, pra mim, eram só seres humanos com menos grana, que poderiam ascender, sabe? Era tão natural tudo pra mim, é ainda, tá? Ah, eu entrava, batia palma e falava “ah, então, como é que tá a sua vida”, tomava um café. E essa coisa minha carismática, de bater um papo, logo a pessoa entrava e aí você conhece um, pronto, você tem o passaporte pra favela inteira. Não é que eu ia lá uma vez por ano dar uma cesta básica, porque é isso que fazem até hoje e querem ser recebidos ainda. Eu levava o meu filho também, levava a minha sobrinha, levava o meu amigo, levava o outro.

A [minha] casa começou a ficar cheia de criança morando (risos). E meu filho era filho único, ele nunca conseguiu ser o cara do quarto sozinho, né? Interessante que foi chegando, tal, e eu falei “Saulo, a gente precisa de um lugar maior, né?” (risos). Aí, a gente veio pra cá. Isso aqui, o Campo de Fora, onde nós estamos, era rua de terra, eram pequenas chácaras, não tinha a favela lá embaixo. Comprei essa casa aqui do lado era térrea e eu não morei. Falei: “Quer saber de uma coisa, eu vou começar o meu trabalho de Educação”. Peguei minhas amigas do tempo da USP, pessoas de movimento – só não tá uma até hoje, que morreu – mas estão todas elas aí, mulheres, pra variar, fortes, começaram a vir. Todas elas eram de movimentos, umas tavam exiladas, outras chegaram, umas perderam os irmãos na tortura, enfim, né? Mulher forte. Falei: “Vamos mudar o Brasil?” “Vamos”. E cada dia uma faltava no emprego para estar aqui e a gente já começa com sei lá quantos Zezinhos. E o nome, que é agora Zezinho, vem da poesia de Carlos Drummond de Andrade “E agora, José?”, não é? Que aquele José que é sem nome, né, a noite esfriou, essa coisa toda do Carlos Drummond e eu falei: “Não, chega de pergunta, é uma exclamação: é agora José!”. Comecei aqui, isso aqui era um terreno baldio, lá na esquina, onde matavam as pessoas e jogavam aí. E “você não tem medo?” – não tinha casa nessa rua – “Puta, você não tem medo?” Se eu tiver medo eu não vivo, né? E a propaganda boca a boca começou a espalhar, a favela começou a crescer e pumba, começa a vir gente pra caramba, até hoje.

Eu acho que é uma história legal, eu acho que a gente tem muito ainda a contar, né, esse percurso é grande. Esse ano eu faço 60 anos, então, da pessoa mais irascível, né, que meu pai me chamava de puro sangue (risos), até chegar a essa pessoa mais tranquila, menos onipotente, quer dizer, isso tudo foi aprendizado durante a vida aqui.

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